revista de cultura # 44
fortaleza, são paulo - março de 2005

livros da agulha

A dimensão da noite e outros ensaios, de João Luiz Lafetá1. A dimensão da noite e outros ensaios, de João Luiz Lafetá (organização de Antonio Arnoni Prado). São Paulo, Editora 34/Editora Duas Cidades. 2004.

João Luiz Lafetá (1946-1996) foi um dos críticos literários mais brilhantes de sua geração, mas que, infelizmente, teve a vida interrompida quando chegava à maturidade de seu trabalho como professor e teórico da Literatura. Nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, e foi professor de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre 1974 e 1979, e da Universidade de São Paulo (USP), entre 1978 e 1996. É autor de 1930: a crítica e o Modernismo (São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1974) relançado em 2000 pela Editora 34, e Figuração na intimidade: imagens na poesia de Mário de Andrade (São Paulo, Martins Fontes, 1986).

A dimensão da noite e outros ensaios, organizado pelo professor Antonio Arnoni Prado, do Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lançado em 2004 pela Editora 34, de São Paulo, resume sua trajetória intelectual desde o início dos anos 70 até a sua morte. Embora não tenha vivido muito, conforme salienta Murilo Marcondes Moura na apresentação, Lafetá deixou uma obra efetivamente realizada, que se caracteriza pela conjugação extremamente original de três perspectivas críticas: o marxismo, a psicanálise e a teoria dos gêneros.

Como diz no prefácio Antonio Candido, o decano dos críticos brasileiros e seu professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o autor tinha em alto grau o dom de descobrir relações ocultas e desvendar o significado de textos complexos, nem sempre captados por leituras menos finas. “É o que, aliás, já tinha mostrado em 1974 num ensaio magistral sobre S. Bernardo (de Graciliano Ramos), no qual revelou que um capítulo considerado meio solto por vários críticos (inclusive eu) tem de fato significado estrutural decisivo”, lembra Candido, que orientou oficialmente os trabalhos de mestrado e doutorado de Lafetá, “embora na prática ele tenha atuado com a independência que o caracterizava”.

Entre ensaios, prefácios, comentários e uma entrevista - na verdade, a transcrição de uma conversa com estudantes de Letras no primeiro semestre de 1978 -, alguns deles inéditos ou de difícil acesso, A dimensão da noite reúne ao todo 42 textos em que o leitor vai encontrar estudos fundamentais sobre Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Ferreira Gullar, Pedro Nava, Rubem Fonseca, João Antônio, Paulo Francis e Moacyr Scliar, além de reflexões publicadas nas seções literárias de jornais e revistas do Brasil e do exterior, aí incorporadas com algumas intervenções críticas em simpósios e seminários acadêmicos.

Em todos os textos, Lafetá procura sondar na prosa e na poesia produzidas no Brasil nas décadas de 70, 80 e início de 90 os possíveis encontros e desencontros entre a literatura e a experiência política, despertando assim também o interesse das áreas de História, Ciência Política e Psicanálise. Poucos críticos, provavelmente por deficiência de formação, fazem isso. E muito menos com a desenvoltura com que Lafetá o fazia.

O brilho das suas análises pode ser captado já a partir da leitura do ensaio “Estética e ideologia: o Modernismo em 30”, que faz parte de seus escritos iniciais. Nesse estudo, o jovem crítico, ao analisar as mudanças trazidas pelos modernistas, lembra que a crítica da velha linguagem pela confrontação com uma nova linguagem já contém em si o seu projeto ideológico, ressaltando que, até 1922, os romancistas e poetas brasileiros ainda estavam, na maioria, apegados a padrões do século XIX ou da belle époque, que os novos procuraram romper.

Desde então, não houve mais esse tipo de ruptura pelo menos na literatura, já que no jornalismo esse confronto de um novo tipo de escrever com o velho padrão ocorreu, de maneira mais acentuada, ao final da década de 60 e início de 70, quando alguns jornalistas mais intelectualizados começaram a imitar o estilo do New Journalism americano, embora repórteres mais antigos, como Joel Silveira e mesmo Euclides da Cunha, já ao final do século XIX, tenham exercitado essa técnica sem saberem que aquele modo de escrever mais tarde seria reivindicado como primazia pelos americanos.

“O ataque às maneiras de dizer se identifica ao ataque às maneiras de ver (ser, conhecer) de uma época; se é na (e pela) linguagem que os homens externam sua visão-de-mundo (justificando, explicitando, desvelando, simbolizando ou encobrindo suas relações reais com a natureza e a sociedade), investir contra o falar de um tempo será investir contra o ser desse tempo”, diz Lafetá.

