revista de cultura # 43
fortaleza, são paulo - janeiro de 2005

livros da agulha

100 Poemas Essenciais da Língua Portuguesa (org. Carlos Figueiredo)1 100 Poemas Essenciais da Língua Portuguesa (org. Carlos Figueiredo). Editora Leitura. Belo Horizonte. 2004.

Há, no Brasil, preconceito contra a poesia?

Indícios não faltam, autorizando uma resposta afirmativa. Basta olhar para os currículos de ensino: no exíguo espaço dado à literatura, do ensino médio às pós-graduações, predominam teoria e narrativa em prosa. É claro. Da narrativa em prosa, pode-se fazer resumos, assim obliterando o estilo, as qualidades propriamente poéticas da criação literária, ao reduzi-las ao enredo. Das teorias, fazem-se diagramas, projetados nas obras ainda a serem lidas, em um arremedo positivista das ciências exatas.

As razões para que isso ocorra são evidentes: preguiça, espírito burocrático, preferência pelas rotinas.

Um indício adicional - e paradoxal - da existência desse preconceito é a antologia 100 Poemas Essenciais da Língua Portuguesa (organizada por Carlos Figueiredo, Editora Leitura, Belo Horizonte, 2004) figurar em uma lista de livros mais vendidos nas livrarias da FNAC, em São Paulo. Paradoxal, pelo seguinte: o livro, lançado há meses, é vendido, encontra seus leitores, mas ainda não foi resenhado, comentado, noticiado, discutido. Imprensa e crítica não se deram conta dele. Vende, mas apesar da recepção inexistente.

A crítica poderia deter-se em alguns dos temas suscitados por essa antologia. Um deles, sua amplidão, de Dom Sancho e Martin Codax até Hilda Hilst, dentre os já mortos, com acréscimo de duas poetas vivas, Vimala Devi e Ana Paula Tavares. Outro, sua correlata extensão geográfica: centrada em Portugal e no Brasil, além de incluir as nações africanas, vai ate Goa. E, ainda, o modo como combina, com equilíbrio, um repertório-padrão, canônico, a exemplo de Super Flumina e Alma minha... de Camões, Canção do Exílio de Gonçalves Dias e Tabacaria de Fernando Pessoa, com escolhas não tão ortodoxas, que refletem preferências de seu organizador.

A façanha de, com cem poemas, fazer um mapeamento tão rico, diversificado e representativo, sustentando a tese de que poesia produz cultura e constitui civilização, além de, por enquanto, não ter sido registrada por comentaristas, ainda não determinou sua adoção didática. Por ora, é abonada apenas pelos leitores, a exemplo de duas outras coletâneas preparadas pelo também poeta Carlos Figueiredo, 100 Discursos Históricos e 100 Discursos Históricos Brasileiros (igualmente pela Editora Leitura), que têm atingido sucessivas reedições.

[Claudio Willer]

A chuva nos ruídos (antologia poética), de Vera Lúcia de Oliveira2 A chuva nos ruídos (antologia poética), de Vera Lúcia de Oliveira. Escrituras Editora. São Paulo. 2004. 160 pgs.

Vera Lúcia de Oliveira presenteia os leitores brasileiros com esta antologia de sua obra, que tem sido publicada na Itália. Como a própria autora diz, "escrever em duas línguas não foi uma opção estética, mas uma imposição existencial". Esta brasileira-italiana ou italiana-brasileira mostra uma poesia forte, que marca o leitor num ritmo pulsante, fazendo-o respirar junto com a poesia.

Seus versos afirmam-se pela negatividade, gravada pela obsessão do sofrimento, terror da morte. Também reflete o social, o quotidiano, a constatação da miséria e da guerra criminosa. Em sua obra, deparamo-nos, muitas vezes, com os elementos osso, pele e sangue, o que faz do poema um ser vivo.

Na apresentação, Carlos Nejar define bem seu trabalho: "Com fluidez de água austera, pura, sabe capturar, iluminando, os fluxos e refluxos no poço de nossa condição humana".

A chuva nos ruídos reúne poemas de cinco livros lançados na Itália em edição bilíngüe, com exceção de dois deles, La guarigione (2000) e Uccelli convulsi (2001), publicados somente em italiano e vencedores de prêmios nacionais de poesia naquele país.

Vera Lúcia de Oliveira nasceu em Cândido Mota, em 1958, e residiu na cidade de Assis, no interior de São Paulo, até o ano de 1983, quando passou a viver na Itália. Doutora em Línguas e Literaturas Ibéricas e Ibero-americanas pela Università degli Studi di Palermo (1997), atua como professora de Literaturas Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Lecce e desenvolve pesquisas na área de literatura, tendo também publicado numerosos trabalhos sobre poetas contemporâneos em revistas brasileiras, portuguesas, espanholas e italianas. Traduzidos e publicados em vários países, seus poemas renderam-lhe muitos prêmios.

A noite é dos pássaros, de Nicodemos Sena3 A noite é dos pássaros, de Nicodemos Sena. Editora CEJUP. Belém, Pará. 2003. 136 págs.

Nicodemos Sena, nascido em Santarém, no Pará, em 1958, estreou com um livro-monumento - A espera do nunca mais: uma saga amazônica, romance de 877 páginas (Belém, Editora Cejup, 1999) -, que ganhou em 2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira dos Escritores, e já está em segunda edição. Agora, o romancista volta com um livro de menor fôlego, A noite é dos pássaros, igualmente uma extraordinária saga amazônica, a aventura de um naturalista que quase foi devorado por canibais na metade do século XVIII.

Para o conhecedor da História luso-brasileira, não é preciso dizer que este livro é inspirado na vida do baiano Alexandre Rodrigues Ferreira, que, nascido em 1756, viajou, aos 14 anos de idade, para Portugal, retornando ao Brasil em 1783 como naturalista formado na Universidade de Coimbra. No Grão Pará e no Mato Grosso, Ferreira esteve por uma década, pesquisando as riquezas naturais do sertão e fazendo anotações de que resultou o livro Viagem Filosófica pelas capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá (Rio de Janeiro, Conselho Federal de Cultura, 1974).

Em A noite é dos pássaros, o pesquisador setecentista aparece um pouco disfarçado atrás do nome Alexandre Rodrigo Ferreira, naturalista formado na Academia de Lisboa, que, em 1751, é aprisionado na foz do rio Amazonas por índios tupinambás, canibais famosos no velho mundo pelo modo hospitaleiro com que tratavam os seus prisioneiros, “dando-lhes do bom e do melhor, e de um tudo, para depois devorá-los a cauim pepica”, ou seja, assados e regados com bebida.

