revista de cultura # 42
fortaleza, são paulo - dezembro de 2004






 

O trauma e a tara de Elfriede Jelinek: a pornografia na poesia, a desforra despudorada & outras ejaculações

Viviane de Santana Paulo

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Elfriede JelinekO que fascina e repudia nas obras de Elfriede Jelinek é a linguagem virulenta, degradante e fulminante empregada na descrição do relacionamento humano. Sobretudo, no que diz respeito à temática do sexo. Jelinek escancara as mazelas mais ocultas da sociedade sob um linguajar extremamente obsceno, decadente e imoral. Não é sem razão que algumas de suas obras foram consideradas pornográficas e de mau gosto. Quem se aventura na leitura de Lust (1989), um de seus romances mais acentuados nesse contexto, é brutalmente lançado a um cenário sadista, impregnado de uma semântica que mescla o meio sócio-econômico com as evasões libidinosas. Dispensando qualquer tipo de expressão branda ou de beleza, Jelinek ataca, de forma implacável e grotesca, o meio machista e político da Áustria.

A escritora e poeta Elfriede Jelinek nasceu em 20 de outubro de 1946, no povoado de Mürzzuschlag (Steiermark), na Áustria, e cresceu em Viena, onde estudou órgão no conservatório da cidade. Iniciou os estudos de artes cênicas e história da arte na Universidade de Viena, entretanto, foi obrigada a interromper os estudos devido à sua condição psíquica instável naquela época. Os primeiros poemas foram publicados em 1968. Nesse período, a autora passou um ano em completo isolamento, vivendo com a mãe, sem sair de casa. O pai, Friedrich Jelinek, um químico judeu, trabalhava para o exército nas pesquisas de armamento bioquímico e dessa forma conseguiu manter-se protegido da perseguição anti-semita que assolava a Europa. Depois de uma longa estadia em uma clínica psiquiátrica, o pai falece. Elfriede Jelinek viveu em Berlim e em Roma. Desde 1974 é casada com o literato Gottfried Hüngsberg e atualmente vive em Viena. Seu primeiro romance foi publicado em 1970, intitulado Wir sind Lockvogel, Baby! (Somos a isca, baby!). A peça radiofônica Wenn die sonne sinkt ist für manche schon büroschluß (Quando o sol se põe, para alguns já é final de expediente), de 1974, foi considerada a melhor peça do ano.

Os intelectuais dos países germânicos, conhecendo sua obra no original, mostraram-se chocados com a entrega do Prêmio Nobel 2004, justamente, para essa escandalosa e perversa austríaca. O bem conceituado e o mais famoso crítico literário alemão, Marcel Reich-Ranicki, escreveu para a revista Der Spiegel (42/2004) um artigo irônico contra a obra da autora, mostrando sua perplexidade e falta de compreensão para a literatura moderna e provocadora. Segundo Reich-Ranicki “Jelinek nunca conseguiu escrever um bom romance, quase todos são, mais ou menos, banais ou superficiais. Ao mesmo tempo, não é de se desconsiderar uma ou outra habilidade estilística e, até mesmo, uma virtuosidade surpreendente. Isso seria talvez livros para críticos? Não, alguns os classificariam como best seller  de entretenimento.” 

O jornalista Mathias Matussek, correspondente da Der Spiegel no Rio de Janeiro, em 2002, não mediu palavras para criticar a autora. Matussek, conhecido pelo seu vocabulário ácido e pela sua predileção por clichês, escreveu: “Jelinek sabe que o último Prêmio Nobel para um escritor de língua alemã foi para um romance conhecido mundialmente, O Tambor, de Günther Grass; ela, no entanto, só tem aflições nervosas a oferecer” ou “Nenhuma vanguarda, mas uma frente de batalha feminista bastante ultrapassada”. Sua colega Iris Radish, crítica literária renomada, escreveu para o jornal semanário Die Zeit avacalhando completamente com a autora: “suas obras revelam, nada mais nada menos, do que lixo humano, é puro lixo humano”.

