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revista
de cultura # 43 |
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Amavisse, de Hilda Hilst: pacto com o hermético Claudio Willer
Desta vez, algo entre a resenha e o ensaio, a propósito do
lançamento, ao final de 1989, de Amavisse
de Hilda Hilst, na época lançado por Massao Ohno e agora integrando um
dos volumes de Obras reunidas de
Hilda Hilst pela Editora Globo, organizada por Alcir Pécora. Meu texto saiu no Jornal
do Brasil de 17/02/1990, no Caderno Idéias/ Livros. Já havia escrito
sobre Hilda Hilst. Em 1980, registrei meu entusiasmo com as imagens poéticas
de Da Morte – Odes Mínimas,
na revista Isto É. Em 1987,
escrevi sobre a coletânea de textos em prosa Com
os meus olhos de cão (então lançada pela Brasiliense). Logo a
seguir, em 1991, voltaria à carga, a propósito do Cadeno
Rosa de Lory Lamby, dessa vez no Jornal
da Tarde, rebatendo as críticas à pornografia nessa narrativa,
sustentando tratar-se de um relato alegórico. Também já comentei Diário de um sedutor, e dei palestras sobre sua poesia e sua prosa. Nesta versão on line,
fiz alterações mínimas. A retificar ou rever, apenas o último parágrafo,
no qual bato na tecla da falta de reconhecimento e reclamo mais estudos
sobre Hilda Hilst. Felizmente, a situação mudou. Hoje, a poeta da Casa
do Sol, falecida há um ano, tem mais leitores, e uma bibliografia crítica
muito mais consistente, embora, evidentemente, ainda haja muito a ser dito
sobre sua obra tão densa, complexa, e aparentemente paradoxal em sua coerência
(ou, antes, coerente em seus paradoxos). PACTO COM O HERMÉTICOAmavisse,
de Hilda Hilst, teria que figurar entre os principais lançamentos de
obras poéticas da década de 1980. Obra de síntese e integração,
corresponde a um clímax de sua produção, que ela agora ameaça
encerrar, depois da próxima publicação de um livro debochado, o Caderno
Rosa. Na obra de Hilda Hilst, poesia e prosa são vertentes
distintas, porém complementares (acrescidas ainda por sua produção
teatral). A poesia freqüentemente é mais concisa e contida, com um
sentido de apuro formal, mais evidente no lírico Júbilo,
memória, noviciado da paixão. É esplêndida nas imagens poéticas
do tipo visual, particularmente em Da
Morte - Odes Mínimas. A prosa, reunida em Com
os meus olhos de cão, publicado pela Brasiliense em 1986, é anárquica,
transgressiva, delirante. Cada livro parece fragmento de um texto infinito
(o que é indicado por um dos títulos, Fluxofloema).
Textos de invenção e ruptura, particularmente o escatológico (nos dois
sentidos da palavra) A obscena Sra.
D.
É uma poesia noturna, lunar, herdeira do Romantismo: “De
ti me vem/ A noite tingida de matizes, flutuante/ De mitos e de águas.
Inaudita”. Ao falar da experiência do noturno em seu lado revelador e
abissal, permite paralelos com obras da envergadura de Água viva, de Clarice Lispector. Por exemplo, ao enxergar “um oco
fulgente num todo escancarado./ E um negrume de traços nas paredes de
cal/ Onde a mulher avesso se meteu”. Trechos como esses poderiam ser de prosa poética e estar
na obra em prosa de Hilda Hilst. O mesmo vale para uma temática, que também
é uma obsessão, presente em Amavisse
e em vários dos textos de Com os
meus olhos de cão, como Qadós:
o confronto com Deus, mas com um Deus mutante, animalesco: “Deus, um
cavalo de ferro/ Colado á futilidade das alturas”. Isso é indicado já
na abertura do livro: “Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco/
À espera da Tua Fome, permita-me a pergunta/ Senhor dos porcos e dos
homens:/ Ouviste por acaso ou te foi familiar/ Um verbo que nos baixios
daqui muito se ouve/ O verbo amar?” Essa indagação é um
questionamento: “À carne, aos pêlos, à garganta, à língua? A tudo
isto te assemelhas?/ Mas e o depois da morte, Pai? […] Hein? À treva te
assemelhas?” O diálogo cresce e se torna mais enfático na terceira
parte do livro, intitulada Via Vazia
(as outras duas são Amavisse e Via
espessa): “Que vertigem, Pai./ Pueril e devasso/ No furor da tua víscera/
Trituras a cada dia/ Meu exíguo espaço”. E mais: “Descansa./ O Homem
já se fez/ O escuro cego raivoso animal/ Que pretendias”. Discurso da
ruptura, blasfêmia declarada, pois: “Não percebes […] / Que há uma
luz que nasce da blasfêmia/ E amortece na pena?” Sua cosmogonia paradoxal permite estabelecer vínculos
entre Hilda Hilst e outros autores rebeldes, mostrando afinidades que não
estão na superfície, na obra manifesta. A imprecação contra um Deus
opressor é radicalizada, por exemplo, em Para
acabar com o julgamento de Deus, de Artaud. E em estrofes de Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont. Em uma delas, é invertida
uma passagem da Divina Comédia.
Deus, ocupando o lugar do diabo dantesco, devora seres humanos que
apodrecem em um charco. Susan Sontag, ao escrever sobre Artaud (no prefácio dos Selected
writings de Artaud – esse prefácio foi incorporado à coletânea Sob
o Signo de Saturno, publicada no Brasil pela L&PM), vincula-o com
propriedade a uma corrente mística, herética e subterrânea, a gnose.
