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revista
de cultura # 42 |
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O trauma e a tara de Elfriede Jelinek: a pornografia na poesia, a desforra despudorada & outras ejaculações Viviane de Santana Paulo
A escritora e poeta Elfriede
Jelinek nasceu em 20 de outubro de 1946, no povoado de Mürzzuschlag
(Steiermark), na Áustria, e cresceu em Viena, onde estudou órgão no
conservatório da cidade. Iniciou os estudos de artes cênicas e história
da arte na Universidade de Viena, entretanto, foi obrigada a interromper
os estudos devido à sua condição psíquica instável naquela época. Os
primeiros poemas foram publicados em 1968. Nesse período, a autora passou
um ano em completo isolamento, vivendo com a mãe, sem sair de casa. O
pai, Friedrich Jelinek, um químico judeu, trabalhava para o exército nas
pesquisas de armamento bioquímico e dessa forma conseguiu manter-se
protegido da perseguição anti-semita que assolava a Europa. Depois de
uma longa estadia em uma clínica psiquiátrica, o pai falece. Elfriede
Jelinek viveu em Berlim e em Roma. Desde 1974 é casada com o literato
Gottfried Hüngsberg e atualmente vive em Viena. Seu primeiro romance foi
publicado em 1970, intitulado Wir
sind Lockvogel, Baby! (Somos a isca, baby!). A peça radiofônica Wenn
die sonne sinkt ist für manche schon büroschluß (Quando o sol se põe,
para alguns já é final de expediente), de 1974, foi considerada a melhor
peça do ano. Os intelectuais dos países germânicos,
conhecendo sua obra no original, mostraram-se chocados com a entrega do Prêmio
Nobel 2004, justamente, para essa escandalosa e perversa austríaca. O bem
conceituado e o mais famoso crítico literário alemão, Marcel
Reich-Ranicki, escreveu para a revista
Der Spiegel (42/2004) um artigo irônico contra a obra da autora,
mostrando sua perplexidade e falta de compreensão para a literatura
moderna e provocadora. Segundo Reich-Ranicki “Jelinek nunca conseguiu
escrever um bom romance, quase todos são, mais ou menos, banais ou
superficiais. Ao mesmo tempo, não é de se desconsiderar uma ou outra
habilidade estilística e, até mesmo, uma virtuosidade surpreendente.
Isso seria talvez livros para críticos? Não, alguns os classificariam
como best seller de
entretenimento.” O jornalista Mathias Matussek,
correspondente da Der Spiegel no
Rio de Janeiro, em 2002, não mediu palavras para criticar a autora.
Matussek, conhecido pelo seu vocabulário ácido e pela sua predileção
por clichês, escreveu: “Jelinek sabe que o último Prêmio Nobel para
um escritor de língua alemã foi para um romance conhecido mundialmente, O Tambor, de Günther
Grass; ela, no entanto, só tem aflições nervosas a oferecer” ou
“Nenhuma vanguarda, mas uma frente de batalha feminista bastante
ultrapassada”. Sua colega Iris Radish, crítica literária
renomada, escreveu para o jornal semanário Die
Zeit avacalhando completamente com a autora: “suas obras revelam,
nada mais nada menos, do que lixo humano, é puro lixo humano”. A maioria dos países europeus não
conhece Jelinek, com exceção talvez da França. A famosa francesa
Isabelle Huppert, atriz principal do filme A Pianista, baseado no
romance homônimo, Die
Klavierspielerin, teve um desempenho excelente no papel da professora
de piano masoquista e solteirona, torturada psicologicamente pela mãe
neurótica. Anteriormente, os livros de Jelinek foram recusados pelas
editoras francesas. A escritora Jeanne Champion teve que abrir uma editora
própria para publicar a polemizada autora. Para o jornal francês Liberatión,
lê-se que o Prêmio Nobel foi entregue à subversão. O escritor austríaco
Franzobel, no seu artigo para o jornal alemão Die Welt, esperava ver a primeira escritora austríaca e a décima
mulher a receber o Prêmio Nobel de literatura nas mãos de outra austríaca,
como Friederike Mayröcker, Marianne Fritz ou Ilse Aichinger. Mas no
final, parabeniza sua conterrânea, principalmente, pelo “fogo” de sua
linguagem. Embora, Elfriede Jelinek nunca
tenha deixado de ser alvo de diversas críticas cáusticas, sobretudo após
ganhar o maior prêmio de literatura, trata-se de uma autora renomada. Ao
longo de sua carreira a austríaca ganhou os prêmios mais importantes da
língua alemã, inclusive o Büchner-Preis,
com seus romances Wir sind
Lockvogel, Baby! (1970), Die
Liebhaberinnen (1975), Die
Augesperrten (1980), Die Klavierspielerin
(1983), Lust (1989), Die Kinder der Toten (1995) e Gier
(1999), entre outros. Jelinek também escreve peças
de teatro e poesia, mas são as peças teatrais que mais depreciam,
ofensivamente, a política da Áustria.
