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revista
de cultura # 43 |
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Três visões da obra de Adélio Sarro Alberto Beutenmüller
1. O desenho poético de Sarro
O desenho é seu Diário de
Bordo, nele todo o seu pensamento e criação estão ali alicerçados.
Este Diário de Bordo é sua paisagem interior. E nem sempre há elo de
ligação entre o que o desenho determina e o seu tema central. O desenho
poderá verter-se em pintura ou não, poderá vir a ser um mural ou
permanecerá eternamente como simples narrativa do que seu espírito
sentiu naquele instante. Emoções como alegria, melancolia, ansiedade,
pressentimento e tranqüilidade estão presentes nos seus desenhos, bem
como em quase toda a sua obra. Em Encontros Noturnos
– desenho escolhido ao acaso, – há três figuras. Duas estão
sentadas em bancos, enquanto a outra rompe a perspectiva na diagonal e
deita a cabeça no colo da outra; enquanto a terceira apenas olha. Sarro
anotou: desfalecido na noite dorme o cansaço do dia no colo doce do
amor, que dá força e alegria para os que amam ou vivem na solidão,
beijam na boca da noite, na luz escura da rua, amam nos leitos de pedra
mulheres que não são suas. Sonham com os dias que o vento no tempo
levou; não lembram mais das horas que o velho relógio marcou, em seus
encontros noturnos, sob a luz do luar, contava no universo as estrelas a
caminho, perdidas, à deriva, no espaço, sem terem onde morar. É caso raro o desenho ser
manifestação poética de um artista. A linha tem sido obra da razão, do
controle, da lógica, da precisão e de refinamento. Ou seja, o desenho é
obra do racional, mas não na obra de Adélio Sarro. Nela, o desenho surge
através de pensamentos poéticos, como o poema inicial do texto acima:
“Desfalecido na noite/ dorme o cansaço
do dia/ no colo doce do amor”.
Desenhar para Sarro é pura poesia.
2. A Estrutura da cor na pintura de
Sarro A cor afeta o coração e os olhos – física e
metaforicamente – de um modo mais direto do que qualquer outro elemento
da pintura. Na sua forma física elementar, a cor é uma sensação
produzida nos bastonetes e cones da retina por ondas de luz de distintos
comprimentos. No aspecto místico e poético, a cor pode oscilar entre uma
palpitante e envolvente sensação de calor e uma fria e revigorante de
luz e espaço. Apesar destes conceitos, é quase impossível definir a
cor, pois ela carrega mistérios insondáveis. O uso da cor na obra de Sarro demonstra o que se diz acima.
Sarro trabalha com tênues azuis transparentes e líricos a dialogar com
vermelhos palpitantes, solares, numa luta sem trégua, deixando a emoção
do observador entre a poesia lírica das cores tépidas do azul e a dramática
das cores fortes do vermelho. Entre tais cores, há uma gama sem fim de
amarelos e verdes e lilases, que são produzidos a partir do fundo da
tela, em camadas diversas e diversificadas, que vão trazendo a emoção
do interior do inconsciente do pintor para o inconsciente do fruidor. A
sua pintura é real e onírica a um só tempo. Sua técnica é plena de
preciosismos, graças às transparências e às texturas rugosas; se
nestas ressalta o drama, nas suas transparências surge o clima lírico e
poético. Para obter-se uma cor luminosa é preciso criar-se sombras.
É o que faz Sarro com sua poética da cor, ora tensa e dramática, ora lírica
e leve, de acordo com a exigência do tema. É preciso perceber que o
pintor opera entre o sagrado e o profano. Ora exalta personagens do campo,
ora pinta personagens bíblicos. Ao mesmo tempo, tais personagens podem
ocupar o espaço de uma tela, ora as personagens podem preencher o espaço
de um mural ou vitral. As técnicas do mural foram bem apreendidas pelo
pintor brasileiro, já que não ficam a dever aos murais de Portinari ou
aos dos mexicanos Orozco, Siqueiros e Rivera quanto à técnica, embora
seus temas sejam mais religiosos do que os dos mexicanos, que são mais
políticos. Há uma imensidão íntima nas telas de Sarro, que nos conduz
ao devaneio. E o devaneio põe o sonhador para fora do mundo, diante de um
mundo lírico ou dramático que traz a marca do infinito.
3. O espaço tridimensional na obra
de Sarro Os objetos escultóricos de Sarro possuem variantes:
esculturas, relevos e painéis. É
importante perceber como o artista passa do risco do desenho para a forma
tridimensional escultórica, ao criar um novo espaço de fruição. A
composição das figuras se transforma e movimenta um espaço próximo de
uma ordem quase simétrica na sua organização. Como não usa cor nesses
objetos escultóricos, não há como emocionar pelo colorido, mas Sarro
consegue criar uma forma cênica dramática, através dos gestos de suas
figuras, com seus rostos singelos e uma dinâmica corporal extraordinária.
Na escultura as personagens de Sarro ganham força dramática. As mãos e
os pés enormes das figuras criam no espaço gestos radiantes e uma dinâmica
que, a pintura não pode oferecer. Os relevos de cimento nos dão a idéia de que mesmo com
material rústico, Sarro realiza obra lírica e dramática, ao mesmo
tempo, como se pode constatar em Felicidade Sonhada ou na Resposta
da Vida, que fica no frontispício de sua casa, em São Bernardo do
Campo.
A
grandiosidade das esculturas de Sarro é produto da simplicidade de seus
temas, sempre a valorizar os mais pobres, os excluídos da sociedade e,
para tanto, vê-se o amor que o artista dedica às suas personagens, gente
que sofre, mas que não desiste da vida, e que procura na fé e na esperança
mitigar esse sofrimento. Podemos dizer que os objetos escultóricos de Sarro seguem
a mesma linha de sua pintura, mas que tudo nasce da idéia inicial do
desenho, que cria a composição libertária de suas personagens, ora poéticas,
ora dramáticas ou ainda trágicas, tal e qual a vida. |
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Alberto Beuttenmüller (Brasil, 1935). Poeta, crítico de arte e ensaísta. Autor de livros como Katatruz (poesia), Volpi, Ianelli e Aldir - Três coloristas e Viagem pela Arte Brasileira. Atualmente, é editor do Jornal da ABCA, Associação Brasileira de Críticos de Arte. Contato: fredmuller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Adélio Sarro (Brasil). |
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