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revista
de cultura # 44 |
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Estranhamente óbvio - diálogo com Moacir Amâncio Floriano Martins
As
gavetas se provam acidentes, Moacir Amâncio
Pois
é dessa mesma arriscada complexidade que está feita a poesia do
brasileiro Moacir Amâncio (São Paulo 1949), e digo isto sem em momento
algum considerar demasiada ou negativa a afinidade existente entre as duas
poéticas. O diálogo existe como um sinal de vitalidade. E ainda mais
severa com seus riscos, no caso de Amâncio, tanto ao enveredar-se pelos
afluentes tortuosos do abstracionismo, quanto em sua incursão por outros
idiomas, buscando, de todas as maneiras, uma conexão perdida entre poesia
e forma. Uma busca que também na tradição brasileira encontra boas raízes
para o diálogo, pensando em Drummond e João Cabral, como sugere Antonio
Medina Rodrigues, nas orelhas de Figuras na Sala (Iluminuras,
1996): “Do primeiro, Amâncio herdou a nua determinação do olhar. Do
segundo, o impulso fenomênico e a qualificação das coisas.” As
diferenças são traçadas pela mínima exigência que se tem de uma
escrita: que crie sua própria maneira de caminhar. E
este caminhar já se havia percebido no livro de estréia, Do objeto útil
(Iluminuras, 1992), uma espécie de poética do olhar que a tudo devora,
inclusive a si mesmo. O olhar que invade a imagem, mas também que
mergulha em si, questionando o sentido daquilo que vê. E ao habitar essa
obsessão por dar sentido a tudo o que vê, por vezes manifesta na
desconfiança que tem dos sentidos aparentes, é que esta poética foi
sendo tecida como algo adoravelmente estranho à tradição lírica
brasileira, dela fazendo parte, de sua extração mais substanciosa,
justamente por essa estranheza. A imagem fecundada pelo conflito entre o
que olha e aquilo que se vê, uma imagem que então alcança uma dimensão
outra do real, naturalmente exige do poeta “uma estranheza perfeita”.
Daí que Eustáquio Gomes tenha observado com lucidez, nas orelhas de Contar
a Romã (Globo, 2001), que Amâncio “retorce a linguagem e a
reconstrói, recorrendo à criação de mundos paralelos como se fossem
dimensões fantásticas da realidade objetiva”. Além
dos 3 livros aqui mencionados, Moacir Amâncio publicou 2 outros, O
Olho do Canário (Musa, 1997) e Colores siguientes (Musa,
1999). São dois livros ainda mais insólitos que os demais. O primeiro,
que traz um daqueles entranháveis poemas que dão orgulho a qualquer
tradição - descoberta ou restaurada -, intitulado “Classicamente
talvez”, é um dos mais imersos na cultura hebraica. Já o segundo,
escrito em espanhol, abre também um diálogo que não é propriamente
idiomático, mas antes de matizes culturais. Como todos os pequenos golpes
são sempre a preparação para o grande crime, estes 5 livros antecipam Óbvio
(Travessa dos Editores, 2004), livro diabólico a começar pelo título.
Trata-se de um tríptico, onde cada tábua serve de passagem para a
seguinte, sim, mas sem as noções lineares de continuidade. Até porque
nada é linear na poética de Amâncio. Uma das tábuas - capítulos, ou
melhor, livros, segundo o próprio poeta -, a única escrita em inglês,
intitulada “Arghvan”, provoca na leitura a suspeição de revelação
do enigma: logo na abertura adverte: “no theories, only action, /
please, / get it right: / you cannot see / the flower / - up there - /
named / twilight.” E por todo o capítulo o que se mostra é ação
(“bites of the heat”) e a busca (hungry) da linguagem pela flor
do crepúsculo que ela traz dentro de si. Não
resisto a citar passagem deste capítulo, que talvez elucide a tensa relação
entre poeta e época: “someone can talk about the / multiplication of
the eyes in this case, / and about the blind people's reading system, /
but i would say you are wrong: / this is not a multiplying eye /
phenomenon // this is not a trick to avoid / the pure effect of darkness,
/ i'd rather talk about bats / and their fair relationship / with this
presence / of total possibility”. Temos
aí de maneira mais intensa colocada a percepção da coisa e seu efeito.
