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revista
de cultura # 45 |
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Chico Anysio à beira do riso João Soares Neto
JSN
- Qual a herança genética que fez dos filhos de D. Haydée e Oliveira
Paula os talentos que são? CA
- Olhe, João, eu não entendo de genética e sei, apenas, que nos cavalos
PSI (puro sangue inglês) ela é perfeita e total. Os filhos da D. Haydée
têm um lado artístico pela parte dela, que tocava piano, declamava e, se
tivesse nascido em 1980, com certeza seria, no mínimo, uma bela atriz - e
atriz bela. Pelo lado do meu pai, eu herdei o senso de humor, porque o
Coronel Oliveira Paula era muito engraçado e, no conviver diário, foi a
pessoa mais engraçada que eu conheci, porque ele não “fabricava” uma
piada, ele a fazia com a maior naturalidade e tranqüilidade. O Elano é
quase um gênio e a Lupe só não foi a grande atriz que merecia ter sido,
porque por 30 anos o marido dela a proibiu de representar. O Zelito é um
cineasta e produtor cinematográfico dos melhores e não sei de quem ele
herdou isto. Mas temos, todos, uma coisa em comum: somos pessoas muito
decentes. JSN
- A genialidade compartilha o DNA com muito trabalho e estudo, ou não? CA
- Genialidade é uma palavra muito usada e, por esta razão, mal usada,
nos dias de hoje. Acho que a palavra “gênio” só se aplica a um homem
como Sabin, que inventou uma gota que tirou dos pais do mundo inteiro um
grande medo, a milagrosa vacina que evita uma doença tristíssima para as
crianças. Tudo, então, é conseguido com muito trabalho e, obviamente,
muito estudo. Nunca acreditei em inspiração e sempre defendi a transpiração.
O meu caso - humorista - é muito especial porque, assim como os poetas,
eu não paro de pensar e para tudo que olho, eu olho procurando o que
posso tirar de graça daquilo que estou vendo. Tenho idéias que partem
que uma frase que escuto, uma pessoa que vejo, uma situação que vivo. Se
quiser chamar esta idéia que tenho (porque eu sempre a procuro) de
inspiração, que assim seja. O estudo - como as viagens e a vivência -
me garante uma cultura geral interessante, que me permite ampliar o meu
campo de trabalho. Ele é de importância fundamental. JSN
- Entre a firmeza e a compaixão de D. Haydée e o jeito agridoce do Cel.
Oliveira Paula, como se dividia o seu coração? CA
- Dividia-se ao meio. Minha mãe era uma santa que muitas vezes conversou
com Jesus e outras vezes convidou Nossa Senhora a sentar ali ao seu lado,
na cama. Meu pai nasceu fora de época. Era um grande batalhador, um homem
sem estudo mas com um talento incomensurável. Ele deveria ter nascido
depois da segunda guerra, quando começou o grande impulso de progresso do
mundo. É insuportável saber que meu pai morreu antes do fax, da xerox,
do computador, do telefone celular. Sua empresa de ônibus (que se acabou
num incêndio sem estar no seguro) era exemplar. Nunca mais se viu outra
sequer parecida, neste pais. Minha mãe tinha paciência com ele e, melhor
ainda, o perdoava. JSN
- Elano Paula, seu irmão, como poderia ser descrito? CA
- Elano é uma das pessoas mais brilhantes que eu conheço, além de ser
quem mais entende de habitação e poupança neste país. Sempre foi de
grande competência e tirocínio absolutamente certo. Se errou, na vida,
errou tão pouco que nenhum desses prováveis erros em nada o atrapalhou.
