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revista
de cultura # 44 |
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A imagem da delícia e prazer de eros no poema "Um sorriso", de Ferreira Gullar José Carlos A. Brito
Diríamos
que o signo, em Ferreira Gullar, esse distintivo, refere-se à emoção
veiculada do movimento externo para o poema, e o símbolo é o que ele
sempre deve ter procurado, como o imaginário fabricado de dentro, que
necessitava ser traduzido de alguma outra forma. No decorrer de sua obra,
sente-se que em determinados momentos predomina um e em outros aparece
mais a evidência da necessidade do símbolo. Na constante procura dessas
formas de linguagem, Ferreira foi um pioneiro em provocar inovações, e o
exemplo máximo deste aspecto da linguagem-distintivo, encontra-se no
poema Roçzeiral (que talvez junte roça e rosa), do qual passamos a
mostrar um trecho, apenas: Au
sôflu i luz ta pom- Vejamos
o que a respeito disso nos fala o crítico Ivo Barroso: “O poeta,
depois de passar por todos os processos poéticos formais - do soneto
camoniano ao poema em prosa, do verso livre ao poema pré-concreto -
verifica, de repente, que esgotou suas possibilidades de compor e que dali
por diante só seria possível repetir-se (…) Pareceu-lhe então que o
concretismo seria a lateral de escape do impasse, mas logo, verificando um
sinal de stop (…) e cria o neoconcretismo, o livro-poema, o
poema-espacial e o poema enterrado, todos na vã tentativa de reencontrar
a linguagem perdida…”. Após essa fase da procura daquilo que os
críticos chamariam de “linguagem conceitual” assistimos ao
poeta mergulhar no verso da poesia de cordel, por ver tocada, a sua
sensibilidade, mais uma vez, pelo objeto externo - que o surpreende - no
caso a fome, a exploração do povo e o clima de revolta popular e social
dos anos 60, que levou ao golpe militar e à ditadura de 64 e o nosso
poeta ao exílio. Nas formas do cordel, o objeto externo (sensibilizador)
lhe pede um entendimento em linguagem cultural do sujeito oprimido,
portanto, no meu entender, não haveria diferença de essência entre o
“conceitual” e o cordel. Uma amostra: Zé
Molesta é um Zé Franzino
…Não obstante, Em
1980, já no Brasil, Ferreira Gullar, entra em nova etapa de travessia.
Ali é possível encontrar um forte potencial de produção da energia
libidinal, que acende seu fogo interno, para vivenciar-se no produzir erótico
da imaginação do símbolo vivo, onde o oculto não precisa ser
escondido, mas gozado, numa representação própria. E é este poema, Um
Sorriso, encontrado no livro de 80, A Vertigem do Dia, que
escolhemos para comentar. Depois,
Gullar chega à sua fase atual de Muitas Vozes (99) sobre a qual,
Ivo Barroso comenta: “Gullar readquiriu uma linguagem viva como quem
chega de novo ao mundo, linguagem destituída de artifícios, mas tensa de
emoção…” E nós, de forma alguma, nos atreveríamos a dizer que
ele tenha chegado ao mundo, por uma simples razão: já estava nele e
cantava de uma forma extraordinária esse o mundo; apenas procurava o
distinto (distintivo) para marcar as identidades especiais dos objetos que
lhe falavam. Diríamos melhor, que ele chegou a outro mundo. No
poema Um Sorriso, Ferreira Gullar, empreende uma tarefa criadora, não
apenas um jogo de articulações com palavras montadas em ritmo poético.
Vejamos o poema: Quando
Esse
poema de Ferreira Gullar, por carregar alma e emoção, oferece um símbolo
de caráter autônomo plasmado no sorriso, fruto da chama (antorcha
acesa), que se transforma em flor noturna, e ilumina no rosto.
Tudo vindo da mão do delírio, e transportado pelas imagens
pululantes do inconsciente, libertando a libido acumulada e reprimida lá
dentro, para surgir, transformada em labareda. O símbolo é sempre
a representação de algo desconhecido, que no momento não pode ser
representado por outra coisa melhor que um sorriso. Não é, portanto,
apenas a representação direta de um prazer, emanado da outra pessoa, porém,
fala de algo mais além, que se encontra numa mudança interna do autor,
ao ver refletida essa descoberta, do algo desconhecido, mas intenso, que
por estar no sorriso, recebe na consciência o tratamento emocional do
poema. E este, por sua vez, plasma o momento da mudança, através de um
grande impacto emocional. O
homem fez-se o poderoso dominador da terra, e usou a criação do símbolo
supremo dos deuses para auxiliar seu ego a estender o domínio às almas e
estabelecer sua máxima conquista cristalizada sobre feminino. O feminino
reprimido se revelará a cada instante, na reconstrução da alma,
masculina ou feminina. E a partir disso, o poeta descreve que está
cansado (e esvaziado) de ser essa assassina fúria do macho, isto
é, o poder absoluto cuja alma (feminino) vive nos deuses, abandonando-o;
portanto sente-se fora do estado de delicia, pois é de pressupor que ele
tenha vivido durante muito tempo sob a ação da máscara (revolução,
missão, dever social, etc.) escravizado no âmbito coletivo (da cultura
massificada imposta de fora), que o afasta da individualidade criativa.