Para o crítico, o Modernismo rompeu a linguagem bacharelesca, artificial e idealizante que espelhava, na literatura passadista de 1890-1920, a consciência ideológica da oligarquia rural instalada no poder, a gerir estruturas esclerosadas que em breve, graças às transformações provocadas pela imigração, pelo surto industrial, pela urbanização (enfim, pelo desenvolvimento do país), iriam estalar e desaparecer em parte. “Sensível ao processo de modernização e crescimento de nossos quadros culturais, o Modernismo destruiu as barreiras dessa linguagem “oficializada”, acrescentando-lhe a força ampliadora e libertadora do folclore e da literatura popular”, acrescenta.

Apesar disso, lembra Lafetá, a arte moderna no Brasil não nasce com o patrocínio dos capitães-de-indústria. É a parte mais refinada da burguesia rural, os detentores das grandes fortunas acumuladas com o café que acolhem, estimulam e protegem os escritores da nova corrente. É a mesma burguesia que, de certa forma, foi afastada do poder pelos vencedores da chamada de Revolução de 30 que, de revolução, pouco teve, tendo sido, isso sim, uma composição entre oligarquias mais atrasadas que ocuparam o vácuo deixado pela burguesia paulista que, afetada pelo crack da Bolsa de Nova York de 1929, não teve mais condições de se impor sozinha no comando político do país.

O Modernismo, sem que se saiba muito bem por que, foi dar na geração de 45, como diz Lafetá em seu estudo mais profundo e, por coincidência o mais extenso, de quase 100 páginas, “Traduzir-se: ensaio sobre a poesia de Ferreira Gullar”. Aqui, o crítico defende a tese de que o desgaste do experimentalismo modernista e a necessidade de substituí-lo por formas mais apuradas produziram a geração de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Jorge de Lima, que alcançaram na década de 30 uma verdadeira superação das inovações técnicas que o Modernismo havia introduzido entre os brasileiros.

Ferreira Gullar (1930) estreou na década de 50 dentro do clima esteticista da geração de 45, mas passou pela ruptura do Concretismo e do Neoconcretismo e pelo discurso populista da década de 60, quando o peso da propaganda política quase matou a sua arte. Em seguida, depois do golpe militar de 1964, fez um retorno à poesia, procurando o equilíbrio entre a expressão dos sentimentos subjetivos e a comunicação da sua visão de mundo. Para Lafetá, a linguagem poética de Gullar, sem a agressividade dos primeiros tempos, impressiona pela facilidade com que desentranha do coloquialismo uma atmosfera poética densa, mas tranqüila, sem a sombra do desespero.

Parece que foi a poesia de Ferreira Gullar a que mais atraiu Lafetá entre os poetas brasileiros contemporâneos, levando-o a descobrir significados em seus poemas que passaram batidos na leitura de muitos críticos e historiadores da literatura brasileira, pois são raras e sempre en passant as referências ao poeta nesse tipo de obra. Para Lafetá, ser poeta é saber traduzir uma coisa na outra, a pulsão dionisíaca na forma apolínea, o indivíduo na coletividade. E isso Gullar soube fazer no poema “Traduzir-se”, musicado por Raimundo Fagner no começo da década de 80, e tantos outros. Para Lafetá, porém, é em “Poema obsceno” que o poeta ampliou o sentido dessa “tradução”:

            Façam a festa
                        cantem e dancem
            que eu faço o poema duro
                                                o poema-murro
                                                sujo
                                                como a miséria brasileira
            Não se detenham:
            façam a festa
                                    Bethânia Martinho
                                    Clementina
            Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
            gente de Vila Isabel e Madureira
                                                            todos
                                                            façam
                                    a nossa festa
            enquanto eu soco este pilão
                                    este surdo
                                                poema
            que não toca no rádio
            que o povo não cantará
            (mas que nasce dele)
            Não se prestará a análises estruturalistas
            Não entrará na antologias oficiais
                                    Obsceno
            como o salário de um trabalhador aposentado
                                    o poema
            terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
                                    - e espreitam.

[Adelto Gonçalves]

Cultura e Democracia na Constituição Federal de 1988, de Francisco Humberto Cunha Filho2. Cultura e Democracia na Constituição Federal de 1988, de Francisco Humberto Cunha Filho. Editora Letra Legal. Brasil.

No Brasil, pode-se afirmar que todos têm o direito de ter acesso à cultura e de atuar como produtor cultural nos rumos da Cultura do país? Na teoria, de acordo com a Constituição Federal sim, mas, na prática, isso não acontece. Essa é a realidade que Francisco Humberto Cunha quer demonstrar em seu livro Cultura e Democracia na Constituição Federal de 1988, lançado pela Editora Letra Legal.