No Brasil, a equivalente Hilda
Hilst também escandalizou o meio conservador e machista brasileiro com
sua obras denominadas pornográficas. A Obscena Senhora D e Cadernos
Rosa de Lori Lamby chocam os leitores por revelar certos instintos
libidinosos ocultos pela hipocrisia burguesa. Entretanto, a brasileira não
atinge as profundezas mais escrotas desses instintos, paira na superfície
poética, suas obras são revestidas de um linguajar brando. Encontramos
no universo hilstiana elementos da paixão ressaltados em sua lírica, não
há frieza de sentimento nem o resvalar no niilismo existencial como é o
caso da austríaca. Jelinek avança profundamente e se alastra nas reentrâncias
mais ocultas e pútrida da sociedade. Para expressar-se a la
Jelinek, diríamos que ela penetra no ânus mais fétido e fecal da
sociedade, expelindo a vulgaridade de uma linguagem de denúncia e provocação,
provida de metáforas originais e fortes que caracteriza sua estética.
Nunca nenhuma autora mulher atacou o meio machista de forma tão impudica
e cínica em que, sobretudo, o homem conservador é focalizado sob o ângulo
de completo abastardamento. A temática jelinequiana abrange a
posição da mulher e do homem no meio capitalista; poder, possessão
sexual e submissão humilhante, cobiça e ganância, sadismo e masoquismo.
Sem possuir nenhuma compaixão pelas suas personagens, Jelinek as esmiuça
impiedosamente, privando-as de qualquer afabilidade ou virtude, são
despidas e estupradas em sua existência agônica. Em contrapartida, as
personagens são impassíveis. Jelinek faz uso da repetição
em sua narrativa, as mesmas metáforas surgem em vários trechos do
romance e situações repetidas são renovadas através de novas metáforas. Não há quase diálogos em seus livros.
Die Klavierspielerin (A
Pianista, 1983), filmado em 2001, pelo diretor bávaro Michael Hanecke,
foi bem recebido pela crítica, tanto o livro como o filme. O romance, de
fundo autobiográfico, ilustra o enredo de duas mulheres egocêntricas.
Erika Kohut, a pianista, é completamente dominada pela mãe, que sufoca a
filha, vigiando-a ininterruptamente. A mãe acredita que a filha é dotada
de extremo talento, mas não respeita sua privacidade, invade a intimidade
da moça e instala sua personalidade dominadora ali dentro. Sem conseguir
escapar dos controles e domínios doentios da mãe, Erika desenvolve
certas neuroses e, secretamente, começa a seguir alguns estranhos
costumes, como visitar peepshows e ferir a si mesma fisicamente. Quando um
jovem aluno, talentoso e entusiasmado, se interessa pela professora, Erika
tenta vivenciar suas fantasias sexuais masoquistas com o rapaz. O trecho seguinte descreve um
desses passeios secretos da protagonista em um peepshow, no subúrbio da
cidade. Nessa casa de sexo, ela é a única cliente mulher. Os homens,
parados, em pé, esperando a sua vez de entrarem na cabine para ver as
prostitutas nuas, estranham aquela mulher esquisita, vestida com um casaco
comprido, fechado até o pescoço, que passa a frente dos homens para
entrar na cabine. “Erika
pega do chão um papel amassado, cheio de esperma, e o mantém próximo do
nariz. Respira fundo aquilo que um outro produziu sob trabalho pesado.
