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revista
de cultura # 45 |
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Ednardo: na asa do vento Eleuda de Carvalho
Também
produtor musical e ligado em cinema, Ednardo é autor do documentário Cauim,
também nome de um disco seu. Ele próprio fez o personagem de um cantador
no filme Luzia-Homem, de Pedro Jorge de Castro. Mas o feito mais
emblemático da trajetória deste ariano, nascido há exatos 60 anos nesta
cidade de Fortaleza, foi o coletivo Massafeira, quatro dias de sonho e
festa no vetusto Theatro José de Alencar, de 15 a 18 de março de 1979,
do qual nasceu, um ano depois, o álbum duplo com 24 composições, unindo
diversos artistas cearenses. Foi a primeira vez que eu vi, junto com os
belos cabeludos da cena musical local, a beleza ímpar de um homenzinho
meio cego, vestido numa camisa de volta-ao-mundo, recitando sua visceral
poesia ao vivo. Patativa do Assaré. Nesta
conversa feita por e-mail e em duas partes (no meio, Ednardo voltou
rapidamente à cidade para fazer, junto com Belchior, o show de aniversário
de Fortaleza), ele conta a sua trajetória sonora. Desde os festivais
locais que revelaram sua geração, o impacto da canção Pavão
Mysteriozo, os programas de tevê entre Rio e São Paulo, a
Massafeira, os parceiros, os amigos, os percalços. Os sonhos e desesperanças.
E seu amor incondicional ao Brasil. [EC] EC
- Queria começar no meio do caminho. Vamos marcar este antes e depois com
a canção que, penso, significou também uma guinada na sua trajetória.
Estou falando do “Pavão Mysteriozo”. Em que circunstâncias você
criou esta música, como foi a primeira recepção à marcação solene da
batida do maracatu numa canção popular? O que aconteceu com o disco e
sua carreira quando o “Pavão” foi tema de abertura da novela Saramandaia?
EC
- E você, quando foi que saiu de Fortaleza e se radicou no Rio? Como
foi esta viagem, esta mudança? Bateu uma vontade de voltar? E
- Saí de Fortaleza em 72. Antes, entre 69 e 70, fui ao Rio de
Janeiro, passei pela Bahia, sondando ambientes, espaços onde minha música
pudesse ecoar. Quando cheguei ao Rio, não conhecia absolutamente ninguém
da área musical. Saí de Fortaleza dirigindo um fusquinha, com a cara e a
coragem, ô estrada comprida, uns cinco dias pra chegar, mas eu estava com
meus sonhos, e a vontade inabalável de fazer alguma coisa. Lembro com
carinho da carta que o amigo Guilherme Neto da TV Ceará fez quando soube
que eu estava indo pro Rio, era uma apresentação a um amigo dele. Nem
procurei a pessoa indicada, por absoluta timidez. O parceiro Belchior
estava há alguns meses no Sudeste, vez por outra enviava cartas contando
a dureza da grande cidade. “Ednardo, vem que juntos podemos fazer muitas
coisas, sozinho é difícil. Vem e traz alguma grana para os primeiros
tempos. Juntei as economias para gastar só nos maus dias e gasto hoje
afinal”. Não tem glamour nas dificuldades iniciais, todas são
definitivas na decisão de ficar ou voltar, quando não temos por perto
amigos, amigas, família. Quando estamos sós, quando se olha pro oco do
mundo e nada do mundo olha pra você… O baque que sentimos é considerável,
só os fortes resistem. Residi sete anos em São Paulo, grande parte em
viagens entre Rio-São Paulo. Depois, voltei a Fortaleza, onde residi por
quatro, cinco anos. Em 1985 fui de novo para o Rio, onde fixei residência
e permaneço. Quanto ao lance de bater vontade de voltar, é característica
quase atávica do cearense, que viaja ou mora pelo mundo. É retratado por
Gustavo Barroso no “Hino de Fortaleza”, em parceria com Antônio
Gondim: “Onde quer que teus filhos estejam,/ na nobreza ou riqueza sem
par,/ com amor e saudades, desejam/ ao teu seio o mais breve voltar./
Porque o verde do mar que retrata/ o teu clima de eterno verão/ e o luar
nas areias de prata/ não se apagam nos seus corações”. EC
- Aí pelos meados da década de 70, surgia com força toda uma geração
vinda do Nordeste, o pessoal do Pernambuco, o Pessoal do Ceará. Havia um
ponto de encontro onde a turma nordestina se encontrava? Rolava algum tipo
de discussão ou projeto coletivo? Ou cada um estava tentando se firmar e
prevaleciam as individualidades? E
- As pessoas chegaram ao eixo Sudeste no início da década de 70,
“vindas daqui e dali, de todo lugar que se tem pra partir”, como diz
Edu Lobo, mas quando a gente chega à outra grande cidade, saindo, naquele
tempo, de nossas províncias, a realidade é outra, o espaço físico das
metrópoles, a arquitetura existencial de relacionamentos é diferente.
