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revista
de cultura # 43 |
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A imagem criativa na poesia de Orides Fontela José Carlos A. Brito
O jornalista Luis Nassif, que conviveu esporadicamente com
ela e escreveu uma crônica relatando passagem histórica de sua vida,
afirma “Orides já faz parte do Olimpo das maiores poetas do século…”.
Soma-se esta afirmação a uma reputação merecida que a poeta vai
ganhando, com o tempo. Tendo sido considerada uma pessoa muito pobre -
cursou a faculdade de filosofia com muito sacrifício - sua miséria foi
comparada à de Cruz e Souza, mas na verdade possuía uma pequena renda de
aposentadoria como bibliotecária. E, segundo o poeta Donizete Galvão, em
artigo, Orides encontrou em São Paulo apoio de diversas pessoas, como
Antonio Cândido, José Mindlin, Marilena Chauí, entre outros.
Completando, Galvão confirma que “mesmo em vida, Fontela teve um
reconhecimento crítico considerável (…) em conversas que tive com ela,
reconhecia que era áspera, sem travas na língua e que se indispunha com
as pessoas. Muito isolada nos últimos anos, dizia que estava mais amena.
A própria fragilidade física tirara-lhe a disposição para a briga(…)
embora tenha sido desleixada até mesmo com sua saúde, era zelosa com sua
poesia…” Pelo que se sabe, a vida da poeta Orides Fontela, repleta
de contradições, não lhe permitia o menor tipo de adaptação ao convívio
social e, por estranho que pareça, não se refletia isso em sua poesia
meiga, de convívio harmônico com elementos da natureza, como pássaros,
pedras, água, rio, estrelas, entre outros. Esse conflito, provavelmente
tenha sido seu elemento trágico e, porque não, também condutor de sua
intensa criatividade, lembrando-nos aquele ditado, “Deus escreve
certo por linhas tortas”. Provavelmente a criatividade de Orides estivesse entre
essas duas extremidades tensionadas, como pontos atuantes de posições
contrárias; de um lado seu inconsciente repleto de imagens e, de outro, o
Daimon incendiado de seu comportamento rebelde com a vida real a
enfrentar. Vejamos isso nas palavras de Nassif: “… Vivia
miseravelmente. Fez carreira no serviço público e se aposentou como
bibliotecária. Teve consagração em vida dos maiores críticos
nacionais, dentre os quais Antonio Cândido de Mello e Souza. O professor
a ajudou como pôde, com críticas consagradoras e com uma bolsa de
estudos que ele recebera de uma fundação estrangeira (…) Orides reagia
como um bicho acuado, um vulcão de sensibilidade que explodia na poesia,
mas não conseguia canalizar para relações pessoais (…) do professor,
cortou as roseiras. Deve ter feito pior com David Arrigucci. Fazia escândalos
com amigos, explodia com protetores, se perdia e perdia tudo o que tinha
e, quando nada mais tinha, ia abrigar o corpo magro no velho prédio da
Casa do Estudante…” A seguir, o próprio Nassif estabelece os
sinais do contraste da poeta, dizendo: “…a única luz que provinha
dela saía pelos poemas que rabiscava desesperadamente, até se esvair de
vez em um sanatório de Campos de Jordão, anos atrás…” Na sociedade em que vivemos, esses milhares de coisas
chamadas de “criação”, verdadeiramente não o são; trata-se apenas
do alimento diário, repetitivo, para engordar o grande ego consumista, a
que foram transformados os seres comuns, via uma persona coletiva,
revestida de comportamento mascarado, objeto do marketing comercial. Ela
induz o ego ao único exercício de consumir todo o tempo na pretensa
conquista do produto inútil. Portanto, a cultura predominante torna
“compreensíveis” tais absurdos, inculcados no ser humano comum, pela
excessiva produção da mercadoria, desnecessária e violenta, onde a
simplicidade da poesia, em sua lógica de alma, passa a não ser
compreendida. A poesia, ao não conviver com a violentação do ser,
torna-se um contra-senso para a cultura de mercado. E Orides consumiu seu
corpo, colocando-o diante das máquinas de guerra desse exército da
realidade crua. Alguém poderia imaginar um tanque de guerra desviar-se de
seu caminho para não amassar uma flor? Orides Fontela, sem levar em conta
sua própria fragilidade, iludia-se, ao super valorizar sua energia
interior, de flor, cuja beleza ser-lhe-ia uma verdade suficiente para
enfrentar as armas da barbárie. Uma lógica ingênua? Ou uma entrega de
corpo e alma, assumida? E seu profundo viver, no mundo subjetivo,
criava-lhe dificuldades para distinguir entre amigos aliados e reais
inimigos. A máscara de “novidades”, que ilude consumidores,
estabelece dificuldades para entender o processo criativo da poesia, e tal
compreensão só pode ser conseguida por uma alma liberta, não
escravizada aos poderes inúteis e mórbidos do grande impostor da
realidade. Em contrapartida, trilhar o caminho da alma corresponde ao
encontro psíquico da auto realização, que convive em harmonia com sua
matéria-prima de criação: a natureza. E, através da poesia, pode-se
viver com um consumo material mínimo, porque a maior felicidade, nesse
caso, é o fazer alma; sendo muito precioso todo o tempo para essa
grandiosa operação de amor.