O autor traz a idéia de representação de interesses na Constituinte de 1987-1988, mostrando que o Estado Brasileiro sempre buscou controlar as manifestações culturais divergentes dos interesses políticos dominantes. Ele descreve e analisa a atuação dessa representação de interesses no Programa Nacional de Apoio à Cultura - PRONAC - o mais importante conjunto jurídico-normativo de atuação do Estado Brasileiro no setor cultural.

Humberto Cunha conceitua a Cultura abordando a sua juridicização no ordenamento político nacional, traz descrições históricas da política nacional de incentivo às manifestações culturais, informa o histórico da participação da comunidade cultural na elaboração das políticas públicas para o setor e analisa os resultados dos programas de apoio à cultura. Através de um argumento fundamentado, Humberto Cunha traz, em seus comentários, a clara solução para que se alcance o que prevê a norma constitucional: a devida participação de todos os interessados na vida cultural do Brasil.

Días emigrantes y otros poemas, de Prisca Agustoni3. Días emigrantes y otros poemas, de Prisca Agustoni. Maza Edições. Brasil. 2004.

Una rápida mirada sobre los vasos comunicantes de la poesía nos lleva a Prisca Agustoni que lee a Octavio Paz que leía a Jorge Gaitán Durán que leía a Sade. Y en este último un apunte provocador: “sólo los tontos se contienen”. Sade nos alertaba para un principio esencial a la poesía: la consequencia del ser reprimido. Y que el lenguaje debería vibrar (Eros) buscando la ruptura de esta represión. Gaitán Durán se dedicó al vértigo movido por la idea de que los verdaderos amantes no pueden ser detenidos. Octavio Paz convirtió este estupor frente a la existencia en una metáfora que le ayudó a definir una poética de variaciones infinitas sobre un mismo tema. Prisca Agustoni entiende tal ambientación múltipla y observa los ritos de pasaje en que deseos se convierten en obsesiones. Hay un poema que dice: «soy insolente / con el silencio / y me atrevo a robarle / su unción”. Por lo tanto, la idea de consagración está vinculada a la idea de ruptura. El ambiente de esta violación – estética o existencial – se complica por la relación que Prisca Agustoni tiene con algunas tradiciones poéticas (suiza, italiana, brasileña). Por más que diga que el tiempo entero le pertenece, algo se le escapa en el espacio. Riesgo incontenible. De cualquier manera, su poética incorpora dos aspectos básicos: relación y personificación. No es casual que en una encarnación de Don Quijote, ella (él) nos diga: “aprendo la crueldad / más hermosa, / comiendo harina / a profusión”. El autor se desplaza de sí para buscar un cero absoluto que le permita el retorno. Es lo que hay que hacer. En otro lugar, asegura: “Busco la incisión / en la mirada, / el movimiento de la piedra”. Y diciendo eso, Prisca Agustoni establece la mirada como puerta de entrada de todo el enigma del mundo. Al proceder de esta manera, el poeta parece resucitar en la tradición que le es afín. Ya no hay Sade ni Paz ni Durán. Sólo nos queda la voz de una poeta que dice: “Yo veo nacer en mí / otro refugio, /quizá la invención de un modo / para que este diálogo /siempre desterrado / recalque nuestra permanencia”. Ella tiene razón: la única permanencia es la de la duda. Por donde corren los ríos de la Poesía.

[Floriano Martins]

Estranhas experiências e outros poemas, de Claudio Willer4. Estranhas experiências e outros poemas, de Claudio Willer. Ed. Lamparina. Rio de Janeiro. 2004.

Poucos poetas hoje no Brasil já leram tanto e são tão cultos quanto Claudio Willer, que acaba de lançar o seu quarto livro no gênero, Estranhas experiências e outros poemas, que reúne produções de toda uma vida dedicada à poesia, mais especificamente, e à cultura de um modo geral. Willer chega à idade em que a vida anoitece com a clarividência que lembra a daqueles participantes da guerra civil espanhola que, embora derrotados no campo de batalha, nunca capitularam diante dos poderosos.

Nada mais natural, não fosse o poeta um anarquista, que não precisou ler Octavio Paz para descobrir que o marxismo trazia embutido em sua ideologia um monstro que, uma vez instalado no poder, começa a comer a liberdade pelas bordas. E que por isso foi relegado ao ostracismo pela patrulha esquerdista e anatematizado pela burguesia. Por isso, nada mais lhe restou do que viver à margem.

Já começou à margem, quando em 1964 lançou Anotações para um Apocalipse (São Paulo, Massao Ohno Editor), estimulado, entre outras coisas, por um coquetel do Robert Desnos de Liberté ou l´amour, Michaux e Bataille, que leu em francês, mas, principalmente, influenciado por Poeta em Nova York, de Federico García Lorca . Por esses anos, leu modernistas, surrealistas, os poetas e narradores da geração beat com Jack Kerouac à frente e participou de alguns happenings de poesia ao lado de Roberto Piva nas noites de São Paulo.

