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revista
de cultura # 43 |
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Lucia Vasconcelos: Lisboa - a felicidade estranha da princesa Teresa Martins Marques
E
tu, nobre Lisboa que no Mundo
Na
China, o girassol é considerado tradicionalmente um símbolo de
imortalidade, dada a sua característica heliotrópica e a própria forma
da flor que “imita” o sol. Assim com o tropismo da memória em direcção
à solaridade, à luz da consciência, à preservação do vivido,
enquanto função vital do espírito, enquanto princípio identitário. A
cidade de Lisboa, enquanto espaço físico, mas também de experienciação,
torna-se espaço metonímico do sujeito, espaço de capital
importância à procura do tempo encontrado na luz e na sombra. O
epíteto de princesa, atribuído
a Lisboa, tem larga tradição literária, nomeadamente em Camões, citado
em epígrafe. A princesa simboliza a promessa dum poder supremo, a
primazia entre os pares. Mas simboliza também virtudes em estado
adolescente, que sugerem incompletude. Virtudes ainda não dominadas, não
exercidas. A princesa é mais a heroína do que a sábia, o que não deixa
de tornar interessante a leitura do qualificativo de estranhamento, logo a
partir do título em correlação com o tópico da felicidade. O título
descreve desde logo um círculo hermenêutico de compreensão ligando o início
com o fim, colocando o poema-chave do título no final do livro, em
associação de imagem com a escultura de Fernanda Fragateiro – a girafa
ao espelho (Parque das Nações). O que não deixa de ser curioso, pois, a
princesa Lisboa é dada, deste modo, por interposta girafa, em sugestão
vaidosamente narcisista, até um pouco autista, por virar as costas a quem
passa, o que não deixa de ser um olhar crítico, deste lado do espelho.
Diálogo promissor, inscrito neste interessante título, a que voltarei
mais adiante. Lisboa
é uma princesa vestida a branco e negro, como a fotografia do século
passado, ou como o desenho do olhar de Lucia, uma fotógrafa que não usa
máquinas digitais, não usa flash e assume o risco do negativo integral. A historiadora de arte
Ruth Rosengarten refere-se à circunspecção que se tem tornado como uma
espécie de assinatura da fotografia de Lucia, que pertence aos género de
fotógrafos que mantêm as distâncias, sendo isso evidente não apenas no
enquadramento e nos pontos de vista escolhidos, como também na
escrupulosa insistência em usar o negativo integral, que faz prova
material da distância mantida. Com efeito, o negativo integral tem de
ter, à partida, delimitado o próprio fim, isto é, a mensagem tem de
ficar, desde logo, esteticamente correcta. Lucia controla todo o processo
da fotografia revelando ela própria os seus filmes. Esta fotógrafa não
pretende fazer “postais” e o branco e o negro são as cores da essência
do que quer transmitir. Para ela, a fotografia é uma necessidade vital e
não se imagina a viver sem conseguir fotografar. Considera-a como um
desafio à morte dos seres e das coisas, na medida em que faz durar o que
por natureza é efémero. Assume este livro sobre Lisboa como uma recuperação
da cidade, dos cheiros da infância, do bulício ou da calma das ruas, dos
cantos e recantos da memória. As imagens vivem da sombra e da luz e a fotógrafa
faz a captura do instante fugidio do presente, “le
moment décisif “ como disse Cartier-Bresson. Fotografar é fazer a
iluminação do instante, enquadrar esse instante decisivo e pintá-lo com
luz. Captação do presente, que, porque logo passa, não passa de mera
abstracção, como escreveu Martin Walser: “
Enquanto alguma coisa existe, ela não é ainda o que um dia terá sido.
Quando alguma coisa já passou, já não somos aquele a quem ela
aconteceu.” Diz ainda Ruth Rosengarten: “Não
é novidade para ninguém que as fotografias mentem tanto quanto dizem a
verdade. Qualquer enquadramento, qualquer escolha de ponto de vista,
qualquer decisão acerca da abertura do diafragma ou da velocidade é,
simultaneamente, um acto de omissão, de exclusão. Isto em vez
daquilo.” Na mesma linha se inscreve o historiador Luís Farinha,
que nos diz sobre a fotografia: “Não
podemos ignorar o seu poder de sedução, o fascínio das emoções que
transmite e o perigo da verdade que esconde ou da realidade que
manipula.” A
fotografia, como todos os processos artísticos (ou mesmo críticos) não
foge à inevitabilidade da escolha decisiva, por ser ela mesma acto
interpretativo do mundo. Manuel Portela, autor do prefácio, intitulado «Fotografar
a Escrita da Memória», entende que “deste livro se poderia dizer que é uma autobiografia que tenta
fotografar a memória. Não a memória como documento do lugar, nem como
nostalgia da experiência passada, mas a memória como processo de
subjectivização no intervalo entre o vivido e a consciência do vivido.” Da
interacção livro/ leitor, enquanto fotografia dos instantâneos
do tempo, dão prova cabal as palavras de Manuel Portela: “Conjuro
o dia de ter estado ali quando as imagens latejantes escrevem em mim o ter
sido eu. Se o reconstruo assim é para melhor suster a sua chamada”.
