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revista
de cultura # 43 |
livros da agulha
Há, no Brasil, preconceito contra a poesia? Indícios não faltam, autorizando uma resposta afirmativa.
Basta olhar para os currículos de ensino: no exíguo espaço dado à
literatura, do ensino médio às pós-graduações, predominam teoria e
narrativa em prosa. É claro. Da narrativa em prosa, pode-se fazer
resumos, assim obliterando o estilo, as qualidades propriamente poéticas
da criação literária, ao reduzi-las ao enredo. Das teorias, fazem-se
diagramas, projetados nas obras ainda a serem lidas, em um arremedo
positivista das ciências exatas. As razões para que isso ocorra são evidentes: preguiça,
espírito burocrático, preferência pelas rotinas. Um indício adicional - e paradoxal - da existência desse
preconceito é a antologia 100
Poemas Essenciais da Língua Portuguesa (organizada por Carlos
Figueiredo, Editora Leitura, Belo Horizonte, 2004) figurar em uma lista de
livros mais vendidos nas livrarias da FNAC, em São Paulo. Paradoxal, pelo
seguinte: o livro, lançado há meses, é vendido, encontra seus leitores,
mas ainda não foi resenhado, comentado, noticiado, discutido. Imprensa e
crítica não se deram conta dele. Vende, mas apesar da recepção
inexistente. A crítica poderia deter-se em alguns dos temas suscitados
por essa antologia. Um deles, sua amplidão, de Dom Sancho e Martin Codax
até Hilda Hilst, dentre os já mortos, com acréscimo de duas poetas
vivas, Vimala Devi e Ana Paula Tavares. Outro, sua correlata extensão
geográfica: centrada em Portugal e no Brasil, além de incluir as nações
africanas, vai ate Goa. E, ainda, o modo como combina, com equilíbrio, um
repertório-padrão, canônico, a exemplo de Super
Flumina e Alma minha... de
Camões, Canção do Exílio de
Gonçalves Dias e Tabacaria de
Fernando Pessoa, com escolhas não tão ortodoxas, que refletem preferências
de seu organizador. A façanha de, com cem poemas, fazer um mapeamento tão
rico, diversificado e representativo, sustentando a tese de que poesia
produz cultura e constitui civilização, além de, por enquanto, não ter
sido registrada por comentaristas, ainda não determinou sua adoção didática.
Por ora, é abonada apenas pelos leitores, a exemplo de duas outras coletâneas
preparadas pelo também poeta Carlos Figueiredo, 100
Discursos Históricos e 100 Discursos Históricos Brasileiros
(igualmente pela Editora Leitura), que têm atingido sucessivas reedições. [Claudio Willer]
Vera Lúcia de Oliveira presenteia os leitores brasileiros
com esta antologia de sua obra, que tem sido publicada na Itália. Como a
própria autora diz, "escrever em duas línguas não foi uma opção
estética, mas uma imposição existencial". Esta brasileira-italiana
ou italiana-brasileira mostra uma poesia forte, que marca o leitor num
ritmo pulsante, fazendo-o respirar junto com a poesia. Seus versos afirmam-se pela negatividade, gravada pela
obsessão do sofrimento, terror da morte. Também reflete o social, o
quotidiano, a constatação da miséria e da guerra criminosa. Em sua
obra, deparamo-nos, muitas vezes, com os elementos osso, pele e sangue,
o que faz do poema um ser vivo. Na apresentação, Carlos Nejar define bem seu trabalho:
"Com fluidez de água austera, pura, sabe capturar, iluminando, os
fluxos e refluxos no poço de nossa condição humana". A chuva nos ruídos reúne poemas de cinco livros
lançados na Itália em edição bilíngüe, com exceção de dois deles, La
guarigione (2000) e Uccelli convulsi (2001), publicados somente
em italiano e vencedores de prêmios nacionais de poesia naquele país. Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota, em 1958, e
residiu na cidade de Assis, no interior de São Paulo, até o ano de 1983,
quando passou a viver na Itália. Doutora em Línguas e Literaturas Ibéricas
e Ibero-americanas pela Università degli Studi di Palermo (1997),
atua como professora de Literaturas Portuguesa e Brasileira na Università
degli Studi di Lecce e desenvolve pesquisas na área de literatura, tendo
também publicado numerosos trabalhos sobre poetas contemporâneos em
revistas brasileiras, portuguesas, espanholas e italianas. Traduzidos e
publicados em vários países, seus poemas renderam-lhe muitos prêmios.
