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revista
de cultura # 42 |
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Releituras de Guimarães Rosa Claudio Willer
Um
dos textos que me pareciam merecer uma reaparição é este, a seguir: meu
posfácio para Sagarana de
Guimarães Rosa, na edição do Círculo do Livro, de 1987, atualmente
encontrável apenas em sebos e alfarrábios. Além disso, aquela edição
do Círculo do Livro foi, sem dúvida, editorialmente superada pelas boas
edições recentes de todo o Guimarães Rosa pela Nova Fronteira. Leituras simbólicas de Guimarães Rosa podem ser infinitas. Depois de entregar meu posfácio ao Círculo do Livro, ainda me fixei em um trecho de “O duelo”: logo no início desse conto, é comentado “o que acontece às criaturas humanas, a 19º de latitude S. e a 44º de longitude O.” Acabei escrevendo mais um artigo, para uma revista de turismo que me havia pedido algo sobre literatura, examinando a precisão das suas demarcações geográficas: associei-a à obsessão pela nomeação de lugares, pessoas (inclusive através de apelidos), bichos, plantas (como em “São Marcos”), coisas, etc, diferenciando o mundo sertanejo, das Gerais. Por
isso, Guimarães Rosa é tão estudado e tem uma bibliografia tão rica:
nele, procurando, acha-se. Sempre há assunto para novas interpretações.
Inclusive por divergir de si mesmo. Por exemplo, pode-se estudar bastante
seu mundo circunscrito, geograficamente delimitado - para então
deparar-se com um conto como “O espelho”, em Primeiras Estórias, atópico, atemporal, fora do tempo, com um
enredo situável em qualquer lugar. Ou então, pode-se escrever laudas e
laudas sobre os nomes próprios, os apelidos, etc, para chegar a “A
terceira margem”, onde ninguém tem nome. Portanto,
se fosse acrescentar algo ao que já escrevi, não parava mais. Guimarães
Rosa desperta a obsessão da interpretação. Mas
não posso deixar de acrescentar observações, a propósito da recente
publicação de algo tão importante quanto João
Guimarães Rosa - Correspondência com seu tradutor alemão Curt
Meyer-Clason (1958-1967), lançado em 2003 pela Nova Fronteira,
editora da UFMG e ABL. Impressiona
- assim como em João Guimarães Rosa - Correspondência com seu tradutor italiano
Edoardo Bizzarri, também publicada pela Nova Fronteira - a amplidão
cultural. Por exemplo, isso de indicar com precisão as expressões em
alemão, e localizar nomes de plantas e animais. Permite, novamente,
discutir seu regionalismo. Sim, tudo nele é “regional”: vocabulário,
localização da ação, personagens, são todos de lá, sem dúvida. Em
rodas de leitura e oficinas recentes que coordenei, em que examinamos
Guimarães Rosa, tive participantes originários do Centro-Oeste de Minas
e do Sul da Bahia, que me auxiliaram na decifração de termos e no
esclarecimento de modos de expressar-se. Contudo,
sertanejos nunca estudaram Plotino ou Ruysbroek. Nem Cabala. Não têm uma
relação intertextual com Dante Alighieri. E não conhecem a etimologia
árabe ou grega dos seus vocábulos. Menos ainda, a tradução correta
deles para o alemão, italiano, inglês, ou a relação de seu modo de
falar com a sintaxe húngara… Portanto,
é indispensável pensar sempre, a propósito de Guimarães Rosa, em um
encontro do regional e do universal, do particular e do geral. Transcrevo
ainda dois trechos desse volume de correspondência com Meyer-Clason.
Neles, Guimarães Rosa resume sua poética. “Naturalmente,
nela [na tradução de Corpo de Baile por Edoardo Bizzarri] há trechos e passagens
“obscuros”. Mas o Corpo de Baile tem que ter passagens obscuras! Isso
é indispensável. A excessiva iluminação, geral, só no nível do raso,
da vulgaridade. Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e
devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível,
perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada “realidade”,
que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o obscuro que o óbvio, que o
frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda
mistificação contém boa dose da inevitável verdade. Precisamos também
do obscuro.” […] “Observo,
também, que quase sempre as dúvidas decorrem do “vício” sintático,
da servidão à sintaxe vulgar e rígida, doença de que todos sofremos.