Jamais integrou oficialmente o grupo surrealista que existiu no Brasil de 1965 a 1969, como diz o poeta Floriano Martins na conferência “O Surrealismo no Brasil”, que integra o livro Escolas literárias no Brasil (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2004, dois volumes), de Ivan Junqueira (coordenação). Isso, porém, não significa que não tenha sido surrealista. Pelo contrário. A poesia surrealista foi a formação de Willer e também a de Piva. A raiz do impedimento de ambos à adesão formal ao grupo surrealista brasileiro comandado por Sérgio Lima, diz Martins, foi uma certa reserva de André Breton de aceitar desdobramentos do surrealismo, como a beat generation e a contracultura.

Nos anos 70, Willer leu T.S.Eliot e não passou incólume. Leu também com sofreguidão o poeta português Herberto Helder, que tem poemas que ele confessa que gostaria de ter escrito - haveria maior elogio? E não foi só a boa poesia que o influenciou: Willer leu também muita prosa de alta qualidade, como a dos brasileiros Guimarães Rosa e Clarice Lispector, a dos argentinos Jorge Luís Borges e Julio Cortázar, a dos cubanos Severo Sarduy e Lezama Lima, sem esquecer dos teóricos que inspiraram poesia como Wilheim Reich, Norman Brown (que fez um livro de filosofia em prosa poética, lembrou ele numa entrevista a Floriano Martins que está na revista eletrônica Agulha), Bataille, Foucault, Walter Benjamin e, especialmente, o mexicano Octavio Paz.

Em 1968, em Paris, às vésperas do Maio francês, Willer participou de uma reunião entre surrealistas, mas já sem Breton, morto em 1966. Em companhia de Paulo Paranaguá, esteve na casa de Vincent Bounure, integrante ativo do grupo, com quem teve prolongada discussão a respeito da geração beat, cujo valor literário o francês nunca admitiu. Willer não, talvez por causa de seu pensamento anárquico, identificou-se com os corifeus da geração beat, embora nunca tenha deixado de estar ligado, ao menos idealmente, ao surrealismo.

Tanto que produziu um prefácio e preparou Os Cantos de Maldoror (São Paulo, Editora Vertente, 1970; Max Limonad, 1986), de Lautréamont, os Escritos de Antonin Artaud (Porto Alegre, L&PM Editores, 1983), e fez vários poemas engajados na temática surrealista. Mas o que Willer se tornou foi mesmo um poeta-ensaísta como Breton, Paz e Allain Ginsberg, de quem ele traduziu Uivo e Kaddish e outros poemas (Porto Alegre, L&PM Editores, 1984). Prepara-se para publicar ensaios sob o título Surrealismo, poesia e poética, pela Editora Perspectiva, de São Paulo. Escreveu ainda narrativa Volta (São Paulo, Iluminuras, 1996) e participou de várias antologias de poesias publicadas no Brasil e no exterior.

Em 1976, lançou Dias Circulares (São Paulo, Massao Ohno), que coincidiu com um acontecimento que recebeu o nome de Feira de Poesia e Arte, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, à época da fase mais agressiva da ditadura militar (1964-1985), mas que, de certo modo, tinha a ambição de repetir um pouco o que fora a Semana Modernista de 1922. A Feira ficou esquecida - e só é aqui lembrada porque o próprio Willer a registrou em “Viagens 6 Quase um manifesto”, que faz parte de Jardins da Provocação (São Paulo, Massao Ohno-Rosiwitha Kempf Editores, 1981).

Agora, Willer lança Estranhas Experiências e outros poemas (Rio de Janeiro, Editora Lamparina, 2004), que reúne poemas mais recentes, mas basicamente republica outros que saíram Anotações para um Apocalipse, Dias Circulares e Jardins da Provocação. Sua gênese, porém, como diz o poeta na apresentação, está no denso caldo de cultura dos grupos de jovens poetas paulistanos da década de 1960.

Esse ambiente, aliás, Willer comentou no posfácio que escreveu para a Antologia Poética da Geração 60 (São Paulo, Editorial Nankin, 2000). O poeta lembra que ele e seus amigos de letras costumavam ler em voz alta, uns para os outros, Fernando Pessoa, Jorge de Lima, os poetas do surrealismo - e Willer, especialmente, sabe muito bem ler seus próprios poemas, transformando-os com sua emoção. Diz Willer que o horizonte literário desses poetas vinha do Rimbaud de Iluminações e Uma temporada no inferno, “livros de cabeceira de tantas gerações literárias, do início do século XX até hoje”.

