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revista
de cultura # 44 |
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Al Berto descoberto Lucila Nogueira
1.
Da foto tirada por Paulo Nozolino em 1990, passei às páginas que tiveram o dom de me confundir e me arremessar em perplexidades. De repente um poeta português mexia com o meu espírito de modo mais contundente do que aqueles que me acostumara à sua frequentação. Que autor era esse que falava do essencial sem retóricas ultrapassadas ou cacoetes cerebralistas ainda duros na queda em meu País do Carnaval? De um poeta não pretendemos outra coisa que não esse mergulho na fonte primordial da consciência humana. Uma experiência nítida e nova revelada com lucidez e ternura. Uma inquietação que nos acalma, embora nos perturbe. Poesia como imagem além da memória, filme editado em palavras que deixam marcas permanentes na paisagem cotidiana. Estranha forma de serenidade, essa cultivada no desespero e na desordem. Estranha forma de imortalidade, essa conquistada na pulsação da morte e da loucura. Estranha forma de realidade, essa que emerge fantástica do abismo em direção vertical ao coração dos homens. deus
tem que ser substituído rapidamente por poemas a
dor de todas as ruas vazias. sinto-me
capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio, a
dor de todas as ruas vazias. (de
Notas
para o diário) ……………………………………………………………………… noutros
tempos hoje onde
se pode - num vocabulário reduzido e (de
Vestígios) Descobrir
um poeta é descobrir-se a si mesmo naquilo que a burocracia cotidiana
tenta embaçar, naquilo que o medo tenta reprimir e calar. Uma nova
maneira de abordar a solidão humana nas chamas do vazio onde todos
caminham imóveis sob a placenta que não se abre. para
te manteres vivo - todas as manhãs (de
Mudança
de Estação) …………………………………………………… escreves
exactamente isto: o horror dos dias (de
Casa) A
editora informa no volume que Horto de Incêndio foi realizado no
âmbito de uma Bolsa de Criação Literária/Poesia do Ministério da
Cultura, em 1997, mesmo ano da publicação. O livro é dividido em duas
partes: a segunda, “Morte de Rimbaud”, foi dita em voz alta no Coliseu
de Lisboa, a 20 de novembro de 1996. Na primeira, em meio a quatro poemas
sobre Lisboa, está impresso o primeiro poema em português que me foi
dado ler sobre a aids: aqueles
que têm nome e nos telefonam arquivamos
o amor no abismo do tempo acendemos
então uma labareda nos dedos e
mais nada se move na centrifugação assim
guardamos as nuvens breves os gestos (de
Sida)
2. “Todos
os meus livros tiveram um caráter de urgência”, disse Al Berto, um mês
antes de morrer, ao jornal Expresso. O poeta e crítico Fernando Pinto do
Amaral (O mosaico fluido, 1991) destaca a textualidade a funcionar
como testemunho de um sujeito,
de um eu que não teme arrastar toda a carga afetiva para a página
escrita chegando a concluir que o critério
de legitimação para uma poesia como esta passa por algo que vem do lado do vivido. Do corpo espiritual ao corpo físico, uma
unidade apaixonada entre a obra e a vida. Veja-se
o que diz, a 26 de Abril de 1997, o Diário de Notícias: “Horto
de Incêndio surge como um balanço de um testemunho literário e
pessoal, apegado a um ascetismo em estado selvagem. Indissociável este
livro, e, em particular, morte de
rimbaud, da problemática da doença e da morte (…) Revelando-se, o
poeta transforma o seu corpo melancólico no corpo do fim do século,
acrescentando-lhe a esperança de todas as pacificações”. Essa
escrita do corpo tem uma tradição na poesia portuguesa a congregar, na
atualidade, diversos autores, entre canônicos e malditos. De Fernando
Pessoa a Mário de Sá-Carneiro, de António Botto a Eugênio de Andrade,
de António Franco Alexandre a Gastão Cruz, de Fernando Pinto do Amaral a
Joaquim Manuel Magalhães, de Luís Miguel Nava a Guilherme de Melo, de
Armando Silva Carvalho a Eduardo Pitta - este último com marcas visíveis
de Luiza Neto Jorge - todos assumem vetores estruturantes de uma poesia
onde o corpo é território de afinidades e distanciamentos em face do
real, tudo isso ligado a angústias pessoais e vivências sociais em
discursos poéticos onde o estranhamento ultrapassa a ambigüidade em seus
vários níveis e a constituição do sujeito tematiza idéias e cenários
onde se diluem as metáforas rumo a uma escrita radical de demarcação