Duas coisas convém ter sempre presente: tudo vai para a poesia, o
lugar-comum deve ter proibida a entrada, estamos é descobrindo novos
territórios de sentir, do pensar, e da expressividade; as palavras valem
“sozinhas”. Cada uma por si, com sua carga própria, independentes, e
às combinações delas permitem-se todas as variantes e variedades.” Observações
do mesmo quilate também estão em sua correspondência com Bizzarri e na
entrevista que deu para Günter Lorenz. Para completar, transcrevo um
trecho de uma de suas cartas para Edoardo Bizzarri (a propósito de
“Cara de Bronze”, que integra Corpo
de Baile): “Quero
afirmar a Você que, quando escrevi, não foi partindo de pressupostos
intelectualizantes, nem cumprindo nenhum planejamento cerebrino’cerebral
deliberado. Ao contrário, tudo, ou quase tudo, foi efervescência de
caos, trabalho quase ‘mediúmnico’ e elaboração subconsciente.
Depois, então, do livro pronto e publicado, vim achando nele muita coisa;
às vezes, coisas que se haviam urdido por si mesmas, muito
milagrosamente. Muita coisa dele, livro, e muita coisa de mim mesmo.” São
trechos, esses que acabo de citar, que me lembram aquela passagem de Jorge
de Lima, em Exu comeu Tarobá,
dos Poemas Negros, com a
proclamação pela magia,
contra tudo o que não for loucura e poesia. Chega.
Se não, acabo escrevendo outro ensaio sobre Guimarães Rosa - mas sem
duvidar em momento algum de que ele mesmo foi seu melhor crítico, como
pode ser verificado por essas transcrições e pela leitura desses dois
volumes da sua correspondência. Vamos ao texto de 1987: Guimarães Rosa e Sagarana O
aparecimento de Sagarana em
nossa literatura vem acompanhado por uma história que tem algo de
circunstancial e de mera anedota. Por isso, é citado nas biografias de
Guimarães Rosa, mas não nos estudos sobre sua obra. Trata-se do célebre
concurso em que Sagarana perdeu
o primeiro lugar para outro concorrente, sendo o voto de desempate,
decidindo a parada contra Sagarana,
dado por ninguém menos que Graciliano Ramos.
Resumindo
a história, Sagarana foi
publicado em 1946; portanto, uma estréia tardia de João Guimarães Rosa,
nascido em 1908, já então com trinta e oito anos. No entanto, também é
obra de sua juventude, pois sua primeira versão é de 1937, demandando
sete meses de trabalho. O Sagarana
que conhecemos é uma segunda versão, refeita em 1945, em outros cinco
meses de trabalho. Ao terminar a primeira versão, seu autor a inscreveu,
sob pseudônimo, em um importante concurso literário, para disputar o prêmio
Humberto de Campos, de 1938. Na sessão final do julgamento, o corpo de
jurados se dividiu entre dois concorrentes. O outro era Maria
Perigosa, de Luis Jardim. Coube a Graciliano Ramos, presidente do júri,
dar o voto de desempate - em favor de Maria
Perigosa. [1] O
próprio Graciliano comentou o episódio, em um artigo de 1946, intitulado
“Conversa de bastidores”. Nesse artigo, é reconhecida a importância
de Sagarana, que acabava de ser publicado pela José Olympio. Além
disso, é feita uma análise concisa, mas lúcida e até pioneira, de suas
qualidades de estilo, inclusive sua amplidão vocabular, diferenciando-o
de um regionalismo de busca de “raízes” que já vinha se tornando
modismo. Graciliano
também revela que o texto enviado ao concurso Humberto de Campos não era
exatamente a mesma obra publicada em 1946, mas sim um calhamaço de mais
de quinhentas páginas (perto de mil, para outro jurado do mesmo concurso,
Marques Rebelo). Nele faltariam algumas das narrativas, justamente as
melhores (possivelmente “O burrinho pedrês” e “Matraga”). Em
contrapartida, vinha acrescido de outras, mais fracas, mais para a crônica
de reminiscências que para a narrativa épica que celebrizou Guimarães
Rosa. Cabe
acrescentar, ainda, que o período de oito anos mediando entre o primeiro
e o segundo Sagarana é também
um período da maior importância na vida do próprio Guimarães Rosa,
correspondendo a suas viagens e residência no exterior (como cônsul-adjunto
do Brasil em Hamburgo) e, certamente, de ampliação de seu conhecimento,
de aprofundamento de um aspecto mais cosmopolita e universal da sua formação
cultural. E, possivelmente, do refinamento de sua visão do regional, a
partir do seu distanciamento. No
entanto, ainda haveria muito a ser discutido a propósito do confronto dos
dois grandes GR (curiosa, essa coincidência de iniciais) da nossa
literatura. Em primeiro lugar, para julgar o acerto da decisão do júri,
seria preciso resgatar Maria Perigosa de Luís Jardim do limbo, e
esclarecer quais eram suas qualidades literárias. Além disso, esse
confronto inicial de dois monumentos literários, que se destacam em
escala mundial no panorama da produção em prosa do século XX, é
exemplar, revelador e emblemático. Ambos inovaram a nossa literatura.
