revista de cultura # 43
fortaleza, são paulo - janeiro de 2005






 

Julien Schnabel: "a arte me faz sentir vivo"
(entrevista)

Antonio Jr.

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Julien SchnabelFamoso por suas telas vanguardistas, e aclamado por um público que vê nele um digno sucessor dos melhores pintores do expressionismo abstrato e da pop-art, o norte-americano Julien Schnabel não se acomoda na pintura, arriscando o seu talento em filmes biográficos como “Basquiat” (1996) e “Antes que Anoiteça” (2000), cujos criativos protagonistas são inadaptados socialmente, com vidas loucas e trágicas. Nascido em 1951, Schnabel fez sua primeira exposição individual em 1979, tornando-se um artista pouco convencional, com obras de grande tamanho, rompendo estilos, utilizando materiais diversos e oscilando entre o abstrato e o figurativo. Casada com a modelo espanhola Olatz López Garmendia, apresenta em Madri sua produção pictórica dos últimos seis anos. Nesta entrevista, falo do seu conceito artístisco, da idéia de um mundo melhor e dos filmes que realizou. [AJ]

AJ - Vive entre San Sebastian e Nova York, é casado com uma vasca e agora expõe em Madri. Poderia ser considerado quase meio espanhol?

JS - Quem sabe? Conheci a Espanha nos anos 70, vinha da Itália de barco. Passei por Ibiza e Barcelona. Fiquei impressionado com a alegria das pessoas e sozinho, num hotel barato das Ramblas, surgiu a idéia de fazer quadros com pratos quebrados, porque fiquei de boca aberta com os mosaicos de Gaudí no Parque Güell. Mas nasci nos Estados Unidos, sou filho de um judeu tcheco e gosto de pensar que a arte rompe fronteiras. Sendo assim, deixo de ser um artista norte-americano ou um artista espanhol e passo a ser somente um artista. Minhas experiências artísticas em diversos países não se sustentam pela nacionalidade.

AJ - Filmou as biografias do pintor Jean-Michael Basquiat e do escritor cubano Reinaldo Arenas. Por que tanto interesse pela vida de artistas malditos?

JS - Gosto do risco de contar histórias de artistas geniais, originais e marginalizados pela sociedade. E Reinaldo Arena não tem nada a ver com Basquiat, apenas são artistas e personagens reais, porém viveram em mundos completamente diferentes. Dediquei cinco anos de minha vida para colocar nas telas a vida de Arenas. Queria revelar ao mundo o seu talento e sentido de humor.

Julien Schnabel

AJ - Antes que Anoiteça foi muito falado, premiado, e tornou Javier Bardem uma estrela internacional. O “lobby” homossexual ajudou muito na divulgação?

JS - De certa forma. Eles ficaram muito contentes porque retrato a um homossexual que não cai na caricatura. Estão cansados dos homossexuais sem orgulho nem coragem dos filmes de Hollywood. Reinaldo era alguém com uma grande humanidade. Isto me interessou mais do que fazer outro filme sobre um homossexual. “Antes que Anoiteça” trata na realidade de um ser humano visto com dignidade. Alguém que teve a coragem de atravessar diversas circunstâncias sem render-se.

AJ - Declarou algumas vezes que não se interessa por política, mas “Antes que Anoiteça” é um filme bastante político.

JS - Não é um dos meus temas favoritos, mas tampouco ignoro o que acontece a minha volta. Não entendo porque existem seres humanos tão negativos, já que formamos parte de um único mundo. Devemos aprender a perdoar e compreender um ao outro. A vida não é justa, porém podemos criar um código de conduta para nós e os demais. Isso ajuda a viver dignamente. Os Estados Unidos, por exemplo, se converteu num país reacionário e nós somos os culpados. É incrível como são incultas as pessoas que dirigem o meu país. Mas toda arte é política, pois transmite uma série de informações e provoca reações.

Julien SchnabelAJ - Muitos criticam sua versatilidade. Não entendem como pinta, dirige filmes, escreve.