No cativeiro mantido por um povo ágrafo, Alexandre descobre um livro que foi parar na aldeia depois de um naufrágio. A obra narra uma trajetória semelhante à do cativo, a do alemão Hans Staden, que também fora prisioneiro dos tupinambás numa aldeia em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, no século XVI. Como se vê, a exemplo do que Velázquez fez no seu famoso quadro “Las Meninas”, que faz parte do acervo do Museu do Prado, em Madri, Sena deixa exposto o seu trabalho de artesania. Leva, assim, o leitor a perceber que retirou do livro Duas viagens ao Brasil - arrojadas aventuras no século XVI entre os antropófagos do Novo Mundo (São Paulo, 1942), de Hans Staden, boa parte dos elementos que empregou no romance, buscando num relato de um acontecimento que se supõe real o material que empregaria em sua ficção. Muniu-se, portanto, da realidade para mentir melhor, como fazem todos os grandes mestres da ficção.

Engana-se, porém, quem imagina que A noite é dos pássaros seja apenas um romance baseado em pesquisas de arquivo, de foro documental. É mais que isso. Tal como fizera em A espera do nunca mais, Sena constrói ainda um instigante ensaio dos costumes dos indígenas brasileiros, sobretudo o canibalismo, que ameaça durante toda a narrativa a vida do jovem prisioneiro. Embora protegido pelo amor de Potira, a filha do cacique da tribo, só ao final da trama, o naturalista escapa da triste sorte que tornou famoso dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, devorado pelos índios caetés na costa de Alagoas, ainda no século XVI.

Depois de Márcio Souza e Milton Hatoum, a Amazônia volta de novo ao cenário literário com um romancista seguro, que, a exemplo de seu livro de estréia, mostra que sabe como manter o suspense até o último parágrafo, fazendo o leitor viver a situação aflitiva de seu personagem, ao mesmo tempo em que o leva a conhecer o conflito étnico-cultural que se dá entre o europeu civilizado e o homem ainda no estado bruto da natureza.

Para alcançar esse objetivo, o autor não hesitou em usar o tupi antigo na fala dos personagens, não por acreditar que se possa voltar ao passado ou por filiar-se a certo nacionalismo xenófobo, como diz, mas por dois justos motivos que expõe em nota ao final do livro: primeiro, por irresistível apelo da própria narrativa e, segundo, “pela grande importância que essa língua apresenta para a cultura brasileira, tendo servido de argamassa para grandes obras de nossa literatura”.

Não faz Sena um retorno tardio ao indigenismo de José de Alencar, até porque a linguagem que usa nada tem do derramado estilo oitocentista do autor de Iracema, mas não há como deixar de compará-lo ao indigenismo hispano-americano do paraguaio Augusto Roa Bastos e, principalmente, do peruano José María Arguedas. Se em Arguedas o que se lê é um castelhano tomado pelas características do quechua, em Sena é o português contemporâneo que ganha ritmo e vocabulário do idioma tupi.

Como a poeta e escritora Olga Savary já percebera em seu livro de estréia, Sena domina a arte da narrativa, seduzindo o leitor com um estilo impecável, que faz da palavra um espetáculo, tal como a Amazônia com sua exuberante floresta.

[Adelto Gonçalves]

Brasil e Argentina: um ensaio de história comparada, de Boris Fausto e Fernando J. Devoto4 Brasil e Argentina: um ensaio de história comparada, de Boris Fausto e Fernando J. Devoto. Editora 34. São Paulo. 2004. 574 págs.

