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revista
de cultura # 45 |
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E. T. A. Hoffmann: metamorfoses formais em A Senhorita de Scudéry Maria Aparecida Barbosa
Cobiçoso de a ver, lhe volve os olhos: Ovídio & Bocage, Metamorfoses
Hoffmann situa a história no ano de 1680, na Paris de Luís
XIV. Ele retirou vários nomes de personagens do livro Siècle de Louis XIV (1751), de Voltaire. Cardillac, o ourives, era
no livro francês o nome do governador do Castelo Trompette, citado an
passant. Hoffmann menciona também como fonte de inspiração um episódio
criminoso envolvendo um sapateiro de Veneza, que ao roubar suas vítimas, as
apunhalava no coração. No conto “Mademoiselle de Scúdery”, cortesões
e nobres que compram jóias valiosas confeccionadas pelo Mestre René
Cardillac, o mais famoso joalheiro do seu tempo (como o sapateiro veneziano,
também um artesão), são regularmente roubados e assassinados quando, à
noite, encaminham-se às casas de suas amantes. Apesar das tentativas de
prender os culpados, os ladrões de jóias continuam à solta e perpetuam
seus crimes. Os nobres cavaleiros da corte dirigem então uma carta ao rei,
em que solicitam medidas de segurança mais rígidas, a fim de que possam
sem cautelas render visitas às suas amadas no meio da madrugada. Sobre essa carta, o rei pede a opinião da senhorita de
Scudéry, uma velha dama muito querida na corte pelos seus “encantadores
versos e romances” (Hoffmann). Esse nome remete ao de uma aristocrata francesa, Magdaleine
de Scudéry, que viveu de fato entre 1607-1701, autora de romances de
galantaria que freqüentava as mais altas rodas da sociedade. Portanto, o título,
“A Senhorita de Scudéry”, e o subtítulo, “narrativa da época de Luís
XIV”, são ambos referências que assinalam a efetiva presença de outros
textos, nos quais o autor teria se baseado. Prossigo com o resumo do conto de Hoffmann. Ao ser
questionada pelo rei, a personagem responde: “Um amante que teme os ladrões
não é digno de amor” (frase retirada de um episódio da saga sobre a
cidade de Nürnberg, narrada por J. Ch. Wagenseil). Esse verso, proferido de
uma maneira espontânea e bem-humorada, embora inocente, parecia
indiretamente defender a causa dos criminosos, o que acabará envolvendo a
Mademoiselle de Scudéry no mistério das jóias. Devido a sua relação de
afeto com o principal suspeito, o aprendiz de joalheiro Brusson, e ao verso
incauto relacionado ao fato, a personagem passa a conduzir o desenvolvimento
das investigações. Charles Baudelaire afirmou a respeito de Hoffmann e do
norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), autor considerado um dos pais
do conto policial, que cada um foi singular no seu estilo. Nesse ensaio, eu
pretendo comparar seus textos para levantar as diferenças estruturais entre
eles, e, quem sabe, apurar coincidências. O ponto de partida deve
referir-se à extensão dos textos. Em “A Filosofia da Composição”,
Poe defendeu a obra mais curta: “a
brevidade deve estar na razão direta da intensidade do efeito pretendido, e
isto com uma condição, a de que certo grau de duração é exigido,
absolutamente, para a produção de qualquer efeito. O limite de uma
assentada” (Poe) intensificaria a concentração do leitor e o
efeito de totalidade. Ele admite que o texto em prosa, em alguns casos
excepcionais, poderia exceder esse padrão e até se beneficiar do fato de
ser mais longo. Embora, nesse ensaio, postule a brevidade principalmente
para a poesia, Poe também escreveu histórias de detetive curtas, e essa
brevidade contribuía para proporcionar a “unidade de impressão” (Poe)
que almejava. Uma outra explicação para a unidade é o foco narrativo que
acompanha exclusivamente a figura do detetive ou o personagem que
diretamente intervenha no esclarecimento do mistério. Sobre a prosa de Poe,
Baudelaire escreveu o seguinte: “Geralmente, Edgar Poe suprime os acessórios,
ou pelo menos não lhes dá senão um valor mínimo. Graças a esta
sobriedade cruel, a idéia geratriz torna-se mais visível e o tema se
recorta ardentemente sobre esses fundos nus.” (Baudelaire) Um século mais tarde, em seus apontamentos sobre a novela
policial, o autor de romances policiais Raymond Chandler também postulava
para o gênero um recorte centrado na resolução do enigma, o que
demandaria um frio clima mental sem aventuras violentas ou romances
apaixonados: “a novela policial não deve tratar de fazer tudo ao mesmo
tempo” (Chandler). Para ele, a atmosfera de terror e a tensão psicológica
de uma vítima atormentada não condiziam com o pensamento lógico, e
tampouco com a investigação racional. [1]
Entretanto, o próprio Chandler, que pesquisou e formulou leis que constituíam
paradigmas sínteses do gênero naquele momento, nos anos 30 do século XX,
ponderou numa carta a Frederick L. Allen, de 1948, que “os leitores
acreditavam não se interessar além da ação, e que, na realidade, mesmo não
sabendo, o que lhes interessava, e a mim, era a criação de emoção, através
do diálogo e da descrição” (Chandler). Isto é, o motivo de interesse
dos leitores transcenderia os fatos em torno do enigma, e as boas obras de
mistério deveriam possuir cor, fantasia e vigor, qualidades genéricas de
uma boa ficção. A literatura de Chandler concentra-se bastante na ação.