Para Sontag, uma das versões do gnosticismo implica a libertinagem – praticar a arte
da transgressão. A libertação, entendida como recuperação da
unidade anterior à Queda, passa pela ruptura com as leis morais e
sociais. A blasfêmia é um caminho do conhecimento, identificado ao
estado de graça.
O gnosticismo é explícito em William Blake, ao designar
Deus como “Velho Pai-Ninguém”, Old
Nobodaddy. E também no vigor libertário de O casamento do céu e do inferno. São de origem gnóstica heresias
como as dos cátaros albigenses, militarmente exterminados no século
XIII. Em Lautréamont, os traços gnósticos devem ser involuntários,
produto de suas idéias literárias. Mas são propositais em Alfred Jarry,
que disfarçava com a prática do humor negro (no texto e na vida) sua
formação filosófica e hermética. E o gnosticismo está em vários dos
“malditos” e satanistas do final do século XIX. Claramente, o interlocutor de Hilda Hilst, nos trechos
citados, é o Demiurgo. É irrelevante se isso corresponde a alguma adesão
proposital da autora à doutrina gnóstica, que, além de tudo, é plural,
difusa, e se confunde, em suas variantes, com o orfismo, o dionisismo e o
tantrismo. Tanto faz, assim como um escritor não precisa ser psicanalista
ou semiólogo para que se cite Freud ou Roland Barthes ao discutir sua
obra. Em qualquer um desses casos, a operação é como um jogo de
espelhos, o confronto de dois sistemas, aquele do texto literário, e
outro, que podem, ambos, se iluminar reciprocamente. E o sistema segundo não
precisa ser intencionalmente metalingüístico, desde que se queira fugir
à tirania cientificista do método. Da mesma forma, o detalhe biográfico
de Baudelaire haver ou não conhecido Éliphas Lévi passa a interessar
porque a teoria hermética das analogias e correspondências ajuda na
leitura do poeta francês. Há um aspecto do gnosticismo que serve como metáfora da
criação poética. Trata-se do falar
línguas, a linguagem dos rituais gnósticos, abordada em um ensaio de
Octavio Paz, Leitura e Contemplação
(publicado no Brasil na coletânea Convergências
– Ensaios sobre arte e literatura, pela Rocco). Feita de
glossolalias, usa um vocabulário próprio, radicalmente distinto da
linguagem prosaica e cotidiana. Algo como o que é proposto por Hilda
Hilst: “Não cantarei cotidianos. Só te cantei a ti/ Pássaro-Poesia/ E
a paisagem-limite: o fosso, o extremo/ A convulsão do Homem”. É a
busca da linguagem adâmica, anterior à Queda. Como se comentasse William Blake – em “O caminho do
excesso leva ao palácio da sabedoria” de O
Casamento do Céu e do Inferno –, ela proclama: “Dá-me a via do
excesso. O estupor/ Amputado dos gestos, dá-me a eloqüência do nada/ Os
ossos cintilando/ Na orvalhada friez do teu deserto”, pois “o poeta
habita/ O campo das estalagens da loucura”. E mais: é assim que “a
distância habita em certos pássaros/ Como o poeta habita nas ardências”.
E aqui é possível outra analogia, entre a relação de um místico com o
misticismo, e de uma poeta como Hilda Hilst com a poesia: há um
compromisso, uma relação vital, muito mais íntima que, por exemplo, a
adesão a um sistema de idéias, a uma teoria científica. Quando ela
intitula seu livro de Amavisse,
é porque amou: as vias indicadas nos subtítulos – Via Vazia, Amavisse e Via
espessa – foram, efetivamente, percorridas.
Busca da unidade perdida, recuperação da memória
primordial, também em: “Canto canções assim tão compassivas/ Na
minha língua esquecida”. Assim como na Gnose, uma rebelião que, sendo
social, revolta contra o cotidiano, adquire uma dimensão cósmica. Quer
resolver a contradição entre o sujeito e seu mundo, e se volta contra o
Tempo: “Que as barcaças do tempo me devolvam/ A primitiva urna das
palavras”, da palavra fundante, não-instrumental, pois “o poeta
preexiste, entre a luz e o sem-nome”, habitante de um mundo animado,
revitalizado, onde “De cigarras e pedras, querem nascer palavras”. Há, em Amavisse,
uma declaração de princípios e uma poética, baseada na adoção da
linguagem transgressora para recuperar outro tempo, realizar
simbolicamente o paraíso na Terra. Sua obra, lida à luz dessa poética,
apresenta uma cosmovisão, e uma visão coerente da situação do poeta no
mundo. Ela tem o pleno direito de citar Georges Bataille, como o faz.
Poderia ser invocada pelo autor de A
Literatura e o Mal, que aplicou a idéia hegeliana de negatividade à
análise da literatura e transformou a noção de transgressão em
categoria. Prevalece, no Brasil, o mau hábito de não se ler direito
alguns de nossos melhores autores. Há um viés em favor do discursivo e
transparente. Fortunas críticas como as de Guimarães Rosa e Clarice
Lispector são exceções. A regra é a procura do codificado e a fuga do
hermético. Um Jorge de Lima constaria como monumento literário,
mundialmente, se fosse melhor lido aqui. O barroco moderno e o realismo
fantástico poderiam ter outra cronologia e outra atribuição de origens.
Quanto à obra de Hilda Hilst, salvo vozes isoladas, como a do crítico Léo
Gilson Ribeiro, nosso meio literário ainda lhe deve discussões e estudos
à altura de sua real importância. |
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Claudio Willer (Brasil, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica). |
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