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revista
de cultura # 44 |
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O cinema aos olhos de Liv Ullmann Antonio Jr.
Nascida
casualmente em Tóquio, Japão, na sua juventude brilhou no Teatro
Nacional Noruego de Oslo interpretando Ofélia, Julieta, Margarida (de
“Fausto”), Joana D’Arc e personagens de Brecht. Após modestos papéis
no cinema, tornou-se, com Persona (1966) - intitulado pateticamente
no Brasil de Quando Duas Mulheres Pecam -, uma das atrizes de maior
prestígio internacional. Bergman continuou utilizando a “luz
interior” de Liv em mais oito filmes,
culminando em 2003 com Saraband, continuação trinta anos passados
do clássico Cenas de um Casamento (1973). Em
Barcelona, a sensível intérprete falou de sua carreira vitoriosa, de
Bergman e do seu mais novo projeto, a adaptação cinematográfica de Casa de Bonecas, de Ibsen, com Kate Winslet e John Cusack. Liv
Ullmann, aos 66 anos, de profundos olhos azuis, falando pausadamente com
forte sotaque nórdico, transmite uma sabedoria serena e uma vitalidade
interior juvenil. (AJr.) AJr.
- Faz parte da história do cinema o seu primeiro encontro, acompanhada de
Bibi Andersson, com Ingmar Bergman. Este, impressionado com a semelhança
de vocês, imaginou, a partir de seus rostos e suas personalidades, o
enigmático Persona. É lenda ou realidade? LU
- Totalmente realidade. Em Persona fiz uma atriz de teatro que
repentinamente deixa de falar, um papel quase mudo. Eu tinha 25 anos e não
tinha a menor ideia do que ele queria dizer. Olhava a Bergman e sentia que
a mulher que eu estava representando tinha muito que ver com ele: alguém
muito famoso que não queria falar nem explicar quem era, e se escondia
atrás de uma fachada. Copiei a expressão facial de Bergman. Creio também
que trabalhamos tanto tempo juntos porque eu não fazia perguntas, apenas
seguia suas orientações.
LU
- Certa vez disse a Ingmar que ele era “um gênio”, enquanto que eu
era simplesmente “um talento”. A reação dele foi uma metáfora
musical que nunca esqueci: “Você é meu Stradivarius”. Foi o mais
belo que alguém me disse. AJr.
- O que diz do último filme que fizeram juntos, Saraband? LU
- Eu já havia abandonado o cinema como atriz em 1994, tinha bem claro que
só voltaria a atuar caso fosse convidada por Ingmar. O nosso reencontro
foi natural, como regressar a terra natal… É um filme muito forte, e
autobiográfico como todos os seus filmes, sem dizer que sejam cópias de
sua própria vida. Saraband explora as horríveis relações entre
pais e filhos, e quando um deles não sabe pedir perdão. AJr.
- Bergman sempre foi um diretor de mulheres. Deu papéis maravilhosos para
você, Harriet Andersson, Ingrid Thulin ou Bibi Andersson. Havia
competitividade entre vocês? LU
- Nunca. Bibi Andersson, que poderia ter me odiado porque ela era a
favorita de Ingmar até que eu cheguei, continuou sendo a minha melhor
amiga. As mulheres são capazes de um grau de intimidade e aceitação que
os homens desconhecem. AJr.
- Qual o filme de que sente mais orgulho? LU
- Talvez Os Imigrantes, de Jan Troell, onde fiz uma jovem camponesa
obrigada pela miséria a fugir de sua terra natal e partir a conquista de
territórios ainda virgens do Middle West norte-americano. O segundo seria
Face a Face, de Bergman. AJr.
- Sempre desejou ser atriz?
AJr.
- Bergman, que dá tão poucas entrevistas, certa vez declarou que você
é uma grande atriz. O que sentiu? LU
- Sou boa atriz, tenho talento. Sei que Bergman me considera uma grande
atriz e eu sei que ele é um gênio: essa confiança foi muito importante
para o nosso trabalho. Mesmo assim, não creio que sou melhor atriz que
muitas outras. Não sei porque era escolhida entre tantas outras melhores,
talvez porque seja uma pessoa fácil, tranqüila. AJr.
