|

|
editorial
Posturas
& imposturas de uma cultura
Os editores de Agulha planejam escrever uma sátira cujo protagonista
utilizará, a cada três palavras, um dos seguintes vocábulos:
Ÿ
direitos
Ÿ
cidadania
Ÿ
geração e distribuição de renda
Ÿ
inclusão digital
Ÿ
exploração de diferentes meios e linguagens artísticas e lúdicas
Ÿ
a cultura em suas dimensões de construção simbólica
Anseiam por conhecer o autor de um edital recente do Ministério
da Cultura que, em um breve parágrafo, conseguiu utilizar todas
essas expressões, oferecendo a síntese de uma infinidade de editais
e pronunciamentos oficiais anteriores, por sua vez uma câmara de ecos
do que dizem ministros, parlamentares, outras lideranças e seus
prepostos. E manifestam sua admiração por essa elegante formulação,
a cultura
em suas dimensões de construção simbólica. Gostariam, apenas,
de saber como a cultura poderia se “construir” em alguma dimensão
não-simbólica ou extra-simbólica.
Interessante: trata-se de um edital da Cultura. Mas nem uma
referência ao valor cultural,
nenhuma exigência de qualidade desses projetos a serem financiados.
Nem de ajuste orçamentário, de alguma correspondência entre o que
será recebido e o que será gasto. Isso não interessa mais, desde
que os interessados argumentem que estarão promovendo a “inclusão”,
a “cidadania”, os “direitos”, e gerando renda.
Agulha
é lida no Brasil e em inúmeros outros países, especialmente
latino-americanos. Em alguns deles, certamente, haverá quem seja
capaz de identificar ocorrências equivalentes do idioleto burocrático
e uso ritualístico da linguagem, o vocabulário orwelliano no qual os
termos, à custa da repetição, perdem qualquer relação com seu
sentido originário.
* * *
Transcrições do jornal Folha
de S. Paulo (20/03/2005) sobre a programação do Ano do Brasil na
França:
Ÿ Serge Gruzinski, professor na Ehess (École des
Hautes Études en Sciences Sociales) e autor de O Pensamento Mestiço:
O
aspecto privilegiado é sempre o do Carnaval, da música popular. Os
intelectuais e as grandes obras de arte são sacrificados ao folclore.
Os franceses têm grande dificuldade de ver os países da América
Latina por um ângulo que não seja o do exotismo, e o Ano do Brasil
pode reforçar esses estereótipos. Eu gostaria que se falasse de
Clarice Lispector, Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre ou
Benedito Nunes. O Brasil tem intelectuais que podem nos fornecer
categorias para pensar a Europa de hoje, a mestiçagem. Mas, se a
programação ficar somente em torno das diversões e do espetáculo,
não se aproveitará a oportunidade para descobrir outro Brasil.
Ÿ Michel Maffesoli, professor na Sorbonne:
A
minha impressão é que se trata de um evento muito institucional,
burocrático, sem grande penetração popular. As pessoas pensam que a
França conhece bem o Brasil, mas para os franceses o país se resume
ao Carnaval do Rio. Aqueles que serão envolvidos pelo evento serão
os mesmos que já conhecem a cultura brasileira, uma elite.
Ÿ Jacques Leenhardt, professor na Ehess e presidente
de honra da Associação Internacional dos Críticos de Arte:
O
temor de cair na folclorização é bem real, mas eu acho que os
organizadores do Ano do Brasil estiveram conscientes desse perigo.
Haverá também muita reflexão por meio de colóquios e encontros.
Mas a questão é saber se o grande público vai se beneficiar disso. Leenhardt acredita que, nos últimos anos, com as Presidências de
Fernando Henrique Cardoso e de Lula, a França começou a perceber o
Brasil como um país que não está condenado ao exotismo e que
deve ter seu lugar no mundo reavaliado. Ele se diz escandalizado com a
falta de meios das universidades francesas para acompanhar essa evolução:
O número de estudantes interessados é reduzido, e há uma grande
dificuldade em encontrar recursos para a pesquisa. […] Existe
uma produção muito rica que é desconhecida na França. Um certo número
de figuras será visível neste ano, como Artur Barrio, mas ele será
arrancado do seu contexto e isso é um grande problema.