Eles promoveram revoluções literárias, mas em direções contrárias. A
de Graciliano foi no sentido da concisão e do despojamento, do texto
enxuto, marcado pela “secura” já assinalada por tantos comentaristas
(e que se refletia em seu comportamento pessoal). Ele foi revolucionário
por haver feito isso numa época em que a tônica dominante, em nossa
literatura, era o preciosismo, o rebuscamento até a verborragia dos
Coelho Neto, Graça Aranha e outros (que até hoje freqüentam as
antologias dadas para os estudantes, propostos como modelos de estilo). Guimarães
Rosa, por sua vez, inverte essa tendência. Embora tenha se designado como
“contador de estórias”, o que menos ocupa espaço em seu texto é o
desenvolvimento da narrativa numa linguagem referencial. Ele é tudo menos
linear: insere histórias dentro de outras histórias, volta atrás no
tempo, consegue até mesmo, como em Grande
sertão - Veredas, narrar ao mesmo tempo duas seqüências opostas,
sobrepondo-as. Barroco, praticante de uma estética do excesso, chega a
ser delirante em sua amplidão vocabular, mas nunca preciosista. Além
disso, há uma distinção fundamental a ser feita entre ele e os
beletristas da geração que o precedeu, a dos Coelho Neto e Ruy Barbosa:
estes usavam a amplidão vocabular de um modo elitista; o domínio de uma
linguagem erudita era, na verdade, um signo de diferenciação de classes
sociais, demarcando a fronteira não só entre letrados e iletrados, mas
entre os detentores de algum poder e os excluídos desse poder. Já em
Guimarães Rosa, temos um movimento oposto: ele traz para o texto a
riqueza de uma linguagem popular, de expressões e de um idioleto
regional. No entanto, mesmo essa assertiva só pode ser aceita
parcialmente: Guimarães Rosa não se limitou a isso, assim como nunca foi
um autor estritamente regionalista. Seu vocabulário é universal. A
leitura de Sagarana mostra a coexistência das expressões sertanejas, de
termos eruditos, de expressões técnicas e científicas. E,
principalmente, de palavras e modalidades de locução que ele mesmo
inventava. Este é um aspecto importantíssimo da obra de Guimarães Rosa,
muito bem analisado por Oswaldino Marques e outros especialistas no
assunto: [2] ele não foi apenas um pesquisador, reproduzindo no texto o
que havia colhido, porém, muito mais, um inventor, um verdadeiro criador
de linguagem, com novas palavras e originais articulações sintáticas.
Como tal, um poeta, principalmente se considerarmos como elemento
constitutivo da linguagem poética a imagem, tal como definida por Pierre
Reverdy, como aproximação de realidades diferentes, sendo tanto mais
forte a imagem quanto mais distantes forem as realidades nela aproximadas. Mas,
voltando a Rosa e Graciliano, há ainda outros antagonismos entre os dois,
de caráter pessoal. Como se sabe, Graciliano foi materialista; Rosa, um
religioso, carregando um rosário no bolso, obediente aos princípios e
convenções do catolicismo, e ao mesmo tempo extremamente supersticioso,
além de presumivelmente iniciado em altos estudos de Cabala e outras
disciplinas ocultas, somando-se a seu interesse pelo budismo e outros
sistemas filosófico-religiosos do Oriente. Graciliano, um militante político,
marxista, homem de esquerda e de partido. Rosa, declaradamente distante da
política e dos partidos, sem nunca assumir posições ideológicas explícitas.
