revista de cultura # 42
fortaleza, são paulo - dezembro de 2004






 

Releituras de Guimarães Rosa

Claudio Willer

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Guimarães RosaEm duas ou três ocasiões, publiquei aqui, em Agulha, escritos anteriores à existência dos arquivos no meio digital e da respectiva veiculação pela Internet. Assim, tornei disponíveis textos que existiam apenas na versão impressa, esgotados ou fora de circulação.

Um dos textos que me pareciam merecer uma reaparição é este, a seguir: meu posfácio para Sagarana de Guimarães Rosa, na edição do Círculo do Livro, de 1987, atualmente encontrável apenas em sebos e alfarrábios. Além disso, aquela edição do Círculo do Livro foi, sem dúvida, editorialmente superada pelas boas edições recentes de todo o Guimarães Rosa pela Nova Fronteira.

Leituras simbólicas de Guimarães Rosa podem ser infinitas. Depois de entregar meu posfácio ao Círculo do Livro, ainda me fixei em um trecho de “O duelo”: logo no início desse conto, é comentado “o que acontece às criaturas humanas, a 19º de latitude S. e a 44º de longitude O.” Acabei escrevendo mais um artigo, para uma revista de turismo que me havia pedido algo sobre literatura, examinando a precisão das suas demarcações geográficas: associei-a à obsessão pela nomeação de lugares, pessoas (inclusive através de apelidos), bichos, plantas (como em “São Marcos”), coisas, etc, diferenciando o mundo sertanejo, das Gerais.

Por isso, Guimarães Rosa é tão estudado e tem uma bibliografia tão rica: nele, procurando, acha-se. Sempre há assunto para novas interpretações. Inclusive por divergir de si mesmo. Por exemplo, pode-se estudar bastante seu mundo circunscrito, geograficamente delimitado - para então deparar-se com um conto como “O espelho”, em Primeiras Estórias, atópico, atemporal, fora do tempo, com um enredo situável em qualquer lugar. Ou então, pode-se escrever laudas e laudas sobre os nomes próprios, os apelidos, etc, para chegar a “A terceira margem”, onde ninguém tem nome.

Portanto, se fosse acrescentar algo ao que já escrevi, não parava mais. Guimarães Rosa desperta a obsessão da interpretação.

Mas não posso deixar de acrescentar observações, a propósito da recente publicação de algo tão importante quanto João Guimarães Rosa - Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason (1958-1967), lançado em 2003 pela Nova Fronteira, editora da UFMG e ABL.

Impressiona - assim como em João Guimarães Rosa - Correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri, também publicada pela Nova Fronteira - a amplidão cultural. Por exemplo, isso de indicar com precisão as expressões em alemão, e localizar nomes de plantas e animais. Permite, novamente, discutir seu regionalismo. Sim, tudo nele é “regional”: vocabulário, localização da ação, personagens, são todos de lá, sem dúvida. Em rodas de leitura e oficinas recentes que coordenei, em que examinamos Guimarães Rosa, tive participantes originários do Centro-Oeste de Minas e do Sul da Bahia, que me auxiliaram na decifração de termos e no esclarecimento de modos de expressar-se.

Contudo, sertanejos nunca estudaram Plotino ou Ruysbroek. Nem Cabala. Não têm uma relação intertextual com Dante Alighieri. E não conhecem a etimologia árabe ou grega dos seus vocábulos. Menos ainda, a tradução correta deles para o alemão, italiano, inglês, ou a relação de seu modo de falar com a sintaxe húngara…

Portanto, é indispensável pensar sempre, a propósito de Guimarães Rosa, em um encontro do regional e do universal, do particular e do geral.

Transcrevo ainda dois trechos desse volume de correspondência com Meyer-Clason. Neles, Guimarães Rosa resume sua poética.

“Naturalmente, nela [na tradução de Corpo de Baile por Edoardo Bizzarri] há trechos e passagens “obscuros”. Mas o Corpo de Baile tem que ter passagens obscuras! Isso é indispensável. A excessiva iluminação, geral, só no nível do raso, da vulgaridade. Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada “realidade”, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose da inevitável verdade. Precisamos também do obscuro.”

