revista de cultura # 43
fortaleza, são paulo - janeiro de 2005






 

Amavisse, de Hilda Hilst: pacto com o hermético

Claudio Willer

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Hilda HilstProssigo na recuperação de textos que alguma vez saíram impressos, transferindo-os para o meio digital e colocando-os à disposição, on line.

Desta vez, algo entre a resenha e o ensaio, a propósito do lançamento, ao final de 1989, de Amavisse de Hilda Hilst, na época lançado por Massao Ohno e agora integrando um dos volumes de Obras reunidas de Hilda Hilst pela Editora Globo, organizada por Alcir Pécora.

Meu texto saiu no Jornal do Brasil de 17/02/1990, no Caderno Idéias/ Livros. Já havia escrito sobre Hilda Hilst. Em 1980, registrei meu entusiasmo com as imagens poéticas de Da Morte – Odes Mínimas, na revista Isto É. Em 1987, escrevi sobre a coletânea de textos em prosa Com os meus olhos de cão (então lançada pela Brasiliense). Logo a seguir, em 1991, voltaria à carga, a propósito do Cadeno Rosa de Lory Lamby, dessa vez no Jornal da Tarde, rebatendo as críticas à pornografia nessa narrativa, sustentando tratar-se de um relato alegórico. Também já comentei Diário de um sedutor, e dei palestras sobre sua poesia e sua prosa.

Nesta versão on line, fiz alterações mínimas. A retificar ou rever, apenas o último parágrafo, no qual bato na tecla da falta de reconhecimento e reclamo mais estudos sobre Hilda Hilst. Felizmente, a situação mudou. Hoje, a poeta da Casa do Sol, falecida há um ano, tem mais leitores, e uma bibliografia crítica muito mais consistente, embora, evidentemente, ainda haja muito a ser dito sobre sua obra tão densa, complexa, e aparentemente paradoxal em sua coerência (ou, antes, coerente em seus paradoxos).

 

PACTO COM O HERMÉTICO

Amavisse, de Hilda Hilst, teria que figurar entre os principais lançamentos de obras poéticas da década de 1980. Obra de síntese e integração, corresponde a um clímax de sua produção, que ela agora ameaça encerrar, depois da próxima publicação de um livro debochado, o Caderno Rosa.

Na obra de Hilda Hilst, poesia e prosa são vertentes distintas, porém complementares (acrescidas ainda por sua produção teatral). A poesia freqüentemente é mais concisa e contida, com um sentido de apuro formal, mais evidente no lírico Júbilo, memória, noviciado da paixão. É esplêndida nas imagens poéticas do tipo visual, particularmente em Da Morte - Odes Mínimas. A prosa, reunida em Com os meus olhos de cão, publicado pela Brasiliense em 1986, é anárquica, transgressiva, delirante. Cada livro parece fragmento de um texto infinito (o que é indicado por um dos títulos, Fluxofloema). Textos de invenção e ruptura, particularmente o escatológico (nos dois sentidos da palavra) A obscena Sra. D.

Mario MaffioliAmavisse representa o melhor do lirismo de Hilda Hilst ao celebrar o amor e o desejo em passagens como esta: “Como se te perdesse, assim te quero./ Como se não te visse (favas douradas/ sob um amarelo) assim te apreendo brusco/ inamovível, e te respiro inteiro/ Um arco-íris de ar em águas profundas […] Como se te perdesses nos trens, nas estações/ Ou contornando um círculo de águas/ Removente ave, assim te somo a mim:/ De redes e de anseios inundada”.

É uma poesia noturna, lunar, herdeira do Romantismo: “De ti me vem/ A noite tingida de matizes, flutuante/ De mitos e de águas. Inaudita”. Ao falar da experiência do noturno em seu lado revelador e abissal, permite paralelos com obras da envergadura de Água viva, de Clarice Lispector. Por exemplo, ao enxergar “um oco fulgente num todo escancarado./ E um negrume de traços nas paredes de cal/ Onde a mulher avesso se meteu”.