Raramente encontramos digressões como a seguinte: “Segui para oeste, na direção de Santa Mônica,
passando pelo fundo de Holloway e depois por diversos depósitos de
ferro-velho e alguns armazéns. A rua transformou-se numa larga avenida logo
depois de Doheney. Acelerei um pouco o carro, para senti-lo. Ele me ordenou
que diminuísse a velocidade. Virei para o norte, na direção de Sunset,
depois para oeste. Novamente as luzes das casas nas encostas começavam a se
acender. Música de rádio ressoava pelo crepúsculo.” (Chandler) Embora tenha elogiado e empregado breves devaneios poéticos
sobre a estrutura geográfica e social da Los Angeles que fixou em sua
literatura, sua poética - assim como acontecera com Poe a seu tempo,
sobretudo com a publicação do ensaio “Filosofia da Composição” - é
que forneceu a chave para a instituição de um gênero. A construção de um texto centrado na figura do detetive
é, portanto, característica que acabou por canonizar-se nas histórias do
gênero de autores contemporâneos, como os norte-americanos Tony
Hillermann, Lawrence Block, e o italiano Andrea Camilleri. Como tentarei
mostrar neste ensaio, o conto de Hoffmann, nas primeiras páginas,
estrutura-se sobre essa perspectiva das histórias de detetive, apesar de
ter sido escrito antes de Poe criar suas narrativas policiais. Além desses dois aspectos estruturais, a extensão e o
recorte do texto, eu gostaria de acrescentar uma reflexão sobre o caráter
racionalizador do detetive Dupin, criado por Poe. Antes de apresentar o
senhor C. August Dupin, o narrador de “Os Crimes da Rua Morgue” (1841)
anuncia algumas proposições sobre as faculdades de espírito chamadas analíticas.
Segundo ele, o analista exulta na sua função de destrinçar enredos: “Adora os enigmas, as adivinhas, os hieróglifos,
exibindo nas soluções de todos eles um poder de acuidade que, para o
vulgo, toma o aspecto de coisa sobrenatural. Seus resultados, alcançados
apenas pela própria alma e essência do método, têm, na verdade, ares de
intuição.” (Poe) Somos, no final do conto, obrigados a reconhecer tal
atributo em Dupin, e, após ler outros contos com esse mesmo protagonista,
como “O Mistério de Maria Roger” e “A Carta Roubada”, constatamos
que Dupin era, de fato, dotado de uma extraordinária capacidade para
desvendar mistérios. [2] Quero deter-me um pouco mais na comparação proposta com o
conto policial de Poe, e para tanto, chamo a atenção para as páginas
iniciais do conto de Hoffmann, nas quais ele compõe um enigma, ao cruzar
dois mistérios que sobressaltavam a Paris do século XVII: o primeiro
constituía a história de uma série de assassinatos por envenenamento,
relatos retirados da coleção de 20 volumes “Causes célèbres et
interessantes”, de François Gayot de Pitaval (1673-1743), e o segundo
mistério era a nova onda de roubos de jóias. Ao longo do texto, várias
passagens mostram a astuciosa senhorita de Scudéry no exercício do raciocínio: “No seu quarto, a senhorita de Scudéry andava lentamente
de um lado para o outro, como se estivesse refletindo sobre o que deveria
ser feito.”. “Imersa em profundas considerações, pensando e
repensando no que pelo amor da Virgem Maria e de todos os santos deveria
fazer para salvar o infeliz Brusson, ela estava, já tarde da noite, sentada
em seu quarto.”. “…a sorte de Brusson estava inteiramente nas mãos da
senhorita de Scudéry. Depois de muito refletir, ela concebeu um plano que
imediatamente pôs-se a executar.”. Num certo momento, essa personagem de Hoffmann, que
equivaleria ao detetive de Poe, cede sua função polarizadora para a figura
central, Cardillac, autor dos crimes. Os mistérios, por sua vez, tanto os londrinos solucionados
por Dupin, como os parisienses que instigavam Scudéry, encontravam-se de
alguma maneira engendrados a partir das massas, que constituíam empecilhos
à investigação detetivesca. Podemos nos lembrar, por exemplo, que na
Paris ficcional de 1680, criada por Hoffmann, o bairro sob vigilância era
poupado e noutro, “donde não se suspeitava mal algum, o assassino
espreitava suas vítimas”. Mesmo em seus primórdios, a literatura policial às vezes
renunciou a esse elemento. “A Carta Roubada”, de Poe, por exemplo,
representa para o detetive o desafio de encontrar a prova do crime, ao que
tudo indica uma carta de amor bastante comprometedora contra o suspeito, e a
ação transcorre numa casa mobiliada, mas sem os moradores. Ou ainda,
quando o escritor belga Georges Simenon (Lüttich/Bélgica, 1903-Lausanne/Suíça,
1989), um século mais tarde, apresenta a tragédia, desencadeada pelo affair
amoroso entre Tony Falcone e Andrée, ele constrói todo o processo
investigativo, circunscrevendo-se aos fatos que se sucederam dentro do
quarto azul. No entanto, a massa das grandes cidades, nas origens do gênero,
constituía um elemento relevante na expressão artística. Walter Benjamin
elegeu, entre as funções da massa, a circunstância das grandes aglomerações
como essencial para a fecundidade de uma nova literatura. Entre essas funções
impôs-se uma, que um relatório policial destacou na passagem para o século
XIX (1798): “é quase impossível manter os bons modos de vida numa população
densamente massificada, onde cada um, pode-se dizer, é desconhecido de
todos os outros e, portanto, não precisa hesitar ante outrem”. (Benjamin) Os grandes centros urbanos, Londres, Paris e Berlim,
serviam de asilo, que protegia o indivíduo associal dos seus perseguidores.
