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revista
de cultura # 45 |
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A arte que cura: os últimos meses de vida de Glauber Rocha Antonio Jr.
De todos os cineastas
brasileiros surgidos no Cinema Novo - Nelson Pereira dos Santos, Joaquim
Pedro de Andrade, Leon Hirzman, Carlos Diegues, Roberto Santos -,
possivelmente o mais influente foi o baiano Glauber de Andrade Rocha
(1939-1981), especialmente depois da aparição do seu segundo
longa-metragem, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), filmado no
mesmo ano do Golpe Militar e considerado um dos dez melhores filmes de
todos os tempos pela revista francesa Cahiers du Cinema. Ele eclipsou a
todos com sua rutilante celebridade, poesia agreste e personalidade
contraditória, ganhando visibilidade internacional com sua aura
desordenada e trágica, e abrindo mais recentemente caminho a novos
realizadores do cinema brasileiro, como Walter Salles (“Abril Despedaçado”),
Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) ou Karim Ainouz (“Madame Satã”).
Em poucos anos filma vários curtas - “Amazonas, Amazonas” (1965),
“Maranhão 66”(1966) -, publica livros, viaja por inúmeros países, e
realiza duas obras fundamentais, “Terra em Transe” (1967) -
classificado de “ópera metralhadora” por Jean-Louis Bory, do Le
Nouvel Observateur - e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”
(de 1969, conhecida na Europa como “António das Mortes”),
apresentadas no Festival de Cannes, recebendo com a segunda o prêmio de
melhor diretor. Foi o seu auge, e parecia ter o mundo aos seus pés. Na década
seguinte, entretanto, sua estrela decaiu como consequência da emergência
e triunfo do cinema comercial. A personalidade
particularmente dotada de Glauber para perceber o cinema - ou seja, o próprio
mundo -, em toda sua complexidade, se diluiu numa estética alarmante e
desconcertante. Radicalizou a idéia de narrar o caos, sustentando que só
o caótico sustenta a obra de arte, em um efeito artístico ambíguo que
reflete esse mesmo caos iluminado ao fim por uma poética misteriosa,
quase redentora. Exilado voluntariamente do Brasil, filma na África (“O
Leão de 7 Cabeças”, 1969), Espanha (“Cabezas Cortadas”, 1970),
Cuba (“História do Brasil”, 1972) e Itália (“Claro”, 1975). Ele
que havia bebido em fontes diversas (Eisenstein, Bergman, Fellini,
Visconti) para compor sua lógica, tentando decifrar o Brasil ao filmar o
seu avesso, mergulhava de cabeça numa utopia cinematográfica estranha e
marcada por contradições, ideológica, política, espiritual e mitológica.
“Criticar - teorizar - praticar um cinema revolucionário, histórico -
dialéctico e poético (o homem livre de seus fantasmas burgueses) é a única
saída”, escreveu em 1975. Recusando
uma carreira internacional convencional, passa por graves dificuldades
financeiras, é ridicularizado no Brasil por seus próprios colegas,
escreve para o irreverente semanário “O Pasquim” - num idioma
particular com y e k no lugar de i e c - e para vários outros jornais,
provocando polêmicas e reações furiosas. Em 1979, no programa
“Abertura”, da TV Tupi, na época a mais popular do Brasil, faz
entrevistas com grande repercussão. Torna-se uma espécie de profeta, de
intelectual que perdeu a razão, e mesquinhamente contam-se casos reais
dele caminhando na praia de Ipanema, enrolado num cobertor como mendigo,
falando sozinho; conversando com as paredes do hotel, em Santiago do
Chile, com um microfone na mão: “Aqui é Glauber Rocha, eu sei que a
Cia está gravando, e a KGB também”; das brigas irreconciliáveis com
diversos amigos. Em 1979, num último esforço para sair das trevas, vende
seu único bem, uma casa, para filmar “A Idade da Terra” em Salvador,
Brasília e Rio de Janeiro, com um elenco de estrelas (Norma Bengell, Tarcísio
Meira, Antonio Pitanga, Danuza Leão). “Esse filme materializa os símbolos
mais representativos do Terceiro Mundo, ou seja: o imperialismo, as forças
negras, os índios massacrados, o catolicismo popular, o militarismo
revolucionário, o terrorismo urbano, a prostituição da alta burguesia,
a rebelião das mulheres, as prostitutas que se transformam em santas, das
santas em revolucionárias. Tudo isso está no filme dentro do grande cenário
da História do Brasil”, diz no seu lançamento. Quebrando com o cinema
teatral e ficcional, numa desintregação da sequência narrativa sem a
perda do discurso, o filme é um fracasso de público e é vaiado no
Festival de Veneza. Glauber, alucinado, magoado, faz passeata, ofende o júri,
ataca de reacionário ao vencedor, o francês Eric Rohmer, prometendo
nunca mais voltar ao seu país e sempre defendendo a sua obra: “Busco um
outro cinema. Um filme que o espectador deverá assistir como se estivesse
numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução. É um novo cinema,
antiliterário e metateatral, que será gozado, e não visto e ouvido”.
