revista de cultura # 43
fortaleza, são paulo - janeiro de 2005

discos da agulha

Bandolim do Brasil, de Afonso Machado1 Bandolim do Brasil, de Afonso Machado. Rob Digital. 2004.

Quando fui convidado para fazer a apresentação deste CD senti-me homenageado e tomado de emoção ao buscar as palavras certas para falar do trabalho de um muito querido amigo, um dos mais notáveis bandolinistas deste país. Foram passando pela minha mente lembranças da vida de Afonso Machado, e de como ele se firmou no cenário musical, não só como instrumentista, mas também como compositor e arranjador.
De repente me vi em um dos saraus da casa de Botafogo promovidos por seu pai, o cientista e violonista Raul Dodsworth Machado, com quem Afonso obteve as primeiras noções da arte musical, e deu seus primeiros passos como solista do recém-criado conjunto Galo Preto. Lembrei-me que depois Afonso aperfeiçoou-se com o professor Elpídio Faria e, sem perder o vínculo com este núcleo inicial, passou a sobressair-se ao contribuir inúmeras vezes, como músico, arranjador e produtor musical para o realce de obras de outros compositores e intérpretes.
Sempre foi um admirador e seguidor atento de Jacob do Bandolim, Déo Rian, Rossini Ferreira e Joel Nascimento, deles captando sutilezas que se acumularam no seu íntimo e se transformaram numa estética própria que representa o seu retrato musical. E, no ano de 1986, Afonso Machado escreveu o seu Método do Bandolim Brasileiro, obra que muito tem ajudado na formação de músicos, hoje atuando profissionalmente com grande sucesso.
Além do Galo Preto, Afonso foi um dos fundadores da Orquestra de Cordas Brasileiras. Apresentou-se com várias orquestras sinfônicas executando repertório da chamada música de concerto, e também com o Quarteto Sueco, ao lado do violonista Bartholomeu Wiese, com quem forma um duo que tem se apresentado muito mais no exterior.
Este disco traz composições suas em parcerias com Luiz Moura (o mais constante), Rafael Rabello (saudosíssimo), Bartholomeu Wiese, e os letristas Paulo César Pinheiro e Delcio Carvalho, além de, generosamente, ter-me incluído neste “ninho de cobras” com o choro de nossa autoria – Angenor – uma homenagem ao Mestre Cartola.
Vale salientar duas jóias que Afonso compôs sozinho: A Última Barca, uma lembrança da Suécia, que nos remete a uma paisagem escandinava; e Claudionor, que nos induz ao universo chorístico de um grande músico, o inesquecível Claudionor Cruz.
Além de autoral, este CD é instrumental, e conta com a participação de músicos de altíssima qualidade. Eles parecem festejar aqui a estréia de um jovem talento, Tiago Machado, filho de Afonso. E mais, nos oferece a presença vocal de Zezé Gonzaga que é, ela mesma, uma escola de interpretação brasileira.
Embora lamentando a perda de nosso querido Maurício Almeida, ex-aluno de Afonso, excelente baixista, que aqui aparece em algumas de suas últimas atuações, nós que somos profundos admiradores de Afonso Machado, estamos felizes pela realização de um disco que se fazia necessário, pelas suas sutilezas e pela mágica delicadeza das composições, das interpretações e dos arranjos.
[Elton Medeiros]

Brazilian routes, de Romero Lubambo2 Brazilian routes, de Romero Lubambo. Rob Digital.

Dentro do projeto do selo japonês aosis records sobre música brasileira, Brazilian Routes faz parte também da irresistível carreira deste guitarrista radicado em N. York há 15 anos. Durante este período Romero gravou com Raphael Rabello, Artur Maia, Herbie Mann, Lenny Andrade, Rildo Hora, faturou dois Grammys, por trabalhos com a cantora Dianne Reeves, e tocou no Carnegie Hall e no Lincoln Center. No CD, Romero imprime sua marca rítmica e melódica em faixas como Love for Sale de Cole Porter, Route 66 de Bobby Troup - na voz de Pamela Driggs - O que é Amar de Johnny Alf, Sally’s Tomato de Henry Mancini, além de ótimas composições próprias. Destaque para os arranjos próprios e os de Cesar Camargo Mariano.

