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revista
de cultura # 43 |
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Estranhas experiências: Claudio Willer e a Geração Beat Lucila Nogueira
Os “novíssimos” voltavam-se para uma poesia que
valorizava as imagens, a musicalidade, a leitura em voz alta dos poemas em
recitais onde os poetas consagravam sua dimensão pública. Trabalhavam a
fusão do gênero lírico à prosa de ficção, herança do Rimbaud de
“Iluminações” e “Uma temporada no inferno”, processo
anteriormente denominado “poesia em prosa” por Baudelaire,
referindo-se às sua crônicas e narrativas curtas, assim como na face
transversal Lautréamont viria a chamar de ”Poesias” às suas reflexões
dialogais com diversos autores. Estavam estes autores paulistas no outro
lado das propostas cerebralistas e figurativas teorizadas, por exemplo, em
nosso país, pelos ditos concretistas, os quais, na visão de um antigo crítico,
“para salvar a poesia, acharam necessário destruí-la”. A tendência
a uma enunciação de teor lírico, marcada pela experiência vital, foi
confundida com facilidade e descuido pelos que se obstinavam no excesso de
rigor formal e na celebração obrigatória do novo; “ostinato rigore
x make it new” - essa fórmula, satisfatoriamente realizada por um
poeta, por exemplo, como João Cabral, não iria resultar bem acabada
quando expressa por alguns outros, nos quais instalou-se um vazio
expressional e de idéias, epígonos cabralinos a repetir os cacoetes em
que conseguiram transformar a lírica Valeryana do pernambucano, marcada
de certa forma pela contenção e razão cartesianas. Essa criação literária
contida e raciocinada com certeza se opunha à escrita automática
delirante e espontânea do poema surrealista. A linha Baudelaire/Lautréamont/Rimbaud
primava pelo irracionalismo articulando revolução
social e rebelião individual,
desejando não só transformar a
sociedade como também mudar a
vida, situações que ao invés
de antagônicas, resultam de fato, como efetivamente o foram,
complementares e dialogais. Por outro lado, importa lembrar Lautréamont/Rimbaud sob o
signo da aventura literária, a provocarem assombro e escândalo pela
exemplaridade artística da transgressão, esta notoriamente contrária à
literatura de gabinete acadêmica e conservadora, dissociada da vida em
sua força oceânica e imprevisível. A geração beat
americana, como lembra o poeta Claudio Willer foi, em primeira instância,
literária: “Ginsberg,
Kerouak, Burroughs, Corso, foram leitores vorazes; por isso tornaram-se
escritores e outsiders.
Chocaram-se com o academicismo formalista dominante no ambiente universitário,
de extração eliotiana. Em matéria do ensino e crítica assépticos, sob
orientação cientificista, submetido às regras do bom comportamento
literário, pode ser que tenhamos retroagido, e a crítica beat
ao formalismo e ao bom-mocismo literários seja, hoje, mais atual
ainda”. [1] O legado beat e
da contracultura no mundo de hoje é reiterado pelo mesmo autor em outra
entrevista: “Quanto ao legado beat
e contracultura, ele existe e é decisivo. Comparando-a com a década de
50, vivemos hoje em uma sociedade mais aberta, menos repressiva, com maior
liberdade no plano da conduta individual, da sexualidade, maior respeito
pela diferença e interesse pela diversidade e multiculturalismo. A beat
e contracultura foram determinantes dessa abertura da sociedade
burguesa”. [2] É
assim que deve ser feito [Claudio Willer, in Jardins da Provocação] A busca apaixonada do prazer passa a caracterizar uma
juventude voltada às mais variadas formas de hedonismo o que vem detonar
uma revolução sexual ao som de muito rock em cenário de velocidade
psicodélica. A liberdade de expressão da beat
generation vai permitir a
expressão de tendências à margem e sua criatividade será
essencialmente literária embora atue como fonte da contracultura e do
movimento hippie. Atraída pelo prazer das imagens radicalizadas e também do
sexo, essa juventude reclama a abolição do dinheiro, critica a sociedade
de consumo e parte para a aventura dos caminhos geográficos e interiores
imbuídos de um orientalismo favorável à expansão da consciência.
Preferem ao princípio da realidade o princípio do prazer e diante da
civilização opressiva, combatem o imperialismo, a pobreza, as
desigualdades raciais e sociais, desenvolvendo uma nova sensibilidade política. Esse culto ao erotismo e direito ao prazer, o amor pela
vida e o lugar privilegiado do corpo desencadearam uma libertação
coletiva nos anos sessenta constituindo-se essa revolução sexual num fenômeno
de massa em uma época onde não havia aids,
conseqüentemente o livre exercício da sexualidade não oferecia risco.
Além disso, a nudez perde os bloqueios que a cercavam, pois libertos de
suas inibições, os jovens começam a gostar de mostrar seus corpos e de
ver os dos outros, tudo levando a uma visão de mundo que reforçava a
importância do prazer. E então, o corpo oprimido desde a culpabilidade do
“pecado original”, vai resgatar sua inocência primitiva, dissolvendo
o maniqueísmo da antiga ordem fundada sob a dicotomia corpo x espírito.