Para os formuladores da atual política externa do governo brasileiro, o Mercosul desempenha papel-chave para reforçar a integração sul-americana e, dessa maneira, evitar o êxito da estratégia comercial dos EUA no continente. Agem assim não apenas por carregar um viés ideológico esquerdizante, disfarçadamente gramsciano, mas por desconhecimento da própria história do país cujos destinos conduzem. Essa gente, porém, tem agora uma rara oportunidade de superar esse desconhecimento com o livro Brasil e Argentina: um ensaio de história comparada (1850-2002), de Boris Fausto e Fernando J. Devoto, obra conjunta de historiadores dos dois países.
De fato, uma leitura atenta dessa obra excepcional mostra que o desenvolvimento do Brasil no último meio século esteve diretamente relacionado com a sua atitude de aproximação com os EUA, ao passo que a decadência da Argentina tem muito a ver com o seu distanciamento em relação à superpotência, o que se deu no curso da Segunda Guerra Mundial e nos anos que se seguiram.
Já não estamos no tempo do alinhamento automático, mas se o governo Lula insistir num confronto diplomático com os EUA, procurando emperrar as negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), pode estar a repetir o erro do goveno argentino nos anos 40 que não só apostou na vitória nazista como fez da Argentina um “santuário” de criminosos da Segunda Guerra Mundial. Se concluírem que a Alca não sairá mesmo do papel, os EUA podem muito bem firmar acordos bilaterais com os demais países sul-americanos, obtendo tarifa zero em produtos similares aos brasileiros, em troca de outras vantagens.
A aposta errada da Argentina na década de 40 mostrou-se fatal para as suas pretensões porque o país - “o pior aluno da turma” - foi praticamente excluído do grupo de nações exportadoras que se beneficiaram dos recursos do Plano Marshall. Como observam Fausto e Devoto, em 1949, o valor total das exportações argentinas caiu quase à metade e as importações tiveram de ser reduzidas e, como apenas 30% delas eram de bens de consumo, essa restrição afetou a aquisição de maquinário, equipamentos e matérias-primas necessários para sustentar o crescimento industrial. Conseqüentemente, a produção industrial também despencou. Isso explica porque um intelectual da estirpe de Jorge Luis Borges, que vivera a época do fausto, sempre odiou o peronismo. Perón foi um desastre para a Argentina.
Os autores lembram que, enquanto o Brasil de Getúlio Vargas inclinou-se a favor dos EUA em 1941 e declarou-se formalmente em guerra em meados de 1942, depois de um flerte com a Alemanha em que espiões nazistas proliferaram nas cidades litorâneas brasileiras, a Argentina só viria a romper com o Eixo em 1944 e, ainda assim, de forma muito reticente. Ou seja, o Brasil alinhou-se aos Aliados quando o Eixo ainda era vitorioso no terreno militar. E, de certo modo, isso não foi esquecido pelos vitoriosos. Até hoje, as elites argentinas lamentam esse grave erro, o que, inclusive, levou o presidente Menem na década passada a defender “relações carnais” com os EUA, sem que isso tenha adiantado muita coisa.
Fazendo um paralelo entre o governo Dutra (1945-1950) e o primeiro governo de Perón (1946-1955), Fausto e Devoto mostram que foram nítidas as diferenças no plano econômico. No Brasil, a política de substituição das importações por meio da oferta de crédito público e do desenvolvimento da indústria de bens de capital, ao lado da alta do preço internacional do café, fez a economia voltar a crescer a partir de 1948, enquanto a Argentina, movida por um sentimento de insatisfação e um desejo de transformações radicais, mergulhava numa curva descendente.
O livro de Fausto e Devoto começa o trabalho de comparação entre os dois países fixando um primeiro período entre 1850 e 1900 em que analisam as vicissitudes da construção da República argentina em meio as lutas políticas entre caudilhos de Buenos Aires e das províncias em contraste com o ciclo de fortalecimento do Império brasileiro, uma experiência única na América. O acontecimento marcante desse período foi a Guerra do Paraguai em que o Brasil arcou com o maior custo financeiro e humano, obtendo resultados pífios, embora a expansão territorial tenha sido significativa.
Já o período seguinte, de 1900 a 1937, é marcado por um grande desenvolvimento da Argentina, o que levou suas elites até a sonhar com uma possível invasão do Sul do Brasil à época em que o mundo parecia pender para as soluções totalitárias que vinham da Alemanha. Com um PIB per capita que superava largamente o do Brasil, a Argentina da primeira metade do século XX era um país que mais tinha a ver com a Austrália, Canadá ou Nova Zelândia do que com a miséria tropicalista. A expansão de seu comércio exterior foi muito expressiva, especialmente nos anos que antecederam a Primeira Gurrea Mundial. Em 1909, o PIB per capita da Argentina se comparava ao da Alemanha e ao dos Países Baixos e estava à frente de vários países da Europa, como Espanha, Itália, Suíça e Suécia.
Mais: a Argentina teve na Inglaterra o principal país destinatário de suas exportações - 29,6% do total, entre 1927 e 1929, vindo a seguir a Alemanha, com 13,5% - e, ao mesmo tempo, sua principal fonte de financiamento e investimentos externos. Já o Brasil teve os EUA como o principal país importador e o maior responsável pelo financiamento e investimentos externos. Sua produção para o mercado externo, ao contrário da Argentina, caracterizava-se essencialmente pela concentração num único produto, o café. Era um país agrário e dependente.
O terceiro período, de 1937 a 1968, a fase de maiores tensões entre as duas nações, é marcado pela ascensão de dois governantes populistas, Vargas e Perón, pelas experiências desenvolvimentistas de Juscelino Kubitschek e Arturo Frondizi e pelas crises que permitiram a instalação no poder de ditaduras nos dois países a partir dos anos 60.
O último ciclo (1968-2000) detém-se especialmente sobre as presidências de Carlos Menem e Fernando Henrique Cardoso nos anos 90 em que ambos os governos trataram de reformar o Estado pela privatização de empresas públicas, com o objetivo de diminuir as funções de um Estado em crise, incapaz de atender ao conjunto da população. Aqui, segundo os números dos autores, há também uma explicação para boa parte do baixo crescimento argentino no último meio século: a máquina burocrática pesa mais lá do que cá, o que não quer dizer que, no Brasil, não tenha havido empreguismo desenfreado para atender a promessas eleitoreiras de caciques políticos.
Talvez por isso o Brasil tenha sido o último país no Cone Sul a optar por uma política de privatizações, inaugurada pelo Chile, o que também pode ser interpretado como reflexo da maior vitalidade do Estado brasileiro e de seu parque industrial ou resultado da pressão de uma ideologia nacionalista que voltou a estar presente no governo Lula.
De todo esse trabalho de história comparada, a conclusão que fica é que o Brasil arrancou com mais força, mas foi alcançado pela Argentina que o superou, em quase todas as dimensões quantificáveis, nos seus anos dourados anteriores à Primeira Guerra Mundial. Depois, sobretudo a partir de 1930, o Brasil passou a imprimir maior velocidade em seu desenvolvimento. E, hoje, é inegável a sua maior representatividade que pode ser medida não só pelo tamanho de seu comércio exterior e do seu PIB como por outras dimensões, embora nos níveis de escolaridade da população continue bem atrás.
Boris Fausto, doutor em História e livre-docente em Ciência Política, professor aposentado da Universidade de São Paulo, foi responsável, juntamente com Sérgio Buarque de Holanda, pela organização da História geral da civilização brasileira (São Paulo, Difel, 1963-1984, vols.) e é autor de História concisa do Brasil (São Paulo, Edusp, 2001) e Crime e cotidiano: a criminalidade em São Pulo, 1880-1924 (São Paulo, Edusp, 2002), entre outros livros. Fernando J. Devoto, doutor em História, é professor da Universidade de Buenos Aires, professor-visitante em várias universidades européias, e autor de Nacionalismo, fascismo y tradicionalismo en la Argentina moderna (Buenos Aires, Siglo XXI, 2002) e Historia de la inmigración en la Argentina (Buenos Aires, Sudamericana, 2003), entre outras obras.
Unidos, esses dois grandes historiadores realizaram um admirável trabalho de síntese em que não se deixaram impregnar pela superficialidade e muito menos pela rivalidade que tem caracterizado a atuação dos dois países não apenas nos campos de futebol. Para eles, as flutuações do passado de ambos países, se ensinam alguma coisa, é que o futuro é inescrutável. De certo apenas é que a rivalidade persistirá. Mantida em níveis civilizados, continuará funcionando como mola propulsora do desenvolvimento das duas nações.

[Adelto Gonçalves]

Epistolario. Correspondencia entre María Zambrano y Reyna Rivas5 Epistolario. Correspondencia entre María Zambrano y Reyna Rivas. Monte Ávila Editores. Venezuela. 2004.

Epistolario reúne un conjunto de cartas que se escribieron la filósofa española María Zambrano (1904-1991) y la poeta venezolana Reyna Rivas, a lo largo de 29 años, entre 1960 y 1989. Se trata de uno de los libros más hermosos de 2004 que, sin duda alguna, recuerda por qué el género epistolar es luminoso en el mundo. El libro, de 372 páginas, pertenece a la colección Testimoniales y cuenta, además, con textos biográficos de las autoras y una carta de Rivas a la memoria de Zambrano, escrita el 25 de marzo de 2003.

Se trata -como dice Rivas en la introducción del volumen- de “cartas llenas de consejos, de pensamientos puros, de estímulos, de creencias, de luz y de iluminaciones. Cartas llenas de razones vitales, de demoras y afanes cotidianos, de esperanzas, de fe, llenas de acción vital, de filosofía y poesía”.

Cabe destacar que María Zambrano es una de las figuras más significativas en el pensamiento filosófico del siglo XX. Nació en Vélez-Málaga, España, y se desempeñó como profesora de filosofía en Madrid. Vivió largo tiempo en Roma y, en 1984 (después de 40 largos años de exilio por ser republicana) regresó a su país natal. Ha escrito, en los géneros de filosofía y poesía, El hombre y lo divino; Claros del bosque; El sueño creador; La aurora de la palabra; Palabra y poesía; y España, sueño y verdad, entre otros. Tuvo nexos con Venezuela gracias a la Fundación Fina Gómez y recibió, en 1981, el Premio Príncipe de Asturias de Comunicación y Humanidades y, en 1988, le fue concedido el Premio Cervantes.

