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revista
de cultura # 44 |
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Guillermo Cabrera Infante: a oralidade em Três tristes tigres Ronaldo Costa Fernandes
Morre
um dos grandes mitos do boom da literatura hispano-americana, aparecido
nos anos 60. Cabrera Infante pertence à geração de Julio Cortázar,
Carlos Fuentes, Manuel Scorza, García Márquez, Mario Vargas Llosa e
tantos outros. Vindo após os escritores mais experimentados de outras décadas
como os argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares e o mexicano
Juan Rulfo, Guillermo Cabrera Infante não aderiu ao realismo mágico. Guillermo
Cabrera Infante, ao contrário dos seus pares de literatura, abominava o
realismo mágico. Em entrevista que deu para Geneton Moraes Neto, em 1977,
sobre literatura, o exílio e seus companheiros de aventura literária,
falou sobre García Márquez e o realismo mágico. Foi sarcástico:
“Quando o sujeito começa a levitar em Cem anos de solidão, eu parei de
ler. Já tinha visto aquilo no filme A noviça rebelde”. Nesta mesma
entrevista, elogiou com entusiasmo Guimarães Rosa pelo modo como o
brasileiro contribuiu de forma extraordinária para a língua literária. Cabrera
Infante era um anticastrista convicto. Dizia-se um “reacionário de
esquerda”. Homem de opiniões fortes, expressas em entrevistas, artigos
e ensaios. Do companheiro de boom Carlos Fuentes afirmava ser um bom político,
mas escritor de parcos recursos. Cabrera foi diplomata, de 1962 a 1965,
ocupando o cargo de adido cultural do governo cubano na Bélgica. É em
Bruxelas, no seu “exílio siberiano”, como ele próprio chamou, que
escreve o romance Três tristes tigres. Em 1965, exila-se em Londres. Conversei
com o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez, autor de O rei de Havana,
quando este esteve em Brasília para participar da Rodas de Leitura do
CCBB. Em casa de Sérgio de Sá, que o recepcionou, perguntei sobre
Cabrera Infante e a causa real de sua ruptura com o regime castristra.
Gutiérrez tem uma versão muito havanesa sobre a “briga”. Contou-me
que, em Havana, fala-se que Cabrera Infante tinha rompido com Fidel Castro
não por questão ideológica, mas por diferença de temperamento. Nascido
em Gibara, em 1929, foi muito jovem para a capital (1941). Mais tarde,
ex-estudante de Medicina, sobressai-se como crítico de cinema e
jornalista. Destacando-se na vida cultural de Cuba, Cabrera Infante,
segundo ainda Gutiérrez, alimenta um ego que conseguia ser maior que o de
Fidel, logo não poderia haver compatibilidade e Cabrera exila-se. Jornalista,
crítico de cinema, roteirista, Cabrera Infante é o fundador da
Cinemateca Cubana que dirige de 1951 a 1956. E, em 1959, com o triunfo da
Revolução Cubana, é-lhe oferecido o cargo de diretor do Conselho
Nacional de Cuba. Publica,
em 1960, o livro de contos Así en la paz como en la guerra. Sua
bibliografia é variada. Conta com livros de contos, além do último
citado, vale a pena incluir Delito por bailar chachachá (1995,
traduzido para português por Floriano Martins), ensaios sobre cinema (Un
oficio del siglo XX), cigarros (Holy Smoke, escrito em inglês)
e até sobre cidades. A ser ressaltados, entre os títulos, está o
romance autobiográfico La Habana para un infante difunto (1979) e,
principalmente, sua obra mais conhecida e de maior valor literário: Três
tristes tigres, publicada em 1967. 2.
Três tristes tigres (o título já dá a idéia da narrativa: refere-se a um trava-línguas famoso) é um romance com vários personagens que perambulam por La Rampa, o bairro boêmio de Havana, entrando e saindo de cabarés, mantendo longos diálogos e envolvendo-se na noite pré-castrista entre fantasias e desventuras de jovens aventureiros e intelectuais (Códac, o fotógrafo, Bustrófedon - o homem dos jogos verbais e mentais, Arsenio Cué, Silvestre e Eribó). As influências de Cabrera Infante são Lewis Carroll, James Joyce, Sterne e Petrônio. Este último pelo deambular dos personagens. Se Petrônio faz de Roma seu campo de atuação, Cabrera Infante recria sua Roma decadente na Havana do ditador Batista. Surge, por exemplo, o cabaré Tropicana, que um dos personagens diz ser ali “nuestro foro romano del canto y la danza y el amor a media-luz”. Romance
fragmentário, com várias vozes, de um humor exuberante e uma constante
brincadeira com as palavras (um dos momentos intelectualmente mais
instigadores é quando Cabrera Infante parodia, com muita graça, os mitos
literários cubanos escrevendo à maneira, entre outros, de Alejo
Carpentier e Lezama Lima). As narrativas em primeira pessoa mostram uma
vivacidade que as traduções não conseguem recriar. Cabrera dizia que o
espanhol falado no livro é um argot (gíria) de um determinado grupo de
uma determinada área (La Rampa) de Cuba.