Criar significa realizar coisas inteiramente novas, que
proporcionam energia libidinal e não alienação nos deuses alheios. E os
próprios seres, ao nascer, são sempre diferentes, sempre uma conclusão
que transcendeu o passado e desprendeu-se em forma de um intermédio novo
e autônomo. O nascer, ao produzir elementos inesperados, portanto, criações,
assemelha-se ao processo animado da alma em vida, isto é, produção de
novidades por intermédio da fantasia, no nascimento de seres simbólicos
que alimentam o sentido de viver, e dão gosto. Provavelmente não seja a
poesia a criadora de símbolos, mas sim de imagens, e o símbolo nasce
delas, como figura de vida própria, com a qual o poeta se surpreende e
passa a conviver, muitas vezes tão profundamente que se esquece da outra
vida, a realidade de ganhar dinheiro para comer. A partir do momento do nascer - que para Orides Fontela se
dá no grito - os seres são tomados, paulatinamente, pelo processo
repetitivo da “novidade” consumista, adaptando-se de variadas formas a
essa consciência “racional”, em que o desenvolvimento mergulhou o
mundo numa destruição continua, até a morte. Os seres
“desenvolvem-se” imperceptivelmente nessa corporificação, como
produtos, com suas respectivas máscaras; aquelas da concorrência
violenta ou mesmo do bom comportamento, incluindo uma ética adaptada a
isso. Serão operários, médicos, engenheiros, professores,
desempregados, e até mesmo revolucionários; ou mulheres reflexos desses
espelhos masculinos (onde emancipar-se é ascender à condição do
masculino), enfim, seres do repetitivo viver destruindo, com a matriz
reprodutiva num fator subliminar da máscara, absoluto e onipotente; um ou
vários deuses complementares, porém externos a suas vidas. Os seres humanos são, de uma maneira geral, pessoas
desesperadas para cumprir uma missão, desprezando e estabelecendo como
“função secundaria” as solicitações da alma, sedenta de libido
para alimentar e despertar a Psique, adormecida de tanto padecer e ser
torturada em sua procura de Eros. E a vitalidade erótica da alma, será
tachada pelo mercado como inútil e indolente. Porém, alguns parecem ter sido revestidos pela natureza
com o prêmio de sua capa protetora, constituída de elementos intuitivos
de extrema sensibilidade e vidência, que se concretizam em uma chama
primordial do fogo criativo. Tais pessoas entregam todas as forças de seu
frágil ser a um exercício incansável, e surge a surpreendente energia.
