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revista
de cultura # 45 |
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Álvaro Alves de Faria a caminho de Portugal Floriano Martins
AAF - As palavras de Antonio Carlos Secchin
sobre minha poesia não explicam estes livros que tenho publicado em
Portugal. Ele se refere, sim - e eu concordo e muito - aos outros poemas,
outros livros. Mas isso não significa que eu escreva dois tipos de
poesia. Não. O que ocorre é que esta questão de Portugal, em mim, é
uma coisa profundamente sentimental e existencial também. Você poderá
ver no meu Trajetória poética - Poesia reunida, os 20 poemas
quase líricos e algumas canções para Coimbra e Poemas
portugueses. É outra paisagem poética. É outra coisa
inclusive na minha vida de poeta. De ser humano também. Neste caso de Sete
anos de pastor, o novo livro, a maior parte dos poemas foi feita em
torno da lírica de Camões. Poucos poemas fogem disso mas, de alguma
maneira, têm ligação entre si nas palavras, no texto invisível. Basta
dizer que o livro começou a ser escrito, há perto de três anos, tendo
por base o famoso soneto de Camões, cujo primeiro verso dá o título a
este meu novo livro. Escrevi, então, poemas para Raquel, Lia, Jacob e Labão. A
seguir, 16 poemas para uma certa Rainha, entre eles alguns sonetos
metrificados. Fiz questão até das rimas. Há também uma parte dedicada
a Inês de Castro, apenas dois sonetos, em que exploro especialmente o
tratamento na segunda pessoa do plural e na segunda pessoa do singular. É
importante dizer isso porque essa linguagem percorre praticamente todo o
livro que tem a primeira parte chamada "Descobrimentos", na qual
sinalizo o rumo de minha poesia. O primeiro poema tem seis pequenos
versos. É assim: Há um momento certo
para se escrever um
poema. Uma hora certa. Um dia certo Uma vida inteira.
A seguir, também
sinalizando para esse rumo, um poema que tem o título “Carta poema ao
amigo Carlos Felipe Moisés”: Escrevo amigo .......... Fecharei a casa como
se fosse viajar Não sei morrer Quer dizer, eu estou
me despedindo da Poesia Brasileira, graças a Deus. Quero distância de
muita gente. Quero estar longe. A distância pode ser a do Oceano Atlântico.
Estes poemas de Portugal não cabem naquelas palavras generosas do poeta
Antonio Carlos Secchin. Estes poemas são outra coisa. Claro que na minha
vida li muitas vezes toda a lírica de Camões. Mas desta vez busquei
nessa poesia um refúgio diante dos destroços e das ruínas que vejo por
aqui na Poesia Brasileira. Fui buscar na poesia portuguesa o que me falta
aqui, incluindo nisso até mesmo o relacionamento humano entre as pessoas.
Cansei de tanta leviandade. Em certo momento é preciso mesmo se fechar no
quarto e apagar a luz. Trancar as janelas. Incendiar a casa. É preciso se
salvar. FM - Dentro desta perspectiva outra, de que maneira então
se mostra tua voz poética, onde ela se distingue do guia, considerando
que vai além do palimpsesto? AAF - Minha voz poética, para utilizar a expressão que
você usou, se mostra da mesma maneira. No fundo, a poesia existe. A forma
do poema é que pode mudar, neste caso particular de minha poesia em
Portugal. E muda por um motivo bastante simples: é que em Portugal a
poesia é levada a sério. Dificilmente se vê as leviandades às quais
estamos aqui acostumados neste pobre país. Ao escrever estes poemas me
imagino distante de todas as vulgaridades que a mim, pelo menos, atingem
de maneira fatal. Sinceramente, cansei de tantas coisas ridículas
devidamente amparadas por uma mídia que prima pela desonestidade e pela
mentira. Mas voltando à poesia, que é o que interessa, de fato - se é
que compreendi - rasga-se o pergaminho e procura-se outro. Apaga-se a
palavra que nos habita e procura-se outra. E isso vale também para a
vida. Minha voz poética se distingue na medida em que a gente procura se
libertar desta angústia nacional no que diz respeito à Poesia e mergulha
de cabeça nas formas poéticas verdadeiras que ainda existem. É preciso
encontrá-las para que, afinal, não morra a poesia. Os poemas de Portugal
são sempre um outro clima. São sempre um novo achado. São e serão
sempre uma nova tentativa de redescobrir a poesia possível. Você poderá
me perguntar se, neste caso, eu não estaria negando minha própria obra.