A maioria dos países europeus não conhece Jelinek, com exceção talvez da França. A famosa francesa Isabelle Huppert, atriz principal do filme A Pianista, baseado no romance homônimo, Die Klavierspielerin, teve um desempenho excelente no papel da professora de piano masoquista e solteirona, torturada psicologicamente pela mãe neurótica. Anteriormente, os livros de Jelinek foram recusados pelas editoras francesas. A escritora Jeanne Champion teve que abrir uma editora própria para publicar a polemizada autora. Para o jornal francês Liberatión, lê-se que o Prêmio Nobel foi entregue à subversão. O escritor austríaco Franzobel, no seu artigo para o jornal alemão Die Welt, esperava ver a primeira escritora austríaca e a décima mulher a receber o Prêmio Nobel de literatura nas mãos de outra austríaca, como Friederike Mayröcker, Marianne Fritz ou Ilse Aichinger. Mas no final, parabeniza sua conterrânea, principalmente, pelo “fogo” de sua linguagem.

Embora, Elfriede Jelinek nunca tenha deixado de ser alvo de diversas críticas cáusticas, sobretudo após ganhar o maior prêmio de literatura, trata-se de uma autora renomada. Ao longo de sua carreira a austríaca ganhou os prêmios mais importantes da língua alemã, inclusive o Büchner-Preis, com seus romances Wir sind Lockvogel, Baby! (1970), Die Liebhaberinnen (1975), Die Augesperrten (1980), Die Klavierspielerin (1983), Lust (1989), Die Kinder der Toten (1995) e Gier (1999), entre outros. Jelinek também escreve peças de teatro e poesia, mas são as peças teatrais que mais depreciam, ofensivamente, a política da Áustria. 

No Brasil, a equivalente Hilda Hilst também escandalizou o meio conservador e machista brasileiro com sua obras denominadas pornográficas. A Obscena Senhora D e Cadernos Rosa de Lori Lamby chocam os leitores por revelar certos instintos libidinosos ocultos pela hipocrisia burguesa. Entretanto, a brasileira não atinge as profundezas mais escrotas desses instintos, paira na superfície poética, suas obras são revestidas de um linguajar brando. Encontramos no universo hilstiana elementos da paixão ressaltados em sua lírica, não há frieza de sentimento nem o resvalar no niilismo existencial como é o caso da austríaca. Jelinek avança profundamente e se alastra nas reentrâncias mais ocultas e pútrida da sociedade. Para expressar-se a la Jelinek, diríamos que ela penetra no ânus mais fétido e fecal da sociedade, expelindo a vulgaridade de uma linguagem de denúncia e provocação, provida de metáforas originais e fortes que caracteriza sua estética. Nunca nenhuma autora mulher atacou o meio machista de forma tão impudica e cínica em que, sobretudo, o homem conservador é focalizado sob o ângulo de completo abastardamento.

A temática jelinequiana abrange a posição da mulher e do homem no meio capitalista; poder, possessão sexual e submissão humilhante, cobiça e ganância, sadismo e masoquismo. Sem possuir nenhuma compaixão pelas suas personagens, Jelinek as esmiuça impiedosamente, privando-as de qualquer afabilidade ou virtude, são despidas e estupradas em sua existência agônica. Em contrapartida, as personagens são impassíveis. Jelinek faz uso da repetição em sua narrativa, as mesmas metáforas surgem em vários trechos do romance e situações repetidas são renovadas através de novas metáforas. Não há quase diálogos em seus livros.

