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revista
de cultura # 43 |
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Julien Schnabel: "a arte me faz sentir vivo" Antonio Jr.
AJ
- Vive entre San Sebastian e Nova York, é casado com uma vasca e agora
expõe em Madri. Poderia ser considerado quase meio espanhol? JS
- Quem sabe? Conheci a Espanha nos anos 70, vinha da Itália de barco.
Passei por Ibiza e Barcelona. Fiquei impressionado com a alegria das
pessoas e sozinho, num hotel barato das Ramblas, surgiu a idéia de fazer
quadros com pratos quebrados, porque fiquei de boca aberta com os mosaicos
de Gaudí no Parque Güell. Mas nasci nos Estados Unidos, sou filho de um
judeu tcheco e gosto de pensar que a arte rompe fronteiras. Sendo assim,
deixo de ser um artista norte-americano ou um artista espanhol e passo a
ser somente um artista. Minhas experiências artísticas em diversos países
não se sustentam pela nacionalidade. AJ
- Filmou as biografias do pintor Jean-Michael Basquiat e do escritor
cubano Reinaldo Arenas. Por que tanto interesse pela vida de artistas
malditos? JS
- Gosto do risco de contar histórias de artistas geniais, originais e
marginalizados pela sociedade. E Reinaldo Arena não tem nada a ver com
Basquiat, apenas são artistas e personagens reais, porém viveram em
mundos completamente diferentes. Dediquei cinco anos de minha vida para
colocar nas telas a vida de Arenas. Queria revelar ao mundo o seu talento
e sentido de humor.
AJ
- Antes que Anoiteça foi muito falado, premiado, e tornou Javier
Bardem uma estrela internacional. O “lobby” homossexual ajudou muito
na divulgação? JS
- De certa forma. Eles ficaram muito contentes porque retrato a um
homossexual que não cai na caricatura. Estão cansados dos homossexuais
sem orgulho nem coragem dos filmes de Hollywood. Reinaldo era alguém com
uma grande humanidade. Isto me interessou mais do que fazer outro filme
sobre um homossexual. “Antes que Anoiteça” trata na realidade de um
ser humano visto com dignidade. Alguém que teve a coragem de atravessar
diversas circunstâncias sem render-se. AJ
- Declarou algumas vezes que não se interessa por política, mas “Antes
que Anoiteça” é um filme bastante político. JS
- Não é um dos meus temas favoritos, mas tampouco ignoro o que acontece
a minha volta. Não entendo porque existem seres humanos tão negativos, já
que formamos parte de um único mundo. Devemos aprender a perdoar e
compreender um ao outro. A vida não é justa, porém podemos criar um código
de conduta para nós e os demais. Isso ajuda a viver dignamente. Os
Estados Unidos, por exemplo, se converteu num país reacionário e nós
somos os culpados. É incrível como são incultas as pessoas que dirigem
o meu país. Mas toda arte é política, pois transmite uma série de
informações e provoca reações.
JS
- Sou o mesmo artista quando pinto ou dirijo um filme, a mesma pessoa
utilizando diferentes partes do cérebro. Não compreendo como as pessoas
acham estranho fazer mais de uma coisa de uma só vez. Um filme tem uma
narrativa, uma história; um quadro abriga os demônios do seu autor. Eu
acho que um filme, um quadro, ou um texto podem muito bem se relacionar
entre eles. Pintar e escrever são trabalhos solitários, já dirigir um
filme é uma questão de colaboração, de equipe. Gosto das três opções,
e creio que todo esse processo artístico me ajuda, me faz sentir vivo. AJ
- A exposição no Palácio de Velázquez exibe os seus últimos seis anos
como pintor… JS
- Ela estava em Frankfurt e agora em Madri. É um velho projeto. Eu queria
muito mostrar o meu trabalho para uma geração de jovens espanhóis que não
conhecem minhas obras. Minha ultima grande exposição em Espanha,
“Reconocimientos”, foi no final dos anos 80, no Convento Cuartel del
Carmen de Sevilla, um espaço abandonado preparado para a ocasião. É uma
das minhas favoritas. Sou um grande privilegiado porque a minha obra vem
sendo reconhecida em muitos lugares, e sem que eu perca minha meta, minhas
convicções. Nunca pintei por dinheiro, nunca fiz uma obra pensando que
ficaria bem na parede de alguém. AJ
- O que representa a pintura para você?
AJ
- Diz que gosta de ficar em casa, pintando, mas como, se é conhecido também
por sua intensa vida social? JS
- Não é verdade. Saio pouco, porém basta sair um dia para que montes de
fotografias sejam tiradas, enchendo páginas de revistas. Então todo
mundo pensa que vivo de festa em festa. Além disso, tenho muitos amigos
famosos, que conheci através de minha obra, e basta um encontro com um
deles para provocar resenhas na mídia. AJ
- Fale de Sean Penn e Johnny Depp, que trabalharam de graça para você em
Antes que Anoiteça? JS
- E também Al Pacino, Robert de Niro, David Bowie ou Christopher Walken.
Mas não me importa a fama. A única vantagem de ser uma celebridade é
conseguir uma boa mesa nos restaurantes. Sou apenas um personagem
singular, um tipo fora do sistema que conta com o apoio e a generosidade
de muitas estrelas. Vivo dentro do mundinho dos famosos há décadas e
conheço suas conseqüências. Fui muito amigo de Andy Warhol. Para mim é
um dos principais artistas do século 20. Ele estava muito além de seu
tempo. AJ
- Qual o seu próximo projeto cinematográfico? JS
- Chama-se “The Butterfly”. Falo
de um homem que sofre uma enfermidade e entra em coma, quando desperta está
imobilizado e só pode abrir e fechar um olho. Aprende a se comunicar com
esse olho e, dessa forma, é capaz de escrever um livro. É uma história
sobre a iluminação e a consciência pessoal. Quantas vezes estamos com o
corpo perfeito e não apreciamos, e até nos queixamos? Quase sempre. |
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Antonio Júnior (Brasil, 1970). Escritor. Autor de livros como O aprendiz do amor (1993), Caprichos (1998) e Artepalavra - Conversas no velho mundo (2003). A série de entrevistas que vem realizado com distintos nomes da arte e da cultura em todo o mundo encontra-se em El Gitano (www.elgitano.blig.ig.com.br). Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras do artista Julian Schnabel (Estados Unidos). |
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