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revista
de cultura # 44 |
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O caso Qorpo-Santo: escrita e loucura Alfredo Schechtman
O
espaço da criação implica em buscar traduzir conteúdos, percepções e
representações internas numa linguagem acessível ao Outro, negociação
entre o estritamente subjetivo e sua conversão em símbolos articulados
culturalmente. As
vanguardas artísticas do início do século XX, a partir do dadaísmo e
do surrealismo, aprofundaram e legitimaram esta relação entre o
estritamente subjetivo, o mergulho nas brumas interiores do ser, muitas
vezes de conteúdo hermético e cifrado simbolicamente, e sua circulação
no meio social, no espaço ampliado da cultura. Interessa-nos,
pois, neste ensaio, seguir abordando a relação entre literatura e
loucura. Em texto anterior apresentamos alguns autores brasileiros que
passaram pela experiência da internação psiquiátrica, e sobre a mesma
refletiram de modo intenso. Todavia, naqueles escritos, a loucura, a vivência
desta experiência singular, é narrada com um olhar racional,
“exterior”, não são escritos “loucos”, cifrados à compreensão
do Outro. Walter
Benjamin, em resenha originalmente publicada em 1928, apresenta análise,
sucinta mas penetrante, sobre as famosas memórias de Daniel Paul
Schreber, e nos fala mais amplamente desta literatura da desrazão, da
qual tinha ciência e pela qual manifestava vivo e continuado interesse. “A existência deste tipo de obras tem algo de surpreendente. Estamos habituados, apesar de tudo, a considerar o âmbito da escritura como algo superior e seguro, de tal maneira que a emergência da loucura, que aqui aparece sigilosamente, assusta mais.” Tais
textos foram, em sua maioria, preservados quase anonimamente, graças ao
empenho de registro pelos próprios autores, os quais quase sempre
custearam integralmente as edições de suas obras, à margem do sistema
editorial dominante. No
caso brasileiro, o encontro de tais registros é raro, não apenas pela
nossa relativamente escassa familiaridade com o universo da escrita, em
uma cultura de viés predominantemente oral, mas também pela precária
conservação de nossa memória histórica e cultural. Assim,
é como exceção notável que foi possível resgatar e revalorizar a obra
textual de um autor gaúcho do século XIX (1829-1883), José Joaquim de
Campos Leão, nome ao qual o próprio autor acrescentou a alcunha de
Qorpo-Santo (QS). Foram
necessários quase cem anos, a partir da publicação original de seus
textos, para sua redescoberta, na década de 1960. A
partir daí, assistimos a uma nova abordagem da vida e da obra de QS,
entre autores da crítica literária e teatral brasileira que voltaram
suas lentes para esta escrita singular. Alguns
críticos, destacando-se o editor de seu teatro completo, Guilhermino César,
buscaram situá-lo entre os precursores de modernas tendências da arte
teatral, como o teatro do Absurdo, pretendendo atribuir-lhe a paternidade
desta moderna corrente teatral. Já
Eudinyr Fraga, em trabalho dos anos 80, defende que QS seja enquadrado
como autor surrealista, por fazer uso constante em seu texto do
‘automatismo psíquico’, que caracterizaria aquela corrente estética. “Suas personagens são sempre projeção dele próprio, e com ele muitas vezes se confundem, como observamos pelo conhecimento de sua biografia. Inclusive, deixam a categoria de personagens e assumem um tom discursivo, lamentando as infelicidades e as injustiças sofridas pelo criador. Por outro lado, não tem preocupações estéticas. Suas lamúrias estão sempre a um nível existencial, ou melhor, individual. Sua obra visa satisfazer ‘uma necessidade interior que a expressão determina’.” Entre
os autores que estudaram QS,
a análise mais profunda segue sendo a realizada por Flávio Aguiar, ainda
na década de 70, em “Os Homens Precários”, resultado de sua tese de
mestrado em literatura. Na mesma, Aguiar analisa em detalhe o teatro de
QS, e foge argutamente à discussão sobre ser QS o precursor não
reconhecido de modernas tendências do teatro moderno. Para
Aguiar, QS constrói um teatro da paralisia, em que o pano de fundo da
moralidade vigente é antagonizado pelo desenrolar dos acontecimentos, em
atropelo da possível lógica de seus enredos. “Nas
peças de Qorpo Santo o desenrolar dos acontecimentos (o ritmo do tempo)
é caótico demais para que dele possa nascer, ‘espontaneamente’,
qualquer conclusão lógica”. Interessa-nos
aqui ressaltar que, à exceção destes dois autores citados imediatamente
acima, que ao menos tangenciaram o tema, é perceptível a ausência de
uma reflexão sobre a questão da loucura, sobre os limites da normalidade
psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, a desrazão se
faz presente no cerne de sua escritura, nas nervuras de seu texto. Assim,
buscando suprir ainda que parcialmente esta lacuna, apresentamos a seguir
um breve resumo de sua vida e obra, destacando alguns fragmentos de suas
peças teatrais que apontam para a presença de conteúdos extremamente
pessoais, que parecem como que invadir a cena e o espaço literário, numa
freqüência pouco usual nos textos da maioria de seus contemporâneos. José
Joaquim Leão, natural da Vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul,
vai para Porto alegre em 1840, já órfão de pai, para estudar gramática
e conseguir emprego naquela capital, habilitando-se ao exercício do
magistério público, que passa a exercer a partir de 1851.
Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e começa a escrever sua “Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade”. Parecem manifestar-se neste momento os primeiros sinais de seus transtornos psíquicos, rotulados então sob o diagnóstico de “monomania”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a pedido da própria família. QS
não aceita pacificamente este seu enquadramento psiquiátrico, recorrendo
ao Rio de Janeiro, sendo examinado então por médicos daquela capital,
que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua interdição
judicial. Todavia,
o estigma estava posto, e nosso autor se vê cada vez mais isolado. Este
isolamento social parece incitá-lo a escrever febrilmente, e o leva
ademais a constituir sua própria gráfica, na qual viabiliza e edita sua
produção textual. Vale
a pena, neste ponto de nosso percurso, a leitura de crônica de contemporâneo
seu, transcrita por Flávio Aguiar, que traça retrato humano de nosso
personagem. “Chamava-se
José Joaquim Leão do Corpo Santo. Era alto, magro, moreno, de uma
palidez de morte. Usava a cabeleira comprida como os velhos artistas da
Renascença. Trajava calças brancas, sobrecasaca preta, toda abotoada
como uma farda, bengala grossa para afugentar os cães e chapéu alto de
seda lustroso. Andava
sempre, na rua, apressado como se fosse tirar o pai da forca. Fora
muitos anos mestre-escola da roça, mas com certo preparo não vulgar, que
o punha em destaque. (…)
Quando a luz da razão se apagou no seu cérebro, tornou-se então
tristonho, taciturno, fugindo da convivência dos mais. Sentia-se bem só,
na solidão, a fumar o seu cigarro de palha, com fumo crioulo. E passava
assim horas e horas, completamente estranho a tudo que o cercava, na
indiferença da sua grande desgraça.” Mas sigamos e adentremos um pouco em seu singular universo textual, transcrevendo extensivamente alguns trechos de “Hoje sou um; amanhã outro”, ilustrativos desta transposição quase literal de traços biográficos do autor para o enredo de ficção. “O REI - da descoberta, que tanto ilustra, moraliza e felicita - honrando!? Mas quem foi no Império do Brasil o autor MINISTRO
- Um homem, Senhor, predestinado sem dúvida pelo Onipotente para derramar
esta luz divina por todos os habitantes do Globo que habitamos. O
REI - Mas quais os seus princípios, ou os de sua vida? MINISTRO
- É filho de um professor de primeiras letras; seguiu por algum tempo o
comércio; estudou depois, e seguiu por alguns anos a profissão de seu
Pai, roubado-lhe pela morte, quando contava apenas de 9 a 10 anos de
idade. Durante o tempo do seu magistério, empregou~se sempre no estudo da
História Universal; da Geografia; da Filosofia, da Retórica - e de todas
as outras ciências e artes que o podiam ilustrar. Estudou também um
pouco de Francês, e do Inglês; não tendo podido estudar também
- Latim, conquanto a isso desse começo, por causa de uma
enfermidade que em seus princípios o assaltou. Lia constantemente as
melhores produções dos Poetas mais célebres de todos os tempos; dos
Oradores mais profundos; dos Filósofos mais sábios e dos Retóricos mais
brilhantes ou distintos pela escolha de suas belezas, de suas figuras oratórias!
Foi esta a sua vida até a idade de trinta anos.
MINISTRO
- Nessa idade, informam-me... isto é, deixou o exercício do Magistério
para começar a produzir de todos os modos; e a profetizar! O
REI - Então também foi ou é profeta!? MINISTRO
- Sim, Senhor. Tudo quanto disse que havia acontecer, tem
acontecido; e se espera que acontecerá! O
REI - Como se chama esse homem!? MINISTRO
- Ainda não vos disse, Senhor, - que esse homem viveu em um retiro por
espaço de um ano ou mais, onde produziu numerosos trabalhos sobre todas
as ciências, compondo uma obra de mais de 400 páginas em quarto, a que
denomina E... ou E... de. .. E aí acrescentam que tomou o titulo de Dr.