Reivindica-se uma liberdade individual total e as mulheres vão ser
favorecidas pela difusão das pílulas anticoncepcionais, podendo assim
dispor do uso de seu corpo, dissociando o ato sexual propriamente dito do
aspecto familiar e social da procriação. Dá-se uma apologia do erotismo
e a condição da mulher se reveste de novos caracteres destacados pelo
surgimento do movimento feminista, com repercussão nas áreas econômica,
política, universitária. Essa revolução sexual que acompanha a
contracultura, constitui um dos elementos que ainda tem grande impacto na
sociedade contemporânea, demarcando mudanças no âmbito da moral
tradicional e dominando uma crise de valores em que se resgata o hedonismo
em uma perspectiva pagã e pré-cristã, na qual a satisfação sexual é
obtida acompanhada de um sentimento de participação em um culto que
transcende o indivíduo e o prazer por uma mediação, ingressa de modo
sagrado na esfera da vida cósmica. O alargamento do corpo individual
torna o homem senhor de si e do universo, habilitando-o à consolidação
do corpo social; no excesso e na dissolução, o corpo inteiro se restaura
enquanto tal - trata-se de uma nova relação que se torna objeto de função,
atestando o retorno ao dionisíaco através da prática cotidiana. Retoma-se a magia do sexual e o fantástico do erótico em
um contexto social já bem distante daquele século XIX envergonhado pela
condenação de Baudelaire pelas “Flores do Mal” que conduziam à
excitação dos sentidos de um modo ofensivo ao pudor; na verdade, o que
fez Baudelaire foi associar o erotismo à melancolia e à inquietação
metafísica; de qualquer forma, já naquele século surgiu a tradução
inglesa do sânscrito do Kama Sutra (1883) além do Ananga-Ranga, dois
anos depois - isso vai influir na emersão do erotismo inglês (Swinburne,
Sellon Potter) até o surgimento do americano: por causa do decreto de
1842, proibindo a chegada das obras eróticas vindas da Inglaterra, os
americanos passaram então a produzir as suas; entre eles George Thompson.
Na França, surge o naturalismo de Zola e Maupassant; a seguir, o
movimento anarquista vem reivindicar o amor livre. Nos Estados Unidos num
futuro não muito distante, vão surgir Henry Miller e Anaïs Nin, esta última
autora também de um ensaio sobre D. H. Lawrence cujas obras representam a
glorificação do corpo, o caráter sagrado da carne, havendo, no entanto,
sido proibida a venda na Inglaterra e nos Estados Unidos quando da publicação
(1928) o volume O Amante de Lady Chatterley; apesar de doente D. H.
Lawrence o defendeu bravamente: “Eles (os censores) tem a doença cinzenta do ódio ao
sexo… eles consideram o sexo um segredinho sujo que deve ser cultivado
às escondidas”. [3] […] “Quero que homens e mulheres sejam capazes de pensar as
coisas sexuais plenamente e completamente, honestamente e claramente.”
[4] De modo que os poetas das vanguardas que iniciaram o século
XX fortaleceram o erotismo em sua dimensão universal; dizia Apollinaire
que não se conhecia maior coragem em um escritor do que exprimir com
liberdade o domínio dos costumes; Robert Desnos definiu o erotismo como
um retiro espiritual, uma ciência individual contendo questões secundárias
que cada um resolve a seu modo, e questões eternas que somente a poesia
determina. [5] Considerando o amor “puro e licencioso no absoluto”,
Desnos e seus companheiros surrealistas vão preferir o erótico-velado, a
nudez jogo de claro-escuro, coisas sugeridas em coisas caladas - são eles
André Breton, Paul Éluard e René Char; outros surrealistas cultivaram a
expressão direta dos fatos sexuais em publicações clandestinas, como
Aragon (1928); um filósofo como Georges Bataille consagra um ensaio ao
erotismo (1957) e Benjamin Péret produz o primeiro romance erótico em
escrita automática, redigido em 1928 e publicado em 1934. Henry Miller
começa Trópico de Câncer aos quarenta anos (1934); suas confissões
eróticas de língua inglesa narram sua própria sexualidade e a odisséia
amorosa do homem sozinho nas grandes cidades tipo Paris e Nova Yorque:
Lawrence Durrel considera esse livro o manual de sua geração; a seguir,
surgem Trópico de Capricórnio, Sexus, Nexus e Plexus,
tornando-se o iniciador dos americanos que quiseram, depois dele, tratar a
fundo a sexualidade. Sua marca é nítida em Norman Mailer, John Updike e
Kirby Doyle; há quem diga haver influenciado mais a geração beat
do que o poeta caminhante Walt Whitman (1819-1892). nossos
corpos participantes de estranhas reuniões em clareiras sob a lua cheia [Claudio Willer, in Jardins da Provocação] Observe-se que, assim como Henry Miller, Claudio Willer nos
passa a impressão de escrever sobre si próprio. Ele procede
esteticamente de modo próximo ao escritor norte-americano o qual nos
enumera diante dos olhos personagens espantosamente reais, desde a sua
mocidade no Brooklyn até Nova York e os tempos de Paris, restaurando
