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diálogo entre everi rudinei carrara & claudio willer

Everi Rudinei CarraraDos sites e revistas aqui examinados, na Agulha, o periódico eletrônico Telescópio é o que mais se assemelha a uma trincheira. Seu criador-editor, Everi Rudinei Carrara, de Araçatuba (SP), advogado, músico e poeta, dispara e-mails para uma lista de algumas centenas de interlocutores, anunciando a discussão de temas da política - um de seus assuntos tem sido o modo como o Governo Lula trai o programa e a história de seu próprio partido - e das artes, especialmente música, cinema e poesia. O leitor deste número encontrará de Sandro Garcia ao Velvet undergroud e Arrigo Barnabé, Buñuel e Pasolini seguidos por um fotogênico elogio a Elizabeth Taylor, entrevistas com o cineasta negro Jefferson De e o poeta Roberto Piva (uma das mais completas, a do Memorial da América Latina), e com a artista teatral Denise Stoklos, entre outros assuntos. Everi Rudinei Carrara montou, portanto, uma constelação eclética, onde têm seu lugar tanto o esteticismo quanto os chamados à rebelião. Vai do fetichismo à revolução. Seu inconformismo visionário resultou em uma imediata simpatia por Agulha, plenamente correspondida. [CW]

CW - Você é capaz de resumir, em umas poucas linhas, o que é Telescópio?

ERC - Telescópio é um meio de divulgação da cultura alternativa produzida no país e fora dele através da Internet, rádio, jornal, vídeo, leituras em lugares públicos, etc…

Começamos como um jornal impresso, mas chegamos à conclusão de que não podemos nos restringir a um determinado formato, pois a própria cultura se manifesta através de vários meios.

CW - Dê-nos um histórico, conte-nos faz quanto tempo e como surgiu Telescópio. É iniciativa mais individual ou algo coletivo, desdobramento ou conseqüência de atividades de um grupo? Que papel você desempenha em Telescópio? Faz tudo, ou há colaboradores regulares?

ERC - A iniciativa foi exclusivamente minha em relação ao tablóide, cuja primeira edição foi lançada em 1995. Logo em seguida o amigo Marcelo Duarte tornou-se co-responsável pela diagramação e inserção de matéria visual impressa e on-line. Agimos em perfeita coesão, discutindo e trabalhando amigavelmente. Recentemente o amigo Fernando Dagolds também tornou-se um parceiro regular. Os colaboradores são os amigos e pessoas que estejam produzindo algo interessante e que procuram espaço para divulgar seus trabalhos. Há pessoas de toda parte do Brasil e alguns colaboradores estrangeiros também.

CW - Quero um perfil seu, uma minibiografia. Dê-me os antecedentes dessa sua relação com poesia e com música, algo sobre sua formação.

ERC - Sou advogado e músico profissional (piano e sax), minhas primeiras leituras em poesia se deram por volta dos 15 anos de idade. Sempre gostei de ler poetas e autores diversos, ouvir e tocar músicas e estilos variados, mas tenho especial carinho pelos autores transgressores, o jazz, bossa nova, blues, música oriental, latina, tropicalistas, rock, música concreta, folk, eletrônica, experimental, enfim de tudo um pouco. Os autores que sempre releio, entre outros, são Nietzsche, Voltaire, Sartre, Edgar Morin, Chomsky, Artaud, Murilo Mendes, Octávio Paz, Tchecov, Hess, Kropotkin, Piva, Pessoa, Oswald de Andrade, Ésquilo, Li-Tai-Po, toda a geração beat, e por aí vai…

CW - Por que Araçatuba? Circunstância, por você residir aí, ou escolha? Araçatuba já deu algum sinal de reconhecimento por projetar-se assim através da net? Havia (parece-me) parceria com um jornal regional?

ERC - Araçatuba é uma “cidade-dormitório”, circunstancialmente mudei-me para cá, vindo de Bauru no começo dos anos 70. Se eu pudesse gostaria de morar e trabalhar em São Paulo, ou em outras cidades mais relevantes que Araçatuba. Se pudesse, até sairia do país…

Tivemos em Araçatuba algum reconhecimento e espaço através da extinta Agência Interior (Universidade Toledo) e Folha da Região, um jornal local. No mais, o reconhecimento se restringe a artistas consagrados do rock e da MPB, como Tom Zé, Tetê Espíndola e Arnaldo Baptista, além de jornalistas, poetas, editores, acadêmicos de outras cidades (Caxias do Sul - RS, em especial), movimentos sociais, partidos como o PCO, PSTU, estudantes, anarquistas, sites culturais, de algumas prefeituras (Ribeirão Preto - SP), bandas e gravadoras de rock, programas de rádio (Oscar Quessa - Rádio Cultura e Hilda Costa -Jovem Pan). Estes são nossos maiores divulgadores e incentivadores, e ficamos contentes de estarmos inseridos dentro de um universo tão eclético.

CW - O que mais diferencia Telescópio de outros periódicos eletrônicos e lhe confere identidade?