Eu responderia que não. Pelo contrário, estou, sim, revigorando essa
obra, com as palavras novas, achados poéticos consistentes, a construção
do poema com novas ferramentas, o olhar cada vez mais agudo, a faca do
poema cada vez mais cortante, cortando o pulso, esvaindo a vida, se
preciso for. O que não dá mais para encarar é esta bandalha brasileira.
Fui buscar em Portugal a poesia que perdi aqui. Neste país infeliz se
perde tudo, a começar pelo próprio orgulho, se é que cabe esse termo,
essa palavra. Fui buscar em Portugal o que aqui foi completamente destruído
pelos vândalos da mediocridade, por essa “poesia” inventada nos
suplementos culturais mentirosos, salvo algumas exceções que são
poucas, pouquíssimas. Diria, meu caro amigo poeta Floriano Martins, que
dentro desta perspectiva outra, a minha voz poética se encontra em
Portugal, onde me deixo ficar, me deixo viver. FM - Como se relaciona, a teu ver, estas duas tradições líricas,
Brasil e Portugal? Há acaso um caminho com que se possa perceber? E quais
as distinções valiosas? AAF - As distinções valiosas são todas. As duas tradições
líricas Brasil e Portugal não existem mais. A tradição lírica
brasileira na poesia morreu, foi assassinada. A tradição lírica de
Portugal continua portuguesa, continua séria. Não se pode debochar das
coisas, e estou falando de poesia, de poema, da palavra esculpida e
lapidada para a elaboração do poema. As relações podem ocorrer -
ocorrem, na verdade - de maneira até pessoal. A lírica fui buscar em Camões,
lá no fundo de Portugal. Fui buscar em Camões o que me faltava. Minha
Geração - quase toda - consultou nos anos 60 os poemas de Fernando
Pessoa e de Rilke. Estava lá, pelo menos para muitos de nós, a sinalização
da poesia. Rilke talvez bastasse. Fernando Pessoa também, especialmente
Álvaro de Campos para alguns, Alberto Caeiro para outros. Claro que, no
fundo, estou simplificando as coisas. Essa Geração 60 foi tomando seus
rumos dentro da poesia brasileira. Hoje restam poucos. Entre eles, eu. E
nem sei se felizmente ou infelizmente. Essa é uma Geração que muitos
escrevem com G maiúsculo feita quase só de vaidades lastimáveis. São
poucos entre os poucos que há, que de fato estão preocupados com a
Poesia. O que parece estar valendo é a política literária da sordidez.
Isso a mim não importa. Não importará nunca. Fugi disso e fui parar em
Portugal. Busquei na poesia portuguesa minha própria salvação poética.
Não digo que lá seja tudo um mar de rosas. Não. Não é. Mas pelo que
tenho visto e sentido, estamos ainda muito distantes da seriedade no trato
da poesia. Ocorre-me, neste instante, um poema deste Sete Anos de
Pastor. Não sei exatamente porque me ocorre. Coloco-o aqui para
talvez explicar melhor o que ainda existe de sentimento poético: Que me sinta assim morrer antes da primavera
como se a querer sentir o que não sinto
FM - Desconfio que tamanho ressentimento não te fará bem
algum. É o tipo de sentimento que costuma cegar qualquer um. Por exemplo,
gostaria que falasses de algo que parece quando menos curioso: há edições
de poetas brasileiros em Portugal - em boa parte levada a termo pela Quasi
Edições - e também se verifica o contrário, neste caso valendo referência
à Escrituras Editora. No entanto, mesmo considerando a publicação de
livros lá e cá, essas duas tradições seguem alheias a si mesmas. O que
provoca e mantém este alheamento? AAF - Você utilizou a palavra ressentimento para situar
melhor o que lhe disse anteriormente. A palavra é correta. Se não me fará
bem, pouco me importa. É preciso no entanto saber se não me fará bem
como pessoa ou como poeta. Como pessoa é possível. Como poeta, não.