Na
introdução do livro, o autor mesmo adverte: este livro está escrito em
cubano. “Es
decir, escrito en los diferentes dialectos del español que se hablan en
Cuba… predomina como un acento el habla de los habaneros y en particular
la jerga (gíria) nocturna, que, como en todas las grandes ciudades,
tiende a ser un idioma secreto”. Três
tristes tigres é, ao
mesmo tempo, regional e universal. Utiliza-se da gíria, da descontrução
da linguagem falada, dos períodos longos a refletir o mais fielmente possível
a confusão mental dos personagens, faz uso dos temas das conversas e
preocupações dos protagonistas expressas através de diálogos e
atitudes que mostram uma faceta universal e, concomitantemente, registram
uma marca essencialmente cubana. A
oralidade nasce do registro da fala comum, do flash de um momento verbal
de um personagem. Ela não é urdida paulatina e medidamente construída.
Não está dentro do espectro da forma impessoal e distanciada do estilo
realista e naturalista. O narrador se diluiu (ou apenas se omitiu) no próprio
personagem. Ou mesmo, o narrador - tal qual o entenderíamos como um
contador de histórias - desapareceu. O fragmento então vem por conta
dessa ausência; são retratos falados, verborragia dos autores, partes de
um discurso, cacos de falas, instantâneos verbais. E é nele, no
alongamento, no registro dessa oralidade, e não fora dele, que ocorre a
fragmentação última, a fragmentação da palavra, manipulando a unidade
mínima de significação, o morfema, numa combinação com outros até
formar um conjunto deles que gráfica ou eufonicamente se assemelha a uma
outra palavra, mas já agora com sentido diferente. Bustrófedon é o
grande personagem manipulador deste tipo de linguagem: “Lo único que sé
es que yo me llamaba muchas veces Bustrófoton o Bustrófotomatón o Busnéforoniepce,
depende, dependiendo y Silveste era Bustrófenix o Bustrofeliz o Bustrófitzgerald
(p. 207 da edição da Seix Barral espanhola). Embora
seja Códac que fala, o procedimento é tipicamente de outro personagem:
Bustrófedon. É certo que Bustrófedon é quem leva, se não à
caricatura esse procedimento, ao menos à exacerbação. E entenderíamos
esse fato pelo motivo de que, sendo ele o personagem diapasão, profissão
de fé, organizador do tom romanesco de Três tristes tigres, seria
compreensível entendê-lo como quase um demonstrador daquilo que é norma
e diluição de sua proposta. Nem sempre os teóricos, ou os precursores,
ou mesmo aqueles que apontam uma conduta estética, são os mais
exacerbados. São mesmo os diluidores, aqueles que mais caricaturam,
cacoetizam procedimentos formais. São o mais das vezes os que, num
maneirismo tosco, acentuam o que era episódico nos outros. Aqui
a diluição se processa no interior do romance. Parte de um mecanismo
operado no corpo mesmo do livro. E as influências e transposições
acontecem não de escritor para escritor, mas de personagem para
personagem. A atomização da renovação diz respeito a um procedimento
formal último. É a vanguarda abrangendo vários níveis, procurando, até
às últimas conseqüências, alcançar o espaço mínimo e fronteiriço
da literatura. Depois desse estágio se desfaz (o suicídio) não só a
literatura, já que sem palavra não há literatura, e a própria palavra.
Se pensamos, contudo, que esse expediente de Cabrera é um recurso para
alcançar o humor e a blague, não invalida a nossa perspectiva crítica,
pois que, mesmo esse fim - o da paródia -, tem como objetivo a reconstrução
através da destruição. Para
Freud, em seu O chiste e sua relação com o inconsciente, o mecanismo de
aparecimento do chiste pode assim ser resumido: o deslocamento, erro
intelectual, contra-sentido, representação indireta e antinômica. O
chiste origina-se, pois, de um procedimento mental que envolve uma inversão.
