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revista
de cultura # 42 |
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A dialética diabólica da poesia Rodrigo Petronio
O poeta seria então aquele para quem o exercício do
duplo, mais do que algo natural, é necessário, essencial e sua razão
mesma de ser: a outra voz de que fala Octavio Paz, que se insurge da voz
mesma daquele que enuncia o verbo e anuncia o mundo e o nomeia de novo,
age ironicamente contra o sujeito que a profere, dilacerando-o. Porém,
sua destruição é divina, pois mostra aos homens que ela é a chave de
que necessita o criador para mergulhar na estrutura profunda do mundo e
dele trazer Eurídice à tona, como verdade revelada ainda que sempre
sabida. Haveria uma relação substantiva e substanciosa entre poesia e
loucura, nesses termos, relação que pode ser lida e entendida como uma
apologia do alheamento, da divisão, do que desagrega a unidade primeira
do mundo aparente para preservar incólume, intacta e íntegra a unidade
profunda do mesmo, voz que se desprende do abismo e encontra na voz do
poeta uma intérprete. Mais: um veículo.
Sua dissolução está na base da divisão de sua personalidade e na
duplicidade de sua voz que se desdobra para cantar o Outro, essa
alteridade infinita, em franco litígio com o ideal da totalidade, para
lembrarmos Levinas. Entretanto, essa maldição poética, se é que
podemos chamá-la assim, não coincide com nenhuma idéia preconcebida ou
quaisquer conceitos cristalizados de ordem política, ética, moral, étnica
ou outros congêneres. Semelhante à vítima sacrificial, o canto nasce da
perda da unidade do sujeito que se estilhaça ou, para dizer com Fernando
Pessoa, simplesmente não se acha em nenhum lugar onde quer que esteja ou
sequer (e muito menos) naquele em que se imagina, pois o próprio sonho
lhe é hostil, refratário e avesso à hospitalidade. E assim se sente
estrangeiro até de si mesmo, para quem todo o mundo é um exílio, e não
só um exílio da carne que aspira ao reino celeste, como Camões disse em
Babel e Sião, mas sim uma
nostalgia do tempo em que essa mesma carne abrigava deuses em si e supunha
em si algo além capaz de redimi-la, mas sim o exílio de um homem que não
mais se reconhece nem mesmo naquilo que suas mãos produzem: o abandono
dos deuses, para quem a loucura não mais anima, dá vida e unifica as
formas sensíveis do mundo, mas apenas faz dele um teatro sádico no qual
fomos inescrupulosamente atirados e no qual representamos como marionetes,
como disse Rilke. Há bastante sabedoria na atitude dos antigos romanos ao
designar a pessoa como persona, que também quer dizer máscara.
Não se trata de uma conciliação de contrários, ou de
uma coincidentia oppositorum,
como referiu Baltasar Gracián para definir aquele tipo de agudeza própria
ao engenho poético mais discreto e arguto, já que nesse caso estamos no
interior de um processo circunscrito aos artifícios retóricos e poéticos,
podendo quando muito servir de ilustração à unidade da Deus que subjaz
às mais díspares manifestações e acidentes sensíveis. Não é uma união
entre duas esferas antitéticas do pensamento, como Schelling propôs que
se desse entre o absolutamente real e o absolutamente ideal, em uma operação
lingüística que, é forçoso convir, guarda uma boa dose de falácias e
tautologias. Estamos diante da força demoníaca da poesia, que funciona
como espinha dorsal de sua própria natureza: o sujeito, ao incorporar a
alteridade radical e deixar o Outro falar por sua fala está se destruindo
para preservar a unidade do ser. Esse é o princípio ativo da loucura: a hybris,
entendida como desrazão, desmesura, monstruosidade, excesso e desordem, já
que o conceito é passível de todas essas acepções, nasce da própria
condição híbrida e mista do sujeito sem integridade. E creio que não
seja por outro motivo que Nietzsche viu o cristianismo, esta religião que
radicalizou a cisão ontológica entre o mundo ideal e os fenômenos, que
praticamente opôs esta vida à verdadeira vida situada no futuro,
transformando o mundo em uma espécie curiosa de vestíbulo no Além e
assim anulou a pulsão vital e todo o impulso dionisíaco de transformação,
como o início de uma concepção dual do universo: ao contrário do ser
permeável, poroso e uno, onde essências e acidentes convergiam, onde ato
e potência coincidiam indistintamente em um único evento, teremos então
a dualidade infernal de um movimento que representa sempre a superação
de si mesmo rumo a um ideal perfeito, embora não perfectível nesta existência. Outra não é a função de seu Zoroastro
moderno, que a de regressar aos rudimentos da religiosidade de Ahura Mazda
e da síntese dos opostos, vigente e natural nessas eras remotas.