Cansei, meu caro Floriano, das leviandades reinantes, destes suplementos
culturais (salvo as raras exceções) feito só de cartas marcadas. A
cultura não precisa disso. A cultura tem de fugir disso. Vivemos num
tempo, infelizmente, em que só vale o que é leviano. Só vale o que não
se sustenta diante de uma crítica séria. É preciso deixar claro, no
entanto, que não estou generalizando. Sou até uma pessoa comedida nisso.
Não quero generalizar. Mas fazer literatura em São Paulo ou no Rio de
Janeiro, para citar apenas esses dois lugares, é correr um risco
desnecessário pela falta de honestidade daqueles que lidam com a mídia
cultural. Aí entra certamente o ressentimento. Mas veja bem, eu até que
tenho o meu espaço. Por mim, não reclamaria de nada. Ocorre, porém, que
as coisas estão sendo levadas para a mentira pura e simples, deslavada.
Felizmente ainda existe o processo histórico. Há uma história sendo
escrita. Não se poderá fugir dela. O ressentimento existe sim, meu
amigo. É minha forma de reagir. Sou uma pessoa passional. Nada tenho de
razoável. E minha forma de reagir, além de articular palavras até mesmo
ofensivas, é fugir para a Poesia de Portugal. Enquanto tiver tempo para
isso. Talvez regresse. É possível, porque as coisas não são
definitivas, recorrendo a uma frase feita. Talvez regresse à minha base.
E sei que essa volta será dolorosa. Respondendo ainda por meio da própria poesia de Sete
anos de pastor, deixo aqui alguns trechos do poema “Flautista”,
que me explica bem: Só fui ser poeta aos 60 anos Tocador de flauta ......... Só fui ser poeta aos 60 anos Então descobri o mar Sempre me disseram Quanto a dizer que as tradições se mantêm
alheias concordo, mas não sei se com tanta extensão assim. Há muitos
poetas brasileiros publicados lá, como você mencionou. Mas a recíproca
não chega a ser verdadeira em relação a poetas portugueses aqui. O que
se tem aqui de poesia portuguesa é muito pouco. Vejo com entusiasmo a
iniciativa da Escrituras em publicar aqui os poetas de lá. E que ocorra o
mesmo quanto à Quasi, que tem dado grande contribuição nisso que
estamos falando. Ou nisso que estamos a falar. Mas é preciso dizer à
Quasi que no Brasil não existe apenas Manoel de Barros. Seja como for,
qualquer coisa que se faça nessa área tem de ser aplaudida. Eu espero
mais de Portugal em relação ao Brasil do que do Brasil em relação a
Portugal. Aqui reina a vulgaridade, infelizmente. E nem todos são
vulgares. FM - Na resposta anterior mencionaste alguns poetas
brasileiros que consideras de boa linha, digamos, e de distintas gerações.
Poderias fazer o mesmo em relação à poesia portuguesa? AAF - Mencionei alguns nomes que me vieram à cabeça.