Nicodemos Sena, nascido em Santarém, no Pará, em 1958,
estreou com um livro-monumento - A espera do nunca mais: uma saga amazônica,
romance de 877 páginas (Belém, Editora Cejup, 1999) -, que ganhou em
2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira dos
Escritores, e já está em segunda edição. Agora, o romancista volta com
um livro de menor fôlego, A noite é dos pássaros, igualmente uma
extraordinária saga amazônica, a aventura de um naturalista que quase
foi devorado por canibais na metade do século XVIII. Para o conhecedor da História luso-brasileira, não é
preciso dizer que este livro é inspirado na vida do baiano Alexandre
Rodrigues Ferreira, que, nascido em 1756, viajou, aos 14 anos de idade,
para Portugal, retornando ao Brasil em 1783 como naturalista formado na
Universidade de Coimbra. No Grão Pará e no Mato Grosso, Ferreira esteve
por uma década, pesquisando as riquezas naturais do sertão e fazendo
anotações de que resultou o livro Viagem Filosófica pelas capitanias
do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá (Rio de Janeiro,
Conselho Federal de Cultura, 1974). Em A noite é dos pássaros, o pesquisador
setecentista aparece um pouco disfarçado atrás do nome Alexandre Rodrigo
Ferreira, naturalista formado na Academia de Lisboa, que, em 1751, é
aprisionado na foz do rio Amazonas por índios tupinambás, canibais
famosos no velho mundo pelo modo hospitaleiro com que tratavam os seus
prisioneiros, “dando-lhes do bom e do melhor, e de um tudo, para depois
devorá-los a cauim pepica”, ou seja, assados e regados com
bebida. No cativeiro mantido por um povo ágrafo, Alexandre
descobre um livro que foi parar na aldeia depois de um naufrágio. A obra
narra uma trajetória semelhante à do cativo, a do alemão Hans Staden,
que também fora prisioneiro dos tupinambás numa aldeia em Ubatuba, no
litoral norte de São Paulo, no século XVI. Como se vê, a exemplo do que
Velázquez fez no seu famoso quadro “Las Meninas”, que faz parte do
acervo do Museu do Prado, em Madri, Sena deixa exposto o seu trabalho de
artesania. Leva, assim, o leitor a perceber que retirou do livro Duas
viagens ao Brasil - arrojadas aventuras no século XVI entre os antropófagos
do Novo Mundo (São Paulo, 1942), de Hans Staden, boa parte dos
elementos que empregou no romance, buscando num relato de um acontecimento
que se supõe real o material que empregaria em sua ficção. Muniu-se,
portanto, da realidade para mentir melhor, como fazem todos os grandes
mestres da ficção. Engana-se, porém, quem imagina que A noite é dos pássaros
seja apenas um romance baseado em pesquisas de arquivo, de foro
documental. É mais que isso. Tal como fizera em A espera do nunca mais,
Sena constrói ainda um instigante ensaio dos costumes dos indígenas
brasileiros, sobretudo o canibalismo, que ameaça durante toda a narrativa
a vida do jovem prisioneiro. Embora protegido pelo amor de Potira, a filha
do cacique da tribo, só ao final da trama, o naturalista escapa da triste
sorte que tornou famoso dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do
Brasil, devorado pelos índios caetés na costa de Alagoas, ainda no século
XVI. Depois de Márcio Souza e Milton Hatoum, a Amazônia volta
de novo ao cenário literário com um romancista seguro, que, a exemplo de
seu livro de estréia, mostra que sabe como manter o suspense até o último
parágrafo, fazendo o leitor viver a situação aflitiva de seu
personagem, ao mesmo tempo em que o leva a conhecer o conflito étnico-cultural
que se dá entre o europeu civilizado e o homem ainda no estado bruto da
natureza. Para alcançar esse objetivo, o autor não hesitou em usar
o tupi antigo na fala dos personagens, não por acreditar que se possa
voltar ao passado ou por filiar-se a certo nacionalismo xenófobo, como
