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editorial
O
Itamaraty é aqui!
Na noite de 10 de março último, no auditório da
Embaixada da Venezuela, em Brasília, um dos editores da Agulha
recebeu uma homenagem pela publicação, em 1998, de Escritura
Conquistada (Diálogos com poetas latino-americanos). O livro teve, em seu tempo, uma boa atenção da imprensa, sobretudo
considerando que não houve edição comercial - saiu através de um
convênio entre Fund. Biblioteca Nacional e Univ. de Mogi
das Cruzes. O evento em Brasília foi auspiciado por entidades locais,
contando essencialmente com o apoio da Embaixada da República
Bolivariana da Venezuela. Na ocasião, além dos pronunciamentos do
embaixador venezuelano, José Julio García Montoya, do presidente da
Academia Brasiliense de Letras, Antonio Carlos Osório, e do próprio
autor do livro, Floriano Martins, o destaque se deu com a leitura de
poemas de seis dos 24 poetas incluídos no livro, leitura a cargo dos
poetas Aglaia Souza e João Carlos Taveira. Importa mencionar aqui
tudo isto por uma simples razão: a atenção despertada sobre este
livro, sete anos depois de sua publicação, nos traz de volta algumas
reflexões sugeridas à altura e que agora merecem indispensável
cotejo.
Logo no texto para as orelhas, o jornalista Lira Neto
observa, com base no título do livro, que “a proposta do encontro
é mesmo, desde já, uma conquista”, destacando “a possibilidade
de uma ponte necessária - e inadiável - entre dois territórios que,
absurdamente, não se reconhecem em suas semelhanças e contradições”.
Outras leituras críticas, da parte de nomes como José Paulo Paes,
Wilson Martins e José Castello, em seu tempo fizeram referência à
condição insular da América Latina, fato conhecido por todos, mas não
de todo percebido e em absoluto desprezado quando requer ações que o
corrijam ou eliminem. Ao
propor um diálogo o livro não se limitava apenas à forma escolhida
para evidenciar-se - a entrevista -, entrevista, neste caso, posta não
em seu formato jornalístico, mas sim disposta como uma conversa entre
dois poetas, conscientes do que a ocasião lhes propiciava. Sua atenção
maior dirigia-se ao diálogo entre culturas, busca tenaz de despertar,
através da poesia, uma percepção mútua entre elas.
A rigor, este diálogo segue sem existir. Em circunstância
alguma um livro apenas conquistaria tal meta, e nem mesmo se propunha
a fazê-lo em isolado. Pretendia-se mais uma pedra de toque, disposta
a provocar uma avaliação das purezas e impurezas dos metais
envolvidos em tal questão. Mas a verdade é que nada disto aconteceu,
não interferiu em aspecto algum de nossa quando menos controversa
realidade cultural. Persiste uma absoluta falta de percepção do
Brasil em relação à América Hispânica, obtusidade que não se
limita à esfera governamental, mas que é, sobretudo, abonada pela
classe intelectual, por nossos escritores e artistas de uma maneira
geral, abstraídos todos por eventuais glórias pessoais. Gente pífia,
a dizer a verdade. E gente que vem ocupando os cargos mais decisivos,
agora sim, na esfera governamental, criando obstáculo para qualquer mínima
perspectiva de diálogo, a começar pelo próprio Ministério da
Cultura, que alimenta tal círculo vicioso, cabendo aqui mencionar a
decepção, em contato com os editores da Agulha, das Éditions
Eulina Carvalho, ante a recusa oficial brasileira de ajuda à publicação
de livros em Paris por ocasião da deferência francesa ao Brasil
neste ano. Em msg que nos encaminhou Selda Carvalho, coordenadora
editorial da referida casa, diz haver “muita decepção em relação ao
Ano do Brasil”, e segue: “O Brasil oficial (Ministério, etc),
informou que nenhuma ajuda seria dada à publicação de livros.
Parece incrível, mas é a triste verdade. Cultura para o Brasil é só
mesmo escola de samba que teremos, claro, em junho, como comemoração.
Música, capoeira etc. Coisas interessantes e importantes, pois
componentes da cultura brasileira, mas não teríamos mais que
isso?” Seguimos entendendo cultura como atividade folclórica,
agora com um agregado ainda mais deformador: a autopromoção do
Ministro da Cultura, tido e mantido pelo presidente Lula, que se
constitui em um dos mais agravantes equívocos de sua administração.
Ricardo Daunt, um dos colabores da Agulha, também nos escreve
a este respeito, dizendo-se “plenamente de acordo com um protesto
veemente contra a barbárie sufragista em que a cultura se
transformou; Brasília acolita pelegos e cultiva o comodismo
intelectual e o favorecimento. Enquanto isso o Itamaraty enche aviões
com exuberantes mulatas e pandeiretas para mostrar ao mundo o
recheio do povo brasileiro. Países como a Irlanda, divulgam seus
escritores, homenageiam-nos em todas as ocasiões. Aqui há o lobby
cultural da pior extração.”