Portanto, um dominado, que o vazio de amor transformou no arquétipo do
dominador, e, segundo ele é identificado como produtor de fúria. Porém,
o poeta atrai ao poema o fogo da libido - soltando possíveis elementos
para dar-lhes autonomia - formada, essa energia, pelo processo de sedução
da alma (através da imagem feminina, que vai ser mobilizada) e que surgirá
quando o rosto dela sorrir. O fogo libidinal com minha mão de fogo,
que estabelece as sensações do desejo, é levado para aquecer o processo
de liberação do inconsciente, esse acender instintivo da alma, por
intermédio do símbolo da rosa (em rosa), concretizando-se ao
sensibilizar com a mão a parte embaixo que se espetala.
Para identificar esse caminho e certificar à sua psique de encontrar-se
no lugar certo, lembra o cheiro da urina, outro elemento de
contribuição para o objetivo de formar a imagem viva, pois esse cheiro
é um sinal conhecido por sua psique; possivelmente uma conexão para
despertar a memória da vida do imaginário. Serve para guiar-se, pelo
olfato e o tato, não se desviando do caminho, e assim incendiar a libido,
tendo encontrado o percurso do infante de Fernando Pessoa (no poema Eros e
Psique) que leva ao encontro da princesa que em sono dormia. Para
a circulação do fenômeno energético, necessita-se do principio dos
dois pólos em posição oposta. Diante da energia feminina acumulada no
corpo da mulher, é preciso movimenta-la para que transborde,
desenvolvendo o ciclo da geração de libido. Portanto, ante a representação
viva do feminino, o poeta precisou criar o antagônico, com a finalidade
de dinamizar o oposto da ternura. Assim nasce toda essa fúria
assassina do macho, agora cumprindo o papel de imagem necessária que
busca em fogo o sorriso e a iluminação do rosto. E,
note-se, que a forma circular de movimento da energia vai de baixo para
cima. Manobra essa, auxiliada pela mão (em oposto) assassina do macho,
que leva como labareda o fogo e colhe, em cima, o sorriso da libido
transbordante; algo como se um cego penetrasse a noite e fosse
guiado pela flor identificada no cheiro de urina e mel - este sendo
doce para acrescenta-lhe a característica da aceitação da urina pelo
paladar erotizado.
As
perguntas que o poeta faz são o jogo; funcionam como indagações
instrumentais de sua criação; como o cinzel do escultor, que sempre
indaga o rumo a tomar para formar a obra esculpida: que busco eu em
fogo? aqui embaixo? Mas será que o próprio poeta não estará também
à procura de uma elucidação das coisas ocultas, das interrogações do
seu próprio caminho novo, que por ser ainda em boa parte repleto de
desconhecido é representado pelo símbolo do sorriso? Por esse tipo de símbolo
escolhido, provavelmente uma coisa ele já sabe, esse novo trajeto é a
trilha do sentimento afetivo. E
assim fica assinalado não ser esta poesia apenas um jogo de palavras -
como antes houve muitas em Ferreira Gullar - para representar uma
continuidade dos signos já conhecidos e de suas trajetórias escolhidas.
Mesmo que, no presente poema, esse jogo exista também, ao estilo de um
bom manual, servindo a todos com instruções de como proceder para
movimentar a libido, em qualquer circunstância, e encontrar reciprocidade
no ato afetivo ou, simplesmente, de como gozar. Mas, além disso, existe
por trás do aparente, algo mais profundo, que tem a ver com a descoberta
de uma parte oculta da psique do poeta, que antes, ao identificar-se,
aparecia mais com formas externas da máscara. É
bem provável que o poeta procure refazer sua individualidade (depois do
período de transferência da utopia das imagens primordiais para a luta
social?) através de criações simbólicas, onde a alma não mais viva
fora, nos deuses criados nos processos e exercícios de sua função de
macho dominador (arquétipo da máscara), que pressupõe fêmea (sua alma)
subordinada; relação implícita a um vazio de prazer e satisfação em
que o ego fica condenado a viver nas aparências da persona, semelhante
aos formalismos compulsórios impostos pela sociedade. Mas, com seu símbolo
individuado ou a junção do imaginário noturno com a luz da consciência,
o poeta aciona a imaginação, e dá nome aos bois ao buscar esse estado
de felicidade; e localizar a totalidade (diversificada) dentro da alma,
num conhecimento maior de sua psique. Logo, não será mais, apenas, a
alma colocada em qualquer deus exterior, onde o conceito do belo é a
imagem fútil da mídia mercadológica. Se,
por um lado, o ser humano, em sua história, no referente às coisas de
essência primitiva, cria o símbolo dos deuses para dominar as forças da
natureza e sobrepor-se a elas; por outro, ele, ao deixar-se dominar pelo
amor e despertar sua psique adormecida, precisa exercer a criação de
muitos outros símbolos (outros deuses?) que o redimem e o integram à
natureza, como um igual. O poema de Ferreira Gullar é um bom exemplo para determinar a função da poesia, como instrumento criador de símbolos vivos e libertar-se do domínio arcaico dos símbolos mórbidos, pois Gullar, através de sua vida criativa de constantes mudanças, demonstra que tem percebido os momentos de esgotamento de cada etapa; e sempre procura avidamente a seguinte, com saídas de impacto ou períodos de longa reflexão. O Um sorriso, nos lembraria o encontro de uma religiosidade viva e livre, essencialmente pagã e politeísta, formada através do amor, em contraposição ao dogma. Este último significa tentativa repressora à ação libidinal de Eros, isto é, à ação libertária e transcendente (síntese) de nosso impulso criativo, que precisa cultuar uma multiplicidade de deuses, porque criar (a procura) implica em entender a criação autônoma dos outros (o sorriso). |
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José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e
articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas
do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br.
Página ilustrada com obras do artista Leonel Maciel (México). |
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