Por su parte, Reyna Rivas (nacida en Coro, estado Falcón) cursó estudios en la Universidad La Sorbonne de París, así como estudios de música en la Escuela Superior de Música (Caracas). Entre sus principales títulos se encuentran Seis prosas; Palabra y poesía; Sueño de la palabra; Huéspedes de la memoria; e Infinitos verbales, entre otros.

Estudos de Pele, de Floriano Martins6 Estudos de Pele, de Floriano Martins. Editora Lamparina. Rio de Janeiro. 2004. 200 pgs.

No título Estudos de Pele, o último livro de Floriano Martins, a palavra pele parece sugerir uma pista falsa. Entrar no texto é praticar Um rasgo bem dentro do abismo, onde o coração dispara e ninguém pode conter a presença do indizível. (p.187). Trata-se de adentrar um labirinto com passagens em múltiplas direções. O roteiro conduz a um descentramento e este se dá em face de um referencial: o conceito de identidade. Num capítulo da Parte III - O hóspede -, que mescla prosa e poesia, é discutida a questão da identidade, na arte ou fora dela. O mesmo em face do mutável. Desde a Parte I, o texto dá espaço às suas visitas perversas (algumas personagens bíblicas mulheres (em Paródia do cadafalso) e várias outras como em Um livro de Ângela, são apenas dois exemplos. A inesperada visita dessas sombras perturbadas não me leva a pensar senão em uma coisa: temos que aprender a ter mil vidas a um só tempo (P. 76). O que parece faltar às vezes a essas “sombras” ( no caso das bíblicas) é a leveza de ser outra coisa, sem a carga de ressentimento que as liga umbilicalmente a seus contrários. Como em Silentes Suplícios (Marta, p. 28).

A obra é dividida em dez partes: I - Paródia do cadafalso, II - Sombras raptadas, II - Crime & Fuga, IV - Rastros de um caracol, V - Dores de nada, VI - Dália do coração negro, VII - Lusbet: eis o abismo, VIII - Um livro de Ângela, IX - Ruínas exaustas, X - Modelos vivos.

As labirínticas passagens, as múltiplas direções sugeridas pelo texto de Floriano sinalizam por vezes uma espécie de curto-circuito nos níveis tidos como normais de percepção da realidade cotidiana dentro dos mecanismos em que está estruturada a linguagem da vida em sociedade. É o que ocorre em determinadas situações narradas, como a que temos em O Cão e o Lustre. A cena remete à idéia de demência (uma forma bem próxima da loucura); mas no texto é, nada mais nada menos, que a transcrição, para a realidade objetiva, do flash agônico de uma subjetividade em ruína, a da avó enferma, visitada pelo neto, pela última vez: Lembro que havia um lustre pendendo do teto. A pouca voz me disse que ali estava com ela aquele negro cão, quieto, confiável, suspenso no vazio. Cão ou lustre? Luz ou escuridão?

Mas se na alucinada visão da avó o cão e o lustre são concretamente a mesma coisa, em Plano de Fuga (p. 183) o Anjo Líquido derrama-se na direção do abstrato, do invisível: O anjo derramando-se no copo assustava-me ao dizer o quanto a vida pode ser outra quando não se tem para onde ir dentro de nós. A vida pode ser outra, mas a identidade? O texto persegue a fuga obsessiva do mesmo (que a psicanálise nega), enquanto trai (dúvida ou “ato falho”?) certa inquietude quanto ao ser: E se todas essas sombras não forem apenas uma única sombra, a minha, a provocar-me de inúmeras formas? Evocaria então um verso de Luís Miguel Nava em que confessa ter a ‘identidade acelerada’ (77).

Inconsciente ou não, o que o texto persegue é a identidade estética. O poema Flagrantes no assoalho (Parte III) expressa um ritual encantatório em que o amor, condenado à morte pela estabilidade do encontro (como se a vida fosse apenas caber em permanência), é convocado à vertigem da busca incessante,

(…)

com deuses assombrosos percorrendo a casa, laminando vertigens para um livro, buscar-te,
buscar-te,
jamais desalentar-se
aguar rios, deixar-se desaguar,
nenhuma lição, apenas o corpo caindo,
a buscar-se: e buscar-te.
(p.81).

Esse ritual encantatório é a própria poesia, perseguida como uma caça onde quer que se esconda, seja no ínfimo ou no grandioso:

(…)

em uma síncope de obsessões, buscar-te, amor,
enquanto o poema te chama e prepara os archotes
que te conduzem por escadarias com línguas voláteis
a seduzir as páginas de teu corpo, sim, teu corpo,

três vezes teu corpo, buscar-te em recâmaras encantadas úmidas invisíveis, um vento sibilante de janelas decifradas pela noite, um coro de trevas, nota contra nota, o bordão entoado pelo acaso (…) p.79.

O código desse labirinto pode estar em Visita de um Lagarto - momento do livro onde uma teia de imagens oníricas se adensa em narrativa cifrada, de sentido subjacente ao texto. Por aí, pele poderia conotar pele de lagarto, em sua adjacência a mimetismo, metamorfose, forma que se muda.

Não há no texto um sentido linear a que possamos ter acesso, a não ser precisamente a construção dessa fuga da identidade. Por isso há passagens em que não escolhe entre poesia ou prosa, fica na indefinição, no limiar; deslizante para poder abranger a escuta quase psicanalítica do outro, sempre outro, ao infinito. Daí os recortes nas visões do garoto, coladas nas páginas dos livros e sopradas no ar, diante de inexistentes janelas:

Que forma assumiria tal vestígio em sua vida? As formas significam muito pouco. Poderia seguir recortando-as. Por uma aurícula errante trataria todas as cobras de duas cabeças. Chamaria raio os esfaqueamentos misteriosos que não raro eram comentados em casa E daria pernas ou asas ao pescoçudo gramofone da avó. As formas não lhe bastavam. Um novo personagem lhe despertara para tanto. Arrastava-se brincalhão sobre seu corpo. Não lhe eram mais enfadonhos os sonhos, embora seguissem silenciosos e em repisado repertório. Tudo permanecia o mesmo, mas ganhava em significado. (p.96).

O instinto natural de subversão nos leva a ouvir o outro, a contraí-lo enquanto perversão essencial à sua própria existência (Floriano Martins na apresentação do seu Alma em Chamas. Letra & Música, 1998).

Um Livro de Ângela é momento diverso, em que a narrativa se aclara, torna-se quase linear em seu jorro de imagens urgentes, como a captar o ritmo frenético do instante que passa, através de uma daquelas mil vidas.