Decerto que Amâncio toca as coisas, como recorda Eustáquio, com aquela
sensação “da descoberta edênica do primeiro homem”, porém aqui me
chama a atenção, em especial, essa noção do efeito multiplicado, a
aplicação de uma farsa, por mais sincera, o dilema de um poeta ante a
criação, assim como a relação entre realidade e cenário. A
leitura de Óbvio acrescenta clareza à estranheza da poética de
seu autor. Minha menção inicial a cummings, que sei desagrada a ele próprio,
como veremos na entrevista, se deu, sobretudo, pensando que as subversões
gramaticais, observadas tanto em um quanto no outro, em momento algum
desprezam o contexto discursivo. Podem, por excesso de risco - em um e
outro -, dar a entender que cultuam aquele mero efeito especial do olho
multiplicado. É uma referência apenas. No Brasil acabamos por confundir
referências com submissão, daí que tenhamos certo medo pânico do termo
influência. Trata-se de diálogo, tão-somente, e criação alguma
sobrevive sem ele. Diálogo que percebemos bastante múltiplo e intenso não
somente na poética de Moacir Amâncio, mas em suas observações
cortantes no decorrer da conversa que leremos a seguir. [FM] FM
- Ao escrever sobre Do objeto útil (1992), observa Fernando Paixão:
“O atrito do nosso olhar sobre os poemas, surpreendido com freqüência
por elipses, cortes sintáticos e abstrações abruptas, coloca-nos diante
de um renovado desafio para o olho: fazer a história da leitura. Porque o
outro olho, ou a metade dele, que cabe ao poeta, aqui está revelada.”
Considerando esta metade revelada, o que busca dizer a poesia através de
Moacir Amâncio? E como se dá o teu convívio com essa busca?
FM
- Sim, os equívocos de toda parte, tanto no que diz respeito à escritura
automática quanto à escrita a frio de um João Cabral, por exemplo. Mas
acontece que os novos meninos vêm sendo deformados por esses equívocos
que acabaram se tornando precariamente escolásticos e respaldados pela mídia.
Essa gente que confunde coisas é gente escolarizada na confusão, quase
que induzida a ela, onde escola e imprensa desempenham um papel
fundamental. Sempre se pode dizer que o grande poeta é um rompedor, que
resiste a tudo, que desfaz e refaz qualquer vício ou tradição etc., mas
este argumento não tem cabida diante da perversão do tema levada a termo
pelas instâncias referidas. Tens uma experiência dentro de ambas, e
naturalmente tuas observações serão valiosas aqui: MA
- Sua pergunta tem vários pontos. O equívoco quanto ao João Cabral
parece ter começado por ele mesmo, com a mania do cerebralismo. Ora, um título
como o do Cão sem plumas parece saído de um filme do Buñuel ou
de um livro do Murilo Mendes, ou de Lorca. Agora, é claro que, no caso de
um grande poeta como ele, precisamos tomar cuidado. Porque pode-se
perceber facilmente como a escrita automática precisa ser desautomatizada
para que se atinja o objetivo. E a inteligência, o uso da razão, pode
ser o melhor caminho para se negar a própria razão. Eu me lembrei do
surrealismo. O Breton parecia um fanático político-religioso e essas
atitudes ditatoriais me provocam repulsa. Como sinto repulsa pela
desinteria regral do Pound, sem falar em outras coisas muito mais graves,
e que têm a ver. Bem, mas o que eu queria dizer é que o surrealismo,
depois confundido como brinquedo intelectual, impostura, absorvido pela
indústria, a publicidade, pode ser revirado. O mesmo com outras idéias.
