revista de cultura # 44
fortaleza, são paulo - março de 2005






 

A imagem da delícia e prazer de eros no poema "Um sorriso", de Ferreira Gullar

José Carlos A. Brito

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Ferreira GullarFerreira Gullar, que nasceu em 1930, começou como determinados poetas profundos, guiado pela sensibilidade do objeto, cujos movimentos ele espreita ao circundarem em sua volta para, no momento preciso, repentinamente, deixar-se surpreender por eles, a ponto de ser despertado emotivamente e assim ver-se na eminência de produzir o poema. Nada que saia continuo de dentro, por assim dizer, já com a linguagem costumeira, à espera, para ir plasmando a poesia à maneira dos estilos existentes. Gullar é um poeta que nos parece receber, e surge na “linguagem” do movimento das coisas, que não possuem nossa forma conhecida, mas se transmitem pela emanação de uma certa energia, à qual o poeta é suscetível, e desperta. Armado daquele poema, natural, sem linguagem, o poeta resolve ir à cata de formato extraordinário, diferente, nada comum a lembrar a escrita convencional existente, porém que se identifique com a emoção captada no plano de diamante bruto. Algo como, não querer traduzir a emoção pelos meios lingüísticos conhecidos, para evitar sua redução. Sente a necessidade de sinalizar, chamar atenção para o estranho da coisa, com dizeres de certa aparência incompreensível, funcionando apenas como signos, emblemas, distintivos que representem essa comunicação própria e diferente das coisas em si. Um certo esforço estético por transmitir aos outros a impressão do poder puro, que o poeta sentiu quando foi provocado pelas emoções. E nesse caso, não se pode esquecer a diferença existente entre símbolo e distintivo.

Diríamos que o signo, em Ferreira Gullar, esse distintivo, refere-se à emoção veiculada do movimento externo para o poema, e o símbolo é o que ele sempre deve ter procurado, como o imaginário fabricado de dentro, que necessitava ser traduzido de alguma outra forma. No decorrer de sua obra, sente-se que em determinados momentos predomina um e em outros aparece mais a evidência da necessidade do símbolo. Na constante procura dessas formas de linguagem, Ferreira foi um pioneiro em provocar inovações, e o exemplo máximo deste aspecto da linguagem-distintivo, encontra-se no poema Roçzeiral (que talvez junte roça e rosa), do qual passamos a mostrar um trecho, apenas:

Au sôflu i luz ta pom-
     Pa inova´
            orbita
                 FUROR
                 tô bicho
                 ´scuro fo-
                  go 
                    Rra
UILÁN,
UILÁN,
        lavram z´olhares, flamas!
CRESPITAM GÂNGLES RÔ MASUAF
                                Rhra

Vejamos o que a respeito disso nos fala o crítico Ivo Barroso: “O poeta, depois de passar por todos os processos poéticos formais - do soneto camoniano ao poema em prosa, do verso livre ao poema pré-concreto - verifica, de repente, que esgotou suas possibilidades de compor e que dali por diante só seria possível repetir-se (…) Pareceu-lhe então que o concretismo seria a lateral de escape do impasse, mas logo, verificando um sinal de stop (…) e cria o neoconcretismo, o livro-poema, o poema-espacial e o poema enterrado, todos na vã tentativa de reencontrar a linguagem perdida…”. Após essa fase da procura daquilo que os críticos chamariam de “linguagem conceitual” assistimos ao poeta mergulhar no verso da poesia de cordel, por ver tocada, a sua sensibilidade, mais uma vez, pelo objeto externo - que o surpreende - no caso a fome, a exploração do povo e o clima de revolta popular e social dos anos 60, que levou ao golpe militar e à ditadura de 64 e o nosso poeta ao exílio. Nas formas do cordel, o objeto externo (sensibilizador) lhe pede um entendimento em linguagem cultural do sujeito oprimido, portanto, no meu entender, não haveria diferença de essência entre o “conceitual” e o cordel. Uma amostra:

Zé Molesta é um Zé Franzino
nascido no Ceará
mas cantador como ele
no mundo inteiro não há.
Com seis anos sua fama
corria pelo Pará;
com oito ganhava um prêmio
de cantador no Amapá;
com nove ensinava grilo
a cantar dó-ré-mi-fá;
com dez fazia um baiano
desconhecer vatapá.

