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revista
de cultura # 45 |
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O diálogo hipotético de Murilo Mendes Prisca Agustoni
O segundo volume dessa coleção chamada “Cidadãos da
poesia” também está dedicado a um autor brasileiro, o juizforano
Murilo Mendes, que morou por dezoito anos em Roma, lecionando Literatura
Brasileira na Universidade da capital italiana, onde escreveu, em 1968, os
poemas que compõem o livro Ipotesi (prefácio de Luciana Stegagno
Picchio, introdução de Nullo Minissi, posfácio de Mia Lecomte. Zone
Editrice. Roma, 2004). Esta obra ganhou uma primeira edição (póstuma)
na Itália em 1977, pela Editora Guanda, sob os cuidados da crítica
Luciana Stegagno Picchio. Por isso, a recente reedição do livro, pela
Zone Editrice, é um acontecimento significativo, consolidando a valorização
desse autor no país que o acolheu em idade madura. Trata-se da confirmação
da reconhecida marca deixada por Murilo Mendes não só no âmbito da
literatura brasileira do século XX, mas agora também em escalas maiores
que são a cultura e a sociedade de um século XX atravessado por migrações,
exílios, cidades multiétnicas e plurilingüísticas. Dentro desse cenário de culturas em transição, de poéticas
deslocadas do próprio ponto de origem, muitas vezes deslocadas da fonte
primária de criação que é a língua materna, surgem vozes poéticas
que são, ao mesmo tempo, “contaminadas pelo” e “agentes
contaminantes do” cânone literário estabelecido, como é o caso da
literatura italiana, caracterizada por uma excelente produção poética
dialetal e, ao mesmo tempo, enriquecida (e ameaçada) por uma crescente
produção italófona de autores da “migração”. Como indica a
editora Mia Lecomte no posfácio ao livro, é nesse contexto que se
inscreve a importância dessa nova edição italiana da obra de Murilo
Mendes, um autor que reivindicou a “cidadania poética”, isto é, um
lugar poético, portanto abstrato, onde pudessem desembocar todos aqueles
que estivessem vivendo em estado de errância, seja ela histórica,
existencial ou lingüística.
No belo prefácio à redição de Ipotesi, Luciana
Stegagno Picchio escreve sobre a obra de Murilo com a lucidez de quem
reconhece na sua poesia concisa e precisa, o leve esboçar-se do sorriso
interior de astúcia e desconfiança, reconhecimento que é marca indelével
de uma proximidade afetiva que, ao invés de prejudicar o minucioso escrutínio
crítico, pôde enriquecê-lo ao longo dos anos. Ela comenta que Murilo
Mendes sempre foi muito sensível à paisagem humana e escolhia os amigos
por uma espécie de afinidade que perpassava a dimensão da história. No
entanto, ela ressalta que o poeta brasileiro estava atravessado por angústias
plurais, entre elas, a angústia histórica de viver longe de um Brasil
que, aos seus olhos, se engrandecia miticamente, inclusive naquilo que lhe
parecia errado. E essa transformação quase mítica da origem é um dos
elementos mais peculiares da experiência do exílio, embora no caso de
Murilo Mendes não se trate propriamente de um exílio político, e sim de
um afastamento voluntário que resultou num efetivo “exílio lingüístico”.
Como escreve Mia Lecomte no posfácio, “a migração,
voluntária ou necessária, comporta um longo percurso atravessando todos
os sentidos de uma língua, e em alguns casos expatriar-se é exatamente o
meio pelo qual visitar todos os aspectos da língua e da própria existência”.
Essa indagação lingüística e existencial perpassa o livro Ipotesi,
já que Murilo Mendes vivia suas noites romanas com o medo
de não ter o domínio total sobre a língua italiana, de acordo com as
lembranças de Luciana Stegagno Picchio, que disse ter se tornado,
naquelas tardes de Roma da década de 60, uma habituée das ligações
telefônicas do poeta e amigo brasileiro, que queria esclarecer alguma
duvida terrível sobre as duplas italianas ou seus acentos. Através de uma cartografia sentimental, mapeada por
cidades e referências a artistas europeus, Murilo Mendes dá pistas,
nesse livro, para que possamos ver o Murilo que se vestiu da língua
italiana para expressar a angústia existencial perante um mundo que ele não
conseguia abarcar totalmente com as palavras – é bom lembrar que Ipotesi
foi escrito em 1968, quando a Europa estava atravessada pela agitação
estudantil, enquanto a ditadura no Brasil se tornava mais obscura e
sangrenta. Através da sua poesia, é possível reconhecer alguns dos
nomes que fizeram a história da literatura italiana do século XX. No
entanto, como bem escreve Nullo Minissi na introdução ao livro, seria
arriscado comparar a obra de Murilo Mendes com a do amigo, tradutor e
poeta Giuseppe Ungaretti, embora os dois tenham vivido um percurso
parecido, já que o próprio Ungaretti morou entre 1936 e 1942 no Brasil,
lecionando Literatura Italiana na Universidade de São Paulo.
No entanto, muito mais do que isso, a angústia que
atravessava o poeta em Roma tinha uma origem ontológica, pois levantava
questões fundamentais sobre a natureza da vida e, principalmente, da
morte: “a morte será oval ou quadrada?”, pergunta-se Murilo no poema
Ipotesi. E a resposta é inquietante, se vem da caneta do poeta que
“queria ser dono do sistema” que é a língua, conforme explica
Stegagno Picchio no Prefácio : “A morte oval ou quadrada / nunca será
escrita”(poema Ipotesi). Embora Murilo Mendes não tenha escrito esse
livro pensando num diálogo com os seus contemporâneos italianos, já que
ele sempre dialogou com a Literatura Brasileira, mesmo desde o “exílio
romano”, é possível estabelecer alguns paralelismos “geracionais”
entre ele e a poética de Eugenio Montale, autor com o qual nunca teve uma
proximidade poética ou afetiva marcante. No entanto, a poética
montaliana se aproxima da visão de mundo de Murilo Mendes no que diz
respeito è concepção de uma poesia que – como recita Montale, na
antologia publicada no Brasil em 1997 pela Editora Record, com traduções
de Geraldo H. Cavalcante – quer captar “o falcão que mergulha / como
um raio na canícula”, “a terra onde não anoitece” ou, ainda, “a
pequena torção de uma alavanca que paralisa a máquina universal”, ou
voltando a Murilo, “o mal que nunca fizemos [e que] nos espeta às
vezes/ mais do que um remorso obtuso”(poema Epigramma), ou seja, o
mal-estar do ser humano vivendo numa sociedade traumatizada: a Europa do pós-guerra
e o Brasil da ditadura militar. Essa semelhança entre as duas poéticas não é estilística,
nem sequer temática, mas se define pela maneira como os dois colocam o eu
poético diante das inquietações mais profundas do ser humano, Montale
descortinando um mundo sem ilusão, e Murilo tentando reinventar um mundo
no qual, afirma poeticamente em Proposta, “instalamos / em cada rua /
relógios coloridos/ com ponteiros que indiquem / horas diferentes. // O
homem será/ retirado do tempo/ cada um escolherá sua hora pessoal
/ livre invenção/ acelerando a contagem às avessas da história/ e a
desagregação do sistema”. É exatamente a procura dessa “desagregação
do sistema” que põe Montale e Murilo na mesma trilha poética.
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Prisca Agustoni (Suíça, 1975). Poeta, ensaísta e tradutora. Autora de livros como Sorelle di fieno (2002) e Días emigrantes (2004). Contato: priscaagustoni@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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