Desconfio de movimentos e projetos grupais. Ah, sim, dizer que o grande
poeta é um rompedor caiu na mesma tigela comum. O rompimento se confunde
apenas com um rótulo novo para o mesmo engodo, não? Você falou em
imprensa. A imprensa, assim como toda a mídia, divulga e emperra, tem mão
dupla. A escola, que também é mídia, faz algo assim também, caso se
limite a reproduzir modelos, a clicheria toda. Mas e se o clichê, usado
como tal, se transformar numa ferramenta de desmanche? Ler nas
entrelinhas, no espaço pulsante entre as linhas, no espaço, que tal? FM
-
Em um belo estudo de Jorge Fazenda Lourenço sobre cummings, que precede a
edição de xix poemas (Assírio & Alvim, Lisboa, 1991), ele
indaga - ao referir-se à subversão gramatical de cummings: “cabe à
poesia propor uma nova ‘sintaxe das coisas’ ou é ela mesma a sintaxe
de um mundo às avessas?” Pois bem, pensando naquela “rigorosa pertinência
do objeto” de que fala Antonio Medina Rodrigues a respeito de tua
poesia, transfiro para ti esta indagação do ensaísta português. MA
- Pois é, justo o cummings tem uma idéia tão clara, mas confunde
procedimentos, pequenas operações gráficas com a busca de uma nova
sintaxe das coisas. E fica tatibitate. O Oswald de Andrade é outro que
patina no procedimento. Há méritos históricos e tal, mas são
insuficientes. Veja como esse procedimento, interessante no início, foi
bem digerido (essa coisa de antropofagismo é outra coisa que passa por
originalidade e ficam em cima batendo na tecla chata) e faz com que
marmanjos permaneçam nos limites da primeira idade escolar. O Oswald
parodiou, certo, mas paródia e piada só funcionam uma vez, igual fósforo
- e ele teve o mérito de produzir duas obras-primas, Miramar e Serafim,
sem repeti-los. O problema é que as coisas mudam de lugar. Basta ler uma
página de Lautréamont. FM
- Este patinar no procedimento se pode verificar em muitos autores ligados
ao período das vanguardas. É curioso que se cultue - à boca pequena,
sempre - o chileno Vicente Huidobro por seus livros mais identificados com
a vanguarda, quando ele foi adiante em livros posteriores, retomando o diálogo
com a tradição a partir de suas rupturas propostas - o que não
aconteceu, por exemplo, com o argentino Oliverio Girondo. Claro que o fósforo
só funciona uma vez e nenhum artista quer ver o seu palito confundido com
o de outro. Mas há aquele aspecto de que certos criadores estabelecem de
tal maneira um beco sem saída que quem se deixa influenciar por eles
acaba dando um ou dois passos atrás. Conversemos um pouco mais sobre
isto, mas também te peço que me digas, não se restringindo unicamente
à poesia, quem não confundiu procedimentos no Brasil e avançou em algo
que consideres relevante? MA
- Pois é, falei no surrealismo só para lembrar o que fica de lado,
embaixo do tapete de plástico, por suposta sujeira, digo isso porque também
precisamos lembrar que não se trata de dizer isso acabou, que lixo, etc.,
como se tudo realmente fosse descartável. Os modernistas atacavam o
parnasianismo mas ignorar o Bilac é só uma bobagem. Mas é claro, o
procedimento é o mais acessível, é o facilitário. Se um artista
inventa ou parece inventar um procedimento, este passa a ser um risco,
tanto para quem inventou quanto para quem parte dele. Mas depende de quem
parte. Sterne, por exemplo. O que é mais incrível no romance dele: a
gente vai lendo-ouvindo sobre a vida de alguém que vai nascer… genial,
não? Lá vem o Machado e, com o Brás Cubas, fala sobre a vida de um
morto. Mas não é genial? Entendi, você usou essa palavra como um
“jeito de dizer”. Porque todos sabemos, não há “avanço”,
“progresso” nisso - é a linguagem bichada da economia, sei que você
pensa da mesma forma, como eu. Porque não há avanço, acho mais que há
torção e recomeço. Vou lembrar aqui um romancista, olha, muito
machadiano chamado Campos de Carvalho. O Júlio Bressane. O Ferreira
Gullar com A Luta Corporal - ele teve a sensibilidade para
deixar esse livro suspenso no ar, partindo para outras aventuras, válidas
mesmo quando não deram certo, como aqueles cordéis. Mira Schendel, nas
artes plásticas. O Dalton Trevisan. O Nuno Ramos, idem. A Jussara
Salazar. FM
- Tomando a tua poética livro a livro, pensando nesta leitura do Carlos
Vogt, expressão em crítica a O olho do canário (1997), dos
“objetos como personagens de uma trama cosmológica cujo cenário é a
sala de estar, a cozinha ou o jardim, mas transfigurados e vistos sob uma
nova perspectiva”, ou então no entendimento de Eustáquio Gomes, ao
comentar Contar a romã (2001), de que o autor se coloca em “um
cenário composto de peças arbitrárias, […] buscando dar sentido a
esse universo novo”, nomeando “cada coisa pela primeira vez”, enfim,
atento a este singularíssimo estar no mundo de tua poética, como
avaliarias o percurso que vai de Figuras na sala (1996) até Óbvio
(2004)? MA
- Bem, eu vejo o percurso como um trabalho em andamento, apenas isso. FM
- Pura e simplesmente isto? Evidente que sim, mas deve conter em si certas
singularidades, aspectos que mais te chamaram a atenção, a descoberta de
um novo procedimento, a sedução por um novo risco, um fio, um pavio, um
desengano, porque o progresso é feito também de frustrações,
retrocessos, não é nunca um ticket comprado a caminho do futuro limpo e
seco. Em uma passagem deste teu novo livro há um verso entranhável:
“As gavetas se provam acidentes, / numa delas o mar persistirá”. Então:
por onde persiste tua poética?
