![]() |
|
revista
de cultura # 44 |
|
Graciliano Ramos & São Bernardo Chico Lopes
É
o emblema da narrativa. No começo, quando nos fala da decisão de
escrever suas memórias, o personagem-narrador, Paulo Honório, menciona:
“Na torre da igreja uma coruja piou. Estremeci, pensei em Madalena.” E
escreve mais adiante: “Abandonei a empresa, mas um dia desses ouvi novo
pio de coruja e iniciei a composição de repente, valendo-me dos meus próprios
recursos, sem indagar se isto me traz qualquer vantagem, direta ou
indireta”. As
superstições populares associam a coruja à morte e à desgraça, mas
ela também pode ser representada, em vertentes esotéricas e filosóficas,
como um símbolo da consciência, já que consegue enxergar à noite e,
com aqueles olhos ferozmente atentos, representaria a vigília e a
sabedoria que dela pode advir. Em “São Bernardo”, a coruja tanto é
Madalena, mulher que legou a Paulo Honório um remorso fecundo, quanto a
obrigação de vigiar, de ter consciência, de dar forma racional – a
narrativa - a uma obsessão. É
um imperativo do inconsciente, do atavismo obscuro que o cerca, que ele
escreva um livro, e a Natureza lhe envia esse dever de reparação e
lucidez através de um símbolo noturno que catalisa insônia, solidão,
mistério e sabedoria. A sabedoria não é mesmo funesta e estremunhada
certeza noturna, meditação na clave do irremediável, inventário de
trevas, ruminação dos erros em busca de uma clareza que pode ser mais
desoladora que a escuridão? Paulo
Honório me fascina. Dos personagens de Graciliano Ramos é o que me
parece mais trágico, pois seu ideal de imobilismo tem a vontade ferrenha
como instrumento. Com um homem assim, pode ocorrer o mais simples e trágico
dos argumentos: “Tudo daria certo se os outros não fossem dados a ter
desejos e sentimentos diferentes dos meus”. A realidade precisa ser
removida. Mas ele ficará perplexo pela resistência do mundo, pela
opacidade indevassável de gentes e coisas. Lê-se
na novela, tradicionalmente, a tragédia do patriarca durão típico do
capitalismo rural brasileiro, mas a crítica prendeu-se talvez um pouco
demais àquela frase – “Fiz coisas boas que me deram prejuízo, fiz
coisas ruins que me deram lucro” – que, por sua verdade básica e
extremamente rude, simbolizaria Paulo Honório. Como não se desvia um milímetro
de sua meta, ele é monolítico, fácil de ser tipificado como um pragmático
implacável e vilanizado como um símbolo perfeitamente apropriado para o
ódio fácil das esquerdas. Seu niilismo, fundado nessa primária redução
ao ruim que dá lucro e ao bom que dá prejuízo, é um traço definido
demais para que nos prendamos a ele. Como não conhece nada além dessa
dicotomia, nada além de trapaças, ganâncias, astúcias mesquinhas, o
que o assombra na mulher que escolheu é o interesse espontâneo e altruísta
pelos outros, um ideal verdadeiramente humano.
É
onde entra Madalena, personagem que não se esquece, embora se delineie ao
fundo da narrativa, e esta, dominada por um homem que aspira a sorver e
centralizar tudo, anulando o Mundo, a coloca na condição de sombra. No
entanto, não é sombra qualquer – diluída, esmagada em vida, sem força
para ir contra a vontade do proprietário da fazenda São Bernardo - o
marido egocêntrico e inalterável na linguagem da prepotência - ela terá
a força de um fantasma, de uma negação que se afirma quanto mais
veemente o desejo de entender (e, portanto, dominar) de seu senhor se
desenha. No
entanto, é preciso observar que Madalena é um personagem revelador também
por um lado menos tocado por uma crítica obcecada em tipificar Paulo Honório
como o “capitalista selvagem” que amamos deplorar. Quem é ela? Tão
sensível, aceitou casar-se com um homem obviamente rude sem preliminares
de namoro. Não se menciona isso, mas a sensualidade de Paulo Honório
deve ter falado alto – ele seria, além de monstro capitalista, um fenômeno
de sedução física, o que dá uma ressonância ainda mais profunda à
sua odiosidade. Ela, mosquinha frágil e trêmula, gostou da aparência da
tarântula. Graciliano,
em Madalena, pode ter desenhado outro tipo de personagem trágico: aquele
que, escrupuloso, vê-se aliado a um monstro para dar continuidade à
vida. Ingênua, ela acha que a convivência conjugal pode melhorar Honório.