Pelo seu contrário, a par de uma semelhança, opera-se o jogo verbal. O
princípio de inversão e recolocamento (já que não há somente destruição,
mas um reconduzir de fonemas e ou sílabas eufonicamente parecidas) mostra
um desmontar e reconstruir. Desmontar uma frase - ou literatura - bem
composta, comportada, solene. E reconstruir em cima de um modelo que
aponta para uma poética.
Trabalhar
com o chiste é trabalhar com o inconsciente, o sonho, a linguagem do
sonho. E Cabrera, ao contrário de outros autores que se utilizam o onírico
em outros planos como a trama, o absurdo da vida, as imagens fantásticas
e cenas insólitas, Cabrera atuará fundamentalmente nesse microtização
do espaço da renovação. A
microtização do espaço da renovação está ligada a um instrumento
riquíssimo e dorsal para o romance Três tristes tigres que é a
oralidade. A microtização está presa à oralidade antes por um projeto
comum de apreensão da realidade lingüística (e poética) de Havana do
que por um procedimento formal e erudito. Certamente as influências são
notórias (Joyce, Sterne e Lewis Carroll). Mas a oralidade, determinante
de todos os outros procedimentos, tem uma origem mais imediata e ordinária:
a realidade cubana, a realidade de La Rampa, a realidade verbal e humana
da ilha. O
suicídio de Bustrófedon, como personagem, não altera em nada a trama
romanesca de Três tristes tigres. Na verdade, Bustrófedon é um
personagem ausente. Não aparece no livro, senão através dos relatos de
outros personagens. E sua existência é tão à margem da história que,
à primeira vista, fundamentalmente, o seu não-aparecimento não
representa nenhuma mudança formal. Numa leitura superficial, Bustrófedon
apenas representaria o lado mais bufão, lúdico e jocoso de todo o livro.
Luís Gregorich assinala em artigo para o livro Três tristes tigres,
obra abierta (Madrid, Fundamentos, 1974): Floren
Cassalis, aliás “Bustrófedon”, personagem-limite do romance,
deformador, paródico, transformador, até os extremos da magia e da
falsificação, dos usos cotidianos e prováveis da língua, amante das
definições falsas, dos jogos de palavras (...) representa o pólo
oposto, em aparência, do programa coloquial de Cabrera Infante.
(p.129-155) Os textos paródicos escritos por ele - o pastiche dos autores cubanos sobre a morte de Trotsky e a história do bastão de Mr. Campbell - apareceriam não gratuitamente, mas apenas para reforçar o tom de inversão, graça e paródia de todo o romance. Na
verdade, isso não acontece. Para começar, Bustrófedon é o escritor que
se recusa a escrever - deixa apenas relatos - jogos verbais gravados numa
gravação. Depois, observa-se que toda a construção vocabular
empreendida no livro é uma vertente atenuada das propostas de Bustrófedon.
Ao mesmo tempo, a influência de Bustrófedon sobre Arsenio Cué, segundo
relato de Códac, e também sobre este último, é de sobremaneira forte.
Uma influência transformadora. É com a morte de Bustrófedon (que Códac
nos transmite em meio aos “vômitos de palavras” e “vertigens” que
identificava Bustrófedon) que se dá um dos raros, senão o único
momento verdadeiramente deceptivo, disfórico. É interessante observar o
que Códac fala dele, mesmo quando se refere ao tumor cerebral que o matou
e “le hacía decir esas maravillas y jugar com las palabras y finalmente
vivir nombrando todas las cosas por otro nombre como si estuviera, de
veras, inventando idioma nuevo” (p.222).
Fue
después, hoy, ahora mismo que supe que en la autopsia antes del entierro,
que me negué a ir porque Bustrófedon metido allí dentro, en el ataúd,
no era Bustrófedon sino otra cosa, una soca, un trasto inútil guardado
en una caja fuerte...
(p. 221) -
como também por um respeito intelectual profundo e até indicador de rumo
estético, caminho de linguagem. Bustrófedon
siempre andaba cazando palabras en los diccionarios (sus safaris semánticos)
cuando se perdía de vista y se encerraba con un diccionario, cualquiera,
en su cuarto, comiendo con él en la mesa yendo con él al baño,
durmiendo con él al lado, cabalgando días enteros sobre el lomo de un
(mata) burro, que eran los únicos libros que leía u decía, le decía a
Silvestre, que eran mejor que los sueños, mejor que las imaginaciones eróticas,
mejor que el cine.