Nesse processo, suas almas se apaixonam e nunca mais largam a luz
primitiva e reveladora com que incendeiam a vida e incomodam a tranqüilidade
repetitiva dos outros. Assim nos parece Orides Fontela. E ela própria
resume sua vida nesta poesia: Apocalipse - Uma estrela/ atrai/ a luz
– uma estrela/ suga/ o resto do/ resto, o/ silencio – elide os deuses,
im/ plode – acaba morre/ finalissi/ mamente. Orides Fontela, em sua vida cotidiana é possuída por um
Eros que na antiguidade, nas tragédias gregas, era considerado como “…hostil,
louco, mentiroso, portador de infortúnios, tirano, enganador” ou
“deus temível em vista da devastação que ocasiona na vida humana
(…) um tigre, não um gatinho de estimação” (A.E.Taylor, citado
por J. Hillman). Mas segundo o próprio Hillman, esse Eros violento,
rebelde, é assim enquanto não for contido pela Psique (o fruto
adormecido de seu amor) “…enquanto continuar inconstante e possuído
pelo complexo materno, devido sobretudo, a uma anima (alma) que ainda não
emergiu de falsos valores, de noções vãs de beleza e da incerteza
psicológica sobre si mesma, como alma, e que, por isso ainda não é um
vaso capaz de conter a força criativa de Eros…”. Diríamos que
assim foi nossa poeta Orides, em seu comportamento externo, na vida
social, encarnada ao espírito do Eros desgovernado, enquanto ela própria
não fosse possuída e contida por sua Psique adormecida, só despertando,
constantemente, no outro mundo da poesia. Na transcendência dessa passagem para o amor, onde Eros
aplica sua flecha dolorida, a Psique da poeta seria constantemente
despertada de um sono de profundo sofrimento e se enlaçaria a esse amor -
por isso… Sempre é melhor/ sofrer/ que não sofrer (Axiomas) -
para um amor tranqüilo no símbolo poético, onde Psique deixa também de
ser inocente: Balada: Os anjos são/ livres. // Podemos sofrer/ podemos
viver/ o acontecer/ único// – os anjos são/ livres –// podemos
morrer/ inocentemente// - e os anjos são/ livres/ até da inocência.
Mais do que um significado correspondente ao sofrimento de
Psique, que esperaríamos encontrar através de uma possível reclamação
de amor, em poemas de paixão frustrada – coisa comum em poesia lírica
– ou uma possível violência louca de Eros, carente de Psique (e vice
versa), ao contrário, em Orides, isso fica plasmado nos poemas, em símbolos
formados, com novas figuras (transcendentes) da união intermediaria de
uma Psique, que habita com certa tranqüilidade vivências do encontro com
Eros. Sofrimento explicitado - dessa forma diferente - por exemplo, no
poema Adivinha; O que é impalpável/ mas/ pesa // O que é sem rosto/
mas/ fere // o que é invisível/ mas/ dói. Aqui o “encontro” é
nítido, pois, Eros vem amar e some (impalpável); esconde sua
identidade (sem rosto); fere ao amar e ao partir; mas, mesmo
invisível machuca; no bom ou mal sentido. Portanto, o encontro da
psique de Orides se dá no imaginário. E ali, a poesia é uma vida calma,
coerente, criativa. A alma da poeta entrega-se toda às imagens, na encubação,
gestação e nascimento do símbolo: Ouvir um/ pássaro/ é agora ou/
nunca… (Cantiga) …Pano branco/ integralmente branco//…para receber o
sangue/ de todas/ as coisas…(Toalha). E nesse mergulho profundo (ao
fundo), de todas as partes vivas nas imagens formadoras da unidade
interior -da alma habitando seu deus- ela vive, provavelmente, estados de
delícia (ou felicidade?) esquecendo o corpo magro e cada vez mais
debilitado. Essa força física, biologicamente necessária, é
inteiramente trocada pela resistência simbólica do poema, onde o conteúdo
forma as imagens de sua vida e de sua força (a outra). A poesia de Orides, em nada corresponde a suas atitudes nas
relações sociais, pois, a verdadeira amizade habita mais dentro do mundo
interno. E a poesia, de formato especialmente seu, terá lirismo próprio,
será amorosa, delicada, suave e compreensiva, em convívio com os
personagens da natureza, seus amigos, suas metáforas de redenção,
aquelas de um Eros contido no amor de Psique. Assim no poema Para
C.D.A. somos tocados pela seguinte imagem: …Perdi o bonde/ (e a
esperança), porém/ garanto/ que uma flor nasceu… Para essa perfeição, buscada na síntese voluptuosa e
simbólica dos personagens transcendidos, sua poesia, como dizíamos,
prescinde dos elementos tradicionais da linguagem amorosa, como: paixão,
amor, sexo, saudade, traição, remorso, entrega, desejo, ciúme, mágoa,
corpo, frustração, retomada, despedida, encontro, ou toda sorte de relação
fisiológico-sentimental entre masculino e feminino. As figuras serão: pássaro,
pedra, estrada, rio, água, silêncio, ou elementos (mãos) da fisiologia,
relacionados à expansão cósmica: esse mundo sedutor e de mistério do
além, algo como uma vida metafórica da união amorosa percorrida pela
alma, onde sua Psique vai ensinando Eros a viver, e recebendo dele uma
permanente energia vital, através das figuras e do mundo solidamente
fantasiado …Um pássaro/ resiste aos/ céus. E perdura./ Apesar. (O
anti-pássaro).