Essa seria, segundo Benjamin, a origem das histórias de detetive. Nos
tempos em que a mais cruel desconfiança abala os vínculos mais sagrados,
quando qualquer cidadão tem algo de conspirador, qualquer um também pode
passar à condição de detetive. E Benjamin debruça-se sobre as reflexões de Baudelaire a
respeito das passagens [3] e da flanerie
parisienses, a fim de pensar de que maneira as massas estimularam a
literatura policial. “O observador é um príncipe que desfruta do seu
status de incógnito” (Baudelaire), dizia Baudelaire, que não concebia a
possibilidade do tédio no meio urbano. Se o flaneur, por força do hábito de olhar e também
das circunstâncias, acaba assumindo uma função detetivesca, isso
inclusive viria a calhar, pois legitima seu ócio. O fato de sentir-se em
casa entre as fachadas das casas, assim como o cidadão entre quatro
paredes, o torna esperto, espontâneo e, por conseguinte, ele flagra as
coisas no ar; podendo, por essas razões, ser aproximado de um artista sutil
e rápido como o desenhista. É por isso, então, que a figura do flaneur,
conforme o raciocínio de Benjamin, prefigurava a do detetive: por trás da
aparente indolência, o observador sensível da grande cidade acompanha,
discreto e atento, o comportamento das pessoas. No conto “The man in the crowd”, Poe empregou alguns
dos elementos importantes para a configuração da história de detetive: o
perseguidor, a massa humana e o velho desconhecido que percorre sem cessar a
noite londrina, sempre permanecendo no centro da cidade. Baudelaire chamou o
desconhecido de flaneur, mas, com certeza, para Poe, o personagem
tinha motivação diferente daquela que movia a figura do flaneur, ou
seja, o velho não se detinha por sentir-se inseguro na sociedade. A pista
para essa interpretação encontra-se à epígrafe do conto: “ce grand
malheur, de ne pouvoir être seul. La Bruyère.” O narrador, finalmente,
conclui “Este velho é o tipo e o gênio do profundo crime. Ele se recusa
a estar só. Ele é o homem da multidão” (Poe). Ao referir-se ao conto de Poe, Benjamin analisou não
somente a sedução que o homem da multidão exerce no leitor, como também
as descrições de massa. Nesse ponto do trabalho, ele dirigiu sua atenção
às descrições urbanas que Hoffmann deixara registradas em “A Janela do
meu Primo”. Para ilustrar essa literatura tão freqüentemente mencionada
por Baudelaire e Benjamin, apresentarei um trecho do início do conto,
quando um jovem (narrador) visita o primo entrevado. Convidado a observar o
panorama que se descortina da janela que ficava bem em frente à praça do
mercado, o rapaz faz a seguinte descrição: “Eu me sentei em frente ao primo, num pequeno tamborete
que mal cabia no espaço perto da janela. De fato, a visão era singular e
surpreendente. A feira parecia uma única massa humana, bem concentrada, de
forma que se poderia pensar que uma maçã atirada do alto jamais chegaria
ao chão. Cores variadas brilhavam ao sol, como pequenas manchas, que me
davam a impressão de canteiros de tulipas se movimentando para lá e para cá,
ao sabor do vento. Preciso confessar que aquela visão era realmente esplêndida,
mas, depois de certo tempo, cansativa, podendo até causar, no caso de
pessoas mais susceptíveis, um pouco de vertigem, semelhante ao delírio não
desagradável que antecede o sonho. Eu procurava a distração, que a janela
do primo proporcionava, e expressei-lhe tudo isso, francamente.” “Mas meu primo pôs as mãos no alto da cabeça e nós
entabulamos a seguinte conversa:
Assim como Benjamin, Baudelaire também havia atinado para
a diferença dos postos, donde os observadores, londrino e berlinense, se
interagiam com o burburinho da grande cidade. De um lado, o cidadão alemão,
alojado em seu camarote, munido de binóculo, descreve uma série de
imagens, um álbum de traços coloridos. Em Londres, por sua vez, o narrador
mostra uma massa espessa, onde ninguém é perfeitamente nítido e ninguém
é totalmente impenetrável para o outro. Será Benjamin, porém, quem corroborará a lembrança de
Baudelaire concernente às observações do primo à janela, valorizando e
enfatizando a peculiar inclinação de Hoffmann como voyeur com dados
da biografia que Hitzig escrevera para o prefácio da primeira edição das
obras completas: “E. T. A. Hoffmann como a figura do flaneur:
Hoffmann nunca foi amigo da natureza selvagem. O homem, informações e
observações a respeito do homem, a mera visão do homem, isso era o que
prezava mais que tudo. Se fosse passear no verão, o que com tempo bom
acontecia diariamente, no final da tarde, então... não era fácil
encontrar um bar ou confeitaria onde ele não se insinuasse, para ver as
pessoas que lá estivessem.” (Benjamin) Benjamin parece estar se referindo ao flaneur do
conto “Ritter Gluck”, que descreve o bairro Tiergarten de Berlim
como um investigador à espreita do suspeito potencial, que pode ser
qualquer indivíduo daquele magote: “O outono tardio em Berlim ainda traz normalmente uns
belos dias. O sol surge agradável de trás das nuvens e logo a umidade se
evapora no ar tépido que sopra as ruas. Então, pode-se ver uma longa fila
variada - elegantes, cidadão com esposa e filhos queridos em roupa
domingueira, padres, judias, estagiários, prostitutas, professores,
faxineiras, dançarinos, oficiais e outros pelas tílias em direção ao Tiergarten. Logo todos os lugares estão ocupados no Klaus
e no Weber: o cheiro de café se espalha, os elegantes acendem seus
charutos, fala-se, discute-se sobre guerra e paz, sobre os sapatos da Madame
Bethmann, se eram cinzentos ou verdes da última vez, sobre uma obra de
Fichte, [5] o dinheiro difícil e assim
por diante, até que tudo começa a fluir numa ária de “Fanchon”, onde uma harpa desafinada, alguns violinos destoados, uma
flauta tocada a plenos pulmões e um fagote espasmódico torturam a si
mesmos e ao ouvinte. Ao lado da amurada que separa a área do Weber
da Heerstraße, há várias mesinhas redondas e cadeiras de jardim, de
onde se respira ar fresco, observa-se os passantes, longe do ruído
