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revista
de cultura # 44 |
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Ilda David: a verdade de cada instante Ana Marques Gastão
“Nenhum
organismo individual é eterno”; “somente o organismo universal é
eterno”, sustenta Oken (“Lehrbuch der Naturphilosophie”). Assim é a
arte de Ilda David, submersa, imersa, num todo cósmico, universal, não
obstante consciente da fugacidade das coisas, não vitimada por um
individualismo exclusivo, abrindo-se à participação dos outros, da
natureza, do mundo. Não há absoluto literário, como não existe
absoluto pictural, cada uma das vozes implica a relativização de uma
“verdade”. O absoluto transcende as categorias da lógica e as dimensões
da inteligibilidade. Talvez por isso os místicos, quando lhes é dado
viver pelo menos uma aproximação com o que pode ser entendido como
presença divina, se remetam ao silêncio, escolhendo vias simbólicas
indiretas que lhes permitam aludir a um acontecimento que transformou a
sua existência. A
pintura de Ilda David pode ser igualmente feita de silêncio, porque
participa de um jogo invisível de forças, consciente de que a morte do
corpo não significa necessariamente desaparecimento total da vida orgânica.
A natureza surge, então - define-a Schelling -, como valor em si, a
decomposição tendo como reverso uma continuidade vital, corporizada em
ciclos, em círculos, repetições, vibrações de contornos antropomórficos
que desobedecem à geometria das linhas, movimentos aéreos revelados pela
tela, turbilhões, chagallianas nuvens. À memória vêm as de Delacroix,
Géricault, o trágico e literário de Friedrich. A cor, essa, formando
uma ontologia, atua sobre a matéria, tema alquímico por excelência. Os
quatro elementos, o fogo, a água, o ar, a terra, instrumentos dos filósofos
para pensar o universo, são princípios de criação artística, dinâmica
da paisagem, constituída como um ato crítico. A frase de George Steiner
faz, nessa medida, todo o sentido: “Em pintura e em escultura, como em
literatura, a luz concentrada da interpretação (a hermenêutica) e o juízo
(a crítica, o normativo) encontram-se na obra ela mesma. A arte é a
melhor leitura da arte.” (“Real Presences”)
Poderia
pensar-se ser este um ponto de partida formal para alguma da pintura de
Ilda David; não somente. Natureza e arte (em Goethe distinguem-se apenas
em grau e não em qualidade) comunicam na forma, é certo, mas nada pode
ser entendido como fixo, imóvel, absoluto. Nesse dinamismo harmônico, o
de pressentir que quem se interessa pelo espírito se interessa pelos
elementos naturais, move-se esta arte, no registro de uma ordem que lhe é
imanente. A intuição da metamorfose não se constitui como um fim em si,
remete para a condição existencial e seu equilíbrio precário na relação
entre um Eu e um Tu: “La pression de l’ombre existe” (Hugo). Paira,
por outro lado, nas telas, a luminosidade reflectida na árvore - como tem
sucedido com a casa, sinônimo de morada, ou intimidade, memória ou metáfora
do mundo -, “leitmotiv” desta obra. Árvore, destino de grandeza do
espaço - substância sublime, como se lhe refere Rilke. Árvore, tranqüilidade
coagulada, reflexo especular, entre o uno e o múltiplo, da vastidão
humana (“vasto como a noite e como a claridade”, Baudelaire),
condutora do olhar no caminho das palavras de Jules Supervielle:
“Habitantes delicados das florestas de nós mesmos”, na solidão, no
amor. E os animais vão, ainda, deixando rasto nesta pintura transfigurada
por um traço etéreo. De
fora não fica a idéia de uma solidariedade entre o Eu e o Mundo, nem a
nostalgia como espécie de melancolia tornada possível pela consciência,
simultaneamente presença e ausência, baseada na insuficiência humana.
Talvez possamos mesmo falar de um espaço nostálgico, espécie de
geografia poética ou topografia mística que em si contêm a
possibilidade de um regresso a Ítaca, centro do universo. Para
Ilda David é a intuição “a priori” de um lugar cósmico que se
oferece à percepção por meio de motivos particulares. Ao contrário de
Constable, que distingue as manchas coloridas, fazendo-as corresponder às
coisas, transformando, no entanto, a sensação em noção, a pintora,
mais na linha de um Turner, entende o espaço como extensão infinita.