Foi sempre correto com seus empregados e, mais ainda, se isto é possível,
com seus amigos. É um homem que não nega uma ajuda se ela estiver ao seu
alcance e tem um grande prazer em colaborar com um amigo que tenha à sua
frente algum embaraço. Ele sabe dos becos e das vielas da vida e por eles
caminha com a mesma desenvoltura com que anda pelas avenidas e viadutos. JSN
- .Lupe, sua irmã mais velha, casada com médico famoso, optou por ser
atriz. Você acredita que a arte de representar é tão forte quanto os laços
afetivos? CA
- No caso da Lupe eu até me arriscaria a dizer que o casamento dela só não
foi um grande desastre porque dele nasceram três mulheres admiráveis;
mas o marido dela foi um grande corte na sua vida. A Lupe, no concurso que
fizemos, na Rádio Guanabara, no qual eu tirei o sétimo lugar, ela tirou
o terceiro e era, depois da Fernanda Montenegro, o grande trunfo do
Alfredo Souto de Almeida, diretor da rádio. A proibição do seu noivo,
então, foi cruel. Ela sofreu demais esta proibição, ainda mais ao ver
que enquanto o tempo passava, mais certo eu dava. Nós todos na família,
tínhamos como certeza a sua separação, mas ela continuou ao lado dele e
junto a ele está agora, no pior momento da vida, pois ele está
esclerosado e cego. Um grande karma. A arte de representar que tanto ele
proibiu é, hoje, quem garante as despesas da casa. Minha irmã é uma
vencedora. JSN
- Zélito Viana, o caçula, cineasta acima dos críticos, teria tido
sucesso em Hollywood se tivesse largado tudo por aqui? CA
- Não. O Zelito é um cara muito bom, profissionalmente. Foi o produtor
dos sonhos do Glauber Rocha e dirigiu filmes admiráveis, como Os
Condenados e Villa Lobos. O problema é que ninguém muda o
temperamento de ninguém e assim como eu sou 220 volts, o Zelito é 12
volts - nem dá choque. Eu faço seis, sete coisas ao mesmo tempo, o
Zelito faz uma da cada vez e sem a menor pressa. Hollywood é um campo de
batalha e lá o Zelito morreria no primeiro combate, porque ele sequer
pegaria numa arma. Eu o levei para a TV numa ocasião, para dirigir um
programa que eu fiz em 1981, chamado Chico Total. O programa era
mensal e, mesmo assim, ele achava um absurdo de tanto trabalho. Hollywood
nunca poderia ser a praia dele. JSN
- Lília, a irmã que partiu, era cearense desterrada, paraibana compulsória
ou carioca assumida? CA
- Lilia foi uma cearense desterrada que nunca assumiu a Paraíba ou o
carioquismo. Ela odiava morar em João Pessoa, mas o marido era médico na
Paraíba, tinha lá em João Pessoa a sua clientela e ela - mãe de 3
filhos paraibanos nada podia fazer a não ser suportar a barra para ela
pesadíssima de morar longe da família. Isto a levou a uma quase loucura.
Ela morreu por causa disso, sofrendo de uma esquizofrenia compulsiva. Foi
minha primeira fã, minha primeira platéia, minha grande incentivadora.
Veja que minhas irmãs não se deram bem nos seus casamentos. JSN
- Você seria um simples que se tornou sofisticado? CA
- Para com isso, João. Quem é sofisticado? Eu sou a coisa mais simples
do Brasil. Mais simples do que eu só… só… o quê? Arroz com feijão
- que é o que eu como todos os dias. JSN
- Quem nasce em 12 de abril, um ariano do terceiro decanato, pode ser
definido ou é indefinível? Dá para explicar? CA
- Eu, de vez em quando, escrevo coisas que nem sei onde vou usar, porque
considero que escrever é um exercício diário. É preciso escrever todos
os dias, nem que seja para jogar fora. Mas posso usar aqui, para me
definir o que andei escrevendo um dia desses. Vou colocar entre aspas.
