Leonel Maciel Leonel Maciel
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revista de cultura # 44
fortaleza, são paulo - março de 200
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Leonel Maciel

editorial

O Itamaraty é aqui!

Na noite de 10 de março último, no auditório da Embaixada da Venezuela, em Brasília, um dos editores da Agulha recebeu uma homenagem pela publicação, em 1998, de Escritura Conquistada (Diálogos com poetas latino-americanos). O livro teve, em seu tempo, uma boa atenção da imprensa, sobretudo considerando que não houve edição comercial - saiu através de um convênio entre Fund. Biblioteca Nacional e Univ. de Mogi das Cruzes. O evento em Brasília foi auspiciado por entidades locais, contando essencialmente com o apoio da Embaixada da República Bolivariana da Venezuela. Na ocasião, além dos pronunciamentos do embaixador venezuelano, José Julio García Montoya, do presidente da Academia Brasiliense de Letras, Antonio Carlos Osório, e do próprio autor do livro, Floriano Martins, o destaque se deu com a leitura de poemas de seis dos 24 poetas incluídos no livro, leitura a cargo dos poetas Aglaia Souza e João Carlos Taveira. Importa mencionar aqui tudo isto por uma simples razão: a atenção despertada sobre este livro, sete anos depois de sua publicação, nos traz de volta algumas reflexões sugeridas à altura e que agora merecem indispensável cotejo.

Logo no texto para as orelhas, o jornalista Lira Neto observa, com base no título do livro, que “a proposta do encontro é mesmo, desde já, uma conquista”, destacando “a possibilidade de uma ponte necessária - e inadiável - entre dois territórios que, absurdamente, não se reconhecem em suas semelhanças e contradições”. Outras leituras críticas, da parte de nomes como José Paulo Paes, Wilson Martins e José Castello, em seu tempo fizeram referência à condição insular da América Latina, fato conhecido por todos, mas não de todo percebido e em absoluto desprezado quando requer ações que o corrijam ou eliminem.  Ao propor um diálogo o livro não se limitava apenas à forma escolhida para evidenciar-se - a entrevista -, entrevista, neste caso, posta não em seu formato jornalístico, mas sim disposta como uma conversa entre dois poetas, conscientes do que a ocasião lhes propiciava. Sua atenção maior dirigia-se ao diálogo entre culturas, busca tenaz de despertar, através da poesia, uma percepção mútua entre elas.

A rigor, este diálogo segue sem existir. Em circunstância alguma um livro apenas conquistaria tal meta, e nem mesmo se propunha a fazê-lo em isolado. Pretendia-se mais uma pedra de toque, disposta a provocar uma avaliação das purezas e impurezas dos metais envolvidos em tal questão. Mas a verdade é que nada disto aconteceu, não interferiu em aspecto algum de nossa quando menos controversa realidade cultural. Persiste uma absoluta falta de percepção do Brasil em relação à América Hispânica, obtusidade que não se limita à esfera governamental, mas que é, sobretudo, abonada pela classe intelectual, por nossos escritores e artistas de uma maneira geral, abstraídos todos por eventuais glórias pessoais. Gente pífia, a dizer a verdade. E gente que vem ocupando os cargos mais decisivos, agora sim, na esfera governamental, criando obstáculo para qualquer mínima perspectiva de diálogo, a começar pelo próprio Ministério da Cultura, que alimenta tal círculo vicioso, cabendo aqui mencionar a decepção, em contato com os editores da Agulha, das Éditions Eulina Carvalho, ante a recusa oficial brasileira de ajuda à publicação de livros em Paris por ocasião da deferência francesa ao Brasil neste ano. Em msg que nos encaminhou Selda Carvalho, coordenadora editorial da referida casa, diz haver “muita decepção em relação ao Ano do Brasil”, e segue: “O Brasil oficial (Ministério, etc), informou que nenhuma ajuda seria dada à publicação de livros. Parece incrível, mas é a triste verdade. Cultura para o Brasil é só mesmo escola de samba que teremos, claro, em junho, como comemoração. Música, capoeira etc. Coisas interessantes e importantes, pois componentes da cultura brasileira, mas não teríamos mais que isso?” Seguimos entendendo cultura como atividade folclórica, agora com um agregado ainda mais deformador: a autopromoção do Ministro da Cultura, tido e mantido pelo presidente Lula, que se constitui em um dos mais agravantes equívocos de sua administração. Ricardo Daunt, um dos colabores da Agulha, também nos escreve a este respeito, dizendo-se “plenamente de acordo com um protesto veemente contra a barbárie sufragista em que a cultura se transformou; Brasília acolita pelegos e cultiva o comodismo intelectual e o favorecimento. Enquanto isso o Itamaraty enche aviões com exuberantes mulatas e pandeiretas para mostrar ao mundo o recheio do povo brasileiro. Países como a Irlanda, divulgam seus escritores, homenageiam-nos em todas as ocasiões. Aqui há o lobby cultural da pior extração.”