Cantos do Brasil, de Hamilton e seus estados3 Cantos do Brasil, de Hamilton e seus estados. Videolar. 2004.

O Grupo Hamilton e Seus Estados iniciou as atividades em agosto de 1998 e a origem do nome é que na Mecânica Quântica tem os auto-estados do operador Hamiltoniano, e como os integrantes, na formação inicial do grupo, vinham de diferentes estados geográficos e eram alunos de Graduação em Física, o Prof. Nelson Studart do Departamento de Física da UFSCar, em alusão aos estados quânticos e tendo o Prof. Hamilton também docente e Chefe do Departamento de Física como líder do grupo, em uma brincadeira deu este nome ao grupo, que os alunos decidiram adotar.

O grupo Hamilton e Seus Estados conta com Hamilton Viana no violão, Fred Cavalcante nos teclados e saxolfone, Ricieri no contra-baixo, Fernando Izé na guitarra, Marcos Carvalho na clarineta, Cristiano na bateria, Abdalan no trompete, Thiago e Henrique Rozenfeld na percussão, Muringa no saxofone, e nas vozes: Regina Dias, Maria Butcher e Roberta Reiff.

Com várias apresentações no Teatro Municipal de São Carlos, no SESC-São Carlos, Teatro Universitário Florestan Fernandes da UFSCar, SESC-Araraquara, SESC-Birigui, o grupo já  dividiu  o palco com Jorge Mautner, Grupo Mandinga, As Choronas e Chico Cesar.

A convite do  SESC-São Carlos apresentou-se no dia 17 de agosto de 2001 com o Show Tropicália, projeto do SESC-São Carlos em homenagem ao Tropicalismo, abrindo o show que teve a presença de Elke Maravilha e do cantor Falcão.  No repertório que o grupo vem se apresentando desde o início das atividades, constam composições de Chico Buarque, Tom Jobim, João Bosco, Edu Lobo, Celso Viáfora, Juarez Moreira, Vicente Barreto, Pixinguinha, Eduardo Gudin, Paulinho Nogueira, além de composições de Hamilton, Márcio Corrêa e Fred Cavalcante.

O grupo lançou recentemente o Projeto Releituras de Paulinho Nogueira, realizando duas apresentações: dia 04 de junho de 2004 no SESC-Araraquara, no dia 09 de julho de 2004 pelo SESC-Birigui  com o show realizado na cidade de Andradina e no dia 01 de dezembro de 2004 na Sala Guiomar Novaes da Funarte.

O grupo Hamilton e Seus Estados acaba de gravar seu primeiro CD, intitulado Cantos do Brasil, com arranjos de Fred Cavalcante e participações de músicos convidados entre eles, Oswaldinho do Acordeon, Juarez Moreira no violão, Marcos Cavalcante no violão e guitarra, Mauro Campos no cello, Richard e Fábio Guerrini na flauta, Edison Penteado no trompete, Fernando no trombone, André Souza na voz e Emilio Martins na percussão. As 14 faixas do CD contam com composições de músicos da cidade de São Carlos: Porto do Acaso (Hamilton Viana-Floriano Martins), Vértice (Márcio Corrêa-Hamilton Viana), Arranjos Florais (Márcio Corrêa), Titubeando, Frevura, Sambatuque e Cantos do Brasil (Fred Cavalcante), além de composições de músicos consagrados e conhecidos no exterior como  Paulinho Nogueira, Celso Viáfora, Vicente Barreto, Simone Guimarães, F.A Bezerra de Menezes, Juarez Moreira e Zezo Ribeiro.

No grupo, alguns de seus integrantes já participaram em shows de instrumentistas e compositores consagrados: Hamilton participou em vários eventos com Paulinho Nogueira (Teatro Municipal de São Carlos, nas unidades do SESC de São Carlos, Ribeirão Preto e Bauru e no Teatro Universitário Florestan Fernandes), também já se apresentou com Ulisses Rocha, Juarez Moreira e Zezo Ribeiro. O pianista Fred Cavalcante, formado em Música pela UNICAMP,  apresentou-se com Zezo Ribeiro no Teatro Universitário Florestan Fernandes em outubro de 1999, além de escrever os arranjos para o grupo, Fred também escreve arranjos para a Orquestra Experimental da Universidade Federal de São Carlos e é professor na Oficina Cultural Sérgio Buarque de Hollanda. A cantora Regina Dias, juntamente com Hamilton e Fred se apresentaram nas unidades do SESC de Bauru e São Carlos, dividindo o palco com a cantora Simone Guimarães, com o pianista Leandro Braga e com o violonista João Gaspar. A cantora Maria Butcher já se apresentou com Zezo Ribeiro e Tetê Espíndola em São Carlos.

