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revista de cultura #
45 |
discos da agulha
Cabe
numa frase a apresentação mais bem acabada do quarteto de violões
Maogani: “É o que há de melhor, hoje, em matéria de execução e
arranjo para violão no Brasil”. A definição é insuspeita. Vem de um
gênio do ramo. É de Guinga, referência maior da interseção entre
popular e clássico na música brasileira contemporânea. Bastaria
a remissão a Guinga para dizer a que veio “Cordas Cruzadas”, segundo
CD do Maogani. Porém, o disco é mais. Paulo Aragão, Carlos Chaves,
Marcos Alves e Marcus Tardelli se superaram. Fizeram um CD ainda melhor
que o primeiro, lançado em 1997 e singelamente batizado de “Maogani”,
como quem modestamente dizia “muito prazer”. Mais
uma vez, os arranjos requintados beiram os céus da excelência. Dignos de
antologia, conseguem não repetir os originais sem cair na tentação de
reinventar as composições. Vale um destaque especial neste particular
para Passaredo, canção de Chico Buarque e Francis Hime, que recebe
arranjo instrumental estupendo de Paulo Aragão. Apenas
dois arranjos não levam a assinatura de integrantes do grupo - Bananeira,
de João Donato e Gilberto Gil, entregue a Célia Vaz; e Pra Lúcia, de
Itiberê Zwarg, baixista da banda de Hermeto Paschoal, arranjada pelo próprio
autor. Das
14 músicas (sete delas, inéditas), 10 são instrumentais. Em apenas
quatro faixas, os violões são acompanhados de voz - e, no caso deles, não
é exagero dizer que a voz acompanha o violão. Uma delas é Choro Réquiem,
de Guinga e Aldir Blanc. A emocionada interpretação é de Guinga. Aliás,
recomenda-se logo um pulo à faixa sete do CD. É lá que está Choro réquiem,
composição de beleza tão impressionante, em melodia e letra, que
concorre para ser a peça mais importante da música brasileira nos últimos
tempos. Além
da voz rascante de Guinga, “Cordas Cruzadas” traz participações de
Ed Motta, Joyce e Mônica Salmaso - esta última, a maior revelação do
canto popular brasileiro na atualidade. É
de Ed Motta A foggy day em Teresópolis, tema sem letra interpretado pelo
autor apenas com vocalize, com participações de Cristiano Alves na
clarineta e Alexandre Maionese na flauta. É também com vocalize,
somente, que Joyce interpreta o seu For Hall, baião em que a compositora
e cantora brinca com as palavras para homenagear o guitarrista
norte-americano Jim Hall. Mônica Salmaso empresta suas virtudes a
Guingando, choro de Edu Kneip e Mauro Aguiar, composto em louvor a Guinga.
O
valor de “Cordas Cruzadas” pode ser medido ainda pelos compositores
que reúne. Além dos já citados, estão lá Paulinho da Viola (Inesquecível,
choro em homenagem a Jacob do Bandolim, gravado pelo autor no disco Memórias
Chorando, de 1976); Hélio Delmiro (Chama, choro também já gravado pelo
autor); Hermeto Paschoal (Ilza nº 83, valsa inédita composta em memória
da mulher do autor, falecida em novembro de 2000); Tom Jobim (Chovendo na
roseira, valsa que recebe arranjo renovado de Marcos Alves e Paulo Aragão);
Baden Powell (Samba novo); Leandro Braga (Choro nº 2, com participação
de Fabiano Salek no pandeiro); e Carlos Chaves (Choro de Bela, primeira
composição de um integrante do Maogani gravada pelo conjunto). Para
quem ainda não conhece o Maogani, vale dizer que seus quatro integrantes
são jovens: têm entre 24 e 30 anos. A informação certamente vai
temperar com mais encantamento a infalível surpresa de quem os estará
ouvindo pela primeira vez nestas "Cordas Cruzadas". [Marceu Vieira] Ao
longo de sua trajetória, o Maogani se apresentou nos principais palcos
cariocas (CCBB, Teatro Carlos Gomes, Espaço BNDES, Mistura Fina, Rio Jazz
Club, Sesc, Ibam, Teatro Casa Grande, Casa de Cultura Laura Alvim, Circo
Voador, Museu da Imagem e do Som, Museu do Telefone, entre outros). Esteve
também em cidades como São Paulo, Brasília e Vitória. Em
1996, o quarteto participou do projeto Pixinguinha no Centro, patrocinado
pela prefeitura carioca em homenagem ao centenário do compositor.