diz, mas por dois justos motivos que expõe em nota ao final do livro:
primeiro, por irresistível apelo da própria narrativa e, segundo,
“pela grande importância que essa língua apresenta para a cultura
brasileira, tendo servido de argamassa para grandes obras de nossa
literatura”. Não faz Sena um retorno tardio ao indigenismo de José de
Alencar, até porque a linguagem que usa nada tem do derramado estilo
oitocentista do autor de Iracema, mas não há como deixar de
compará-lo ao indigenismo hispano-americano do paraguaio Augusto Roa
Bastos e, principalmente, do peruano José María Arguedas. Se em Arguedas
o que se lê é um castelhano tomado pelas características do quechua, em
Sena é o português contemporâneo que ganha ritmo e vocabulário do
idioma tupi. Como a poeta e escritora Olga Savary já percebera
em seu livro de estréia, Sena domina a arte da narrativa,
seduzindo o leitor com um estilo impecável, que faz da palavra um espetáculo,
tal como a Amazônia com sua exuberante floresta. [Adelto Gonçalves]
Para os formuladores da atual política
externa do governo brasileiro, o Mercosul desempenha papel-chave para
reforçar a integração sul-americana e, dessa maneira, evitar o êxito
da estratégia comercial dos EUA no continente. Agem assim não apenas por
carregar um viés ideológico esquerdizante, disfarçadamente gramsciano,
mas por desconhecimento da própria história do país cujos destinos
conduzem. Essa gente, porém, tem agora uma rara oportunidade de superar
esse desconhecimento com o livro Brasil e Argentina: um ensaio de história
comparada (1850-2002), de Boris Fausto e Fernando J. Devoto, obra conjunta
de historiadores dos dois países. [Adelto
Gonçalves]
Epistolario reúne
un conjunto de cartas que se escribieron la filósofa española María
Zambrano (1904-1991) y la poeta venezolana Reyna Rivas, a lo largo de 29 años,
entre 1960 y 1989. Se trata de uno de los libros más hermosos de 2004
que, sin duda alguna, recuerda por qué el género epistolar es luminoso
en el mundo. El libro, de 372 páginas, pertenece a la colección
Testimoniales y cuenta, además, con textos biográficos de las autoras y
una carta de Rivas a la memoria de Zambrano, escrita el 25 de marzo de
2003. Se trata -como dice Rivas en la introducción del
volumen- de “cartas llenas de consejos, de pensamientos puros, de estímulos,
de creencias, de luz y de iluminaciones. Cartas llenas de razones vitales,
de demoras y afanes cotidianos, de esperanzas, de fe, llenas de acción
vital, de filosofía y poesía”. Cabe destacar que María Zambrano es una de las
figuras más significativas en el pensamiento filosófico del siglo XX.
Nació en Vélez-Málaga, España, y se desempeñó como profesora de
filosofía en Madrid. Vivió largo tiempo en Roma y, en 1984 (después de
40 largos años de exilio por ser republicana) regresó a su país natal.
Ha escrito, en los géneros de filosofía y poesía, El
hombre y lo divino; Claros del
bosque; El sueño creador; La aurora de la palabra; Palabra
y poesía; y España,
sueño y verdad, entre otros. Tuvo nexos con Venezuela gracias a la
Fundación Fina Gómez y recibió, en 1981, el Premio Príncipe de
Asturias de Comunicación y Humanidades y, en 1988, le fue concedido el
Premio Cervantes. Por su parte, Reyna Rivas (nacida en Coro, estado
Falcón) cursó estudios en la Universidad La Sorbonne de París, así
como estudios de música en la Escuela Superior de Música (Caracas).
Entre sus principales títulos se encuentran Seis
prosas; Palabra y poesía; Sueño
de la palabra; Huéspedes de la
memoria; e Infinitos verbales,
entre otros.
No título Estudos de
Pele, o último livro de Floriano Martins, a palavra pele parece
sugerir uma pista falsa. Entrar no texto é praticar Um
rasgo bem dentro do abismo, onde o coração dispara e ninguém pode conter a presença do indizível. (p.187).
