Mario Maffioli Mario Maffioli
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revista de cultura # 43
fortaleza, são paulo - janeiro de 200
5

Mario Maffioli

editorial

Eternamente mão única

1.

Um tema da hora, motivo de preocupação, é o Mercosul. Quais serão suas perspectivas? Avança ou retrocede? Corre risco de acabar? A discussão é exclusivamente comercial. Fala-se de proteção a geladeiras, máquinas de lavar, carne, trigo. Não se toca em publicações, espetáculos, mostras, circulação de informação. Sob o aspecto cultural, o Mercosul não é um zero absoluto: ocorre regulamente a Bienal do Mercosul, tem havido encontros de autores, distribuição comercial de filmes e até sua veiculação na TV progrediu. Mas a cultura nem sequer foi incluída nos acordos que lhe deram origem. Quanto a espetáculos, a agenda brasileira deste ano é francesa, ou, antes, parisiense: como o Brasil vai ser objeto de homenagens na França, todo mundo vai lá, ou vai tentar estar lá. Carnaval em Paris. Novamente.

2.

Já foi comentada aqui, em Agulha – na edição anterior, de número 42 – a publicação de João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason (Nova Fronteira, ABL, UFMG, 2003), por sua importância para se entender melhor a poética do autor de Grande Sertão: Veredas. Mas o livro também toca em questões de política cultural. Bem ao final da série de cartas, a 11 de julho de 1967, Meyer-Clason diz que gostaria de preparar uma antologia de poesia brasileira. A dificuldade para levar o projeto a bom termo é econômica. Esclarece Meyer-Clason: “Para uma antologia de Cabral (selecionada por mim), mais apêndices e uma longa introdução, recebi 1.300,00 marcos [...], mas gastei mais de 4.000,00 marcos, porque eu e minha família precisamos aqui de aproximadamente 2.000,00 marcos por mês para uma vida simples.” Por isso, diz o tradutor, precisaria, para cobrir custos de pesquisa, preparação de prefácio, tradução propriamente dita, de dois mil dólares “a mais”, além do que a editora lhe pagaria, pela tabela normal para traduções. Sem patrocínio, teria que recusar o projeto. E consulta: “Será que o senhor poderia me sugerir como devo agir? O projeto tem alguma chance? Devo apresentar um requerimento ao M.C. ou diretamente ao Departamento Cultural?”. Não sabemos se houve resposta. A correspondência termina logo a seguir, com a morte de Guimarães Rosa em novembro de 1967. Meyer-Clason chegou, entre outras traduções importantes, de Cabral, Drummond etc., a publicar uma antologia de poesia brasileira em 1975, Brasilianische Poesie des 20. Jahrhunderts, e outra, de autores mais recentes, em 1997, Modernismo Brasileiro und die Brasilianische Lyrik der Gegenwart. Valeria a pena perguntar-lhe se teve o apoio que, com tanta razão, reivindicava em 1967.

3.

Há uma nota, na abertura de The Angel of the West Window, a tradução para o inglês da biografia romanceada do mago John Dee por Gustav Meyrink pela Dedalus Books, de 1991, que diz o seguinte (traduzindo): “Dedalus Europa 1992: Ao final de 1992, os 12 estados membros da CEE [a então Comunidade Econômica Européia, antes Mercado Comum Europeu e agora União Européia] inaugurarão um mercado aberto que Dedalus comemora com um amplo programa de novas traduções das 8 línguas da CEE para o inglês.” Seguem-se 20 títulos a serem lançados, traduções para o inglês do francês, alemão, italiano, holandês, flamengo, português (duas narrativas de Eça de Queiroz), dinamarquês, grego e espanhol. Ao final, a nota de agradecimento aos patrocinadores, o Arts Council of Great Britain e o governo austríaco, que possibilitou a tradução de Meyrink. Evidentemente, essa é uma ínfima amostra do que a CEE e a UE já fizeram, em matéria de cooperação cultural, ao longo de sua consolidação nas últimas décadas.

4.