Apresentou-se durante seis meses em espetáculos ao ar livre no Centro do
Rio de Janeiro. Em
junho de 1997, foi convidado especial do show Catavento e Girassol, da
cantora Leila Pinheiro. Em
novembro de 1997, o Maogani lançou seu primeiro CD, pelo selo Rob
Digital. Participaram do disco artistas tão consagrados quanto Guinga,
Leila Pinheiro, Zé Nogueira, Jane Duboc e Célia Vaz. Por esse trabalho,
o quarteto mereceu, em 1998, uma indicação para o 11º Prêmio Sharp de
Música, na categoria Melhor Grupo Instrumental. Em
janeiro de 1999, o Maogani atuou como convidado de Guinga num show do
compositor no Teatro do Planetário do Rio de Janeiro. No mesmo ano,
acompanhou a cantora Rosana no projeto Carmem Miranda, o mito, numa série
de shows realizados no Centro Cultural Banco do Brasil para marcar o 90º
aniversário de nascimento da “pequena notável”. O espetáculo também
foi apresentado em São Paulo e Brasília. Ainda
em 1999, em junho, o quarteto atuou no projeto Música do Mercosul, também
no CCBB, ao lado de músicos argentinos, paraguaios e uruguaios. Coube ao
Maogani representar o Brasil - tarefa cumprida em dois recitais que
reconstituíram um panorama da música instrumental brasileira. Em
2000, o conjunto se apresentou no projeto Rio Bossa Nova 2000, na Praia do
Leblon. Logo em seguida, abriu o projeto “Compasso Samba e Choro”, no
Paço Imperial, participando também de seu CD comemorativo, gravado ao
vivo e lançado recentemente pela gravadora Biscoito Fino. No
final de 2000, o quarteto foi convidado a participar da gravação do CD
Cine Baronesa, de Guinga. São do grupo os arranjos e os violões da faixa
que batiza o disco (Guinga e Aldir Blanc) e de Fox e trote (Guinga e Nei
Lopes). Em
2001, o Maogani participou da gravação do CD da cantora Ana Martins, lançado
em julho, no Japão. No mesmo ano, atuou na gravação do especial Brasil
por natureza, da TV Globo, acompanhando o cantor e compositor Ed Motta. Em
março, apresentou-se no BNDES, no Rio, com o show Miúcha e Maogani,
acompanhando a cantora com arranjos inéditos. Integrantes Paulo Aragão é mestre em Musicologia
pela UniRio, aprovado “com louvor” em seu estudo sobre o arranjo
musical brasileiro na década de 30. Bacharel em Violão pela UFRJ, foi
diplomado com o título de “Dignidade Acadêmica Summa cum laude”. Tem
trabalho destacado também como arranjador (fez arranjos para discos como
“Cine Baronesa”, de Guinga, e “Linda”, de Ana Martins). Atua também
como solista. Como professor, ministrou a Oficina de Choro da UERJ, em
1996. Recentemente, apresentou-se no Japão com a cantora Ana Martins, em
participação especial no show de Joyce. Carlos Chaves é mestre em Música
Brasileira pela UniRio. Bacharel em Violão pela UFRJ, venceu, em 1996, o
concurso nacional Souza Lima, em São Paulo. Em agosto de 2001, venceu com
sua composição “Choro de Bela” o Festival de Americana (SP), na
categoria música instrumental. Estudou com os principais nomes do violão
do Rio de Janeiro. Atua como solista, camerista e acompanhador. Marcos Alves é bacharel em Violão
pela UFRJ, graduado com nota máxima. Compositor, destaca-se por explorar
sua formação erudita e jazzística como intérprete e arranjador de música
popular. Atualmente, acompanha as cantoras Carol Saboya e Adriana Romano. Marcus Tardelli é bacharel em Música
pela UFRJ. Iniciou seus estudos em 1985, em Petrópolis, com o violonista
Dorival Lessa. Desde então, vem se destacando pelo repertório que
passeia do erudito ao popular. Solista da Orquestra Petrobrás Pró-Música
no Festival Villa-Lobos, em novembro de 2000, já teve seu trabalho
reconhecido em palcos de diversos estados brasileiros.