A Teia – A teia, não/ mágica/ mas arma, armadilha// a
teia, não/ morta/ mas sensitiva, vivente// a teia, não/ arte/ mas
trabalho, tensa// a teia, não/ virgem/ mas intensamente/ prenhe:// no/
centro/ a aranha espera. Teia lembra preparação entre a produção, que a poeta
espera do seu rico imaginário inconsciente e a consciência, esta
preparada para recolher as imagens, transformando-as em símbolos vivos. A
teia, portanto, não se apresenta simplesmente como uma situação
unilateral, com predominância de um ou outro dos pólos (inconsciente x
consciente). Não será apenas o clima mágico do mundo interior, mas
trata-se também de ação da consciência, no armar armadilhas,
justamente para captar as figuras originarias da parte obscura. Não
somente o rico mundo do além, na metáfora de (fantasmas) não mortos,
mas sensitiva, vidente, isto é, desperta para abocanhar o poema. E não apenas a virgem imaculada dos mistérios que
estão por vir, mas prenhe para produzir e criar no centro,
isto é, na mediação, onde nasce a intermediação do símbolo, para
criar a figura nova e transcendente: a aranha, aquele si mesmo, que
reúne na Psique todas as forças psíquicas, vindas dos mais diversos
lugares. Unida a um eu (ego equilibrado), espera, para alimentar-se
do símbolo, ou das visitas inconfundíveis de Eros. Fala – Falo de agrestes/ pássaros de sois/ que não se
apagam/ de inamovíveis/ pedras// de sangue/ vivo de estrelas/ que não cessam.// Falo do que impede/ o sono. Falo: o membro erótico da libido e do despertar (também
flecha de Eros dirigida a Psique), confunde-se com o pronunciar o verbo, o
poema; esse produzir do falo através da fala. O pássaro é a comunicação
de uma imagem primordial (arquétipo)…de sois; o sol é símbolo
da criação ou do falo permanente, que se introduz em psique. E a pedra,
cristaliza a imagem de que o coito é uma junção permanente, inamovível;
não se apaga. Mas logo as pedras tomam vida, para que sua permanência
seja igual a um ente vivo, onde corre sangue (a projeção e a identificação
com o próprio corpo, ou analogia subliminar a ele; pedra que precisa animar-se).
O sangue, consciente, é vivificado dentro do símbolo de Psique, isto é,
dentro do inconsciente, por estar relacionado ao fogo vivo das estrelas,
junto ao habitat da alma. E a energia vital da libido é acionada pelos pássaros
que circulam livremente entre os pólos. Lembrando o
mito de Eros e Psique: a princesa Psique, após muito sofrer em busca do
deus Eros perdido, e tentar o suicídio, desanima e é castigada com um
profundo e eterno sono, do qual, somente Eros poderá acordá-la com suas
flechadas de amor. A poeta transforma a flecha em falo e sinaliza que essa
palavra impede o sono, ao falar no poema daquilo que impede o sono:
provavelmente o amor, metaforizado nas coisas eternas; não se apagam,
inamovíveis, coisas eternas. Consideremos que Orides, em várias
ocasiões tentou suicídio e também se refugiava em boemia e na depressão
(dormência?). Para James Hillman, são formas da psique ir em busca da
alma, ou do fazer alma; caminho sedutor, repleto de dificuldades e riscos,
às vezes trágicos. Maiêutica: Gerar é escura/ lenta/ forma in/ forme// gerar
é/ força/ silenciosa/ firme/ gerar é/ trabalho/ opaco:// só o
nascimento/ grita. Parece-nos que, para Orides, o silêncio é a chave e a
porta de entrada no seu vasto mundo interior (ou do inconsciente: imaginário);
essa força silenciosa e firme do gerar. Após a descoberta do
nascer, gerar precisa despir-se das formas (in forme), para ser a
força escura, difusa - a noite onde vivem os mistérios - indo à
procura das imagens no trabalho opaco, noturno. E silenciosamente
arranca as figuras, desse seu outro mundo, da treva, para viver as
fantasias de sua autonomia. Gerar, portanto, trabalha na parte oculta, com