Em 1979, Hamilton e Regina  participaram da gravação de uma trilha sonora de um filme da Embra Filmes, na época em que eram integrantes do Grupo Sassafrás.

***

“Atire a primeira pedra quem nunca ouviu falar de Hamilton e Seus Estados”. Foi com essa frase que inicie uma matéria para o Jornal da Federal, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), para falar desse grupo musical. Toda grande band music tem uma grande história e a de Hamilton e Seus Estados nos leva ao ano de 1998. Toda quarta-feira a UFSCar se transformava em palco de encontros. Foi a ausência de um palestrante que fez com que o protocolo fosse quebrado. Hamilton, professor de Física por opção e músico por paixão, reuniu-se com quatro universitários (também músicos) para um único encontro. Era para ser um “simples” recital de violões, mas não foi. Mania de físico? Tamanha “simplicidade” fez com que viesse um novo convite e outras apresentações.

Bom repertório, ótima interpretação, porém ainda não havia um nome. Foi aí que Nelson Studart, também professor de Física, sugeriu: Hamilton e Seus Estados. Óbvio? Claro que não! Físicos, assim como músicos, não são previsíveis. Os integrantes da banda naquela época tinham uma espécie de sobrenome que remetia ao nome do Estado de onde vinham. Exemplifico com Henrique Ceará, Myrko Pará e Nara “Distrito Federal”, pessoas reais e que junto com Lis abriram o longo caminho da banda. Tem mais: há na Física os auto-estados Hamiltonianos, formulados pelo cientista irlandês Hamilton. Fórmula pronta e com nome próprio, a banda seguiu seu caminho e chegou até aqui.

 “Cantos do Brasil” é o reflexo de cinco anos de muita música e união. Cada faixa é prova de tudo isso: composições de Vicente Barreto, Celso Viáfora, Zezo Ribeiro, Simone Gumarães, Bezerra de Menezes, entre tantos especiais, além da presença de grandes nomes (a benção Juarez Moreira, Oswaldinho do Acordeon, Marcos Calvacante e tantos outros mais que essenciais). Um lindo trabalho que inicia um novo capítulo na história desta grande banda.

Não poderia encerrar sem falar de Paulinho Nogueira. A matéria que mencionei acima terminava falando dos planos futuros da banda: a gravação de um CD. Ao ler isso, Paulinho com toda a simplicidade e maestria, pergunto ao amigo Hamilton: “E aí, quando vai sair este CD?”. Eu respondo: chegou Paulinho. Então ouça daí, enquanto fazemos o mesmo daqui!

[Fabrício Mazocco]

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São cinco anos de atividades do grupo Hamilton e Seus Estados,  e agora mostramos nosso primeiro CD. Por força das circunstâncias, a formação do grupo foi se modificando, mas nunca podemos esquecer do começo e aqui fica meu registro das participações de Henrique Ceará,  Pará, Nara, Lis, Gustavo Sato, Felipe, Caru, Guilherme, Davi e Dana. Não poderia deixar de destacar o trabalho árduo dos arranjos em 13 faixas nas mãos competentes de Fred Cavalcante, que acompanhou todas gravações, nota por nota, acorde por acorde, mesmo estando na reta final do seu Mestrado. Ao Márcio Corrêa e Floriano Martins pela amizade e parceria. O sucesso pelo trabalho de gravação do CD Cantos do Brasil também foi possível graças aos patrocinadores que apostaram no potencial do grupo.