dessa forma a importância literária de uma vida
múltipla e da narrativa da
experiência, muito especialmente as cenas de amor descritas com um
lirismo salmódico permeado de palavras cruas a formar uma tensão erótica
que prenuncia o universo underground
da beat generation, inclusive pela velocidade tanto das imagens como
das sensações e acontecimentos. Assim também como Walt Whitman, Willer fala em versos
longos e sem medida fixa, na tradição do autor de “Canto a mim
mesmo” que afirma um discurso poético marcado de oralidade, sendo
considerado por seu caráter andarilho o primeiro beatnik
(“Eu canto a mim mesmo” / ”Eu canto o corpo”/”a vida plena de
paixão”). Leia-se Willer: nossos
corpos entregues a um êxtase canibal [Claudio Willer, in Jardins da Provocação]
Segundo Kierkgaard o intelecto não é suficiente para dar
ao homem o conhecimento de si mesmo e sua existência como um corpo vivo -
esse ponto de vista está refletido na obra da beat
generation, especialmente na de Kerouac e Salinger - sem esquecer a
prosa inglesa dos Angry Young Men
(1951), como John Osborne (1930) e Colin Wilson (1913), este último autor
de “O Inconformista” (“The
Outsider”, 1956) e o primeiro expressando em “Recordando com
Ira” seu agnosticismo, seu anti-monarquismo e sua aversão às várias
formas do establishment britânico. Ao tempo em que os ingleses de 50 se
insurgem contra o sistema de seu país, os norte-americanos dessa mesma época
protestam contra o american way of
life, postura que já tinha nos EUA uma ascendência ilustre: o
mencionado Walt Whitman e Henry David Thoreau (1817-1862), autor de
“Walden, ou a Vida nos Bosques”, bíblia naturalista precursora do
movimento ecológico, a alertar o homem para o perigo da preocupação
excessiva com o dinheiro, o conforto material e que vem ensiná-lo a
redescobrir a terra e a natureza, as árvores, os rios, as estrelas, assim
como princípios da sabedoria oriental; Thoreau escreveu também “A
Desobediência Civil” (“quando o funcionário desiste de aplicar a lei
está consumada a revolução”) ensaio sempre relacionado à resistência
passiva de Gandhi, qual se fora seu evangelho político. Também Herman Melville e Henry James vão se caracterizar
como moldes a seguir: Henry foi o primeiro a caminhar até a Europa,
servindo de exemplo 50 anos mais tarde a Hemingway, John dos Passos, Scott
Fitzgerald, Gertrude Stein, Ezra Pound, E. E. Cummings e outros a que se
deu o nome de “geração perdida”. Autores como Guillermo de Torre [6]
consideram essa “geração perdida” como antecessora da geração beat
americana de Kerouac, Ginsberg, Corso, Ferlinguetti. E entre uma e outra,
é que encontramos uma terceira, integrada por nomes como Norman Mailler,
Saul Bellow, J. D. Salinger - cita Guillermo ainda uma geração
posterior, a de 1960, com Bernard Malamud, John Updike, Katherine Anne
Porter. Os autores da beat
generation não vão abandonar já o seu país: vagabundeiam
livremente de um extremo a outro da América e sua emigração se faz no
tempo - e não no espaço - mergulhando no budismo zen; entretanto, mantém
a tendência de andarem em grupos: descendem
verdadeiramente do confessionalismo de um Henry Miller, pretendem atingir
os delírios de um Antonin Artaud, praticando quase o amoralismo de um
Genet na submersão no labirinto que caracteriza um Samuel Beckett.
[7] A relação entre the
angry young men e a beat
generation foi analisada por Gene Feldman e Max Gartenberg. Os beat arremeteram no misticismo zen e na sensualidade; a diferença
talvez residisse em que os ingleses procuram uma conexão com a sociedade
enquanto que os norte-americanos tenderiam a um libertarismo anárquico
que recusa a ordem estabelecida sem a elaboração racionalista de um
programa, por se considerarem fora do que chamam “mentira social” (além
de out siders, também out laws). agora [Claudio Willer, in Jardins da Provocação] Uma relação direta da poesia de Claudio Willer com a beat
generation se complementa historiograficamente quando da sua tradução
de o “Uivo”, de Allen Ginsberg, cujo autor representa ao lado de
Burroughs e Kerouac a pirâmide referenciada quando se estuda esse
movimento. Há quem considere o poema como o maior protesto da geração beat;
assim como Baudelaire traduziu Edgar Allan Poe ao público francês,
Claudio Willer entregou a poesia de Allen Ginsberg ao leitor brasileiro;
isso em 1984, um ano após nos oferecer, pela mesma editora L&PM, os
“Escritos de Antonin Artaud”. O poeta americano escrevera esses versos
durante a estada de seu amigo Carl Salomon em um hospital psiquiátrico; o
“Uivo” critica o modelo de vida nos EUA e o fracasso de uma geração
inteira que desejou mudar alguma coisa. Em 1967, Claudio já traduzia
Ginsberg para leitura pública, vindo apenas a publicá-lo em 1984. É
claro que o ato de traduzir, não se tratando de encomenda ou obrigação
editorial, já traz em si algo de afinidade, de magnetismo, ímpeto de