Trata-se de adentrar um labirinto com passagens em múltiplas direções.
O roteiro conduz a um descentramento e este se dá em face de um
referencial: o conceito de identidade. Num capítulo da Parte III - O hóspede -, que mescla prosa e poesia, é discutida a questão da
identidade, na arte ou fora dela. O mesmo
em face do mutável. Desde a Parte I, o texto dá espaço às suas visitas
perversas (algumas personagens bíblicas mulheres (em Paródia
do cadafalso) e várias outras como em Um
livro de Ângela, são apenas
dois exemplos. A inesperada visita
dessas sombras perturbadas não me leva a pensar senão em uma coisa:
temos que aprender a ter mil vidas a um só
tempo (P. 76). O que parece faltar às vezes a essas “sombras” (
no caso das bíblicas) é a leveza de ser outra coisa, sem a carga de
ressentimento que as liga umbilicalmente a seus contrários. Como em Silentes
Suplícios (Marta, p. 28). A obra é dividida em dez partes: I - Paródia do
cadafalso, II - Sombras raptadas, II - Crime & Fuga, IV - Rastros de
um caracol, V - Dores de nada, VI - Dália do coração negro, VII -
Lusbet: eis o abismo, VIII - Um livro de Ângela, IX - Ruínas exaustas, X
- Modelos vivos. As labirínticas passagens, as múltiplas direções
sugeridas pelo texto de Floriano sinalizam por vezes uma espécie de
curto-circuito nos níveis tidos como normais de percepção da realidade
cotidiana dentro dos mecanismos em que está estruturada a linguagem da
vida em sociedade. É o que ocorre em determinadas situações narradas,
como a que temos em O Cão e o
Lustre. A cena remete à idéia de demência (uma forma bem próxima
da loucura); mas no texto é, nada mais nada menos, que a transcrição,
para a realidade objetiva, do flash agônico de uma subjetividade em ruína, a da avó enferma,
visitada pelo neto, pela última vez: Lembro
que havia um lustre pendendo do teto. A pouca voz me disse que ali estava
com ela aquele negro cão, quieto, confiável, suspenso no vazio. Cão ou
lustre? Luz ou escuridão? Mas se na alucinada visão da avó o cão e o lustre são
concretamente a mesma coisa, em Plano
de Fuga (p. 183) o Anjo Líquido
derrama-se na direção do abstrato, do invisível: O anjo derramando-se no copo assustava-me ao dizer o quanto a vida pode
ser outra quando não se tem para onde ir dentro de nós. A vida pode
ser outra, mas a identidade? O texto persegue a fuga obsessiva do mesmo
(que a psicanálise nega), enquanto trai (dúvida ou “ato falho”?)
certa inquietude quanto ao ser: E se
todas essas sombras não forem apenas uma única sombra, a minha, a
provocar-me de inúmeras formas? Evocaria então um verso de Luís Miguel
Nava em que confessa ter a ‘identidade acelerada’ (77). Inconsciente ou não, o que o texto persegue é a
identidade estética. O poema Flagrantes
no assoalho (Parte III) expressa um ritual encantatório em que o
amor, condenado à morte pela estabilidade do encontro (como
se a vida fosse apenas caber em permanência), é convocado à
vertigem da busca incessante, (…) com
deuses assombrosos percorrendo a casa, laminando vertigens para um livro,
buscar-te, Esse ritual encantatório é a própria poesia, perseguida
como uma caça onde quer que se esconda, seja no ínfimo ou no grandioso: (…) em
uma síncope de obsessões, buscar-te, amor, três
vezes teu corpo, buscar-te em recâmaras encantadas úmidas invisíveis,
um vento sibilante de janelas decifradas pela noite, um coro de trevas,
nota contra nota, o bordão entoado pelo acaso (…) p.79. O código desse labirinto pode estar em Visita
de um Lagarto - momento do livro onde uma teia de imagens oníricas se
adensa em narrativa cifrada, de sentido subjacente ao texto. Por aí, pele
poderia conotar pele de lagarto, em sua adjacência a mimetismo,
metamorfose, forma que se muda. Não há no texto um sentido linear a que possamos ter
acesso, a não ser precisamente a construção dessa fuga da identidade.