entre urgência e melancolia, diferença e transgressão. No
caso específico de Al Berto, sua experiência urbana de Bruxelas, Paris e
Barcelona, sua deambulação como Flaneur
nas décadas de sessenta e setenta por uma Europa notadamente underground,
trazem ao seu discurso poético uma vertigem específica que assume a
literatura como ficção e experiência unidas de modo inseparável,
conjugando idealismo romântico e existencialismo contemporâneo em um
território que, como já foi referenciado, pertence nitidamente ao domínio
da pós-modernidade. Se em seu início Al Berto seguiu de perto a linha
surrealista, muito especialmente a que emana de Herberto Helder, em todo o
seu discurso vamos encontrar episódios autobiográficos com recortes
cinematográficos. Em 1981 escreveu Joaquim Manuel Magalhães: “Um
nome: Al Berto. A poesia como ataque por todas as vias - droga, sexo,
loucura, jogo, magia. Um fluxo de revelação… que desencadeia o modo
diverso de enfrentamento da ocupação majoritária dos impulsos das práticas
da vida”. E
no transporte ao poema de seus mitos pessoais, Al Berto não se limitou
apenas aos literários, incluindo também os da música pop e das artes
visuais. De modo que Lou Reed, Joy Division, Jim Morrison e Nick Cave
convivem serenamente com William Burroughs, Dylan Thomas, Genet e Rimbaud;
no que concerne a estas presenças no texto de Al Berto, Manuel de Freitas
destaca que a originalidade do poeta consiste precisamente no modo
singular como evoca, parodia ou integra no seu próprio discurso os vários
modelos (A noite dos Espelhos - modelos e desvios culturais na poesia
de Al Berto, 1999, Ed. Frenesi). No
percurso a que me levou a súbita descoberta de Al Berto, verifico haver
ele nascido dois anos antes de mim (1948), em Coimbra (Sines) e ter
publicado seu primeiro livro de poesia em 1977 (também anteriormente dois
anos à minha estréia em livro). Estreou com “À Procura do Vento num
Jardim d’Agosto”, a que se seguiram mais catorze publicações em
poesia e duas em ficção, todas surgidas nas décadas de 70/80 até final
dos anos 90. Um poeta, como se observa, do nosso tempo, que ouviu e dançou
os Beatles, leu e se emocionou com os livros da geração beat,
acompanhou a onda orientalista americana e européia no movimento hippie, poeta de uma juventude errante à margem de sistemas e na
entrega ao existencialismo intenso de experiências espirituais e físicas
na atmosfera azul de paz e amor, somente para lembrar o verso de
Guinsberg: “quando você esqueceu que era uma flor?” Poucos,
em meu país, assumiram esse “Canto da Estrada Livre” de que nos falou
Whitman. Generalizado nos exercícios gráficos e agrestes da
impessoalidade modernista, vários poetas do meu país buscavam um poema
objetivo, concreto, em que a subjetividade lírica era um defeito e o
testemunho do mundo uma falha técnica. Pior que isso, um desses grupos
experimentalistas, mesmo sendo pouco numeroso, por conta do
internacionalismo de seu trânsito acadêmico vendeu ao mundo a idéia de
que essa poesia tão cheia de bloqueios e limites seria o nosso canto
verdadeiro, a nossa própria lírica brasileira. De
modo que conhecer a poesia de Al Berto no mesmo ano em que lançava o meu
primeiro volume de poemas em uma editora portuguesa e até hoje inédito
no Brasil, Zinganares (Arion, 1998, Lisboa) me trouxe aquela sensação
de nascer de novo e em um contexto cultural onde havia na poesia espaço
possível para o testemunho da vida, este estranhamente classificado nas
sofisticadas linhas Pound/Valéry brasileiras com o rótulo de carga
pretensamente pejorativo de “confessionalismo romântico”.
“Assim
sendo, este livro fornece a moldura adequada a uma poesia que se redobrou
como representação de uma vida, de um autor, não
propriamente no sentido romântico, em que o poeta acredita que constrói
uma grande obra com a matéria da sua própria vida, mas no sentido do
poeta trágico moderno, de que Rimbaud é o modelo inultrapassado, em que
se dá um curto circuito explosivo entre a vida e a poesia. Tem todo o
sentido falar aqui em “representação” e “redobramento” porque ao
poeta que queira encarnar essa figura heróica não lhe resta senão a
possibilidade de a encenar. Foi
o que fez Al Berto em toda a sua obra, construindo a ficção de um poeta
que tem todas as características para exercer uma poderosa atração e
para ser ele próprio, a definir o horizonte em que se quis ver situado.