“Eu sou alto, forte, feio, fraco, baixo, lindo, louco, certo, esperto,
errado, pilantra, mestre, miserável, estroina, bobo, bêbado, lúcido, lépido,
lento, lerdo, Márcio, Marlon, Melchior, misto, místico, módico, caro,
barato, um barato, um Baretta, safado, safo, sifu, mifu, môfo, moço,
mouco, velho, filho, falho, féla, filante, ex-fumante, franco, Frank,
Fink, assim, assado, assente, ausente, gente, gentinha, gentil, gentalha,
malandro, sabido, sábio, sabiá, sabe-se lá, sei lá se é, sei lá se
sou, mas quem não é? Salvado, Sabino, rabino, rabada, de nada, de tudo,
entrudo, contudo, com tudo, contido, irado, Iran, Ivone, calado, falante,
falhante, perfeito, prefeito, pé feito, mão feita, cuca fresca, cara de
pau, rabo de saia, moleque de recado, Maria-vai-com-as-outras, crédulo, cético,
cínico, válido, inválido, lavradio, fugidio, cearense, mineiro,
paulista, carioca, argentino, fulano, beltrano, sicrano, engano, eslavo,
batavo, centavo, real, fatal, final, pesado, pensado, peso médio, meio
peso, meio dólar, meio cruzeiro, palmeiras, américa, flamengo, dengo,
sem quengo, sem rango, zôrro, zôrra, zona, lona, lima, ferro, pedaço de
pau, pedaço de pano, pedaço de rolha, bolha, trolha, trouxa, treco,
troco, ator, atôa, uma boa, uma graça, boa praça, vinho velho, velho moço,
moço bom, bom partido, partido de cana, cana brava, brava luta, luta
democrática, dia noite, açoite, azeite, óleo, olho, nariz, garganta,
oto, rino, laringo lojista, balconista, artista, (inclusive) …dependendo
do personagem que eu interprete. No fim eu sou um covarde, que se esconde
atrás de várias caras por temor de me expor ou um mal caráter que, em
vez de se dar ao trabalho, prefere por vários infelizes para trabalhar no
seu lugar. Mas faço questão de ser a música do Belchior porque nasci
num engenho, com o vento agitando o verde marinho dos pendões da cana,
num tempo em que havia galos, noites e quintais. Eu sou o quintal, de pé
no chão, subindo em mangueira, escanchado em cavalo de madeira, pião no
chão, pião na unha, pião no mundo, rodando, rodando, rodando, esperando
uma palma de mão que o sustente, pelo menos por algum tempo e somente
agora encontrei. Fui buscar longe: no Rio Grande do Sul”. JSN
- O distanciamento crítico lhe permite ver o Ceará com olhos reais. O
que é o Ceará real para você? CA
- O Ceará é importante demais para mim, porque ele representa a minha
infância, o momento melhor da minha vida, quando eu era filho de rico,
tinha um rio em Maranguape que parecia correr somente para mim, uma casa
onde havia o quarto onde eu nasci. Os oito primeiros anos da minha vida
foram deslumbrantes, pois em Maranguape ou no quintal da nossa casa no
Benfica, eu brincava de cabeçulinha, gol-a-gol, rodava pião e nunca o
meu pai ou a minha mão encostaram a mão em mim, num gesto de castigo.
Foi no Ceará que eu aprendi a ler sozinho e tive o cuidado de uma babá
chamada Teonilha a quem devo os primeiros carinhos e que por me amar foi
mandada embora - não deixou que me enganassem, fazendo-me comer uma carne
que eu não gostava. Eu cresci no Rio de Janeiro, mas ai, tudo já foi bem
diferente. O bom da vida eu tive nos oito anos de Fortaleza e Maranguape. JSN
- Sua admiração por Renoir deu cor e sentido às suas tintas? CA
- Quem dera, João, que eu pudesse ter, no que pinto, qualquer mínima
coisa de Renoir. Ele é um dos meus ídolos, como Velásquez, Van Gogh, Sérgio
Telles e Matisse. Minhas tintas tiveram, no início, o sentido de um
hobby. De uma hora para outra eu percebi que já tendo vendido mais de mil
quadros, aquele hobby já era um trabalho. Segui nas minhas marinhas e
vendi mais dois mil. Hoje mudei meu estilo. Minha pintura hoje é fauve,
um movimento nascido pelas telas de Matisse e seguido por Derain e alguns
outros, gerando, afinal, o expressionismo alemão de Kirchner, para onde
certamente acabarei caminhando. O sentido final das minhas tintas é que
elas sejam o emprego da minha velhice. JSN
- Você concorda com Nietzsche quando ele diz: “No amor e na vingança,
a mulher é mais bárbara que o homem”? Qual a sua versão?