Por isso há passagens em que não escolhe
entre poesia ou prosa, fica na indefinição, no limiar; deslizante para
poder abranger a escuta quase psicanalítica do outro, sempre outro, ao
infinito. Daí os recortes nas visões do garoto, coladas nas páginas dos
livros e sopradas no ar, diante de inexistentes janelas: Que
forma assumiria tal vestígio em sua vida? As formas significam muito
pouco. Poderia seguir recortando-as. Por uma aurícula errante trataria
todas as cobras de duas cabeças. Chamaria raio os esfaqueamentos
misteriosos que não raro eram comentados em casa E daria pernas ou asas
ao pescoçudo gramofone da avó. As formas não lhe bastavam. Um novo
personagem lhe despertara para tanto. Arrastava-se brincalhão sobre seu
corpo. Não lhe eram mais enfadonhos os sonhos, embora seguissem
silenciosos e em repisado repertório. Tudo permanecia o mesmo, mas
ganhava em significado. (p.96). O
instinto natural de subversão nos leva a ouvir o outro, a contraí-lo
enquanto perversão essencial à sua própria existência (Floriano Martins na
apresentação do seu Alma em
Chamas. Letra & Música, 1998). Um
Livro de Ângela é momento diverso, em que a narrativa se aclara, torna-se
quase linear em seu jorro de imagens urgentes, como a captar o ritmo frenético
do instante que passa, através de uma daquelas mil vidas. (…) Ângela
me oferta a caligrafia de suas vertigens, Enquanto metatexto, pratica
uma auto-incisão e cria sua própria imagem (narcísica):
6. Escrever
assim em quebradiço (…) Estudos
de Pele. Um livro original na medida em que pratica um exercício
de semântica, trabalhando com materiais provenientes, ou ao menos
familiares, ao universo explorado pela psicanálise. [Maria da Paz Ribeiro
Dantas]
Em setembro de 2001, a Argentina esteve
à beira do caos, com a ascensão à presidência da República de um
caudilho de província, que logo se viu apeado do poder pelo furor das
massas à frente da Casa Rosada. Depois de viver nos anos 40 o auge de seu
desenvolvimento como país periférico que se mirava na Europa, a
Argentina, no começo deste século, chegou ao ápice de seu calvário. [Adelto
Gonçalves]
Mestre em Literatura Brasileira e Doutor em Poética pela
UFRJ, Ivan Cavalcanti Proença - além de dedicar-se aos estudos literários
- vem atuando em outros segmentos culturais. Suas pesquisas centralizam-se
nas várias manifestações da Cultura Brasileira, englobando o Futebol,
bem como abrangem expressões estéticas de cunho popular e/ou regional,
como o Carnaval, o Folclore, a Música, etc, sendo ele autor de vários
livros e ensaios sobre os temas mencionados. Na instância político-administrativa,
Proença ocupou cargos nas áreas culturais e pedagógicas na vigência
dos governos do PDT no Rio de Janeiro, na gestão de Leonel Brizola.
