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revista
de cultura # 42 |
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O que Antoni Tàpies nos grava Luigi Augusto de Oliveira
A busca, o experimentalismo de Tàpies não é estético,
mas metafísico ou existencial, afirma um professor de filosofia francês
no vídeo instalado no segundo andar, que retratou, com o inextirpável
caráter de brevidade superficial dos meios televisivos, o artista e a
obra para os telespectadores espanhóis e franceses. Mas há chance de que
superficialidade, algumas vezes, não queira dizer superfluidade – ao
menos quando não se trata de uma TV do tipo outdoor,
comercial e aberta –, e este é um destes raríssimos casos. Sendo boa
sugestão, portanto, a de que o visitante, após haver iniciado a visita
pelo subsolo, onde a apresentação oficial-cronológia do artista
(praticamente inevitável nestes centros culturais-vitrine) é acompanhada
pela seqüência de cartazes de suas exposições, dirija-se ao segundo
andar e assista ao documentário, antes de ver as pinturas neste andar e
as gravuras no terceiro, ao contrário do que lhe poderia provavelmente
sugerir a ascensorista, o guia turístico em caso de excursão, ou o seu
próprio espírito ferreamente prático e apressado, numa cidade
impregnantemente idem. Ora, as gravuras, como quase sempre, são mais difíceis de
apreciar que as pinturas, sendo conveniente portanto chegar a elas com o
espírito já melhor habituado ao universo íntimo, ao vocabulário plástico
ou ao menos às propostas do artista. E, ademais, não existirá talvez
nada mais eficiente para aniquilar as chances de uma efetiva apreciação
ou absorção artística do que um fanatismo pragmático, movido a rituais
ocos e pretensões de naturalidade, como todo fanatismo.
Os rituais e as pretensões da arte são outros – em
certo sentido piores, já que maiores ou muito mais exigentes em termos de
concentração ou (é a mesma coisa) fé consciente sustentada; tanto mais
quanto, ao redor, toda a esmagadora sobreposição de habitats
e ruínas de habitats
metropolitanos prega e impõe exatamente a fé contrária, do
egopragmatismo “natural” – fé segundo a qual toda arte não
“aplicada” ou aplicável, que insista em não adequar-se aos parâmetros
dos mais eficazes usos decorativos ou de status,
propagandísticos ou financeiro-colecionistas, auto-indulgentes ou de mútuo-indulgência
de classe, não passa mesmo, no fundo, é de frescura. Mas, supondo que o visitante, vencidos os obstáculos desta
ordem, o espírito límpido ao menos das preconcepções mais plúmbeas e
agrilhoantes, veja-se então ante o pequeno conjunto de pinturas de Tàpies
no segundo andar – pode ser que descubra a aguardá-lo espanto de igual
teor ao daquele que me aguardava: pela constatação de como e o quanto
podem, obras não-figurativas, integralmente abstratas (já que, se fazem
uso de figuras ou fragmentos de figuras, é apenas com o fito de desconfigurá-las pelo estranhamento ou pela ironia), provocarem tão
nítida sensação de violência, de sofrimento e de enfrentamento. Violência nos dois sentidos: social, imposta pelos
contextos, e íntima, sorvida com ou sem vaga e incerta percepção disto,
e da mesma forma reproduzida em auto-agressão e agressão, em
espelhamento entranhado e cristalizador das deformações inerentes a este
ciclo vicioso. Sofrimento, no caso, não no restrito sentido de se sofrer
propriamente, mas no de constatar que isto existe e é tamanho, e é
dominante e onipresente, ou seja, que a realidade é isso. E a sensação do enfrentamento, então, é em análogo
sentido que se constrói, isto é, não se trata de (ou pouco importa a)
mera percepção ou lembrança dos enfrentamentos que o autor realizou e
manteve (a resistência à ditadura franquista e às ideologias partidárias),
no sentido barato de motivação pelo exemplo ou inspiração de espécie
“auto-ajudiana”, mas sim de que isto existe, esta possibilidade é
real, ainda que sujeita ao mesmo foco do espelhamento da violência, ou é
real justamente por isso, porque assim pode, em palpável alternativa,
deformá-la também, em suma: constatação de que a realidade é também
isso. A
pintura suja está delineada com ambigüidade, declara o autor; a
realidade não surge no quadro, configura-se antes dentro da cabeça do
observador através de associações. Menos “sujas”, menos
configurativas até pelo simples fato de serem de menor tamanho que os
quadros de pinturas, não podendo, em regra, contar com o caráter
impactante destes, as gravuras me acabaram parecendo, talvez por isso
mesmo, mais poderosamente ambíguas que as pinturas. A sensação de violência que suscitam é mais íntima;
mais penosa, não no sentido social ou externalizado de piedade ou
autopiedade, mas por deixar mais claro que advém, sobretudo, e depende, e
sustenta-se, não de instâncias externas, que seriam comumente menos difíceis
de identificar e, assim, de enfrentar ou ao menos de conseguir
convencer-se de que enfrenta ou poderia fazê-lo se de fato o quisesse,
porém de instâncias de dentro, que apenas muito parcamente, nos melhores
casos, se consegue ao menos supor quais são, em que consistem, e nisso
acreditar, ocasionalmente e com desconfiança.