o silêncio, instrumento oposto ao das palavras. Pois, as palavras,
correspondem ao trabalho da consciência na tradução das figuras em
objeto arquétipo da arte poética. Por outro lado, gritar se dá no lado
consciente, isto é, no nascimento; significando a conversão da imagem do
silêncio para o grito. É como se cada ser, no ato de nascer e ao
pronunciar o primeiro som, tivesse rompido um silêncio de milhares de
anos, situação incorporada ao inconsciente coletivo de todos os seres,
em imagens primordiais. Portanto, a sua primeira fala pressupõe
automaticamente a existência desse silêncio milenar, compondo sua existência
anterior nessa ligação coletiva de memória arquetípica, ou melhor, a
sedimentação das imagens comuns, desde o início de tudo, neste caso
extraídas para a criação pessoal. No caso da poeta, o silêncio e a fala, o gerar e o nascer,
são pólos de tensão em pontos opostos, cuja manutenção equilibrada no
símbolo impede também a loucura, quer dizer, a invasão absoluta de um
dos lados, tanto do inconsciente, anulando a outra parte, como o da inflação
excessiva da consciência de um ego aumentado, que reforçaria a máscara,
anulando a fantasia. No caso, a invasão unilateral do inconsciente
corresponderia, como já vimos antes, ao Eros enlouquecido, inconseqüente
(que assim age enquanto não é contido por Psique) e que no caso da
poesia de Orides acaba controlado por sua psique do nascimento. Quer
dizer, da mesma forma que seu silêncio é a descoberta do mundo mágico,
seu grito (de nascer) é sua poesia plasmada; seu símbolo realizado.
O pássaro faz o seu trabalho. Novamente temos aqui o pássaro,
como mensageiro da alma (confundindo-se com a própria) que trabalha
incansavelmente fazendo a casa, isto é, a construção do seu próprio
ser, seu habitat, seu logos (o si mesmo, onde também habita o eu da
poeta, numa síntese dos contrários). Mas esse trabalho faz o pássaro na
consciência, que resgata a imaginação para o símbolo e, bem
provavelmente, permite o equilíbrio consciente da poeta, quando ela
enxerga realizada sua obra (incluindo a edição de seus livros, que ela
mesma curte, com especial atração). É duro construir-se; algo como Psique sofrendo na espera,
para o despertar. Mas o canto, figura primordial no nascimento é anterior
ao pássaro (alma) e anterior ao início da vida no mundo. Será o canto -
aquele primeiro som, símbolo do feminino, que dá inicio à criação -
algo como a figura de um inconsciente coletivo do nada, essa função
arquetípica anterior à matéria? Ou será ele o espírito coletivo, a
acompanhar a vida do mundo? Da mesma forma, a casa, o si mesmo individual, que
em termos coletivos corresponderá à mesma imagem primordial, é anterior
ao barro (a consciência), no sentido de a imaginação do completo estar
antes de iniciar-se a realidade. O nome – origem do arquétipo
feminino da existência ou imagem da mãe geradora (e gestadora) na anima
mundi (alma do mundo, ou anima(a)ção da matéria) – é anterior à
vida (consciência do mundo). Ditado: I - Mais vale um/ pássaro/ na mão pou/ sado que o
vôo da/ ave além/ do sangue.// II - Mais vale o/ canto/ agreste/ do que
o vívido/ silêncio branco/ além do humano/ sangue//. III - Mais vale a/
luz/ aberta/ do que austera/ noite primeva para além/ do sangue//. IV -
Mais vale o/ pássaro/ mais vale o/ sangue. O pássaro na mão é a alma sob controle da psique e, o
vôo além do sangue, que para a poeta tem menor valor, é a vida
consciente, racional, humana: a responsabilidade que a sociedade exige
dela, o mesmo que “dar o sangue”. E note-se bem, ao representar isso
de menor valor, também por uma noite primeva, corresponde a
uma dúvida e a um medo em avançar no inconsciente, pois, o mergulho na
imaginação também pode afogar. Volta-se a refletir, ou a intuir o inconsciente como
integridade fornecedora de imagens (o canto agreste) ação