Respira, observa e com isso consome um pouco do tempo da sua vida.” (A Pianista). “Erika
hebt ein von Sperma ganz zusammengebackenes Papiertaschentuch vom Boden
auf und hält es sich vor die Nase. Sie
atmet tief ein, was ein anderer in harter Arbeit produziert hat. Sie atmet
und schaut und verbraucht ein bißchen Lebenszeit dabei.” (Die Klavierspielerin). Talvez seja A Pianista o livro mais acessível da autora, isto é, as
personagens aqui são mais convincentes, realistas, e o grotesco é
desenvolvido de forma menos exaltada. Diferentemente do romance Lust,
onde as personagens são retorquíveis e disformes. Nas resenhas em português sobre o
best seller Lust (1989),
deparei-me, em uma delas, com a tradução de Lust
para “Desejo”. Essa é, definitivamente, uma escolha infeliz, a
palavra mais adequada seria “tara”, pois no substantivo
"desejo" vem agregada uma conotação romântica totalmente
dispensável em se tratando de Jelinek, o romantismo é simplesmente nulo
nas obras dessa autora. Em “tara” está empregado o sentido
degenerativo e violento inerente ao desejo sexual dessa espécie. As traduções
de Elfriede Jelinek não devem perder este aspecto fundamental em sua
obra: a brutalidade da linguagem pornográfica e o descaramento
provocativo, conseqüentemente, a degeneração do indivíduo. “A esposa fala que também a
criança precisa comer. Seu marido não a ouve, folheia seu dicionário
desinteressado. A casa lhe pertence, sua palavra já se encontra ali
dentro e é guardada no peito. Ele esmiuça o sexo de sua esposa, verifica
se se registrou ali dentro também. Adentra-se com a língua ferozmente,
chegou com essa habilidade em casa, não se sabe de onde. Com prazer, é
um deus. E em breve estará de novo no escritório conversando bobagens
com a secretária. Tem que se exibir para si mesmo. E se testa sempre em
novas posições, na qual possa, com um poderoso empurrão, trombar com
sua carreta nas águas sóbrias de sua mulher e, furioso, começar a
remar. Não necessita de asinhas de natação, nunca colocará um pedaço
de plástico em sua cabecinha vermelha, só para permanecer saudável.
Saudável tem sido sua mulher o período mais longo. Ela se torce sob ele,
grita, quando um rebanho de sêmens inquietos debanda de sua glande
agradavelmente decorada. O que está acontecendo. Assim tão alto só pode
gritar alguém tinindo com o gelo, que não precisa se preocupar com sua
posição na vida.” (Lust)
A vulgaridade, o sarcasmo e a
degeneração são características claramente explícitas em dois de
seus livros mais radicais Lust e
Gier. O primeiro narra a estória
de uma mulher casada com o diretor de uma fábrica de celulose, mãe de um
filho. O diretor, privado da troca de parceiras sexuais, dos serviços das
prostitutas, com receio de se contaminar com aids, resolve usar sua própria
esposa para satisfazer suas necessidades sexuais sadistas. Gerti, a
esposa, procura se refugiar dos ataques sexuais do marido através do
alcoolismo. A mulher, reduzida a objeto sexual, é desfigurada nesse esdrúxulo
cenário como produto de consumo, fabricado pelo seu próprio marido – o
deus, o chefe, o poderoso, o ganhador de dinheiro, a esposa se enquadra no
jogo de poder e humilhação. O casal segue o modelo tradicional: o homem
trabalha e trás dinheiro para casa, a mulher cuida do lar, do marido e do
filho; o homem tem o direito de exigir da mulher a obediência sexual, a
boa administração do lar e a boa conduta na sociedade. A esposa, com o
dinheiro do marido, adquire os bens materiais, roupas caras e cosméticos,
fazendo dela alguém no meio em que vive, com os quais ela é invejada
