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editorial
Eternamente
mão única
1.
Um tema da hora, motivo de preocupação, é o Mercosul.
Quais serão suas perspectivas? Avança ou retrocede? Corre risco de
acabar? A discussão é exclusivamente comercial. Fala-se de proteção
a geladeiras, máquinas de lavar, carne, trigo. Não se toca em
publicações, espetáculos, mostras, circulação de informação.
Sob o aspecto cultural, o Mercosul não é um zero absoluto: ocorre
regulamente a Bienal do Mercosul, tem havido encontros de autores,
distribuição comercial de filmes e até sua veiculação na TV
progrediu. Mas a cultura nem sequer foi incluída nos acordos que lhe
deram origem. Quanto a espetáculos, a agenda brasileira deste ano é
francesa, ou, antes, parisiense: como o Brasil vai ser objeto de
homenagens na França, todo mundo vai lá, ou vai tentar estar lá.
Carnaval em Paris. Novamente.
2.
Já foi comentada aqui, em Agulha – na edição anterior, de número 42 – a publicação
de João Guimarães Rosa:
Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason (Nova
Fronteira, ABL, UFMG, 2003), por sua importância para se entender
melhor a poética do autor de Grande
Sertão: Veredas. Mas o livro também toca em questões de política
cultural. Bem ao final da série de cartas, a 11 de julho de 1967,
Meyer-Clason diz que gostaria de preparar uma antologia de poesia
brasileira. A dificuldade para levar o projeto a bom termo é econômica.
Esclarece Meyer-Clason: “Para uma antologia de Cabral (selecionada
por mim), mais apêndices e uma longa introdução, recebi 1.300,00
marcos [...], mas gastei mais de 4.000,00 marcos, porque eu e minha
família precisamos aqui de aproximadamente 2.000,00 marcos por mês
para uma vida simples.” Por isso, diz o tradutor, precisaria, para
cobrir custos de pesquisa, preparação de prefácio, tradução
propriamente dita, de dois mil dólares “a mais”, além do que a
editora lhe pagaria, pela tabela normal para traduções. Sem patrocínio,
teria que recusar o projeto. E consulta: “Será que o senhor poderia
me sugerir como devo agir? O projeto tem alguma chance? Devo
apresentar um requerimento ao M.C. ou diretamente ao Departamento
Cultural?”. Não sabemos se houve resposta. A correspondência
termina logo a seguir, com a morte de Guimarães Rosa em novembro de
1967. Meyer-Clason chegou, entre outras traduções importantes, de
Cabral, Drummond etc., a publicar uma antologia de poesia brasileira
em 1975, Brasilianische Poesie
des 20. Jahrhunderts, e outra, de autores mais recentes, em 1997, Modernismo
Brasileiro und die Brasilianische Lyrik der Gegenwart. Valeria a
pena perguntar-lhe se teve o apoio que, com tanta razão, reivindicava
em 1967.
3.
Há uma nota, na abertura de The Angel of the West Window, a tradução para o inglês da
biografia romanceada do mago John Dee por Gustav Meyrink pela Dedalus
Books, de 1991, que diz o seguinte (traduzindo): “Dedalus Europa
1992: Ao final de 1992, os 12 estados membros da CEE [a
então Comunidade Econômica Européia, antes Mercado Comum Europeu e
agora União Européia] inaugurarão um mercado aberto que Dedalus
comemora com um amplo programa de novas traduções das 8 línguas da
CEE para o inglês.” Seguem-se 20 títulos a serem lançados, traduções
para o inglês do francês, alemão, italiano, holandês, flamengo,
português (duas narrativas de Eça de Queiroz), dinamarquês, grego e
espanhol. Ao final, a nota de agradecimento aos patrocinadores, o Arts
Council of Great Britain e o governo austríaco, que possibilitou a
tradução de Meyrink. Evidentemente, essa é uma ínfima amostra do
que a CEE e a UE já fizeram, em matéria de cooperação cultural, ao
longo de sua consolidação nas últimas décadas.
4.
Se dirigidas a um europeu, soariam estranhas essas
consultas de Meyer-Clason. Estaria perguntando o óbvio. É evidente
que há bolsas, subvenções, auxílios, para esse tipo de iniciativa,
traduzir autores. Em outros países latino-americanos, também já se
registram boas iniciativas. Mas prejudicadas pelo unilateralismo e
absenteísmo brasileiro. Por exemplo, ao longo de décadas, em ações
culturais conjuntas Brasil-México, o México foi quem pagou a conta,
arcou com os custos, na maior parte dessas ocasiões. O que dizer então
das inúmeras edições de autores brasileiros, levadas a termo pela
Fundação Biblioteca Ayacucho, da Venezuela, sem que haja, por
natural correspondência, edição de um único autor venezuelano no
Brasil?
5.
Há um estilo crepuscular, nebuloso, nas respostas de órgãos
culturais brasileiros (FNC e Biblioteca Nacional) a pedidos de apoio a
traduções de autores brasileiros em outros países, inclusive
latino-americanos, inclusive da esfera do Mercosul, mesmo com editoras
interessadas. Colaboradores de Agulha têm passado por essa
experiência. Tudo é vago, reticente. Transparência, nenhuma. Ao
final, nada acontece. Ou acontece algo, porém raramente, a título de
exceção. Consolidar cooperação econômica e política não passa,
aqui, por temas culturais. Meyer-Clason, hoje, faria as mesmas
perguntas. Enfrentaria as mesmas dificuldades. Quanto aos negócios,
na esfera da cooperação econômica interamericana, com geladeiras,
soja, trigo, automóveis, televisores, parece que vão mal. Crises
ameaçam o Mercosul e outros projetos de intercâmbio e cooperação
ibero-americana.
6.
Agulha vem divulgando protestos encabeçados por Berthold
Zilly, outro tradutor e divulgador importante de literatura brasileira
na Alemanha, e por Viviane de Santana Paulo, escritora e colaboradora
desta revista, contra o fechamento de um Instituto Cultural Brasileiro
em Berlim. O motivo
alegado pelo Itamaraty é falta de verbas. Manutenção de institutos
culturais brasileiros é vista apenas como despesa, e não como
investimento, algo que tenha lugar em uma estratégia, em uma política
de relações exteriores. Depois, não reclamem quando o Instituto
Goethe reduzir suas verbas para o Brasil.
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