(…)

Ângela me oferta a caligrafia de suas vertigens,
encrespa-me enquanto perdura,
é apenas um instante,
e quando lhe abrimos as vísceras não há semântica que nos leve além do instante. 
transfigurado ressurrecto melancólico derruído,
porém aquecido pela mesma complexidade:
a dor do instante.(p.162)

Enquanto metatexto, pratica uma auto-incisão e cria sua própria imagem (narcísica):

            6.

Escrever assim em quebradiço
Dando a falsa idéia de ser nada
Pender para um ponto ou outro
Mudando de forma ou de olhar
Pingando uma imagem ou duas
Tornando o tolo em santa realeza
Glossário de idéias mal defendidas
Crendo que dure a geometria…
Nem todo um livro de Ângela
Recolhe essa anatomia desfigurada do desejo.
Há algo que lhe escapa
Como se pensássemos na evolução de um mesmo dilema:
Somente a impostura garante o sucesso?
(p.160).

(…)

Estudos de Pele. Um livro original na medida em que pratica um exercício de semântica, trabalhando com materiais provenientes, ou ao menos familiares, ao universo explorado pela psicanálise.

[Maria da Paz Ribeiro Dantas]

Nueva Poesía Hispanoamericana (Antología org. por Leo Zevala)7 Nueva Poesía Hispanoamericana (Antología org. por Leo Zevala). Lord Byròn Ediciones. Lima, Perú. 2004. 110 pgs.
Lord Byròn ediciones tiene el honor de anunciarles la publicación de la antología titulada "Nueva Poesía Hispanoamericana" que en su edición séptima lleva como subtitulo: "poesía no dice nada, poesía sé esta callada, escuchando su propia voz". En esta edición la antología tiene como eje temático a la poesía y el arte lírica.Esta antología ha sido compilada por el poeta peruano Leo Zelada, (premio de poesía Orpheu, Brasil, 2001). La vocación poética, la poesía inmersa en el trajinar diario del creador, sus miedos, fobias e imprecaciones están reflejadas Heterogéneamente, así como las múltiples visiones personales que tienen los poetas frente a la pagina en blanco.
Entre los poetas que han participando de esta publicación nuestra se encuentran los más destacados exponentes de nuestra poesía contemporánea como son: Jaime Siles, Felipe Benítez Reyes, Luis Antonio de Villena, Antonio Cisneros, Eduardo Llanos, Ricardo Costa, Manuel Lozano, Ernesto Kahan, Jeannette L. Clarión, Juan Carlos Gómez Rodríguez, Alfonso Chase, Diego Muzzio, Enrique Verastegui, José Watanabe, Floriano Martins, Antonio García, Julio Cesar Aguilar, Humberto Garza, entre otros.
Esta 7ma edición de nuestro proyecto editorial ha tenido repercusión en el ámbito continental al haber salido publicadas entrevistas y reseñas de la antología en importantes diarios de América Latina como El Excelsior y El Norte de México, El Clarín de Argentina, El Comercio, Peru21 y Liberación de Perù, La Estrella de Puerto Rico, El Deber de Bolivia, en el Diario de Tarragona e info-Cádiz de España; En revistas como La Resonance (Francia), Barcelona Review (España),"Actualidad literaria" (España), Crónica Literaria (Argentina), Literatura Cubana (USA), Actualidad Austral (Chile); En importantes agencias internacionales de noticias como EFE(España), LIBRUSA con sede en Miami (USA), Todito.com de TV azteca (México), Agencia de noticias Libros y Letras (Colombia). También ha habido entrevistas en programas de TV de Perú y Mèxico, Pachuca. Por ultimo ha habido entrevistas radiales sobre la antología en Radio Francia Internacional Paris, radio Onda cero, Madrid, España, Radio Nacional Perú y en múltiples revistas escritas y web de Internet en América toda y Europa.
Esta es pues la muestra más significativa de la nueva poesía hispanoamericana que sé esta escribiendo en nuestra lengua después de los grandes poetas posmodernistas en América Latina y en España luego de la generación del 50. Como dice el compilador el poeta peruano Leo Zelada "En esta antología están expresadas la mayoría de las tendencias actuales de la poesía actual: el neorromanticismo Erótico, la nueva poesía social, la poesía del ciber-espacio y la estética de la posmodernidad".
La antología ha sido presentada exitosamente el día 18 de julio del 2004 en la feria internacional del libro de Lima, el 4 de agosto del 2004 en "La Casa de la Integración" del Instituto Internacional de Integración del Convenio Andrés Bello, La Paz Bolivia, el 8 de diciembre del 2004 en la universidad Tecnológica de El Salvador y será presentada el 25 de enero del 2005 en el Instituto Iberoamericano Catalán, Barcelona, uno de los centros culturales más importantes de España.
Según las palabras del poeta y ensayista peruano Leo Zelada, compilador de esta Antología: "Ésta es la primera antología que se presenta ante el lector hispano-hablante de los nuevos poetas de nuestro firmamento poético, ellos y su poesía serán los responsables ante el tiempo de la vigencia de nuestra valiosa tradición literaria".
Sean bienvenidos a la lectura de esta nuestra publicación "poesía no dice nada, poesía sé esta callada, escuchando su propia voz".


O cantor de tango, de Tomás Eloy Martinez (trad. de Sérgio Molina)8 O cantor de tango, de Tomás Eloy Martinez (trad. de Sérgio Molina).
Ed. Companhia das Letras. São Paulo. 2004. 221 pgs.