Só a apresentação que Willer fez para Estranhas Experiências é um testamento de uma época que nem sempre é lembrada com a devida reverência por nossos críticos literários, alguns inclusive que ainda falam da poesia brasileira como se o mundo houvesse parado em 1958, sem que eles tivessem descido. Ele lembra que em 1974-75 as suas influências eram o romance Sob o Vulcão, de Malcolm Lowry, e os contos de Dashiell Hammet. Nessa época, escreveu “Homenagem a Dashiell Hammet” em que diz:

(uma geração pulou no abismo
mas você foi mais adiante
 levantou a tampa da vida.

Como poeta-ensaísta, melhor do que ninguém, soube traçar a trajetória dos desajustados poetas paulistanos da década de 60. No começo, ele, Piva e Rodrigo de Haro, um beatnik que ficou esquecido, não foram levados a sério. Devotaram-lhes um retumbante silêncio. Willer mesmo reconhece que ele e seus companheiros de viagem levaram mais de 20 anos para serem lidos e aceitos pela crítica tradicional, que ainda estava impregnada por uma influência conservadora e beletrista.

Depois, todos passaram a ser vistos como poetas cerebrais, mas ainda à margem. A rigor, até hoje, nem Piva nem Haro nem Willer tiveram a recepção que merecem, já não se diz entre a crítica tradicional de jornais, mas entre os acadêmicos. Ultimamente, porém, Willer comça ser canonizado, se é que este adjetivo pode cair bem a quem sempre viveu e pensou anarquicamente, longe dos campanários e igrejinhas literárias: tem sido procurado por poetas mais jovens que descobrem que muitas de suas excentricidades ou idéias revolucionárias já foram percorridas por ele há décadas.

O poeta, porém, não pára. Com Floriano Martins, poeta de geração mais recente, cuida desde 2000 da revista eletrônica Agulha (www.revista.agulha.nom.br), que, além de abrir espaço para a poesia e a crítica brasileiras, tem mantido intenso diálogo com poetas de língua espanhola. É que Willer odeia a estagnação, sua poesia está sempre em movimento, como provam os poemas recentes e inéditos que incluiu em Estranhas experiências. Num deles, “A verdade”, diz:

            (…) todos, todos eles
            os que agora vagam pelas mesmas ruas
            os personagens fantásticos   os profetas do desencontro  os poetas
            malditos  os videntes  os ensandecidos  os marginais
            seus passos, nossos passos contraculturais e magníficos
            ecoam, ressoam pelas ruínas do Ocidente
todos - todos eles irremediavelmente enlouquecidos
e nada sobra -
                        escrever é difícil, mais difícil ainda é relatar como agora a vejo
                                                em todo lugar
                                                simultânea multiplicação de abismos (…)

[Adelto Gonçalves]

Interfaces do olhar, de Ana Hatherly5. Interfaces do olhar, de Ana Hatherly. Roma Editora. Lisboa. 2004.

Vivemos num tempo híbrido, caracterizado pela apropriação, montagem, colagem e fusão entre os vários discursos, os vários textos, sejam eles literários ou visuais, de campos semânticos e lingüísticos distintos. A época contemporânea tem sido, por conseguinte, o período histórico favorável ao desenvolvimento de um fenômeno de intertextualidade. Ana Hatherly, criadora audaciosa e estudiosa incansável, tem sido a voz dessa extraordinária manifestação. Ela propõe reinventar a palavra, a própria leitura.

Organizada de forma tão original quanto a autora o faz supor, Interfaces do Olhar constitui uma antologia crítica que engloba textos de vários autores que versam sobre a criatividade multifacetada da escritora e pintora. Entre estes autores, encontram-se Ana Gabriela Macedo, Ana Marques Gastão, Casimiro de Brito, Elfriede Engelmayer, Fernando J. B. Martinho, Maria João Fernandes, Pedro Sena-Lino, Rogério Barbosa da Silva e Ruth Rosengarten. A fechar este ciclo de ensaios, uma antologia poética desta que se pode considerar um dos mais importantes vultos da Poesia Experimental portuguesa e européia do século XX, onde não faltam, nem poderiam faltar, as célebres tisanas e os poemas visuais.

Óbvio, de Moacir Amâncio6. Óbvio, de Moacir Amâncio. Travessa dos Editores. Curitiba. 2004.

