revista de cultura # 43
fortaleza, são paulo - janeiro de 2005






 

Espiritualidade e erotismo na poesia de Leonard Cohen

Alexandre Marino

.

Leonard CohenUm garoto de nove anos caminha por um jardim coberto de neve, nos fundos de uma casa na cidade canadense de Montreal. Agacha-se e cava. Com gestual sério e solene, fruto do primeiro encontro com a morte, enterra uma gravata de seu pai, onde acabou de costurar uma mensagem de despedida. Dessa forma, ele cumpriu seu ritual particular de sepultamento, depois de observar no caixão o rosto austero do pai.

Aquela mensagem foi o primeiro texto que o poeta, romancista e compositor canadense Leonard Cohen escreveu, levado pela força interior que move os grandes criadores. Cohen completou 70 anos no dia 21 de setembro. Sua dedicação à música e à literatura rendeu até agora nove livros (sete de poesia, dois romances) e 11 discos, incluindo Dear heather, seu mais recente CD, lançado pela Sony Music do Brasil em dezembro.

Um disco belo e estranho, como vários de seus mais importantes álbuns. Cohen canta poemas do inglês Lord Byron (1788/1824) em Go no more a-roving, faixa de abertura, e de Frank Scott em Villanelle for our time, que, unidos à sua própria poesia, asseguram a unidade e a coerência do álbum. Sua voz, cada vez mais grave, áspera e paradoxalmente suave, canta ou apenas declama poemas carregados de lirismo, acompanhada pelos vocais de Sharon Robinson e Anjani Thomas e sutis arranjos instrumentais.

Nascido de tradicional família judaica, Cohen escreveu os primeiros poemas aos 15 anos, dando início a uma busca pessoal que o levou também à boemia, à música, às drogas e a insolúveis conflitos em todos os caminhos que tem percorrido, incluindo o religioso. “Como um pássaro no fio, como um bêbado numa cantoria noturna, eu vou buscando o meu jeito de ser livre”, definiu em sua mais emblemática canção, Bird on the wire.

Mario MaffioliFoi a leitura do poeta espanhol Federico Garcia Lorca que o arrebatou para a poesia e o levou a estudar o flamenco. Take this waltz, do CD I’m your man, de 1988, é uma adaptação do poema Pequena valsa vienense, de Garcia Lorca. E Lorca é o nome de sua filha com Suzanne Verdal, musa inspiradora de um de seus hits, Suzanne (“Suzanne leva você para seu canto à beira-rio/ você ouve os barcos partindo/ e passa a noite ao seu lado/ sabe que ela está quase louca/ mas é por isso que quer ficar ali”).

Em 1956, Cohen publicou seu primeiro livro, Let us compare mithologies, pelo selo McGill Poetry Series. Passaram-se 10 anos até que decidiu dedicar-se á música, depois de lançar o polêmico romance Beautiful losers, conhecido e discutido, mas um fracasso comercial. Já publicara outro romance, The favourite game, e quatro volumes de poemas, sempre com vendas “insuficientes para sobreviver como escritor”. A cantora Judy Collins gravou a primeira canção de Cohen, Suzanne, em 1966, e outras três em seu álbum de 1967, Wildflowers.

Finalmente, em 1968, aos 34 anos, lançou Songs of Leonard Cohen, que já trazia alguns de seus hits, como Sisters of mercy e So long Marianne, além de Suzanne. Assim como Songs from a room, de 1969, esse disco apresentava as principais características de sua obra musical, feita de melodias suaves, aparentemente monótonas, quase declamativas, porém dotadas de uma beleza que dispensa teorizações. “Suas canções cada vez mais se parecem com orações”, definiu Bob Dylan quando ouviu o álbum Various positions, de 1984. Veículo de poemas complexos e elaborados, sua música leva a multidões uma poesia que seria para poucos.

Seu CD anterior, Ten new songs, de 2001, vendeu mais de um milhão de cópias e lhe valeu Discos de Platina no Canadá, Noruega e Polônia, e de Ouro na França, Espanha, Dinamarca, Irlanda, Suíça, Hungria e Suécia. Ao lançá-lo, estava há nove anos sem gravar, e acabara de deixar o mosteiro zen budista de Mounty Baldy, onde durante cinco anos cumpriu com humildade a rotina de qualquer monge: acordava às 3 horas da manhã para meditar, estudava, fazia faxina, cozinhava e trabalhava como secretário de Joshu Sasaki Roshi, 92 anos, líder do mosteiro e guia espiritual de Cohen.

Mario MaffioliDessa mistura entre Zen e Judaísmo ele retira os elementos necessários para lidar com a vida espiritual e a carreira. Os conflitos com a ideologia burguesa dos judeus de Westmount o levaram várias vezes a isolar-se para escrever e estudar, tanto em quartos de pensão e hotel, quanto na casa que adquiriu na ilha grega de Hydra em 1960, quando lá não havia eletricidade nem telefone, e mantém até hoje. Ali escreveu algumas de suas obras-primas, incluindo Bird on the wire, inspirado pelos pássaros que pousavam nos primeiros fios de luz elétrica.