Ernesto LeónSeus romances mais conhecidos, em ordem cronológica crescente, são Die Liebhaberinen, Die Klavierspielerin, Lust e Gier. O romance Die Liebhaberinnen (As Amantes, 1975), baseia-se em um fato real. O enredo conta o destino implacável de duas mulheres, Brigitte e Paula, vivendo em uma cidadezinha idílica, em um vale, sede de uma fábrica de sutiãs. O único meio de ganhar dinheiro na vida dessas mulheres é o trabalho na fábrica. A fábrica cresce porque mantém o salário das funcionárias reduzido. Para escapar desse círculo vicioso, Brigitte encontra uma saída casando-se com um homem de negócios.  Heinz é o candidato ideal e eles se casam, porém não há amor nem respeito na convivência do casal. Paula não quer se casar, convence a mãe a lhe pagar um curso de alfaiate, mas apaixona-se por um jovem da aldeia e este a engravida. O jovem alcoólatra se recusa a assumir a criança e é apoiado pelo avô que proíbe o casamento. Somente com a morte do avô os jovens se casam, mas devido à penúria no lar, a mulher se entrega à prostituição.

Die Klavierspielerin (A Pianista, 1983), filmado em 2001, pelo diretor bávaro Michael Hanecke, foi bem recebido pela crítica, tanto o livro como o filme. O romance, de fundo autobiográfico, ilustra o enredo de duas mulheres egocêntricas. Erika Kohut, a pianista, é completamente dominada pela mãe, que sufoca a filha, vigiando-a ininterruptamente. A mãe acredita que a filha é dotada de extremo talento, mas não respeita sua privacidade, invade a intimidade da moça e instala sua personalidade dominadora ali dentro. Sem conseguir escapar dos controles e domínios doentios da mãe, Erika desenvolve certas neuroses e, secretamente, começa a seguir alguns estranhos costumes, como visitar peepshows e ferir a si mesma fisicamente. Quando um jovem aluno, talentoso e entusiasmado, se interessa pela professora, Erika tenta vivenciar suas fantasias sexuais masoquistas com o rapaz.

O trecho seguinte descreve um desses passeios secretos da protagonista em um peepshow, no subúrbio da cidade. Nessa casa de sexo, ela é a única cliente mulher. Os homens, parados, em pé, esperando a sua vez de entrarem na cabine para ver as prostitutas nuas, estranham aquela mulher esquisita, vestida com um casaco comprido, fechado até o pescoço, que passa a frente dos homens para entrar na cabine.

“Erika pega do chão um papel amassado, cheio de esperma, e o mantém próximo do nariz. Respira fundo aquilo que um outro produziu sob trabalho pesado. Respira, observa e com isso consome um pouco do tempo da sua vida.” (A Pianista).

“Erika hebt ein von Sperma ganz zusammengebackenes Papiertaschentuch vom Boden auf und hält es sich vor die Nase. Sie atmet tief ein, was ein anderer in harter Arbeit produziert hat. Sie atmet und schaut und verbraucht ein bißchen Lebenszeit dabei.” (Die Klavierspielerin).

Talvez seja A Pianista o livro mais acessível da autora, isto é, as personagens aqui são mais convincentes, realistas, e o grotesco é desenvolvido de forma menos exaltada. Diferentemente do romance Lust, onde as personagens são retorquíveis e disformes.

Nas resenhas em português sobre o best seller Lust (1989), deparei-me, em uma delas, com a tradução de Lust para “Desejo”. Essa é, definitivamente, uma escolha infeliz, a palavra mais adequada seria “tara”, pois no substantivo "desejo" vem agregada uma conotação romântica totalmente dispensável em se tratando de Jelinek, o romantismo é simplesmente nulo nas obras dessa autora. Em “tara” está empregado o sentido degenerativo e violento inerente ao desejo sexual dessa espécie. As traduções de Elfriede Jelinek não devem perder este aspecto fundamental em sua obra: a brutalidade da linguagem pornográfica e o descaramento provocativo, conseqüentemente, a degeneração do indivíduo.