FM
- E neste percurso, poderíamos nomear algumas identificações tuas com
outras poéticas, ou acaso este é um assunto que não te desperta
interesse? MA
- Eu posso falar sobre referências, sobre “identificações”, mas são
tantas, às vezes são citadas em versos, palavras, até nomes aparecem,
mas e as frases ouvidas, as cenas observadas, as conversas com pessoas que
nunca leram um livro e, no entanto… Agora, você também conhece a
experiência: de repente depara o texto de um autor da Tailândia, do México
ou de São Paulo, recém-lançado, vinte anos mais novo do que você e lá
está… sem contar, por exemplo, o trabalho com fontes comuns, então
parece que o diálogo é com tal autor, quando na verdade é com um
terceiro, com quem o “tal autor” também conversa. Você lê um poeta
chinês do século 9 e lá está… Há uma sensação de
contemporaneidade, de Safo a Gil Vicente, do Foscolo até Álvares de
Azevedo e quem ainda nem nasceu mas já acena com algo do presente. É um
diálogo amplo e sempre aberto, um diálogo em expansão para todas as
direções. FM
- Evidente. E tampouco se restringem ao universo da literatura. No meu
caso há muita coisa vinda do cinema, das canções, da andança pelo
mundo, vitrines, amores etc., de tal maneira que desconfio que de onde
menos herdo alguma coisa é da poesia livresca. A minha idéia era
exatamente desmistificar um pouco o assunto, porque sabes muito bem que
ainda vivemos em áreas estanques, incomunicáveis. MA
- Isso mesmo. O que imagino é que ninguém pode limitar a leitura o que vê
pela frente, no caso, o livro. E nem ao que vê, isto é, os olhos. O
poema é pulsação, exige tato, ouvidos, sexo, pensamento, imaginar. Para
mim é um perigo limitar a leitura. Da mesma forma que o, digamos,
artista, não pode limitar sua vivência, o leitor também não pode
reduzir a vivência da leitura a um enfieiramento letrado. É o cinema, as
artes plásticas. Estou pensando num pintor de monstros chamado Samsom
Flexor. E também num pintor chamado Orlando Marcucci, que preferiu o
encolhimento, negou-se ao mercado e produziu uma obra admirável,
restrita, pouquíssimos têm acesso a ela. E essa restrição por acaso não
faz parte da obra dele? Existe o caos interior, mais acessível, e o caos
exterior, tão importante quanto e isso fascina, pois esse caos externo
desaparece como um palco antigo, grego, elizabetano, etc. FM
- Em dois livros se verifica a recorrência a outros idiomas, seja a
totalidade de Colores siguientes (1999) ou o capítulo
“Arghvan” de Óbvio (2004), escritos respectivamente em
espanhol e inglês. Há uma razão declarada para estas opções idiomáticas
ou se trata tão-somente de um exercício de expansão da escrita? MA
- Veja, a razão, como você sabe, declara-se nos próprios textos, não
é? Escrevi Colores Siguientes em castelhano, sim, porque o que está
dito nesse livro não me parece ser possível dizer em português. A não
ser que eu traduza, o que até tentei, para desistir no segundo ou
terceiro verso, era como pensar com a minha cabeça e ao mesmo tempo a
cabeça de outro: só reescrevendo. Abandonei a idéia. Tenho feito
algumas traduções de autores variados e sei o trabalho que dá você
pensar com a cabeça de outra pessoa, seja do século 12, seja do século
21, tentando encontrar a expressão mais adequada em um idioma e uma época
diferente e olha, talvez a questão da época seja mais importante do que
a do próprio idioma. Como você faz para traduzir poema escrito numa época
em que o português nem existia? Claro, se você elege o poema isso quer
dizer que ele é seu contemporâneo, mas onde está a contemporaneidade
idiomática? Com o inglês começou da seguinte forma: eu estava em Seul,
na Coréia do Sul e, no quarto do hotel, comecei a tomar algumas notas em
inglês. Comecei a experimentar e fui continuando. Em Los Angeles. Cada
idioma sempre diz alguma coisa que só ele diz. E ninguém é o mesmo em
“si”, “yes” ou “sim”. Já os barrocos… Agora, todo texto de
certo modo é uma tradução, concorda? Em qualquer língua. Isso de língua-mãe
é balela, toda língua é traiçoeira, mentirosa. Não há certeza nem
expressão plena, repito, há um processo. FM
- Um grande ardil, sem dúvida. Agora mesmo estou às voltas com um
romance que se passa na fronteira Brasil/Uruguai no final do século XIX.
