revista de cultura # 43
fortaleza, são paulo - janeiro de 2005






 

Três visões da obra de Adélio Sarro

Alberto Beutenmüller

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1. O desenho poético de Sarro

Adélio SarroO desenho de Sarro possui dois elos: quando é desenho em si mesmo, ele não é mero esboço para a pintura. Ao contrário, tem total autonomia, em relação à pintura, mesmo após a estrutura da linha receber a pele da pintura. Entretanto, o desenho é também o início do pensar lírico ou dramático de qualquer forma que a mente de Sarro venha acolher: o mural, o relevo, a escultura também têm como ponto de partida o desenho. Os desenhos de Sarro são autônomos e têm vida própria. Mesmo quando trabalhava em fazendas, jamais deixou de desenhar, desenhos que guardou ou deu a amigos. Sarro assinala no papel a poética do que sente ao desenhar.

O desenho é seu Diário de Bordo, nele todo o seu pensamento e criação estão ali alicerçados. Este Diário de Bordo é sua paisagem interior. E nem sempre há elo de ligação entre o que o desenho determina e o seu tema central. O desenho poderá verter-se em pintura ou não, poderá vir a ser um mural ou permanecerá eternamente como simples narrativa do que seu espírito sentiu naquele instante. Emoções como alegria, melancolia, ansiedade, pressentimento e tranqüilidade estão presentes nos seus desenhos, bem como em quase toda a sua obra.

Em Encontros Noturnos – desenho escolhido ao acaso, – há três figuras. Duas estão sentadas em bancos, enquanto a outra rompe a perspectiva na diagonal e deita a cabeça no colo da outra; enquanto a terceira apenas olha. Sarro anotou: desfalecido na noite dorme o cansaço do dia no colo doce do amor, que dá força e alegria para os que amam ou vivem na solidão, beijam na boca da noite, na luz escura da rua, amam nos leitos de pedra mulheres que não são suas. Sonham com os dias que o vento no tempo levou; não lembram mais das horas que o velho relógio marcou, em seus encontros noturnos, sob a luz do luar, contava no universo as estrelas a caminho, perdidas, à deriva, no espaço, sem terem onde morar.

É caso raro o desenho ser manifestação poética de um artista. A linha tem sido obra da razão, do controle, da lógica, da precisão e de refinamento. Ou seja, o desenho é obra do racional, mas não na obra de Adélio Sarro. Nela, o desenho surge através de pensamentos poéticos, como o poema inicial do texto acima: “Desfalecido na noite/ dorme o cansaço do dia/ no colo doce do amor”. Desenhar para Sarro é pura poesia.

Adélio Sarro 

2. A Estrutura da cor na pintura de Sarro

A cor afeta o coração e os olhos – física e metaforicamente – de um modo mais direto do que qualquer outro elemento da pintura. Na sua forma física elementar, a cor é uma sensação produzida nos bastonetes e cones da retina por ondas de luz de distintos comprimentos. No aspecto místico e poético, a cor pode oscilar entre uma palpitante e envolvente sensação de calor e uma fria e revigorante de luz e espaço. Apesar destes conceitos, é quase impossível definir a cor, pois ela carrega mistérios insondáveis.

O uso da cor na obra de Sarro demonstra o que se diz acima. Sarro trabalha com tênues azuis transparentes e líricos a dialogar com vermelhos palpitantes, solares, numa luta sem trégua, deixando a emoção do observador entre a poesia lírica das cores tépidas do azul e a dramática das cores fortes do vermelho. Entre tais cores, há uma gama sem fim de amarelos e verdes e lilases, que são produzidos a partir do fundo da tela, em camadas diversas e diversificadas, que vão trazendo a emoção do interior do inconsciente do pintor para o inconsciente do fruidor. A sua pintura é real e onírica a um só tempo. Sua técnica é plena de preciosismos, graças às transparências e às texturas rugosas; se nestas ressalta o drama, nas suas transparências surge o clima lírico e poético.

Para obter-se uma cor luminosa é preciso criar-se sombras. É o que faz Sarro com sua poética da cor, ora tensa e dramática, ora lírica e leve, de acordo com a exigência do tema. É preciso perceber que o pintor opera entre o sagrado e o profano. Ora exalta personagens do campo, ora pinta personagens bíblicos. Ao mesmo tempo, tais personagens podem ocupar o espaço de uma tela, ora as personagens podem preencher o espaço de um mural ou vitral. As técnicas do mural foram bem apreendidas pelo pintor brasileiro, já que não ficam a dever aos murais de Portinari ou aos dos mexicanos Orozco, Siqueiros e Rivera quanto à técnica, embora seus temas sejam mais religiosos do que os dos mexicanos, que são mais políticos. Há uma imensidão íntima nas telas de Sarro, que nos conduz ao devaneio. E o devaneio põe o sonhador para fora do mundo, diante de um mundo lírico ou dramático que traz a marca do infinito.

Adélio Sarro 

3. O espaço tridimensional na obra de Sarro

Os objetos escultóricos de Sarro possuem variantes: esculturas, relevos e painéis.  É importante perceber como o artista passa do risco do desenho para a forma tridimensional escultórica, ao criar um novo espaço de fruição. A composição das figuras se transforma e movimenta um espaço próximo de uma ordem quase simétrica na sua organização. Como não usa cor nesses objetos escultóricos, não há como emocionar pelo colorido, mas Sarro consegue criar uma forma cênica dramática, através dos gestos de suas figuras, com seus rostos singelos e uma dinâmica corporal extraordinária. Na escultura as personagens de Sarro ganham força dramática. As mãos e os pés enormes das figuras criam no espaço gestos radiantes e uma dinâmica que, a pintura não pode oferecer.

Os relevos de cimento nos dão a idéia de que mesmo com material rústico, Sarro realiza obra lírica e dramática, ao mesmo tempo, como se pode constatar em Felicidade Sonhada ou na Resposta da Vida, que fica no frontispício de sua casa, em São Bernardo do Campo.

Adélio SarroOs relevos de Sarro mantêm a tradição latino-americana dos grandes muralistas, como Siqueiros, Orozco e Rivera. Sarro, porém, vai mais longe, pois além de ter-se tornado artista global, realiza um dos monumentos religiosos mais plenos de fé na Basílica de N.S. Aparecida – os Passos da Paixão de Cristo. Há solenidade nessas personagens bíblicas, que exibem toda a sua majestade. E a arquitetura rústica do local, com tijolos à vista, traz mais força à tragédia da Via Sacra.

A grandiosidade das esculturas de Sarro é produto da simplicidade de seus temas, sempre a valorizar os mais pobres, os excluídos da sociedade e, para tanto, vê-se o amor que o artista dedica às suas personagens, gente que sofre, mas que não desiste da vida, e que procura na fé e na esperança mitigar esse sofrimento.

Podemos dizer que os objetos escultóricos de Sarro seguem a mesma linha de sua pintura, mas que tudo nasce da idéia inicial do desenho, que cria a composição libertária de suas personagens, ora poéticas, ora dramáticas ou ainda trágicas, tal e qual a vida. 

Alberto Beuttenmüller (Brasil, 1935). Poeta, crítico de arte e ensaísta. Autor de livros como Katatruz (poesia), Volpi, Ianelli e AldirTrês coloristas e Viagem pela Arte Brasileira. Atualmente, é editor do Jornal da ABCA, Associação Brasileira de Críticos de Arte. Contato: fredmuller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Adélio Sarro (Brasil).

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