Corpo
do som é um trabalho de percussão
corporal. É também o registro de uma linguagem artística e pedagógica
em pleno desenvolvimento. O CD conta com a presença de várias pessoas
que vêm caminhando comigo na busca de ampliar as possibilidades de
expressão musical pelo corpo. Estão presentes também as principais
descobertas: ritmos, métodos de improvisação, técnicas de combinar
sons e a diversidade de timbres que temos em nós. Os
primeiros encontros foram resultado do contágio que essa mania despertava
nos outros, começavam a aparecer rodinhas de batuque no corpo.
Naturalmente também nasciam ritmos e variações desse brinquedo. Em
algum tempo eu já tinha repertório pra ensinar, e com o convite de
amigos este corpo sonoro foi virando corpo docente. Durante
minha formação musical essa pesquisa seguiu paralelamente. No curso de Música
Popular da Unicamp tive o prazer de ser aluno de José Eduardo Gramani,
que abriu meus olhos pra novas maneiras de sentir o ritmo e desenvolver a
coordenação de movimentos. A
grande virada se deu mais tarde quando já desenvolvia um curso de percussão
corporal e conheci o trabalho de Stênio Mendes. Ao me inscrever em seu
curso, logo na primeira aula fizemos no final uma sessão de improvisação
vocal dirigida por ele. O exercício era de luz apagada e ao improvisar
comecei a explorar um mundo interno de imagens e sensações que eram
sugeridas pelos sons. Uma nova dimensão de diálogos, dinâmicas e
sonoridades começava a se abrir, era o que ele chamava de música espontânea.
A partir daí passei a conhecer novos sons e jogos e nossos trabalhos se
somaram de forma definitiva. Nessa
época de tanto me bater, o brinquedo ganhou o apelido de Barbatuque por
sugestão de Lu Horta. Aí nascia também o grupo Barbatuques, formado
pelos amigos que acompanhavam essa pesquisa e que tinham também o desejo
de apresentar esse trabalho em palco. Com o incentivo de Luiz Gayotto para
participar de seus shows o grupo tomou gosto pela coisa e não parou mais. Desde
então o Barbatuques vem desenvolvendo um trabalho musical baseado na
exploração dos inúmeros sons que podem ser produzidos pelo corpo
humano. Palmas, estalos, batidas no peito, sapateados, efeitos de voz, vácuos,
entre vários outros sons, são encadeados na produção de ritmos e
melodias. O resultado é uma "orquestra de roda" onde todos
tocam e improvisam sobre o mesmo instrumento: o corpo. Neste
CD estão presentes desde faixas bem fiéis ao que apresentamos ao vivo até
utilizações do "sintetizador humano". Sons de baixo volume
como o esfregar de mãos são amplificados, vozes e efeitos de uma mesma
pessoa são somados e em alguns momentos até arriscamos um diálogo técnico
e estético com a música eletrônica. Também estão presentes fragmentos
de improvisações que sempre fizeram parte de nossa prática musical. Desejo
a você uma boa audição, sabendo que algumas sonoridades poderão ser
estranhas ou novas. Espero também que dê vontade de tocar conosco, pois
pra mim este trabalho sempre evocou o contágio e a brincadeira. [Fernando Barba]
A
trajetória de Nelson Mattos, que no quartel era Sargento Nelson, e na
Mangueira virou Nelson Sargento, está muito bem sintetizada no verbete a
ele dedicado no livro/CD Mangueira Sambas de Terreiro e Outros Sambas
publicado pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro: "Compositor,
cantor, escritor, pintor, ator. Com dez anos de idade desfilou pelo
G.R.E.S. Azul e Branco do Salgueiro pela primeira vez, tocando tamborim.