[…]

“Observo, também, que quase sempre as dúvidas decorrem do “vício” sintático, da servidão à sintaxe vulgar e rígida, doença de que todos sofremos. Duas coisas convém ter sempre presente: tudo vai para a poesia, o lugar-comum deve ter proibida a entrada, estamos é descobrindo novos territórios de sentir, do pensar, e da expressividade; as palavras valem “sozinhas”. Cada uma por si, com sua carga própria, independentes, e às combinações delas permitem-se todas as variantes e variedades.”

Observações do mesmo quilate também estão em sua correspondência com Bizzarri e na entrevista que deu para Günter Lorenz. Para completar, transcrevo um trecho de uma de suas cartas para Edoardo Bizzarri (a propósito de “Cara de Bronze”, que integra Corpo de Baile):

“Quero afirmar a Você que, quando escrevi, não foi partindo de pressupostos intelectualizantes, nem cumprindo nenhum planejamento cerebrino’cerebral deliberado. Ao contrário, tudo, ou quase tudo, foi efervescência de caos, trabalho quase ‘mediúmnico’ e elaboração subconsciente. Depois, então, do livro pronto e publicado, vim achando nele muita coisa; às vezes, coisas que se haviam urdido por si mesmas, muito milagrosamente. Muita coisa dele, livro, e muita coisa de mim mesmo.”

São trechos, esses que acabo de citar, que me lembram aquela passagem de Jorge de Lima, em Exu comeu Tarobá, dos Poemas Negros, com a proclamação pela magia, contra tudo o que não for loucura e poesia.

Chega. Se não, acabo escrevendo outro ensaio sobre Guimarães Rosa - mas sem duvidar em momento algum de que ele mesmo foi seu melhor crítico, como pode ser verificado por essas transcrições e pela leitura desses dois volumes da sua correspondência. Vamos ao texto de 1987:

 

Guimarães Rosa e Sagarana

O aparecimento de Sagarana em nossa literatura vem acompanhado por uma história que tem algo de circunstancial e de mera anedota. Por isso, é citado nas biografias de Guimarães Rosa, mas não nos estudos sobre sua obra. Trata-se do célebre concurso em que Sagarana perdeu o primeiro lugar para outro concorrente, sendo o voto de desempate, decidindo a parada contra Sagarana, dado por ninguém menos que Graciliano Ramos.

Ernesto LeónVisto sob outra ótica, o episódio se constitui em uma dessas coincidências que correspondem à noção de “acaso objetivo” dos surrealistas, a essas ocasiões em que o acaso se reveste de sentido e se torna revelador, de um modo mágico.

Resumindo a história, Sagarana foi publicado em 1946; portanto, uma estréia tardia de João Guimarães Rosa, nascido em 1908, já então com trinta e oito anos. No entanto, também é obra de sua juventude, pois sua primeira versão é de 1937, demandando sete meses de trabalho. O Sagarana que conhecemos é uma segunda versão, refeita em 1945, em outros cinco meses de trabalho. Ao terminar a primeira versão, seu autor a inscreveu, sob pseudônimo, em um importante concurso literário, para disputar o prêmio Humberto de Campos, de 1938. Na sessão final do julgamento, o corpo de jurados se dividiu entre dois concorrentes. O outro era Maria Perigosa, de Luis Jardim. Coube a Graciliano Ramos, presidente do júri, dar o voto de desempate - em favor de Maria Perigosa. [1]

O próprio Graciliano comentou o episódio, em um artigo de 1946, intitulado “Conversa de bastidores”. Nesse artigo, é reconhecida a importância de Sagarana, que acabava de ser publicado pela José Olympio. Além disso, é feita uma análise concisa, mas lúcida e até pioneira, de suas qualidades de estilo, inclusive sua amplidão vocabular, diferenciando-o de um regionalismo de busca de “raízes” que já vinha se tornando modismo.

Graciliano também revela que o texto enviado ao concurso Humberto de Campos não era exatamente a mesma obra publicada em 1946, mas sim um calhamaço de mais de quinhentas páginas (perto de mil, para outro jurado do mesmo concurso, Marques Rebelo). Nele faltariam algumas das narrativas, justamente as melhores (possivelmente “O burrinho pedrês” e “Matraga”). Em contrapartida, vinha acrescido de outras, mais fracas, mais para a crônica de reminiscências que para a narrativa épica que celebrizou Guimarães Rosa.