Leonel MacielEm Ferreira Gullar, é singular essa dupla experiência, que o enriquece como a nenhum outro; por um lado temos a sensibilidade aliada ao experimento externo do objeto, em direção à plasticidade direta da arte, e por outro, o despontar dos arquétipos latentes de suas imagens interiores, que reclamavam a hora de explodir. Essa fase intermediária, onde os dois fatores emergem juntos na poesia de Gullar, tem como maior exemplo seu grande poema de travessia, o Poema Sujo. Ali, ele choca mais uma vez pela surpresa e Vinicius de Morais, no fervor do entusiasmo, declara o seguinte “…é o mais importante poema escrito em qualquer língua nas ultimas décadas…” É´ neste poema, criado no exílio de Buenos Aires, onde a utopia é retomada na saudade do Brasil, e Gullar, para identificar-se claramente com essa imagem, aceita sua terra almejada, como suja, quer dizer, humana e intimamente sua. No caso, o objeto estaria entrando em sua psique de aceitação? Já em muitas dessas estrofes tropeçamos com imagens primordiais de seu imaginário interior, de cunho ora sexual, ora mítico, misturadas a arquétipos da cidade natal. Deste poema longo, vai aqui um pequeno trecho:

                    …Não obstante,
alguém que venha da rua
       - tendo caminhado sob a fantástica imobilidade
              da Via-Láctea -
                        pode ter a impressão,
              diante daqueles corpos adormecidos,
                         de que o universo morreu
                         (quando de fato
                         em todas as torneiras da cidade
                         a manhã está prestes a jorrar)…

Em 1980, já no Brasil, Ferreira Gullar, entra em nova etapa de travessia. Ali é possível encontrar um forte potencial de produção da energia libidinal, que acende seu fogo interno, para vivenciar-se no produzir erótico da imaginação do símbolo vivo, onde o oculto não precisa ser escondido, mas gozado, numa representação própria. E é este poema, Um Sorriso, encontrado no livro de 80, A Vertigem do Dia, que escolhemos para comentar.

Depois, Gullar chega à sua fase atual de Muitas Vozes (99) sobre a qual, Ivo Barroso comenta: “Gullar readquiriu uma linguagem viva como quem chega de novo ao mundo, linguagem destituída de artifícios, mas tensa de emoção…” E nós, de forma alguma, nos atreveríamos a dizer que ele tenha chegado ao mundo, por uma simples razão: já estava nele e cantava de uma forma extraordinária esse o mundo; apenas procurava o distinto (distintivo) para marcar as identidades especiais dos objetos que lhe falavam. Diríamos melhor, que ele chegou a outro mundo.

No poema Um Sorriso, Ferreira Gullar, empreende uma tarefa criadora, não apenas um jogo de articulações com palavras montadas em ritmo poético. Vejamos o poema:

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
          embaixo
          te espetalas
quando
      com minha acesa antorcha e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina 
e mel
     que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
             que busco eu 
                        em fogo
              aqui embaixo?
              senão colher com a repentina
              mão do delírio
              uma outra flor: a do sorriso
              que no alto o teu rosto ilumina?

Leonel MacielQual a diferença entre criação e jogo? Pensamos o jogo como elementos colocados pelo autor, sem envolvimento emotivo vindo de dentro; fatores observados ou de experiência própria, que o intelecto lapida para transforma-los numa obra, cujas luzes e formas desenhadas são externas e recebem cores da exterioridade pensada, mesmo que as imagens se tenham articulado inicialmente no processo exterior-interior. Por outro lado, a criação, talvez usando elementos equivalentes, está onde o poeta se envolve, intuitivamente, com paixão. Significa que um pedaço dele, ou melhor, de sua alma, foi junto, no poema, e ao desprender-se dele, o poeta só volta a reencontrá-la quando, ao reler o poema, é tocado novamente pela energia que produziu. No poema Um Sorriso, de Gullar, esses elementos da alma, levados pela poesia, expressam o fruto de seu amor e acionam todo o movimento imagético que, como símbolo, possui a característica (eterna?) de movimentar a energia, em contato com qualquer outra alma que seja igualmente tocada, ao ler e captar a imagem. Diríamos que todo criador, após escrever uma obra, passa a ser leitor da mesma, e como qualquer outro leitor que recebe dela o primeiro impacto, pode retornar à sua criação ao vivenciá-la. Portanto a emoção oferece uma transmissão que o jogo sozinho não pode fazer. E também é essa a diferença entre conceito e símbolo; do conceito nada de novo se produz, enquanto que o símbolo é vivo na reprodução.