equilibrada pelo oficio da consciência que recolhe as imagens (a luz
aberta). Porém, antes de partir para o desconhecido, onde pretende
exercitar-se no fazer alma, paira novamente, sobre ela, a dúvida e o medo
(esse necessário instrumento de contato com a alma). O menor valor dado
ao vívido silêncio branco (aquele que sempre foi corajosa chave
da porta de entrada no inconsciente), por acaso representará o medo e a dúvida
em relação a rupturas com os elementos geradores do aquecimento da
libido? E, nesse caso, não seria perigoso voar sem reabastecer? Ao ter
procedência tal temor, digamos que esse fato confirma a situação
equilibrada da poeta, considerando tratar-se de reflexão ponderada, que
atesta a presença do cuidado em prevenir-se, quando se trata de planejar
ações de profundidade. Mas, na quarta e última estrofe do poema, passamos a
observar que, apesar das dúvidas e temores da poeta, ela acaba
valorizando equilibradamente o todo; tanto o pássaro, como o sangue,
pois, para chegar à noite primeva é requisito atravessar o sangue, o
sofrimento, e as provas de amor, inclusive suportar a flecha de Eros e a
dor necessária. Pesca: I – A beira do rio o silêncio/ dos peixes/ a
beira do rio nem/ a espera.// II – A água não cessa/ e o rio/ nunca
passa.// III – A beira rio/ a lucidez/ a/ pedra// e a pedra é/ pedra: não
germina./ Basta-se. O rio é a (bela?) paisagem do inconsciente (imaginação
ativa)? Neste caso já transcendido (transformado) em símbolo de água
vitalizada pela corrente das coisas imponderáveis? A psique da poeta
permanece à beira desse rio, numa posição confortável de visão e
reflexão. O silêncio é a abertura para a entrada do clima perfeito de
integração, tão profundo, ao ponto desse silêncio ser figurado na
vivacidade dos peixes. Os peixes são vivos, silenciosos e integrados
absolutamente ao rio da própria vida interna e ao caminho percorrido pela
alma (a água não cessa); um silêncio necessário para energizar
a vida. Não há espera, porque nessa imaginação vitalizada, em que
agora a poeta seguramente está mergulhada, as figuras borbulham e a
libido não cessa. Uma imagem dinâmica é desencadeada, na medida em que dois
extremos são criados como pólos em posição de gerar energia: de um
lado “a água não cessa” de outro “o rio nunca passa”.
E dessa relação para produção de imagens, nasce o novo símbolo,
deslumbrante: a lucidez e a pedra. Outra vez a pedra é o
vivo espelho do próprio ser vital, pois ela não germina, é a filha de
si mesma ao desdobra-se em outros eus, sendo cada um o reflexo da poeta,
algo como a psique despertada, reunindo em si as varias funções do Eros
integrado, o si mesmo: união do mundo interno (e noturno) do imaginário
com a consciência de luz do dia. Talvez, um mergulho tão profundo e sedutor, que arrebata o
símbolo de Eros, de tal forma, para a extremada vitalidade da fantasia,
tenha sido a causa do eu ter ficado tão desprezado. E provavelmente,
neste caso, a consciência ressente-se da falta de energia e deixa
penetrar a tuberculose pelo corpo ressequido. Provavelmente tenha faltado
à poeta um pouco de água do rio caudaloso, para dar de beber à consciência.
Feito peixe vivo, seu imaginário deliciou-se na água, onde o corpo
humano tem limites de resistência sem respirar, e Orides Fontela passou a
viver um silêncio cósmico: “…a estrela da tarde está/ madura
(…) depois dela só há/ o silencio (Vésper) |
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José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo (Prêmio da editora Taba, RJ), Poemas do Amor Quebrado (Prêmio da Academia Il convívio, Itália, 2003), e O Romance de Meiga e Sátiro (peça de teatro em versos) Contato: abreolho@ig.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica). |
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