Se dirigidas a um europeu, soariam estranhas essas consultas de Meyer-Clason. Estaria perguntando o óbvio. É evidente que há bolsas, subvenções, auxílios, para esse tipo de iniciativa, traduzir autores. Em outros países latino-americanos, também já se registram boas iniciativas. Mas prejudicadas pelo unilateralismo e absenteísmo brasileiro. Por exemplo, ao longo de décadas, em ações culturais conjuntas Brasil-México, o México foi quem pagou a conta, arcou com os custos, na maior parte dessas ocasiões. O que dizer então das inúmeras edições de autores brasileiros, levadas a termo pela Fundação Biblioteca Ayacucho, da Venezuela, sem que haja, por natural correspondência, edição de um único autor venezuelano no Brasil?

5.

Há um estilo crepuscular, nebuloso, nas respostas de órgãos culturais brasileiros (FNC e Biblioteca Nacional) a pedidos de apoio a traduções de autores brasileiros em outros países, inclusive latino-americanos, inclusive da esfera do Mercosul, mesmo com editoras interessadas. Colaboradores de Agulha têm passado por essa experiência. Tudo é vago, reticente. Transparência, nenhuma. Ao final, nada acontece. Ou acontece algo, porém raramente, a título de exceção. Consolidar cooperação econômica e política não passa, aqui, por temas culturais. Meyer-Clason, hoje, faria as mesmas perguntas. Enfrentaria as mesmas dificuldades. Quanto aos negócios, na esfera da cooperação econômica interamericana, com geladeiras, soja, trigo, automóveis, televisores, parece que vão mal. Crises ameaçam o Mercosul e outros projetos de intercâmbio e cooperação ibero-americana.

6.

Agulha vem divulgando protestos encabeçados por Berthold Zilly, outro tradutor e divulgador importante de literatura brasileira na Alemanha, e por Viviane de Santana Paulo, escritora e colaboradora desta revista, contra o fechamento de um Instituto Cultural Brasileiro em Berlim.  O motivo alegado pelo Itamaraty é falta de verbas. Manutenção de institutos culturais brasileiros é vista apenas como despesa, e não como investimento, algo que tenha lugar em uma estratégia, em uma política de relações exteriores. Depois, não reclamem quando o Instituto Goethe reduzir suas verbas para o Brasil.

Os editores

Mario Maffioli

sumário

1 a escritura coletiva de jacques prévert com surrealistas. eclair antonio almeida filho
2 a imagem criativa na poesia de orides fontela. josé carlos a. brito
3
amavisse, de hilda hilst: pacto com o hermético. claudio willer
4
biblioteca ayacucho: notas para una primera historia. oscar rodríguez ortiz
5
crônica de consumo: a lâmpada queimada da poesia. floriano martins
6
espiritualidade e erotismo na poesia de leonard cohen. alexandre marino
7
estranhas experiências: claudio willer e a geração beat. lucila nogueira
8
fantástico e estranho mundo de péricles prade (entrevista). marco vasques
9
freud, oswald de andrade & antropofagia. mário chamie 
10 julien schnabel: "a arte me faz sentir vivo" (entrevista). antonio jr.
11
lucia vasconcelos: lisboa - a felicidade estranha da princesa. teresa martins marques
12
música/ciudad: la ecología del sonido. enrique verástegui
13
remedios varo: pintora mágica de lo surreal. carolina moroder
14
três visões da obra de adélio sarro. alberto beutenmüller
15
vanguardismo, espacio y movimiento en la poesía moderna. juan calzadilla

artista convidado mario maffioli (pintura) texto de otto apuy
resenhas livros da agulha carlos figueiredo - vera lúcia de oliveira - nicodemos sena (por adelton gonçalves) - boris fausto & fernando j. devoto (por adelto gonçalves) - maría zambrano & reyna rivas - floriano martins (por maria da paz dantas) - leo zevala - tomás eloy martínez (por adelto gonçalves) - ivan cavalcanti proença (por mirian de carvalho) - maimônides - mauro mota (por ivan junqueira) - & mário chamie
música
discos da agulha afonso machado - romero lubambo - hamilton & seus estados (por fabrício mazocco) - nó em pingo d'água - césar camargo mariano - leila maria (por hugo sukman) & paulo moura
cumplicidade galeria de revistas l matérika (costa rica) l palavreiros (brasil) l piel de leopardo (argentina)
 

Mario Maffioli

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (pintura)
mario maffiloi

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