Em todas as literaturas, o verso clássico é anterior ao verso livre, diz Jorge Luís Borges, leitor fervoroso de Robert Louis Stevenson, para quem, desde que se encontre uma unidade métrica - seja um hexâmetro, um decassílabo ou um alexandrino -, fácil é fazer um poema, basta repetir uma unidade. A prosa, porém, seria muito mais difícil porque é preciso variar a unidade e, ao mesmo tempo, essa variação deve ser grata ao ouvido. Borges disse isso, um ano e meio antes de morrer, num diálogo que manteve com o escritor e crítico Jorge Cruz em abril de 1985 no palco do Teatro Coliseo, em Buenos Aires, por ocasião da Semana Cultural promovida pelo jornal La Nación, a que tive a sorte de acompanhar pessoalmente por uma dessas circunstâncias felizes que a vida, às vezes, nos proporciona.

Talvez seja por isso que, como deixa entrever a idéia de Stevenson, os escritores comecem a sua trajetória quase sempre pelo verso, passando só mais tarde para a prosa, como fez Borges. Quem sabe isso se dê porque a juventude seja a época dos experimentos, das tentativas de mudar o mundo, ainda que o instrumento seja apenas a palavra, enquanto a maturidade leva ao conformismo, à aceitação da irreversibilidade das coisas.

Portanto, que um autor venha cumprindo essa trajetória ao inverso, é fato que, de imediato, deveria chamar a atenção da crítica. Esse autor é Moacir Amâncio (1949) que, depois de uma estréia quase despercebida com a novela O Saco Plástico, de 1973, surpreendeu com a prosa fragmentária e experimental de Estação dos Confundidos (São Paulo, Símbolo, 1977), romance que trata da vida de Joaquim Chapeta Arruda, um deserdado da terra perdido na desumana e impessoal cidade de São Paulo.

Redator de texto conciso e preciso, Amâncio, que passou a maior parte de sua vida profissional nas redações dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, publicou ainda o livro de contos O Riso do Dragão (São Paulo, Ática, 1981), em que parece já disposto a extravasar as fronteiras do gênero, deixando de lado um certo convencionalismo dos primeiros livros, embora o fragmentarismo e as quebras de frase já indicassem o caminho futuro.

Esse procedimento se acentuou em Súcia de Mafagafos (São Paulo, TA Queiroz Editor, 1982), que reúne duas histórias bastante fragmentadas e com a linguagem da prosa já se misturando com a poesia, num tom meio juvenil. Quem sabe por dentro o autor já carregasse a idéia de refazer sua carreira literária, mas agora dentro dos limites extensos da poesia. De qualquer modo, o que se pode concluir é que a experiência de texto tinha por objetivo levá-lo à poesia.

O autor não renega sua obra anterior, mas, aparentemente, prefere deixá-la esquecida, pois não consta dos dados bibliográficos que aparecem em seus livros mais recentes. O que se conhece é que se rendeu à poesia a partir de 1992, quando lançou Do Objeto Útil (São Paulo, Iluminuras), disposto a oferecer uma nova proposta ao gênero, como se tivesse por meta escapar de uma certa linguagem exaurida pelo uso ao longo de todo um século de experimentação, repetição e diluições, para se assumir aqui o que o romancista Eustáquio Gomes escreveu na apresentação de Contar a Romã (São Paulo, Record, 2001).

Essa virada, por coincidência ou não, deu-se depois que Amâncio imergiu na cultura judaica, talvez em meados da década de 1980, pois de 1987 é a temporada que passou em Jerusalém, que não só lhe inspirou parte dos poemas de Do Objeto Útil como o fez há poucos anos reencaminhar a sua vida como professor de Literatura Hebraica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ao deixar para trás o cotidiano da redação de O Estado de S. Paulo, passando a atuar apenas como colaborador de seu caderno de variedades.

Também aqui fez carreira inversa: preparou-se muito bem antes de entrar numa sala de aula como professor numa altura da vida em que a maioria dos docentes já sonha com a aposentadoria. Doutorou-se na área de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de São Paulo com a tese Dois palhaços e uma alcachofra (São Paulo, Editora Nankin, 2001) em que discute as diferentes formas de se ver o Holocausto. Em traduções recentes, busca um diálogo com a Ibéria hebraica de Sevilha e Córdoba.

Na poesia, tem procurado reconstruir a linguagem, virando-a do avesso para criar “mundos paralelos como se fossem dimensões fantásticas da realidade objetiva”, como observou Eustáquio Gomes. O resultado tem sido uma linguagem muito própria, que está longe de oferecer fácil acesso ou que pode mesmo ser considerada hermética, mas que é resultado de meticuloso trabalho de um artesão da palavra, ou melhor, de um artífice, enfim, de um poeta superiormente culto.

Em Figuras na Sala, de 1996, o autor faz uma homenagem à melhor tradição modernista brasileira, assumindo-se como herdeiro do impulso poético de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Mas não deixa de impregnar os seus versos com um certo simbolismo que faz lembrar o português Camilo Pessanha: Rotina que se quebra/ chama que irrompe/ dentro da chama,/ ou apaga. / Refletes/ um rastro/ e te dispersas.