Cabe acrescentar, ainda, que o período de oito anos mediando entre o primeiro e o segundo Sagarana é também um período da maior importância na vida do próprio Guimarães Rosa, correspondendo a suas viagens e residência no exterior (como cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo) e, certamente, de ampliação de seu conhecimento, de aprofundamento de um aspecto mais cosmopolita e universal da sua formação cultural. E, possivelmente, do refinamento de sua visão do regional, a partir do seu distanciamento.

No entanto, ainda haveria muito a ser discutido a propósito do confronto dos dois grandes GR (curiosa, essa coincidência de iniciais) da nossa literatura. Em primeiro lugar, para julgar o acerto da decisão do júri, seria preciso resgatar Maria Perigosa de Luís Jardim do limbo, e esclarecer quais eram suas qualidades literárias. Além disso, esse confronto inicial de dois monumentos literários, que se destacam em escala mundial no panorama da produção em prosa do século XX, é exemplar, revelador e emblemático. Ambos inovaram a nossa literatura. Eles promoveram revoluções literárias, mas em direções contrárias. A de Graciliano foi no sentido da concisão e do despojamento, do texto enxuto, marcado pela “secura” já assinalada por tantos comentaristas (e que se refletia em seu comportamento pessoal). Ele foi revolucionário por haver feito isso numa época em que a tônica dominante, em nossa literatura, era o preciosismo, o rebuscamento até a verborragia dos Coelho Neto, Graça Aranha e outros (que até hoje freqüentam as antologias dadas para os estudantes, propostos como modelos de estilo).

Guimarães Rosa, por sua vez, inverte essa tendência. Embora tenha se designado como “contador de estórias”, o que menos ocupa espaço em seu texto é o desenvolvimento da narrativa numa linguagem referencial. Ele é tudo menos linear: insere histórias dentro de outras histórias, volta atrás no tempo, consegue até mesmo, como em Grande sertão - Veredas, narrar ao mesmo tempo duas seqüências opostas, sobrepondo-as. Barroco, praticante de uma estética do excesso, chega a ser delirante em sua amplidão vocabular, mas nunca preciosista. Além disso, há uma distinção fundamental a ser feita entre ele e os beletristas da geração que o precedeu, a dos Coelho Neto e Ruy Barbosa: estes usavam a amplidão vocabular de um modo elitista; o domínio de uma linguagem erudita era, na verdade, um signo de diferenciação de classes sociais, demarcando a fronteira não só entre letrados e iletrados, mas entre os detentores de algum poder e os excluídos desse poder. Já em Guimarães Rosa, temos um movimento oposto: ele traz para o texto a riqueza de uma linguagem popular, de expressões e de um idioleto regional. No entanto, mesmo essa assertiva só pode ser aceita parcialmente: Guimarães Rosa não se limitou a isso, assim como nunca foi um autor estritamente regionalista. Seu vocabulário é universal. A leitura de Sagarana mostra a coexistência das expressões sertanejas, de termos eruditos, de expressões técnicas e científicas. E, principalmente, de palavras e modalidades de locução que ele mesmo inventava. Este é um aspecto importantíssimo da obra de Guimarães Rosa, muito bem analisado por Oswaldino Marques e outros especialistas no assunto: [2] ele não foi apenas um pesquisador, reproduzindo no texto o que havia colhido, porém, muito mais, um inventor, um verdadeiro criador de linguagem, com novas palavras e originais articulações sintáticas. Como tal, um poeta, principalmente se considerarmos como elemento constitutivo da linguagem poética a imagem, tal como definida por Pierre Reverdy, como aproximação de realidades diferentes, sendo tanto mais forte a imagem quanto mais distantes forem as realidades nela aproximadas.

Mas, voltando a Rosa e Graciliano, há ainda outros antagonismos entre os dois, de caráter pessoal. Como se sabe, Graciliano foi materialista; Rosa, um religioso, carregando um rosário no bolso, obediente aos princípios e convenções do catolicismo, e ao mesmo tempo extremamente supersticioso, além de presumivelmente iniciado em altos estudos de Cabala e outras disciplinas ocultas, somando-se a seu interesse pelo budismo e outros sistemas filosófico-religiosos do Oriente. Graciliano, um militante político, marxista, homem de esquerda e de partido. Rosa, declaradamente distante da política e dos partidos, sem nunca assumir posições ideológicas explícitas. Há os aspectos mais heróicos da vida de Graciliano, ligados às perseguições que sofreu, relatados em Memórias do Cárcere. Rosa nunca teve choques com o poder (no Brasil, entenda-se, devendo ser registrada sua ação no salvamento de judeus na Alemanha nazista, atestando sua coerência no humanismo); ele transitou por governos e regimes, trabalhando no Itamaraty desde 1934, ou seja, desde a ascensão do getulismo até o regime militar, passando pelo interregno democrático de 1945-64.