Existia também a ditadura militar, que considerava reuniões e
ajuntamentos sistemáticos de qualquer espécie de gente como perigo
iminente e potencial contra o regime implantado. A gente andava em grupos
como forma de proteção mútua, mas não existiam pontos de encontros
determinados, saíamos pela noite de São Paulo, e aconteciam encontros
inusitados. Nossa casa (chamamos de nossa por afetividade ao local que nos
abrigou durante algum tempo), na realidade emprestada por alguns meses a
Belchior pelo cineasta Mário Kuperman, enquanto era demolida, era o ponto
de encontro dos cearenses: rua Oscar Freire, 1500, Pinheiros, São Paulo.
O programa Mixturação, da TV Record, gravado semanalmente no Teatro
Record - na rua Augusta, e depois o Mambembe da TV Bandeirantes, gravado
no Teatro Paramount, ambos dirigidos por Walter Silva, também eram pontos
naturais de encontros. Chegávamos de manhã e os ensaios e gravações
demoravam bastante, então a gente aproveitava para colocar a conversa em
dia. Participaram destes programas o Pessoal do Ceará (eu, Rodger, Teti,
Belchior, Cirino, Pequim, Jorge Mello), os Novos Baianos, o Grupo Capote,
Simone, Paulinho Nogueira, os irmãos Clôdo, Climério e Clésio (dos
quais produzi o primeiro disco São Piauí, na RCA), Walter Franco,
Secos & Molhados (Ney Matogrosso regravou “Pavão Mysteriozo”),
Marcus Vinícius e Anah, Renato Teixeira, enfim era muita gente. Mas não
havia o ambiente que tínhamos em Fortaleza, no Bar do Anísio ou Estoril.
E
- Fortaleza e todo o Ceará são meus pontos principais de referência,
são coordenadas existenciais queridas, das quais não abro mão. Mas isto
não impede que, por tanto viajar por todo este Brasil, eu me sinta também
à vontade em outros lugares. Gosto muito do Rio de Janeiro e São Paulo,
da Bahia e Rio Grande do Sul, do Piauí, Brasília, Belém, Maranhão,
Pernambuco… Isto não é uma média de simpatia, me identifico mesmo com
este sentimento de brasilidade que emana desta pluralidade de pessoas, do
nosso jeito de ser tão amplo. Tenho consciência que falo bastante do
Ceará, desta sintonia nordestina, mas também aprendo tanto com outras
paisagens e habitantes, que seria desperdício não me permitir emocionar
e eivar o esteio principal da criatividade ao fazer este mapeamento sonoro
rítmico com palavras que me aproximem daquilo que também prezo em ser:
um cidadão do mundo. EC
- Queria que você falasse do primeiro disco, Pessoal do Ceará,
com Rodger e Teti (também intitulado Meu corpo, minha embalagem, todo
gasto na viagem). De quem foi a idéia da capa, com aqueles bilros, as
mãos da rendeira? E
- Conheci Rodger e Augusto Pontes no I Festival Nordestino da Música
Popular Brasileira, em Fortaleza - 68/69. Eu havia apresentado a música
“Chapéu de Palha” (Ednardo), e o Rodger a música “Bye Bye Baião”
(Rodger-Dedé). Estava assistindo outros artistas, quando chega Augusto e
diz: “Boa noite, meu nome é Augusto Pontes, esse aqui é o Rodger.