tirar o véu das significações. Significa que o autor original está
sendo estudado; sua poética, sendo desvendada; sua crítica, sendo lida e
analisada. Não foi diferente a já mencionada tradução de Poe por
Baudelaire, que iria fundar radicalmente na Europa o início da
Modernidade. Traduzindo o poema de Ginsberg para o leitor brasileiro,
Claudio Willer fez com que pudéssemos participar ao menos
intelectualmente da abertura de consciência proporcionada pela beat
generation e incorporar o percurso ético e estético das suas
conquistas. Esse trajeto de Willer como tradutor já havia sido
iniciado quando difundiu em 1970, pela Editora Vertente de São Paulo os
“Cantos de Maldoror”, de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont
(1846-1870); no prefácio, o poeta brasileiro assinala o centenário da
morte do poeta uruguaio, mas nega à difusão do seu texto em português o
caráter laudatório habitualmente feito por outros tradutores, nessas
circunstâncias, para efeito de um “verniz da respeitabilidade acadêmica“
ou mesmo “redução a peça obrigatória de museu”. Willer conecta Lautréamont ao romantismo e a Rimbaud,
Baudelaire, Poe e Nerval, mas destacando ser o escritor uruguaio o mais
radical e também a sua modernidade, inclusive pelo tom confessional e
coloquial, além de uma espécie de consciência premonitória: “somente
mais tarde, quando certos romances tiverem aparecido, compreendereis
melhor o prefácio do renegado de aparência fuliginosa”. (sexto canto,
primeira estrofe) - daí ressaltar Willer que essas palavras se dirigem a
qualquer leitor de cem anos depois, já ultrapassada a desmitificação da
retórica tradicional e havendo sido complementada o “transformar a
sociedade” (Marx) com o “modificar a vida” (Rimbaud). De modo que a leitura da edição brasileira de Lautréamont
marcou novo rumo na sensibilidade de um grupo bastante representativo da
nossa poesia contemporânea. Já na orelha do volume ilustrado por
Maninha, Livio Xavier creditava ao uruguaio, junto com Baudelaire e
Rimbaud, a inovação da poesia moderna; na contracapa, citação de André
Gide (“ele é, como Rimbaud, o padrão para aqueles que surgirão na
literatura de amanhã”) e Antonin Artaud (“tiveram que calar
Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval e o inconciliável Conde de Lautréamont.
Pois tinham medo de que a poesia deles fosse capaz de saltar fora dos
livros e deixar a realidade em completa desordem”). Observe-se
que, um século após a sua partida deste mundo, Lautréamont é traduzido
no Brasil pelo mesmo poeta que traduzira o
beat Allen Ginsberg ; este último a ele sempre se dirigia como dear translator friend . Em 1986, com ilustração de Carlos Clémen,
sai pela editora Max Limonad (São Paulo) uma outra edição dos “Cantos
de Maldoror” (dois anos após a tradução do “Uivo” publicada no
Brasil). Nela, Willer republica o prefácio da edição anterior acrescido
de dezesseis notas; observa-se existirem modificações no próprio texto
da tradução. Já em 1997, pela Editora Iluminuras, Willer novamente
publica os “Cantos”, acrescidos de Poesias I e II, Cartas
e um depoimento de Paul Lespés (que conheceu Lautréamont pessoalmente)
mencionando as edições originais utilizadas. O antigo prefácio é
desdobrado em estudo mais detalhado com 86 notas explicativas, numa
abordagem intercultural e ideológica mais definida, inclusive no que
concerne às questões ligadas a estudos sobre o gênero (homoerotismo)
intertextualidade, bilingüismo e busca metafísica de identidade; as
anteriores 16 notas dos Cantos passam, na terceira, a 59, o que demonstra
naturalmente evolução a um conhecimento muito especial, pelo tradutor,
quanto ao texto literário traduzido. “Éramos uma câmara de ecos de poesia, e prosa, e
filosofia. Dois ângulos ou duas perspectivas para apreender o que vem a
ser liberdade de expressão e criação: as leituras sincrônicas, quase
simultâneas, de Os Cantos de Maldoror de Lautréamont e de Uivo e Kaddish
de Ginsberg. Se havia quem escrevesse daquele modo, então tudo era
permitido.” […] “Houve uma intervenção afortunada do acaso objetivo, ao
ser convidado para selecionar, traduzir e prefaciar autores especialmente
significativos para mim: Lautréamont. Ginsberg, Artaud.” [8] Lendo e traduzindo autores que marcaram a literatura como
emblema de rebeldia, não poderia ser muito diferente, entre nós, a
poesia e o perfil intelectual de Claudio Willer. Lautréamont, Ginsberg, Artaud: no prefácio à tradução
dos Escritos deste último (L&PM, Porto Alegre, 1983 - Escritos de
Antonin Artaud, Coleção Rebeldes e Malditos) Willer procura dar uma visão
ampla do singular intelectual francês, divulgando cartas, manifestos,
textos sobre teatro, poemas e ensaios do marselhês descendente de gregos
que, nascido a 1896, desde criança teve problemas neurológicos,
meningite, convulsões, primeiro internamento aos 19 anos, começando a
tomar láudano aos 24, para aliviar suas dores de cabeça. Em Paris, em