A obra de Graciliano Ramos se inscreve no ciclo do romance social nordestino. Enquanto descrição das condições de vida, da miséria e espoliação nessa região, é obra de denúncia, cabendo-lhe o rótulo de “literatura social”. O nordestino nela comparece, não como “forte”, mas como oprimido (ou como opressor). E a opressão é desvendada até em seu microcosmo, no modo como se exerce na relação entre as pessoas, como em São Bernardo.

Ernesto LeónTransposta do Nordeste de Graciliano para os sertões das Gerais - a região oeste e noroeste de Minas, território desde então celebrizado como cenário das narrativas roseanas, mapa onde brilham com uma luz especial nomes como Urucuia, Paraopeba, Paracatu, sobrepondo à geografia física uma outra geografia poética -, essa mesma sociedade, baseada numa economia agrária primitiva, é por vezes idealizada e até justificada. Basta lembrar o primeiro dos contos de Sagarana, o antológico “O burrinho pedrês”. Nele, há um dono de terras, major Saulo, um líder cordial e risonho, sensível, capaz de conduzir seus boiadeiros e sua boiada vencendo a ameaça da enchente e o conflito entre seus homens. Em certa medida, o coronelismo é sacramentado. Assim como também o clientelismo, o modo como disputas eleitorais são resolvidas em “A volta do marido pródigo” e “Minha gente” as faz parecerem aspectos de uma ordem natural, contribuindo para harmonizar os conflitos expostos nessas narrativas.

É claro que Guimarães Rosa também relata condições de miséria extrema, como no pungente “Sarapalha”. E também há, em Sagarana e outras de suas obras, senhores de terra que são opressores abomináveis, com jagunços cruéis a seu serviço. No entanto, em uma narrativa como “A hora e a vez de Augusto Matraga”, a crueldade desses jagunços e desses coronéis é manifestação de um conflito cósmico, entre bem e mal tratados como entidades metafísicas e transcendentais. Tanto assim, que Matraga passa do mal para o bem através de uma típica ascese religiosa, que inclui a penitência e a expiação, até resultar no auto-conhecimento. É o caminho da gnose, da iluminação. Nesse conto, bem como em Grande sertão - veredas, jagunços, bandoleiros e boiadeiros são reencarnações de cavaleiros medievais. Seus conflitos são os mesmos de sagas e giestas heróicas, como a da busca do cálice sagrado, o Graal. Várias das narrativas de Guimarães Rosa são atravessadas pela temática da queda e da salvação. Estão corretos os que apontam paralelos entre, por exemplo, Riobaldo e Diadorim de Grande sertão - veredas e a história de Tristão e Isolda. E tudo isso é intencional, como é indicado pela escolha do nome da obra, Sagarana, uma saga. O tempo de seus personagens não é o tempo histórico, mas sim o tempo mítico, que antecede a história.

Apontar tudo o que há, em Guimarães Rosa, de discurso conservador, por ser tradicionalista, por idealizar o passado ao tentar recuperá-lo, por conferir-lhe uma dimensão mítica, por articular seus personagens a uma cosmogonia, não é incorrer em um equívoco. Mas é extremamente redutor, ao analisar apenas na superfície, no seu conteúdo mais aparente, uma obra que é rica em significados por sua multiplicidade. E, dentre esses múltiplos significados, interessa destacar alguns que lhe conferem uma dimensão política e um alcance crítico aplicável ao momento em que vivemos.

Ou seja, na ocasião desta reedição de Sagarana [1987], vale a pena tentar entrever o que esta obra traz de crítica, não à sociedade na qual se desenvolvem as histórias nela relatadas, e que foi ultrapassada pela modernidade, mas sim à própria modernidade, ao que ultrapassou e relegou a um tempo pretérito um determinado tipo de sociedade rural da primeira metade do século XX em nosso país, além de haver feito perder-se de vista o tempo mítico evocado por essas histórias.