dissonante daquela orquestra amaldiçoada: sentei-me ali, abandonando-me ao
leve jogo da minha fantasia que me oferecia figuras amigáveis, com as quais
eu conversava sobre Ciência, Arte e tudo que deve ser mais caro ao homem. Cada vez mais colorida, movimentava-se a massa dos
transeuntes diante de mim.” (Hoffmann) Apesar da atmosfera de grande cidade e da presença do
elemento flaneur, à espreita, observando o movimento dos passantes,
nós sabemos que o conto se desenvolve privilegiando a perspectiva de um
artista, numa homenagem do autor Hoffmann ao compositor Gluck. É noutro texto hoffmanniano, contudo, que se delineou
claramente o jogo de forças entre o criminoso incógnito na multidão e a
rede de controle da sociedade. O motivo sobre o qual Benjamin dissertou, da
massa como refúgio do suspeito, eu acredito perceber em seu arquétipo
inaugural na passagem de Scudéry sobre a Ponte de Pontneuf de Paris: “a massa
embasbacada cercou a carruagem da condessa sobre a Ponte de Pontneuf
quase impedindo a sua passagem. De súbito, ela ouviu um impropério e uma
praga e notou que um homem abria caminho a socos e cotoveladas através da
massa espessa. E, quando ele se aproximou, os olhos dela encontraram o olhar
penetrante de um rosto jovem desgostoso e de uma palidez mortal. Sem se
esquivar, o moço continuou olhando-a, enquanto com os cotovelos e punhos
tentava seguir adiante, até alcançar a portinhola da carruagem, que ele
abriu com violência, e jogou um bilhete no colo da senhorita de Scudéry.
Recebendo e distribuindo socos, ele sumiu da mesma forma que surgira.” Essa é uma cena plena de vitalidade, que representa o
suspeito Brusson, foragido, se movimentando camuflado em meio à multidão
da cidade. A característica do trecho, aliada às que estudamos
anteriormente, como o recorte centrado na trama misteriosa e a racionalização
da personagem (que tenta decifrar o enigma das jóias), tornam o conto sui
generis à época em que foi escrito. Assim, com este conto, nascia a
configuração inicial do gênero literário que recorre, a partir daí, com
bastante freqüência, à feição inquietante dos grandes centros (não
excluo, como antes afirmei, que muitas dessas histórias serão configuradas
em ambientes ermos). Portanto, é com Hoffmann que se funda uma tradição
de conto policial que, numa leitura retrospectiva, prosseguiu com Poe,
Stevenson (Dr. Jeckyll e Mr. Hyde) e outros. No entanto, o conto frustra todas as expectativas de inserção
num gênero único e definido, conforme mostrarei a partir daqui. No decorrer do conto, a personagem senhorita de Scudéry
passou a exercer uma outra função, pois, na medida em que todas as figuras
envolvidas no mistério sentem-se à vontade e a procuram para fazer confidências,
ela, curiosamente, assume características de “psicanalista”. O que a
levava, no entanto, a desempenhar o papel de detetive nas páginas iniciais
do conto era a sedução pelo enigma, eram os fatos de horror e suspense que
grassavam pela cidade. Hoffmann criou o clima de crueldade, a partir de alguns
elementos peculiares à Literatura Gótica, bastante bem-sucedida na
Inglaterra nos séculos XVIII e XIX, que se voltava para temas como a luta
entre o bem e o mal, o lado claro e o escuro da alma humana, assim como a
sensualidade e o desenvolvimento espiritual. Alguns romances que se
estabeleceram como referências clássicas desse estilo são: O Castelo
de Otranto (1764), de H. Walpole, O
Monge, de Matthew G. Lewis (1795), Os Segredos de Udolfo (1794) e
A Italiana (1797), de Ann Radcliffe, Fankenstein (1818), de B.
Stoker. Efeitos de imaginação e emoção, perpassados por excesso
e transgressão, transcendem o racional nessas obras, pois a ambivalência e
a incerteza toldam o sentido claro. O gótico mistura mitos, lendas e folclores, conjura mundos
mágicos e extravagantes aventuras e terror. Embora comumente empregados
como sinônimos, os termos terror e horror podem ser distinguidos para se
compreender diferentes projeções da ambivalência emocional gótica
(Botting). Enquanto o terror trata da expansão imaginativa, o horror
descreve o movimento de contração e recolhimento. Como a dilatação da
pupila em momentos de excitação e medo, o terror marca a emoção exaltada
e o horror distingue a contração, quando da iminência do perigo. O
movimento oscilante em direção a ambos os pólos caracteriza o gênero. “O exagero e a ornamentação abundante do gótico era
parte de uma tendência que se afastava das regras estéticas neoclássicas
que insistiam em clareza e simetria e numa variedade cingida em unidade de
proposta e estilo. O gótico significava uma vertente rumo à estética
baseada em sentimentos e emoções e associada fundamentalmente ao
sublime.” (Botting) O sublime constituía o grande debate artístico entre
escritores e teóricos, no século XVIII, sobretudo no rastro do ensaio de
Edmund Burke, Investigação sobre as origens das nossas idéias sobre o
belo e o sublime. O “belo” apresenta contornos proporcionais, que
podem ser apreendidos pelos olhos do observador e, em contraste, o
“sublime” refere-se à grandeza e à magnificiência. (Lembremo-nos que
anos mais tarde, Victor Hugo causa espécie ao postular o emprego do sublime
e do grotesco.) No decorrer do século XVIII, os textos góticos eram
censurados por promover o vício e a violência, avivar ambições, emoções
excessivas e desejos sexuais fora das prescrições legais ou de reputação
familiar. O estilo gótico e o conto “A Senhorita de Scudéry”
apresentam semelhanças que podem ser percebidas nos efeitos proporcionados
pela passagem secreta, em certas alocuções referentes a Cardillac como a
um monstro e em detalhes sinistros, como o gabinete subterrâneo com
despojos. Quanto aos acontecimentos misteriosos aparentemente sobrenaturais
relacionados com o criminoso, eles não são aprofundados, tampouco se
tornam redundantes, mas tendem finalmente para o gradativo esclarecimento. A presença de elementos góticos na literatura de Hoffmann
é evidente, sobretudo no caso do romance Os Elixires do Diabo.