Ÿ Pierre Rivas, professor de literatura
comparada na Universidade Paris 10:
Todo
o conhecimento do outro, da diferença, passa necessariamente por
estereótipos. O Ano do Brasil é principalmente música, porque é
uma linguagem universal, não só para a elite.
Ele concorda que as grandes exposições sobre a arte indígena e a
Amazônia terão mais chances de atrair um público amplo, mas aposta
na redescoberta do barroco brasileiro e de artistas como Tarsila do
Amaral. No que se refere à sua área de especialidade, Rivas se
mostra menos otimista: O governo não ajudou as traduções. Não
traduziram João Cabral de Melo Neto, mas traduziram livros de
auto-ajuda, isso nunca existiu na tradição literária francesa.
Ÿ Levi B. Ferrari, presidente da União Brasileira
de Escritores, em carta ao Ministério da Cultura:
É
tempo ainda, Senhor Ministro, de mostrar à França e ao mundo que, no
país do Carnaval, se produz arte comparável ao que há de melhor
sobre a face da terra. Somente na literatura, além dos autores já
citados, é preciso que mostremos Machado de Assis, Guimarães Rosa,
Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Mário de Andrade,
Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros, sem
falarmos naqueles que, vivos, ainda escrevem e descrevem o Brasil em
suas nuances mais complexas e nada ficam a dever aos melhores
escritores de qualquer outro país. Perdoe-nos, Excelência, a repetição
do que acima vai dito pelo professor Pierre Rivas, sobre o fato de que
livros de auto-ajuda nunca existiram na tradição literária
francesa. Ora, até quando vamos nos render à lógica de um mercado
que nada tem a ver com a qualidade da obra literária.
Índios brasileiros foram tema de exposição na França,
pela primeira vez, no século XVI. Logo após o Descobrimento.
Inspiraram Montaigne a escrever Les
Cannibales. Pelas observações de intelectuais franceses que
conhecem bem o Brasil, como as transcritas acima, não se deve esperar
nenhum Montaigne para este ano brasileiro.
Enfim, mais um festival de chavões e lugares-comuns.
Depois, não venham dizer que não avisamos… O desfile de estereótipos
já havia sido antecipado e diagnosticado em alguns editoriais desta Agulha,
sobre a ineficiência da política cultural brasileira para o exterior
e suas conseqüências. Cabe, apenas, uma constatação adicional: estamos
piorando. Por mais afetadas que estivessem pelo provincianismo,
compadrio, espírito paroquial, programações como a do Salon
du Livre parisiense de 1998 tinham alguma lógica, havia responsáveis,
organizadores capazes de emitir sons articulados, exibir alguma espécie
de raciocínio. Desta vez, nem isso. Ninguém do governo brasileiro,
ou com alguma responsabilidade pela organização da festa, mostrou-se
ou tentou defender essa nova apresentação do Brasil. Envergonhados,
encabulados, escondem-se.
* * *
Em
um filme recente ouve-se a frase “quem diria que o destino do país
estaria agora nas mãos de marginais e bandidos”, dita por um dos
bandidos a um dos mocinhos, que então observa: “mas não foi sempre
assim?” Em um outro filme, também desta última temporada, ouve-se
o policial dizer a uma suspeita de espionagem: “deveríamos estar em
margens opostas, porém agora nada mais nos separa”. Contudo, nosso
dilema mais freqüente não é o de não reconhecer o opositor, mas
antes o de não entender o que ele faz indo de um lado a outro com
tanto apego à oportunidade. Ao tornar-se impostor, o opositor se
anula, e toda a realidade igualmente se torna impostura. Como esperar
que a cultura sobreviva a essa violenta, ainda que, para muitos,
imperceptível, transfiguração?
Os editores |