Na tentativa de esclarecer isso, podemos começar pelo primeiro parágrafo do primeiro dos relatos de Sagarana, o consagrado “O burrinho pedrês”:

“Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão. Chamava-se Sete-de-Ouros, e já fora tão bom, como outro não existiu e nem pode haver igual”.

Ou seja, o burrinho pedrês tem uma origem, veio de Conceição do Serro ou de algum lugar próximo. Tem qualidades que o diferenciam dos demais. Tem um nome: Sete-de-Ouros. Antes desse nome, já teve outros, designando etapas de sua história, lugares por onde passou e donos que teve: Brinquinho, Rolete, Chico-Chato, Capricho, até chegar a Sete-de-Ouros. Ele tem uma identidade.

Seguindo em frente na leitura de Sagarana, encontram-se muitos outros nomes, de pessoas ou de animais de criação. Por exemplo, os cavalos e éguas do picaresco protagonista de “Corpo fechado”: Beija-Flor, Ventarola, Furta-Moça. Os bois falantes do trágico “Conversa de bois”: Brabagato, Buscapé, Namorado, Capitão, Dansador, Brilhante, realejo, Canindé.

Todos têm nomes por diferirem uns dos outros. A diferença lhes confere identidade. Boa parte de Sagarana, em alguns de seus momentos de maior força poética, é dedicada a nomear diferenças. A boiada de “O burrinho pedrês” é plural, confronto de diferenças. Seu movimento é o fluir da diversidade:

“Galhudos, gaiolos, estrelos, espácios, combucos, cubetos, lobunos, lombardos, caldeiros, cambraias, chamurros, churriados, corombos, cornetos, bocalvos, borralhos, chumbados, chitados, varejeiros, silveiros…” As reticências são colocadas pelo autor para indicar que a seqüência poderia ir muito mais longe ainda.

A diferença ainda é grifada, enfatizada, pelos trechos de cantorias populares incluídas no texto, e que funcionam como epígrafes: “Um boi preto, um boi pintado,/ cada um tem sua cor./ Cada coração tem um jeito/ de mostrar seu amor.”

Em “Minha gente”, há uma enumeração semelhante, de criações no galinheiro: “…Havia suras, transilvânias, nanicas, topetudas, calçudas; e guinés convexas, aperuadas; e peruas acucadas;…”

Comparemos essas cenas de um mundo rural tradicional com o mundo da modernidade. Hoje já seria bem mais difícil acharmos uma boiada tão diversificada como as do “Burrinho pedrês”; ou um galinheiro povoado por tantas variedades como as de “Minha gente”. Numa granja moderna, todas as galinhas são iguais, da mesma raça, padronizadas, como se produzidas em série por uma linha de montagem. Também a boiada, numa criação extensiva, por empresas do setor agrícola, nunca poderia ser assim; uma criação de bois que não fossem despersonalizados, massificados, seria anti-econômica, na economia de escala. Podemos, desde já, estabelecer um contraste entre dois mundos, o da tradição poetizada por Guimarães Rosa, e o da modernidade, ou melhor, da falsa modernidade, tal como instaurada no capitalismo periférico e dependente. Esse contraste se fundamenta na contradição entre quantidade e qualidade; entre a pluralidade, como soma de singularidades, e a massificação, que precisa de uniformidade.

Ernesto LeónÉ claro que não são apenas animais de criação os singulares, e por isso plurais, na obra Roseana. As pessoas também. Sua predileção por apelidos insólitos ou distorções de nomes próprios - Manuel Fulô, Timpim, Turíbio Todo, Tião da Thereza, Joãozinho Bem-Bem, Lalino Salãthiel, Badu, Valo Venâncio e tantos outros - são um recurso literário para, através do exagero, destacar as características específicas, a personalidade própria de cada um (assim como, talvez, o próprio hábito de apelidar, nessas sociedades).

Ao que parece, para Guimarães Rosa escrever era, antes de tudo, nomear. Literalmente, dar nomes aos bois - e também ao restante. Para ele, o mundo existia como linguagem, assim como a linguagem é mundo, e as palavras, entidades vivas e animadas:

“E não é sem assim que as palavras têm canto e plumagem”.

