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revista
de cultura # 43 |
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Crônica de consumo: a lâmpada queimada da poesia Floriano Martins
Pronto. Há que ver detalhes, nada mais. Por exemplo, saber
se a amizade pode funcionar como um produto aspiracional. Viver com
mais liberdade significa não crer em mais nada, não compartilhar opiniões,
radicalizar o status de sua condição solitária no mundo. Apagar
todos os rastros de conceitos como os de confiabilidade e discordância
explícita. É isto o que está por trás da máscara de uma entrevista
com David Shah, [1] o simpático inglês, consultor de tendências que, ao
diagnosticar o fim da moda, nos leva a uma indagação: extinto o hábito,
extingue-se a cultura em toda sua amplitude? Como então ser teólogo do
nada em uma terra de nada? Quais os hábitos de David Shah? O que veste?
Com quem se encontra? Em quem confia? Nesta entrevista ele faz uma
apologia da “recontextualização”, algo não tão simples como mudar
os móveis de posição em uma sala, mas, ao fim, essencialmente isto. As
metáforas criam suas ambigüidades, e desgraçadamente anseiam por
ambientar-se, e é justamente quando se mostram o que são:
desambientadas. Os poetas brasileiros parecem discípulos de David Shah. Ah
sim, esta seria uma primeira reação de um poeta brasileiro, porque eu
também sou poeta e brasileiro. Mas a coisa não se resolve – a favor de
ninguém – assim tão facilmente. Até porque o dilema não se restringe
ao comportamento do poeta brasileiro. Há uma passagem na entrevista do
inglês Shah em que ele assevera: “Hoje em dia, a maioria dos produtos
se parece e tem basicamente a mesma qualidade, sejam japoneses, coreanos
ou britânicos. Para diferenciá-los, é preciso atribuir a eles uma
personalidade.” Esta, que é a ótica do consumo, em muito se assemelha
a uma ótica não declarada do fazer poético no Brasil. Recorda afirmação
que me fez Ademir Demarchi, em uma mesa no Instituto Goethe, [2] no
sentido de que os poetas brasileiros haviam atingido uma técnica admirável.
Sim, é verdade, dentro dos padrões atuantes, de circulação, aceitos
pela crítica – hoje restrita ao âmbito da análise acadêmica
-, todos escrevem certinho, com boa sintaxe, pausadamente etc. Careceria
então aplicar o método Shah, ou seja, atribuir-lhes uma personalidade? Não
precisamente, pois do que se trata, antes de tudo, é da aceitação de
que essa poesia tornou-se produto, nada mais. Que é outra sua instância
de atuação. A partir daí evocar as tendências do mercado livreiro etc.
Não importa, aqui, também seguir a trilha da poesia brasileira em si,
tanto quando o comportamento de nossos intelectuais. Como reagimos diante
de crises? Como as aceitamos? Como passamos por cima delas em um exercício
de alheamento?
A pergunta mais certeira então – porque tudo é uma
questão de alvo – seria: o que estão vendendo os poetas brasileiros? Já
em 1997 suspeitava Jair Ferreira dos Santos que “híbrida e superficial
na sua natureza, a poesia pós-moderna (ou qualquer outra) caminha, tudo
indica, para o irrelevante e o espectral enquanto criação na cultura e
produto no mercado”, e lhe dá até um nobre papel, ao dizer que
“talvez esteja reservado a ela cumprir o trânsito do cadáver da poesia
como instituição para sua ressurreição como hobby, jogo tribal,
adereço nas subculturas de gosto”, logo lembrando que “nesse novo status,
vai assemelhar-se à filatelia, à numismática”. [3] Nesta mesma ocasião,
um outro observador, Dante Lucchesi, comenta que “a sociedade pós-moderna,
ao se tornar uma nebulosa de todas as linguagens possíveis, esvazia o
poder de significação da linguagem na medida em que a reifica,
instrumentalizando-a, tornando-a um mero acessório, do qual um artista,
um estilista de moda ou um publicitário pode lançar mão sem qualquer
comprometimento, e com fins absolutamente pragmáticos”. [4] Ora, mas
com que enorme facilidade nos tornamos todos vítimas de um sistema
qualquer! Acrescentemos, portanto, à nossa lista de afirmações caóticas
o cataclísmico “Não há mais história”. E sempre me pareceu tão
fascinante a sugestão de Barthes de ir de encontro a todas as idéias
recebidas… Acaso não deveria o poeta estar no mundo justamente para
tanto? Duas décadas antes dos brasileiros referidos, já alertava Elias
Canetti que “ninguém será hoje um poeta se não duvidar seriamente de
seu direito de sê-lo”, atento que já se mostrava à “perversa
banalidade” que tomaria posse de nosso estar no mundo. [5] O dilema maior ainda estava por vir, considerando hoje que
a reificação evocada por Lucchesi não mais incide apenas sobre a
linguagem e sim sobre o poeta, que não soube a tempo negar a si mesmo,
transgredir-se, desfazer-se do culto do eu com que acabou imaginando o único
sentido de sua existência. Tornou-se ele a coisa em si, o “adereço nas
subculturas de gosto”, o freqüentador de festas, eventos etc., onde a
poesia nada mais diz. Se acaso se assemelha tal empresa com o que move a
filatelia ou a numismática, talvez seja apenas pelo aspecto de
colecionista, no caso um colecionador de facetas, de gestos eloqüentes a
compensar a leitura de versos inócuos, por exemplo. Ou compilador de
exercícios de simpatia na articulação estratégica da nova marca com a
qual se ocupa: ele mesmo. Daí vale retornar ao Mr. Shah quando dispara
que “marcas passam a ser como famílias, dão ao consumidor
estabilidade, uma identidade”, enfim, “substituem a Igreja e a família
real”. Portanto, a coleção do poeta reporta-se à qualidade acessória
de sua mais-valia.