ERC - A abordagem de temas que normalmente não estão na grande mídia, abrindo espaço para a divulgação de trabalhos e obras marginais. Além disso, parte do que é publicado no Telescópio não provém de fontes tradicionais como agências de notícias, por exemplo, sempre passíveis de manipulação, mas dos próprios artistas e geradores do fato em si. A independência dos meios tradicionais de comunicação é uma das características que buscamos sempre.

CW - Chama a atenção Telescópio ser ao mesmo tempo selecitivo, ter preferências manifestas, e eclético. Abrange bossa-nova, com uma espécie de culto a Nara Leão e Menescal, poetas contemporâneos, com destaque para, entre outros, Roberto Piva, cinema, especialmente Glauber, algo de política, inclusive, durante uma época, com atenção ao MST, parece-me. Há uma proposta, uma filosofia ou visão de mundo que unifica ou articula tudo isso?

ERC - Nara Leão é minha cantora preferida, representou a modernidade da MPB em pessoa, como advertiu Caetano Veloso em seu livro “Verdade Tropical”. Isso já seria suficiente para justificar minha admiração por Nara, que nunca fez concessões ás gravadoras e aos poderosos, e produziu ao lado de Roberto Menescal discos maravilhosos, sempre apoiando novos compositores, redescobrindo os sambistas negros do morro, esquecidos pela mídia. Além disso, Nara abriu caminho para o samba de protesto, foi irmã da Tropicália, e contestou a ditadura militar num momento crítico, quando muitos se calaram. Gravou de tudo que fosse bom, e sempre se afastou do estrelato, do glamour, da mediocridade reinante.

 Piva é uma inspiração constante, porque só acredita em “poetas experimentais que tenham vida experimental”, sem desvincular poesia e vida. Piva foge da idolatria, dos clubinhos e academias estéreis de poesia. Glauber também apreciava Nara, houve influência mútua. A virulência poética de filmes como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe” ainda são imprescindíveis para quem pretende ver de perto esse país, nossa realidade miserável, nossa pavorosa colonização hollywoodiana, nossa educação cristã debilitada, nossa “esquerdalha” que emperra todas as revoluções possíveis…

O MST é um movimento muito importante, na medida em que se insere de forma incisiva na realidade brasileira, na questão do uso da terra, um tema secular e sempre relegado pelas elites no poder. As conquistas nessa área só podem ocorrem através de atitudes de mobilização e organização, e o MST é extremamente atuante e corajoso nesse sentido.

CW - Diga algo sobre a expansão de sites e divulgação de poesia e outros temas culturais pela internet. Quais são seus principais parceiros e interlocutores?

ERC - Há na Internet uma série de sites culturais muito bons: a Barata, Agulha, Whiplash, Blocos, Jornal de Poesia, sites de Tom Zé e Tetê Espíndola, Fausto Wolff, Continental Combo, Senhor F… a lista é enorme. Mantemos contato e colaboração com todos eles.

CW - Em matéria de acessos, como está Telescópio? Quem o acessa ou consulta?

ERC - Temos um público restrito, mas seleto: são músicos, escritores, poetas, jornalistas, atores, curiosos ligados às artes em geral. Algo em torno de 400 a 500 visitas mensais. Considerando que a coluna não tem a visibilidade de sites mais consagrados e que é dedicada ao espaço das artes, diria que está razoável.

CW - O que você gostou mais de publicar ou divulgar em Telescópio?

ERC - A divulgação de bandas de rock, poesia visual, agenda cultural, protestos contra os governos Lula, Bush, Sharon, Blair…

Tudo o que publicamos nos dá prazer, mas ajudar a divulgar novos artistas e novos trabalhos acredito ser o mais satisfatório.

CW - O que você gostaria de apresentar ou pôr em Telescópio e ainda não fez?

ERC - Maiores recursos audiovisuais: trechos de músicas e vídeos, que por exigirem muito espaço e largura de banda, não podem ser utilizados dentro da estrutura atual. Temos espaço restrito de hospedagem, basicamente só utilizamos texto e imagens estáticas, mas o espectro das artes vai muito além disso.

CW - E o futuro? Quais serão os próximos passos? Há planos de expansão, haverá crescimento de Telescópio seja na própria net, seja no meio impresso, sobre papel? Quantitativo, qualitativo ou ambos? Algo deverá ou deveria mudar?

ERC - Na verdade, o Telescópio surgiu como um tablóide, ou seja, versão impressa. Devidos aos crescentes custos de impressão, houve uma migração para a Internet, um meio que, além de permitir o uso mais amplo de recursos visuais e sonoros, é mais barato de se manter.

O ideal seria manter as duas frentes, versão impressa e Internet, mas, uma frase resume tudo: não há dinheiro. Pelo menos não aqui em Araçatuba, onde o interesse dos patrocinadores é mínimo. Mesmo na Internet, dependemos de uma série de colaboradores voluntários, que fazem todo o trabalho por amor à arte. Isso ainda existe, acredite.

Há planos de expandir a coluna, incorporando novos colaboradores e novos recursos tecnológicos, mas esse deverá ser um processo lento e contínuo, um verdadeiro exercício de sobrevivência.

E estamos atentos às novas possibilidades da tecnologia, faremos uso de tudo aquilo que nos permita acompanhar a velocidade da arte.


www.telescopio.vze.com
jornaltelescopio@gmail.com
 

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