Na relação brasileira - sempre fortuita - com a América Latina - onde nem mesmo os países de língua francesa são percebidos em suas valiosas expressões culturais - não exercitamos senão um prolongamento colonial, curiosamente destronado, onde não agem sobre nós feitos e efeitos da coroa portuguesa, mas sim de outra matriz (a mesma?), francesa, agora piorados pela ação violenta e virulenta dos Estados Unidos em todo o mundo. De uma maneira ou de outra este imenso país chamado Brasil se deixa progressivamente diminuir por sua incapacidade de projetar um diálogo com o que lhe é mais essencial. Uma nação que se dispersa por si mesma, sem a menor necessidade de inimigo. Sendo nação culturalmente tão rica, não causa prejuízo somente a si mesma, mas interfere decisivamente no ambiente quando menos geográfico a que está intrinsecamente ligada. Seria outro o destino da América Latina se o Brasil compreendesse a importância do papel que representa em tal âmbito. Falta de método, de clareza? Inapetência? Ausência de princípios morais? É impressionante que se cobre a diário da Presidência da República assuntos os mais diversos, funcionais até, porém decorrentes, e não se toque na mais simples e fundamental de todas as questões: para ele, Lula, que papel imagina representar como presidente da nação mais influente em um processo de integração da América Latina?

Isto espelha que o assunto extrapola a esfera administrativa e se encontra enraizado em todos nós, sobretudo nas tais antenas da raça que tanto se auto-proclamam país adentro, e que, se diferem em discurso, em relação ao eixo Rio de Janeiro/São Paulo, o fazem somente por falta de oportunidade de igualar-se ao mesmo. A rigor, não há uma instituição federal cuidando do papel integrador da cultura latino-americana. Este âmbito não é compreendido, discutido, proposto, nada. Entradas no Brasil de importantes autores hispano-americanos se deram sempre em função de seu abono por parte de editoras e mídias estadunidenses ou européias, e o próprio boom da literatura fantástica acrescentou a este um outro equívoco quando menos curioso, o de identificar a realidade cultural hispano-americana como sendo uma só, e não o retrato múltiplo de efervescências culturais em torno de 19 países, cada um com suas singularidades. Em periódicos culturais onde se publicam autores hispano-americanos, no Brasil, mais ou menos se observa o mesmo critério, a aceitação internacional dos nomes veiculados. Trata-se de uma conseqüência de nossa autofágica política cultural.