Há os aspectos mais heróicos da vida de Graciliano, ligados às perseguições
que sofreu, relatados em Memórias
do Cárcere. Rosa nunca teve choques com o poder (no Brasil,
entenda-se, devendo ser registrada sua ação no salvamento de judeus na
Alemanha nazista, atestando sua coerência no humanismo); ele transitou
por governos e regimes, trabalhando no Itamaraty desde 1934, ou seja,
desde a ascensão do getulismo até o regime militar, passando pelo
interregno democrático de 1945-64. A
obra de Graciliano Ramos se inscreve no ciclo do romance social
nordestino. Enquanto descrição das condições de vida, da miséria e
espoliação nessa região, é obra de denúncia, cabendo-lhe o rótulo de
“literatura social”. O nordestino nela comparece, não como
“forte”, mas como oprimido (ou como opressor). E a opressão é
desvendada até em seu microcosmo, no modo como se exerce na relação
entre as pessoas, como em São
Bernardo.
É
claro que Guimarães Rosa também relata condições de miséria extrema,
como no pungente “Sarapalha”. E também há, em Sagarana
e outras de suas obras, senhores de terra que são opressores abomináveis,
com jagunços cruéis a seu serviço. No entanto, em uma narrativa como
“A hora e a vez de Augusto Matraga”, a crueldade desses jagunços e
desses coronéis é manifestação de um conflito cósmico, entre bem e
mal tratados como entidades metafísicas e transcendentais. Tanto assim,
que Matraga passa do mal para o bem através de uma típica ascese
religiosa, que inclui a penitência e a expiação, até resultar no
auto-conhecimento. É o caminho da gnose, da iluminação. Nesse conto,
bem como em Grande sertão -
veredas, jagunços, bandoleiros e boiadeiros são reencarnações de
cavaleiros medievais. Seus conflitos são os mesmos de sagas e giestas heróicas,
como a da busca do cálice sagrado, o Graal. Várias das narrativas de
Guimarães Rosa são atravessadas pela temática da queda e da salvação.
Estão corretos os que apontam paralelos entre, por exemplo, Riobaldo e
Diadorim de Grande sertão - veredas
e a história de Tristão e Isolda. E tudo isso é intencional, como é
indicado pela escolha do nome da obra, Sagarana,
uma saga. O tempo de seus personagens não é o tempo histórico, mas sim
o tempo mítico, que antecede a história. Apontar
tudo o que há, em Guimarães Rosa, de discurso conservador, por ser
tradicionalista, por idealizar o passado ao tentar recuperá-lo, por
conferir-lhe uma dimensão mítica, por articular seus personagens a uma
cosmogonia, não é incorrer em um equívoco. Mas é extremamente redutor,
ao analisar apenas na superfície, no seu conteúdo mais aparente, uma
obra que é rica em significados por sua multiplicidade. E, dentre esses múltiplos
significados, interessa destacar alguns que lhe conferem uma dimensão política
e um alcance crítico aplicável ao momento em que vivemos. Ou
seja, na ocasião desta reedição de Sagarana [1987], vale a pena tentar entrever o que esta obra traz
de crítica, não à sociedade na qual se desenvolvem as histórias nela
relatadas, e que foi ultrapassada pela modernidade, mas sim à própria
modernidade, ao que ultrapassou e relegou a um tempo pretérito um
determinado tipo de sociedade rural da primeira metade do século XX em
nosso país, além de haver feito perder-se de vista o tempo mítico
evocado por essas histórias. Na
tentativa de esclarecer isso, podemos começar pelo primeiro parágrafo do
primeiro dos relatos de Sagarana, o consagrado “O burrinho pedrês”: “Era
um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo, Conceição
do Serro, ou não sei onde no sertão. Chamava-se Sete-de-Ouros, e já
fora tão bom, como outro não existiu e nem pode haver igual”. Ou
seja, o burrinho pedrês tem uma origem, veio de Conceição do Serro ou
de algum lugar próximo. Tem qualidades que o diferenciam dos demais. Tem
um nome: Sete-de-Ouros. Antes desse nome, já teve outros, designando
etapas de sua história, lugares por onde passou e donos que teve:
Brinquinho, Rolete, Chico-Chato, Capricho, até chegar a Sete-de-Ouros.