Em 1997, publica um livro de reportagens e artigos, Os Bons Samaritanos e Outros Filhos de Israel (São Paulo, Editora Musa), interrompendo a seqüência de livros dedicados à poesia. Mas logo volta com O Olho do Canário (São Paulo, Musa Editora, 1998), que, aliás, diferencia-se de seus livros anteriores de poesia na alternância e variedade dos ritmos, como observou Carlos Vogt na apresentação.

Aqui o verso começa sério, para, depois, inflar-se, abrindo espaço para a prosa poética no meio, adquirindo velocidade para retornar, por fim, a decassílabos sonantes. Por este breve panorama, via-se que a poética de Amâncio ainda estava inconclusa e sofria alterações de uma edição para a outra, sempre em benefício da criatividade.

Como gosta de jogar com a idéia de que as línguas latinas são na verdade um só idioma, defendendo o argumento de que determinadas emoções e idéias só caberiam adequadamente em italiano, outras em francês, em português, romeno, catalão ou espanhol, Amâncio publica Colores Siguientes (São Paulo, Musa Editora, 1999) em que reuniu poemas escritos em castelhano.

Em Contar a Romã (São Paulo, Record, 2001) também não deixa de prestar homenagem ao idioma de Góngora, Quevedo e Cervantes, especialmente em “Duelo de la nariz y la cara” em que transita do espanhol para o português e igualmente da poesia para a prosa poética (e vice-versa) sem perder o sentido.

Com a maior desenvoltura, faz poesia dos grandes temas culturais e históricos. O que não é fácil, pois nem todos os grandes poetas sabem fazer da matéria cultural ou histórica o fulcro de sua temática. E, assim como transita entre as formas poéticas, também o faz, de um salto, da (ainda) agreste paisagem sul-americana para o Velho Mundo, cantando tanto a pequena Aiuruoca, no interior de Minas Gerais, numa homenagem ao poeta Dantas Motta, como a Madri do Museu do Prado, de Bosco e Velázquez, ou a Lisboa do Palácio do Marquês da Fronteira, de Camões, de Pessoa.

Agora, Amâncio lança pela Travessa dos Editores, de Curitiba, Óbvio, em que radicaliza as preocupações estéticas de livros anteriores, desta vez, compondo um poema, “Arghvan”, em inglês, a exemplo do que fizera em espanhol em Colores Siguientes, quem sabe inconformado com as amarras lingüísticas e as limitações do português. Esse longo poema, que melhor seria definido como um conto em versos, constitui a segunda parte do livro, mas se entrecruza com as duas outras partes.

A primeira parte, “Luz Acesa”, que ocupa a maior parte do livro, é também um longo poema, outra vez em decassílabos. Ao largo desse poema, sentimos a presença da tradição judaica, nunca descrita, mas sugerida, de que Amâncio, hoje, no Brasil, é um dos maiores conhecedores.

Se este texto começou com Borges, por alguma razão é. Borges não só se deixou envolver pelo mistério da cabala, da tradição judaica, como fez com que em sua obra alguns temas se repetissem como obsessões. Essas mesmas obsessões se repetem na poesia de Amâncio, como os olhos da pantera, os espelhos, o labirinto, que não só remetem o seu fazer poético para o mestre argentino como para T. S.  Eliot e, mais para atrás, Walt Whitman e Mallarmé. Em “Método”, que faz parte do terceiro livro, “Óbvio”, que dá título ao volume, o poeta diz:

Quanto a saber as mãos impõe-se encarar
os olhos da pantera eles são as garras
dela apenas não vacilam quando mostram
plenos pelos desvãos do espelho um acordo
com a chama recortada dos cristais
modo de seu ataque aquele relâmpago
em detalhes brota do choque da luz
com espanto o rigor repete se avançam

Se não se cita aqui nenhum parente brasileiro de uma possível família literária do fazer poético de Amâncio, é porque o poeta já começa a correr em faixa própria. Que neste livro já tenha escapado da influência de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto é sinal de que a poesia brasileira começa a trilhar novos caminhos.

[Adelto Gonçalves]

Tierra de secreta transparencia (Antología poética), de Serafina Núñez7. Tierra de secreta transparencia (Antología poética), de Serafina Núñez. Ediciones Torremozas. Espanha. 2005.

Serafina Núñez (La Habana, 1913) nos sorprenderá por la amplia y singular obra que, en parte, nos acerca este libro. Sus poemas están aquí acompañados por las certeras y bellas palabras de Juan Ramón Jiménez y una carta de su amiga Gabriela Mistral.