Na relação brasileira - sempre fortuita - com a América
Latina - onde nem mesmo os países de língua francesa são percebidos
em suas valiosas expressões culturais - não exercitamos senão um
prolongamento colonial, curiosamente destronado, onde não agem sobre
nós feitos e efeitos da coroa portuguesa, mas sim de outra matriz (a
mesma?), francesa, agora piorados pela ação violenta e virulenta dos
Estados Unidos em todo o mundo. De uma maneira ou de outra este imenso
país chamado Brasil se deixa progressivamente diminuir por sua
incapacidade de projetar um diálogo com o que lhe é mais essencial.
Uma nação que se dispersa por si mesma, sem a menor necessidade de
inimigo. Sendo nação culturalmente tão rica, não causa prejuízo
somente a si mesma, mas interfere decisivamente no ambiente quando
menos geográfico a que está intrinsecamente ligada. Seria outro o
destino da América Latina se o Brasil compreendesse a importância do
papel que representa em tal âmbito. Falta de método, de clareza?
Inapetência? Ausência de princípios morais? É impressionante que
se cobre a diário da Presidência da República assuntos os mais
diversos, funcionais até, porém decorrentes, e não se toque na mais
simples e fundamental de todas as questões: para ele, Lula, que papel
imagina representar como presidente da nação mais influente em um
processo de integração da América Latina?
Isto espelha que o assunto extrapola a esfera
administrativa e se encontra enraizado em todos nós, sobretudo nas
tais antenas da raça que tanto se auto-proclamam país
adentro, e que, se diferem em discurso, em relação ao eixo Rio de
Janeiro/São Paulo, o fazem somente por falta de oportunidade de
igualar-se ao mesmo. A rigor, não há uma instituição federal
cuidando do papel integrador da cultura latino-americana. Este âmbito
não é compreendido, discutido, proposto, nada. Entradas no Brasil de
importantes autores hispano-americanos se deram sempre em função de
seu abono por parte de editoras e mídias estadunidenses ou européias,
e o próprio boom da literatura fantástica acrescentou a este
um outro equívoco quando menos curioso, o de identificar a realidade
cultural hispano-americana como sendo uma só, e não o retrato múltiplo
de efervescências culturais em torno de 19 países, cada um com suas
singularidades. Em periódicos culturais onde se publicam autores
hispano-americanos, no Brasil, mais ou menos se observa o mesmo critério,
a aceitação internacional dos nomes veiculados. Trata-se de uma
conseqüência de nossa autofágica política cultural.
Tudo isto precisa ser revisto, provocado, discutido
exaustivamente. Ao longo de quatro anos a Agulha tem se
posicionado em defesa de uma integração latino-americana. Ao
circular em dois idiomas já acena neste sentido, o que difere
radicalmente da absurda proposta do Ministro da Cultura, do Brasil, ao
declarar que o portunhol deveria ser nossa língua comum. Em
se tratando de cultura, o comum é o diverso. Considerando o fato de
que há mais estímulo governamental ao conhecimento do inglês do que
do espanhol no Brasil, cabe indagar o que planeja o Sr. Gilberto Gil
em termos de língua comum e a que essa trivialidade lingüística nos
levaria. Decerto não terá resposta, envolto que está com a perpetuação
de sua imagem em palcos os mais variados. Diante disto, e aqui poderíamos
avolumar particularidades, defendemos que o Itamaraty está mal
posicionado. Não cabe em Brasília, por não fazer parte da política
administrativa de toda a história de nossa república. Em momento
algum a cultura é inserida nas pautas de negociação, em âmbito
nacional ou internacional. Porém a cultura está acima da política e
mesmo de qualquer grande ação militar. Nenhum país é lembrado por
seus atos políticos ou militares, sobrevivendo a eles a contribuição
cultural. Estamos aqui tomando posse do Itamaraty – ação que se
pretende parte de nosso entendimento de uma escritura conquistada
– no que diz respeito à seriedade que lhe devia caber na
compreensão de uma política cultural comum à América Latina.
Estamos deslocando o eixo. A partir deste momento – o que, sob
certos aspectos, já vem se concretizando nos últimos anos – o
Itamaraty é aqui.
Para
aqueles que estranhem o real sentido desta simbologia cabe dizer que a
responsabilidade por quaisquer atos indevidos da administração pública
é de todos nós. Hoje estamos diante de um falseamento completo da
realidade e temos mesmo que ir além da instância governamental.
Nossa democracia é uma prova de conveniência. O Estado brasileiro
está se desfazendo. É essencial e inadiável discuti-lo. Não
fazemos a menor idéia da repercussão de nossa decisão, sobretudo
porque apontamos a classe artística brasileira como cúmplice - ativa
e passiva, a depender do caso, sem redimir responsabilidades - do
processo brutal de mediocridade de nossa cultura. Tampouco se trata de
uma posse retórica, considerando as realizações efetivas dos
editores da Agulha e de alguns de seus continuados
colaboradores. Estamos tomando posse do Itamaraty desde já aguardando
que ele se manifeste e se recupere em relação à inadiável
necessidade de fundação - conquista? - de um diálogo entre as
culturas brasileira e hispano-americana.
Os editores |