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revista
de cultura # 43 |
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Freud, Oswald de Andrade e Antropofagia Mário Chamie
Em Oswald, o patriarcado é representado pela sociedade
burguesa e capitalista, centrada no direito de propriedade do dominador,
na usura, na hierarquia familiar, nos vícios do homem civilizado, na
especulação lógica e metafísica, na repressão dos instintos e da
liberdade sexual. Negatividade histórica é o nome geral dessas características.
Da ótica oswaldiana, o patriarcado é um tabu encravado no curso da História. Por sua vez, o matriarcado, em Oswald, se identifica com a
implantação de uma nova idade de ouro, cujos valores revolucionários
promoveriam a substituição do direito de propriedade do homem civilizado
pelo direito de posse do homem primitivo, a superação da usura e do negócio
pelo ócio, o fim dos poderes centralizadores e autoritários pelo advento
de uma vida comunitária aberta aos prazeres vitais, ditados por uma
libido individual sem censura. O matriarcado desencravaria o tabu
patriarcal da História, transformando-o em totem de uma feliz e nova
idade. Oswald chama de "revolução caraíba" tal
transformação utópica, cujo agente emblemático seria o homem novo do
novo mundo descoberto pelo colonizador, ainda infenso às degradações
impostas pela civilização. Oswald, entre outras fontes, encontrou na Psicanálise um
dos fundamentos de sua teoria. Tomando conhecimento dela, nos anos vinte,
Oswald fez uma leitura de Freud, no mínimo, pouco ortodoxa. Eu diria: uma
leitura de conveniência, já que, por um lado, concebe a Psicanálise
como sintoma prévio de suas idéias antropofágicas e, por outro, como método
de pesquisa e aprofundamento dessas idéias. Enquanto sintoma, Oswald
entende que Freud, ao fazer o diagnóstico da sociedade patriarcal,
apontou nela a negatividade histórica de seu traço repressor. Enquanto método,
ele entende que Freud, ao investigar o inconsciente e penetrar os seus
complexos psíquicos, deu respaldo ao princípio subversor da
antropofagia, pelo qual a todo sim corresponde um não implícito
e vice-versa, numa réplica à ambivalência freudiana que prevê no
conceito de "pureza" um conteúdo de "impureza" ou na
identificação de um "tabu" a presença subjacente de um
"totem" possível.
Podemos dizer que a invenção de um "Freud católico"
obrigou Oswald ao seguinte paradoxo: o de aceitar, estratègicamente, o método
terapêutico de Freud, desde que corrigido em "alguns de seus erros
profundos", para que tal método se encaixasse melhor nos propósitos
da "revolução caraíba", cuja meta é dar fim à história do
patriarcado. Passando a limpo o que seria a correção de erros e
praticando a "crítica da terminologia freudiana", Oswald
explica: "A Antropofagia só pode ter ligações estratégicas com
Freud que é apenas o outro lado do catolicismo./Mas Antropofagia que
bafeja no homem natural a construção da sociedade futura não pode
deixar de ver alguns erros profundos de Freud. O recalque que produz em
geral a histeria, as nevroses e as moléstias católicas não existem numa
sociedade liberada senão em porcentagem pequena ocasionada pela luta./
Cabe a nós antropófagos fazer a crítica da terminologia freudiana./ O
maior dos absurdos é por exemplo chamar de inconsciente a parte mais
iluminada pela consciência do homem: o sexo e o estômago. Eu chamo a
isso de consciente antropofágico. O outro, o resultado sempre flexível
da luta com a resistência exterior, transformado em norma estratégica,
chamar-se-á o consciente ético" . Aí está: para quem "bafeja no homem natural a
sociedade futura", o método de Freud, mesmo útil, teria que ser
revisto e depurado de sua acomodação catolicizante, afim de compor-se
com a radicalidade transgressora do "consciente antropofágico",
destinado a vencer a "resistência externa" dos valores
patriarcais e a inaugurar a nova "consciência ética" de uma
futura sociedade matriarcal. Nesses termos, parece claro que, na concepção pertubadora
de Oswald, não há lugar para alternativas. Sua "revolução caraíba"
apóia-se em roteiros seguros sustentados pelo que ele chama de "únicos
imperativos categóricos" de ação. Esses imperativos, ele os
definiu, através de antinomias tais como: a) opor a posse à propriedade;
b) sobrepor o selvagem ao civilizado; c) substituir a abstração metafísica
do verbo to be pela concretude ontológica do substantivo
"tupi" (tupi or not tupi, eis a questão); d) e,
sobretudo, transformar os tabus da cultura letrada em totens de uma
cultura primitiva, livre das "nevroses" e outras "doenças
católicas", diagnosticadas mas não extirpadas por Freud. Uma maneira de acompanhar o roteiro de tais imperativos é
distinguir as menções que Oswald faz a Freud no seu Manifesto Antropófago.
O manifesto traz três menções centrais. Todas desenham os cuidados e
reservas de Oswald. A primeira denota cumplicidade e concordância com
contribuições freudianas, em particular aquela que valoriza a mulher (célula
matriarcal) diante da família repressora e de seus maridos católicos. Êi-la:
"Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos
postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da
psicologia impressa". A segunda menção é quase um mini-manifesto, encartado no
Manifesto. Nela, a rejeição a um imaginário Freud
"sublimador de instintos" ganha contornos de um jogo meio
maniqueísta de antinomias. Oswald, nesse jogo, enfatiza o desencontro
entre definidos vícios patriarcalistas e supostas virtudes do matriarcado
de seus sonhos. A menção é esta: "A luta entre o que se
chamaria Incriado e a Criatura - ilustrada pela contradição permanente
do homem e o seu tabu. O amor cotidiano e o modus vivendi capitalista.
Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A
humana aventura. A terrena finalidade./A antropofagia carnal, que traz em
si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por
Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do
instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico./A
baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a
usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e
cristianizados, é contra ela que estamos agindo".
A terceira menção completa o roteiro desses imperativos e
remete para o debate das idéias de Freud, no minado terreno das reconversões
de tabus em totens e da retomada de posse da pureza originária do indígena,
expropiada, segundo Oswald, pelo "direito" de propriedade do
colonizador. A menção é sintética: "Contra a realidade social,
vestida e opressora, cadastrada por Freud - a realidade sem complexo, sem
loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de
Pindorama". Vestida e opressora!... Trata-se obviamente da cultura
européia, letrada, trazida aos trópicos pelo colonizador português. Em
outras palavras: trata-se da tradição cristã, cujos valores conferem ao
conquistador o "direito" de apropriar-se da cultura nativa, em
nome de sua "salvadora" missão catequética. Oswald vê nessa relação de domínio o espectro do tabu
da superioridade do colonizador, a quem o colonizado deverá obediência e
culto. Procura justificar essa visão, "pinçando" alguns
argumentos desenvolvidos por Freud em torno dos conceitos de totem e tabu,
a exemplo daquele em que Freud afirma que a palavra tabu conota com
"sagrado, misterioso, perigoso e acima do comum", advertindo que
essa "sacralidade" contem em si a idéia de proibição e de
interdito. Vale dizer: as pessoas devem venerar o tabu, sem jamais
"tocar" ou violar o seu incomum mistério. Tocá-lo é levar
impureza ao que é puro e, conseqüentemente, desencadear penas e
castigos, dentre os quais o pior de todos, anotado por Freud, seria o de o
violador tornar-se, ele próprio, um outro tabu, a mercê de outras
incessantes violações. Por esse motivo, Freud ressalta a necessidade de
se manter "intocável" o temor reverencial perante o mistério,
ao afirmar: "É precisamente esse significado neutro e intermediário
- demoníaco ou o que não pode ser tocado - que é com
propriedade expresso pela palavra tabu, tanto para o que é sagrado
quanto para o que é impuro: o temor do contato com ele" (Totem e
Tabu, Imago/74, pg.39). Aos olhos de Oswald, argumentos dessa natureza
testemunhariam, de novo, o perfil "católico" de Freud, pois a
contemplação e o temor a Deus assemelha-se ao temor ao tabu proibido. Do
mesmo modo, a demonização do contato com o tabu parece ser uma paráfrase
da condenação do pecado, na teologia judaico-cristã. Se, à sombra
dessa teologia, Lúcifer desobedeceu a Deus, para, como se fosse deus,
cultivar a legião pecadora de seus seguidores, igualmente o violador do
tabu, ao desobedecer a seu interdito, incorre na mesma profanação herética,
atraindo também sua legião de imitadores. Soa, assim, como prédica de
fundo religioso e catequético a sentença freudiana de que "qualquer
um que tenha violado um tabu torna-se tabu porque possui a perigosa
qualidade de tentar os outros a seguir-lhe o exemplo".
Os pressupostos da revolução caraíba que deseja o
retorno do matriarcado sinalizam direção contrária aos argumentos
freudianos. Oswald entende que o "direito" de apropriação do
colonizador, apoiado em sua retórica de poder, é mero fruto do tabu da
superioridade da cultura européia, "imposta de fora". Quer, por
isso, inverter e transgredir semelhante quadro de mentira histórica. Para
tanto, propõe a totemização daquele "intocável" tabu da
superioridade, mediante a negação e a superação do patriarcado que o
legitima. Vale dizer: utiliza o método psicanalítico, até o limite
permitido por sua utopia revolucionária. Fora desse limite, sua leitura
de Freud se faz sempre ao avesso como se fosse uma errata constante. Nos trechos, aqui, transcritos, essa leitura invertida não
dá margem a dúvida. Basta conferir: onde Freud consagra o "temor do
contato" com o tabu, Oswald enaltece o "destemor" do contágio
transgressivo, sob forma de "vingança" reparadora. Onde Freud
adverte sobre a "perigosa qualidade" de um violador de tabu
conseguir "tentar os outros a seguir-lhe o exemplo", Oswald
proclama que seguir o exemplo do violador é o único caminho de
transformação de toda e qualquer negatividade histórica. Onde Freud
admite ser a "expiação" mais "fundamental do que a
purificação do cerimonial do tabu", Oswald responde que é
fundamental anular a expiação e purificar o tabu, totemizando-o. Quando,
por fim, Freud enuncia que a "renúncia se acha na base da desobediência
ao tabu", Oswald ergue a bandeira da desobediência antropofágica
que está na base do instinto puro da posse, capaz de desfazer as
propriedades opressoras da cultura patriarcal e seus interditos. Como se sabe, Oswald sempre glorificou a contribuição
milionária do erro. O "Freud católico" que ele inventou não
passa, portanto, de um erro estupendo. Aliás, muito mais que um erro,
essa invenção é uma extraordinária arbitrariedade estratégica, sem a
qual a improvável utopia antropofágica e o profético renascimento do
matriarcado, além de impensáveis, seriam destituídos de sua sedução,
fecundamente, provocadora. |
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Mário Chamie (Brasil, 1933). Poeta e ensaísta. Autor de livros como Objeto selvagem (1977), Natureza da coisa (1993) e Horizonte de esgrimas (2002). Contato: mariochamie@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica). |
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