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revista
de cultura # 42 |
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Paco de Lucía: "O flamenco é a arte mais importante
da Europa" Antonio Jr.
Ajr. - Paco de Lucía é um pseudônimo
artístico? PC - O meu nome civil é Francisco
Sánchez Gómez. Sou o filho mais novo de uma família humilde, e
primeiramente fui conhecido no bairro com o apelido de “o filho da
portuguesa”, porém logo passaram a me chamar de Paco, o que é habitual
em Espanha para os que se chamam Francisco. O “de Lucía” veio logo
depois. Onde morava viviam muitos Antonios, muitos Pepes e muitos Pacos.
Assim, para diferenciar-me dos demais, passaram a me chamar de “Paco, o
de Lucía”. Lucía era a minha mãe. Ajr. - Assim, um belo dia, Paco, ex
– Francisco, filho de Lucía, recebeu o Prêmio Príncipe de Astúrias
de las Artes… PC - E gostei muito,
principalmente, e isso já disse publicamente, pela importância dada ao
flamenco com este prêmio. É uma luta que venho levando há anos. Já era
hora do flamenco ser realmente reconhecido, de situar-se no lugar que
merece. Ao recebê-lo, lembrei de Camarón, que merecia o Príncipe de Astúrias
tanto ou mais do que eu. Ajr. - A sua vitória não era dada
como certa. PC - A verdade é que nem eu mesmo
esperava esse prêmio. Considerava que na última hora escolheriam outro,
talvez Almodóvar ou Bergman, ou a um músico clássico. Quando me
comunicaram que estava entre os nominados e que tinha muitas
possibilidades, não levei a sério. Pensava que outro ganharia. Ajr. - Verdade que evita lançar
discos o máximo que pode? Teme o fracasso?
Ajr. - Quando colocou no mercado Cositas
Buenas, houve uma espécie de silêncio na mídia, os especialistas não
sabiam dizer se gostavam ou não. O que passou na sua cabeça? PC - Já esperava. É algo
completamente novo, muito diferente. Os jornalistas calaram-se porque
tinham como experiência outros discos meus, que entenderam depois de um
certo tempo e passaram a gostar. Com Cositas Buenas ficaram
perplexos, sem opinião, não se atreveram a dizer que não gostaram. Porém
é um disco que, para mim, é muito bom, um disco importante. Ele
demonstra que se acabaram os fogos de artifício, a velocidade, a rapidez.
Agora há mais sentimentos, descobri matizes de harmonias e ritmos
distintos. O resultado é muito interessante. Ajr. - A crítica é importante
para o seu trabalho? PC - Quando comecei, uns falavam
bem e outros mal de mim, e isso me fazia refletir. Porém o que dizem
agora é meio aborrecido, repetitivo, me tratam como um selo de qualidade,
um produto aprovado. Eu preciso de críticas, e inclusive de críticas
negativas, sempre que sejam construtivas, para seguir crescendo. Para
seguir vivendo necessito de surpresas. Ajr. - A inspiração seria um
trampolim para tais surpresas? PC - Sempre pensei que a inspiração
surgia quando ela tinha vontade e é mentira, surge com o trabalho. Quando
se está inspirado parece que as idéias fluem melhor, mas surpresas só
mesmo tocando a guitarra diariamente e passando as idéias num papel
sempre e sempre para ver se surge algo novo.
PC - Necessitava de gente nova, de
uma nova energia que me contagiasse. Eu creio que foi uma mudança
positiva, por que tenho tocado com mais vontade do que tocava ultimamente.
Claro que sinto saudades dos meus velhos companheiros, e até pensei em
conservar um ou outro, mas terminei optando por mudar totalmente. Não
queria influências. Ajr. - Há muita diferença entre
essa banda e a anterior? PC - O meu antigo grupo tinha uma
base de jazz muito forte e esta agora é mais flamenco. A maior parte são
ciganos e conhecem profundamente o que faço. Todos têm o flamenco como
base. Agora também há mais canto. É que quero ser mais flamenco a
medida que vou envelhecendo. Ajr. - Que lugar ocupa o flamenco
dentro da cultura mundial? PC - O flamenco é a arte mais
importante que temos em Espanha e me atrevo a dizer que em Europa. É uma
música incrível, tem uma grande força emotiva e um ritmo e uma emoção
que muitos poucos outros países possuem. O flamenco representa a cultura
espanhola, embora muita gente não aceite essa afirmação, já que é
andaluz, e não tem nada a ver com o catalão, o vasco ou o galego. Ajr. - O primeiro disco seu que
comprei, toca com John McLaughlin e Al di Meola, numa verdadeira fusão
musical… PC – Não acredito na fusão
musical. Nos meus trabalhos com Di Meola, McLaughlin ou Larry Coryell a música
não era flamenco nem jazz, era uma fusão de músicos e não de músicas.
Eu aposto num flamenco com uma mão agarrada à tradição e com a outra
na inovação. É muito importante não perder a tradição porque é onde
mora a essência, a mensagem, a magia. Ajr. - O seu cachê é um dos mais
altos da Europa, tem recebido prêmios, reconhecimento, prestígio, boas
vendagens… É uma novidade para um músico de flamenco, não? PC - É um sonho, não é real. Eu
tenho muito mais do que sempre sonhei, porque existem pessoas
maravilhosas, em todas as áreas, escritores, atores, todo tipo de gente
que faz coisas inacreditáveis e que, em troca, não são reconhecidos, e
muitos morrem sem esse reconhecimento. Ajr. - O que tem ouvido
ultimamente?
Ajr. - A sua devoção por Camarón
de la Isla é conhecida. PC - Sofro por sua morte até hoje.
Foi horrível. Ele não era normal. Essa voz… tudo o que criei e toquei
em minha vida resume o que senti escutando a Camarón. Passará muito
tempo para que surja outro fenômeno como ele. Ajr. - Se considera um tanto enigmático? PC - Quer dizer meio louco, não?
Pois sim, e é muito fácil explicar o motivo. Para tocar bem é preciso
passar muitas horas trancado, sozinho, treinando, pensando. E isso um dia
e outro e outro até chegar a uma certa neurose. Recordo uma certa época
de minha vida que tocava o telefone e eu tremia ou ficava todo um dia
nervoso por saber que receberia visitas, suando muito. Tudo resultado de
estar tanto tempo sozinho. É muito complexo. São muitas horas ouvindo-me
e chega um momento em que é preciso companhia para saber se não
enlouqueci de vez. Pois você acertou, realmente tenho um toque de
loucura. Ajr. - A nova geração de
guitarristas flamencos reconhece-o, com unanimidade surpreendente, como único
mestre. Vicente Amigo, o chama de “Deus”, e Tomatito, de “Padre
Nuestro”. Não se assusta com essa responsabilidade? PC - Apenas procuro fazer o meu
trabalho da melhor maneira que posso e divulgar o flamenco o mais longe
que consiga. Não sou nenhum Deus. O que sei é que passei a vida viajando
e agora desejo um futuro diferente. Quero passar longas temporadas no México,
fazendo pesca submarina e cozinhando. É o que quero. Tenho pensado muito
no tempo, já que não o terei por muito tempo. Quero ficar em casa e
compor. É o que fica. Os shows são passageiros. |
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Antonio Júnior (Brasil, 1970). Escritor. Autor de livros como O aprendiz do amor (1993), Caprichos (1998) e Artepalavra - Conversas no velho mundo (2003). A série de entrevistas que vem realizado com distintos nomes da arte e da cultura em todo o mundo encontra-se em El Gitano (www.elgitano.blig.ig.com.br). Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela). |
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