O melhor exemplo do delírio nominativo é a famosa série de nomes do Diabo, de Grande sertão - veredas, que merece ser transcrita aqui, por sua imponência:

“… o Cujo, o Oculto, o Tal, o Que-Diga, o Não-sei-que-Diga, o Que-não-Fala, o Que-não-Ri, o Que-nunca-se-Ri, o Sem-Gracejos, o Tristonho, o Muito-Sério, o Sempre-Sério, o Austero, o Severo-Mor, o Galhardo, o Romãozinho - um diabo-menino, o Rapaz, o Homem, o Indivíduo, Dião, Dianho, Diogo, o Pai-da-Mentira, o Pai-do-Mal, o Maligno, o Coisa-Ruim, o Tendeiro, o Mafarro, o Manfarri, o Canho, o Coxo, o Capeta, o Capiroto, o Das-trevas, o Tisnado, o Pé-Preto, o Pé-de-Pato, o Bode-Preto, o Cão, o Morcego, o Gramulhão, o Xu, o Temba, o Dubá-Dubá, o Azarape, o Dê, o Dado, o Danado, o Danador, o Arrenegado, o Dia, o Diacho, o Diabo, o Rei-Diabo, o Demo, o Demônio, o Drão, o Demonião, Barzabu, Lúcifer, Satanás, Satanazim, Satanão, Sujo (…), o Dos-Fins, o Solto-Eu, o Outro, o Ele, o O…” além de outras variantes. [3]

Nenhum desses nomes é o verdadeiro. São todos apelidos, formas oblíquas de nomeá-lo, já que dizer seu nome verdadeiro seria invocá-lo, torná-lo presente. E aqui estamos em plena magia cabalística, na qual nomear, pelo nome certo, é criar, fazer acontecer. O uso cabalístico da linguagem, como simbologia mágica, já está presente em duas das narrativas de Sagarana. Uma, o episódio de “Corpo-Fechado”, quando é relatada, tomada como verdade, uma cerimônia mágica, que torna imbatível o picaresco Fulô. A outra é “São Marcos”, um texto importante, que serve como chave para a compreensão de aspectos da obra de Guimarães Rosa. Nele, entramos em pleno domínio da bruxaria: seu protagonista não acredita em feitiçarias, estabelece um confronto com um feiticeiro rural, salva-se através de uma prece mágica. Para um dos comentaristas de Guimarães Rosa, José Carlos Garbuglio, [4] este relato conteria uma poética e uma metáfora da poesia, justamente por falar do poder da palavra, capaz de agir sobre o real. O aparente sem-sentido pode ter sentidos ocultos, insuspeitos, até para o seu enunciador, como é dito a propósito dessa enumeração cravada num bambuzal: “Sargon/ Assarhaddon/ Assurbanipal/ Teglatphalasar, Salmanassar/ Nabonid, Nabopalassar, Nabucodonosor/ Belsazar/ Senakherib.”

O relato é todo metalingüístico, pois nele há uma relação entre dois textos, ou dois discursos. Um deles, mágico, ou sobre a magia, enunciado pelos protagonistas. Outro, que equivale à linguagem da própria natureza. Momentaneamente cego, o protagonista ouve um araçari que “ensaia e reensaia discursos irônicos”; ele escuta os cantos de outros pássaros e outros ruídos de animais; sente e reconhece a vegetação, identifica cada vegetal; reconhece o terreno; vai percebendo, cada vez com maior clareza, que está em um labirinto. Recitando uma fórmula mágica, consegue sair do labirinto e livrar-se da cegueira.

Na verdade, o que Guimarães Rosa descreve, nesse texto, é a relação do homem primitivo com seu mundo, sensível e significativo, por isso mesmo possível de ser descrito e também subjugado pela linguagem mágica, cujos termos guardam relações analógicas, simpáticas, com as coisas. Assim como, em um determinado momento, os bambus são os barbudos reis assírios.

A propósito dessa relação do homem “primitivo” com seu mundo sensível, vale a pena transcrever um trecho de Octavio Paz:

“As culturas chamadas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um código de símbolos, ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, os homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a comunicação à transmissão da informação. Esquecemos que os signos são coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som, e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da ‘lógica sensível’ dos primitivos nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza de percepções: onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de associar todos esses signos, até tecer com eles séries de objetos simbólicos: o mundo convertido em uma linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com o corpo e converter a linguagem num corpo.” [5]

Essa experiência, tão bem descrita por Octavio Paz, é aquela vivida pelo protagonista de “São Marcos”, conto hermético e iniciático: a percepção da linguagem sensível, do mundo como sentido. Por isso, o relato termina com uma cena de selvageria, uma explosão de fúria: é o selvagem recuperado pelo protagonista, que agora tem o poder de usar uma fórmula mágica.