É assim, desvendando o vazio conceitual e categórico da
razão filosófica, tal qual ela se desenvolveu no Ocidente, pensando os
limites mesmos do discurso produzido sobre o ser, que podemos rever sua
eficácia e seu sentido. Da
mesma forma, a poesia, fonte infinita de ambigüidades, a ponto de
podermos dizer que apenas a ambigüidade a funda e estatui seu ser no
mundo. E sua ambigüidade maior está posta como sua polaridade originária
e original: sendo a voz que canta e celebra a unidade, a Substância de
todas as substâncias, como diria o magnífico poeta brasileiro Augusto
dos Anjos, só por meio do dilaceramento do cantor é que ela se efetiva
entre os homens em toda sua plenitude e que se instaura no mundo com toda
sua glória. Loucura sagrada e divina, por paradoxal que pareça, porque
em sua dimensão ética está implicado o seu fim e não os seus meios.
Loucura que começa exatamente com a polarização da experiência humana
em um horizonte fenomênico dividido e hierarquizado, cuja pedra-de-toque
é, em primeiro lugar, Platão e, em seu encalço, o cristianismo,
entendido como platonismo para o gado, como já disse Nietzsche em tom de
polêmica desbragada.
Esse movimento de destruição epistemológica não é gratuito e muito menos tem como finalidade reduzir o pensamento a um jogo formular de frases e efeitos. Quer sim abrir uma via de acesso ao que não tinha sido pensado ou meditado pela tradição filosófica racionalista, seja ela aristotélica, cartesiana ou positivista. A partir de então o pensamento se ocupa de suas próprias margens, abre-se um leque amplo e inaugura-se um campo fecundo para uma das questões mais belas do espírito: o imponderável. Reflexão que se faz a partir do coração do próprio ato reflexivo, inserção no mundo que se dá como radicalização de uma visada transcendental, entendida aqui naquela acepção especialmente tocante que Heidegger desenvolve em sua famosa conferência na universidade de Friburg, em 1932. Entendo-se a metafísica como aquele tipo de conhecimento de um objeto onde, em última instância, o próprio sujeito que conhece está implicado e posto em xeque, eis que os limites entre razão e linguagem se desmancham, e estamos às voltas com a matéria incandescente da vida em sua nascente. Eis em suma no que consiste a queda no ser, o desvelamento do ser que emerge do Dasein, o homem recomposto e doado à sua infinitude de origem e o sujeito reconciliado com o Outro, com aquela alteridade infinita que funda a própria possibilidade de existência do Eu, enfim, o homem reconciliado com o ser, por tanto tampo esquecido, bloqueado ou obnubilado por conta de projetos escatológicos. Nessa fenda se inaugura uma nova passagem para a reconciliação de infinito e unidade. Não aquela candente e devedora de névoas da metafísica clássica, que tantas vezes eclipsaram o que há de maravilhoso em todas as religiões e ludibriaram a nossa inteligência com jogos engenhosos de sentido e com artimanhas maliciosas, mas vazios de sustentação empírica. Não aquela que se faz à revelia e à reboque do homem, oprimindo-o para poder finalmente se revelar por intermédio dele, ou, pior ainda, aquela que se refunde no homem e lhe enseja o simulacro de um poder ilimitado, fazendo dele um pequeno deus capaz de deliberar sobre o curso das coisas, dos seres e de seus próprios semelhantes. Falo da Unidade que é o reino do ser implantado neste mundo, do horizonte transcendental onde o homem se encontra como criatura que reconhece o Criador que cria por meio de suas mãos terrenas de barro sem dividi-lo ou cindi-lo ou anulá-lo em sua especificidade ontológico. Nesta dimensão, provavelmente o movimento natural do dyabolus será regressar ao ventre da terra e ao seu sono eterno, e a loucura, a hybris enfurecida, não mais será necessária para cantar o Uno, porque este já estará bem aí, onde quer que estejamos, sempre idêntico a si mesmo e coincidente conosco em cada um de nossos atos, quando suprimidas as contingências do pensamento que ainda nos prende à razão dualista que quer a qualquer custo se preservar hegemônica e ideologicamente bem estruturada no poder, para assim perpetuar o império da loucura e da destruição, por outras vias que não a da transfiguração poética. |
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Rodrigo Petronio é escritor. Autor de Transversal do Tempo (ensaios, 2002) e História Natural (poesia, 2000). Prepara novo livro de poemas a ser publicado pela editora Girafa. Este texto faz parte de O Grão e o Cosmo, novo livro de ensaios ainda sem data de publicação. Contato: rodrigopetronio@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Eduardo Leon (Venezuela). |
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