revista de cultura # 42
fortaleza, são paulo - dezembro de 2004






 

A imagem em Murilo Mendes

Edson Cruz

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Murilo MendesMurilo Mendes é, sem dúvida nenhuma, um de nossos grandes poetas. Tão grande quanto um Drummond, um Bandeira, ou um João Cabral. A sua obra é por si só uma literatura inteira, com todos os seus meandros e revelações. O grande público a desconhece e é uma pena. Talvez, porque sua obra seja uma das mais difíceis e em sua abundância, um tanto irregular. Obra de caráter mais subversivo do que organizador.

Em sua concepção poética podemos distinguir, além de outros procedimentos tão importantes quanto, uma valorização da imagem que certamente advém do diálogo que sua poesia trava com outras artes, preferencialmente com as artes plásticas e dentro dela o movimento que lhe foi contemporâneo: o Surrealismo.

Antes de especificarmos o que foi o movimento denominado de Surrealismo e como a poesia de Murilo se relacionou com ele, devemos partir de uma compreensão mais geral do que seria a imagem poética.

Na poesia a estrutura sintática é apenas acessória, em estado de latência, sempre submetida a ordenações e desordenações rítmicas e métricas. As palavras despem-se, então, de sua logicidade e denotações revelando, ou melhor, sugerindo produtos imaginários que chamamos de imagem. Em outras palavras, a linguagem poética é em sua essência conotativa.

Cada poema, com suas imagens, contém inúmeros significados contrários ou díspares, aos quais engloba reconciliando-os sem suprimi-los. A imagem poética tem sentido em diversos níveis, criando a sua própria lógica e revelando uma verdade estética. A imagem poética não quer dizer algo, ela vai direto ao ponto. Ela diz.

Ernesto LeónO Surrealismo foi um movimento que podemos chamar de cultural, contaminando a literatura e a arte, que se caracterizou pelo desprezo das construções elaboradas logicamente e pela ativação sistemática do inconsciente e do irracional, do sonho, de estados alterados, sorvendo avidamente as descobertas da psicanálise.

Embora eu o chame de cultural, há críticos como José Guilherme Merquior, que consideram o projeto surreal, em sua substância, não estético, “mas sim de cunho, antes de tudo, existencial”.

A criação surrealista baseava-se na associação de idéias articulada à noção de arbitrariedade. No Manifesto Surrealista de 1924 essa perspectiva se explicitou:

É da aproximação, de alguma maneira fortuita, de dois termos que brota uma luz particular, luz da imagem, à qual nos mostramos infinitamente sensíveis. O valor da imagem depende da beleza da faísca obtida; ela é, conseqüentemente, função da diferença de potencial entre os dois condutores.

Este encontro ‘fortuito’ de duas realidades, inicialmente distantes, em um outro plano, leva a uma afinidade entre a busca da imagem poética e os procedimentos surrealistas utilizados na fotomontagem e na colagem.

A ordem inicial das coisas, nestes procedimentos, é destruída buscando-se um rearranjo que possibilite sentidos novos, ou antes, negligenciados.

Em seu texto Arquitetura da Memória, presente no livro de crítica literária O cacto e as ruínas (Duas Cidades, 2000), Davi Arrigucci Jr. pontua a questão da imagem no Surrealismo da seguinte forma:

A imagem se situa, portanto, no centro da visão surrealista. Funciona como a verdadeira fórmula do princípio de identidade, propiciando a fusão dos opostos que nela e por ela se transfiguram, ligando e transcendendo as pontas soltas do universo. Em cada imagem há como que uma aspiração totalizante, desejo alado daquele ponto surrealista, referido no segundo manifesto do movimento, de onde toda contradição deixaria de ser percebida enquanto tal.

Estes procedimentos influenciaram sobremaneira a busca poética de um poeta culto e cosmopolita como Murilo Mendes, que não só viveu bastante tempo na Europa, como também escreveu um livro em francês e outro em italiano. Sua poesia abrange as experiências de Rimbaud, Apollinaire e os, assim chamados, Surrealistas.