Claro que há outros. Muitos outros. Felizmente há. A poesia brasileira
é rica, quando escrita por gente séria. Em relação à poesia
portuguesa cito também os nomes que me vêm à cabeça neste instante,
como Antero, como Eugênio de Andrade, Mário Cesariny, Herberto Helder,
Al Berto, Mário de Sá-Carneiro, Sofia de Mello Breyner Andresen, Albano
Martins, Régio, Florbela, José Gomes Ferreira, Antonio Nobre, Cesário,
Nuno Júdice, Helder Macedo, Gomes Leal e muitos, muitos outros. Repito,
muito outros. E muitos outros também em relação à poesia do Brasil. Não
quero que fique a impressão de que nada presta. Não é isso. Eu me
refiro ao que ocorre agora neste país de tantas angústias, de tantas
mentiras. E num país onde quase só existe mentira, a literatura não
deixaria de ser atingida.
AAF
- Você cita especialmente três poetas que não mencionei, Manuel Gusmão,
Luis Miguel Nava e Rosa Alice Branco. Gusmão é considerado um dos mais
importantes poetas de Portugal, além de ensaísta que escreve sobre
Poesia. Você sabe disso melhor do que eu. Ele que diz ser preciso sentir
a dor muito profundamente para se conhecer o significado da alegria. Acho
que essas palavras me cabem. Já Luis Miguel Nava me é especial,
principalmente por ter levado a vida às últimas conseqüências, até
terminar assassinado em Bruxelas, em 1995. Sua poesia me toca
profundamente, por essa paixão que consome, que arrasta, que talvez
enlouqueça. Aqui lembro de meu amigo Roberto Piva. Talvez seja ele um dos
maiores, certamente o maior poeta de Portugal dos anos 80. Ele que queria
ser entendido somente por aqueles “de quem o coração for de roldana/
do poço que lhes desce na memória”. Creio que também a mim cabem
esses versos. A mim tudo cabe. Me cabem todos os versos escritos em
Portugal. Quanto a Rosa Maria Branco, ela lançou aqui no Brasil, em São
Paulo, pela Escrituras, uma seleção de poemas, Soletrar o dia,
obra prefaciada por você. O livro tem uma declaração: “Nossos
agradecimentos especiais a Floriano Martins, por seu grande empenho em
estreitar os laços culturais entre Brasil e Portugal”. Assim, estou
falando com a pessoa certa. Não cheguei a conhecer Rosa Alice Branco
pessoalmente, embora tenha vindo lançar seu livro aqui em São Paulo.
Falamos por telefone. Fiz com ela uma entrevista. Ela diz num poema o que
também me serve: “Parece simples/ a simplicidade que vem das coisas/ e
nos encontra o meio do caminho”. Mas além dos três nomes que você
mencionou, poderia citar também Maria Tereza Horta (“O oceano/ por
entre o oceano”), David Mourão Ferreira, Luíza Neto Jorge, Ruy Belo,
Antonio Ramos Rosa, Vasco Graça Moura, Ana Marques Gastão, Egito Gonçalves.
Poderia citar outros, como citaria outros brasileiros. Mas não os 175
milhões de poetas do país. Sua pergunta, no entanto, nada tem a ver com
isto que estou dizendo. Acho mesmo que nada tem a ver com nada. Você
pergunta a que vozes brasileiras corresponderiam os três poeta que você
citou. Não sei bem como lhe responder. A poesia ocorre. Toda a poesia,
seja ela de onde for, sempre terá uma correspondência. A poesia tem seus
entrelaçamentos. Toda a poesia, desde que seja ligada à vida do homem,
da mulher, das crianças, dos bichos, das plantas, das pedras, do
desespero, do grito. Toda poesia ligada à vida. Isso eu encontro muito em
Portugal, uma poesia que não se envergonha de ser humana. Você também
me pergunta que poeta considero mais substancioso em Portugal. Respondo
que hoje é Eugênio de Andrade. Seria, ao meu ver, uma espécie de Carlos