1920, Artaud é introduzido na vida cultural francesa por um tio produtor
teatral e por seu próprio psiquiatra M. Toulouse, trabalhando de início
como ator - foi o Tirésias na “Antígona” de Cocteau e atuou no
cinema sob a direção de Abel Gance e Fritz Lang. Sua obra completa como
escritor são 16 volumes pela Gallimard e apesar de sua expressão
preferida serem as cartas, considerava-se, em primeira instância, um
poeta. Participou do surrealismo de 1924 a 1926 e rompeu com o movimento,
junto com Resnos, Soupault, Vitrac e outros por ocasião da adesão ao
marxismo; dedica-se ao teatro Alfred Jarry e traduz “The Monk” de
Lewis (1931) obra de horror gótico dita por Breton como precursora do
surrealismo. Claudio Willer destaca que então Artaud decide trocar
o texto pela vida e vivenciar pessoalmente a realidade mítica que
tanto o fascinava e que era tematizada na sua obra: vai ao México estudar
o ritual do peyote entre os índios Tarahumaras; escreve posteriormente
sobre essa experiência e publica sob o pseudônimo “O Iluminado”,
“Les Nouvelles Revélations de L’Être” inspirado no Tarot e na
Cabala. Convidado a uma conferência na Bélgica, a uma certa altura
Artaud abandona o texto e passa a
encarnar o assunto de que trata, em vez de discorrer sobre ele. Viaja
em 1937 à Irlanda com sua “bengala mágica” e torna à França preso
em uma camisa-de-força. Passa 9 anos em hospícios vários até chegar a
Rodez, por atuação de Robert Desnos, onde é melhor tratado apesar da
aplicação de eletrochoques. Breton, Picasso, Camus, Sartre e outros
fazem uma mobilização para retirá-lo de Rodez e garantir a sua subsistência:
ele passa a residir na clínica de Ivry como paciente voluntário e não
mais como internado compulsório, vindo a morrer no mesmo quarto onde
morrera Gérard de Nerval, sobre quem escreveu belo estudo, assim como
sobre Van Gogh. Willer lembra que, enquanto viveu, os textos de Artaud
foram publicados em pequenas tiragens e lidos apenas por uma minoria de
intelectuais esclarecidos. Sobre sua morte, as possibilidades de câncer
no reto, overdose de heroína e morfina, ou suicídio. Depois dela, no
entanto, as propostas de Artaud sobre teatro são práticas correntes,
sobretudo o primado do gestual e
da expressão corporal, bem como das
formas de comunicação não verbal e ruptura entre palco e platéia.
Willer ressalta que manifestações tipicamente de vanguarda como o happenning, a performance e a body
art (quando o artista se põe no lugar da obra encarnando-a) têm em
Artaud seu interlocutor: salienta, ainda, o poeta paulista que, para
Michel Foucault, autor de “História da Loucura”, Artaud virou pelo
avesso as relações entre criação e loucura, porque a partir dele não
são as várias obras dos loucos e malditos que precisam se justificar
diante da psicologia, mas esta que passa a ter que se explicar diante
daquelas. Além disso existe um pensamento sobre a linguagem e sua relação
com o corpo e a consciência, a partir da obra de Artaud, que se constitui
referência fundamental para os estudos mais avançados no campo na linguística,
da semiologia e da semiótica. Juntamente com Lautréamont, Artaud passa a
ser cultuado pelos que se agruparam em redor da revista francesa “Tel
Quel”, como Júlia Kristeva, Philipe Solers, Jaques Derrida.
“Quero que os poemas de François Villon, de Charles
Baudelaire, de Edgar Poe ou de Gerard de Nerval tornem-se verdadeiros e
que a vida saia dos livros, das revistas, dos teatros… para captá-la e
passando-as ao plano dessa intensa magia do corpo, desse transbordamento
uterino de alma a alma que, corpo por corpo e fome de amor por fome,
libere uma energia sexual enterrada sobre a qual as religiões jogaram a
excomunhão e o proibido”. [9] […] “Essa é a voz sobre a qual a poesia se funda: somente
fora da página impressa ou escrita é que um verso autêntico pode ter
sentido”. [10] Escandir, recitar, declamar é dar relevo ao corte das
silabas e unidades métricas, produzindo o que a poesia escrita não é
capaz de dizer: escandir consiste em encenar
o texto poético, fazendo-o respirar por si mesmo, desejo de capturar
a palavra em seu nascimento, antes do próprio sentido que ela carrega.
[11] Chegar láE
agora, quero a palavra reduzida ao simples gesto de agarrar alguma coisa,
pura denotação, linguagem-referência, mão estendida apontando para
esses pedaços de realidade - ou então a festa com todos os seus
fantasmas sentados no sofá de absinto enquanto sangram os dedos da memória,
tudo verdadeiro no limite do que possa ser verdade, o caderno escrito de
trás para diante e o livro lido a partir da última página, e também
poderia falar das nuvens de vapor e cortinas de fumaça nos quartos, e
narrar a história completa das febres tropicais - porém só nós dois
fomos capazes de nos mover nesse plano intermediário em que realidade e
sonho se confundem, tocados pela sugestão de outra cena ou situação.