JS - Sou o mesmo artista quando pinto ou dirijo um filme, a mesma pessoa utilizando diferentes partes do cérebro. Não compreendo como as pessoas acham estranho fazer mais de uma coisa de uma só vez. Um filme tem uma narrativa, uma história; um quadro abriga os demônios do seu autor. Eu acho que um filme, um quadro, ou um texto podem muito bem se relacionar entre eles. Pintar e escrever são trabalhos solitários, já dirigir um filme é uma questão de colaboração, de equipe. Gosto das três opções, e creio que todo esse processo artístico me ajuda, me faz sentir vivo.

AJ - A exposição no Palácio de Velázquez exibe os seus últimos seis anos como pintor…

JS - Ela estava em Frankfurt e agora em Madri. É um velho projeto. Eu queria muito mostrar o meu trabalho para uma geração de jovens espanhóis que não conhecem minhas obras. Minha ultima grande exposição em Espanha, “Reconocimientos”, foi no final dos anos 80, no Convento Cuartel del Carmen de Sevilla, um espaço abandonado preparado para a ocasião. É uma das minhas favoritas. Sou um grande privilegiado porque a minha obra vem sendo reconhecida em muitos lugares, e sem que eu perca minha meta, minhas convicções. Nunca pintei por dinheiro, nunca fiz uma obra pensando que ficaria bem na parede de alguém.

AJ - O que representa a pintura para você?

Julien SchnabelJS - É algo mágico, libertador, porque as normas que regem o que acontece no mundo da pintura não são as mesmas que regem o mundo real. Na pintura não se tem limites, é algo incomum. É maravilhoso admirar uma obra e se sentir bem. Eu gosto de ficar em casa pintando ou tentando pintar. Me aborrece um pouco a vida cotidiana, e a arte me liberta das limitações do cotidiano. No mundo da arte tenho também uma certa responsabilidade com os jovens artistas que gostam de minha obra, não poderia mentir para eles. Portanto, pinto sempre o que sinto e tenho vontade. O que para muitos constitui uma ameaça, já que não aceitam inovações.

AJ - Diz que gosta de ficar em casa, pintando, mas como, se é conhecido também por sua intensa vida social?

JS - Não é verdade. Saio pouco, porém basta sair um dia para que montes de fotografias sejam tiradas, enchendo páginas de revistas. Então todo mundo pensa que vivo de festa em festa. Além disso, tenho muitos amigos famosos, que conheci através de minha obra, e basta um encontro com um deles para provocar resenhas na mídia.

AJ - Fale de Sean Penn e Johnny Depp, que trabalharam de graça para você em Antes que Anoiteça?

JS - E também Al Pacino, Robert de Niro, David Bowie ou Christopher Walken. Mas não me importa a fama. A única vantagem de ser uma celebridade é conseguir uma boa mesa nos restaurantes. Sou apenas um personagem singular, um tipo fora do sistema que conta com o apoio e a generosidade de muitas estrelas. Vivo dentro do mundinho dos famosos há décadas e conheço suas conseqüências. Fui muito amigo de Andy Warhol. Para mim é um dos principais artistas do século 20. Ele estava muito além de seu tempo.

AJ - Qual o seu próximo projeto cinematográfico?

JS - Chama-se “The Butterfly”. Falo de um homem que sofre uma enfermidade e entra em coma, quando desperta está imobilizado e só pode abrir e fechar um olho. Aprende a se comunicar com esse olho e, dessa forma, é capaz de escrever um livro. É uma história sobre a iluminação e a consciência pessoal. Quantas vezes estamos com o corpo perfeito e não apreciamos, e até nos queixamos? Quase sempre. 

Antonio Júnior (Brasil, 1970). Escritor. Autor de livros como O aprendiz do amor (1993), Caprichos (1998) e Artepalavra - Conversas no velho mundo (2003). A série de entrevistas que vem realizado com distintos nomes da arte e da cultura em todo o mundo encontra-se em El Gitano (www.elgitano.blig.ig.com.br). Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras do artista Julian Schnabel (Estados Unidos).

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