Em Sintra desde 1973,
num grande casarão acostumado a hospedar intelectuais e artistas de todo
o mundo, o engenheiro de som português Carlos Pinto (São Pedro do
Estoril, 1950) recebe um telefonema do cineasta brasileiro, pedindo o seu
apoio, “talvez pudesse ficar em sua casa por uns tempos”. “Venha
quando quiser”, responde Pinto. Profissional dos mais requisitados, com
currículo admirável, Carlos Pinto trabalhava basicamente no cinema francês,
filmando muito fora de casa, e ainda não conhecia pessoalmente o autor de
“Barravento” (1960). Na época da chegada de Glauber, em janeiro de
1981, filma em África, “Música em Moçambique”, de Fonseca e Costa.
Terminada as filmagens, encontra Glauber hospedado no Hotel Central,
ocupando todo o primeiro andar de um hotel praticamente vazio. Sua esposa,
Paula, de família burguesa, não admitia viver numa casa com estranhos, e
o casarão de Pinto, além do próprio, era bastante concorrido, habitado
por um psicólogo e uma suiça professora de línguas. Só que a família
Rocha não tinha condições financeiras para viver num hotel. A solução
foi procurar uma casa para alugar. E encontraram a antiga residência de
Ferreira de Castro, ao lado da casa de Pinto, e também um dos escritores
favoritos de Glauber, que lera boa parte de sua obra e havia feito um
documentário em 1974, desaparecido. “Aqui é bonito. Escrevo diante de
uma panavisão sobre o Atlântico camoniano e sebastianista do alto de uma
montanha antes habitada por Byron numa linda casa onde viveu Ferreira de
Castro. As coisas vão bem, estou feliz no meu feudo à beira mar plantado
vendo todos os dias naves partindo na construção do IV Império de
Sebastião Ressuscitado...”, anotou no seu diário em 26 de abril de
1981. Eles viveram nesta casa durante três meses, depois mudaram para a
Estalagem dos Lobos, perto de Montserrate, e terminaram na própria casa
de Carlos Pinto, então já um dos melhores amigos e principal confidente
de Glauber Rocha. Quando este espírito
independente, conhecido em todo o mundo por sua intransigência e
temperamento apaixonado, chegou no Monte da Lua, era um inverno muito
rigoroso. As névoas cobriam as ruelas, as montanhas e os jardins; chovia
quase sempre. Sintra era conhecido como um reduto de artistas, de
pensadores. Era muito mais forte a marca da passagem de Lord Byron, Hans
Christian Anderson e William Beckford, entre outros. Importantes
escritores, pintores, escultores, atores, músicos, pensadores ou
jornalistas passavam por lá, permanecendo longas temporadas. Neste mesmo
inverno Wim Wenders rodou parte de “O Estado das Coisas” na Praia
Grande, e o chileno Raoul Rouiz e o moçambicano-brasileiro Ruy Guerra, um
inimigo de Glauber, também filmavam nas redondezas. Glauber Rocha, sempre
reservado, longe do mundo mundano da jet-set, finalizava “Revolução do
Cinema Novo”, uma antologia de textos críticos produzidos entre 1958 e
1980, que seria publicado poucos dias antes de sua morte, e escrevia o
roteiro para um próximo filme, “O Império de Napoleão”, planejado
para um elenco encabeçado por Jack Nicholson e Jane Fonda, e que já
tinha confirmado o nome do gênio Orson Welles, que não receberia cachê,
apenas pedia hospedagem confortável e garrafas de uísque. Diante da paisagem
deslumbrante da vila de Sintra, que Eça de Queiroz já dizia que não há
um só recanto que não seja um poema, Glauber redescobria o paraíso.