, Convoquei o autor Francisco
Craveiro, para me ajudar a ler o título junto de outros leitores. No
verso “ O dia cai com os laços”
viu o ele uma alusão inversa da expressão “cai
a noite”. É ainda o autor que me esclarece a metaforização do
dia, na caixa que se abre, deixando cair os laços. A caixa com laços é
uma caixa-presente que se dá e
que se recebe. Por outras palavras, dádiva, partilha, momento de festa
com o Outro, imagem poética, que é simultaneamente pensamento e
sentimento, metonímia do próprio acto da leitura do texto ou das
imagens. Antevisão da beleza gloriosa do dia que nasce, a originalidade e
melancolia de “cair”, neste contexto, torna-se particularmente evidente, pois
que associa, por antecipação, o momento de abertura do girassol no verso
seguinte e de cujo heliotropismo tira o autor férteis consequências:
Observe-se
que este esquecimento não é visto como alienação, demissão, evasão,
erosão do sujeito face à realidade do mundo. Bem ao contrário, ele é
uma espécie de motor de busca
da felicidade, que permite ganhar alento para encarar o mundo, o inferno e
o inverno dos dias, a chuva e o vento das relações humanas, corroídas
pelos desenlaces do tempo. O movimento de abertura heliotrópica do
girassol não pode deixar de associar a alusão erotizada de um momento de
amor, nos braços da princesa da história, a felicidade do instante para
suprir, colmatar, compensar a morrinha dos instantes, que se alongam nos
dias. Adquirindo
esta princesa, no contexto do álbum, um valor simbólico acrescentado,
por se transportar a sua significação para a referencialidade de Lisboa,
não deixa ainda de ser deveras interessante a associação que, por essa
via, se estabelece feminizando ainda mais a cidade, aumentando o seu
potencial de simbolização. Ainda
no texto-pórtico Manuel Portela chama a atenção para a “camera
lúcida” “do real, onde a
história dos lugares e o registo do presente mostram que os objectos têm
uma vida própria”. Ou ainda neste outro passo: “Os
objectos deixam-se tocar pela luz para revelarem como a sua materialidade
se pode inscrever na memória. Os textos reclamam-lhes essa materialidade
por justaposição de indícios e vestígios”. Desta
justaposição constitui flagrante exemplo a associação estabelecida nas
pgs. 10/11: nada transmitiria melhor o claro-escuro da flor, a periclitância
da vida humana condenada ao perecimento, do que estes versos de Gastão
Cruz que Francisco Craveiro seleccionou: “A
beleza que deve então/ morrer/ dentro da alegria escolherá/ ruína terra
som melancolia” São,
pois, como diz ainda Manuel Portela,
“ficheiros de memória individual e colectiva que excedem o grão da
imagem e o grão da escrita. Instantâneos do tempo, arquitectados para se
interromperem mutuamente e para reverberarem para além daquilo que contêm”. No
texto que leu no lançamento do livro em Lisboa Francisco Craveiro
esclareceu-nos que “os textos que
acompanham as fotografias são autobiográficos, alguns num sentido próximo
de Novalis quando dizia que, quanto mais poético, mais verdadeiro”.
Assim com a primeira viagem a Lisboa, com uns onze anos espantados pela
grandiosidade da “catedral dos aviões”, os livros escolares da infância
expostos nas montras das livrarias e a imagem contrapontística do miúdo
pequeno e do grande pedagogo João de Deus, o poeta que definiu a vida (e
que eu tomo a liberdade de parafrasear) como sonho tão leve, nuvem que
voa e se desfaz como a neve e que como o fumo se esvai. Vida que dura um
momento, mais leve que o pensamento, vida que o vento leva, como uma folha
que cai. Do livro, da árvore, da vida. Como a de Manuel Hermínio à
transparência da pg. 8: “Foi R.
quem me deu a ler uma das suas últimas, se não a última, entrevistas.