(p.215) A renúncia de Bustrófedon não é apenas uma renúncia da vida. É certo que ele não se suicida, sua morte é natural. Contudo, visto dentro do elenco de personagens, elenco este que se move, se agita constantemente pelas ruas e bares de La Rampa, em Havana, personagens que estão num moto contínuo, a morte de Bustrófedon representa um ato destoante, de paralisação, de imobilismo. Por isso escrevi que é uma renúncia, porque interrompe o fluxo eufórico da narrativa. Outra
renúncia de Bustrófedon é o não-ato de escrever. Recusa-se a deixar
escrito - embora seja visto tanto pelo escritor “oficial” do livro,
Silvestre, e pelo fotógrafo Códac, como escritor - qualquer um dos seus
safáris semânticos. É através de uma gravação, também não
aparecida no livro, e pelos relatos de Códac, que, por sua vez, já
internalizou a paródia lingüística e temática do outro - que a
linguagem de Bustrófedon aparece nas páginas de Três tristes tigres. Bustrófedon
se recusa não só a escrever como também a viver. Viver não fisicamente
- já que sua morte, mesmo sendo interpretada como “renúncia” não
foi nem pode ser vista como proposital -, mas no corpo do livro. A sua ausência,
ou rápida aparição, aponta para um Bustrófedon que se nega na
narrativa. A permanência de um personagem num livro qualquer implica
vontade do autor, embora a maioria deles, inclusive o próprio Cabrera
Infante, diga que não escreve o que quer, mas aquilo que a história e os
personagens lhe pedem. A
renúncia de Bustrófedon não é, pois, apenas uma renúncia física ao
mundo como também uma renúncia à literariedade. Observe-se como Cabrera
Infante se refere ao ato de escrever. La literatura no es la música o las matemáticas, que son lenguajes alternos, sistemas de comunicación diferentes del habla y de la escritura como comunicación cotidiana. Es, por tanto, imposible la creación de un lenguaje autónomo para la literatura, porque se pude incurrir en error estetizante de las bellas letras, la preocupación excesiva con el estilo, toda esa corriente, en la novela, postflaubertiana de la creación, à la riguer, de un estilo, de escribir bien, de la frase redondeada y la bella escritura que me parecen propósitos imbéciles... 3. Aos poucos a geração do boom da literatura hispano-americana no mundo europeu e norte-americano (veja-se a influência de um Borges num Paul Auster) vai esmaecendo não somente com a morte dos seus protagonistas, mas também em razão de seus principais autores não terem mais a grandeza das criações iniciais. Percebe-se também o qual geniais foram as produções dos anos sessenta e setenta do século XX, a ponto de não mais se repetirem livros como Rayuela, de Cortázar ou mesmo o Três tristes tigres, de Cabrera Infante. O mundo literário, como um todo, na pós-modernidade, atenuou as aventuras experimentais desses autores instigantes que, herdeiros de Faulkner e Joyce, deram contribuição fundamental ao romance universal. Morre com Cabrera Infante um pouco de uma era exuberante e de uma literatura que conseguia conjugar qualidade e experimentação literária sem perder de vista o grande público leitor. Três tristes tigres ficará na literatura cubana junto com Paradiso, de Lezama Lima e de El siglo de las luces, de Alejo Carpentier, do mesmo modo que permanecerá entre os grandes romances do século passado. Nada tão novo ou provocativo foi feito depois desses monstros sagrados da literatura hispano-americana. A literatura tem se tornado uma repetição de fórmulas, atualizando os temas, mas sem a vocação para alçar vôos mais audaciosos. Morre com Cabrera Infante uma época. Morre com Cabrera Infante o melhor humor literário (como bom herdeiro de Sterne, Cabrera adorava Machado de Assis). Morre com Cabrera Infante sua contraditória melancolia e vida sombria: Bella Josef, que o encontrou várias vezes em Londres, relata a surpresa de visitar um autor tão sombrio, diferente dos personagens bem-humorados e tropicais do seu livro mais engraçado: Três tristes tigres. Morre com Cabrera Infante o último grande romancista cubano. |
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Ronaldo Costa Fernandes (Brasil, 1952). Poeta, narrador e ensaísta. Autor de livros como O Narrador do romance, (1996) Concerto para flauta e martelo, (1997) e Eterno Passageiro (Ed. Varanda, 2004). Contato: rc29fernandes@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Leonel Maciel (México). |
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