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revista
de cultura # 43 |
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Fantástico e estranho mundo de Péricles Prade Marco Vasques
MV - Um escritor geralmente surge ou por influência
familiar ou pela descoberta de um autor. Como se deu a sua iniciação
literária? PP - Escrevi o primeiro poema aos nove anos, prosa poética
aos 15 e conto aos 17. Não descobri autor, apesar de ler muito, que
precipitasse o ato de criação, e a influência familiar foi de outra
ordem. Lembro-me, apenas, que sentia (como ainda sinto) uma irreprimível
necessidade de escrever, na realidade reveladora de vocação literária.
Há, contudo, um responsável pela continuidade desse labor. Trata-se do
falecido Gelindo Buzzi, professor de português e literatura do Colégio
Rui Barbosa de Timbó, que me estimulou, orientando-me. Era um apaixonado
pelo Romantismo, sendo esta Escola, portanto, a primeira forte impressão
da estética de minha adolescência. Entretanto, fundamentais foram as
leituras das histórias em quadrinho, os famosos gibis dos heróis e dos
dominados. Conquanto não tenha iniciado por direta influência literária,
esta existiu e existe no curso de minhas produções. Harold Bloom que o
diga. Daí que, na poesia, registro Blake, Lautréamont, Rimbaud, Mallarmé
e Eliot. Quanto à ficção, Nerval, Hawthorn, Kafka e Jarry. E envolvendo
esses gêneros, como pano de fundo, o ocultismo e a mitologia. A influência
é natural, desde que não usurpe ou contamine a originalidade. Borges não
passou o tempo todo falando em Robert Stevenson, De Quincey, Cansinos-Assén,
Macedônio Fernández e Walt Wittman? Nem por isso deixou de ser Borges,
viceralmente. MV - Allen Ginsberg, em sua primeira entrevista concedida a
um jornal brasileiro (O Globo 4/8/91) dizia “me pergunto que
papel a poesia poderá ter em meio a tanta destruição, tanto sofrimento
promovido pelas grandes potências (...)”. Qual é o papel da poesia num
mundo de grandes conflitos, bomba nuclear, fome, massificação e
coisificação do homem? PP - O próprio Allen Ginsberg poderia responder a si
mesmo, pois, segundo, William Carlos Willians, ele literalmente esteve no
inferno. Aliás, basta ler Aullido para ser verificada esta
realidade. Pois bem. Ainda assim, sobreviveu no universo poético. E por
quê? Porque foi salvo pela fé na arte da poesia. Dito isto, percebe-se
que o papel da poesia, no fundo, continua o mesmo, quer o mundo, ou não,
viva grandes conflitos de expressão universal, coisificando o homem: ou
seja, o da revelação da essência do cosmos individual e coletivo pela fé
nessa arte, sendo tais fenômenos apenas pontuais temas para perpetuá-la.
Afinal, a poesia é entranhado reflexo da vida, com ou sem o caleidoscópio
dos horrores das guerras, ainda que considerada seja um enigma da
natureza. E a natureza, já dizia Heráclito, ama ocultar-se.
PP - O livro Jaula
amorosa, antes de tudo, é um Bestiário moderno, como havia o de
Cristo, na antiguidade, imantado pela aura metafórica de vários animais
viventes. Foram com prazer eleitos pela imaginação, iniciando-se com
peixes imortais e terminando na cova de serpentes ociosas. São envoltos
por uma explosão de imagens insólitas que não expressam,
necessariamente, verberações ancoradas na dicção do surrealismo (atípico,
no caso, se de escrita automática não se trata), fundando-se, com ênfase
maior, nos territórios da mitologia, do ocultismo e da alquimia (além da
temática de origem distinta), a exemplo do ocorrente nas obras
anteriores, em especial Nos limites do fogo. São poemas, no entanto, as mais das vezes
plasmados pela gramática da literatura simbólico-fantástica, suporte de
meu universo arquetípico, inclusive na ficção, cujos traços de
estranheza têm raízes marcantes na linhagem de extração visionária,
sem ser poesia datada e propiciando também remissões líricas e/ou eróticas,
plenas algumas de humor e ironia, mormente a de feição epigramática,
prisioneira da infância baudeleriana reencontrada. O mesmo se diga com
relação ao Pequeno tratado poético das asas, em que é mais evidente a propensão
à estética da redução, verificada pelo consórcio-síntese de palavras
nascidas sob a pulsão e a tensão em torno de um mito exclusivo, isto é,
o Pássaro em sua evolução sagrada, revelando espécie particularíssima
de hierofania. O Pássaro-mensageiro dos deuses e outros, que ora se
confundem com o Destino, ora não, são tratados com visão metafísica,
muito embora linear na construção pedagógico-edênica de suas
identidades no transcurso do Tempo mítico. Aqui, sem o caráter disperso
da Jaula, instaura-se o mythos
como narrativa aplicada de que fala Burkert, por ser, concordo,
simultaneamente uma metáfora ao nível da narração. Daí a relevância
da linguagem poética para desvelá-la, à procura da verdade, da experiência
do sentido (v. Campbell), do eterno e da compreensão do mistério.
