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revista
de cultura # 45 |
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O silêncio da África em Fernando Pessoa Lucila Nogueira
A Arnaldo Saraiva e Gilda Santos
Comenta-se que esses anos passados na África do Sul são
curiosamente o “buraco negro” dos biógrafos, porque à parte as informações
de escolaridade obtidas nas instituições onde estudou, nada mais se
conseguiu averiguar: sobre o assunto, o poeta biografado teria literalmente
silenciado. Também há uma quase queixa da ingratidão para com a cidade de
Durban, na província de Natal, a qual, apesar de acolher Pessoa durante
quase dez anos, não teve seu nome mencionado em sua poesia hoje
universalmente conhecida. Verificando-se os textos que aparentemente tratariam do
tema, essa leitura consegue trazer-nos uma sensação de desconforto, face a
um colonialismo provinciano bastante desagradável. Fala-se todo o tempo no
“aluno” brilhante, que conseguia dominar a língua e a literatura
inglesa com perfeição. Comenta-se com orgulho o prêmio da rainha Vitória
que obteve com uma redação sobre superstições e a sua excelente
classificação na Universidade do Cabo,que não lhe garantiu, contudo, a
bolsa de estudos na Inglaterra, perdida injustamente para o colega que ficou
em segundo lugar.Não sendo cidadão britânico, foi discriminado
ostensivamente na colônia inglesa, assim como também o fora o indiano
Ghandi, cuja família ali possuía negócios: formado em Direito na Grã-Bretanha,
achou que poderia sentar-se em um trem na primeira classe; foi interpelado a
retirar-se e, não obedecendo, expulsaram-no do veículo com ele em
movimento – a partir daí começou a sua luta pacifista e vitoriosa de
resistência ao domínio inglês, que futuramente iria atingir a votação
popular com a eleição de Nelson Mandela, primeiro presidente negro da República
da África do Sul. Em tempos pós-apartheid, em que esse território tem sua
população dizimada pela epidemia da aids, inclusive reclamando a falta de
espaço para as covas das vítimas, mas já derrubada a segregação que
impedia a cidadania igualitária para os negros, verificamos que a análise
de Pessoa na África não foi objeto ainda de estudo verdadeiramente ligado
à teoria literária, em termos de comparativismo e interculturalismo
contemporâneos. Em 1956, Maria da Encarnação Tavares Monteiro estudou as
“Incidências Inglesas na Poesia de Fernando Pessoa”, que publicou às
suas próprias custas, na cidade de Coimbra. Em 1966 o brasileiro
Alexandrino Eusébio Severino defendeu a tese de doutorado “Fernando
Pessoa na África do Sul”, que depois viria a publicar tanto no Brasil
como em Portugal, fixando após residência nos Estados Unidos. Seu trabalho
teve por objetivo o excelente aproveitamento de Fernando Pessoa na Durban
High School. No período de elaboração, manteve correspondência com H. D.
Jennings, professor do liceu onde Pessoa estudara, que veio a escrever a
história da instituição e, posteriormente, a biografia “Os Dois Exílios:
Fernando Pessoa na África do Sul”, publicado pelo Centro de Estudos
Pessoanos do Porto em 1984 (Fundação Engenheiro Antonio Almeida). Este último,
tomou-se de tal paixão pela obra de Pessoa que chegou a aprender português
e tornar-se conhecedor das coisas de Portugal.
Comecei a pensar nessa lacuna biográfica imensa e na
orfandade tão triste de Pessoa. Arrancado de Portugal aos sete anos e
devolvido aos dezessete, com a formação lingüística inglesa, e uma cabeça
multicultural, a partir da observação e convivência com várias etnias.
Parece-me notadamente estranho que se tenha deixado de observar a inserção
de Pessoa em uma comunidade tão rica, onde ele teve oportunidade inclusive
de tomar conhecimento de várias religiões. O que não se tem feito, nos
estudos pessoanos, é verificar o comprometimento local do poeta, ou seja,
com o território e a cultura africana ali tão especial, inclusive pelo
alto número de indianos, além de holandeses, franceses, alemães,
conjugados aos zulus e seus rituais, ao que entre eles havia de muçulmanos,
todos sob o colonialismo inglês, que haveria de aguardar algum tempo para
ser derrotado. Esta é a verdadeira África de Fernando Pessoa, e não um
pedaço hipotético de uma Inglaterra artificial imposta pelas armas
imperialistas a um povo que já reivindica – e obtém – das instituições
internacionais de direitos humanos a condenação dos colonizadores pelo
genocídio contra ele cometido historicamente, além da violência absurda
na ocupação de suas terras, crimes étnicos sobre cuja omissão da Igreja
já pediu desculpas publicamente o falecido papa João Paulo II. O que está sendo dito aqui é que não foi apenas o brilho
de Shakespeare que influenciou a escrita e o modo de ver o mundo do poeta
lusitano. Como a vida não se resume ao horário escolar, também foram
importantes as informações e contatos obtidos por Fernando Pessoa dos
marinheiros de várias nacionalidades com quem conversava no consulado
português de Durban e nas duas viagens de navio que fez sozinho quando
adolescente; as conversas com a empregada Paciência e o escravo vindo de Moçambique;
também das várias gentes que encontrava na noite de Durban, pois aos
quinze anos seu padrasto o matriculara em uma escola de comércio (!)