Drummond de Andrade, de João Cabral de Melo Neto, de Bandeira, de
Ferreira Gullar, por sua importância na poesia portuguesa. A figura de
Eugênio de Andrade é uma figura de poeta. Se é que isso exista. Eu o
conheci no Porto a dizer poemas no Teatro do Campo Alegre. Impressionou-me
sua voz, seu andar. O olhar. As palavras de uma poesia que merece o
respeito de todos. Lá está um poeta. Um homem poeta: “Trabalho com a
frágil e amarga/ matéria do ar/ e sei uma canção para enganar a morte/
e assim errando vou a caminho do mar”. Levou-me às lágrimas. Por que não
dizer? Um poeta inteiro, acima de qualquer suspeita. Troquei com ele
algumas palavras, mais até para ouvi-lo de perto. Fazia muito tempo que
eu não via um poeta, embora, naquela oportunidade eu estivesse ao lado de
Ferreira Gullar. Fazia muito tempo que eu não via um poeta com o absoluto
significado da poesia. Um poeta de Portugal, feito de poemas que não sei
dizer, porque apenas sinto e com esses poemas de Eugênio consigo imaginar
que existe poesia no mundo, até mesmo em meu país de valores invertidos,
de tantas mentiras em tudo. FM - Alguns traços comuns no que diz respeito à tua geração? AAF
- Minha geração talvez não exista. É preciso dizer, no entanto, que não
sou uma sumidade em conhecimento da poesia portuguesa. Publico lá um
livro a cada ano e meio. Apenas isso. Sou conhecido lá por 19 pessoas,
incluindo meus familiares. Nada além disso. Mas isso me basta. Por
exemplo, neste exato instante eu me pergunto: Nesta porra do país onde
estará Bruno Tolentino que, com Roberto Piva, forma o que de melhor
produziram os anos 60 na poesia do Brasil. Os melhores de minha geração
feita de tantas vaidades. O que existe de fato nessa geração são
pessoas lembradas por atitudes, não por poemas. Quem publicará Bruno
Tolentino, Astrid Cabral, Adriano Espínola neste país de facínoras? Em
certos casos, aqui, basta ser medíocre. Não precisa mais. É necessário
dizer sempre que existem as exceções. É preciso dizer também que em
Portugal sou publicado por duas editoras pequeníssimas, a Alma Azul, de
Coimbra, e agora a Palimage (A imagem e a Palavra) de Viseu. Nada além
disso. Sou apenas um aprendiz em Portugal. Vou lá colher a poesia que
alguém já disse ser necessária. Pensando em Portugal a Poesia chega a
ser novamente um prazer. Em relação a este livro Sete anos de Pastor,
mergulhei em Camões. Fui buscar em Camões o que me falta. Me dá prazer,
por exemplo, escrever poemas assim: Do pedido póstumo pudera em pedra partir
para os pátios perdidos nas
preces das palavras Quer dizer: busco em Portugal o
prazer de escrever o poema que não consigo mais aqui. Sei que a poesia é
uma coisa pessoal, quando escrita. Eu poderia escrever dentro de mim sem
me deixar envolver por tudo isto que estou dizendo nesta entrevista. Mas,
às vezes, não é possível. Portugal é uma porta. Uma paisagem
existencial. Uma paisagem poética. Nessa paisagem me deixo estar. Como já
disse, para me salvar. Sinto prazer, para citar mais um exemplo, de começar
um soneto assim:
Se partistes de vós assim sozinha FM - O que te leva a Portugal? AAF - Tenho ido em busca de mim, se é possível entender.
Em busca da minha poesia ainda possível. Talvez em busca da vida que me
resta. É preciso dizer que sou filho de pais portugueses. Minha mãe, Lucília,
de Anadia, meu pai, Álvaro, de Angola. Dei razão à escritora Graça
Capinha, da Universidade de Coimbra, quando escreveu sobre os poemas
dedicados a Coimbra. Ela disse tratar-se de um mergulho na memória da memória.