Afinal, faz anos, Cassirer já anotava que a mitologia é, na realidade, o
poder que a linguagem exerce sobre o pensamento em todos os planos do
concerto espiritual. É onde entra a poesia, sem intrusão, se a mitologia
é inerente à linguagem, reconhecendo-a como forma externa daquele
pensamento, segundo a pontual formulação de M. Müller. Ambos os livros,
como os pretéritos, vigem sob a advertência crítica de serem obscuros,
herméticos. Bobagem. A obscuridade e o hermetismo somente prestam obséquio
àqueles que não se esforçam para descobrir a lava incandescente sob
esses vulcões representativos de uma poética de exceção em busca
constante de epifanias. Nem por isso, guardadas as devidas proporções, o
poema Prose pour Des Esseintes,
considerado o mais obscuro de Mallarmé, deixa de ser extraordinário,
para usar uma expressão de José Paulo Paes, seu tradutor. Exigem preparo
intelectual, sim, por serem fruto de poesia para iniciados, conquanto
desnecessária seja a erudição especializada, correspondendo a um
projeto poético-existencial (já vislumbrado por Fabio Brüggemann). Há,
neles, certa organização, ainda que febril, compreendendo quase sempre a
junção orgânica de cinco poemas ligados a temas do calendário mítico-fantástico-oculto.
Pretendo concluir o ciclo (a fim de me dedicar apenas à ficção) com o
livro O retorno das serpentes
(comecei a lavra poética a partir de ofídica concepção),
concentrando-me no mito de Oroboros,
a grande mediadora de minha vocação literária de poeta à margem da
corrente, para não dizer xamânico ou maldito. E insisto, apesar de saber
que vivemos num mundo desmitologizado.
PP - Não há dúvida: o poder do símbolo ainda nos
acompanha. Ocorre que o símbolo é apenas um dos elementos da mitologia e
dos mitos, sendo os arquétipos, a teor do perfil junguiano, as idéias em
comum com estes. Eu me referi à desmitologização enquanto tal, ou seja,
a gradativa e crescente mudança do pensamento, que passou de selvagem, in illo tempore, a tecnológico, prevalecendo outro tipo de formas
de pensar, inclusive no plano da poética. Houve, sim, apesar de modo
difuso, um certo empobrecimento. Já quanto à criação de novas
mitologias, decorrentes do mundo da imagem fragmentada, isto corresponde a
uma possibilidade à maneira de Barthes. Mas não é destas mitologias que
trato. Minha poesia, propositalmente, volta-se ao passado, dele extraindo
imagens míticas, informada e enformada pelo envolvimento de natureza
ocultista. No que se refere à condição da poesia atual, nota-se sua
influência pelos ditames da modernidade ou da pós-modernidade, onde,
repito, cada vez mais, o mito é posto à margem, centrando-se a linguagem
a partir de outro ethos. MV - Você diz acima que sua poesia é para iniciados. Isso
não limita sua criação fazendo dela algo elitista? Ou sempre tivemos
poucos leitores de poemas? PP - Sempre houve poucos leitores de poemas, mormente em
nosso país pleno de analfabetos e desdentados, mais preocupados com a
fome do que com a sabedoria. Todavia, em que pese essa realidade, minha
poesia, ainda assim, é para iniciados, circunstância redutora do
universo de leitores. Não que seja elitista, limitando minha criação.
Pelo contrário, expando-a na medida em que procuro outros valores, alheio
ao desenvolvimento frenético do capitalismo, inserido-me na linhagem das
utopias possíveis, se permitido for a remissão a essa singularidade. O
poeta deve escrever em função de sua compreensão do mundo e não recuar
apenas por que certo tipo de postura engajada exige uma preocupação
social exclusiva. Não nego a poesia social, respeito-a; entretanto, a
linguagem inerente a minha expressão é de outro espectro. O social é
exercido por mim no altiplano da Política, campo em que melhor ele se
realiza. MV - A crítica tem relacionado sua obra, sobretudo os
livros Os milagres do cão Jerônimo e Alçapão para gigantes,
ora dentro do surrealismo, ora do realismo fantástico. No entanto me
parece serem livro demasiados cerebrais para serem enquadrados no
Surrealismo germinal que pregava o automatismo. Como você encara a
classificação destas duas obras? PP - Vários exegetas desavisados, realmente, embutiram
estes dois livros na órbita do surrealismo. Estão enganados. A ficção
por mim criada é vinculada à denominada narrativa fantástica.