JSN
- A sua frase “o grande passeio da vida é ficar em casa” é reflexo
do tempo vivido ou a consciência do tempo dissipado? Filhos, dá para
definir? CA
- É fruto da experiência da vida. Eu sempre digo que a única vantagem
de envelhecer é saber mais. Não há uma segunda. Hoje, por saber mais,
eu já descobri a bobagem que é perder uma noite numa boite. Aprendi a
ter paciência e deixar para ver o filme de grande sucesso que está no
cinema, daqui a dois meses no cinema da minha casa que tem surround
e uma tela confortável. Eu já estou quase preferindo ver meus cavalos
correndo na tela da minha TV, sem precisar ir ao prado. Vou ao prado
apenas para tirar uma foto com os que vencem, porque a corrida eu vejo na
varanda, através da televisão. A consciência do tempo dissipado é uma
contingência natural da vida. Quanto à definição de “filhos”, que
você me pede, eu confesso que não tenho capacidade de o conseguir.
Filho, no fim de tudo, é algo que só sabe quanto é bom quem tem. Mas os
filhos têm, ao mesmo tempo, um problema enorme: eles crescem. E quando os
filhos crescem viram nós. JSN
- Chaplin, que parecia mais triste que a maioria das pessoas, dizia que
“o humor pode ser tudo, até mesmo engraçado”. Qual a essência
existencial desse pensamento tão conhecido seu? CA
- Não somente muito conhecido meu como fui eu quem o divulgou. Eu
concordo inteiramente com isto, porque na minha opinião, o dever número
um do humor não é tirar um sorriso de alguém, mas alertar a muitos para
os erros da vida. Infelizmente eu não tenho poderes para corrigir o que há
de errado, mas tenho o dever de denunciar, de enfiar o dedo numa ou noutro
ferida, de desmascarar um ou outro patife. É preciso, no entanto, um
grande cuidado: não se pode fazer uma piada sobre uma hipótese, mas
somente sobre o que é real. Se eu brinco com algo errado mas que é real,
ninguém reclama da minha graça e todos ficam sabendo que aquilo existe.
Quanto à tristeza de Chaplin, ela fazia parte do todo, porque Chaplin era
também um humorista. JSN
- Você, como escritor de quase 20 livros, leva a Academia Brasileira de
Letras a sério? CA
- Eu já estive semi-eleito. Uma ocasião, com a ajuda do Arnaldo Niskier,
eu tinha 19 votos garantidos e me faltavam apenas dois para que fosse
eleito para a Academia Brasileira de Letras um representante do Humor
Brasileiro. Quando eu liguei para o meu amigo João Ubaldo Ribeiro, ele me
tirou a entrada para a Academia da cabeça, com uma frase: “Chico, você
vai ter que ir a velório de gente que nunca viu na vida e um sem número
de pessoas vai passar a torcer pela sua morte, para entrar na sua vaga”.
E ainda me falou que até aquele dia estava arrependido de ser um imortal.
Mas eu a levo a sério. Se vez em quando dou uma balançada, como, por
exemplo, quando Marco Maciel foi eleito. JSN
- Você já leu Paulo Coelho? Se leu, o que pensa da escritura dele? CA
- Li O Alquimista e achei interessante. Comecei a ler o segundo
livro, cujo título agora me foge e achei que ele já estava andando por
um caminho que o alquimista lhe abrira. Daí em diante ele passou a ser
chamado de Mago e acho que até mesmo a se sentir como sendo um. Então eu
não mais me interessei em ler seus livros, mas o respeito muito, porque
ninguém pode deixar de respeitar um homem que é autor do livro mais lido
no mundo em 2003. Por pior que este livro pudesse ser, ele esteve nas mãos
de milhões de pessoas, com tradução para 53 idiomas. Não falo mal do
Paulo Coelho, a quem admiro desde as letras que fazia para meu amigo Raul
Seixas e ele é, queiram ou não, o mais bem sucedido escritor brasileiro.
Não digo melhor, digo “mais bem”, que é o que realmente define.