E não podemos nos esquecer da tia, a quem deseja dar proteção material. Há
equívocos de parte a parte nesse casal trágico – são, como muitos,
impelidos para o casamento por uma série de wishful thougts
destinados ao malogro, caem no alçapão de uma instituição infeliz
certos de que os desejos individuais podem se sobrepor ao poder de uma
forja arquetípica de ruínas. Ele
não pode abrir mão da insensibilidade, não pode ser “sentimental”,
não pode deixar que ela faça filantropia na fazenda e se rebele contra
seu despotismo, não pode permitir que fraquezas desse gênero ponham a
perder tudo que ergueu na base da força e da desconsideração. Tem claro
na cabeça que os homens se dividem entre cretinos que podem ser
explorados e inteligentes que é preciso submeter, nuances de
comportamento lhe escapam. A brutalidade é o único meio com que se pode
proteger de sua própria vertiginosa atração pela fraqueza.Lemos que não
pensou em amor ao procurar Madalena, mas sonhou com um útero onde
engendraria o seu duplo, o seu herdeiro.
Nesse
ponto, pode-se até aventar que Honório seria até mais honesto e heróico,
pois tem a convicção desesperada do inútil de sua maldade e não
mascara a sua prepotência. Madalena,
como uma burguesinha, caminha na corda bamba da pieguice, com uma vontade
de justiça que não encontra correspondência na ação, e por isso se
imola; ela aceita a sua autodestruição, ela compõe bem a imagem
conservadora que Graciliano devia ter das mulheres – admiráveis em
sentimento, tolas na vida prática e na inteligência. Mas
seu suicídio, dentro da lógica tortuosa dessas memórias do fazendeiro,
acaba por ser o seu grande ato de demonstração de força – pois não
é a partir dele, geralmente tido como medida de fuga e fraqueza, que o
germe da dúvida, da decadência, da consciência, se instalará no
marido? Eis que o vencido desnorteia um vencedor porque foi capaz de levar
sua debilidade a um extremo que o poderoso não pôde compreender. Há uma
vida misteriosa nos objetos submetidos: eles são nossos, e, no entanto,
nos escapam. O
aterrador do Mal é que ele não oferece saída para quem, incauto, dele
se aproxime; as boas intenções viram caricaturas e a resistência humana
se anula, sob sua influência. Duas opções se oferecem: o contágio e o
suicídio. Contagiado, Honório permanece vivo. A solidão terminal
embalada a pio de coruja é seu prêmio. Em
contos de fadas, fábulas e parábolas, é comum que uma ave apareça como
guia de importância vital para um dado personagem. Materialista rígido,
Graciliano, escritor, enveredou pela poesia e o misticismo, com sua
coruja.
Pássaros
e aves aparecem assim, áugures repentinos, como símbolos da ligação de
um homem a seu lugar de origem, à sua pátria de eleição, mesmo que,
momentaneamente, ele esteja em regiões que lhe sejam hostis. São laços
entre uma alma peculiar e a geografia exterior que conheceu e sob cuja
influência cresceu. No caso
de Paulo Honório, a coruja vem acentuar ainda mais o seu temperamento
solitário, oferecendo, no hieróglifo musical de seu pio, uma tradução
da aridez e da desolação da fazenda que o cerca. As
raízes telúricas, vitais, podem ser odiosas como um cativeiro. Quantas
pessoas não assim, filhas infelizes de um lugar, escravas de uma paisagem
estrita que lhes dá a cor peculiar de sua individualidade, mas também
lhes rouba qualquer possibilidade de variação, de fuga! Honório tem a
vontade triste, obstinada, cega e áspera de sua terra. Ele não pode
fugir ao que é, sua obra – São Bernardo – ganhou a autonomia do
feitiço oposto ao feiticeiro, e é o que acontece com os que persistem
numa única meta egoísta, excludente. Nossa persistência num único
objeto é punida com a limitação escravizadora que este mesmo objeto,
aparentemente conquistado, nos impõe. Ei-lo, o homem forte, onipotente, precisando de um tremor suscitado por uma nota musical noturna, distante, para começar a escrever. Lúgubre é seu apego ao lugar. Lúgubre, o que ele fez de sua vida. Lúgubre, a sua perda irremediável da única mulher que tentou amá-lo. Tudo que lhe resta é um pio. De alerta e de elegia. |
|
Chico Lopes (Francisco Carlos Lopes) (Brasil, 1952). Jornalista, narrador e tradutor. Autor de Nó de sombras (2000), Dobras da noite (2004), e da tradução de A volta do parafuso, de Henry James. É programador e apresentador do cinevideoclube do Instituto Moreira Salles, em São Paulo. Contato: carlopes@rantac.com.br. Página ilustrada com obras de Leonel Maciel (México). |
| retorno à capa desta edição |
índice geral | banda hispânica | jornal de poesia |