Turbilhões de água, nuvens (não são assim os céus das igrejas?),
alongadas ou encadeadas, leves ou saturadas, torrentes de luz, fumos,
configurações vulcânicas, fraturas, fissuras, texturas densas ou lisas,
gretadas ou convulsivas, acabam sendo reabsorvidos ao ritmo do movimento
universal, a natureza concebida não como reflexo do criador, mas como
ambiência de vida.
Não
será por acaso que as mais recentes exposições se intitulam
“Camarupa”, “nome de uma divindade indiana que se diverte a mudar de
formas”, nome que se aplica ao jogo de nuvens (definidas no dicionário
de Cândido de Figueiredo como “grande porção de coisas em
movimento”). E assim como as cores (ao contrário do que reza a teoria
newtoniana) podem ser efeito de uma estrutura psíquica, reproduzindo a
espiritualidade do observador, a concepção formal alia-se a uma dinâmica
da condição existencial, entendida como potencialidade separada de uma
fixidez. Somos e não somos, estrangeiros de nós próprios. Nessa dimensão
de que o mundo é parcial, tangível, resistente à morte, fragmentário,
finito e descontínuo (idéia tão proustiana), a criatividade, neste
caso, a pintura, respira: “Chaque jour je crois que j’existe pour la
dernière fois” (“Lettre à Nathalie Clifford Barney”, Marcel
Proust). É-se Outro, deste modo, fazendo flutuar, suspender, a angústia
pelos céus de Lisboa que Ilda David pinta, “au service un jour d’un
sentiment, le lendemain d’un autre” (“Du Côté de Chez Swan”). Na
novidade radical do instante - e ao contrário do sentido da tragédia
raciniana, o da impossibilidade de se ser reduzido ao momento presente -,
emana alguma da pintura de Ilda David na última fase (subjacente o método
da polaroid), captada na sedução sensível de uma paisagem apaziguadora,
de beleza plácida, as emoções transformando-se em fenômenos meteorológicos,
detentores de um ritmo. A biologia romântica insere o espírito na
natureza, assim é esta arte, intuição do dia, intuição noturna
alternantes, sensualidade e espiritualidade entrelaçadas, como se o
conhecimento da realidade não fosse meramente contemplativo, nascendo,
sim, de uma vontade de apropriação humana, do estabelecimento do equilíbrio
entre realidade interior e exterior - não há ruptura entre ambas. Há,
de fato, nela, uma distinção entre existência e “durée”,
atravessando-a idéia de uma permanência incompleta. Poder-se-ia
defini-la como Benjamin Constant define o amor, espécie de ponto luminoso
que, no entanto, parece apoderar-se do tempo. Esse o milagre da memória
afetiva que todos os românticos, muito antes de Proust, experienciaram,
ainda que de forma fugitiva.
A sua obra traduz a consciência dividida desta época, tornando-se, porém, na “percepção do sublime”, como se lhe refere num belíssimo texto o poeta José Tolentino Mendonça, numa subtil busca da unidade que lhe é subjacente. As últimas paisagens - com aglomerados de casas dentro -, espécie de estremecimentos suspensos, lançam uma escada entre mundos diversos, o de um tempo histórico paralisado, de fazer pesado e caótico, e o de uma poética da harmonia, na sua presença táctil e óptica, afirmando-se no vigor e na fragilidade rigorosa da matéria. A visão da pintora torna o efêmero numa duração paradoxal. E o espaço é tempo, ou seja, como escreve Heidegger ao tratar o conceito hegeliano de tempo, “o tempo é a verdade do espaço.” Esquecem-se, então, a impaciência, o tédio, o vazio entretece-se como cheio, e a cor, diurna ou crepuscular - suaves os tons terrosos, invadindo a natureza -, assemelha-se ao som do gotejar da chuva ou à abrasadora voz solar. A paisagem transforma-se em reminiscência de algo desaparecido ou nunca encontrado e move-se, altera-se, constitui-se soma do que era antes e virá a ser depois. Na descoberta de um outro, suspenso, instante. |
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Ana Marques Gastão (Portugal, 1962). Poeta, redatora cultural do Diário de Notícias e crítica literária. Autora de Terra sem Mãe (2000), Nocturnos (2002), e Nós (2004) sobre obras de Paula Rego. Editou no Brasil uma antologia pessoal intitulada A Definição da Noite (Escrituras, 2003). Este texto foi escrito tendo como pano de fundo três exposições de Ilda David, respectivamente, no Chiado 8 - Arte Contemporânea, Pavilhão Branco (Museu da Cidade) e Espaço Giefarte, realizadas em Lisboa. Contato: amgastao@dn.pt. Página ilustrada com obras da artista Ilda David (Portugal). |
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