distante de casa cujas aulas eram noturnas. O puritanismo vitoriano do
lugar, mencionado por alguns autores, deve ficar nos limites das famílias
inglesas imperialistas associado à sua conseqüente hipocrisia: dentro dos
muros residenciais e escolares. Porque, ao contrário do que imaginou João
Gaspar Simões, como um porto internacional,cosmopolita, Durban tinha a
liberdade dionisíaca característica de lugares onde acorrem aventureiros,
comerciantes e desbravadores de muitos lugares. Lembra H. D. Jennings que as
fichas dos bordéis de Durban daquela época até hoje são disputadas por
colecionadores, pois os mencionados bordéis lá só foram extintos em
1918.O que significa uma prática hedonista constante, marcada pela alegria
de uma comunidade aberta ao progresso e á industrialização. É preciso também não esquecer que a cidade se tornou
capital asiática do continente africano e que o contingente de indianos
chegou inclusive a superar o número de brancos. Há uma influência
oriental na própria arquitetura, com torres semelhantes a mesquitas e
templos do oriente.O que quer dizer que se Pessoa recebeu a marca escolar do
imperialismo inglês, ele também recebeu a marca do modo de ser indiano,
oriental, que tanto iria estar presente nos poemas de Alberto Caeiro, a quem
ele considera o próprio paganismo. Esta expressão é sempre utilizada por
Pessoa em oposição ao cristianismo e, em alguns momentos, como sinonímia
do budismo – leia-se o claro manifesto constante do oitavo poema de “O
Guardador de Rebanhos”. Também o elogio feito ao grandioso mistério do
Oceano Índico é bastante revelador. Quanto à situação de Fernando Pessoa em Durban,
haveremos de ver que, se não era negro nem amarelo nem escravo, era, por
outro lado, um estrangeiro, no caso específico, um cidadão de segunda
classe, que não tinha direito a estudar em Oxford, ainda que fosse o
primeiro da turma. Há por sinal uma teoria de que não teria voltado a
estudar no liceu, quando do retorno das férias de Portugal, porque havia
sido vítima de maus tratos.Daí o padrasto o ter recambiado à Escola
Comercial. Aliás, o rigor com que eram tratados os alunos nas instituições
inglesas já foi motivo de vários registros históricos. De qualquer forma,
Pessoa era também um cidadão de segunda classe em casa, aquela família
que crescia não era verdadeiramente a sua; ao que consta, somente a
meio-irmã sobrevivente conviveu com ele fraternalmente, após voltar a
Portugal, por motivo da morte do pai cônsul; os outros meio-irmãos foram
viver na Inglaterra, desconheceram completamente as necessidades econômicas
do poeta, que chegou a morar em uma leiteria e a pedir dinheiro emprestado a
Armando Cortes-Rodrigues, quando da mudança de sua tia Anica para a Suíça.
O exílio africano há de impregnar a obra de Fernando
Pessoa de um misticismo integral, ainda que não ortodoxo. Essa sabedoria
inicial e iniciática haverá de o levar ao espiritismo, à teosofia, à maçonaria,
às ciências ocultas.Sua temporada na escola das freiras irlandesas
(Convent School), na Durban High School e na Escola de Comércio,
lamentavelmente para a Inglaterra, não o vinculou à literatura dita
inglesa, e Pessoa tratou de publicar seus poemas ingleses mesmo em Portugal.
Quando estréia em sua língua e em sua terra é como crítico – só
depois os poemas irão surgindo, pois passou quase três anos para se
readaptar ao português. Quando retorna, há cem anos, da Africa, o motivo
seria para matricular-se na Faculdade de Letras de Lisboa. Mas só um ano e
um mês após, com a chegada da mãe, padrasto e filhos para uma temporada
de seis meses, já em 1906, é que o poeta é matriculado na instituição,
da qual se afasta por haver participado em um movimento grevista, débito
que o mundo acadêmico português tem para com ele – como duvidar do
testemunho de seu próprio meio-irmão, de que ele teria sido expulso da
Faculdade? Observamos de modo claro as injustiças de que foi vítima
o poeta, muito especialmente a da Durban High School, no dizer de Angel
Crespo não mais do que uma das muitas arbitrariedades que costuma gerar o
nacionalismo exacerbado, a mentalidade tribal das sociedades coloniais;
apesar de obter a nota 1098, a melhor de todos os estudantes da província
de Natal, Pessoa perdeu a bolsa para o seu colega C. E. Geertds, com apenas
930 (questionado sobre o fato quando já estava idoso, este respondeu que
com certeza “Pessoa não podia concorrer, porque se pudesse, o premiado
seria ele, pois era muito mais inteligente e preparado”). O poeta, a
partir daí, verbalizou em sua inocência a condição de estrangeiro, com
toda a carga discriminatória que ela encerra do ponto de vista das chances
profissionais. Ou seja, o sistema de educação britânico dava a
escolaridade, mas não dava a oportunidade. A conseqüência foi determinar
o padrasto que abandonasse Pessoa imediatamente a África do Sul.(Contudo,
um dos filhos do padrasto, João Maria, mesmo nascendo em Portugal, na
temporada de 1901 a 1902, teve seus estudos assegurados na Inglaterra; após
quinze anos de residência ali, foi a Portugal e visitou o meio-irmão –
quantas cartas dele a Pessoa existem no espólio, na famosa arca depositada
em Lisboa, na Biblioteca Nacional?).
Neste centenário do retorno do escritor à sua pátria –
que ele definiu como “a língua portuguesa” (não necessariamente o
território), nada melhor que lembrar um fragmento da “Ode Marítima”,
esse tipo de diário de bordo em que pinta com detalhes suas impressões de
viagem pelo mar da adolescência que lhe foi dado atravessar: Homens
que erguestes padrões, que destes nomes a cabos! |
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Lucila Nogueira (Brasil). Poeta e ensaísta. Autora de livros como A dama de Alicante (1990), Zinganares (1998), e Bastidores & Refletores (2002). Palestra proferida no Seminário “A Cidade e o Campo”, no evento “Nomadismo e Cidadania”, 22/12/2004, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Contato: luc.nog@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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