Em setembro de 2001, a Argentina esteve à beira do caos, com a ascensão à presidência da República de um caudilho de província, que logo se viu apeado do poder pelo furor das massas à frente da Casa Rosada. Depois de viver nos anos 40 o auge de seu desenvolvimento como país periférico que se mirava na Europa, a Argentina, no começo deste século, chegou ao ápice de seu calvário.
É nesse ambiente de convulsão social que Tomás Eloy Martínez, hoje uma das vozes mais representativas de uma literatura que já produziu Jorge Luís Borges, Ernesto Sábato, Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares e José Pepe Bianco, constrói a trama de seu último livro, O cantor de tango, que não só se rivaliza com O romance de Perón (La novela de Perón), de 1985, sua obra-prima, como engrandece ainda mais seu currículo literário. É um livro envolvente, que traz as marcas de um romancista na plenitude de sua mestria.
Tomás Eloy Martínez, nascido em Tucumán, em 1934, é romancista, professor universitário, roteirista e crítico de cinema e literatura, além de articulista que escreve em La Nación, O Estado de S. Paulo, El País e The New York Times. Sua produção ficcional inclui ainda os romances O vôo da rainha (2002), Santa Evita (1995) e Sagrado (1969), além de roteiros de cinema, livros de ensaios e o relato jornalístico La pasión según Trelew (1973). É, atualmente, diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos da Rutgers University, de Nova Jérsey, EUA.
Em seu último livro, Martínez imagina um pesquisador norte-americano da obra de Borges que desembarca em Buenos Aires, ao final daquele ano, em busca de Julio Martel, um misterioso cantor de tango que nunca gravou um disco, mas que, quando imitava o lendário Carlos Gardel, era Gardel e, quando se empenhava em ser ele mesmo, era melhor.
O acadêmico, um estereótipo de conhecidos pesquisadores norte-americanos que costumam freqüentar arquivos brasileiros, portugueses e hispano-americanos, imagina que, escutando esse cantor de viva voz, talvez poderá entender melhor determinados escritos de Borges que, já nos anos 30, lamentava a degradação da música portenha.
Bruno Cadogan, o acadêmico, chega a uma Buenos Aires deteriorada, cheia de mendigos e famílias desabrigadas, cenário inimaginável até há poucos anos, embora a cidade, dez quadras depois da famosa calle Florida em direção ao interior, sempre tenha sido outra, bem mais pobre. Instala-se numa pensão na rua Garay, em cujo porão, segundo suas pesquisas borgianas, haveria os dezenove degraus que levavam até o Aleph, “uma pequena esfera furta-cor, de brilho quase intolerável”, que refletiria o universo inteiro.
Suas pesquisas o levam até o número 994 da rua Maipú, onde Borges viveu em humildade franciscana por mais de 40 anos. Se as pesquisas borgianas não foram difíceis, buscar os rastros de Julio Martel exigiram de Cadogan a argúcia de um detetive, tal como o personagem do livro Seis problemas para don Isidro Parodi (1942), escrito por Borges em colaboração com Adolfo Bioy Casares sob o pseudônimo H. Bustos Domec.
No rastro do cantor, o improvisado detetive se perde numa série de labirintos, imbricados no espaço e no tempo, como num conto de seu biografado. A cada passo, Cadogan envolve-se cada vez mais em histórias que só lhe aumentam as dúvidas. Onde andaria Martel àquela altura? Por que nunca conseguira a fama de Gardel, embora sua voz fosse um portento semelhante ou talvez superior?
Ao tentar reconstituir a vida tumultuada de Martel, Cadogan reconstrói também a história de uma cidade que atravessou o século XX imersa em convulsões e catástrofes, como a Semana Trágica que resultou no assassinato de anarquistas em 1919, em meio a perseguições contra judeus por parte de grupos paramilitares formados por civis das classes altas, a aventura e o flerte do general Juan Domingo Perón com os nazistas, a brutalidade e o horror das ditaduras militares que destruíram boa parte do futuro do país, até a catástrofe do réveillon de 2002. Como pano de fundo, o tango, uma música nascida nos bajos fondos de Buenos Aires em meio a prostitutas, rufiões e mafiosos de todos os calibres.
Instalado na pensão da rua Garay, Cadogan faz de uma mesa no Bar Britânico, perto dali, em frente ao Parque Lezama, o seu observatório, enquanto dedica-se a escrever sua tese. O local já serviu de cenário para Sobre héroes y tumbas (1961), de Sábato, e ali em 1944 Borges e Estela Canto, a quem está dedicado o conto “El Aleph”, viveram momentos de enlevo. Cadogan vive ainda uma amizade suspeita com Tucumano, um jovem de baixo estrato social disposto a fazer qualquer coisa para arrumar dinheiro, inclusive, explorar a curiosidade dos turistas pelo possível Aleph, que o próprio Borges supunha falso.
Mas o que prende a atenção do leitor, como num romance de suspense, é a trajetória do cantor Julio Martel, seu envolvimento com os seqüestradores do cadáver do general Aramburu no cemitério de La Recoleta, a sua vida no submundo de Buenos Aires, sua esquisita mania de cantar em locais que, vistos num mapa da cidade, cumpriam um desenho semelhante ao losango com que Borges resolve o problema de “A morte e a bússola”, conto de Ficciones (1944). O acadêmico descobre-se, então, perdido num labirinto borgiano.
Para os amantes do tango, Martínez ainda relaciona ao final as letras das canções que Martel cantava em sua ronda por Buenos Aires, que vão de “El bulín de la calle Ayacucho” (1923), passando por “Mano a Mano” (1918), “Caminito” (1926), até o recentíssimo “El rap del Fuerte Apache” (2001), entre outras.
Martínez defende a idéia de que a fronteira entre os gêneros é imprecisa e que seus textos devem ser lidos como uma cena da realidade ou da história, não como meros documentos ou ficções. Por isso, se O cantor de tango é uma narrativa de ficção, não se pode deixar de levar em conta que muito do que o autor descreve está fincado na realidade, na brutal realidade da Argentina de ontem e de hoje.
(Aliás, no conto “El Aleph”, Borges diz que, em julho de 1942, o pensador hispano-americano Pedro Henríquez Ureña (1884-1946) descobriu numa biblioteca de Santos um manuscrito do capitão Richard Burton, cônsul britânico na cidade por volta de 1867, que versava sobre o espelho que atribui o Oriente a Iskandar Zu al-Karnyan ou Alexandre Bircone da Macedônia. Burton, segundo Borges, menciona nesse manuscrito outros artifícios semelhantes. Se o conto é ficcção, Burton não é uma personagem fictícia e Ureña muito menos. Por isso, já andamos por várias bibliotecas de Santos atrás desse manuscrito, mas as buscas têm sido infrutíferas. Com a ajuda da Associação Comercial, entramos em contato com o atual cônsul britânico, que lamentou não poder ajudar por não ter registros, já que “os antigos cônsules não passaram seus arquivos adiante”. É mais um mistério borgiano).

[Adelto Gonçalves]

O golpe militar e civil de 64 - 40 anos depois, de Ivan Cavalcanti Proença9 O golpe militar e civil de 64 - 40 anos depois, de Ivan Cavalcanti Proença. Ed. Oficina do Livro. Rio de Janeiro. 2004.

Mestre em Literatura Brasileira e Doutor em Poética pela UFRJ, Ivan Cavalcanti Proença - além de dedicar-se aos estudos literários - vem atuando em outros segmentos culturais. Suas pesquisas centralizam-se nas várias manifestações da Cultura Brasileira, englobando o Futebol, bem como abrangem expressões estéticas de cunho popular e/ou regional, como o Carnaval, o Folclore, a Música, etc, sendo ele autor de vários livros e ensaios sobre os temas mencionados. Na instância político-administrativa, Proença ocupou cargos nas áreas culturais e pedagógicas na vigência dos governos do PDT no Rio de Janeiro, na gestão de Leonel Brizola. Dentre as várias premiações, destacamos: Medalha Presidente Perpétuo do CACO (Centro Acadêmico Cândido de Oliveira da atual Faculdade de Direito da UFRJ), e Medalha Chico Mendes (de resistência à ditadura - TNM).