Essência, é esse o nome da nossa transação. Essência, essência! -
grita a legião dos Irreais desde o bojo de sua existência provável. Essência,
o verdadeiro nome do jogo de mutações”. [Claudio Willer, in Estranhas experiências] Essa “língua perdida” ressurge para Artaud no momento
em que traduz “Israfel” de Edgar Alan Poe, ao fazer ecoar em francês
a voz do anjo em uma dicção capaz de acordar o que pulsa sob o texto
escrito, através do processo do “sortilégio”; um escritor nasce, de
certa forma, de seus antecedentes escolhidos (Gérard de Nerval, Lautréamont,
Baudelaire) e assim observa-se que ao traduzir “Israfel”, Artaud se
empenha em uma versão de sua própria poética: ele se torna poeta sob o
impulso de diversas poéticas que tem em comum o fato de modificarem o próprio
regime da língua francesa. [12] Clarividência sobrevivente do sofrimento de eletrochoques
magnéticos e metafóricos, Artaud foi mais uma vítima da vulgaridade que
considera mentalmente doentes aos gênios e aos visionários. Buscava a
linguagem da sensibilidade anterior à linguagem conceitual, na linha
já proposta por Nietzsche que esta última seria a mais imprópria para
exprimir a existência do mundo por se tratar de uma simples metáfora: daí
o privilégio da musicalidade oral. A recuperação da gênese processual
de si mesmo, com a linguagem gestual e corporal: Artaud canta seu corpo e
despreza os códigos gramaticais que sufocam a linguagem questionando as
instituições: família, religião, Universidade, Estado, polícia,
asilos psiquiátricos - tanto os aparelhos repressivos como os ideológicos
do Estado, aos quais iria se referir Althusser. Ele descobre nas formas não faladas da expressão dramática possibilidades
criadoras desconhecidas, deseja um teatro de transe como o balinês,
danças de possessão como os ritos brasileiros descritos por Roger
Bastide (macumba, candomblé). Sartre aproxima o happenning
do Teatro da Crueldade de Artaud só que o primeiro tende a não comportar
nenhum dirigismo, celebrando a desordem como união coletiva, enquanto o
segundo costuma ter um tema proposto e tudo é calculado precisamente.
[13] Jogos
de verão alva
flor incorporavam-se
ao espaço noturno […] inquietos
dentro do verde [Claudio
Willer, in Dias circulares] Havendo participado da dança do peyote entre os
Tarahumaras, Artaud se posiciona contra a lei que proíbe tomar-se substâncias
alucinógenas declarando que a proibição aumenta seu consumo, o qual,
segundo ele, poderia ser proveitoso para os que estão ligados à
medicina, ao jornalismo, à literatura. [14] As experiências de Artaud
tinham precedente nos estudos de Ludwig Lewin(1886) e Havelock Ellis,
tratando de isolar a mescalina, princípio ativo do peyote que
verificava-se ter o poder de modificar a percepção. Posteriormente o escritor inglês Aldous Huxley experimenta
o cacto na primavera de 1953, escrevendo “As portas da percepção”
(1954) e “Céu e inferno” (1956), destacando o uso da planta pelos índios
em um contexto visionário e místico. Aliás, já em 1951, o antropólogo
romeno Mircea Eliade, em seu livro “O xamanismo e as técnicas arcaicas
do êxtase”, fizera uma descrição do transe e viagem iniciática dos
índios americanos com farta utilização de tabaco e a bebida de uma
infusão preparada com um cipó em forma de escadas. Dando continuidade
aos estudos sobre o peyote, vamos ter ainda o antropólogo brasileiro
Carlos Castaneda :Carlos Aranha, paulista que passou a infância em
Juqueri ,sobrinho de Osvaldo Aranha, conforme entrevista à revista Veja
em 1975 - ele travou conhecimento com um índio curandeiro que atuou
como seu mestre, no deserto mexicano de Sonora, de 1961 a 1965 e publicou
suas experiências com o cacto em “Os ensinamentos de Don Juan”(1968)
em vários livros que marcaram bastante a ideologia da contracultura e são
lidos até hoje.