Tudo isto precisa ser revisto, provocado, discutido exaustivamente. Ao longo de quatro anos a Agulha tem se posicionado em defesa de uma integração latino-americana. Ao circular em dois idiomas já acena neste sentido, o que difere radicalmente da absurda proposta do Ministro da Cultura, do Brasil, ao declarar que o portunhol deveria ser nossa língua comum. Em se tratando de cultura, o comum é o diverso. Considerando o fato de que há mais estímulo governamental ao conhecimento do inglês do que do espanhol no Brasil, cabe indagar o que planeja o Sr. Gilberto Gil em termos de língua comum e a que essa trivialidade lingüística nos levaria. Decerto não terá resposta, envolto que está com a perpetuação de sua imagem em palcos os mais variados. Diante disto, e aqui poderíamos avolumar particularidades, defendemos que o Itamaraty está mal posicionado. Não cabe em Brasília, por não fazer parte da política administrativa de toda a história de nossa república. Em momento algum a cultura é inserida nas pautas de negociação, em âmbito nacional ou internacional. Porém a cultura está acima da política e mesmo de qualquer grande ação militar. Nenhum país é lembrado por seus atos políticos ou militares, sobrevivendo a eles a contribuição cultural. Estamos aqui tomando posse do Itamaraty – ação que se pretende parte de nosso entendimento de uma escritura conquistada – no que diz respeito à seriedade que lhe devia caber na compreensão de uma política cultural comum à América Latina. Estamos deslocando o eixo. A partir deste momento – o que, sob certos aspectos, já vem se concretizando nos últimos anos – o Itamaraty é aqui.

Para aqueles que estranhem o real sentido desta simbologia cabe dizer que a responsabilidade por quaisquer atos indevidos da administração pública é de todos nós. Hoje estamos diante de um falseamento completo da realidade e temos mesmo que ir além da instância governamental. Nossa democracia é uma prova de conveniência. O Estado brasileiro está se desfazendo. É essencial e inadiável discuti-lo. Não fazemos a menor idéia da repercussão de nossa decisão, sobretudo porque apontamos a classe artística brasileira como cúmplice - ativa e passiva, a depender do caso, sem redimir responsabilidades - do processo brutal de mediocridade de nossa cultura. Tampouco se trata de uma posse retórica, considerando as realizações efetivas dos editores da Agulha e de alguns de seus continuados colaboradores. Estamos tomando posse do Itamaraty desde já aguardando que ele se manifeste e se recupere em relação à inadiável necessidade de fundação - conquista? - de um diálogo entre as culturas brasileira e hispano-americana.

Os editores

Leonel Maciel

sumário

1 a imagem da delícia e prazer de eros no poema "um sorriso", de ferreira gullar. josé carlos a. brito
2
al berto descoberto. lucila nogueira
3
antonio fernando de franceschi: o poeta e o divulgador de poesia (entrevista). claudio willer
4
carlos poveda en dos tiempos: 1. cuarenta años después. maría enriqueta guardia yglesias / 2. "la autenticidad es para mí lo más importante en el arte" (entrevista). franklin fernández
5
cidades:
hélio rola. floriano martins

6
marcel duchamp concentrado. juan calzadilla
7
entrevista con
antoni tàpies. miguel ángel muñoz
8
estranhamente óbvio - diálogo com
moacir amâncio. floriano martins
9
graciliano ramos & são bernardo. chico lopes 
10
guillermo cabrera infante: a oralidade em três tristes tigres. ronaldo costa fernandes
11
ilda david: a verdade de cada instante. ana marques gastão
12
los años intensos de
fernando alegría. sonia murillo-martin & carolina moroder
13
notas para una generación perdida: literatura mexicana de finales del siglo XX.
r. hernández rodríguez
14
o caso
qorpo-santo: escrita e loucura. alfredo schechtman
15
o cinema aos olhos de
liv ullmann (entrevista). antonio jr.

artista convidado leonel maciel (pintura) texto de josé ángel leyva
resenhas livros da agulha joão luis lafetá (por adelto gonçalves) ° francisco humberto cunha filho ° prisca agustoni (por floriano martins) ° claudio willer (por adelto gonçalves) ° ana hatherly ° moacir amâncio (por adelto gonçalves) ° serafina núñez & william osuna
música
discos da agulha antenor bogéa ° elton medeiros, nelson sargento & galo preto ° jorge simas ° lui coimbra ° pamela driggs °  qu4tro a zero ° roberto marques & roberto sion
cumplicidade galeria de revistas  

Leonel Maciel

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(
estados unidos)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
jo
sé ángel leyva (méxico)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (pintura)
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