No livro intitulado O golpe militar e civil de 64 - 40 anos depois (Ed. Oficina do Livro), lançado em novembro de 2004, o autor aborda, dentre outros assuntos, o episódio do Largo do CACO (Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, da então Faculdade Nacional de Direito), cuja versão original merece aqui ser mencionada, por ser pouco conhecida até mesmo do público atento à temática em pauta. Trata-se de fatos ocorridos, já sob a égide do Golpe Militar, no dia 1º de abril de 64, quando, por ocasião de um comício estudantil realizado naquele Largo, grupamentos paramilitares cercaram estudantes e pessoas que se encontravam nos arredores - “muitas a caminho da Central do Brasil”, no Rio de Janeiro.

De serviço nas proximidades do Campo de Santana (localidade vizinha do CACO), Ivan Cavalcanti Proença, que na época era capitão do Exército, posicionou-se a favor da legalidade, e liderou manobras de proteção e abertura do prédio da Faculdade Nacional de Direito, que fora cercado pelas forças repressoras, e atingido por bombas de gás lacrimogêneo. Em virtude do ocorrido, Proença foi preso e cassado. E tornou-se alvo de represálias, inclusive em instituições civis, sendo afastado inúmeras vezes das atividades de magistério.

Abordando, através de texto claro e objetivo, inúmeros antecedentes e conseqüências do golpe, o autor - mais que um depoimento - apresenta aos leitores vasto material para pesquisa no campo político-social, tangenciando questões relacionadas aos Direitos Humanos. Note-se ainda que, tão logo trazido a público, o livro de Ivan Cavalcanti Proença ganhou novos contornos, posto que, duas semanas após o lançamento, uma emissora de TV exibiu reportagem (como é do conhecimento de todos) sobre a queima de documentos relacionados ao governo militar. Diante do ocorrido, neste momento em que o “Brasil” discute a abertura dos arquivos referentes àquele período histórico, os fatos narrados pelo autor tornam-se objeto de mais uma “leitura”, envolvendo questões afetas à cidadania.

A relevância do livro de Proença consiste, sobretudo, em indicar as lacunas deixadas pelo golpe, lacunas que se refletem hoje em várias instâncias sócio-culturais, levando o leitor a observar que os regimes ditatoriais possuem algo em comum: não afetam a produção de idéias, mas impedem a práxis. Os mecanismos panópticos do autoritarismo não podem vigiar o pensamento, mas se empenham em coibir ações, impondo uma indesejável dicotomia entre o pensar e o atuar.

Sob esse ângulo, os governos autoritários não terminam em datas fixadas no calendário. O autoritarismo deixa marcas - deixa lastro que o revela de modo sub-reptício. Cultural ou socialmente, aquilo que não foi realizado precisará de tempo. Precisará de muito tempo para chegar a termo. Sem contar realizações que se tornam impossíveis, como reverter efeitos da delação e da tortura. Eis a linha de pensamento que norteia o trabalho de Ivan Cavalcanti Proença, envolvendo questões que tangenciam a importância da democracia como fundamento da liberdade do cidadão para atuar nos processos culturais. E aqui a cultura ganha definição antropológico-filosófica - abrange a globalidade das produções do homem dos pontos de vista ideativo e pragmático.

[Mirian de Carvalho]

O guia dos perplexos - Parte 1, de Maimônides (tradução e estudo introdutório de Uri Lam)10 O guia dos perplexos - Parte 1, de Maimônides (tradução e estudo introdutório de Uri Lam). Landy Editora. São Paulo. 2004. 336 pgs.

Nesta Parte 1, o filósofo apresenta as idéias esotéricas contidas na Bíblia, especialmente a de não se aplicar atributos a Deus, e uma primeira refutação da doutrina do Kalám, corrente filosófica de orientação islâmica. Maimônides, baseado em fontes judaicas, dialoga, nesta obra, com parte da filosofia grega e da árabe-muçulmana, além de se referir a um grande número de teorias, doutrinas e opiniões das mais variadas procedências. Em uma época cuja preocupação era, principalmente, as questões dos eruditos judeus da Península Ibérica, mas também o desinteresse dos judeus do Egito pelos estudos judaicos, Maimônides acreditava que, ao escrever uma obra que abordasse a relação possível entre o texto bíblico e a tradição oral contida no Talmud, por um lado, e a filosofia abstrata, por outro, possibilitaria o acesso da razão aos segredos contidos na Bíblia e, assim, atrairia novamente os judeus para o estudo de suas tradições. O seu interesse em buscar a conciliação entre filosofia e religião estava em criar uma teologia judaica de alto nível e em demonstrar que a leitura dos textos bíblicos não deveria ser literal.

Obra poética, de Mauro Mota11 Obra poética, de Mauro Mota. Edições Ensol Ltda. Recife. 2004.

A primeira coisa que salta aos olhos quando se percorre a poesia de Mauro Mota é a sua alta e obstinada lição de rigor, de um rigor que se diria clássico tamanho é o tributo que paga à austeridade expressiva e ao culto das boas tradições da língua. Sua linguagem é simples e direta na medida em que o é a de seu ilustre conterrâneo Manuel Bandeira, e assim o é porque ambos entenderam, até com certa humildade, que o simples não constitui senão o derradeiro estágio do complexo, no qual já não cabem o malabarismo e a acrobacia verbais, esses feux d’artifice em que se perderam (e ainda se perdem) alguns poetas brasileiros que poderiam tê-lo sido e que não foram. Há em ambos uma secura de estilo e uma franciscana economia de meios, um horror às tournures fraseológicas e aos contorcionismos de linguagem que de pronto nos recordam o ascetismo da euclidiana linha reta. E estão ambos - eis aqui o milagre - carregados daquela misteriosa emoção que somente os autênticos poetas sabem transformar em magia verbal, como o fizeram Poe e Baudelaire na estrutura medida e concisa de seus versos. É que neles, mais do que o espírito - que sempre se move de fora para dentro -, anima-os a alma, cuja luz percorre o trajeto inverso, tal como o vemos naquela “noche oscura” de São João da Cruz.