Há não só o espanhol da época, mas o espanhol de fronteira, esse
intragável - porém real - portuñol. Não estava sugerindo que
traduzisses os mencionados textos para o português - eu fiz isto com dois
largos poemas meus escritos em espanhol e o resultado ainda hoje pouco me
agrada -, mas antes indagando de onde tinha vindo o fiat lux da
escrita em outro idioma. No meu caso, eu buscava essencialmente romper com
certo vício de linguagem que vinha observando em minha poética. Mas também
há quem o faça por exibicionismo ou mesmo por tática, considerando que
2 ou 3 idiomas são mais lidos do que todos os demais existentes. Além
disto, no texto não assinado das orelhas de Colores Siguientes se
fala nas relações entre as culturas portuguesa e espanhola que
evidentemente não vão ser resolvidas a partir do momento em que poetas
brasileiros passem a escrever em espanhol. Este assunto é bastante
complexo e vale lembrar que a literatura brasileira é muito mais parte do
imaginário das culturas hispano-americanas do que o contrário, ou seja,
considerando as inúmeras edições de autores brasileiros na América
Hispânica, contra uma ausência quase absoluta na outra vertente, se pode
dizer que o continente todo já descobriu o Brasil, ao passo que o Brasil
não conhece quase nada do continente. E reluta em não conhecer, com a
mesma empáfia de sempre.
FM
-
Em uma entrevista com Drummond de Andrade, ele opina “que a história da
literatura não é a história das vanguardas. As vanguardas são, por
assim dizer, intervalos numa evolução que se processa de uma maneira
muito diferente.” Estás de acordo? Indago isto porque no Brasil até
hoje as novas gerações se agarram a um recorte do passado como se fosse
um moto perpetuo e, embora apenas repitam uma fórmula gasta, o
fazem com certa empáfia e a crença infantil em uma vanguarda eterna. MA
- Claro, não há como discordar do Drummond. As vanguardas são um tipo
de fenômeno esperto, mistura vanguardista de “cultura”, de “arte”
com marketing. Mistura inteligente, sem dúvida, mas que tem seu
momento na história. A repetição é burra, fica numa técnica de marketing
superada. É isso aí, a fórmula gasta, o procedimento que ficam
repetindo. O mais divertido, como você sugere: muitas vezes confundem
vanguardas com juvenilidades, então fica grotesco, trintões, quarentões,
cinquentões ou mais, fingindo uma jovialidade adolescente com cabelo
branco tingido de preto. Depois, o que conta na verdade é o que foi
feito. Entende-se, as pessoas querem firmeza, nada mais seguro do que a
irresponsabilidade pseudo-iconoclasta. Os nomes, as referências estão
todas lá, fulano diz isso, fez isso, querem matar você caso não
concorde, o comportamento fascistóide da exclusão é de lei, etc.
Segundo fulano… e buscam a aprovação das figuras, essas coisas. Não
percebem que na verdade isso é um simples desrespeito pelo que idolatram,
tantas vezes por conveniência. Moeda falsa, essas coisas. FM
- Sim, moeda falsa e corrente, o que acaba por torná-la real. O ponto é
como se livrar dessa recorrência infantil, que nos torna hoje primatas
diante de discussões estéticas levadas a termo por jovens poetas em países
vizinhos. Não à toa, há uma discrepância de idade, nos encontros
internacionais de poetas na América Latina, onde trintões
hispano-americanos estão presentes ao lado de sexagenários brasileiros.
Estaria acaso mofado o pão da poesia dessa jovialidade brasileira ou a
questão não é tão simples quanto se mostra? MA
- Não vejo assim. O problema não está, também, no custo das passagens?
Idade física aí não conta: cabem Rimbaud e Yves Bonnefoy, assim como
Camões. Pensando bem, o Brasil é uma ilha de fato, não convencional,
cercada de água e florestas por dentro e por fora. FM
- Alguma palavra final, tua, sobre Óbvio? MA
- Como assim? FM/MA - [risos] |
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Floriano Martins (Brasil, 1957) é um dos editores da Agulha. Crédito da foto de Moacir Amâncio: Orlando Kissner, Agência Estado. Entrevista realizada em janeiro de 2005 e originalmente publicada no Rascunho # 57 (Curitiba, janeiro de 2005). Contato: florianomartins@rapix.com.br. Página ilustrada com obras do artista Leonel Maciel (México). |
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