“A esposa fala que também a criança precisa comer. Seu marido não a ouve, folheia seu dicionário desinteressado. A casa lhe pertence, sua palavra já se encontra ali dentro e é guardada no peito. Ele esmiuça o sexo de sua esposa, verifica se se registrou ali dentro também. Adentra-se com a língua ferozmente, chegou com essa habilidade em casa, não se sabe de onde. Com prazer, é um deus. E em breve estará de novo no escritório conversando bobagens com a secretária. Tem que se exibir para si mesmo. E se testa sempre em novas posições, na qual possa, com um poderoso empurrão, trombar com sua carreta nas águas sóbrias de sua mulher e, furioso, começar a remar. Não necessita de asinhas de natação, nunca colocará um pedaço de plástico em sua cabecinha vermelha, só para permanecer saudável. Saudável tem sido sua mulher o período mais longo. Ela se torce sob ele, grita, quando um rebanho de sêmens inquietos debanda de sua glande agradavelmente decorada. O que está acontecendo. Assim tão alto só pode gritar alguém tinindo com o gelo, que não precisa se preocupar com sua posição na vida.” (Lust)

Ernesto León“Die Frau spricht davon, daß auch das Kind essen muß. Ihr Mann hört nicht, blättert flüchtig in seinem Taschenlexikon. Das Haus gehört ihm, sein Wort ist dort schon eingetroffen und wird beherzigt werden. Er zieht das Geschlecht seiner Frau auseinander, ob er sich auch leserlich dort eingeschrieben hat. Er stößt mit der Zunge zornig hinein, mit dieser Kunst ist er eines Tages aus heiterem Himmel nach Hause gekommen. Freudig ist er ein Gott. Und bald wird er wieder im Büro sein und mit der Seketrärin scherzen. Er hat sich selbst vorzuweisen! Er probiert sich in immer neuen Stellungen aus, in denen er mit mächtigen Tritten seinen Karren ins nüchterne Gewässer seiner Frau stößt und wie ein Rasender zu paddeln beginnt. Schwimmflügel benötigt er nicht, er wird sich nie so ein Stück Plastik übers rote Kopferl ziehen, bloß damit er gesund bleibt. Gesund ist seine Frau schon die längste Zeit. Sie krümmt sich unter ihm, schreit, als aus seiner wohleingerichteten Eichel eine ganze Herde unruhiger Samenkörner stürtz. Was ist los. So laut kann nur einer mit dem Eis klirren, der sich um seine Lebenstellung keine Sorge zu machen braucht.” (Lust).

A vulgaridade, o sarcasmo e a degeneração são características claramente explícitas em dois de seus livros mais radicais Lust e Gier. O primeiro narra a estória de uma mulher casada com o diretor de uma fábrica de celulose, mãe de um filho. O diretor, privado da troca de parceiras sexuais, dos serviços das prostitutas, com receio de se contaminar com aids, resolve usar sua própria esposa para satisfazer suas necessidades sexuais sadistas. Gerti, a esposa, procura se refugiar dos ataques sexuais do marido através do alcoolismo. A mulher, reduzida a objeto sexual, é desfigurada nesse esdrúxulo cenário como produto de consumo, fabricado pelo seu próprio marido – o deus, o chefe, o poderoso, o ganhador de dinheiro, a esposa se enquadra no jogo de poder e humilhação. O casal segue o modelo tradicional: o homem trabalha e trás dinheiro para casa, a mulher cuida do lar, do marido e do filho; o homem tem o direito de exigir da mulher a obediência sexual, a boa administração do lar e a boa conduta na sociedade. A esposa, com o dinheiro do marido, adquire os bens materiais, roupas caras e cosméticos, fazendo dela alguém no meio em que vive, com os quais ela é invejada pelas outras mulheres. O filho, também visto como “a obra do homem” parece um fantasma pervagando o ambiente e presenciando os abusos sexuais de seu pai com sua mãe. Gerti, resignada e desiludida, apaixona-se pelo lindo estudante Michael. No entanto, esse Adonis, jovem e narcisista, a humilha do mesmo modo do marido. O romance é uma paródia pornográfica que revela a disponibilidade da mulher perante à potência sexual do homem levando ao ridículo. Jelinek liquida aqui com as fantasias obscenas masculinas e seu linguajar, tirando a desforra do mundo machista através de moldes hipérboles e grotescos.