Dentre as várias premiações, destacamos: Medalha Presidente Perpétuo
do CACO (Centro Acadêmico Cândido de Oliveira da atual Faculdade
de Direito da UFRJ), e Medalha Chico Mendes (de resistência à
ditadura - TNM). No livro intitulado O golpe militar e civil de 64 - 40
anos depois (Ed. Oficina do Livro), lançado em novembro de 2004, o
autor aborda, dentre outros assuntos, o episódio do Largo do CACO
(Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, da então Faculdade Nacional de
Direito), cuja versão original merece aqui ser mencionada, por ser pouco
conhecida até mesmo do público atento à temática em pauta. Trata-se de
fatos ocorridos, já sob a égide do Golpe Militar, no dia 1º de abril de
64, quando, por ocasião de um comício estudantil realizado naquele
Largo, grupamentos paramilitares cercaram estudantes e pessoas que se
encontravam nos arredores - “muitas a caminho da Central do Brasil”,
no Rio de Janeiro. De serviço nas proximidades do Campo de Santana
(localidade vizinha do CACO), Ivan Cavalcanti Proença, que na época era
capitão do Exército, posicionou-se a favor da legalidade, e liderou
manobras de proteção e abertura do prédio da Faculdade Nacional de
Direito, que fora cercado pelas forças repressoras, e atingido por bombas
de gás lacrimogêneo. Em virtude do ocorrido, Proença foi preso e
cassado. E tornou-se alvo de represálias, inclusive em instituições
civis, sendo afastado inúmeras vezes das atividades de magistério. Abordando, através de texto claro e objetivo, inúmeros
antecedentes e conseqüências do golpe, o autor - mais que um depoimento
- apresenta aos leitores vasto material para pesquisa no campo político-social,
tangenciando questões relacionadas aos Direitos Humanos. Note-se ainda
que, tão logo trazido a público, o livro de Ivan Cavalcanti Proença
ganhou novos contornos, posto que, duas semanas após o lançamento, uma
emissora de TV exibiu reportagem (como é do conhecimento de todos) sobre
a queima de documentos relacionados ao governo militar. Diante do
ocorrido, neste momento em que o “Brasil” discute a abertura dos
arquivos referentes àquele período histórico, os fatos narrados pelo
autor tornam-se objeto de mais uma “leitura”, envolvendo questões
afetas à cidadania. A relevância do livro de Proença consiste, sobretudo, em
indicar as lacunas deixadas pelo golpe, lacunas que se refletem hoje em várias
instâncias sócio-culturais, levando o leitor a observar que os regimes
ditatoriais possuem algo em comum: não afetam a produção de idéias,
mas impedem a práxis. Os mecanismos panópticos do autoritarismo não
podem vigiar o pensamento, mas se empenham em coibir ações, impondo uma
indesejável dicotomia entre o pensar e o atuar. Sob esse ângulo, os governos autoritários não terminam
em datas fixadas no calendário. O autoritarismo deixa marcas - deixa
lastro que o revela de modo sub-reptício. Cultural ou socialmente, aquilo
que não foi realizado precisará de tempo. Precisará de muito tempo para
chegar a termo. Sem contar realizações que se tornam impossíveis, como
reverter efeitos da delação e da tortura. Eis a linha de pensamento que
norteia o trabalho de Ivan Cavalcanti Proença, envolvendo questões que
tangenciam a importância da democracia como fundamento da liberdade do
cidadão para atuar nos processos culturais. E aqui a cultura ganha definição
antropológico-filosófica - abrange a globalidade das produções do
homem dos pontos de vista ideativo e pragmático. [Mirian de Carvalho]
Nesta Parte 1, o filósofo apresenta as idéias esotéricas
contidas na Bíblia, especialmente a de não se aplicar atributos a Deus,
e uma primeira refutação da doutrina do Kalám, corrente filosófica de
orientação islâmica. Maimônides, baseado em fontes judaicas, dialoga,
nesta obra, com parte da filosofia grega e da árabe-muçulmana, além de
se referir a um grande número de teorias, doutrinas e opiniões das mais
variadas procedências. Em uma época cuja preocupação era,
principalmente, as questões dos eruditos judeus da Península Ibérica,
mas também o desinteresse dos judeus do Egito pelos estudos judaicos,
Maimônides acreditava que, ao escrever uma obra que abordasse a relação
possível entre o texto bíblico e a tradição oral contida no Talmud,
por um lado, e a filosofia abstrata, por outro, possibilitaria o acesso da
razão aos segredos contidos na Bíblia e, assim, atrairia novamente os
judeus para o estudo de suas tradições. O seu interesse em buscar a
conciliação entre filosofia e religião estava em criar uma teologia
judaica de alto nível e em demonstrar que a leitura dos textos bíblicos
não deveria ser literal.