Embora Hoffmann empregue neste conto alguns desses recursos, seu texto
possui, contudo, certa ambigüidade psicológica e filosófica, que lhe
permite trazer o horror para o centro da vida urbana independente dos
requisitos empregados nos romances ingleses mencionados. O suspense em Hoffmann quase sempre, e neste caso
particularmente, encontra-se associado à noite. Creio não ter sido aleatória
a escolha do autor pelo século XVII, que o fascinava mais, em contraposição
ao século XVIII, o Século das Luzes, do Iluminismo. Para ilustrar a criação de um certo ambiente que infunde
horror na noite, cenário característico do conto policial de Hoffmann,
apresento um trecho, no qual o ourives/criminoso Cardillac prepara-se para
cometer mais um dos seus infames atos criminosos. “a luz logo sumiu. Colei-me à estátua, no fundo do
nicho, mas eu recuei, horrorizado, ao sentir uma pressão contrária, como
se a estátua tivesse adquirido vida. No clarão enevoado da noite, vi então
que o pedestal girava lentamente e que por trás da imagem, uma figura
sombria saía e avançava com cautela para a rua. Involuntariamente, como
que impelido por uma força interior, esgueirei-me atrás daquele homem. Ao
chegar exatamente em frente à imagem de Nossa Senhora, ele perscrutou a
rua, e quando o brilho da luz clara que sempre queima ante essa Madona
incidiu-lhe sobre o rosto, eu o reconheci: era Cardillac! Um medo indescritível, um arrepio estranho me percorreu.
Como que cativo de um encantamento, precisei ir atrás do fantasmagórico
sonâmbulo. Pois era como eu julgava meu mestre, apesar de não estarmos em
tempo de lua cheia, cuja aparição perturba os adormecidos susceptíveis a
esse mal. Enfim Cardillac desapareceu nas sombras.” A Paris de 1680 permite as aproximações metafóricas da
noite com a alma humana tenebrosa - alma repleta de sentimentos de insegurança
e medo, causados por remorso e auto-desconhecimento -, porquanto a cidade
era literalmente escura naquela época. Na descrição de Hoffmann as
imagens são silhuetas, sombras, perfis, com exceção da fraca luz
proveniente de uma única vela, que um devoto sempre mantinha acesa em
frente à imagem de Nossa Senhora. A iluminação a gás passou a ser
instalada concomitante à construção das passagens parisienses, sendo que
sua propagação aumentou consideravelmente nas décadas de 1850 a 1870,
durante o governo francês de Napoleão III. Os lampiões a gás, no seu tempo, constituíram um tema
literário à parte. Alguns escritores registraram o suave entardecer urbano
e o ritmo itinerante da romântica figura do acendedor de lampiões, de um
lado para o outro, alumiando. Uma bela ilustração desse movimento
encontra-se no conto de Poe: “À medida que a noite avançava, avançava em mim o
interesse pela cena; pois não só ia se alterando materialmente o caráter
geral da multidão (suas feições mais amenas iam sumindo com a retirada
gradativa da porção mais disciplinada das pessoas e as mais grosseiras
surgindo em mais acentuado relevo, à medida que a hora adiantada trazia
toda espécie de infâmia para fora da toca), como também os reflexos dos
lampiões de gás, antes enfraquecidos em sua disputa com o dia esvanecente,
tinham agora enfim alcançado a supremacia e derramavam sobre todas as
coisas uma luminosidade ofuscante e cambiante. Tudo era esplêndido, ainda
que negro – como o ébano a que foi comparado o estilo de Tertuliano”. Os efeitos fantásticos da luz me obrigavam a um exame
individual de cada rosto; e ainda que a rapidez com que o mundo de luz
borboleteava diante da janela me impedisse de lançar mais do que um olhar
em cada semblante, mesmo assim parecia que, no peculiar estado de espírito
em que me encontrava, eu muitas vezes conseguia ler, até neste breve
intervalo de um olhar, a história de longos anos.” (Poe) Mais tarde, a luz elétrica substituiu os lampiões. A
cidade tornou-se mais segura: mesmo à noite as pessoas transitavam tranqüilamente
pelas ruas. Nesse momento, seria de se supor que a iluminação eliminaria
definitivamente as analogias da noite com a feição humana sombria e
sinistra. Mas a metáfora manteve-se nas obras do “Movimento
expressionista”, bem como do filme noir da década de 40, do século
XX. No caso de Hoffmann, a presença de outros textos e
escritores em “Mademoiselle de Scudéry”, como por exemplo, o uso do
episódio criminoso veneziano, dos nomes retirados da literatura de
Voltaire, ou dos casos jurídicos verídicos compilados por Pitaval, parecem
constituir potenciais recursos para instituir um gênero pioneiro, associado
à noite. Isso inclui uma crítica em relação à justiça, pois a
personagem do conto reserva palavras cáusticas à corte institucionalizada
e não acredita que haja verdade e justiça através da lei formal,
representada pela câmara ardente. Na medida em que age à margem da
instituição, até enfrentando-a, a senhorita de Scudéry impõe a
legalidade ditada pelos valores de sua própria consciência. Mais uma vez, é preciso lembrar o contexto biográfico do
escritor Hoffmann, que, com este conto, denunciou o regime de coação e
reservou restrições justamente ao Direito, sua especialidade. Através da
escritura, subliminarmente, ele desmascarou a relação do Estado com a política
e a moral. [6] Essa crítica também é
notívaga, na medida em que revela a porção soturna e amendrontadora do
destino do homem inocente e impotente entregue à mercê de juízes
despreparados para a assunção de tamanha responsabilidade. “Seja
humano!”, implorou a senhorita de Scudéry ao juiz la Regnie. Contudo, quando o “dúbio palor” que precede a alvorada
descora o oriente e a luz da manhã vem aos poucos dissipar a noite, o dia
transforma o tom literário. O sinistro Cardillac passa a ser uma figura
apenas grotesca. Hoffmann, então, o descreve da seguinte maneira: “Mais baixo que alto, mas de ombros largos e compleição
forte e musculosa, ainda conservava, nos seus cinqüenta anos, a força e o
vigor de um jovem. Testemunhavam essa força incomum os cabelos espessos,
ruivos e crespos, o semblante fulgente e as feições salientes. Se
Cardillac não fosse conhecido em toda Paris como o cidadão mais justo e idôneo,
desinteressado, aberto, sincero e sempre prestimoso, o estranho olhar dos
seus pequenos e fundos olhos, de um verde faiscante, bastaria para levantar
suspeitas de traição e maldade.”