Guardei o jornal durante meses. Durante anos hei-de lembrar-me da última
resposta: Que idade tem? 48 anos.” A
subtileza é, sem dúvida, a marca mais evidente desta escrita de
Francisco Craveiro, tal como o é também da sua poesia. Com uma fina
ironia, dá uma pincelada na frase transformando-a em leveza mordente,
densa de sentido. Eis um exemplo, entre muitos possíveis, colhido na p.
26: “Não gosto de livros em
segunda mão. Velhos podem ser. No entanto, abeiro-me sempre, curioso, das
bancas em pequenos mercados de rua, como neste sábado acidental em que
subo a Rua do Carmo. // Dedicatórias, autógrafos são vulgares,
relativamente. Mais raros, cartões ou cartas pessoais, dando sinal,
tristemente, de possíveis herdeiros apressados.”
A
memória literária, visível na alusão ou na citação, mostrando, sem
ostentação, a riqueza do universo cultural do autor, defendendo a contenção
poética (que pratica, como poeta): ”Devo a Sophia a descoberta, há muitos anos, de que grandes poemas se
podem escrever com muito poucos versos. Três, quatro, menos até.”
Francisco cita o exemplo retirado de Victor Hugo :”
L’ombre est noir toujours même tombant des cignes.” Em tradução
de Eugénio de Andrade: “É sempre
escura a sombra, até mesmo dos cisnes.” e o contraste sombra/luz da
imagem contígua, mais que o complemento, é a própria continuidade da
ideia que expressa. Como, nas páginas seguintes, o homem que viaja no
metro com uma incómoda bagagem desdobra
o autor a viajar com um desenho de Catarina Leitão e que constitui um
exemplo da saborosa ironia desta escrita: “Ao
almoço o desenho não pagou a conta, mas teve direito a mesa e
cadeira.”. A realidade e plausibilidades destas imagens desdobram-se
pela memória também em nós, leitores, em estranhas situações
(lembro-me particularmente de uma inquietante viagem no avião
Porto-Lisboa com uma serigrafia de Júlio atravancada à minha frente). E
o que é deveras surpreendente neste álbum é a afinidade interpretante
que se cria entre o texto e a imagem, constituindo uma realidade de dupla performance
criativa, a que apetece neologicamente apelidar textimagem,
numa tentativa de dizer a
interligação que o nosso olhar estabelece dos dois lados da página.
Observem-se, deste ponto de vista, as pp 154/155. Francisco Craveiro começa
por fazer uma evocação intratextual relativamente à página 108, sobre
um episódio de uma chave partida, que associa as chaves
num minuto do Areeiro, presentes na sua memória dos anúncios da infância,
lidos n’O Século. Veja-se
como é retomada, mais adiante: ”Foi
um pouco, um parecido espanto, como a história das chaves num minuto da Fábrica
do Areeiro. Devo ter tomado conhecimento desses anúncios por O
Século.// Não sei se a expressão
é usada ainda hoje ou se é apenas uma memória. Sê-lo-ia no fim dos
anos 50 e nos anos 60. Nessa obra que entra por Lisboa dentro, Gaivotas
em Terra, David Mourão-Ferreira
usou-a como título de uma das novelas.// (e Francisco Craveiro,
meticuloso e colaborante com o leitor, indica em nota: Casal
Venha Lisboa). Pois, tudo muda.