A primeira coisa que salta aos olhos quando se percorre a
poesia de Mauro Mota é a sua alta e obstinada lição de rigor, de um
rigor que se diria clássico tamanho é o tributo que paga à austeridade
expressiva e ao culto das boas tradições da língua. Sua linguagem é
simples e direta na medida em que o é a de seu ilustre conterrâneo
Manuel Bandeira, e assim o é porque ambos entenderam, até com certa
humildade, que o simples não constitui senão o derradeiro estágio do
complexo, no qual já não cabem o malabarismo e a acrobacia verbais,
esses feux d’artifice em que
se perderam (e ainda se perdem) alguns poetas brasileiros que poderiam tê-lo
sido e que não foram. Há em ambos uma secura de estilo e uma franciscana
economia de meios, um horror às tournures
fraseológicas e aos contorcionismos de linguagem que de pronto nos
recordam o ascetismo da euclidiana linha reta. E estão ambos - eis aqui o
milagre - carregados daquela misteriosa emoção que somente os autênticos
poetas sabem transformar em magia verbal, como o fizeram Poe e Baudelaire
na estrutura medida e concisa de seus versos. É que neles, mais do que o
espírito - que sempre se move de fora para dentro -, anima-os a alma,
cuja luz percorre o trajeto inverso, tal como o vemos naquela “noche
oscura” de São João da Cruz. Essa é a essência da poesia de Mauro Mota, mais
exatamente a que inerva as Elegias (1952),
nas quais se dilui por completo qualquer indício de datação temporal ou
de referência toponímica, ao contrário do que ocorre com a imensa
maioria de seus poemas subseqüentes. Trata-se aqui do primado da poesia
pura ou, se quiserem, assoluta,
daquela poesia da poesia, antiprogramática e estrita, como se lê em
alguns dos poemas de Leopardi ou nas partituras de Bach, Mozart e Chopin.
Não me parece fortuito que, para escrevê-las, Mauro Mota haja escolhido
a forma tersa e contrita do soneto, cuja expansão é sempre mínima:
“pequeno som”, como diziam seus inventores, Piero delle Vigne e
Guittone d’ Arezzo, no já distante século XIV, e de que se valeram
depois os poetas do dolce stil nuovo.
E estes sonetos, ou “elegias”, de Mauro Mota são perfeitos na emoção
e na forma, já que ambas se desenvolvem sob o signo de uma reciprocidade
simultânea, corrigindo assim aquele antigo equívoco de que forma e fundo
seriam dissociados, quando são, na verdade, uma indissolúvel comunhão,
comunhão absoluta, aliás, como se vê no primeiro quarteto e no segundo
terceto da “Elegia nº 8”: As
mãos leves que amei. As mãos, beijei-as nas
alvas conchas e nos dedos finos, (...) Se
parecem dormir, não as despertes. Claro está que essa poesia da poesia lateja em toda a obra
de Mauro Mota, mas convém sublinhar que aquela essência antiprogramática
a que aludimos no caso das dez elegias (que seriam onze, se computássemos
a que se encontra nos versos de arquivo) cede terreno à poética da existência
nos livros posteriores do autor, ou seja, os que ele deu à estampa entre
1956 e 1979. É que os poemas incluídos nesse período de vinte e três
anos de produção são de fundo simbólico e estão fincados como raízes
na terra nordestina, retratando os dramas do cotidiano em linguagem
natural e espontânea, ou, como deles disse Álvaro Lins, transmitindo
“uma espécie de realismo mágico, uma extraordinária capacidade para
transfigurar o imediato e o cotidiano em simbologia poética”.
Percebe-se “um certo cheiro de engenho” até mesmo em alguns de seus
poemas mais urbanos, como corretamente observa Renato Pontes Cunha,
acrescentando que a Zona da Mata pernambucana, onde ondulam aqueles
canaviais de João Cabral de Melo Neto, “marcou sua infância e tingiu
definitivamente sua poesia”. Esse realismo mágico e esse “cheiro de
engenho” estão de fato presentes em quase toda a obra de Mauro Mota, e
seria fastidioso rastreá-los neste ou naquele poema, já que se trata de
um traço estigmático do comportamento psicológico do autor, de uma
herança cultural ou, mais do que isto, de uma alma acima de tudo
nordestina. O que nos interessa mais de perto na poesia de Mauro Mota,
entretanto, é uma qualidade intrínseca: a de sua pureza formal,
associada ao domínio cabal que revela o autor no que toca aos seus meios
de expressão e ao lirismo, dir-se-ia telúrico, de sua refinada e tensa
linguagem. Tais características legitimariam sua filiação à Geração
de 45, como assim o pretendeu Fernando Ferreira de Loanda quando o incluiu
no Panorama da nova poesia brasileira, antologia que registrou o
primeiro balanço de um grupo de poetas que buscavam um novo caminho para
além dos limites do Modernismo. Ocorre que Mauro Mota, à semelhança de
Lêdo Ivo e de alguns outros poetas pertencentes ao grupo, transcende os
propósitos operacionais e doutrinários da Geração de 45, firmando-se
logo depois como um dos poetas mais estimados de sua época. E
acrescente-se que a reação formalista desses poetas aos desmandos e
desvios dos modernistas de 1922 era algo previsível e talvez até necessário.