Mas as atitudes de Cardillac eram suficientemente
esquisitas e extravagantes para denunciá-lo e para levar o investigador a
classificá-lo no rol dos indivíduos suspeitos. Quando os clientes vinham
buscar as jóias encomendadas, ele recusava-se a entregá-las, resistia,
como um artista em dúvida sobre o valor da obra, tema blanchotiano por
excelência. Finalmente, cedia aos rogos do cliente, mas o enxotava com violência
e “ficava rindo como o diabo”, enquanto o olhava retirar-se mancando e
sangrando. À luz do dia, Cardillac mantém resquícios do seu caráter
sinistro, mas deixa transparecer a ambigüidade, a irônica versão do
espectro maligno. Os gestos estabanados dessacralizam a sobriedade noturna e
escancaram a ambigüidade: “caiu novamente sobre o joelho, beijou a saia, as mãos
da senhorita de Scudéry, gemeu, suspirou, chorou, soluçou, ergueu-se,
correu em ziguezague, esbarrando nas poltronas e mesas, de forma que a
porcelana e os vidros retiniram, e saiu embalado como um louco.” Logo após o episódio citado acima, um trio de
personagens, composto pelo rei, Madame Maintenon e a senhorita de Scudéry,
passa a gracejar sobre o circunspeto doidivanas, sugerindo um noivado entre
o ourives e a velha aristocrata, que no conto tem 73 anos. Na ocasião em
que se divertia com o esprit da poesia da senhorita de Scudéry, Luís
XIV afirmou que aquela era sem dúvida a poesia mais cômica que já havia
sido escrita, suplantando inclusive a de Boileau. A ironia e a menção do
nome de Boileau surgem associados à luz do dia, introduzindo uma transformação
de gênero, que passa a caracterizar-se pelo humor e pelo grotesco: não
na acepção de Wolfgang Kayser, para o qual o grotesco tinha uma conotação
bastante soturna, mas, segundo Bakhtin, num sentido carnavalesco de troca de
papéis. [7] Temos aqui mais uma vez a sobreposição de textos, no
caso, de Hoffmann, Scudéry, Nicolas Boileau Despréaux (1636-1711),
brilhante satírico, sobreposição de textos que evoca a delicada técnica
dos palimpsestos, forma de reutilização dos valiosos materiais de
escritura, comum, sobretudo, entre os monges dos séculos VII a IX, período
em que o pergaminho era ainda bastante raro e caro. A anedota criada pela própria dama pronuncia o que a
senhorita de Scudéry e Cardillac têm de mais cômico, ou seja, uma velha
aristocrata preparando amorosamente o enxoval para as núpcias com um
desajeitado artesão, bem mais jovem que ela. Essa distorção, que é como
uma transformação caricatural das personagens, evoca o emprego das máscaras
na commedia dell’arte italiana. Tentarei explicar esse paralelo. É difícil estabelecer a origem das máscaras. Alguns
pesquisadores afirmam que elas foram inventadas para disfarçar a identidade
dos atores do antigo teatro grego e romano. Mais recentemente, contudo, os
estudos têm sido unânimes em admitir a possibilidade de que elas tenham
surgido bem antes do teatro, como um signo que remete à aspiração humana
de assimilar o tranqüilo semblante divino ou simplesmente um brinquedo de
assustar os companheiros. O mais certo, porém, é que o emprego da máscara
no teatro instituiu-se como um recurso que não se prestava meramente a
dissimular as faces, mas sim, permitir a expressão “autêntica” do próprio
caráter. [8] Com ou sem as máscaras no sentido literal, o teatro
popular difundiu formas caricaturais (de certa maneira, equivalentes às máscaras)
de personalidades humanas, como Arlequim, Escaramouche, Colombina etc.,
formas que parecem surgir das figuras convencionais, mas exacerbam,
focalizam e se aproximam mais de certas nuanças do caráter. Originalmente,
cada uma dessas figuras representava uma região ou cidade da Itália e era
motivo de orgulho para seus conterrâneos. As ilustrações de Jean Antoine Watteau (França,
1684-1721) representando as “Fêtes galantes” - imagens da
sociedade parisiense da época - nos proporcionam uma noção das apresentações
teatrais nas cortes e fazem reverberar em nossa imaginação o som das
guitarras, os gritos, as vaias e as gargalhadas. Por sua vez, as cenas
teatrais das gravuras de cobre confeccionados por Callot, ao tempo que
provocam riso, suscitam em quem se detém a observá-las reminiscências
confusas e assustadoras, como Hoffmann expressou em sua apologia ao
ilustrador. A commedia dell’arte italiana foi representada no
país de origem do século XVI até final do século XVIII, aproximadamente,
e, mais tarde, na França, onde marcou enormemente o teatro de Moliére,
(Paris, 1622-1673), autor de “O Doente Imaginário”, “Tartufo” e
“O Misantropo”. Além dessas peças, que conhecemos de encenações
brasileiras, as imagens da commedia dell’arte chegam até nós
através de espetáculos circenses, das comédias e de algumas “estórias