Nossos agradecimentos à Brasport e a Inode pelo patrocínio. Ao João Batista de Souza nossos agradecimentos pela contribuição expressiva e pela recomendação de  nosso trabalho para que obtivéssemos o patrocínio e  viabilizássemos o CD. Aos compositores  Zezo Ribeiro, Simone Guimarães, Celso Viáfora, Juarez Moreira e Vicente Barreto pelas músicas. À Dona Lygia Bezerra de Menezes pelo empenho na autorização de gravação de Contraste, que neste CD é interpretada por sua neta Roberta. Ao SESC-São Carlos pelas oportunidades de mostrarmos nosso trabalho e ao Produtos Nim-BA pelo apoio Ao Maurinho Saldanha que já integrou o grupo como baterista o nosso reconhecimento pelas contribuições com idéias além do trabalho de captação, mixagem e co-produção.

Aos músicos André de Souza, Emílio Martins, Veridiana, Vivian, Tinho, Fábio Saffi, Alessandro, Rodrigo, Edison Penteado, Fernando Hehl, Mauro Campos, Fábio Guerrini, Richard, Marcelo, Marcos Cavalcante, Juarez Moreira e Oswaldinho do Acordeon que juntamente com os integrantes de Hamilton e Seus Estados, completaram o trabalho que ora apresentamos.

[Hamilton Viana da Silveira]

Dear heather, de Leonard Cohen4 Dear heather, de Leonard Cohen. Sony BMG Music. 2004.

Se as mulheres criam um recanto secreto em suas vidas agitadas e lá guardam o poeta septuagenário, também o poeta criou um universo onde os mistérios femininos se revelam - ou se escondem. É sobre esse encontro que trata a canção "Because of", segunda faixa de Dear heather, novo álbum do compositor canadense Leonard Cohen. Lançado mundialmente em final de outubro, o CD saiu no Brasil em dezembro. 

Um disco belo e estranho, como vários de seus mais importantes álbuns. A faixa de abertura é "Go no more a-roving", um poema do inglês Lord Byron (1788/1824), musicado por Cohen. A partir daí, a voz de Leonard, cada vez mais grave, áspera e paradoxalmente suave, canta e eventualmente apenas declama poemas carregados de lirismo e observações surpreendentes. 

Esse novo disco de Leonard Cohen, lançado três anos depois do anterior, Ten new songs, e cinco depois de sua saída de Mount Baldy, um mosteiro zen-budista onde passou meia década e de onde saiu com o status de monge, se encaixa com perfeição a uma frase de Bob Dylan sobre seu trabalho. "As canções de Cohen se parecem cada vez mais com orações", disse o poeta, ao ouvir "Various positions", lançamento de 1984. De fato, as canções de "Dear heather" são autênticos hinos religiosos, com a ressalva de que não prestam reverência a nada, a ninguém - o velho bardo, que já foi chamado de "Mr. Sadness" (Senhor Tristeza), permanece fiel a seus temas, abordando mulheres misteriosas, amores frustrados, o ser humano e suas fatalidades.

As canções são emolduradas por sutis arranjos instrumentais, especialmente de piano, harpa judaica, violino, piano e sopros. Estão presentes o sax tenor de Bob Sheppard, o violino de Raffi Hakopian, a flauta de Paul Ostermayer, músicos que já o acompanharam em outros discos memoráveis. A interpretação de Cohen é apoiada pelos delicados vocais femininos de Sharon Robinson e Anjani Thomas, que no entanto às vezes sufocam a sua voz, que poderia aparecer mais em algumas faixas.

Leonard Cohen lançou Dear heather um mês depois de completar 70 anos. Desde seus primeiros poemas, publicados a partir dos 22 anos, ele vem tentando compreender o absurdo de viver e os mistérios dos relacionamentos - para ser mais explícito, os mistérios das mulheres. Depois que começou a enriquecer a música pop com suas melodias suaves e seus poemas profundos, a partir de 1968, os diálogos travados com essas mulheres enigmáticas, complexas, estranhas, tornaram-se emblemáticos. Ninguém faz canções como Leonard Cohen. 

Dear heather dá prosseguimento a essa obra especialíssima. Fala de amor, solidão, abandono, e também de coisas que o poeta jamais entenderá, como o ataque de 11 de setembro a Nova York. E o encarte do CD é ilustrado com desenhos do poeta, revelando assim mais um de seus grandes talentos. 

[Alexandre Marino]

Interpreta Paulinho da Viola, de Nó em Pingo d’Água5 Interpreta Paulinho da Viola, de Nó em Pingo d’Água. Rob Digital. 2003.