En sus respectivas introducciones dicen:

Jorge Enrique González-Pacheco y Diego Ropero-Regidor: “Serafina Núñez, la poeta hecha palma, la mujer de cristal a punto de quebrarse, la voz cautiva que hilvana su experiencia interior desde su isla de ensueño, siempre asida al desvelo de la sangre… (…) quizás, la poeta viva de mayor edad, y una de las más talentosas en letras hispánicas.”

Madeline Cámara: “Voz poderosa y singular en la poesía intimista cubana del siglo XX. Sus versos se destacan por el aliento cósmico, filosófico y la posición reflexiva implícita frente a acuciantes problemas de siempre, como la comunicación humana o las fuentes de la creación artística.”

Informacion acerca de la Antologia Poetica de Serafina Nuñez, cuya seleccion y prologo realice con el apoyo editorial de la Fundacion Juan Ramon Jimenez y ediciones Torremozas, ambas de España. Proyecto que me tomo casi dos años en verlo realizado, por el trabajo de seleccion de los textos y el estudio que conforma el prologo co-escrito con el poeta andaluz Diego Ropero Regidor, la edicion del libro es del 2004.

Miré los muros de la patria mía, de William Osuna8. Miré los muros de la patria mía, de William Osuna. Monte Ávila Editores. Caracas, Venezuela. 2004.

William Osuna Bello nació en Caracas el 18 de marzo de 1948. Hijo de José Luis Osuna, un empleado público, y Vicenta Emilia Bello, ama de casa y madre de once hijos. Hoy día es padre de María Emilia Osuna (bella diseñadora encargada de su más reciente antología en Monte Ávila Editores); y Diego Osuna. Es poeta, docente y editor. Entre sus autores favoritos se encuentran Pablo Neruda, Walt Whitman y Juan Calzadilla.

Ha escrito varios libros de poesía, entre ellos, Estos 81; Mas si yo fuese poeta, un buen poeta; Antología de la mala calle; San José Blues + Epopeya del Guaire y otros poemas; y la antología Miré los muros de la patria mía. Actualmente, trabaja en un poemario que lleva por título Traje de pelea.

Ofrecemos a continuación una entrevista que revela algunas - sólo algunas- de las tramas del alma poética de William Osuna: poeta de lo que es feo por fuera, pero bello por dentro; poeta entre poetas; poeta de hoy y para siempre.

- ¿Qué es la poesía?
- La forma más explícita como me puedo expresar y como mejor me entiende la gente. Pero también es la vital presencia del ser humano en la tierra.

- ¿La poesía sirve para algo?
- Para mucho, más bien. Y de “algo” a “mucho” hay un gran trecho, casi indefinible. La práctica de la poesía no tiene medición. Por ejemplo, las pasiones son insondables. Y para mí la poesía es una pasión, más que un oficio. Los oficios se abandonan: las pasiones no.

- ¿Hay algo que le falte escribir en poesía?
- A uno siempre le falta escribir el poema que no ha escrito.

- ¿Cuál de sus poemas es el más querido por usted?
- “Epopeya del Guaire” es el más aceptado por los lectores.

- De no haber sido poeta, ¿qué oficio hubiese escogido?
- Definitivamente me hubiese gustado ser jugador de béisbol, pero de las grandes ligas.

- ¿Un país que le gustaría visitar?
- Argentina, otra vez.

- ¿Cuál es la comida favorita de William Osuna?
- La comida árabe y la criolla.

- ¿Cuál es su bebida favorita?
- El tequila, la birra y el vino tinto.

- ¿Cuál obra de la historia de la literatura universal le hubiese gustado escribir?
- La Biblia.

- ¿Cuál personaje o autor de la historia de la literatura universal le hubiese gustado ser?
- Ismael de Moby Dick.

- ¿A qué hora del día escribe William Osuna?
- No tengo un tiempo específico para escribir. Escribo parado, sentado, en los carritos por puesto, en la oficina.

- ¿Cuál es su mayor debilidad?
- Creer que todos son mis amigos.

- ¿Cuál es su mayor fortaleza?
- Darme cuenta de que esto no es así.

- ¿Qué le gustaría hacer el día, o la noche, en que la muerte venga a buscarlo?
- Me gustaría que me encontrara bien vivo.


parceiros da agulha nesta seção

Guia Leia Mais (Brasil)   Grupo Palavreiros (Brasil)

 

 

Livros para Agulha deverão ser enviados aos editores, nos endereços a seguir:
Floriano Martins - Caixa Postal 52924 Ag. Aldeota - Fortaleza CE 60151-970 Brasil
Claudio Willer - Rua Peixoto Gomide 326/124 - São Paulo SP 01409-000

retorno à capa
 desta edição

índice geral

banda hispânica

jornal de poesia