Construindo, em suma, uma idéia de
poeta a que os poemas dão corpo, mas que supõe sempre muito mais do que
a poesia: uma idéia de poeta em que a vida está sempre em excesso em
relação á obra. O que, por sua vez, implica também o inverso: uma vida
que precisa de uma obra para se representar como excesso. É nesta
circularidade, com um grande efeito de encantamento, que a poesia de Al
Berto sempre tendeu a enredar os seus leitores.” Poesia
narrativa de furor heróico, a diferença de tom torna mais evidente a
encenação dramática do poema, a qual, por sua vez, tanto é maior
quanto mais o poema supõe uma proximidade com o vivido - circunstância
que avulta após “Secreta Vida das Imagens” (1984/1985), conforme
Guerreiro, que acrescenta: “Da
extrema fragilidade dos seus primeiros livros teve Al Berto certamente a
consciência. No entanto, nunca os eliminou, nem parece ter querido submetê-los
a revisões, como se vê pelo facto de, nesta edição (que, como podemos
depreender, terá sido ainda preparada pelo autor), eles surgirem com
modificações mínimas, que incidem, sobretudo na pontuação. Fora de um
contexto em que ainda tem alguma eficácia essa figura heróica do poeta,
uma antologia bem feita beneficiará bastante esta obra e ajuda-la-á a
ganhar uma maior autonomia.” Encontramos
também aqui, nesta aparente falta de vigilância, uma marca do poeta para
quem o poema não é um objecto autónomo
e perfeito, mas algo que decorre do próprio fluir da vida, ligado a uma
temporalidade que é da suposta experiência vivida.por isso é que a
forma diarística surge com freqüência.
Não se trata tanto de fazer do
poema (ou da prosa poética) uma anotação do quotidiano, mas de
transfigurá-lo poeticamente, elevá-lo a uma espécie de condição mítica,
onde ele adquire verdadeiramente sublimidade.” Pascal
Thuot considera Al Berto um vidente, poeta do real que extrai da crueza do
mundo a pulsação da vida e da morte intimamente ligadas: “Ele adentra
em nossa paisagem, testemunha incorruptível da comédia humana, fotógrafo
atento de nossos gestos trêmulos, de nossa hesitação em viver com toda
lucidez”. “Quando
te escavaram o ventre encontraram ………………………………………………………………… em
ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo ………………………………………………………………… (de
Mar-de Leva) a
noite dilata a viagem (de
Trabalhos do olhar) Visita-se
enquanto não envelheço tenho
uma varanda amplas cheia de malvas (de
Uma paixão) ver-me
antes que a bruma contamine os alicerces ………………………………………………………………………… …
vem deitar-te comigo no feno dos romances (de
Amor dos Fogos)
Al
Berto foi também artista plástico e após temporada na Bélgica
regressou a Portugal criando uma comunidade na mansão da sua família em
Coimbra. Editava textos de amigos e quando abriu uma livraria em Sines
oferecia àqueles a maioria dos livros: em 1977 fecha o estabelecimento e
regressa a Lisboa. Foram publicados, como edição do autor, Meu fruto
de morder todas as horas e Mar-de-Leva, ambos em 1980, além de
Trabalhos do olhar (1982). Seguem-se O Último Habitante
(1983), Salsugem e A seguir o deserto (ambos em 1984), Três
cartas da memória das Índias e Uma existência de papel
(ambos de 1985), O medo (1987), O Livro dos Regressos
(1989), A secreta vida das imagens, Canto do amigo morto, e
novamente O Medo (reunião de trabalhos de 1974 a 1990) todos os três
editados em 1991, Luminoso Afogado (1995) o por mim encontrado Horto
de Incêndio (1997) e novamente O Medo (1998). Em ficção
publicou Lunário (1988) e O anjo mudo (1993). Está
traduzido para o espanhol, francês, inglês e italiano aquele que se
autodenominou O pequeno demiurgo: mas
não julguem ser trabalho simples nomear para
que não se apague esta trémula escrita Descoberto
Al Berto, para mim e para os que me acompanharam até este conto, fico a
meditar no que ele próprio falou da obra que nos aproximou, no caso o Horto
do Incêndio: “Aterrador foi
ter-me apercebido o que havia neste livro de premonitório. A eternidade não
é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura
portuguesa. Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os
toque. A eternidade é uma permanência da força que está dentro de nós”. |
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Lucila Nogueira (Brasil). Poeta e ensaísta. Autora de livros como A dama de Alicante (1990), Zinganares (1998), e Bastidores & Refletores (2002). Contato: luc.nog@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Leonel Maciel (México). |
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