Paulinho da Viola freqüentou a casa de Jacob do Bandolim e suas excelentes composições de choro só não são mais conhecidas porque ficaram de certa forma escondidas por suas não menos excelentes composições de samba e MPB que fazem tanto sucesso.
Neste disco o Nó em Pingo d’Água vem preencher a lacuna. E realiza a tarefa com o brilho dos conhecedores. Afinal eles acompanham e freqüentam Paulinho há muitos anos. Celsinho Silva (percussão) e Mário Sève (sopros) assinam a produção e a direção musical, Rodrigo Lessa (bandolim e cavaquinho), Rogério Souza (violões) e Papito (baixo) contribuem com seu talento de ótimos instrumentistas.Todos participam dos arranjos.
Como convidado especial Cristóvão Bastos faz parceria com Paulinho na música Não me Digas Não, para a qual além de trazer seu piano virtuoso ainda escreveu o arranjo. Cesar Faria, do tradicional Época de Ouro, assina a única faixa que não é de Paulinho, o belo Choro em Ré Menor. E Paulinho da Viola, lembrando os velhos tempos de roda de choro, empunhou seu cavaquinho na faixa Rosinha, Essa Menina. Destaque para o incrível arranjo de Sinal Fechado, um clássico que renasce de forma inteiramente nova.
O encontro perfeito entre a competência e o bom gosto do Nó em Pingo d’Água e a classe do repertório de Paulinho da Viola. Com ênfase no choro, gênero de base da carreira do compositor, mas trazendo também um maxixe, uma valsa, um samba e a antológica Sinal Fechado, o CD exibe arranjos modernos e execução instrumental só encontrados entre músicos de muito talento e maturidade. Nesta festa, Paulinho, chorão consagrado, voltou às origens e tocou cavaquinho, Cristovão Bastos contribuiu com seu piano e um arranjo magistral, o tradicional César Faria, do Época de Ouro, criou um belo tema e a turma do Nó esmerou-se nos arranjos.

Enfim, uma festa da música brasileira.

Nova saudade, de César Camargo Mariano6 Nova saudade, de César Camargo Mariano. Rob Digital.

Este CD faz parte da coletânea do selo japonês aosis records sobre música brasileira enfocada em um contexto jazzístico. Quem conhece a história deste extraordinário músico, arranjador, produtor e compositor desde os tempos do Sambalanço Trio e do Som Três, passando pelo período áureo de Elis Regina certamente vai se deliciar com esta Nova Saudade. Cesar fez um disco com o sabor de um bom vinho, que se degusta a cada faixa. De Chega de Saudade com a participação do clarinetista Paquito D’Rivera ao clássico The Shadow of Your Smile, passando por três belas composições próprias, Cesar cativa o ouvinte com seus arranjos simples e sofisticados, e uma variedade de timbres que vão do piano acústico ao vibrafone. Para completar, tem ainda Felicidade de Tom Jobim e Pra Machucar Meu Coração de Ary Barroso.

Off key, de Leila Maria7 Off key, de Leila Maria. Rob Digital. 2004.