Uma aspiração humana que seria de se considerar, à
primeira vista, natural ou comum à grande maioria, mas que parece ter
sido detalhadamente apagada dos espíritos pelas contemporâneas cooptações
ideológico-tecnológicas ou consumistas e pseudo-hedonistas, é a de saber
discriminar entre duas coisas iguais, e saber enxergar o parecido entre
duas coisas diferentes; aspiração que ganhou ares de nobreza quando,
no século XIX, expressa por Goethe. Será por certo de forma bastante paradoxal que uma arte
abstrata, que o enfrentamento que esta consegue, de algum modo, expor à
sensação e à intimidade dos espíritos que podem contemplá-la, haverá
de oferecer alento e energia uma tal aspiração. O pouco que, em termos de estruturas geométricas,
reconhecemos nas telas – letras, como A, X, Y, T, V, S, Z; desenhos que
parecem de alguma forma combinar-se entre si a partir destas, em estrutura
irregulares, mas inter-identificadas, como nas pinturas rupestres – só
em consideração demasiado superficial nos ofereceria percepção das
identidades e diferenças; se isso fosse tudo, nada nos ficaria na memória,
não se passaria a uma percepção estética. Em suma, não se trata
disso. O parecido entre
coisas diferentes haveria então de formar-se em nós, como sensação
estabilizada, não da percepção direta dessa todavia bela materialidade
dos quadros de Tàpies – as formas, cores, as tonalidades e os ritmos
sensuais, reforçados pela marcação de contrastes –, mas de uma instância
perceptiva de segunda ordem: na qual nos é expresso, justamente, o fato
de haver, a pairar sobre tudo, a todas as coisas moldar e penetrar, a violência
e o sofrimento. E a conseqüente – e angustiosamente inafastável –
necessidade de enfrentamento, sempre. Em
minha obra, a dor é perceptível como em todas as coisas da vida,
disse o artista numa entrevista. Mas
também há maneiras de aliviar esta dor: tenho buscado um sistema, umas
imagens que afetem a consciência do espectador e o conduzam a um estado
mais sereno – ou amoroso. Talvez a violência advenha – e de modo
tão marcante à percepção do espectador contemporâneo – pela expressão
crua e impiedosa dos buracos, das distâncias e abismos entre a identidade
do ato de sentir e da coisa que se percebe sentida. Mas foi isso (ou só
isso) que sentimos? - pensamos. E parece muito pouco, vazio, irrisório
mesmo, frente à potência cuja presença, nebulosamente, recordamos no
ato de sentir... Mas nem sequer saímos do prédio no qual ocorre a
mostra, do andar – ou às vezes da sala – e já se esvaneceu. O
percebido – todas as coisas – é apenas homogeneidade insossa.
Fugidia ainda mais quando – nem precisamos sair do prédio,
sequer da sala – tudo ao redor, todo o clima
tido por a realidade,
“natural”, lhe é oposto. Uma das melhores séries de gravuras da mostra constitui a
ilustração de um livro de bibliófilo com poemas de Octavio Paz, Petrificada
petrificante, e foi este quem observou, em Posdata:
“Fortalecer o status quo é
fortalecer um sistema que cresce e se estende às expensas dos homens que
os alimentam: à medida que aumenta sua realidade, aumenta nossa
irrealidade”. (E segundo Eliade, para o homem das comunidades
tradicionais, o religioso de fato, o espaço que não era manifestação
do sagrado não passava de uma não-realidade
– literalmente, infundada.)
E Paz teve a lucidez de concluir: “A ataraxia, o estado de equânime
insensibilidade que os estóicos acreditavam alcançar pelo domínio das
paixões, a sociedade tecnológica a distribui entre todos como uma panacéia.
Não nos cura da desdita que é ser homem, mas nos gratifica com um
estupor feito de resignação satisfeita e que não exclui a atividade
febril”. Talvez esteja aí o móvel e o sentido maior do
enfrentamento que as obras de Tàpies expressam, e da intensidade que,
para além da notória intensidade visual, nos impressiona. E também aí,
e não por coincidência, o sentido de discriminar
entre coisas iguais, para cuja aspiração, em nós, esse
enfrentamento nos inspira e nos infunde energia. Que mais é o “estado
amoroso”, ou o ver amoroso,
senão o de perceber cada coisa (e pessoa) na sua individualidade,
recusando uma sensitividade homogeneizada mediante a resignação
“satisfeita”, a “gratificação” estuporante? Ver outra coisa,
olhar para o que as garantias do status quo não predizem ou recomendam, ou (melhor ainda) sequer
esperam: daí talvez o que melhor explica a densa atenção do artista
naquilo que constitui signos gráficos do negligenciado: rastros e
pegadas, manchas, riscos, rastos de inscrições e garatujas nos muros. Instalar-se num território equivale, em última instância, a consagrá-lo, diz Eliade. É um alívio constatar haver uma obra inequivocamente contemporânea, como a de Tàpies (o diálogo que estabelece com a pintura moderna, e ainda com outras manifestações “primitivas” ou estranhas à arte tradicionalmente reconhecida, é evidente o bastante), preocupando-se não em ser uma instalação – mas em inspirar a nós que nos instalemos num espaço, que o habitemos de fato. ‘Situar-se’ num lugar, organizá-lo, habitá-lo – são ações que pressupõem uma escolha existencial: a escolha do Universo que se está pronto a assumir ‘criando-o’. |
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Luigi Augusto de Oliveira (Brasil, 1969). Poeta e
romancista. Autor de livros como Dalma, na rede (1997), Solo
para ti (2001), e Crucial e vão (2001). Contato: luigioliveira@yahoo.com.
Página ilustrada com obras de Antoni Tàpies (Espanha). |
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