Trechos como esses poderiam ser de prosa poética e estar na obra em prosa de Hilda Hilst. O mesmo vale para uma temática, que também é uma obsessão, presente em Amavisse e em vários dos textos de Com os meus olhos de cão, como Qadós: o confronto com Deus, mas com um Deus mutante, animalesco: “Deus, um cavalo de ferro/ Colado á futilidade das alturas”. Isso é indicado já na abertura do livro: “Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco/ À espera da Tua Fome, permita-me a pergunta/ Senhor dos porcos e dos homens:/ Ouviste por acaso ou te foi familiar/ Um verbo que nos baixios daqui muito se ouve/ O verbo amar?” Essa indagação é um questionamento: “À carne, aos pêlos, à garganta, à língua? A tudo isto te assemelhas?/ Mas e o depois da morte, Pai? […] Hein? À treva te assemelhas?”

O diálogo cresce e se torna mais enfático na terceira parte do livro, intitulada Via Vazia (as outras duas são Amavisse e Via espessa): “Que vertigem, Pai./ Pueril e devasso/ No furor da tua víscera/ Trituras a cada dia/ Meu exíguo espaço”. E mais: “Descansa./ O Homem já se fez/ O escuro cego raivoso animal/ Que pretendias”. Discurso da ruptura, blasfêmia declarada, pois: “Não percebes […] / Que há uma luz que nasce da blasfêmia/ E amortece na pena?”

Sua cosmogonia paradoxal permite estabelecer vínculos entre Hilda Hilst e outros autores rebeldes, mostrando afinidades que não estão na superfície, na obra manifesta. A imprecação contra um Deus opressor é radicalizada, por exemplo, em Para acabar com o julgamento de Deus, de Artaud. E em estrofes de Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont. Em uma delas, é invertida uma passagem da Divina Comédia. Deus, ocupando o lugar do diabo dantesco, devora seres humanos que apodrecem em um charco.

Susan Sontag, ao escrever sobre Artaud (no prefácio dos Selected writings de Artaud – esse prefácio foi incorporado à coletânea Sob o Signo de Saturno, publicada no Brasil pela L&PM), vincula-o com propriedade a uma corrente mística, herética e subterrânea, a gnose. Para Sontag, uma das versões do gnosticismo implica a libertinagem – praticar a arte da transgressão. A libertação, entendida como recuperação da unidade anterior à Queda, passa pela ruptura com as leis morais e sociais. A blasfêmia é um caminho do conhecimento, identificado ao estado de graça.

Mario MaffioliPara Colin Wilson, em O Oculto, cristianismo e gnosticismo “não deveriam ser considerados antagônicos, mas manifestações diferentes do humano desejo de escapar à banalidade da existência”. No entanto, a gnose nega o cristianismo, por achar que o Criador, ou Demiurgo, é um produto da Queda, uma divindade decaída. Ainda citando Colin Wilson: “O mundo não foi criado pro Deus, mas por um demônio idiota e presunçoso (ou Demiurgo)”.

O gnosticismo é explícito em William Blake, ao designar Deus como “Velho Pai-Ninguém”, Old Nobodaddy. E também no vigor libertário de O casamento do céu e do inferno. São de origem gnóstica heresias como as dos cátaros albigenses, militarmente exterminados no século XIII. Em Lautréamont, os traços gnósticos devem ser involuntários, produto de suas idéias literárias. Mas são propositais em Alfred Jarry, que disfarçava com a prática do humor negro (no texto e na vida) sua formação filosófica e hermética. E o gnosticismo está em vários dos “malditos” e satanistas do final do século XIX.

Claramente, o interlocutor de Hilda Hilst, nos trechos citados, é o Demiurgo. É irrelevante se isso corresponde a alguma adesão proposital da autora à doutrina gnóstica, que, além de tudo, é plural, difusa, e se confunde, em suas variantes, com o orfismo, o dionisismo e o tantrismo. Tanto faz, assim como um escritor não precisa ser psicanalista ou semiólogo para que se cite Freud ou Roland Barthes ao discutir sua obra. Em qualquer um desses casos, a operação é como um jogo de espelhos, o confronto de dois sistemas, aquele do texto literário, e outro, que podem, ambos, se iluminar reciprocamente. E o sistema segundo não precisa ser intencionalmente metalingüístico, desde que se queira fugir à tirania cientificista do método. Da mesma forma, o detalhe biográfico de Baudelaire haver ou não conhecido Éliphas Lévi passa a interessar porque a teoria hermética das analogias e correspondências ajuda na leitura do poeta francês.