Aos doze, teve como padrasto Alfredo Lourenço, o conhecido sambista
Alfredo Português. Menino e adolescente, conviveu em casa com Cartola,
Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Aluísio Dias. Mais tarde, veio a ser
parceiro de Cartola e do próprio padrasto.” Ingressando
na Ala dos Compositores da Mangueira, também foi seu presidente, sempre
demonstrando forte consciência da importância cultural e do papel social
da escola de samba. A sua longa e apaixonada vivência do universo do
samba o transformou em um dos mais importantes detentores da memória da
Mangueira,tendo sido co-autor do livro Um certo Geraldo Pereira. Seu
samba-enredo de 1955, com Alfredo Português e Jamelão, Cântico à
Natureza, chamado vulgarmente Primavera, é considerado como um dos mais
belos da Estação Primeira. Possui grande e notável produção tanto de
sambas de terreiros como de sambas-enrêdo. É ótimo intérprete das próprias
composições, acompanhando-se ao violão, e tem suas criações gravadas
por altos nomes da música popular brasileira, como Paulinho da Viola,
Elizeth Cardozo, Nara Leão, Maria Bethania, Clementina de Jesus, entre
outros.Beth Carvalho fez sucesso ao interpretar o belo e lúcido protesto
em defesa do samba contido em Agoniza mas não morrre. Com
CD’s gravados no Brasil e no exterior, o nome de Nelson Sargento faz
parte da história da música popular brasileira. Também é pintor
autodidata com ótima repercussão na imprensa, e, em 1999, revelou-se
ator de qualidade no filme O Primeiro Dia, de Walter Salles."
Depois de uma primeira fase européia, Markos Resende voltou ao Brasil em 78, armou a banda Index e gravou um total de oito discos, além de fazer trilhas para cinema e ballet. Retomou a carreira na Europa em 1990, e em 91 montou a banda Status com músicos de várias nacionalidades, época em que iniciou suas composições com instrumentos eletrônicos. Fez muitos shows em diferentes países e tocou na abertura de shows de Elton John, Phil Woods, Stan Getz, Art Blake e Cannonball Aderley. Seu último disco "About Jobim", gravado ao vivo no Festival de Jazz de Copenhagen em 96, foi distribuído pela BMG na Europa e EUA. "Late Passenger" marca a busca de Markos por um mercado nacional, com o melhor da linguagem contemporânea européia, aliada a maturidade musical do compositor. Este CD é fruto das
andanças pelo mundo do tecladista e compositor capixaba Markos Resende,
cuja carreira tomou impulso depois de participar do Newport Jazz Festival
em Cascais, com Dexter Gordon.Gravado entre Paris, Londres e Copenhagen, e
com excelente acabamento técnico o disco é moderno e rico de influências
que juntam o techno, a bossa nova, o ska e o drum and bass com uma fusão
latina de ritmos, guardando, no entanto um encadeamento harmônico bem
brasileiro. Três faixas trazem a percussão do grupo "A
Parede", e nas demais destacam-se as cantoras norueguesas Naja
Storebjerg e Mia Sorgenfrei, e a brasileira Kakau Gomes na única faixa em
português. Fiel a suas origens, Markos fecha o disco jazzisticamente
tocando um belo piano acústico na faixa "When I saw You".
O grupo Sincronia
Carioca estréia em grande estilo. Seu primeiro disco foi gravado no estúdio
sinfônico da Rádio MEC, produzido pelo trombonista e maestro Víttor
Santos e conta com a participação ilustre de Hermeto Pascoal, que fez o
arranjo e toca diversos instrumentos na faixa "Essa é a nossa
cara", música que compôs especialmente para eles. Todas as outras
faixas são de autoria dos integrantes do grupo,também responsáveis
pelos arranjos,e são inspiradas em fontes brasileiras como o samba, música
nordestina, choro e bossa nova. Os jovens e talentosos Gabriel Improta,
Daniela Spielmann, Alexandre Caldi e Rodrigo Villa e o veterano
percussionista Don Camilo - ex Galo Preto - são os cinco nomes que fazem
parte deste conjunto que marca presença forte no cenário musical
brasileiro,exibindo uma rara combinação de sólida interpretação
instrumental com ótimos arranjos para composições inspiradas.
Ao contrário do que normalmente se
espera da maioria de cds de música instrumental brasileira, “Siri”,
disco que utiliza o nome do músico e autor, é uma agradável surpresa
indo muito além das fórmulas à que o gênero está acostumado. Guiando-nos
por uma linha invisível como numa trilha de filme, ou numa estrada onde vão
se sucedendo as paisagens, o universo explorado em “Siri” - além de
vigorosos ritmos e de belos temas - é antes o das “texturas sonoras”.