Mas, onde o poeta aprende a ser gente? Na transmissão de
conhecimentos, técnicas, fascinações, sonhos. Antepor-se ao pragmatismo
tem sua dose de valor, considerando que nele a satisfação esgota-se em
si mesma. Contudo, há algo no poeta e na linguagem que encarna, que é
suscetível de aplicações práticas. O poeta tem que se dispor a trocar
a lâmpada queimada da linguagem, por exemplo. E para tanto necessita
compreender que ele não é nada se não compartilha mundos, e se não
aplica seus conhecimentos no mundo que habita. Ainda podemos falar no
termo revolucionário? Tudo depende do poeta. Antes de tudo, ele terá que
aprender a contestar a si mesmo. Se a partir daí conseguirá renovar
processos, enigmas, desejos, bom, já ninguém se arrisca a apregoar nada
em tal território queimado por descaso de seus granjeiros. Embora o poeta tenha se convertido em peça de consumo, a
ele não se aplica a mesma avaliação geral de Shah, de que “o gosto
pela ostentação está em baixa” e que “estamos voltando à idéia de
inteligência como um luxo”. Por vezes o fulgor de espírito é apenas
um efeito. A ostentação foi deslocada da linguagem para a figura do
poeta, a ponto dos versos terem se resumido a mera lapidação formal, não
cabendo aplicar-lhe sentido algum. O poeta sim, este faz sentido, brilha
pelo luxo de sua sagacidade, e não propriamente por sua inteligência. Não
está em harmonia com o mundo que o cerca, mas, antes se exibe como alguém
acima de todos os olhares. É professoral, distante, ao mesmo tempo simpático,
com aquele ar patético de grife estabelecida. O poeta é a glória em si,
ainda que a glória não o reconheça. Alguém por dentro do nada e por
fora de si mesmo. Ah se ao menos fosse alguém por dentro da dúvida! A
poesia perdeu a conta do mito, pura e simplesmente porque o poeta uma bela
manhã despertou preocupado apenas sobre o que vestir ou não vestir.
Faltou a paródia. O mito considerado e incorporado, a
discussão, o diálogo. Em circunstância alguma temer o ridículo em que
se incorreu. A idéia de surpresa e excitação defendida por Shah tem
aplicação apenas mercadológica. Ele avança em uma área desguarnecida
pelo poeta. É um homem astuto, sagaz, que entende mais de poeta – não
de poesia – do que qualquer um de nós. Aposta em nossa constante egoísta,
um comodismo tanto de linguagem quanto existencial, e sua idéia de
“recontextualização” não vai além de um projeto ambientado na
manutenção de seu afazer: “colocar objetos e idéias que você conhece
num outro ambiente, para criar surpresa e excitação”. Talvez o princípio
da criação poética perambule por aí. Mas ainda estamos tratando de
consumo. O que o poeta teria a dizer a este respeito? No princípio da conversa eu andava por uma rua qualquer, lá
no primeiro parágrafo, e foi interessante pensar que a concepção deste
artigo nada teve a ver com um filme que dias atrás fui ver, The
Forgotten (2004), de Joseph Ruben, onde havia uma reflexão aparente,
sobre a conexão emocional entre pais e filhos, mas que por trás da trama
algo que me pareceu mais substancioso se erigia: todo conhecimento se
anula em si se não pode ser compartilhado. Andei caminhando por aquela
mesma rua, imaginando mil formas de estar nela. É o que tenho feito a
cada verso, a cada passo de meu viver. Onde estão a “Igreja e a família
real” que perdemos, no dizer de Shah? Nem disto sabemos dar conta. Para
que diabos estão no mundo os poetas? Para escrever os versos mais belos
esta noite? Ora, mas já não foram escritos? O poeta quer ainda mais
beleza? Pois que trate de viver. Que trate de arrancar de si a beleza
suprema de existir, contra todas as marcas de luxo e todo o discurso
pueril dos consultores de comportamento. Tornem-se, portanto, imprevisíveis. NOTAS1. “Não há mais moda”, entrevista conduzida por
Luciana Stein. Época # 336, São Paulo, 25/10/2004. |
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Floriano Martins (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha. Contato: florianomartins@rapix.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica). |
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