- 1992 foi a sua estréia como diretora, com Sofie, e nunca mais
parou… LU
- O problema é que quando as atrizes envelhecem nos oferecem somente papéis
estúpidos, que não permitem transmitir nada, e então já não é
divertido. Eu tive sorte e pude mudar de rumo, passei a dirigir. Creio que
algo aconteceu dentro de mim que não podia passar antes, porque veio com
a idade. Minha vida entrou numa renovada época criativa. Quero dirigir
ainda muitos filmes e escrever muitos livros. Essa intensidade surgiu com
meu sentido de mortalidade. Agora sinto que tenho algo que dar que não
tinha antes. AJr.
- Existe uma continuidade temática em seus filmes… LU
- Sim, com certeza. Creio que está diretamente relacionada com a busca do
amor: o amor desejado, o amor recebido e o amor que abandona as pessoas. AJr.
- Filmou também dois roteiros de Bergman. LU
- Foi a pedido dele. Fiquei muito comovida. Com eles provei que uma mulher
pode narrar uma história de uma maneira muito distinta da que contaria um
homem. Algumas idéias desses filmes são minhas e outras de Bergman, e
isso é que tem de excitante no cinema, já que se podem fazer diferentes
interpretações de um mesmo caso. AJr.
- Está pronta para iniciar as filmagens de Casa de Bonecas?
LU
- Quase. Falta finalizar uma coisa ou outra. Serei fiel ao texto de Ibsen.
Casa de Bonecas narra a hipocrisia e convencionalismos da sociedade
do final do século XIX. Nora, salva a vida do marido doente graças a um
empréstimo conseguido falsificando a assinatura de seu pai. Como conseqüência,
a protagonista acaba abandonando esposo e filhos. AJr.
- A Kate Winslet fará a Nora? LU
- Sim. Pensei inicialmente na atriz australiana Cate Blanchett, que não pôde aceitar por estar grávida. Admiro o trabalho da Kate. Temos
conversado por telefone e ela me disse que está impaciente para iniciar
as filmagens. O seu marido, Torvald, será representado por John Cusack. O
Stellan Skarsgard também está no elenco e possivelmente Tim Roth. AJr.
- Nos anos setenta, você era um modelo a seguir: européia, intelectual,
independente e liberal. Por que não deu certo em Hollywood? LU
- Escolhi muito mal meus filmes. Porém não foi decepcionante a experiência.
Me diverti muito e ganhei dinheiro. As portas da Broadway se abriram e
quando a aventura se acabou voltei à Europa e continuei trabalhando. Fui
duas vezes nominada ao Oscar, e fiquei decepcionada com a derrota. Era
jovem, ingênua, ambiciosa. Mas tudo caminhou bem, possivelmente se
tivesse ficado em Hollywood seria uma dessas estrelas esquecidas com o
rosto esticado e inexpressivo para agradar os produtores. AJr.
- Você é atriz, escritora, roteirista e diretora. Qual o mais difícil? LU - Dirigir. Principalmente porque sou mulher. No meu primeiro filme, já tinha mais de 50 anos, tentava ser simpática com todos e riam da minha ingenuidade. Porém já fiz cinco filmes, aprendi: não é que tenho que ser dura, tenho que crer em mim mesmo. Não ter complexo de mulher madura, e sim orgulho. |
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Antonio Júnior (Brasil, 1970). Escritor. Autor de livros como O aprendiz do amor (1993), Caprichos (1998) e Artepalavra - Conversas no velho mundo (2003). A série de entrevistas que vem realizado com distintos nomes da arte e da cultura em todo o mundo encontra-se em El Gitano (www.elgitano.blig.ig.com.br). Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras do artista Leonel Maciel (México). |
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