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revista
de cultura # 42 |
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A imagem em Murilo Mendes Edson Cruz
Em sua concepção poética podemos distinguir, além de
outros procedimentos tão importantes quanto, uma valorização da imagem
que certamente advém do diálogo que sua poesia trava com outras artes,
preferencialmente com as artes plásticas e dentro dela o movimento que
lhe foi contemporâneo: o Surrealismo. Antes de especificarmos o que foi o movimento denominado de
Surrealismo e como a poesia de Murilo se relacionou com ele, devemos
partir de uma compreensão mais geral do que seria a imagem poética. Na poesia a estrutura sintática é apenas acessória, em
estado de latência, sempre submetida a ordenações e desordenações rítmicas
e métricas. As palavras despem-se, então, de sua logicidade e denotações
revelando, ou melhor, sugerindo produtos imaginários que chamamos de
imagem. Em outras palavras, a linguagem poética é em sua essência
conotativa. Cada poema, com suas imagens, contém inúmeros
significados contrários ou díspares, aos quais engloba reconciliando-os
sem suprimi-los. A imagem poética tem sentido em diversos níveis,
criando a sua própria lógica e revelando uma verdade estética. A imagem
poética não quer dizer algo, ela vai direto ao ponto. Ela diz.
Embora eu o chame de cultural, há críticos como José
Guilherme Merquior, que consideram o projeto surreal, em sua substância,
não estético, “mas sim de cunho, antes de tudo, existencial”. A criação surrealista baseava-se na associação de idéias
articulada à noção de arbitrariedade. No Manifesto Surrealista
de 1924 essa perspectiva se explicitou: É da aproximação, de alguma maneira fortuita, de dois
termos que brota uma luz particular, luz da imagem, à qual nos mostramos
infinitamente sensíveis. O valor da imagem depende da beleza da faísca
obtida; ela é, conseqüentemente, função da diferença de potencial
entre os dois condutores. Este encontro ‘fortuito’ de duas realidades,
inicialmente distantes, em um outro plano, leva a uma afinidade entre a
busca da imagem poética e os procedimentos surrealistas utilizados na
fotomontagem e na colagem. A ordem inicial das coisas, nestes procedimentos, é destruída
buscando-se um rearranjo que possibilite sentidos novos, ou antes,
negligenciados. Em seu texto Arquitetura da Memória, presente no
livro de crítica literária O cacto e as ruínas (Duas Cidades, 2000),
Davi Arrigucci Jr. pontua a questão da imagem no Surrealismo da seguinte
forma: A imagem se situa, portanto, no centro da visão
surrealista. Funciona como a verdadeira fórmula do princípio de
identidade, propiciando a fusão dos opostos que nela e por ela se
transfiguram, ligando e transcendendo as pontas soltas do universo. Em
cada imagem há como que uma aspiração totalizante, desejo alado daquele
ponto surrealista, referido no segundo manifesto do movimento, de onde
toda contradição deixaria de ser percebida enquanto tal. Estes procedimentos influenciaram sobremaneira a busca poética
de um poeta culto e cosmopolita como Murilo Mendes, que não só viveu
bastante tempo na Europa, como também escreveu um livro em francês e
outro em italiano. Sua poesia abrange as experiências de Rimbaud,
Apollinaire e os, assim chamados, Surrealistas. O próprio Murilo nos fala sobre sua elaboração imagética:
Notamos assim em Murilo, uma escrita onírica marcadamente
surrealista e uma contemplação do mundo ostensivamente plástica. Se nos ativermos ao seu emblemático poema Janela do
Caos que fecha seu livro de 1947, Poesia Liberdade, veremos que
o mesmo foi composto em onze partes que num primeiro momento parecem uma
caótica justaposição de fragmentos. Vale dizer para este poema o que
diz Alfredo Bosi em relação à obra de Murilo Mendes: “o efeito estético
só não é do puro caos porque o poeta recompõe os mil estilhaços de
sua imaginação em um vitral desmesurado de crente surrealista”. O próprio título do poema já denuncia o procedimento e o
que iremos mirar: imagens descontínuas e justapostas num Egito de
corredores aéreos. Um presente narrativo que se desloca abruptamente
misturando as referências espaciais e temporais, e os planos da narração
e da descrição. Seu poema é a prática da ‘conciliação de contrários’,
uma mistura livre do abstrato e do concreto, do real e do sonho: Ah!
Quem telefonaria o consolo, /O puro orvalho /E a carruagem de cristal.
…Enigma, inocência bárbara, /Pássaros galopando elementos. Como muito bem observou Murilo Marcondes de Moura, em sua
tese sobre a poesia de Murilo Mendes, “ao longo das onze partes do
poema, divisão e unidade se pressupõem todo o tempo e é esse o seu
conflito mais visível, por assim dizer, a espinha dorsal em torno da qual
os diferentes significados se organizam”. Já em seu primeiro livro de 1930, Poemas, nos
deparamos com o seguinte poema de invenção claramente surrealista: Mamãe vestida de rendas Podemos compará-lo com a versão prosaica do mesmo tema em
seu livro de memórias A idade do serrote, de 1968: Minha mãe, afeiçoada ao canto e ao piano,
De maneira geral, observamos nos poemas de Murilo Mendes,
que ele soube, como ressalta Merquior, orientar ‘decisivamente a mescla
estilística inerente à poética surreal – a tensão, no verso, entre a
visão “problemática” da vida e as múltiplas referências ao reino
do cotidiano e do vulgar – para uma ótica saturnal’. De seu livro As Metamorfoses, que podemos considerar
o que mais se aproxima de uma poética surrealista com todas as características
acima levantadas por Merquior, até o poema Janela do Caos que
fecha seu livro Poesia Liberdade, pode-se identificar esta orientação
para uma ótica saturnal, após a qual sua obra aparenta ser outra. Embora
neste poema fique bem característico um dos métodos principais de criação
de Murilo, ou seja, as imagens – ou fragmentos – em combinatória
revelando a descontinuidade e justaposição em técnica criativa. A obra de Murilo explicitada neste poema revela-nos que a arte é talvez a forma mais adequada, e creio que mais eficaz, de transcender a manifestação caótica do mundo e da vida. Sua poesia urge ser conhecida e amada como uma das grandes produções de nossa língua mãe. |
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Edson Cruz (Brasil,
Ilhéus, 1959). Poeta e ensaísta. Prepara seu livro de estréia, Astrolábia
(poesia). É editor do sítio de literatura Capitu (www.capitu.com.br).
Contato: sonartes@uol.com.br.
Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela). |
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