É assim mesmo. Me vejo procurar por dentro. Me vejo diante de mim, a
olhar-me na possibilidade do olhar ainda possível. Busco minha própria
reminiscência. Busco em Portugal a poesia que não encontro mais aqui,
sempre ressaltando as exceções que existem. Nem todos são levianos. Até
na minha geração há pessoas sérias, poetas que entendem esse ofício
de escrever poesia. E eu digo “até” porque nesta minha geração -
que às vezes escrevo com G maiúsculo - muita gente produz muito discurso
e pouca poesia. O que vale mesmo é a chamada política literária. Essa
coisa sórdida que não leva a lugar nenhum. Não gosto nem sou de políticas
sórdidas. Essa coisa menor de muitos conchavos e acenos gratuitos. Se você me permitir, volto a utilizar um trecho do poema
“Decisão”, deste Sete Anos de Pastor. Acredito que explique
melhor: Deixei de falar Deixei de escrever Para mim No entanto Sempre que volto Então voltando à sua pergunta sobre o que
estou indo eu fazer em Portugal, volto a responder que tenho ido em busca
de me tentar salvar. Isso vale para a poesia e para muitas outras coisas
que certamente não cabem numa entrevista sobre literatura. Tenho ido em
busca de mim. Vou buscar-me onde me deixei. Vou em busca do ar para
respirar. A Portugal me apresento como poeta brasileiro. Se é que sou de
fato poeta brasileiro. Sinceramente, tenho alguma dúvida. Apresento-me a
Portugal como sou. Um poeta à procura da poesia. De Portugal pretendo
apenas a poesia. Pretendo vestir-me de poesia. De Portugal pretendo-me
apenas ser. Quem sabe renascer? FM - E como é que tua poesia é recebida em Portugal? AAF - Há críticas generosas a meu respeito. A bem da
verdade, não saio por lá distribuindo livros para a imprensa. Sou
bastante tímido para fazer isso. Não faço, não faria lá. Mas já fui
entrevistado em Portugal algumas vezes para falar de minha poesia e de
poesia brasileira. Minha maior aproximação é com a Oficina de Poesia
dirigida por Graça Capinha, com poetas da Universidade de Coimbra. Lá,
sim, falo sobre poesia em geral, e particularmente discuto minha própria
produção. Sinto nessa Oficina em Coimbra um grande interesse por tudo. Há
um detalhe que me chama atenção, que se refere, no que me diz respeito,
a certa elaboração do poema que me parece não existir em Portugal.
Aquela elaboração lidando com as palavras e tirando da palavra todos os
sentidos que elas podem oferecer. Por exemplo: Estive na Oficina de Poesia
em 2002, quando levei alguns exemplares de meu livro A Palavra Áspera,
publicado pela Íbis Libris, no Rio de Janeiro. Os universitários poetas
se debruçaram em poemas, fazendo anotações, discutindo sua construção.
Poemas como este que tem o título “Poesia”: Árida palavra Árido poema A poesia árida Árida poesia Esse pequeno poema andou de mão em mão.
Soube depois que foi discutido exaustivamente, especialmente no que se
refere ao uso da palavra dentro do poema que afinal fala da própria
poesia. Outro exemplo do que chamou muita atenção foi um pequeníssimo
poema feito com apenas quatro palavras, chamado “Destino”: Meus sapatos Neste Sete Anos de Pastor tenho outro
pequeno poema na parte “Descobrimentos” que segue essa mesma linha que
tanto chama a atenção, pelo menos no que diz respeito a Coimbra, entre
os poetas que conheço. Acredito que seja ainda uma parte a explorar na
poesia portuguesa. Chama-se “Poente”: O sol morre Há também os poemas que se constroem
especialmente com o som das palavras, sem esquecer o próprio poema. Isso
eu senti de maneira intensa na leitura que fiz em 1998 no Terceiro
Encontro Internacional de Poetas, apresentando um poema chamado
“Eldorado dos Carajás”, que não faz parte de nenhum livro meu, mas
está em algumas publicações portuguesas. O início do poema é assim:
A foice fere a faca
a foice cala fundo a foice força FM - Além da obra de criação, tens uma
expressiva contribuição à cultura brasileira através da atividade
jornalística e da organização de algumas antologias e livros com
entrevistas. O que planejas agora para Portugal? Buscarás um
desdobramento deste mesmo ambiente, de realização de entrevistas,
antologias, ou acaso tens alguma outra coisa em mente?