Ele tem uma identidade. Seguindo
em frente na leitura de Sagarana, encontram-se muitos outros nomes, de pessoas ou de animais
de criação. Por exemplo, os cavalos e éguas do picaresco protagonista
de “Corpo fechado”: Beija-Flor, Ventarola, Furta-Moça. Os bois
falantes do trágico “Conversa de bois”: Brabagato, Buscapé,
Namorado, Capitão, Dansador, Brilhante, realejo, Canindé. Todos
têm nomes por diferirem uns dos outros. A diferença lhes confere
identidade. Boa parte de Sagarana,
em alguns de seus momentos de maior força poética, é dedicada a nomear
diferenças. A boiada de “O burrinho pedrês” é plural, confronto de
diferenças. Seu movimento é o fluir da diversidade: “Galhudos,
gaiolos, estrelos, espácios, combucos, cubetos, lobunos, lombardos,
caldeiros, cambraias, chamurros, churriados, corombos, cornetos, bocalvos,
borralhos, chumbados, chitados, varejeiros, silveiros…” As reticências
são colocadas pelo autor para indicar que a seqüência poderia ir muito
mais longe ainda. A
diferença ainda é grifada, enfatizada, pelos trechos de cantorias
populares incluídas no texto, e que funcionam como epígrafes: “Um boi
preto, um boi pintado,/ cada um tem sua cor./ Cada coração tem um jeito/
de mostrar seu amor.” Em
“Minha gente”, há uma enumeração semelhante, de criações no
galinheiro: “…Havia suras, transilvânias, nanicas, topetudas, calçudas;
e guinés convexas, aperuadas; e peruas acucadas;…” Comparemos
essas cenas de um mundo rural tradicional com o mundo da modernidade. Hoje
já seria bem mais difícil acharmos uma boiada tão diversificada como as
do “Burrinho pedrês”; ou um galinheiro povoado por tantas variedades
como as de “Minha gente”. Numa granja moderna, todas as galinhas são
iguais, da mesma raça, padronizadas, como se produzidas em série por uma
linha de montagem. Também a boiada, numa criação extensiva, por
empresas do setor agrícola, nunca poderia ser assim; uma criação de
bois que não fossem despersonalizados, massificados, seria anti-econômica,
na economia de escala. Podemos, desde já, estabelecer um contraste entre
dois mundos, o da tradição poetizada por Guimarães Rosa, e o da
modernidade, ou melhor, da falsa modernidade, tal como instaurada no
capitalismo periférico e dependente. Esse contraste se fundamenta na
contradição entre quantidade e qualidade; entre a pluralidade, como soma
de singularidades, e a massificação, que precisa de uniformidade.
Ao
que parece, para Guimarães Rosa escrever era, antes de tudo, nomear.
Literalmente, dar nomes aos bois - e também ao restante. Para ele, o
mundo existia como linguagem, assim como a linguagem é mundo, e as
palavras, entidades vivas e animadas: “E
não é sem assim que as palavras têm canto e plumagem”. O
melhor exemplo do delírio nominativo é a famosa série de nomes do
Diabo, de Grande sertão - veredas,
que merece ser transcrita aqui, por sua imponência: “…
o Cujo, o Oculto, o Tal, o Que-Diga, o Não-sei-que-Diga, o Que-não-Fala,
o Que-não-Ri, o Que-nunca-se-Ri, o Sem-Gracejos, o Tristonho, o Muito-Sério,
o Sempre-Sério, o Austero, o Severo-Mor, o Galhardo, o Romãozinho - um
diabo-menino, o Rapaz, o Homem, o Indivíduo, Dião, Dianho, Diogo, o
Pai-da-Mentira, o Pai-do-Mal, o Maligno, o Coisa-Ruim, o Tendeiro, o
Mafarro, o Manfarri, o Canho, o Coxo, o Capeta, o Capiroto, o Das-trevas,
o Tisnado, o Pé-Preto, o Pé-de-Pato, o Bode-Preto, o Cão, o Morcego, o
Gramulhão, o Xu, o Temba, o Dubá-Dubá, o Azarape, o Dê, o Dado, o
Danado, o Danador, o Arrenegado, o Dia, o Diacho, o Diabo, o Rei-Diabo, o
Demo, o Demônio, o Drão, o Demonião, Barzabu, Lúcifer, Satanás,
Satanazim, Satanão, Sujo (…), o Dos-Fins, o Solto-Eu, o Outro, o Ele, o
O…” além de outras variantes. [3] Nenhum
desses nomes é o verdadeiro. São todos apelidos, formas oblíquas de
nomeá-lo, já que dizer seu nome verdadeiro seria invocá-lo, torná-lo
presente. E aqui estamos em plena magia cabalística, na qual nomear, pelo
nome certo, é criar, fazer acontecer. O uso cabalístico da linguagem,
como simbologia mágica, já está presente em duas das narrativas de Sagarana.