“Yage é uma
viagem espaço-tempo. O quarto parece sacudir e vibrar com movimento. O
sangue e a essência de muitas raças: negros, polinésios, mongóis da
montanha, nômades do deserto, índios, raças por nascer e combinações
ainda não descobertas passam através do meu corpo. Migrações, incríveis
viagens através de desertos, florestas e montanhas…” [15] […] “Em dois minutos, uma onda de tontura me arrebatou e a
cabana começou a girar. Era como cheirar éter ou quando você está
muito bêbado, deita-se e a cama gira. Brilhos azuis passavam em frente
aos meus olhos.” [16] […] “No Putomayo, os índios cortam a trepadeira em pedaços
de vinte centímetros usando pelo menos cinco pedaços por pessoa. Os pedaços
são triturados com uma pedra e fervidos com dois punhados de folhas de
uma outra planta, identificada por alguns como ololiqui. A mistura é
fervida durante todo o dia com um pouco d’água…” [17] Sete anos mais tarde, Ginsberg, o destinatário das cartas
de Burroughs, também viria à América do Sul (1960) e escreveria ao
amigo sobre sua experiência com a ayahuasca, misturada com outra folha
chamada cahua na língua indígena
e chacruna, na cidade peruana de
Pucallpa. O curandeiro (ou mestre) já ouvira fala do peyote e era
especializado em curas físicas. Em resposta, diria Burroughs a Ginsberg:
“Não teorize: experimente”. [18] A alteração da consciência
proporcionada pelas plantas cultivadas pelos índios do nosso continente
com certeza desdobrou a visão do mundo desses autores, interferindo
também no processo de criação literária, que passa a adquirir uma
velocidade analógica de imagens que posteriormente seria referida sob
nomenclatura de “psicodélica”. Essas chamadas plantas alucinógenas,
o vinho das visões prodigiosas (vinho adivinhatório ou vinho da alma)
que podemos chamar Yage ou ayahuasca -
crescem no leste dos Andes e no Nordeste do Brasil, havendo tribos que a
ingerem diariamente , vivenciando, a partir daí, estranhas experiências. O primeiro a dar notícia da planta foi o botânico inglês
Richard Spruce, em 1851, que participou de uma cerimônia do Yage
no alto Rio Negro, na Amazônia brasileira. Como demorou a publicar seu
livro, a primeira descrição divulgada foi do geógrafo equatoriano
Villavicencio, que experimentou a bebida em 1858 e comentou extasiado seu
“vôo” acima de lugares extraordinários; em 1923 já existia um filme
sobre a cerimônia indígena do “vinho da alma” e em 1928 foi
identificado o seu princípio ativo, harmina (Telepatina, Yageina). No
Brasil, sobretudo em Rondônia, o Yage
(ayahuasca) é muito consumido. Em Porto Velho, a planta congrega as
atividades da União do Vegetal; conforme Eduardo Bueno, a antiga revista
americana High Times sempre reiterava que o Yage “é absolutamente legal e seu uso não implica em nenhum
problema judicial”. [19] Não é diversa a opinião atual do governo brasileiro que,
através de Resolução Federal número 4 - CONAD do dia 4 deste mês de
novembro do corrente ano de 2004 reconhece a importância do cadastro
nacional de todas as instituições que em suas práticas religiosas
adotam o uso da ayahuasca,
instituindo grupo multidisciplinar de trabalho inclusive para a pesquisa
de sua utilização terapêutica. A bebida, entre nós chamada Santo
Daime, é usada em nosso país por mais de doze mil seguidores, quer nas
regiões amazônicas, quer nos centros urbanos. O uso ritual das plantas
expansivas da consciência é uma forma xamânica de compreender a
realidade e atingir o êxtase da criação inclusive artística. É uma prática
ancestral cultuada desde nossos antepassados pré-cabralinos e pré-colombianos,
proporcionando abertura da percepção espiritual e o fenômeno da visão.
O Santo Daime é uma religião originalmente brasileira, oriunda da
floresta amazônica, feita a partir da fusão do cipó jagube e a folha
rainha, proporcionando uma bebida enteógena, sacramental. Seu uso se
constitui prática rotineira entre os habitantes do Estado do Acre,
especialmente na capital. Sob o efeito do Santo Daime a pessoa viaja
dentro de si mesmo, sente-se flutuando no espaço, tem visões luminosas e
perde a noção do tempo. Como é sabido, “as plantas de poder” sempre
foram utilizada em rituais religiosos, quer no México, Peru, Bolívia, ou
Brasil. Aqui, em contexto sincrético com o cristianismo e o espiritismo,
temos a União do Vegetal, no Estado de Rondônia e o Santo Daime e a
Barquinha, no Estado do Acre. Seus rituais são acompanhados por hinos que
falam da solidariedade humana, da consciência ecológica e da
espiritualização. A abertura das portas do inconsciente faz o ritual
desenvolver nos adeptos além de uma auto-análise, aspectos ligados à
vidência e à cura. A poesia, como forma de conhecimento do mundo, sempre
esteve próxima destes mecanismos mágicos e míticos, em todas as
culturas. Oráculos e profecias sempre foram respeitados, tanto do ponto
de vista poético como religioso. De Buda a Dioniso, objetiva-se o êxtase,
o transe que depura e nos oferece a plenitude e perfeição. Entretanto, observamos ao longo de nossa vida acadêmica
uma certa resistência de alguns colegas ao estudo da geração beat
em sala de aula bem como a existência (?) de poucos textos a ela
direcionados. Por trás da alegação de se constituírem “ mais um
estilo de vida do que um movimento literário” , que como acabamos de
constatar, não tem qualquer fundamentação, o motivo pode relacionar-se
ao fato de que através das experiências