“Me sinto reprojetado nas origens”, dizia. Abrindo os pacotes e malas
que o acompanhavam em todas as viagens - cartas, roteiros, textos -,
partia para a máquina de escrever, como se estivesse numa dessas terríveis
batalhas. Muito disciplinado e rigoroso, acordava na mesma hora, tomava o
café da manhã e escrevia até as 13 horas seus textos, roteiro e matérias
para jornais. Ouvia Villa-Lobos, estava sempre lendo ou escrevendo, e não
gostava muito de visitas, sendo praticamente arrastado por colegas para
jantares ou eventos em Lisboa. Mesmo assim, recebia muita gente: cineastas
brasileiros e portugueses, críticos de cinema, os escritores Jorge Amado
e Zélia Gattai, o ator francês Patrick Bauchau, o produtor Luiz Carlos
Barreto, o Presidente (do Brasil) Figueiredo e principalmente o autor de
“A Casa dos Budas Ditosos”, João Ubaldo Ribeiro, seu grande amigo e
companheiro desde a infância. Porém a maior parte do tempo estava
sozinho, em casa. Vez ou outra, passeava pela praça do Castelo, caminhava
de mãos dadas com os filhos, lia jornais no Café Paris. Parecia bem,
tranquilo, ia almoçar nos restaurantes locais, tomava vinho tinto, fumava
haxixe. Certa vez, encontrou casualmente uma turista da Bahia, poderosa Mãe-de-Santo,
e emocionado convidou-a para almoçar. Tinha grande respeito pelo candomblé.
A imprensa deu intensa
cobertura a temporada de Glauber Rocha em Sintra, com fartas manchetes e
longas entrevistas comuns a uma celebridade respeitada. O cineasta, em
eterna preocupação com a preservação das cópias de seus filmes, ficou
entusiasmado com o ciclo dos seus filmes anunciado pela Cinemateca
Portuguesa, em abril de 1981. O catálogo foi editado, a mídia deu
bastante destaque à mostra, e na primeira semana de exibição, durante a
projeção de um filme do belga René Aiollo, a sala de projeções pegou
fogo destruindo totalmente toda a obra de Glauber. Alucinado, viu como um
sinal do fim; foi um golpe mortal. A queda foi instantânea. “A doença,
a precariedade financeira e as incertezas me levam a pensar que vivo em
Portugal meu segundo e último exílio. Foi o preço que paguei no Brasil
pela liberdade artística”, disse. Em julho, Carlos Pinto filmava sob a
direção de António Reis, em Trás-os-Montes, e ao voltar encontrou o
amigo internado no Hospital de Sintra. Esteve três dias sendo tratado,
suspeitavam de uma doença broncopulmonar, talvez uma tuberculose. Pinto
se assustou com a sua figura esverdeada e abatida, olhos amarelados, e ao
apertar a sua mão, ouviu dele: “Estou com uma angústia”. Transferido
para o Hospital da CUF, em Lisboa, melhorou a olhos vistos. Lúcido,
brincalhão, recebendo visitas, lendo jornais e vendo televisão,
criticando as autoridades e políticos que apareciam: “Esses
engravatados não me deixam em paz”. Ainda acamado, recebeu os primeiros
exemplares de “Revolução do Cinema Novo”, o que o deixou muito
contente. Parecia estar bem, como se tudo não passasse de uma elaborada
encenação para ajudá-lo a renascer dos mortos. Paula Gaitán havia
mudado com os filhos para o Hotel Tivoli, tirava fotos polaroid do
companheiro e seus amigos, circulava por Lisboa com o cantor Fagner, e não
parecia ter consciência da gravidade da enfermidade de Glauber. Ele próprio
não sabia qual era o seu mal. Os médicos não entravam num acordo,
contraditórios. Havia rumores não confirmados de um câncer. Carlos
Pinto o visitava todos os dias. “Era um personagem adorável, e a nossa
ligação muito profunda”, recorda. Na dia 20 de agosto, após uma série
de exames rigorosos, Glauber disse que não gostaria de ficar sozinho
naquela noite, pediu que Paula o fizesse companhia. Ela negou, não podia
deixar os filhos sozinhos no hotel. “Então você fica, Pinto. E a Paula
vai”, decidiu. O amigo disse que poderia ficar sem problemas, mas as
enfermeiras não permitiram, pois o horário de visitas era rigoroso,
restrito. Glauber estava bem, radiante, conversador como nos seus melhores
dias, porém havia algo estranho no ar, uma energia muito forte que tomava
todo o quarto. Na mesma noite, sozinho, ele entrou em coma.
TODO O CINEMA DE GLAUBER
ROCHA
1957
- O Pátio (CM) |
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Antonio Jr. (Brasil, 1970). Escritor, jornalista e aventureiro. Tem seis livros publicados, a começar por O Aprendiz do Amor (1993). Vive em Sintra, Portugal, onde edita a revista cultural virtual www.elgitano.blig.ig.com.br. Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras de Nicolau Saião (Portugal). |
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