Uma, o episódio de “Corpo-Fechado”, quando é relatada, tomada como
verdade, uma cerimônia mágica, que torna imbatível o picaresco Fulô. A
outra é “São Marcos”, um texto importante, que serve como chave para
a compreensão de aspectos da obra de Guimarães Rosa. Nele, entramos em
pleno domínio da bruxaria: seu protagonista não acredita em feitiçarias,
estabelece um confronto com um feiticeiro rural, salva-se através de uma
prece mágica. Para um dos comentaristas de Guimarães Rosa, José Carlos
Garbuglio, [4] este relato conteria uma poética e uma metáfora da
poesia, justamente por falar do poder da palavra, capaz de agir sobre o
real. O aparente sem-sentido pode ter sentidos ocultos, insuspeitos, até
para o seu enunciador, como é dito a propósito dessa enumeração
cravada num bambuzal: “Sargon/ Assarhaddon/ Assurbanipal/
Teglatphalasar, Salmanassar/ Nabonid, Nabopalassar, Nabucodonosor/
Belsazar/ Senakherib.” O
relato é todo metalingüístico, pois nele há uma relação entre dois
textos, ou dois discursos. Um deles, mágico, ou sobre a magia, enunciado
pelos protagonistas. Outro, que equivale à linguagem da própria
natureza. Momentaneamente cego, o protagonista ouve um araçari que
“ensaia e reensaia discursos irônicos”; ele escuta os cantos de
outros pássaros e outros ruídos de animais; sente e reconhece a vegetação,
identifica cada vegetal; reconhece o terreno; vai percebendo, cada vez com
maior clareza, que está em um labirinto. Recitando uma fórmula mágica,
consegue sair do labirinto e livrar-se da cegueira. Na
verdade, o que Guimarães Rosa descreve, nesse texto, é a relação do
homem primitivo com seu mundo, sensível e significativo, por isso mesmo
possível de ser descrito e também subjugado pela linguagem mágica,
cujos termos guardam relações analógicas, simpáticas, com as coisas.
Assim como, em um determinado momento, os bambus
são os barbudos reis assírios. A
propósito dessa relação do homem “primitivo” com seu mundo sensível,
vale a pena transcrever um trecho de Octavio Paz: “As
culturas chamadas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos
que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um código de símbolos, ao
mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da
linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, os homens
modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a
comunicação à transmissão da informação. Esquecemos que os signos são
coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma
informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o
sabor, o som, e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da
‘lógica sensível’ dos primitivos nos fascina por sua precisão
intelectual; não é menos extraordinária a riqueza de percepções: onde
um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe
uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de
associar todos esses signos, até tecer com eles séries de objetos simbólicos:
o mundo convertido em uma linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com
o corpo e converter a linguagem num corpo.” [5] Essa
experiência, tão bem descrita por Octavio Paz, é aquela vivida pelo
protagonista de “São Marcos”, conto hermético e iniciático: a
percepção da linguagem sensível, do mundo como sentido. Por isso, o
relato termina com uma cena de selvageria, uma explosão de fúria: é o
selvagem recuperado pelo protagonista, que agora tem o poder de usar uma fórmula
mágica. O
mundo de Guimarães Rosa - ou melhor, o mundo revelado por sua obra - é
singular em sua pluralidade. Por isso, é finito, tem limites e
fronteiras. Seu limite equivale a um não-mundo. A demarcação de
fronteiras é mais evidente no conto “O duelo”: Turíbio Todo é
obrigado a parar em sua fuga, pois chegara até a “boca do sertão”,
até onde seria possível avançar. Recuando diante do sertão inóspito,
segue a rota contrária, e chega a São Paulo, à sociedade industrial -
“o São Paulo”, como é dito nesse conto, referindo-se a tudo o que
está além (ou aquém, sob nossa perspectiva) de Guaxupé. Hoje,
desapareceram essas fronteiras entre mundos diferentes: cidade e campo são
trechos do mesmo contínuo, da mesma extensão uniforme e cada vez mais
monótona. Principalmente, desapareceram fronteiras culturais, pois todos
assistem à mesma programação de TV ou de rádio FM, partilhando a mesma
falsa unidade, comungando da mesma linguagem unidimensional.