não ortodoxas ligadas à abertura da percepção, esses escritores
buscaram a origem primitiva do mundo e do homem, contestadores que foram
da rigidez burocratizante do sistema a que estamos cada dia mais
submetidos. No que concerne especificamente ao poeta Claudio Willer,
vemos que ele se insere com pertinência na construção de um caminho
perfeitamente coerente na contrariedade à linha formalista e superficial
de um certo tipo de poesia afetada que pretende ainda hoje dissociar a
arte da vida e a fantasia da experiência. A partir do momento que
introduz entre nós os textos de Lautréamont, Willer nos torna íntimos
da modernidade precursora do surrealismo e articula o novo e o velho
mundo, tendo em vista que Isidore Ducasse é na verdade a presença
primitiva sul-americana no contexto erudito francês, já praticando
naquela época a fusão dos gêneros ao chamar de “Cantos” seus textos
em prosa e de “Poesias” à sua prosa fragmentada. Esse mundo selvagem
e atordoante que nos é trazido pelo poeta uruguaio mostra-se de uma
atualidade muito forte em tempos de estudos interculturais, representando
também a reconquista da origem e de uma identidade cultural pelo jovem
Isidoro ao atravessar o Atlântico, com uma importância habitualmente
comparada a Baudelaire e a Rimbaud, estando próximo igualmente, pela
rebelião romântica, de Hölderlin, Nerval, Jarry e Artaud. Este último, igualmente traduzido por Claudio Willer, na
verdade também recusou a estratificação do mundo europeu e veio ao México
estudar o ritual do peyote dos
índios tarahumaras, em busca da oxigenação de uma espiritualidade em
crise, como quem deseja mudar de pele, deixando-se habitar pelas forças mágicas,
tal qual os dançarinos do peyote
entram em transe religioso, apelando, do ponto de vista da linguagem
teatral, ao fundamento no corpo em cerimônias mágicas de iniciação.
Resgatando também a relação vida & obra, em busca de representar
sua vida e ao mesmo tempo transformar-se naquilo sobre o que escreve. A
identificação de vida e criação, em Artaud, é inequívoca (não
concebo uma obra como separada da vida: eu me conheço porque me assisto,
eu assisto a Antonin Artaud”.) Da mesma forma vieram à América do Sul os escritores da
geração beat, precursores do
movimento hippie dos anos
sessenta e de várias práticas ligadas à contracultura, com a revolução
sexual, exploração de paraísos psicodélicos e a onda de
espiritualidade oriental. Assim, desde o culto ao corpo e ao direito do
prazer, descobre-se um novo misticismo ligado às religiões do oriente, o
que representa uma recusa dos dogmas ocidentais praticados nessa área.
Através da música (o jazz, o rock) dá-se o trânsito da contracultura
à cultura de massa, chegando-se à new age. Tratava-se, como resta evidente, de uma crise do sagrado,
onde a yoga veio ocupar espaço no acesso ao nirvana, através da prática
zen e tântrica, numa adesão aos rituais budistas tibetanos: mundo que é
descoberto e que vem oxigenar a vida espiritual do ocidente em processo de
mumificação Esses pontos em comum voltavam-se à importância de uma
energia humana ligada ao corpo e anterior aos rótulos desgastados contra
os quais se insurgiam. Hoje, em nossas livrarias, são inúmeros os
volumes de filosofia japonesa-chinesa-indiana, princípios hinduístas,
budistas, taoístas, confucionistas, todos formando uma sabedoria viva
oriental que de tal forma incorporaram-se à cultura ocidental que até
esquecemos seu caráter geográfica e etnograficamente distanciado. Posso dizer que desde o início de minha vida acadêmica
estive sensibilizada sobre a geração beat
e trabalhei seus textos em sala de aula, muito especialmente On
the road (de Kerouac) e O
Uivo (de Allen Ginsberg), este último sempre na tradução de Claudio
Willer, e o mesmo se diga em relação aos textos de Lautréamont e
Artaud; todas as vezes em que se tratou de divulgar tanto o precursor como
o grande ator-diretor da modernidade. Posso dizer que em matéria de
literatura e sobretudo de poesia sabemos que o que importa não é o número
de árvores derrubadas para o sacrifício na construção de compêndios
enciclopédicos cujo discurso muitas vezes nada acrescenta à história da
literatura. Posso dizer que “Estranhas Experiências e Outros
Poemas” de Claudio Willer em suas apenas 144 páginas é uma pedra
talismã a refletir uma verdadeira visão poética nacional e universal
perfeitamente coerente com a estética e a ideologia de sua época e os
caminhos percorridos pelo poeta em sua formação identitária, em sua
profunda ascese, em sua brava seriedade ontológica e intelectual. mas
não existem cidades [Claudio Willer, in Estranhas experiências] NOTAS 1. WILLER, Claudio. Entrevista
a Weblivros internet - http://www.weblivros.com.br/entrevista/claudiowiller.html,
pág. 3 2. Idem. Entrevista a verbo-cultura & Literatura
(Sandro Ornellas e Vivaldo Trindade) - internet- http://www.verbo21.com.brarquiv/81cx1.html,
pág. 2. |
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Lucila Nogueira (Brasil). Poeta e ensaísta. Autora de livros como A dama de Alicante (1990), Zinganares (1998), e Bastidores & Refletores (2002). Palestra proferida no Seminário “A Cidade e o Campo”, no evento “Nomadismo e Cidadania”, 22/12/2004, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Contato: luc.nog@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica). |
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