Para os que não sabem, o fantástico,
segundo Todorov, é a hesitação experimentada por um ser que, conhecendo
tão-somente as leis naturais, encontra-se diante de um acontecimento tido
como aparentemente sobrenatural. Daí durar o tempo de uma hesitação. Na
linha da concepção desse formalista russo, diria que minhas obras
perpassam tanto pelo fantástico-estranho, quanto pelo fantástico-maravilhoso,
resvalando, vez ou outra, pelo maravilhoso puro, por não ter, como o
primeiro, nítidos limites. Muito embora a poesia, no meu caso, esteja de
forma umbilical ligada à atmosfera da ficção, tem um viés de expressão
surrealista, em determinados poemas, mas não se adstringe à escrita
automática, enfatizada por Breton, afeiçoando-se a outro perfil de
características dessa linguagem, entre as quais se hospeda a expansão
do estado imaginativo, compreendida numa espécie
de estética de excessos, para usar as palavras de Álvaro Cardoso
Gomes. Seja salientada, então, a presença de um surrealismo mitigado,
contido pelo trabalho posterior ao ato da criação. Enfim, o que sobra é
mais o culto da imagem, mediante a intervenção da linguagem metafórica.
Mesmo porque, se fosse fazer comparação com as artes plásticas, diria
que as obras estão imbricadas por um tipo de cubismo poético, e não por
um surrealismo típico, se considerada a descontinuidade de boa parte dos
poemas, à espera do preenchimento do vazio pelo leitor atento.
PP - A leitura e a releitura dos poetas brasileiros
compreendem um périplo completo no que há de melhor no universo desses
criadores, sendo visitados com mais freqüência Jorge de Lima e Murilo
Mendes. Quanto a Jorge de Lima, agrada-me a fase formalista, em que se
localiza Invenção de Orfeu,
cujo único pecado, talvez, seja a pretensão de instaurar uma épica
moderna. Contudo, vital na formação, sem dúvida alguma, foi Murilo
Mendes, por mim considerado um dos maiores poetas da América. Para
justificar a afirmação, invoco, como exemplares, O
visionário, A
poesia em pânico e As
metamorfoses. Conquanto
também tenha sido influenciado pela dicção onírica do surrealismo, sem
desfigurar-lhe a fisionomia da obra, foi o seu cubismo poético (imantado
pelo conceito de interpenetração espaço-temporal) que sempre me
cativou, já que, da mesma sorte, possuo afeição (obsessão?) pela
descontinuidade da expressão construtiva (pondo ênfase na força elíptica
das imagens analógicas radicais, descompromissadas com a lógica do
sentido comum) que, afinal, não é monopólio da pintura. Além do mais,
encanta-me o signo escatológico, a visão apocalíptica do cosmo interior
e exterior, onde se nota o predomínio de oxímoros amparados por metáforas
de trajeto invertido (hiperbólicas) propiciatórias da presença de
afinidades de perfil barroco. De outra parte, alinho-me ao uso do staccato caracterizador da medida econômica e autônoma de muitos
versos, quando a miniatura se instala, mas contendo o macrocosmo
representativo de uma cosmogonia singular, isto é, sem comprometer a
originalidade. É nesse espectro que se catapulta minha imaginação. MV - E a vida, Péricles, o que dizer dela? PP - Nasci em Rio dos Cedros, quando ainda pertencia ao
Município de Timbó, a 7 de maio de 1942. Considero-me um homem realmente
feliz. Possuo uma família maravilhosa, muitos amigos (alguns especiais),
venci profissionalmente como advogado e sou respeitado como escritor e
intelectual. Tenho a legítima pretensão de viver muito, se a saúde (por
enquanto excelente) me permitir. Preocupo-me mais com a vida dos outros,
no bom sentido, ajudando os que necessitam e na medida de minhas
possibilidades. Meu maior prazer estético, para manter a felicidade, é
escrever, ler e ouvir música, principalmente Bach e Vivaldi. MV - Quem é Péricles Prade? PP - Um homem cuja maior ambição é servir, ciente de que
a humildade é a maior virtude. |
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Marco Vasques (Brasil, 1975). Poeta, contista e
jornalista. Publicou em 2004 o livro |
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