Suas origens, além do hábito de se vestir bem, não raro de paletó e gravata, afastaram dele os poetas da geração beat. Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Lawrence Ferlinghetti, William Burroughs e seu grupo o consideraram “muito classe média para nós”. Foi em 1956, quando chegou a Nova York, em busca de ambiente mais cosmopolita e “menos burguês”, para estudar literatura na Universidade de Columbia. Anos depois, numa noite de 1977, Cohen gravava as canções de Death of a ladies’man quando Ginsberg apareceu inesperadamente no estúdio, ao lado de Bob Dylan. Ambos fizeram “backing vocals” na faixa Don’t go home with your hard on, um rock satírico cujo título é uma expressão vulgar.

Dear heather deve seguir a trilha de sucesso de Ten New Songs. A propósito do novo álbum, só de canções inéditas, o crítico Jon Wilde escreveu na revista musical inglesa Uncut: “Os vocais soam sepulcrais como nunca, como se Cohen pretendesse que esta última fornada de canções sobre anseios espirituais, paixões eróticas e os limites da intimidade seja sua palavra final a respeito destes temas.”

“Sepulcral” e “melancólica” são adjetivos que se encaixam com perfeição à voz de Cohen, tanto para os fãs quanto para seus detratores. “Minha voz se tornou mais profunda, depois de 50 mil cigarros”, define. Grave, rouca e afinada, sempre emoldurada por delicados vocais femininos, é o veículo ideal para canções de tom marcadamente intimista, quase sempre autobiográficas, que levam a supor que Leonard canta não com o corpo, mas com a alma, e estabelecem imediata empatia entre ele e quem o ouve.

Não apenas o ouvinte comum, mas astros como Elton John, Bono, a banda R.E.M., Sting e Peter Gabriel lhe prestam reverências. Esses e outros artistas se uniram para gravar suas canções em dois álbuns antológicos, I’m your fan (1991) e Tower of song (1995). O site Leonard Cohen Files, mantido na Finlândia pelo fã e amigo pessoal Jarkko Arjatsalo, listou, até setembro, 903 regravações de suas canções ao redor do mundo. São artistas do Canadá, Estados Unidos, dos principais países europeus e também do Irã, Croácia, Israel, Eslovênia, Índia, Japão, África do Sul, Tchecoslováquia, Nova Zelândia… Há um único brasileiro na lista: Renato Russo, que gravou Hey, that’s no way to say goodbye, lançada em seu álbum póstumo, O último solo, de 1997.

A matéria-prima de Leonard Cohen é a mesma dos grandes criadores da literatura — o amor, a paixão, os altos e baixos da condição humana e as questões cruciais de nosso tempo. Em Dear heather, ele faz referências, com sutileza, ao 11 de setembro: “Algumas pessoas dizem/ é isso que merecemos/ pelos pecados contra Deus/ pelos crimes ao redor do mundo/ eu não saberia/ estou apenas segurando a onda/ desde aquele dia/ que feriram New York” (On that day). E também volta a falar de paixão e mulheres, agora abordando sua condição de septuagenário: “Mulheres têm sido/ excepcionalmente gentis/ para minha avançada idade” (Because of). Como os grandes vinhos, Leonard Cohen usa o tempo a seu favor.

 

Obras de Leonard Cohen

1. Livros

Let’us compare mithologies (poesia, 1956).
The spice-box of earth (poesia, 1961).
The favourite game (romance, 1963).
Flowers for Hitler (poesia, 1964).
Beautiful losers (romance, 1966).
Parasites of heaven (poesia, 1966).
Selected poems 1956-1968 (poesia, 1968).
The energy of slaves (poesia, 1972).
Death of a lady’s man (poesia, 1978).
Book of mercy (prosa poética, 1984).
Stranger Music – Selected poems and songs (antologia poética, 1993).

2. Discos

Songs of Leonard Cohen (1967).
Songs from a room (1969).
Songs of love and hate (1971).
Live songs (1972).
New skin for the old ceremony (1973).
The best of Leonard Cohen (1975).
Death of a ladie’s man (1977).
Recent songs (1979).
Various positions (1984).
I’m your man (1988).
The future (1992).
Leonard Cohen live in concert (1994).
More best of Leonard Cohen (1997).
Field commander Cohen – Tour of 1979 (2000).
Ten new songs (2001).
The essential Leonard Cohen (2002).
Dear heather (2004)

3. Principais CDs de tributos por outros artistas

I’m your fan (vários, 1991).
Famous blue raincoat (Jennifer Warnes, 1991).
Tower of song (vários, 1995).
Judy Collins sings Leonard Cohen: Democracy (Judy Collins, 2004).

Alexandre Marino (Brasil, 1956). Escritor e jornalista, autor de O delírio dos búzios (1999). Artigo originalmente publicado no suplemento Pensar, do Correio Braziliense (Brasília, 15/01/2005). Contato: alexandre.marino@abordo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica).

retorno à capa
 desta edição

índice geral

banda hispânica

jornal de poesia