Vender cem exemplares de um livro já é uma beleza, imagine vender 7 milhões,
ou muito mais do que isso. JSN
- Você já sonhou como se fosse um dos seus 400 tipos? Se não sonhou,
como imagina que seria o sonho? CA
- Como eu não poderia sonhar com os meus tipos, se todos eles, para mim,
são reais? Eu sonho muito com muitos deles. Eles participam como se
estivessem todos ali, ao meu lado, num mesmo show em preto-e-branco. O
grande defeito de sonho é que ele, como os filmes “cerebrais” ou não
terminam ou não terminam bem - o que ainda é pior. Mas já tirei
esquetes de sonhos que tive com meus personagens. JSN
- Quando a deprê bate e o espelho fica esquisito, você deixa a
barba por fazer ou encara os pensamentos recorrentes? CA
- A deprê faz parte da minha vida há 18 anos e já convivo com
ela numa boa. Tomo os remédios que colocam no meu organismo os sais que
faltavam - e por esta razão a deprê bateu - e vou em frente,
porque não posso parar. Só na estréia dela foi que eu deixei a barba
por fazer e fiquei 12 dias sem sair do quarto. Agora ela já é de casa, já
nos chamamos de você e não mais de “meu senhor” ou “minha
senhora”. JSN
- Você leva análise a sério? Freud ou Lacan? CA
- Já fiz análise durante anos. Lacan. JSN
- “Quem tem medo de” Chico Anysio na Globo? CA
- Atualmente, ninguém. Há alguns anos é possível que um ou outro
tivesse. JSN
- Você acredita em karma? Se acredita, qual o seu? CA
- Sim, eu acredito. Não devo ter um apenas, mas vários. Ser o cara que
lança novos comediantes - o que não deixa de ser “o cara que lança
novos concorrentes”, deve ser um deles; também deve ser meu karma isto
de ser o cara que dá oportunidade a quem já não tem nenhuma. Mas adoro
os dois. Consertar mulheres erradas já foi um karma, do qual consegui me
livrar a algum tempo. Mas, pensando melhor, nada disso é karma, é apenas
uma coisa que pede um pouco de calma. Paciência, melhor dizendo. JSN
- Os artistas-escadas da Escolinha do Prof. Raimundo foram, em sua
maioria, gratos a você? CA
- Sim, foram. E, ao mesmo tempo, eu sempre fui muito grato a todos eles,
que, na verdade, eram os que faziam o show. O Professor Raimundo foi,
sempre e tão somente, um “escada”. Eu era o cara que preparava para
que eles dessem os desfechos. Eram eles que brilhavam, eu nunca passei de
um coadjuvante. O negócio é que eu adoro ser escada. Quantas vezes eu vi
uma piada funcionar dez vezes mais do que eles próprios esperavam, só
porque eu havia feito uma preparação beleza! JSN
- O que é a ingratidão? Como reage a ela?
JSN
- Nizo Neto,seu filho, parece sofrer o peso do nome e a incompreensão dos
homens da platinada, mas é um grande talento. Se você tivesse que fazer
a abertura de um “book” dele, o que escreveria? CA
- Nizo Neto poderia ter sido um dos melhores galãs jovens do Brasil, se
lhe tivessem dado as chances que merecia. Hoje, com o cabelo começando a
ficar branco, está preparado para ser um belo “central”, sem contar
que tem toda a sabedoria e o talento de um comediante, o que o faz capaz
de representar papeis cômicos com grande competência. JSN
- Você concorda ou discorda de Shakespeare quando “Em noite de Reis”,
um personagem dele diz: “Com que facilidade os impostores imprimem suas
formas insinuantes no coração de cera das mulheres”? Um humorista é
um impostor? CA
- A arte é uma impostora. Uma deliciosa impostora. Nós que fazemos arte,
fabricamos delícias e angústias, ódios e amores, matamos leões e
corremos de gatos, criamos mentiras e as fazemos tornarem-se verdades.