da carochinha”, sem falar das contribuições indiretas que a grande
escola do teatro itinerante exerceu dentro da história da dramaturgia. Hoffmann recorreu inúmeras vezes a essas figuras,
principalmente às personagens das “fiabe” [9]
do Conde Carlo Gozzi, ou, como se percebe nas passagens grotescas e cômicas
da narrativa a respeito de Cardillac, que, sem citar, convocam
explicitamente outro texto. No ensaio “L'essence du rire”, Charles Baudelaire fez
justamente o estudo da distorção satírica, da caricatura, "esse
elemento inapreensível do belo nas obras destinadas a apresentar ao homem
sua própria feiúra moral e psíquica". Com a queda de Adão, ou seja,
com a expulsão do Paraíso, teriam surgido o riso e as lágrimas, explica
Baudelaire. O homem debilitado não dispõe de forças para contê-los. No
entanto, as lágrimas purificam as dores e o riso abranda, às vezes, o coração:
apesar dos males, a queda proporciona um resgate. Satânico e profundamente humano, o riso seria a conseqüência
de um sentimento de superioridade, mas, ao mesmo tempo, de miséria e vileza
em relação ao Verdadeiro e ao Justo absolutos, a conclusão necessária da
natureza dupla e contraditória do homem; a explosão perpétua da sua cólera
e do seu sofrimento. Do ponto de vista artístico, Baudelaire distingue o
riso causado pelo grotesco, “comique absolu”, que ele considera “criação”
verdadeira, do cômico, “comique significative”, para ele, “imitação
criativa”. Esse último teria uma linguagem mais clara, mais fácil de ser
compreendida e analisada pelo vulgar. Ambos se relacionam como numa antítese.
No “comique absolu”, Baudelaire percebe algo de profundo, axiomático,
primitivo, que mais se aproxima da alegria absoluta que do riso das comédias
de costumes. Ademais, o “comique absolu” se assemelharia bastante à
natureza, apresentando-se sob uma espécie una,
fundida pela intuição. O poeta francês elegeu Hoffmann mestre do “comique
absolu” e estudou profundamente esse aspecto, sobretudo a partir do conto
“A Noiva do Rei”. No mesmo ensaio, Baudelaire, comparou o autor alemão
a um médico de loucos, que se divertia, revestindo sua ciência de formas
poéticas, como um sábio que falasse por parábolas.
A marca do gênero, contudo, se desmarca e, num “clin
d’oeil” (relance), outras formas - o cômico, o gótico -
destacam-se, pronunciam-se. Essa diversidade prolífera estabelece,
portanto, um enigma do gênero. Para refletir essa proliferação encontrei
subsídios em Jacques Derrida, autor que pleno de ironia, arroja-se contra
qualquer pretensão de engajamento respeitoso de fidelidade a uma lei do gênero.
Os códigos explícitos de pertença, segundo ele, podem contradizer-se em
face de outras formas que se sobrepõem. A investida pode sobrevir ao
encontro, por exemplo, de uma menção explícita (conto, romance, teatro)
que se torna ambígua ou inadequada através de uma marca adventícia. [10] Bem antes do que se convencionou designar
“modernidade”, os corpos estéticos, poéticos ou literários
tematizavam abundantemente os potenciais jogos com a pertença a um ou mais
gênero, bem como com os traços que marcam essa pertença. Eis, então, o
paradoxo. O traço suplementar e distintivo, a re-marca da nova pertença,
mesmo equivalendo a um “clin d’oeil”, a um relance, permite ver
o dia, descortina uma nova identidade de gênero. A partir disso, Derrida passa a questionar se a mistura (mélange)
de gêneros não seria inevitável, se a própria lei não contém alojado
em si um princípio de contaminação, ou mesmo “se
a condição de possibilidade da lei for a priori uma contra-lei, um axioma
de impossibilidade que enlouquecerá o sentido, a ordem e a razão?”
(Derrida) Talvez fosse pertinente analisar a questão estrutural das
metamorfoses formais de “A Senhorita de Scudéry”, apropriando-me da hipótese
formulada por esse autor francês nascido na Argélia: “um texto participa de um ou mais gêneros; não há texto sem gênero:
sempre há o gênero ou os gêneros; mas essa participação não é jamais
pertença.” (Derrida) Assim, eu diria que a estrutura do conto quanto à pertença
a gênero apresenta-se, portanto, como um jogo anagramático precioso, que
precisa ser mantido como impasse, sem uma decisão entre um ou outro. Apesar
de implícita a fascinação pelo mistério, pelo mundo noturno do crime,
num certo momento aproximando-se inclusive do gênero gótico, a metamorfose
de gênero rumo ao humor insurge-se, parecendo subverter o sentido
estabelecido inicialmente. O texto a princípio recusa, mas no final, embora
mantenha a ambigüidade, o conto reconfigura-se novamente como narrativa do
“gênero policial”, avant la
lettre, pois esse gênero ainda não existia enquanto tal. NOTAS 1. Chandler pleiteava para a novela policial: 2.