De carácter essencialmente
conceitual, e costurada por um inteligente jogo de semelhanças e
contrastes, estas misturas criam diferentes atmosferas, nos revelando uma
música pictórica e sensorial. Simples em sua ousadia, é música onde à
força rítmica se somam a noção de profundidade e perspectiva. Tão dançante
quanto melódica, tão expressiva quanto sofisticada.
Ricardo
Siri, partiu para o seu 1º cd solo depois do encontro com Fernando
Morello(co-produtor musical do cd) quando pôde realizar plenamente suas
originais idéias. Somado as participações especiais de Marcos Suzano,
Alessandra Belloni (pandeirista e cantora italiana), Mestre Darcy do
jongo, Carlos Trilha (teclados), Antonio Saraiva (arranjos de trombone),
Jota Moraes (vibrafone), os franceses Nicolas krassik (violino) e Marion
Del'8 (piano), Aramis Guimaraes (trombones), Denner
Campolina(contrabaixo), Rodrigo Sebastian e B.J.(baixo), Dona Sú(voz)e
André Moreno, Dudu Fuentes, Fabão, Pepê, Christiano Galvão, Fred
Castilho, Pedro Paiva, Pitito, Schmidt e Sidon Silva (batucada), foi
possivel ao longo de três anos, construír de forma zelosa e minimalista
o complexo sonoro de “Siri”. Para
esse interessante “jogo de texturas”, utilizaram algumas formações
bem inusitadas, como na faixa de abertura “No
Tranco” , onde um motor de Fusca e sua carroceria são a
base de percussão para um naipe de trombones que nos remete a buzinas e a
diversos outros sons urbanos. Nas
únicas duas formações mais tradicionais do disco encontra-se ainda
assim soluções interessantes. Em “Gretch”,
vibrafone, orgão, baixo, bateria e talking drum, misturam-se em uma
atmosfera lúdica, num mix de trilha de filme de espionagem anos 70 com música
eletrônica - com destaque para os endiabrados improvisos de Jotinha
Moraes. Em “ Homenagem ao
Mestre” , à estranha poliritmia entre um piano tocado
à seis mãos e palmas, juntam-se tambem bateria e contrabaixo. Logo
depois surge um ambiente mais soturno e onírico, onde um jongo tocado com
tambores africanos é o sinal para a aparição da voz de Darcy, fazendo a
ponte para “Caxambu” .
Aqui, a história do Jongo é contada e cantada de improviso pela voz do
falecido Mestre Darcy - considerado o último grande mentor deste ritmo no
Brasil - e sua mulher Dona Su. Esta
gravação é antes de mais nada um importante registro do músico pouco
tempo antes de sua morte. Sob base de congas executadas pelo próprio
Mestre e por Siri, soma-se uma sanfona que anima a batucada. É uma das
faixas mais fortes e emocionantes, ainda mais se considerarmos o curioso
relato inicial de Dona Sú que, se referindo ao Mestre, como numa premonição,
celebra: “…e no fim do túnel vai ter uma luz pra você…” A
última faixa, “Trombada”, reintroduz
em meio ao som de ruídos de trânsito e um tamborim, os incríveis
“trombones urbanos”. Uma pesada batucada surge dançando um maxixe até
a volta do Fusca que nos carrega para outros ritmos. Como não podería
deixar de ser, “tudo acaba em samba”, onde todos se desligam felizes,
junto a morte do claudicante motor, responsável por essa nossa saborosa
viagem ao longo das 10 singulares faixas de “Siri”. “Siri” é um cd milimetricamente elaborado e produzido em todos os seus detalhes. Até a bela e elegante capa em P.B. ao ser idealizada e projetada durante um ano pela fotógrafa Deby Engel, é exemplo de dedicação e critério nas escolhas da imagem como na escolha de cada som do cd. De carácter universal, é uma obra que se ouve de um fôlego só, e quando menos se espera, estamos de volta à primeira faixa para começar a viagem toda de novo. parceiros da agulha nesta seção |
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