Gene Lees, Ray Gilbert, Norman Gimbel, o casal Alan e Marilyn Bergman podem não ser nomes exatamente conhecidos dos brasileiros. Nem letristas assim tão bons quanto os nossos Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Vitor Martins, Paulo Sérgio Valle, Nelson Motta, Abel Silva... Mas foram eles, e mais alguns poucos letristas americanos, que transformaram as palavras destes, e de outros grandes poetas da música brasileira, em moeda de circulação internacional. E permitiram que os maiores cantores da língua inglesa - Sinatra, Ella, Sarah e quem mais se possa imaginar que tivesse alguma sensibilidade musical na América nos últimos 50 anos - cantassem música brasileira com naturalidade e freqüência. Música brasileira cantada em inglês virou quase um gênero da música americana; Jobim, Dori Caymmi e Marcos Valle e tantos brasileiros, autores de standards no mundo inteiro. Leila Maria - que por sua intensa musicalidade, sua capacidade de improvisar, seu timbre único e quente, seu padrão de acabamento, sua técnica vocal, seu inglês perfeito - volta e meia é comparada aos grandes cantores americanos resolveu juntar essas duas grandes pontas da produção musical do mundo. Em "Off key" (Rob Digital), seu segundo disco, canta apenas música brasileira. E apenas em inglês. No disco idealizado e produzido pelo expert em cantoras José Milton (com um curriculo recheado de Nanas Caymmis, Miúchas...), Leila mescla o tempo todo suas duas culturas musicais, a brasileira e a americana. A brasileira no repertório, na inventividade e na intimidade com o samba - ouçam o "Summer samba" ("Samba de verão", dos irmãos Valle vertido por Norman Gimbel, o mesmo da "Girl from Ipanema") e comparem seu balanço com as dezenas de gravações desta canção nos últimos anos... A americana no indisfarçável sotaque jazzístico de sua interpretação - ouçam o "All that`s left is to say goodbye" ("É preciso dizer adeus", samba-canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, vertido por Ray Gilbert) e digam se não é uma filha musical de Bille Hollyday quem está cantando... Tal intimidade com o jazz fez com que um dos maiores fãs de Leila Maria, Ed Motta (outro mestre nas duas culturas musicais), dissesse certa vez: - Leila tem o padrão americano, é uma das grandes cantoras vivas do mundo. Isto quando Ed convidou Leila a gravar com ele "A balada do mar salgado", em seu CD mais jazzístico, "Dwitza". Em "Off key", José Milton escolheu para Leila Maria a jazzística formação de trio: o piano de Cristóvão Bastos, o baixo de Jorge Helder e a bateria de Carlos Bala, acrescido do violão de João Lyra, num quarteto insuperável na música brasileira de hoje, músicos que, como a cantora, passeiam com desenvoltura pelas duas culturas musicais que aqui se mesclam. Para o clima brazilian jazz ter ficado impecável, foi chamado para um inspirado solo de flugelhorn em "É preciso dizer adeus", o trompetista Jessé Sadock, um dos maiores nomes da nova geração do jazz brasileiro. Leila e os músicos gravaram juntos no estúdio, como se fosse ao vivo. Como, aliás, deve ser um disco em que a pulsação de quem sabe tocar é tão importante quanto o bom gosto no repertório, as invencões harmônicas, e a precisão de quem canta. O repertório parte evidentemente da bossa nova, a música que, sobretudo a partir do concerto do Carnneggie Hall, em 1962, estabeleceu de fato o casamento entre as músicas brasileira e americana. Mas não se restrige a ela. Alguns dos mais internacionais compositores brasileiros do período pós-bossa nova estão aqui. Como Ivan Lins (e Vitor Martins, com versão de Alan e Marlyn Bergman), de quem Leila grava "The Island", nada menos do que a grande balada "Começar de novo", recentemente gravada por cantoras de registros distintos como Barbra Streisend e Jane Monheit. Ao contrário destas, contudo, Leila dá uma versão cheia de suingue, conduzida pelo baixo de Jorge Helder, sem perda da substância dramática da canção. Dori Caymmi, ele próprio radicado nos Estados Unidos, é autor de "Like a lover" (versão do mesmo casal Bergman para "O cantador", música catapultada para o sucesso no Brasil por Elis Regina no Festival da Record de 1967), uma das canções brasileiras mais gravadas no exterior, que ganha uma versão levíssima, lírica de Leila, reforçando a letra em inglês que fala: "Como um amante, o sol da manhã/Nasce lentamente e beija o seu acordar". "Nothing will be as it was", de Milton Nacimento (e Ronaldo Bastos, com versão de R. Vincent), reaparece introduzida apenas por voz e contrabaixo, jazzística a não mais poder, o piano de Cristóvão fazendo de forma suingadíssima o famoso intermezzo da versão original, Carlos Bala quebrando tudo na bateria e Jorge Helder no walking bass. Das grandes canções de seu pianista Cristóvão Bastos, "Let`s start right now" , de linda melodia, harmonia riquíssima valorizada pelo acompanhamento, desta vez só de piano, do próprio autor. Trata-se da versão de Roxanne Seeman para "Raios de luz" que, com letra de Abel Silva, fez sucesso na voz de Simone no início dos anos 90. Do presente ao passado, Leila vai na origem de tudo, de quando a moderna música brasileira começou a dominar o mundo, o filme "Orfeu do carnaval", de onde pinçou uma certa "A day in the life of a fool", ela mesma, a "Manhã de carnaval" (Luiz Bonfá e Antônio Maria) em versão de Carl Sigman. Música de grande violonista, destaca-se nessa interpretação de Leila quase toda no improviso, inventando sobre a melodia, o acompanhamento do violão de João Lyra. Na bossa nova, Leila e os músicos sobram. Estão em casa. Em duo, Cristóvão Bastos e João Lyra abrem o disco com a majestosa e pouco conhecida introdução do "Desafinado" (Tom Jobim e Newton Mendonça), para Leila mandar com todo o seu suingue, abusando dos graves e da inventiva divisão ritmica a sua versão em inglês, "Off key" (de Gene Lees), que dá título ao disco. Em "Dindi" (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, versão de Ray Gilbert), Leila arrasa como baladista. Noutro clássico de Jobim, "Dreamer" ("Vivo sonhando", letra em inglês de Gene Lees), mostra como um samba pode ser cantado de forma sutil. Em "Quite night of quite stars" (a "Corcovado" do mesmo Lees) recebe a mais bossanovista das interpretações de Leila, quase sem efeitos vocais, apenas pequenas invenções ritmicas e com direito a um singelo solo de Cristóvão. A guitarra elétrica de João Lyra introduz "The day it rained", versão de Ray Gilbert para um clássico das internas da bossa nova, "Chuva" (Durval Ferreira e Pedro Camargo), das melodias mais bonitas do mundo, já sacada por Sarah Vaughan no passado e recriada com classe agora por Leila. Outro clássico secreto da bossa nova, "Razão de viver" (Eumir Deodato e Paulo Sérgio Valle), irresistivelmente jazzística no piano elétrico (um Fender Rohdes) de Cristóvão e na melodia pronunciada com cuidado por Leila, reaparece sob o título de "A little tear" (letra do mesmo Gilbert). Fecha sutil e feliz, um disco marcado por sutileza e felicidade. Escolada na noite, onde se acostumou a cantar o melhor da música americana que conheceu ainda criança, na discoteca do pai fã de jazz, e criada no Brasil das grandes canções, Leila Maria parece que viveu tudo que viveu para chegar aqui e cantar, para o Brasil e para o mundo, a força dessas duas culturas musicais.