FM - Defendes então que a saída seja mesmo o aeroporto? AAF - Em relação à Poesia acredito não existir outra
alternativa. Pelo menos para mim. É quase deixar tudo de lado. Partir
para outra. Diante do que me aflige, fui buscar na poesia de Portugal,
especialmente em Camões, a saída que se faz necessária. Vejo em Camões
essa Poesia feita como Poesia. A minha fonte secou por estas plagas
tropicais, neste país de tanta violência. Não quero ter dupla
nacionalidade na Poesia. Quero apenas ser poeta. Livre até mesmo de mim.
Mas principalmente livre desse escárnio em que se transformou a poesia
brasileira, aviltada sempre, manipulada de maneira vergonhosa por alguns
indivíduos que não têm noção do que estão fazendo. Mas o que mais dói
é a irresponsabilidade dessa chamada mídia cultural, esse comportamento
inconseqüente, louvando grupinhos que não sabem absolutamente nada de
nada. E isso ocorre também com a prosa. Basta ver o que tem saído por aí.
E tudo com espaço garantido nos tais suplementos. Tudo acertado. Este é
mesmo o país do conchavo descarado. A saída é mesmo o aeroporto. Como
se dizia no tempo da ditadura, o último apague a luz. Mas de lá para cá
as coisas não mudaram muito. Os tais suplementos, com as raras exceções
de sempre, trabalham ainda com o AI-5 debaixo do braço. Certa vez o poeta
Ferreira Gullar reclamou comigo a falta de poemas nos suplementos
culturais brasileiros que ainda existem. Gullar falou também das distorções
que se cometem nessas publicações. Disse-me, então, que muitos
suplementos são editados sem consciência do que se está fazendo.
Ferreira Gullar me disse estar cansado, por exemplo, de ler textos sobre
Baudelaire escritos por pessoas que nunca leram um único verso de
Baudelaire. Falou-me que essa leviandade e essa ignorância são uma das
marcas da época em que vivemos. Como não concordar com o poeta? Mas eu não
acredito que seja somente leviandade e ignorância. Não. Há também o
componente da má fé. O componente da mentira. FM - Esta mentalidade tacanha, mesquinha, virulenta, não
é um traço recente da casta intelectual brasileira, embora tenha piorado
a olhos nus. De onde vem este caipirismo, que não deixa de ser reflexo de
um complexo do colonizado, e como acreditas que este quadro possa vir a se
reverter? AAF - A casta intelectual brasileira é mesquinha. É também
ridícula. É preciso fugir dessa gente. Muitos agora no poder vivem das
traições de todos os dias. Tudo em nome do poder. Isso é outra decepção
que se fez em grande amargura. Por vinte anos ouvi um discurso, ajudei
nesse discurso, acreditei nesse discurso. Mas agora vejo que não era bem
assim. O que vale é trair os próprios ideais, se é que um dia de fato
existiram. Não tenho simpatia por Stálin. Tenho medo de Stálin. Tenho
medo da mentira. A mentira é uma das coisas que mais me ferem como ser
humano. Este é o país em que tudo apodrece, a poesia, as pessoas, a
literatura, a política, a palavra, o jornalismo, a universidade. Quando
eu acreditava na vida, foi preso cinco vezes pelo Dops por falar poemas no
Viaduto do Chá. Eu pensava que ia salvar o mundo falando poesia para as
pessoas. Eu acreditava nisso. Com 20 anos a gente acredita em tudo. Mas
depois vem a vida. Ela se mostra e mostra também uma face amarga. Uma
faca amarga. Mostra a boca amarga. Mas depois vem o depois e outro depois.