O mundo de Guimarães Rosa - ou melhor, o mundo revelado por sua obra - é singular em sua pluralidade. Por isso, é finito, tem limites e fronteiras. Seu limite equivale a um não-mundo. A demarcação de fronteiras é mais evidente no conto “O duelo”: Turíbio Todo é obrigado a parar em sua fuga, pois chegara até a “boca do sertão”, até onde seria possível avançar. Recuando diante do sertão inóspito, segue a rota contrária, e chega a São Paulo, à sociedade industrial - “o São Paulo”, como é dito nesse conto, referindo-se a tudo o que está além (ou aquém, sob nossa perspectiva) de Guaxupé. Hoje, desapareceram essas fronteiras entre mundos diferentes: cidade e campo são trechos do mesmo contínuo, da mesma extensão uniforme e cada vez mais monótona. Principalmente, desapareceram fronteiras culturais, pois todos assistem à mesma programação de TV ou de rádio FM, partilhando a mesma falsa unidade, comungando da mesma linguagem unidimensional. Metaforicamente, nossa sociedade poderia ser representada pela granja ou pela boiada da fazenda capitalista de que falamos acima: todos são iguais, não por terem ganho mais direitos, mas por haverem perdido algo de sua singularidade, da sua diferença.

Guimarães Rosa teve uma vida coerente com sua obra. Metaforicamente, tem algo do Turíbio Todo de “O duelo” e de outros de seus personagens. Atravessou as duas fronteiras. Esteve no sertão e na sociedade urbana. Encarnou o sertanejo e o cosmopolita; o médico rural e menino de Cordisburgo, e o diplomata, poliglota, dono de uma cultura imensa. Cosmopolita, mas com seu rosário no bolso e todas as suas manias e superstições. Também seu processo criativo foi assim: um confronto de dois mundos, na coexistência do transe, da possessão, e do trabalho minucioso e paciente. Em uma época de especialização e tecnocracias, destaca-se por lembrar aqueles grandes homens do Renascimento, nos quais se somava todo o saber de sua época, ao mesmo tempo magia e ciência, racionalidade e iluminação. Suas fotografias vestido de sertanejo, seu hábito de expressar-se, por exemplo na correspondência para os amigos, no mesmo estilo da sua obra literária, [6] não são atitudes exteriores. Assim como também foram coerentes suas manias. Recusava-se a dar entrevistas, e era extremamente reservado, pois não queria ser personagem mundano, deste mundo. E ao mesmo tempo emocionava-se com a aceitação de sua obra - assim como se emocionou até a morte, no episódio de sua posse na Academia e subseqüente falecimento a 19 de novembro de 1967 - por acreditar nessa obra. Não estava na política, por sentir que escrevia para outro tempo. Talvez um tempo impossível, que nunca virá a realizar-se; mas, caso venha a realizar-se, que deverá muito à genialidade com que Guimarães Rosa dialeticamente negou a linguagem unidimensional e reinstaurou a pluralidade através de sua obra.

NOTAS

1 Conforme “Perfil de Guimarães Rosa” de Renard Perez, em Em memória de Guimarães Rosa, Editora José Olímpio, 1968. Nessa coletânea também está publicado o texto de Graciliano Ramos, “Conversa de bastidores”, mencionado a seguir.

2 Oswaldino Marques, “O repertório verbal”, em Guimarães Rosa - Fortuna crítica, seleção de textos por Eduardo Faria Coutinho, Civilização Brasileira, INL, 1983. Para os interessados em ler mais sobre Guimarães Rosa, esta obra é a melhor fonte.

3 Enumeração extraída de “A busca da poesia”, de Pedro Xisto, também em Guimarães Rosa - Fortuna Crítica.

4 José Carlos Garbuglio, Guimarães Rosa, o pactário da língua, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, nº 22, USP, São Paulo, 1980.

5 Octavio Paz, Conjunções e Disjunções, Editora Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo, 1979.

6 Como em Paulo Dantas, Sagarana emotiva - Cartas de J. Guimarães Rosa. Livraria Duas Cidades, 1975, obra também interessante pelos testemunhos de Dantas e de Dora Ferreira da Silva, por sua vez autora de estudos sobre Guimarães Rosa. 

Claudio Willer é um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela).

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