Penso que “La muerte y la brújula”, escrito em 1951 por Jorge Luis
Borges, possa ser lido como uma homenagem irônica a Dupin. No conto, o
detetive de Poe é citado pelo detetive borgeano Erik Lönnrot, um
persistente estudioso que tentou investigar uma série de crimes, criando
uma mistificação erudita em torno da seita de Hasidim, seita essa que
recusa fazer a tradução do nome de Deus. O detetive, nesse conto, acaba
“criando” o crime que investiga, e, no final, a vítima é ele próprio.
Borges inverteu todas as regras do gênero, desconstruindo a forma canônica
de Poe. 3. Segundo um guia parisiense, de 1852: passagens são
“caminhos cobertos por vidros e calçados de mármore, que entremeiam
massas de casas, cujos proprietários combinaram entre si essas especulações.”.
(Benjamin, 1991: volume I-2, p. 538). 4. Daniel Chodowiecki (Polônia, 1726-Alemanha,1801) foi um
ilustrador e pintor, que retratou a vida cotidiana da sua época em
almanaques, calendários e obras literárias. 5. A partir de fala-se, na tradução, o original
contém o seguinte: “Man spricht, man streitet über Krieg und Frieden, über
die Schuhe der Mad. Bethmannn, ob sie neulich grau oder grün waren, über
den geschlossenen Handelsstaat (grifo meu) und böse Groschen usw.” É
bastante provável que Hoffmann esteja se referindo à obra “Der
geschlossene Handelsstaat” (O Estado Mercantil fechado, ou quem sabe
acordado), de 1800, na qual o filósofo Johann Gottlieb Fichte (Alemanha:
1762-1814) apresenta uma concepção própria de estado socialista. 6. Ao ser nomeado membro da Comissão de Investigação de
Vínculos de Alta Traição, em 1819, Hoffmann logo entrou em atrito com o
chefe de polícia von Kamptz. Os escândalos nos presídios, as prisões
arbitrárias e ilegais revoltaram a consciência de Hoffmann, que não
conseguia ser conivente com a situação. Numa correspondência ao amigo
Hippel, em junho de 1820, ele se manifestou sobre seu dilema profissional:
“uma espessa teia de desrespeito às leis, atrevimento frente à ética e
animosidade pessoal.” Hoffmann protestou em nome da justiça e da
legalidade, recusou deixar-se corromper e, finalmente, entregou um pedido de
demissão do cargo de membro da Comissão. Retirei a informação da
biografia escrita por Wittkop-Ménardeau. A veia satírica de Hoffmann não resistiu à tentação de
retratar o chefe de polícia como a figura pedante e inescrupulosa do conto
“Mestre Pulga”, o conselheiro Knarrpanti, “Do qual só podia dizer que
constantemente lhe faltava dinheiro e que, de todas as instituições
estatais que conhecera através da história, nenhuma ele apreciava mais que
a Inquisição Secreta, que tivera lugar outrora, em Veneza.” (Hoffmann,
1967: volume 4, p. 69). Essa ousadia custou-lhe no final de sua vida um
processo fatídico. 7.
Kayser tentou esquematizar o grotesco nas artes plásticas, em cujo
desenvolvimento distinguiu um bifurcamento em duas categorias. A primeira,
que ele denominou "grotesco fantástico", provém dos padrões traçados
por Hieronymus Bosch (1450-1516) e Peter Breughel (ou Brueghel: 1564-1638),
"Brueghel dos Infernos". Essa categoria seria representada no século
XIX, principalmente, pelos franceses Grandville, Bresdin e Redon, cujo
universo onírico expressa serpentes e morcegos de proporções distorcidas,
esqueletos, monstros ameaçadores e animais fantásticos. A segunda
categoria, que Kayser chamou de "grotesco-cômica", caracteriza-se
pela distorção satírica, caricaturesca e cínica, e expressa-se em
Hogarth, Callot e Goya. Hoffmann vincula-se, geralmente, a esse segundo
segmento, como espelha toda sua obra e se depreende do seu elogio à arte de
Callot. Mais especificamente, no entanto, a transformação de Cardillac
assemelha-se, nesse caso, às metamorfoses carnavalescas estudadas por
Bakhtin, segundo as quais, por exemplo, o bufão torna-se rei (momo) por um
breve período. 8. Borges dizia que as máscaras sempre lhe infundiam medo: “Senti na infância que se alguém usava máscara estava
ocultando alguma coisa horrível. Às vezes (estes são meus pesadelos mais
terríveis) eu me vejo refletido em um espelho, mas me vejo refletido com
uma máscara. Tenho medo de arrancar a máscara porque tenho medo de ver meu
verdadeiro rosto, que imagino atroz. Aí pode estar a lepra, ou algo mais
terrível que qualquer imaginação minha.” (Borges, 1999: volume III, p. 248) 9. Fiabe é o nome atribuído à forma literária
dessas peças (esquema, principalmente para os atores sérios, pois os cômicos
eram improvisados), em italiano: tipo de narração alegórica (em português:
fábula). 10. Morfologia vegetal: diz-se de qualquer órgão que
nasce fora do lugar habitual: raiz adventícia. Na História e na Filosofia,
segundo o cartesiano Descartes, a idéia adventícia seria aquela que provém
de alguma coisa exterior ao espírito através dos sentidos. |
| Maria Aparecida Barbosa (Brasil, 1961). Jornalista e tradutora, inédita em livro. Atua como professora e tradutora do alemão. Contato: mabarbos@cce.ufsc.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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