Tudo em nome da arte é possível, porque a arte é ficção e com a ficção
não há quem possa. Quando a ficção não dá certo, é porque é
realidade. JSN
- Você que também é cineasta, acredita que a frase da L. Severiano
Ribeiro, “cinema ainda é a maior diversão”, vai varar todo o século
XXI? CA
- Digo que sim, sem nenhuma dose de certeza, mas não tenho coragem de
negar. Do fim da segunda guerra até hoje, nestes 54 anos, o mundo
progrediu dez mil vezes mais do que em todos os anos anteriores. Veja o número
sem fim de coisas que foram revolucionárias há poucos anos e hoje já
nem existem, como o LP, o pick-up, a rádio-foto, o próprio fax está nos
estertores, assim colocado pelo advento do e-mail. Como serão as coisas
dentro de trinta ou quarenta anos se hoje, com 50 pessoas e um computador,
faz-se a cena de um estádio lotado? O meu grande medo é que esses caras
que fazem milagres e misérias com a computação gráfica encontrem um
jeito de substituir o ator. JSN
- Capistrano de Abreu, outro maranguapense ilustre, alertava na década de
20 do século passado que os morros cariocas, se não fosse resolvida a
sua ocupação, seriam o maior problema do futuro do Rio. Você acredita
que há saída para a violência no Brasil? CA
- Ah, João… o Rio de Janeiro é a maior cidade litorânea do mundo e,
ao mesmo tempo, a única onde os pobres moram nas encostas e os ricos
embaixo. Os morros já foram cantados pelos maiores compositores e
cantores do Brasil, porque 98% dos habitantes do morro são pessoas boas,
trabalhadores, gente que ganha pouco e por esta razão só achou este
lugar para morar. “Este lugar” já foi um barraco, de madeira, tendo
zinco como telhado. Hoje os morros estão ocupados por casas pequenas e
mal feitas, mas de tijolo e com telhas caneladas. Duas coisas faltam a
estas casas: emboço e uma pintura por fora, porque o mais elas têm. A
luz vem de um gato roubado do poste, a água de um gato roubado do cano da
rua, a tv a cabo de um cara que comprou e divide (roubando) com 19 ou 20
amigos. As favelas, que quando menores eram até bonitas, hoje são
enormes e nelas se abrigaram os traficantes, o que fez com que elas se
tornassem o pavor que hoje são. Capistrano de Abreu foi genial na sua
previsão, mas a violência não nasce na favela, no morro do Rio. A violência
nasce no cara que planta a coca, no que a compra, no que a refina, no que
a prepara, no que a vende e, principalmente, no que a consome, porque se
ninguém consumisse, o tráfico terminava. JSN
- Maior de 70, o que espera para os menores de 18 anos no Brasil? CA
- Ei, senhor, que perguntinha danada! Eu ainda tenho dois nesse time, mas
moram em New York e vivem noutro tipo de vida. Dos que estão nesta faixa
e moram no Brasil, eu espero que haja uma mudança no ensino e eles passem
a ter prazer em ir à escola, em vez desse ódio de hoje; espero, também,
que eles troquem o modismo pelo realismo e a realidade é azul, enquanto o
modismo é vermelho. Eles têm que entender que esta música abjeta de
hoje não lhes dará direito a recordações no futuro, como nós temos
com os boleros e as canções do Chico e do Caetano. Eles têm que dar ao
amor a importância que o amor tem, em vez de utilizarem essa bobagem de
“ficar”, porque “ficando”, nada fica. A vida é curta e passa
depressa. Por esta razão, temos que a viver devagar, curtindo cada dia,
cada hora, cada momento. A juventude vive depressa e quem precisa de
pressa sou eu que já vou fazer 75, não os que acabaram de fazer 17. JSN
- Lula, que já foi “sapo barbudo”, é hoje o “hit” das festas
finas de São Paulo. Quem mudou: Lula ou a sociedade paulista?
JSN
- Você acredita que a sucessão do Grupo Roberto Marinho foi planejada,
tem céu de brigadeiro ou vem tempestade pela proa? CA
- Não precisava ser planejada, porque sempre foi sabida: os sucessores são
os três filhos: Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e José
Roberto Marinho. Eles três resolvem, entre eles, a quem caberá o que,
neste império que está nas suas mãos. Que Deus os ilumine. JSN
- E por falar em sucessão, como você imagina que será a sucessão de
Silvio Santos? CA
- Não dá para imaginar, porque o Silvio tem seis filhas e me parece que
a única que se interessa pelo SBT e se julga competente o bastante para
assumir o comando é uma que se chama Silvia e é adotada. Não sei qual
será o comportamento das outras cinco e mesmo o da senhora dele, D. Isis,
diante de uma impossibilidade de o Sílvio seguir no comando, seja lá por
qual motivo for. Mas penso que o Sílvio, brilhante e inteligente como é,
já deve ter decidido isto. JSN
- Quem foi maior: Oscarito ou Grande Othelo? Por que? CA
- Para a maioria, Oscarito. Para mim, Grande Othelo. Eu gostei muito do
Oscar, escrevi filmes para ele e fui quem escreveu o programa que o
levaria para a TV. O programa acabou não sendo feito porque ele tinha
muita dificuldade para decorar. Ele foi maravilhoso. Mas eu sempre gostei
dele muito mais no teatro de revista do que no cinema.
