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revista
de cultura # 43 |
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Espiritualidade e erotismo na poesia de Leonard Cohen Alexandre Marino
Aquela mensagem foi o primeiro texto que o poeta,
romancista e compositor canadense Leonard Cohen escreveu, levado pela força
interior que move os grandes criadores. Cohen completou 70 anos no dia 21
de setembro. Sua dedicação à música e à literatura rendeu até agora
nove livros (sete de poesia, dois romances) e 11 discos, incluindo Dear
heather, seu mais recente CD, lançado pela Sony Music do Brasil em
dezembro. Um disco belo e estranho, como vários de seus mais
importantes álbuns. Cohen canta poemas do inglês Lord Byron (1788/1824)
em Go no more a-roving, faixa de abertura, e de Frank Scott em Villanelle
for our time, que, unidos à sua própria poesia, asseguram a unidade
e a coerência do álbum. Sua voz, cada vez mais grave, áspera e
paradoxalmente suave, canta ou apenas declama poemas carregados de
lirismo, acompanhada pelos vocais de Sharon Robinson e Anjani Thomas e
sutis arranjos instrumentais. Nascido de tradicional família judaica, Cohen escreveu os
primeiros poemas aos 15 anos, dando início a uma busca pessoal que o
levou também à boemia, à música, às drogas e a insolúveis conflitos
em todos os caminhos que tem percorrido, incluindo o religioso. “Como um
pássaro no fio, como um bêbado numa cantoria noturna, eu vou buscando o
meu jeito de ser livre”, definiu em sua mais emblemática canção, Bird
on the wire.
Em 1956, Cohen publicou seu primeiro livro, Let us
compare mithologies, pelo selo McGill Poetry Series. Passaram-se 10
anos até que decidiu dedicar-se á música, depois de lançar o polêmico
romance Beautiful losers, conhecido e discutido, mas um fracasso
comercial. Já publicara outro romance, The favourite game, e
quatro volumes de poemas, sempre com vendas “insuficientes para
sobreviver como escritor”. A cantora Judy Collins gravou a primeira canção
de Cohen, Suzanne, em 1966, e outras três em seu álbum de 1967, Wildflowers.
Finalmente, em 1968, aos 34 anos, lançou Songs of
Leonard Cohen, que já trazia alguns de seus hits, como Sisters of
mercy e So long Marianne, além de Suzanne. Assim como Songs
from a room, de 1969, esse disco apresentava as principais características
de sua obra musical, feita de melodias suaves, aparentemente monótonas,
quase declamativas, porém dotadas de uma beleza que dispensa teorizações.
“Suas canções cada vez mais se parecem com orações”, definiu Bob
Dylan quando ouviu o álbum Various positions, de 1984. Veículo de
poemas complexos e elaborados, sua música leva a multidões uma poesia
que seria para poucos. Seu CD anterior, Ten new songs, de 2001, vendeu mais
de um milhão de cópias e lhe valeu Discos de Platina no Canadá, Noruega
e Polônia, e de Ouro na França, Espanha, Dinamarca, Irlanda, Suíça,
Hungria e Suécia. Ao lançá-lo, estava há nove anos sem gravar, e
acabara de deixar o mosteiro zen budista de Mounty Baldy, onde durante
cinco anos cumpriu com humildade a rotina de qualquer monge: acordava às
3 horas da manhã para meditar, estudava, fazia faxina, cozinhava e
trabalhava como secretário de Joshu Sasaki Roshi, 92 anos, líder do
mosteiro e guia espiritual de Cohen.
Suas origens, além do hábito de se vestir bem, não raro
de paletó e gravata, afastaram dele os poetas da geração beat.
Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs e
seu grupo o consideraram “muito classe média para nós”. Foi em 1956,
quando chegou a Nova York, em busca de ambiente mais cosmopolita e
“menos burguês”, para estudar literatura na Universidade de Columbia.
Anos depois, numa noite de 1977, Cohen gravava as canções de Death of
a ladies’man quando Ginsberg apareceu inesperadamente no estúdio,
ao lado de Bob Dylan. Ambos fizeram “backing vocals” na faixa Don’t
go home with your hard on, um rock satírico cujo título é uma
expressão vulgar. Dear heather deve seguir a trilha de sucesso
de Ten New Songs. A propósito do novo álbum, só de canções inéditas,
o crítico Jon Wilde escreveu na revista musical inglesa Uncut:
“Os vocais soam sepulcrais como nunca, como se Cohen pretendesse que
esta última fornada de canções sobre anseios espirituais, paixões eróticas
e os limites da intimidade seja sua palavra final a respeito destes
temas.” “Sepulcral” e “melancólica” são adjetivos que se
encaixam com perfeição à voz de Cohen, tanto para os fãs quanto para
seus detratores. “Minha voz se tornou mais profunda, depois de 50 mil
cigarros”, define. Grave, rouca e afinada, sempre emoldurada por
delicados vocais femininos, é o veículo ideal para canções de tom
marcadamente intimista, quase sempre autobiográficas, que levam a supor
que Leonard canta não com o corpo, mas com a alma, e estabelecem imediata
empatia entre ele e quem o ouve. Não apenas o ouvinte comum, mas astros como Elton John,
Bono, a banda R.E.M., Sting e Peter Gabriel lhe prestam reverências.
Esses e outros artistas se uniram para gravar suas canções em dois álbuns
antológicos, I’m your fan (1991) e Tower of song (1995).
O site Leonard Cohen Files, mantido na Finlândia pelo fã e
amigo pessoal Jarkko Arjatsalo, listou, até setembro, 903 regravações
de suas canções ao redor do mundo. São artistas do Canadá, Estados
Unidos, dos principais países europeus e também do Irã, Croácia,
Israel, Eslovênia, Índia, Japão, África do Sul, Tchecoslováquia, Nova
Zelândia… Há um único brasileiro na lista: Renato Russo, que gravou Hey,
that’s no way to say goodbye, lançada em seu álbum póstumo, O
último solo, de 1997. A matéria-prima de Leonard Cohen é a mesma dos grandes
criadores da literatura — o amor, a paixão, os altos e baixos da condição
humana e as questões cruciais de nosso tempo. Em Dear heather, ele
faz referências, com sutileza, ao 11 de setembro: “Algumas pessoas
dizem/ é isso que merecemos/ pelos pecados contra Deus/ pelos crimes ao
redor do mundo/ eu não saberia/ estou apenas segurando a onda/ desde
aquele dia/ que feriram New York” (On that day). E também volta
a falar de paixão e mulheres, agora abordando sua condição de septuagenário:
“Mulheres têm sido/ excepcionalmente gentis/ para minha avançada
idade” (Because of). Como os grandes vinhos, Leonard Cohen usa o
tempo a seu favor. Obras de Leonard Cohen 1.
Livros
Let’us compare mithologies
(poesia, 1956). 2.
Discos Songs of Leonard Cohen (1967). 3.
Principais CDs de tributos por outros artistas
I’m your fan (vários, 1991). |
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Alexandre Marino (Brasil, 1956). Escritor e
jornalista, autor de O delírio dos búzios (1999). Artigo
originalmente publicado no suplemento Pensar, do Correio
Braziliense (Brasília, 15/01/2005). Contato: alexandre.marino@abordo.com.br.
Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica). |
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