E de depois em depois a gente caminha, fazendo o possível para se
equilibrar sempre na corda bamba, dentro do grande espetáculo brasileiro.
E o espetáculo brasileiro continua com seus personagens. Não há como
reverter isso. A casta é forte. Seja como for, é preciso caminhar. Mesmo
sem poesia é preciso caminhar. FM - Além deste Sete Anos de Pastor - que tem na
capa a figura do Pastor dos Autos de Gil Vicente - o que já tens em
Portugal? AAF - A Editora Alma Azul, de Coimbra, publicou dois livros
meus, que são 20 poemas quase líricos e algumas canções para
Coimbra (1999), prefaciado pela minha querida Graça Capinha, que
sempre apresenta meus livros lá, e Poemas Portugueses (2002), com
prefácio de meu amigo querido Carlos Felipe Moisés. Essa mesma editora
publicou uma antologia que organizei chamada Brasil 2000 - Antologia de
Poesia Brasileira Contemporânea. Participo em Portugal de alguns
livros de poesia, como Literatura Portuguesa e Brasileira (Porto,
2000), organização de João Almino e Arnaldo Saraiva; Nove Poetas
Brasileiros (Coimbra, 2000), organização de Elsa Ligeiro; Antologia
de Poetas Brasileiros (Lisboa, 2000), organização de Mariazinha Congílio;
Poesia Mundo/3 (Porto, 2001), organização de Maria Irene Ramalho
de Souza Santos; Antologia de Poetas Paulistas (Lisboa,
2001),organização de Mariazinha Congílio; Poetas revisitam Pessoa
(Lisboa, 2003), organização de João Alves das Neves; Revista Oficina
de Poesia (Coimbra, 2004), organização de Graça Capinha. Também
participei de alguns eventos culturais em Portugal, dos quais destaco o
Terceiro Encontro Internacional de Poetas, promovido pelo Grupo de Estudos
Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em
1998, e do Congresso Portugal-Brasil 2000 - Literatura Portuguesa e
Brasileira, na Universidade do Porto, em 2000, nas comemorações dos 500
Anos do Descobrimento. FM - Querido poeta, deixo aqui a tribuna livre para o que
mais queiras comentar, desde já desejando a tua felicidade plena nesta
nova etapa de tua vida. AAF - Meu caro Floriano Martins, poeta amigo que aprendi a
admirar e que descobri há tão pouco tempo. E tudo, meu amigo, é tão
pouco tempo. Gostaria muito que os poetas brasileiros fossem como você é.
Gostaria que tivessem sua generosidade, tivessem eles as palavras que
encontrei nos seus livros. Tivessem eles essa Poesia que é a sua Poesia.
E vendo esses seus poemas é que, no fim de tudo, posso descobrir que nem
tudo está perdido. Desculpe-me por estas palavras a seu respeito, que sei
não desejar na entrevista que está fazendo comigo. Mas este espaço me
pertence e dele quero fazer uso para uma coisa boa, como é preciso ser em
todas as coisas. De forma que esta tribuna livre que você me oferece no
final desta entrevista seja, sim, uma palavra de enaltecimento à Poesia
que, apesar de tudo, ainda se produz neste país. Que seja a poesia
brasileira como é a sua, meu amigo, que siga esse caminho, essas ruas árduas
da existência, que se faça e se elabore em nome da beleza, em nome da
palavra, em nome da possível alegria de viver, que a poesia merece,
sempre haverá de merecer. |
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Álvaro Alves de Faria (Brasil, 1942). Poeta, ensaísta e jornalista. Autor de livros como Motivos alheios (1983), O azul irremediável (1992) e À noite, os cavalos (2003). Contato: poetalves1@hotmail.com. Floriano Martins (Brasil, 1957). Poeta, ensaísta, tradutor e um dos editores da revista Agulha. Autor de livros como Alma em chamas (1998), Cenizas del sol (2001) e Un nuevo continente (2004). Contato: florianomartins@rapix.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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