C... s.... - por não poder usar o nome de que usava - Q... L..., ou J...
J... de Q. .. L..., ao interpretar diversos tópicos do Novo Testamento de
N. s. Jesus Cristo, que até aos próprios Padres ou sacerdotes pareciam
contraditórios! O
REI - Estou espantado de tão importante revelação! MINISTRO
- Ainda não é tudo, Senhor: Esse homem era durante esse tempo de jejum,
estudo, e oração - alimentado pelos Reis do Universo, com exceção dos de
palha! A sua cabeça era como um centro, donde saíam pensamentos, que
voavam às dos Reis de que se alimentava, e destes recebia outros. Era
como o coração do mundo, espalhando sangue por todas as suas veias, e
assim alimentando-o e fortificando-o, e refluindo quando necessário a seu
centro! Assim como acontece a respeito do coração humano, e do corpo em
que se acha. Assim é que tem podido levar a todo o mundo habitado sem auxílio
de tipo - tudo quanto há querido! O
REI - Cada vez fico mais espantado com o que ouço de teus lábios! MINISTRO
- É verdade quanto vos refiro! Não vos minto! E ainda não é tudo: esse
homem tem composto, e continua a compor, numerosas obras: Tragédias; Comédias;
poesias sobre todo e qualquer assunto; finalmente, bem se pode dizer - que
é um desses raros talentos que só se admiram de séculos em séculos! O
REI - Poderíamos obter um retrato desse ente a meu ver tão grande ou
maior que o próprio Jesus Cristo!? MINISTRO
- Eu não possuo algum; mas pode se encomendar ao nosso Cônsul na cidade
de Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Sul, em que tem
habitado, e creio que ainda vive. O
REI - Pois serás já quem fará essa encomenda! MINISTRO
- Aqui mesmo na presença de V . M. o farei. (Chega-se a uma mesa, pega em
uma pena e papel, e escreve:) "Sr.
Cônsul de... De
ordem de Nosso Monarca, tenho a determinar a V. Sa. que no primeiro
correio envie a esta Corte um retrato do Dr. Q... S..., do maior tamanho,
e mais perfeito que houver. Sendo
indiferente o preço. O
Primeiro Ministro DOUTOR SÁ E BRITO" Corte
de..., maio 9 de 1866.” Da
mesma maneira, em “O Parto”, vislumbra-se de imediato esta presença
do fator biográfico mesclado ao entrecho textual.
RUIBARBO
- Eu me explico: Quando escrevo, penso, e procuro conhecer o que é necessário,
e o que não é; e assim como, quando me é necessário gastar cinco, por
exemplo, não gasto seis, nem duas vezes cinco; assim também quando
preciso escrever palavras em que usam letras dobradas, mas em que uma
delas é inútil, suprimo uma e digo: diminua-se com esta letra um inimigo
do Império do Brasil! Além disso, pergunto: que mulher veste dois
vestidos, um por cima do outro!? Que homem, duas calças!? Quem põe dois
chapéus para cobrir uma só cabeça!? Quem usará ou que militar trará
à cinta duas espadas! Eis por que também muitas vezes eu deixo de
escrever certas inutilidades! Bem sei que a razão é - assim se escreve
no Grego; no Latim, e em outras línguas de que tais palavras se derivam;
mas vocês que querem, se eu penso ser assim mais fácil e cômodo a
todos!? Finalmente, fixemos a nossa Língua; e não nos importemos com as
origens!” Esta amostra, pinçada quase aleatoriamente de algumas de suas peças, parece suficiente para o que pretendíamos indicar, sendo interessante nomear alguns títulos de seus trabalhos, além dos acima mencionados, que soam bastante peculiares para o contexto da época: “As relações naturais”, “Certa identidade em busca de outra”, “Eu sou a vida, eu não sou a morte”. A
obra enciclopédica de QS alcança nove volumes na edição original
impressa em sua gráfica, chamando a atenção o fato de que todo o
conjunto de seus textos teatrais foi escrito em apenas seis meses do ano
de 1866, período que é indicado como coincidente com o agravamento de
seus sintomas psíquicos. Esta
febre de escritura foi imediatamente patologizada pelo saber de então,
sendo rotulada de “grafomania”. Foram precisos cem anos para que a obra tormentosa de QS emergisse novamente, voltando à cena de modo instigante e pendente de novos olhares. |
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Alfredo Schechtman (Brasil, 1952). Médico. Contato: alfredo_schechtman@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Leonel Maciel (México). |
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