Gostei de sua música e Rodger também. Você faz Química, o Rodger faz Física,
eu faço Filosofia, e estamos todos ali na UFC, a gente podia se
encontrar”. Conversamos rapidamente ao lado do palco do clube Náutico e
depois nos encontramos na cantina da Universidade, estava muito barulhento
e resolvemos ir pra um barzinho que existia em rua próxima. Tinha um violão
por lá, começamos a tocar e cantar algumas músicas. Depois fomos fazer
uma visita ao Diretório Acadêmico da Escola de Arquitetura, que ficava
quase em frente, lá encontramos: Brandão, Fausto Nilo, Pepe Capelo. Então
foi se formando nossa turma boa. EC
- Como surgiu o projeto Massafeira, juntar aquela turma toda, todas as
artes, em quatro memoráveis dias de março de 1979… E
- Penso que o início mesmo da Massafeira é quando, em 78, realizei o
show de lançamento do disco e filme Cauim, todo filmado em
Fortaleza sobre maracatus, Confederação do Equador e outros assuntos
mais, numa espécie de documentário-ficção. Para este show havia
convidado como participantes especiais os parceiros Dominguinhos e Climério,
para cantarmos juntos e lançarmos o livro do Brandão (Todas as Noites),
que eu havia editado, e dois livros do Climério. Brandão havia feito a
arte da capa do disco Cauim, e solicitei que ele realizasse o layout
de palco do show. Em minha concepção, o filme seria projetado em
rede branca estendida como tela, entre bandeiras de várias cores, no meio
do espetáculo. O Brandão gostou da idéia e começamos a trabalhar,
tinha convidado Régis e Rogério Soares para realizarem a parte da projeção
do filme. Eles, na reunião, entre tímidos e sonhadores, falaram que
seria legal se também artistas iniciantes se apresentassem para abrir o
show. Ponderamos que seria inviável em termo de tempo, mas achávamos uma
boa idéia que poderíamos ampliar depois. Que ampliação foi esta que,
ao chegarmos para a passagem de som e luz, já estavam no TJA mais de 30
pessoas, dos mais jovens e promissores talentos da novíssima geração
musical, que acompanharam toda a montagem, subiram no palco, em suma, uma
demonstração inequívoca de suas boas vontades de participarem. Também
antes da hora do show e após, a quantidade de visitas ao camarim foi
muito grande e todos eles e elas estavam por lá. O grande fotógrafo
Gentil Barreira, contratado por nossa produção, registrou desde a
montagem deste lançamento de Cauim à realização do show. Então
foi a constatação que poderíamos realizar a união de várias gerações
artísticas em um movimento abrangente, de várias formas de artes. E
nasceu a Massafeira.
E
- Momento sem precedentes na história da indústria fonográfica
brasileira. Jairo Pires, então diretor geral da CBS, veio especialmente
para assistir Massafeira no Theatro José de Alencar, ficou impressionado,
me chamou e disse que autorizava um disco com alguns artistas. Ponderei
que um disco seria pouco, diante da diversidade e importância do que
estava rolando. Para transportar uma parte da energia e clima artístico,
seriam necessárias muitas outras pessoas. Em Fortaleza não havia estúdio
de gravação com qualidade técnica, e para isso tivemos que ir de avião
e de ônibus para o Rio, ficamos hospedados no Hotel Santa Tereza. Em dois
meses de trabalho titânico, realizamos três discos com minha produção
artística e direção, o álbum Ednardo e o álbum duplo da Massafeira.
Além disso, em março, gravamos e filmamos ao vivo Patativa do Assaré se
apresentando na Massafeira. EC
- Lembro de vê-lo, um dia, no Estoril, numa noite aí pelos idos de
80. Você, sua mulher e uma menina de imensos olhos cor do mar, sua filha
Joana Limaverde (atriz). Fale um pouco de sua família e do lance de ser
avô. E - Do final de 79 ao início de 83, por causa da Massafeira, eu e minha família residimos em Fortaleza. Minha querida mulher guerreira Rosane me acompanhou nestas mudanças de cidades. De São Paulo, onde residíamos desde 72, voltamos para Fortaleza em 79, e retornamos ao sudeste em 83, desta vez para o Rio de Janeiro. Enquanto isso, os filhos e filhas foram nascendo, Joana, em São Paulo, Gabriel e Júlia, em Fortaleza, Daniel, no Rio de Janeiro. Com alegria vamos vendo todos crescerem, e a continuidade representada pela nova geração é sempre bem vinda. |
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Eleuda de Carvalho (Brasil, 1959). Jornalista, repórter do caderno Vida & Arte, do O Povo (Ceará). A dissertação de mestrado, Cordelim de novelas da Xerazade do sertão, sobre o Romance A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, teve um capítulo publicado em coletânea da Academia Cearense de Letras. Contato: eleudacarvalho@walla.com. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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