Metaforicamente, nossa sociedade poderia ser representada pela granja ou
pela boiada da fazenda capitalista de que falamos acima: todos são
iguais, não por terem ganho mais direitos, mas por haverem perdido algo
de sua singularidade, da sua diferença. Guimarães
Rosa teve uma vida coerente com sua obra. Metaforicamente, tem algo do Turíbio
Todo de “O duelo” e de outros de seus personagens. Atravessou as duas
fronteiras. Esteve no sertão e na sociedade urbana. Encarnou o sertanejo
e o cosmopolita; o médico rural e menino de Cordisburgo, e o diplomata,
poliglota, dono de uma cultura imensa. Cosmopolita, mas com seu rosário
no bolso e todas as suas manias e superstições. Também seu processo
criativo foi assim: um confronto de dois mundos, na coexistência do
transe, da possessão, e do trabalho minucioso e paciente. Em uma época
de especialização e tecnocracias, destaca-se por lembrar aqueles grandes
homens do Renascimento, nos quais se somava todo o saber de sua época, ao
mesmo tempo magia e ciência, racionalidade e iluminação. Suas
fotografias vestido de sertanejo, seu hábito de expressar-se, por exemplo
na correspondência para os amigos, no mesmo estilo da sua obra literária,
[6] não são atitudes exteriores. Assim como também foram coerentes suas
manias. Recusava-se a dar entrevistas, e era extremamente reservado, pois
não queria ser personagem mundano, deste mundo. E ao mesmo tempo
emocionava-se com a aceitação de sua obra - assim como se emocionou até
a morte, no episódio de sua posse na Academia e subseqüente falecimento
a 19 de novembro de 1967 - por acreditar nessa obra. Não estava na política,
por sentir que escrevia para outro tempo. Talvez um tempo impossível, que
nunca virá a realizar-se; mas, caso venha a realizar-se, que deverá
muito à genialidade com que Guimarães Rosa dialeticamente negou a
linguagem unidimensional e reinstaurou a pluralidade através de sua obra. NOTAS 1
Conforme “Perfil de Guimarães Rosa” de Renard Perez, em Em
memória de Guimarães Rosa, Editora José Olímpio, 1968. Nessa coletânea
também está publicado o texto de Graciliano Ramos, “Conversa de
bastidores”, mencionado a seguir. 2
Oswaldino Marques, “O repertório verbal”, em Guimarães Rosa -
Fortuna crítica, seleção de textos por Eduardo Faria Coutinho, Civilização
Brasileira, INL, 1983. Para os interessados em ler mais sobre Guimarães
Rosa, esta obra é a melhor fonte. 3
Enumeração extraída de “A busca da poesia”, de Pedro Xisto, também
em Guimarães Rosa - Fortuna Crítica. 4
José Carlos Garbuglio, Guimarães Rosa, o pactário da língua, Revista
do Instituto de Estudos Brasileiros, nº 22, USP, São Paulo, 1980. 5
Octavio Paz, Conjunções e Disjunções,
Editora Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo, 1979. 6
Como em Paulo Dantas, Sagarana
emotiva - Cartas de J. Guimarães Rosa. Livraria Duas Cidades, 1975,
obra também interessante pelos testemunhos de Dantas e de Dora Ferreira
da Silva, por sua vez autora de estudos sobre Guimarães Rosa. |
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Claudio Willer é um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ernesto León (Venezuela). |
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