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revista
de cultura # 42 |
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Paul McCartney & Chico Buarque: sonhos sonhos são Mário Montaut
No imaginativo jogo proposto por Caetano, lanço como
exemplos gigantescos de artistas intensamente vinculados à infância os
Beatles, mais especificamente John Lennon e Paul McCartney, e Chico
Buarque de Hollanda. Canções como “The Fool on the Hill”,
“Maninha”, “Strawberry Fields Forever”, “João e Maria”, a
versão dos Saltimbancos, “Penny Lane”… são tantas e tantas criações
arquetípicas, fabulosas! Tem coisa que parece música de criança mesmo.
Lembro do Caetano dizendo que “A Banda” parecia “obra de um
moleque”, se comparada a “obras primas” como “Pedro Pedreiro” e
“Sonho de um Carnaval”. Compreendo-o perfeitamente, mas bem lá dentro
sinto-me incapaz de conceber tal antítese. “A Banda” é coisa de
moleque mesmo. Até a Clarice Lispector achava isso, mas sob outros pontos
de vista e ouvido. Agora, que essa questão das idades artísticas dá um pano
pra manga, dá. Chico, John e Paul fizeram essas canções na juventude e
maturidade. E aos 16 anos Paul McCartney martelando o velho piano de sua
casa paterna cantarolou a melodia de “When I’m Sixty Four”, que o
Paul disse tratar-se de uma música inspirada pelo medo da velhice. E o
romântico Tchaikowsky escreveu, aos seis anos, em francês, um poema
intitulado “A Velhice de um homem que fala sonhando na idade de 60
anos”. Essa dança de idades no tempo nos remete fortemente a Jorge Luis
Borges, o bruxo Borges, cujo conto “O Imortal”, pode ter sido uma das
fontes de inspiração da bela “O Homem Velho”, de Caetano, que
homenageava Chico que, então pelos 40, já havia feito “O Velho” aos
20 anos, e… um amigo da Net disse que “Penny Lane” também era sobre
o medo da velhice.
A contracultura serviu a Paul, como a terrível ditadura
militar a Chico. Ambos extremamente ligados a tudo o que acontecia na época,
foram afetados de muitas maneiras, porém, o que de fato imortaliza esses
trabalhos é a dimensão mitológica a que foram alçados pelos seus
contextos políticos, econômicos, culturais. Com todos os ecos políticos
ainda ouvidos em “Construção”, ela mais me parece hoje um dos Cantos
do Inferno que Dante Alighieri não escreveu. “Apesar de Você”
é, sem dúvida, um hino de resistência perene, por tratar da revolução
eterna, de um ponto de mutação desde sempre inevitável. Os exemplos se
estenderiam ad infinitum, e sempre na temática do tempo. Lembro de
“Valsa Brasileira”, letra de Chico para música de Edu Lobo, onde
novamente somos reportados a Borges, pela densidade, síntese e discrição
metalingüística quase absoluta: ...e
pela porta de trás/ da casa vazia/ eu ingressaria/ e te veria/ confusa
por me ver/ chegando assim mil dias antes de te conhecer. E o poeta
chega à sua musa, que é também a valsa brasileira,
revisitada pelos versos do seu imenso dom de sonhar. Na pré-adolescência, quando comecei a fazer música,
tinha sonhos com os Beatles. Num deles, o quarteto aparecia de terninho
numa arena de Tokyo, trocando palmadinhas e cantando “A Noite dos
Mascarados” do Chico. Em japonês. Num outro sonho (este, recorrente) eu
estava sempre numa loja labiríntica à procura de um disco dos Beatles
que nunca existiu. Os elementos oníricos obviamente variavam bastante,
mas sempre acabava por encontrar um LP, e na capa eu via os quatro numa
praia. Começava por ouvir o mar, depois um som tipicamente beatle
que ia se desdobrando em sonoridades próximas a sons que eu comporia anos
depois. Sonhos com músicas novas misteriosamente ocultas dentro de um
disco clássico onírico, talvez um arquétipo paralelo àquele de “O
Imortal”, onde Borges passa a relatar um manuscrito escondido pelo
protagonista no último tomo da Ilíada, de Pope. Sonhos, sonhos são…
como diria o Chico. E para terminar relato um pequeno sonho musical, que
originou uma versão da música. Ainda a estou fazendo. O sonho:
In Penny Lane there’s a
barber showing photographs. Agora
os vejo: Borges, Milton Nascimento, João Cabral, Gil, Shakespeare. Agora
ele me mostra as fotos de toda cabeça que teve o prazer de conhecer:
Magritte, Breton, Caymmi, Augusto de Campos, Caetano. Todos estiveram lá.
E passaram na barbearia. Todos! E mantiveram segredo. O que haveria de tão
inconfessável nessa rua musical da Infância? Agora os vejo: Ezra Pound,
Drummond, Klimt, Pessoa. Um som. E olha lá, os ilustres fotografados
saindo numa enorme banda. Com Pixinguinha, Webern, Cartola, Debussy,
Chico. Dobram a curva e somem. Cantando coisas de amor. |
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Mário Montaut é compositor e intérprete, autor dos CD’s Bela Humana Raça (1999) e Samba de Alvrakélia (2004). Contato: mario_montaut@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela). |
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