Cinematograficamente eu sempre o achei over, super representando; ele era
teatral, no cinema. Grande Othelo era um ator completo. Brilhante, tanto
no teatro de revista como no cinema, em chanchadas ou em papeis dramáticos.
“Amei um Bicheiro” é um belo trabalho de ator do Othelo. Ele também
foi brilhante do rádio. Trabalhou dois anos comigo, na Rádio Mayrink
Veiga, e dividiu a cena com Zé Trindade, Brandão Filho, Nancy Wanderley,
Antonio Carlos, Matinhos… todos os bambas daquela época. Nota dez para
o Othelo. Para o Oscarito… oito e meio. JSN
- Nelson Rodrigues, um frasista de qualidade, dizia que “a morte é
anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. É todo um lento, suave,
maravilhoso processo”. Como você encara a morte? CA
- A morte é a única bobagem comprovada da vida. A gente nasce com uma
certeza única: a de que vai morrer. E nos surpreendemos quando alguém
nos dia que Fulano morreu. Ao trocar cumprimentos, muita gente diz:
“vai-se vivendo”. Mentira. Vai-se morrendo. Morremos um pouco a cada
dia. No Japão já existe a geriatria pediátrica, o que é uma loucura
absurda. Mas tem o maior sentido, porque um átimo de segundo após
nascer, aquele ser começa a morrer. Eu encaro a morte, então, como algo
do qual ninguém foge e só espero que minha morte não venha por falta de
ar. Eu tive embolia pulmonar e escapei porque, fora o meu pulmão, meio
comido pelo infame cigarro, tudo meu é zero quilômetro. Eu sei o que é
você puxar o ar e nada vir. Achei terrível quando li que dentre aqueles
portugueses assassinados em Fortaleza, no pulmão de um encontraram areia;
esta areia entrou quando ele, ainda vivo, puxou um pouco de ar pela
derradeira vez. Nelson tem razão quando diz que “é todo um lento e
suave processo”, mas está erradissimo quando o define como maravilhoso.
Até se pode achar que é perfeito, mas maravilhoso, nunca. JSN
- Você votou no Ciro na eleição passada? O que é um voto? CA
- Votei e disse para ele quando ele perdeu a eleição. Telefonei e disse:
“Ciro, você perdeu a eleição quando beijou a mão do ACM. Ninguém
beija a mão de um canalha impunemente”. Ele me falou que havia beijado
em respeito à idade dele etc., mas o fato é que beijou e o Garotinho no
primeiro debate soltou isto no ar, fazendo com que o pais inteiro soubesse
e não apenas os que haviam visto a foto e o C iro depois fechou a tampa
do caixão ao dizer que a mulher dele só servia para dormir com ele. Não
foi legal. Mas o Ciro é jovem e ainda será nosso presidente. Gosto
demais dele e torço por ele como se ele fosse mesmo de Sobral. Entre ele
e o Tasso eu gosto mais dos dois. O voto é o único direito real de um
cidadão democrático. Através dele eu não posso dizer quem vai comandar
meu país, mas certamente meu voto ajuda na sua escolha. Tenho mais de
setenta anos e já estou desobrigado de votar, mas, mesmo assim, eu voto.
Morei nos Estados Unidos dois anos e lamentei não poder participar da
eleição do prefeito de Westport, Connecticut - a minha cidade lá. JSN
- Nova Iorque é apenas Manhattam, as tiradas do Woody Allen, os teatros e
restaurantes, ou tem uma alma própria em todos os seus distritos? CA
- Nova Iorque é tudo que você citou e mais ainda: ela é uma grande metrópole
sem dono. É a única cidade do mundo onde você pode parar numa esquina e
ficar falando mal dela o quanto quiser que ninguém vem tomar as dores
dela. Sabe a razão? Porque ninguém nasce em NY. As pessoas nascem em
outros estados, outras cidades, outros países e depois vêm morar em NY.