Mas quando se lêem poemas como as já citadas “Elegias”,
“Finados”, “A potranca”, “As andorinhas”, “Os epitáfios”,
“O cacto” ou “Balada eqüestre” percebe-se em que medida se dá
essa superação dos pressupostos formalistas da Geração de 45, na qual
já se arrolaram poetas tão transgressivos quanto João Cabral de Melo
Neto e Ferreira Gullar. Mauro Mota, de quem agora se reúne toda a poesia, não
pode ser visto, portanto, como um sobrevivente da geração a que
pertenceu, e sim como o grande poeta que já era quando da publicação
das Elegias, às quais se seguiram, confirmando-lhe as altas e indiscutíveis
virtudes, A tecelã (1956), Os
epitáfios (1959), O galo e o
cata-vento (1962), Canto ao meio
(1964), Itinerário (1975) e
Pernambucânia (1979), além dos poemas do arquivo que agora se
coligem. É que há em sua poesia, como em toda grande e autêntica
manifestação do ímpeto poético, aquele timbre intransferível que
distingue o poeta do versejador, e nem cogito aqui do artesão porque este
sempre subjaz no verdadeiro artista e até o pressupõe. Há em Mauro Mota
austeridade verbal, limpeza de fatura, equilíbrio e adequação do que e do como da linguagem
poética, fina ironia e uma tristeza que é a de todos nós, poetas, a
tristeza daqueles que, caducos e contingentes, estão sempre com um ar de
despedida, como observou certa vez este outro grande elegíaco que foi
Rainer Maria Rilke. E são esses os misteriosos ingredientes de que se
vale toda poesia que haverá de permanecer, mesmo nos hölderlinianos
tempos de indigência que ora vivemos. De Mauro Mota, por exemplo, haverão
de permanecer, entre outros, estes dois tercetos admiráveis de “As
andorinhas”: Mas
quando, no intervalo dessa pena, asas
de cal e músicas de pena [Ivan
Junqueira]
Mário Chamie é autor de quinze livros de poemas e está
lançando agora o seu décimo terceiro livro de ensaios e estudos literários. Como ensaista, Chamie escreveu obras de importância para a
crítica literária brasileira, a exemplo do clássico Caminhos da
Carta. Incluem-se entre essas obras, Intertexto (1970) e A
Transgressão do Texto (1972) que introduziram o método dialógico na
análise de Macunaíma, de Mário de Andrade, e de Serafim Ponte
Grande, de Oswald de Andrade. Graças às suas pesquisas, Chamie é
também o responsável pela descoberta e revalorização de Madame
Pommery, de Hilário Tácito, além de ter revelado, interpretado e
editado, pela primeira vez, os originais manuscritos de O Santeiro do
Mangue, de Oswald de Andrade. Detentor dos mais importantes prêmios
literários do País (com seu último livro de poemas, Horizonte de
Esgrimas, conquistou, em 2003, o Prêmio Portugal Telecom), Chamie
acrescenta aos seus doze livros de ensaios, o volume de A palavra
inscrita. Neste livro, o poeta examina e interpreta aspectos
inexplorados, ou pouco comuns, de escritores nacionais e estrangeiros,
como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Francis Ponge, Lévi-Strauss,
Augusto dos Anjos, Gilberto Freyre e outros, transitando da cultura
popular para a cultura literária mais sofisticada, com diferenciado senso
de análise. parceiros da agulha nesta seção
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