Esse poema de Ferreira Gullar, por carregar alma e emoção, oferece um símbolo de caráter autônomo plasmado no sorriso, fruto da chama (antorcha acesa), que se transforma em flor noturna, e ilumina no rosto. Tudo vindo da mão do delírio, e transportado pelas imagens pululantes do inconsciente, libertando a libido acumulada e reprimida lá dentro, para surgir, transformada em labareda. O símbolo é sempre a representação de algo desconhecido, que no momento não pode ser representado por outra coisa melhor que um sorriso. Não é, portanto, apenas a representação direta de um prazer, emanado da outra pessoa, porém, fala de algo mais além, que se encontra numa mudança interna do autor, ao ver refletida essa descoberta, do algo desconhecido, mas intenso, que por estar no sorriso, recebe na consciência o tratamento emocional do poema. E este, por sua vez, plasma o momento da mudança, através de um grande impacto emocional.

O homem fez-se o poderoso dominador da terra, e usou a criação do símbolo supremo dos deuses para auxiliar seu ego a estender o domínio às almas e estabelecer sua máxima conquista cristalizada sobre feminino. O feminino reprimido se revelará a cada instante, na reconstrução da alma, masculina ou feminina. E a partir disso, o poeta descreve que está cansado (e esvaziado) de ser essa assassina fúria do macho, isto é, o poder absoluto cuja alma (feminino) vive nos deuses, abandonando-o; portanto sente-se fora do estado de delicia, pois é de pressupor que ele tenha vivido durante muito tempo sob a ação da máscara (revolução, missão, dever social, etc.) escravizado no âmbito coletivo (da cultura massificada imposta de fora), que o afasta da individualidade criativa. Portanto, um dominado, que o vazio de amor transformou no arquétipo do dominador, e, segundo ele é identificado como produtor de fúria.

Porém, o poeta atrai ao poema o fogo da libido - soltando possíveis elementos para dar-lhes autonomia - formada, essa energia, pelo processo de sedução da alma (através da imagem feminina, que vai ser mobilizada) e que surgirá quando o rosto dela sorrir. O fogo libidinal com minha mão de fogo, que estabelece as sensações do desejo, é levado para aquecer o processo de liberação do inconsciente, esse acender instintivo da alma, por intermédio do símbolo da rosa (em rosa), concretizando-se ao sensibilizar com a mão a parte embaixo que se espetala. Para identificar esse caminho e certificar à sua psique de encontrar-se no lugar certo, lembra o cheiro da urina, outro elemento de contribuição para o objetivo de formar a imagem viva, pois esse cheiro é um sinal conhecido por sua psique; possivelmente uma conexão para despertar a memória da vida do imaginário. Serve para guiar-se, pelo olfato e o tato, não se desviando do caminho, e assim incendiar a libido, tendo encontrado o percurso do infante de Fernando Pessoa (no poema Eros e Psique) que leva ao encontro da princesa que em sono dormia.

Para a circulação do fenômeno energético, necessita-se do principio dos dois pólos em posição oposta. Diante da energia feminina acumulada no corpo da mulher, é preciso movimenta-la para que transborde, desenvolvendo o ciclo da geração de libido. Portanto, ante a representação viva do feminino, o poeta precisou criar o antagônico, com a finalidade de dinamizar o oposto da ternura. Assim nasce toda essa fúria assassina do macho, agora cumprindo o papel de imagem necessária que busca em fogo o sorriso e a iluminação do rosto. E, note-se, que a forma circular de movimento da energia vai de baixo para cima. Manobra essa, auxiliada pela mão (em oposto) assassina do macho, que leva como labareda o fogo e colhe, em cima, o sorriso da libido transbordante; algo como se um cego penetrasse a noite e fosse guiado pela flor identificada no cheiro de urina e mel - este sendo doce para acrescenta-lhe a característica da aceitação da urina pelo paladar erotizado.