[Hugo Sukman]

Pixinguinha, de Paulo Moura e os batutas8 Pixinguinha, de Paulo Moura e os batutas. Rob Digital.

Paulo Moura e Pixinguinha fazem uma combinação perfeita em musica, dos arranjos à interpretação. É como se o instrumentista e arranjador fizesse uma leitura da alma do compositor, e não apenas de suas partituras. Paulo Moura concebeu este trabalho para homenagear o mestre na ocasião de seu centenário. Escolhe o repertório, fez os arranjos e remontou com um time de primeira, a versão atual dos Oito Batutas o grupo com o qual Pixinguinha viajou mundo afora. Os Batutas de Paulo Moura são Joel Nascimento no bandolim, Jorge Simas no violão de sete, Márcio Moura no cavaquinho, Jorginho do Pandeiro, Jovi na percussão e Zé da Velha no trombone. Deste trabalho saiu um primeiro CD que ganhou o Prêmio Sharp de 98. Esta edição que sai agora traz uma nova gravação mais quente e vibrante, de um show que o grupo fez ao final da turnê, e por isto mesmo com muito mais entrosamento, suingue e improvisos.

O repertório deste CD é quase todo dedicado às composições de Pixinguinha, dos grandes sucessos como "Carinhoso", "Rosa" e "Um a Zero", a pérolas como "Lamento", "Ainda me recordo", "Naquele Tempo" e "Ingênuo" passando por músicas menos conhecidas, mas nem por isto menos geniais, como "Segura Ele" e "Proezas de Solon". Outras quatro faixas não assinadas pelo mestre têm toda a atmosfera de sua época e completam um repertório clássico do melhor da música carioca: "Pelo Telefone" (Donga e Mauro de Almeida), "Batuque na Cozinha" (João da Bahiana), "Mistura e Manda" (Nelson dos Santos Alves) e "Urubu Malandro" (Louro e João da Bahiana). Nesta última, aliás, Os Batutas comandados por Paulo Moura dão um show de interpretação, improvisando na melhor tradição dos grandes discos de Jazz. E o band-leader esbanja em todo o disco seu virtuosismo na clarineta.


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