Só Woody Allen nasceu lá. JSN
- O que é cidadania? CA
- Não sei. Isto é coisa que temos que perguntar ao Lula, porque é o seu
grande e principal assunto. JSN
- Estar feliz já é grande acontecimento? Por que? CA
- Ora. Estar feliz é mais do que um grande acontecimento: é a glória.
Um grande acontecimento é acordar. JSN
- Se tivesse o direito mágico de mexer na cabeça de George W.Bush o que
faria? CA
- Lavaria as mãos depois com querosene. Não sou republicano e a eleição
dele foi roubada. O presidente verdadeiro dos Estados Unidos deveria ter
sido o Al Gore. A eleição do Bush foi uma sórdida manobra do governador
da Flórida, irmão dele, que inventou um tipo de voto complicado para uma
cidade onde 98% dos habitantes são aposentados e todos eles democratas.
Pois todos os votos desta cidade (não estou conseguindo lembrar o nome
dela, fica bem ao norte do estado) foram anulados. Estes votos fizeram a
diferença. Houve manobra também nos votos das pessoas de fora do país.
A eleição foi tão suja que o resultado só foi sabido mais de quarenta
dias depois. Gostei muito de uma frase do Fidel Castro: “Por isto é que
eu não faço eleição; não sei fazer”. George W. Bush foi um grande
erro. Mas, segundo Ruy Barbosa, “cada povo tem o governo que merece”.
Mas mexer naquela cabeça… ainda que ficticiamente, me dá um certo
nojo. JSN
- Nascer no Ceará foi destino, estigma ou graça? CA
- Uma graça do destino. Agradeço seguidamente este presente da vida. Eu
duvido que haja alguém que ame mais do que eu o fato de ser cearense. JSN
- A Victoria, em meio a tantos filhos homens, foi recebida como rainha,
uma graça e um coroamento de vida. Se você fosse uma pitonisa arriscaria
uma futura profissão para ela? Seria uma economista com humor ou uma
humorista econômica? CA
- É difícil imaginar qual virá a ser a sua profissão, porque ela hoje,
com nove anos de idade, só nos deixa imaginar que venha a ser uma
princesa, seguindo a trilha da Grace Kelly. Ela, de acordo com o
pensamento atual da juventude, tem a possibilidade de se transformar numa
modelo porque será, sem a menor dúvida, uma moça de boa estatura e
muito magrinha.l Quanto ao perigo de se tornar economista, ele não existe
e acho que também está eliminada a chance de ser uma humorista - ainda
que econômica. Eu só quero que a Victoria seja feliz, ao crescer. Talvez
ainda um pouco mais do que ela já é hoje em dia. Sua felicidade não é
maior porque, ao que me parece, ela gostaria de morar no Brasil. Eu não
movo uma palha em favor disto, porque sei que ela está tendo uma educação
muitos furos acima da que teria aqui. JSN
- Você se considera um homem exitoso ou valioso? CA - As duas coisas. O fato de ser nordestino e ter chegado ao ponto que cheguei é um gol de placa, porque nós sabemos das barreiras que os nordestinos têm que transpor no decorrer da vida, ainda mais quando são dosque vão pata o Rio ou São Paulo, onde a discriminação é total. Eu sou um cara muito feliz por ter conseguido estar aqui, sendo conhecido até pelos índios e tendo muita gente gostando de mim e agradecida pela alegria que lhes dei durante todos esses anos. Sou valioso, também, porque me fiz advogado de defesa dos pobres, dos infelizes, dos sem teto, sem água, dos retirantes, dos favelados, dos bandidos, dos presos, dos doentes, dos miseráveis. Eu trabalho para as classes C,D e E e quando encomendo uma pesquisa ao Ibope peço que elimine as classes A e B porque na hora do meu trabalho, a classe A está em Angra e a classe B no restaurante Antiquarius. Rico, nos meus programas, não brilha, porque o brilho é do pobre. Isto me faz um cara valioso. Sem vaidade, no entanto. |
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João Soares Neto (Brasil, 1942). Escritor. Autor de Microcontos (2000), Sobre a Gênese e Caos (2002), e Capistrano, por quem e para quem não o conhece (2003). Entrevista realizada em janeiro de 2004. Contato: jsn@fortalnet.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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