“E os homens são selecionados por bens. Bem conseguem possuir mais do que o Departamento do Trabalho imagina! Sentados à mesa, tomam cerveja e jogam cartas: nem mesmo um cão seria tão paciente, preso em frente às lojas fantásticas com suas mercadorias que zombam de nós.” (Lust).

“Und die Männer wurden nach Vermögen ausgesucht. Sie vermögen mehr, als man ihnen im Arbeitsamt zutraut! Am Küchentisch sitzen, Bier trinken und Karten spielen: nicht einmal ein Hund wäre so geduldig, angebunden vor den herrlichen Geschäften mit den Waren, die uns verspotten.” (Lust).

A temática de Gier (Ganância, 1999) continua seguindo a linha do extremismo. O protagonista Kurt Janisch, um policial, demasiadamente ambicioso e possessivo, aproxima-se das mulheres, sem privar-se de brutalidade e agressão sexual, para conseguir acumular, cada vez mais, bens materiais e imóveis. A ambição exacerbada de ganho ilícito, minuciosamente fragmentada e reconstruída através de uma série de associações metafóricas, constitui a abordagem dessa obra. A viúva, Gerti, e a jovem de dezesseis anos, Gabriele Fluch, são amantes do policial casado. A esposa, sem desconfiar de nada, passa todo o tempo ocupada com os afazeres de casa e vendo televisão.  Conseqüência da brutalidade sexual de Kurt Janisch é o assassinato da menina de dezesseis anos. A viúva Gerti finda o seu dilema suicidando-se.

Literatura de entretenimento e romance trivial foram outros dois adjetivos empregados para classificar a criação literária de Jelinek. É inegável o valor primordial dos estereótipos no conjunto de seus temas. Entretanto, a extensa intertextualidade presente, por exemplo, em Gier (Ganância), associando a narrativa a obras de Ingeborg Bachmann, textos bíblicos ou ao inconfundível poeta Rainer Maria Rilke, contradiz os termos. Contudo, não passa despercebida, no desenrolar dessa obra, a banalização referente ao culto exagerado ao corpo, as academias de malhação, isto é, à frivolidade e ao divertimento fútil.

Ernesto LeónJelinek é sinônimo de radicalismo: ame ou odeie! Mas os escândalos provocados através de sua criação não fogem à tradição austríaca. Excelentes escritores como Thomas Bernhard e Arthur Schnitzler também foram alvos de represálias, adjetivos de repugnância e antipatia. Vale a pena relembrar aqui os nomes mais conhecidos da literatura austríaca como Arthur Schnitzler (1862-1931), Hugo von Hofmannsthal (1874-1929), Robert Musil (1880-1942), Josef Roth (1894-1934), Ingeborg Bachmann (1926-1973), Thomas Bernhard (1931-1983), além de outros.

Elfriede Jelinek faz parte da tradição literária do grupo de autores experimentais Wiener Gruppe (Grupo de Viena), fundado em 1946, do qual participaram os poetas Ernst Jandl (1925-2000) e esposa Friederike Mayröcker (1924). O Wiener Gruppe marcou a história literária desse país, contudo, os textos originários dessa escola, reforçando dialética e aspectos provocativos, grotescos e macabros, despertaram o ódio dos leitores e, conseqüentemente, levaram seus autores à isolação. Muitos desses textos se perderam, no entanto, sobressaiu-se desse movimento estilístico o poeta H.C. Artmann (1921-2000), um dos fundadores do grupo, atualmente bem considerado pela crítica. Mais tarde, inspirado da vanguarda do Wienner Gruppe seria criado o espaço e as condições adequadas para o surgimento da poesia concreta na língua alemã.