pelas outras mulheres. O filho, também visto como “a obra do homem”
parece um fantasma pervagando o ambiente e presenciando os abusos sexuais
de seu pai com sua mãe. Gerti, resignada e desiludida, apaixona-se pelo
lindo estudante Michael. No entanto, esse Adonis, jovem e narcisista, a
humilha do mesmo modo do marido. O romance é uma paródia pornográfica
que revela a disponibilidade da mulher perante à potência sexual do
homem levando ao ridículo. Jelinek liquida aqui com as fantasias obscenas
masculinas e seu linguajar, tirando a desforra do mundo machista através
de moldes hipérboles e grotescos. “E os
homens são selecionados por bens. Bem conseguem possuir mais do que o
Departamento do Trabalho imagina! Sentados à mesa, tomam cerveja e jogam
cartas: nem mesmo um cão seria tão paciente, preso em frente às lojas
fantásticas com suas mercadorias que zombam de nós.” (Lust). “Und die Männer wurden
nach Vermögen ausgesucht. Sie vermögen mehr, als man ihnen im Arbeitsamt
zutraut! Am Küchentisch sitzen, Bier trinken und Karten spielen: nicht
einmal ein Hund wäre so geduldig, angebunden vor den herrlichen Geschäften
mit den Waren, die uns verspotten.” (Lust). A temática de Gier (Ganância, 1999) continua seguindo a linha do extremismo. O
protagonista Kurt Janisch, um policial, demasiadamente ambicioso e
possessivo, aproxima-se das mulheres, sem privar-se de brutalidade e
agressão sexual, para conseguir acumular, cada vez mais, bens materiais e
imóveis. A ambição exacerbada de ganho ilícito, minuciosamente
fragmentada e reconstruída através de uma série de associações metafóricas,
constitui a abordagem dessa obra. A viúva, Gerti, e a jovem de dezesseis
anos, Gabriele Fluch, são amantes do policial casado. A esposa, sem
desconfiar de nada, passa todo o tempo ocupada com os afazeres de casa e
vendo televisão. Conseqüência
da brutalidade sexual de Kurt Janisch é o assassinato da menina de
dezesseis anos. A viúva Gerti finda o seu dilema suicidando-se. Literatura de entretenimento e
romance trivial foram outros dois adjetivos empregados para classificar a
criação literária de Jelinek. É inegável o valor primordial dos
estereótipos no conjunto de seus temas. Entretanto, a extensa
intertextualidade presente, por exemplo, em Gier
(Ganância), associando a narrativa a
obras de Ingeborg Bachmann, textos bíblicos ou ao inconfundível poeta
Rainer Maria Rilke, contradiz os termos.
Contudo, não passa despercebida, no desenrolar dessa obra, a banalização
referente ao culto exagerado ao corpo, as academias de malhação, isto é,
à frivolidade e ao divertimento fútil.
Elfriede Jelinek faz parte da tradição
literária do grupo de autores experimentais Wiener Gruppe (Grupo de
Viena), fundado em 1946, do qual participaram os poetas Ernst Jandl
(1925-2000) e esposa Friederike Mayröcker (1924). O Wiener
Gruppe marcou a história literária desse país, contudo, os textos
originários dessa escola, reforçando dialética e aspectos provocativos,
grotescos e macabros, despertaram o ódio dos leitores e, conseqüentemente,
levaram seus autores à isolação. Muitos desses textos se perderam, no
entanto, sobressaiu-se desse movimento estilístico o poeta H.C. Artmann
(1921-2000), um dos fundadores do grupo, atualmente bem considerado pela
crítica. Mais tarde, inspirado da vanguarda do Wienner
Gruppe seria criado o espaço e
as condições adequadas para o surgimento da poesia concreta na língua
alemã. Thomas Bernhard estudou música,
como Jelinek, e criticou veementemente a sociedade e política da Áustria.