Essa é a essência da poesia de Mauro Mota, mais exatamente a que inerva as Elegias (1952), nas quais se dilui por completo qualquer indício de datação temporal ou de referência toponímica, ao contrário do que ocorre com a imensa maioria de seus poemas subseqüentes. Trata-se aqui do primado da poesia pura ou, se quiserem, assoluta, daquela poesia da poesia, antiprogramática e estrita, como se lê em alguns dos poemas de Leopardi ou nas partituras de Bach, Mozart e Chopin. Não me parece fortuito que, para escrevê-las, Mauro Mota haja escolhido a forma tersa e contrita do soneto, cuja expansão é sempre mínima: “pequeno som”, como diziam seus inventores, Piero delle Vigne e Guittone d’ Arezzo, no já distante século XIV, e de que se valeram depois os poetas do dolce stil nuovo. E estes sonetos, ou “elegias”, de Mauro Mota são perfeitos na emoção e na forma, já que ambas se desenvolvem sob o signo de uma reciprocidade simultânea, corrigindo assim aquele antigo equívoco de que forma e fundo seriam dissociados, quando são, na verdade, uma indissolúvel comunhão, comunhão absoluta, aliás, como se vê no primeiro quarteto e no segundo terceto da “Elegia nº 8”:

As mãos leves que amei. As mãos, beijei-as

nas alvas conchas e nos dedos finos,
nas unhas e nas transparentes veias.
Mãos, pássaros voando nos violinos.

(...)

Se parecem dormir, não as despertes.
As mãos que amei, que desespero vê-las
cruzadas, frias, lânguidas, inertes!

Claro está que essa poesia da poesia lateja em toda a obra de Mauro Mota, mas convém sublinhar que aquela essência antiprogramática a que aludimos no caso das dez elegias (que seriam onze, se computássemos a que se encontra nos versos de arquivo) cede terreno à poética da existência nos livros posteriores do autor, ou seja, os que ele deu à estampa entre 1956 e 1979. É que os poemas incluídos nesse período de vinte e três anos de produção são de fundo simbólico e estão fincados como raízes na terra nordestina, retratando os dramas do cotidiano em linguagem natural e espontânea, ou, como deles disse Álvaro Lins, transmitindo “uma espécie de realismo mágico, uma extraordinária capacidade para transfigurar o imediato e o cotidiano em simbologia poética”. Percebe-se “um certo cheiro de engenho” até mesmo em alguns de seus poemas mais urbanos, como corretamente observa Renato Pontes Cunha, acrescentando que a Zona da Mata pernambucana, onde ondulam aqueles canaviais de João Cabral de Melo Neto, “marcou sua infância e tingiu definitivamente sua poesia”. Esse realismo mágico e esse “cheiro de engenho” estão de fato presentes em quase toda a obra de Mauro Mota, e seria fastidioso rastreá-los neste ou naquele poema, já que se trata de um traço estigmático do comportamento psicológico do autor, de uma herança cultural ou, mais do que isto, de uma alma acima de tudo nordestina.

O que nos interessa mais de perto na poesia de Mauro Mota, entretanto, é uma qualidade intrínseca: a de sua pureza formal, associada ao domínio cabal que revela o autor no que toca aos seus meios de expressão e ao lirismo, dir-se-ia telúrico, de sua refinada e tensa linguagem. Tais características legitimariam sua filiação à Geração de 45, como assim o pretendeu Fernando Ferreira de Loanda quando o incluiu no Panorama da nova poesia brasileira, antologia que registrou o primeiro balanço de um grupo de poetas que buscavam um novo caminho para além dos limites do Modernismo. Ocorre que Mauro Mota, à semelhança de Lêdo Ivo e de alguns outros poetas pertencentes ao grupo, transcende os propósitos operacionais e doutrinários da Geração de 45, firmando-se logo depois como um dos poetas mais estimados de sua época. E acrescente-se que a reação formalista desses poetas aos desmandos e desvios dos modernistas de 1922 era algo previsível e talvez até necessário. Mas quando se lêem poemas como as já citadas “Elegias”, “Finados”, “A potranca”, “As andorinhas”, “Os epitáfios”, “O cacto” ou “Balada eqüestre” percebe-se em que medida se dá essa superação dos pressupostos formalistas da Geração de 45, na qual já se arrolaram poetas tão transgressivos quanto João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar.

Mauro Mota, de quem agora se reúne toda a poesia, não pode ser visto, portanto, como um sobrevivente da geração a que pertenceu, e sim como o grande poeta que já era quando da publicação das Elegias, às quais se seguiram, confirmando-lhe as altas e indiscutíveis virtudes, A tecelã (1956), Os epitáfios (1959), O galo e o cata-vento (1962), Canto ao meio (1964), Itinerário (1975) e Pernambucânia (1979), além dos poemas do arquivo que agora se coligem. É que há em sua poesia, como em toda grande e autêntica manifestação do ímpeto poético, aquele timbre intransferível que distingue o poeta do versejador, e nem cogito aqui do artesão porque este sempre subjaz no verdadeiro artista e até o pressupõe. Há em Mauro Mota austeridade verbal, limpeza de fatura, equilíbrio e adequação do que e do como da linguagem poética, fina ironia e uma tristeza que é a de todos nós, poetas, a tristeza daqueles que, caducos e contingentes, estão sempre com um ar de despedida, como observou certa vez este outro grande elegíaco que foi Rainer Maria Rilke. E são esses os misteriosos ingredientes de que se vale toda poesia que haverá de permanecer, mesmo nos hölderlinianos tempos de indigência que ora vivemos. De Mauro Mota, por exemplo, haverão de permanecer, entre outros, estes dois tercetos admiráveis de “As andorinhas”:

Mas quando, no intervalo dessa pena,
no seu repique matinal batia,
era a coletivíssima revoada:

asas de cal e músicas de pena
caindo todas pelo chão da praça
como se a torre se despedaçasse.

[Ivan Junqueira]

A palavra inscrita, de Mário Chamie12 A palavra inscrita, de Mário Chamie. FUNPEC Editora. São Paulo. 2004. 402 pgs.

Mário Chamie é autor de quinze livros de poemas e está lançando agora o seu décimo terceiro livro de ensaios e estudos literários.

Como ensaista, Chamie escreveu obras de importância para a crítica literária brasileira, a exemplo do clássico Caminhos da Carta. Incluem-se entre essas obras, Intertexto (1970) e A Transgressão do Texto (1972) que introduziram o método dialógico na análise de Macunaíma, de Mário de Andrade, e de Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade. Graças às suas pesquisas, Chamie é também o responsável pela descoberta e revalorização de Madame Pommery, de Hilário Tácito, além de ter revelado, interpretado e editado, pela primeira vez, os originais manuscritos de O Santeiro do Mangue, de Oswald de Andrade. Detentor dos mais importantes prêmios literários do País (com seu último livro de poemas, Horizonte de Esgrimas, conquistou, em 2003, o Prêmio Portugal Telecom), Chamie acrescenta aos seus doze livros de ensaios, o volume de A palavra inscrita. Neste livro, o poeta examina e interpreta aspectos inexplorados, ou pouco comuns, de escritores nacionais e estrangeiros, como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Francis Ponge, Lévi-Strauss, Augusto dos Anjos, Gilberto Freyre e outros, transitando da cultura popular para a cultura literária mais sofisticada, com diferenciado senso de análise.


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