Em vez do enigmático Casal Venha Lisboa queira descansar umas horas
temos hoje, nos jornais, as loiras ou morenas esculturais, meigas ou
atrevidas, por detrás dum telemóvel.” Neste
texto não apenas se faz uma homenagem de dupla direcção (ao
escritor-David Mourão-Ferreira e a um livro centrado em Lisboa) como se
sugere a mutabilidade do mundo, a evanescência da memória da própria
linguagem, e também a falta de subtileza das relações humanas,
associando uma ironia fina de perda incomunicante, numa era em que tudo
parece telecomunicar (mas havendo pouco a comunicar). A foto escolhida
pelos autores para fazer pendant com
o texto é, justamente, um par de namorados, que, no Jardim de São Pedro
de Alcântara, olham em frente, encostados ao gradeamento. O rapaz está
de costas para nós, a rapariga de perfil, mostrando uma massa loira de
cabelo e um corpo escultural, em directa consonância com a representação
textual. Mas, coincidentemente (e isto os autores não podiam adivinhar),
é precisamente o Jardim de São Pedro de Alcântara que David cita amiúde,
como local privilegiado de namoro, nos textos inéditos do Diário
Íntimo. A
homenagem a Lisboa, que este livro representa, vê-se duplicada na citação/alusão
a autores que, por sua vez, homenagearam Lisboa. É ainda o caso de José
Rodrigues Miguéis, através da convocação dessa extraordinária figura
que é Dona Genciana (in Saudades Para a Dona Genciana), em associação à Pastelaria Suíça
(também focalizada no conto de Miguéis, intitulado Regresso à Cúpula da Pena). A alusão a Sintra é também a de Eça
em Os Maias, através da
personagem Cruges, a quem esqueceram as queijadas, transpostas agora para
os bolinhos de noz, no texto de Francisco Craveiro, o que potencia o nível
de significação do texto, por justaposição translúcida: “Bolinhos
desses, nozes era o seu nome, só da Suíça. E lá ia eu, fazendo ao
itinerário desvios inconvenientes, a encomenda sempre na cabeça. Nunca
havia muitos e havia sempre algum mistério sobre a sua origem:
Vêm de Sintra…” Exemplo
de flagrante frescura, como a de Dona Genciana na moldura da sua janela,
na Avenida Almirante Reis, nos começos da República será a auto-ironia
revelada no conjunto das pp.40/ 41: “Desço
a avenida, ao escrever lembro-me de D. Genciana embora fosse outra a
avenida, e entro na loja dos Museus. As canecas atraem logo a minha atenção.
Tenho dezenas. Stewart, há anos, disse-me qualquer coisa como: Há várias
explicações para o coleccionismo. Nenhuma é agradável.
Mas não hesito.”
Lisboa
- a Felicidade Estranha da Princesa -
constrói/cria/inventa beleza sobre imagens reais que, pela inevitável
subjectividade da focagem, se tornam simbolizações do próprio
pensamento e do sentimento, que por serem realidades estéticas são
constructos ficcionalmente dialógicos, intersubjectivos, plasmados numa
forma mista de arte, relação sinergética que é imagem com texto e
contexto da imagem. Aquilo que designei como textimagem e que será o equivalente ao que Manuel Portela considera
como motor poético da obra – “a
energia metonímica e metafórica condensada na relação entre as fotos e
os textos”. Folheamos
este álbum com a sensação de ir à procura do tempo encontrado nas
dobras da memória, na espuma dos dias que passam, no aro cintilante da
luz de Lisboa, na penumbra discreta do crepúsculo das casas, nos vultos
fugidios de sombras, nas ruas estreitas da vida desta cidade. No
tópico da felicidade está inscrita também a cidade nem sempre feliz,
feita de variações melancólicas, fruto da corrosão do tempo, mas que
desenham espirais de superação, construídas com imagens de momentos
decisivos, de palavras leves. E, sobretudo, de silêncios densos. É esta
a princesa estranha que, nas
fulgurações da memória, poderá valer a pena olhar. Para além das textimagens.
Para ver o invisível complexo, perplexo, reflexo que só alguns
vislumbram. NOTAS1 Lucia Vasconcelos, nascida em Lisboa, em 1936, filha de mãe polaca e de pai alemão, fez estudos especializados nesta área completando, em 1985, o plano de estudos do AR.CO, em Lisboa, onde foi professora entre 1988 e 1994 e frequentando também cursos de História de Arte, de Literatura e Línguas. Lucia Vasconcelos tem vindo a participar, desde 1982, em diversas exposições individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro. 2
Francisco José Craveiro de Carvalho, nascido em 1950, é prof. catedrático
de Matemática, na Universidade de Coimbra. Desde os anos setenta vem
publicando regularmente diversas recolhas poéticas . 3
A colaboração artística entre Lucia Vasconcelos e Francisco Craveiro
revela-se também em Da História às Imagens- A Fábrica da Pólvora da Barcarena 2002-2003,
onde Lucia se encontra representada, num trabalho fotográfico que
implica uma simbolização imaginística da canção de raiz popular «Ich hatt’einen Kameraden» em versão livre de Francisco
Craveiro. Segundo aponta Ruth Rosengarten, idêntica fonte foi utilizada
por Mahler na quinta canção Der
Tambourg’sell (O Rapaz do Tambor) do ciclo das canções Des
Knaben Wunderhorn. |
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Teresa Martins Marques (Portugal, 1950). Investigadora literária e professora (Ministério da Educação), é actualmente responsável pela organização do Espólio literário de David Mourão-Ferreira. Autora de livros como O Imaginário de Lisboa na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis (1994) e Leituras Poliédricas (2002). Contato: tmartinsmarques@clix.pt. Página ilustrada com obras da artista Lucia Vasconcelos (Portugal). |
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