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revista
de cultura # 44 |
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Cidades: Hélio Rola Floriano Martins
O
que encontramos em galerias, bienais etc., e que atende por arte contemporânea,
não passa de um estímulo ao desconforto provocado por uma sociedade
baseada no alheamento, na cisão entre vida e arte, privilegiando o adorno
e a mais abjeta disfunção. Evidente que os artistas são os grandes
apologistas desse desconforto, não como críticos, mas antes como
entusiastas de sua irrefletida propagação. Mudamos em tudo, pelo mais
simples sinal dos tempos, mas o artista contemporâneo segue fiel ao
desprezível ornato, deslocando apenas ocasionalmente o ponto de convergência
de sua percepção, ou seja, o enfeite tanto pode ser a obra como, hoje
preferencialmente, o artista. Por vezes parece que o artista contemporâneo
disputa com sua obra o delirante direito de combinar com a decoração do
ambiente a que se submetem. Se
há um desconforto quando estamos diante de uma arte assim, por outro lado
se verifica uma empatia imediata com a alegria que esplende da obra de Hélio
Rola. Trata-se de um contentamento, de uma identificação vigorosa com
alguém que conversa conosco, que declara suas inquietações, que se
move, participa da vida. E o faz sem perder o acento crítico ou o humor,
sem enveredar pelo entretenimento ou pelos dilemas angustiados da criação,
respectivamente. O que se passa é que Hélio Rola está tão repleto de
humanidade que não há como não compartilhá-la. É disto que somos
feitos, afinal: humanidade. Não se trata do artista ou de sua obra, mas
sim de uma semelhança compartilhada, que busca um diálogo aberto com
quem se aproxime.
Não
é diferente o que nos propõe Hélio Rola desta vez, com a mostra Cidades
que se apresenta no MCC-Dragão do Mar (Fortaleza, 2005). Acentua o
entendimento múltiplo em torno do “escudo brilhante” aludido por Galvão,
ou seja, a arte é tanto o que se volta sobre si mesmo quanto o que evoca
reparos, meditações, discernimentos e, sobretudo, expande os limites de
nossa percepção da realidade. Para tanto, incide de maneira vertiginosa,
sobre a pele dessa geografia humana, descarnando-a, e sendo o próprio
reflexo descarnado de seus conflitos, acentuando o quanto há de imitação
e desencanto naquele espectro em que fixamos nosso juízo acerca da
cidade, do espaço público de convivência, dessa demografia exeqüível
com que sonhamos todos e raros se animam a fazê-la existir. Tudo
aquilo que o artista já alertava a princípio da década passada conforma
hoje uma realidade ainda mais dilacerante, espécie de engodo histórico,
a maneira como deixamos aflorar nosso lado sombrio, violento,
desagregante. E reflete isto em um recorte diacrônico que nos permite
compreender as modulações de um paraíso perdido, de uma condição
dissipada por inação, o que acabou gerando um rancor generalizado, uma já
clássica má vontade de recuperar o que há de humano no homem. A mostra
conta com o amparo mágico da estrutura arquitetônica do espaço do MCC.
São duas amplas salas entrecortadas por um espaço exterior de circulação,
como se fossem as duas margens de um rio – possivelmente o rio dos seres
a que se refere Dante na Divina Comédia. Naquele entremeio está
toda a aposta de Hélio Rola, posto que situou sua poética no limite
desses dois extremos, de tal maneira que, ao invés de Cidades,
esta mostra poderia muito bem ter por título Intervalos.
O
artista Hélio Rola (Fortaleza, 1936) sempre teve presente em si uma atuação
no cotidiano da relação entre arte e vida. Pensemos nos painéis urbanos
que o grupo Aranha propagou pela cidade, em sua obstinada ação através
da arte postal e hoje atualizada pelas intervenções diárias através da
Internet, ou no mural que efetuou para uma instituição mexicana, ou
mesmo na atividade como gravador que já lhe rendeu mostra na Alemanha ou
a edição completa de números das revistas Alforja (México), Matérika
(Costa Rica) e Agulha (Brasil). Trata-se de um conjunto de obra que
define a essencialidade estética de um artista. Contudo, importa aqui
destacar que esta mostra soma quase que à exaustão todos os seus esforços
por evidenciar um mundo que perdemos, por nossa inapetência.
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Floriano Martins (Brasil, 1957) é um dos editores da Agulha. Contato: florianomartins@rapix.com.br. A exposição Cidades encontra-se à mostra do Memorial da Cultura Cearense, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Fortaleza), de 09 de março a 09 de abril de 2005, e tem a curadoria de Floriano Martins. Página ilustrada com obras do artista Hélio Rola (Brasil). |
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