Em sua época, foi considerado um autor controvertido e teve algumas de
suas peças teatrais proibidas em que ele ataca diretamente os políticos
de seu país. Autor de vários romances estupendos, como Perturbação,
Extinção ou O Náufrago, apesar do
forte niilismo em sua obra, o relacionamento humano em Bernhard, mesmo
sendo baseado em sentimentos negativos, como a solidão, o abandono e a
invídia, são desfigurados de forma realista, conveniente com a linguajem
decorosa. Contudo, a crítica feroz contra a política austríaca não
deixa de fazer parte integrante da literatura de Bernhard. Outro autor perturbador foi Arthur
Schnitzler, amigo do pai da psicanálise Siegmund Freund. Ambos possuem
uma biografia semelhante, Schnitzler estudou medicina e trabalhava como médico
psiquiatra antes de se dedicar inteiramente à literatura. As obras-primas
de ambos os imortais surgiram quase simultaneamente: A
Interpretação dos Sonhos (Der
Traumdeutung 1899) e Tenente Gustl (Leutnant Gustl, 1890). Na Áustria
habsburguesa, esse autor, amigo do considerado poeta Hugo von
Hofmannsthal, teve sua ficção denominada pornográfica e rejeitada pelo
meio aristocrata e conservador. Schnitzler combatia os dogmas hipócritas
através das imagens negativas do ser humano, revelando suas tendências
destrutivas. Seu ceticismo e descrença perante a humanidade levaram-no a
ser classificado de niilista. Tenente
Gustl, romance de fundo psicológico, desenvolvido sob a técnica do
monólogo, tem seu conteúdo baseado na associação livre e na moral
sexual de Freud, paralelamente, revela a decadência do Império Austríaco,
que perdurou de 1804 a 1918. No romance Traumnovelle (1926), filmado sob o título de Eyes Wide Shut, em 1999,
por Stanley Kubrick, o mistério existente no enredo atribui a esse
universo erótico uma aura poética que, embora revele a degradação
moral, distancia a obra da vulgaridade completa. Traumnovelle
se passa em Viena, no início do século XX, o protagonista é um médico,
casado com uma mulher atraente, um pouca mais jovem do que ele, pai de uma
filha. No entanto, depois de alguns anos de convivência, o casal começa
a se sentir atraído por outros eventuais parceiros sexuais. A estranha
reviravolta na vida dos dois tem início com o reencontro, num bar, do
protagonista com um amigo músico, o qual ele não via há muito tempo. O
amigo lhe conta sobre seus misteriosos concertos de piano para um público
excêntrico onde as pessoas se mascaram e andam nuas. O pianista é
obrigado a usar uma venda nos olhos e conhecer um código quando é
levado, por um chofer, para os encontros secretos, que se passam em
diferentes locais. Através de uma imperceptível fresta na venda, o
pianista descreve um pouco sobre essas misteriosas reuniões, despertando
a curiosidade do médico. Assim o protagonista é envolvido em um mundo
sensual, eroticamente atraente, enigmático e perigoso. O pessimista Schnitzler adentrou-se
no tema da sexualidade de forma vanguardista, desmascarando assim as
hipocrisias da burguesia, apoiando-se em suas experiências e
conhecimentos de psiquiatra e no conteúdo da obra de seu amigo Sigmund
Freud. Poderia se dizer que, mais insistente e profundamente, Elfriede Jelinek desenvolve em sua ficção aquilo que Sigmund Freud analisou em suas sessões. Essa mulher seria a clássica paciente de Freud, deitada no divã, narrando as obsessões e perversidades da libido, incrustadas no estilo de vida moderna. Estilo esse fundamentado em culto exagerado ao corpo e ao materialismo. As transformações sociais originárias da globalização, da economia, onde impera a lei do mais forte, e as relações de poder entre os seres humanos, especialmente, entre homem e mulher, são reveladas através dos estereótipos revestidos de retórica poética e de imagens repulsivas e impactantes. Enfim, Jelinek afunda o dedo bem fundo no cancro social desta época. |
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Viviane de Santana Paulo (Brasil, 1966). Escritora e
poeta. Publicou Passeio ao longo do Reno (2002). Contato: vsantana@brasemberlim.de.
Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela). |
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