Leonel MacielO sentido da cegueira é o de abolir as formas externas (dos objetos conhecidos, digamos) e assim caminhar pelo interior, sendo essa a única forma possível de ver o sorriso através do sentimento visível da alma. Como a alma enxerga mais claramente nas trevas, na noite (onde somente assim é possível ver as estrelas), cegar-se é encontrar uma maneira de ver através dessa expressão visionária, isto é, a forma viva do símbolo da aceitação. 

As perguntas que o poeta faz são o jogo; funcionam como indagações instrumentais de sua criação; como o cinzel do escultor, que sempre indaga o rumo a tomar para formar a obra esculpida: que busco eu em fogo? aqui embaixo? Mas será que o próprio poeta não estará também à procura de uma elucidação das coisas ocultas, das interrogações do seu próprio caminho novo, que por ser ainda em boa parte repleto de desconhecido é representado pelo símbolo do sorriso? Por esse tipo de símbolo escolhido, provavelmente uma coisa ele já sabe, esse novo trajeto é a trilha do sentimento afetivo.

E assim fica assinalado não ser esta poesia apenas um jogo de palavras - como antes houve muitas em Ferreira Gullar - para representar uma continuidade dos signos já conhecidos e de suas trajetórias escolhidas. Mesmo que, no presente poema, esse jogo exista também, ao estilo de um bom manual, servindo a todos com instruções de como proceder para movimentar a libido, em qualquer circunstância, e encontrar reciprocidade no ato afetivo ou, simplesmente, de como gozar. Mas, além disso, existe por trás do aparente, algo mais profundo, que tem a ver com a descoberta de uma parte oculta da psique do poeta, que antes, ao identificar-se, aparecia mais com formas externas da máscara.

É bem provável que o poeta procure refazer sua individualidade (depois do período de transferência da utopia das imagens primordiais para a luta social?) através de criações simbólicas, onde a alma não mais viva fora, nos deuses criados nos processos e exercícios de sua função de macho dominador (arquétipo da máscara), que pressupõe fêmea (sua alma) subordinada; relação implícita a um vazio de prazer e satisfação em que o ego fica condenado a viver nas aparências da persona, semelhante aos formalismos compulsórios impostos pela sociedade. Mas, com seu símbolo individuado ou a junção do imaginário noturno com a luz da consciência, o poeta aciona a imaginação, e dá nome aos bois ao buscar esse estado de felicidade; e localizar a totalidade (diversificada) dentro da alma, num conhecimento maior de sua psique. Logo, não será mais, apenas, a alma colocada em qualquer deus exterior, onde o conceito do belo é a imagem fútil da mídia mercadológica.

Se, por um lado, o ser humano, em sua história, no referente às coisas de essência primitiva, cria o símbolo dos deuses para dominar as forças da natureza e sobrepor-se a elas; por outro, ele, ao deixar-se dominar pelo amor e despertar sua psique adormecida, precisa exercer a criação de muitos outros símbolos (outros deuses?) que o redimem e o integram à natureza, como um igual.

O poema de Ferreira Gullar é um bom exemplo para determinar a função da poesia, como instrumento criador de símbolos vivos e libertar-se do domínio arcaico dos símbolos mórbidos, pois Gullar, através de sua vida criativa de constantes mudanças, demonstra que tem percebido os momentos de esgotamento de cada etapa; e sempre procura avidamente a seguinte, com saídas de impacto ou períodos de longa reflexão. O Um sorriso, nos lembraria o encontro de uma religiosidade viva e livre, essencialmente pagã e politeísta, formada através do amor, em contraposição ao dogma. Este último significa tentativa repressora à ação libidinal de Eros, isto é, à ação libertária e transcendente (síntese) de nosso impulso criativo, que precisa cultuar uma multiplicidade de deuses, porque criar (a procura) implica em entender a criação autônoma dos outros (o sorriso).

José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Leonel Maciel (México).

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