Há um aspecto do gnosticismo que serve como metáfora da criação poética. Trata-se do falar línguas, a linguagem dos rituais gnósticos, abordada em um ensaio de Octavio Paz, Leitura e Contemplação (publicado no Brasil na coletânea Convergências – Ensaios sobre arte e literatura, pela Rocco). Feita de glossolalias, usa um vocabulário próprio, radicalmente distinto da linguagem prosaica e cotidiana. Algo como o que é proposto por Hilda Hilst: “Não cantarei cotidianos. Só te cantei a ti/ Pássaro-Poesia/ E a paisagem-limite: o fosso, o extremo/ A convulsão do Homem”. É a busca da linguagem adâmica, anterior à Queda.

Como se comentasse William Blake – em “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria” de O Casamento do Céu e do Inferno –, ela proclama: “Dá-me a via do excesso. O estupor/ Amputado dos gestos, dá-me a eloqüência do nada/ Os ossos cintilando/ Na orvalhada friez do teu deserto”, pois “o poeta habita/ O campo das estalagens da loucura”. E mais: é assim que “a distância habita em certos pássaros/ Como o poeta habita nas ardências”. E aqui é possível outra analogia, entre a relação de um místico com o misticismo, e de uma poeta como Hilda Hilst com a poesia: há um compromisso, uma relação vital, muito mais íntima que, por exemplo, a adesão a um sistema de idéias, a uma teoria científica. Quando ela intitula seu livro de Amavisse, é porque amou: as vias indicadas nos subtítulos – Via Vazia, Amavisse e Via espessa – foram, efetivamente, percorridas.

Mario MaffioliRetomando o desregramento dos sentidos de Rimbaud, Hilda estabelece um pacto com a loucura: “Estendi-me ao lado da loucura/ Porque quis ouvir o vermelho do bronze/ […] Um louco permitiu que eu juntasse a sua luz/ À minha dura noite”. Fala do poeta, voz da loucura: “E o que há de ser da minha troca de inventos/ Neste entardecer. E do ouro que sai/ da garganta dos loucos, o que há de ser?” Mas o louco faz parte dela, duplo alquímico ou Doppelgänger romântico: “Minha sombra à minha frente desdobrada/ Sombra de sua própria sombra? Sim. Em sonhos via./ Prateado de guizos/ O louco sussurrava um refrão erudito:/ – Ipseidade, senhora. – / E enfeixando energia, cintilando/ Fez de nós dois um único indivíduo”.

Busca da unidade perdida, recuperação da memória primordial, também em: “Canto canções assim tão compassivas/ Na minha língua esquecida”. Assim como na Gnose, uma rebelião que, sendo social, revolta contra o cotidiano, adquire uma dimensão cósmica. Quer resolver a contradição entre o sujeito e seu mundo, e se volta contra o Tempo: “Que as barcaças do tempo me devolvam/ A primitiva urna das palavras”, da palavra fundante, não-instrumental, pois “o poeta preexiste, entre a luz e o sem-nome”, habitante de um mundo animado, revitalizado, onde “De cigarras e pedras, querem nascer palavras”.

Há, em Amavisse, uma declaração de princípios e uma poética, baseada na adoção da linguagem transgressora para recuperar outro tempo, realizar simbolicamente o paraíso na Terra. Sua obra, lida à luz dessa poética, apresenta uma cosmovisão, e uma visão coerente da situação do poeta no mundo. Ela tem o pleno direito de citar Georges Bataille, como o faz. Poderia ser invocada pelo autor de A Literatura e o Mal, que aplicou a idéia hegeliana de negatividade à análise da literatura e transformou a noção de transgressão em categoria.

Prevalece, no Brasil, o mau hábito de não se ler direito alguns de nossos melhores autores. Há um viés em favor do discursivo e transparente. Fortunas críticas como as de Guimarães Rosa e Clarice Lispector são exceções. A regra é a procura do codificado e a fuga do hermético. Um Jorge de Lima constaria como monumento literário, mundialmente, se fosse melhor lido aqui. O barroco moderno e o realismo fantástico poderiam ter outra cronologia e outra atribuição de origens. Quanto à obra de Hilda Hilst, salvo vozes isoladas, como a do crítico Léo Gilson Ribeiro, nosso meio literário ainda lhe deve discussões e estudos à altura de sua real importância. 

Claudio Willer (Brasil, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica).

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