O próprio Murilo nos fala sobre sua elaboração imagética:

Ernesto LeónCerto da extraordinária riqueza da metáfora – que alguns querem até identificar com a própria linguagem – tratei de instalá-la no poema com toda a sua carga de força. Preocupei-me com a aproximação de elementos contrários, a aliança dos extremos, pelo que dispus muitas vezes o poema como um agente capaz de manifestar dialeticamente essa conciliação, produzindo choques pelo contato da idéia e do objeto díspares, do raro e do quotidiano etc.

Notamos assim em Murilo, uma escrita onírica marcadamente surrealista e uma contemplação do mundo ostensivamente plástica.

Se nos ativermos ao seu emblemático poema Janela do Caos que fecha seu livro de 1947, Poesia Liberdade, veremos que o mesmo foi composto em onze partes que num primeiro momento parecem uma caótica justaposição de fragmentos. Vale dizer para este poema o que diz Alfredo Bosi em relação à obra de Murilo Mendes: “o efeito estético só não é do puro caos porque o poeta recompõe os mil estilhaços de sua imaginação em um vitral desmesurado de crente surrealista”.

O próprio título do poema já denuncia o procedimento e o que iremos mirar: imagens descontínuas e justapostas num Egito de corredores aéreos. Um presente narrativo que se desloca abruptamente misturando as referências espaciais e temporais, e os planos da narração e da descrição.

Seu poema é a prática da ‘conciliação de contrários’, uma mistura livre do abstrato e do concreto, do real e do sonho: Ah! Quem telefonaria o consolo, /O puro orvalho /E a carruagem de cristal. …Enigma, inocência bárbara, /Pássaros galopando elementos.

Como muito bem observou Murilo Marcondes de Moura, em sua tese sobre a poesia de Murilo Mendes, “ao longo das onze partes do poema, divisão e unidade se pressupõem todo o tempo e é esse o seu conflito mais visível, por assim dizer, a espinha dorsal em torno da qual os diferentes significados se organizam”.

Já em seu primeiro livro de 1930, Poemas, nos deparamos com o seguinte poema de invenção claramente surrealista:

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abiu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.

Podemos compará-lo com a versão prosaica do mesmo tema em seu livro de memórias A idade do serrote, de 1968:

Minha mãe, afeiçoada ao canto e ao piano,
morre de parto com vinte e oito anos.
Torna-se constelação…

Ernesto LeónTirando a última frase, de feição mais poética, nota-se em contraste a força das imagens poéticas conseguidas no poema, que revelam, a meu ver, o cerne da poesia como uma arte criadora, cuja função essencial é a de possibilitar uma maior ampliação do campo da consciência.

De maneira geral, observamos nos poemas de Murilo Mendes, que ele soube, como ressalta Merquior, orientar ‘decisivamente a mescla estilística inerente à poética surreal – a tensão, no verso, entre a visão “problemática” da vida e as múltiplas referências ao reino do cotidiano e do vulgar – para uma ótica saturnal’.

De seu livro As Metamorfoses, que podemos considerar o que mais se aproxima de uma poética surrealista com todas as características acima levantadas por Merquior, até o poema Janela do Caos que fecha seu livro Poesia Liberdade, pode-se identificar esta orientação para uma ótica saturnal, após a qual sua obra aparenta ser outra. Embora neste poema fique bem característico um dos métodos principais de criação de Murilo, ou seja, as imagens – ou fragmentos – em combinatória revelando a descontinuidade e justaposição em técnica criativa.

A obra de Murilo explicitada neste poema revela-nos que a arte é talvez a forma mais adequada, e creio que mais eficaz, de transcender a manifestação caótica do mundo e da vida. Sua poesia urge ser conhecida e amada como uma das grandes produções de nossa língua mãe.

Edson Cruz (Brasil, Ilhéus, 1959). Poeta e ensaísta. Prepara seu livro de estréia, Astrolábia (poesia). É editor do sítio de literatura Capitu (www.capitu.com.br). Contato: sonartes@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela).

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