Thomas Bernhard estudou música, como Jelinek, e criticou veementemente a sociedade e política da Áustria. Em sua época, foi considerado um autor controvertido e teve algumas de suas peças teatrais proibidas em que ele ataca diretamente os políticos de seu país. Autor de vários romances estupendos, como Perturbação, Extinção ou O Náufrago, apesar do forte niilismo em sua obra, o relacionamento humano em Bernhard, mesmo sendo baseado em sentimentos negativos, como a solidão, o abandono e a invídia, são desfigurados de forma realista, conveniente com a linguajem decorosa. Contudo, a crítica feroz contra a política austríaca não deixa de fazer parte integrante da literatura de Bernhard.

Outro autor perturbador foi Arthur Schnitzler, amigo do pai da psicanálise Siegmund Freund. Ambos possuem uma biografia semelhante, Schnitzler estudou medicina e trabalhava como médico psiquiatra antes de se dedicar inteiramente à literatura. As obras-primas de ambos os imortais surgiram quase simultaneamente: A Interpretação dos Sonhos (Der Traumdeutung 1899) e Tenente Gustl (Leutnant Gustl, 1890). Na Áustria habsburguesa, esse autor, amigo do considerado poeta Hugo von Hofmannsthal, teve sua ficção denominada pornográfica e rejeitada pelo meio aristocrata e conservador. Schnitzler combatia os dogmas hipócritas através das imagens negativas do ser humano, revelando suas tendências destrutivas. Seu ceticismo e descrença perante a humanidade levaram-no a ser classificado de niilista. Tenente Gustl, romance de fundo psicológico, desenvolvido sob a técnica do monólogo, tem seu conteúdo baseado na associação livre e na moral sexual de Freud, paralelamente, revela a decadência do Império Austríaco, que perdurou de 1804 a 1918.

No romance Traumnovelle (1926), filmado sob o título de Eyes Wide Shut, em 1999, por Stanley Kubrick, o mistério existente no enredo atribui a esse universo erótico uma aura poética que, embora revele a degradação moral, distancia a obra da vulgaridade completa. Traumnovelle se passa em Viena, no início do século XX, o protagonista é um médico, casado com uma mulher atraente, um pouca mais jovem do que ele, pai de uma filha. No entanto, depois de alguns anos de convivência, o casal começa a se sentir atraído por outros eventuais parceiros sexuais. A estranha reviravolta na vida dos dois tem início com o reencontro, num bar, do protagonista com um amigo músico, o qual ele não via há muito tempo. O amigo lhe conta sobre seus misteriosos concertos de piano para um público excêntrico onde as pessoas se mascaram e andam nuas. O pianista é obrigado a usar uma venda nos olhos e conhecer um código quando é levado, por um chofer, para os encontros secretos, que se passam em diferentes locais. Através de uma imperceptível fresta na venda, o pianista descreve um pouco sobre essas misteriosas reuniões, despertando a curiosidade do médico. Assim o protagonista é envolvido em um mundo sensual, eroticamente atraente, enigmático e perigoso.

O pessimista Schnitzler adentrou-se no tema da sexualidade de forma vanguardista, desmascarando assim as hipocrisias da burguesia, apoiando-se em suas experiências e conhecimentos de psiquiatra e no conteúdo da obra de seu amigo Sigmund Freud.

Poderia se dizer que, mais insistente e profundamente, Elfriede Jelinek desenvolve em sua ficção aquilo que Sigmund Freud analisou em suas sessões. Essa mulher seria a clássica paciente de Freud, deitada no divã, narrando as obsessões e perversidades da libido, incrustadas no estilo de vida moderna. Estilo esse fundamentado em culto exagerado ao corpo e ao materialismo. As transformações sociais originárias da globalização, da economia, onde impera a lei do mais forte, e as relações de poder entre os seres humanos, especialmente, entre homem e mulher, são reveladas através dos estereótipos revestidos de retórica poética e de imagens repulsivas e impactantes. Enfim, Jelinek afunda o dedo bem fundo no cancro social desta época. 

Viviane de Santana Paulo (Brasil, 1966). Escritora e poeta. Publicou Passeio ao longo do Reno (2002). Contato: vsantana@brasemberlim.de. Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela).

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