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revista
de cultura # 45 |
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artista convidado: nicolau saião |
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Omnia in unum: breves apontamentos sobre a pintura dse Nicolau Saião Ruy Ventura
Quem
olha, sem preconceitos, os quadros de Nicolau Saião (n. Monforte do
Alentejo, 1946) tem sempre, antes de mais, uma sensação de estranheza. O
olhar, habituado a ver o mundo representado segundo cânones artísticos
actuais que, pendularmente, oscilam entre um hiper-realismo e um
abstraccionismo puro, sente-se incomodado perante os seus quadros. A estranheza
de quem vê nasce da estranheza do objecto visto. À parte algumas obras
que se elevaram como resposta a “maneiras de pintar” plenamente alicerçadas
na História da Arte, a maior parte das pinturas – pequenos formatos,
quase sempre neste caso – transporta para o espectador um certo incómodo,
entrelaçado com uma certa dose de encantamento que aquelas figurinhas
grutescas (“bonecos” lhes chama NS) e aqueles traços aparentemente
ingénuos, mas luminosos, produzem no observador. Queremos
ver os quadros como abstractos – mas os títulos e algumas imagens
(nascidas por ilusão de óptica?) não deixam. Queremos vê-los como
representações figurativas de mundos nossos conhecidos – mas os traços
indefinidos fazem abortar, em parte, a tarefa. É verdade: há imagens que
também estão no nosso interior, mas mesmo essas assumem uma dimensão
pictórica e figurativa que as afasta do nosso convívio quotidiano (sem
deixarem de pertencer, profundamente, à mundividência do Homem no
tempo). É
nesta altura que procuramos referências. São tantas as imagens evocadas,
invocadas e evocadoras nos seus quadros (mas logo sujeitas a deformação,
para que não estejam demasiado presas ao mundo material), que o
pensamento precisa de estruturar um quadro referencial para entender a
proposta estética (e ética) que NS põe à nossa disposição. Há, então,
uma frase que se impõe, como axis mundi, eixo que orienta a
circulação: “Omnia in unum”. Vinda dos alicerces do tempo,
surge como síntese de um percurso artístico individual, discreto, mas
cuja importância interessa equacionar (para que não sejamos, no futuro,
como alguns “reavaliadores” que por este universo deambulam e que
durante a vida dos artistas não cessam de cuspir sobre a obra válida que
estes vão propondo ao mundo, invertendo a sua postura logo que a morte os
leva e os ventos da fortuna sopram para outro lado).
Antes
de conhecer Nicolau Saião como poeta e como cidadão, conheci-o como
pintor. Melhor dizendo: antes de contactar com a poesia e com a vertical
acção cívica deste homem, comecei por me interessar pela sua pintura.
Houve mesmo uma época em que, para mim, ela era apenas pintor – não me
passando sequer pela cabeça que navegava, sobretudo, nos oceanos da
Poesia. Recordo
bem o dia em que descobri os seus quadros. Tinha 15/16 anos. Visitando, em
Portalegre, uma exposição de artistas alentejanos, fui encontrar duas
obras que me tocaram particularmente, pela sua estranheza, pela sua
capacidade de penetração, através das cores e dos traços, na Alma
humana. Uma das pinturas tinha o vidro partido, colado com fita-cola, o
que lhe dava um interessante aspecto subversivo no meio de alguns óleos
com farpela lustrosa mas com corpo mal-asado. Quando,
mais tarde, comecei a conhecer a sua obra escrita, foi-se em mim
desenhando uma convicção que não mais deixei (e tenho aprofundado): a
sua pintura é inseparável da sua poesia. Criação plástica e criação
verbal são duas vertentes da mesma montanha, de que fazem parte também
as suas crónicas e os seus ensaios (felizmente) heterodoxos, tábuas
diversas de um retábulo ainda em crescimento. Surrealista
na melhor acepção da palavra, NS vem construindo há mais de trinta anos
uma obra plástica dotada de coerência assinalável. Sem se revestir de
monotonia, vai tocando diversas técnicas de expressão e múltiplas
formas de representação, para melhor interpretar as imagens interiores e
exteriores que a dominam. Chamo-lhe “surrealista” não apenas por
saber que integrou o movimento logo no início dos anos ’70. Fugindo
deliberadamente do catecismo banal que muitos epígonos vão imitando com
maior ou menor técnica, os quadros de Nicolau assumem aquilo que, de
melhor, o verdadeiro Surrealismo nos tem trazido: a libertação total do
ser humano e a abertura dos seus olhos a um Universo cheio de maravilha,
mesmo quando as sombras desejam obscurecê-la. Dramaturgo
com obra publicada, autor da poesia intensa d’ Os Objectos
Inquietantes (Prémio Revelação – Poesia, da Associação
Portuguesa de Escritores), de Flauta de Pan e d’ Os Olhares
Perdidos – NS parece querer corporizar, também na pintura, “a
grande aventura” que, segundo Fernando Batalha, no nosso interior
“se desenrola”. Com
uma liberdade notável, tem construído centenas (milhares?) de obras que
combinam - com sabedoria – a nostalgia e o encantamento, imagens vindas
da infância com o nojo da hipocrisia social, ironia e sarcasmo com uma
religiosidade que tantas vezes timidamente assoma. Traço e cor reúnem-se
para elevar formas mais ou menos nítidas, retratos mais ou menos claros
– elementos que ultrapassam a representação do real para criarem outra
realidade, inquietante e misteriosa. Desassossega-nos,
a sua pintura. Com uma figuração internamente multiplicada, com
paisagens povoadas por pequenos seres e por pequenas coisas, faz-nos
sentir estrangeiros neste mundo de onde se vai ausentando o maravilhoso,
que ela contém na sua plenitude.
Não
conheço a data em que Nicolau Saião pintou o seu primeiro quadro. Sei,
no entanto, que em Portalegre não terão sido frequentes as ocasiões de
contacto entre o futuro pintor e obras fortes da Arte Contemporânea.
Antes de 1974, as ocasiões de contacto da população portalegrense com a
pintura moderna foram escassas, quase inexistentes. É certo: desde os
anos ’50, Portalegre conta no seu seio com a Manufactura de Tapeçarias
(cuja relação com a pintura do nosso tempo é justamente reconhecida além-fronteiras),
mas a divulgação da sua produção na cidade restringia-se a obras de
gosto clássico, fruto de encomendas oficiais presentes em dois ou três
edifícios públicos. Galerias não havia (e não há, ainda hoje). As
exposições eram sempre fruto de iniciativas bissextas, geralmente
movidas por “artistas alentejanos” com maior ou menor técnica. Era,
portanto, muito difícil para os olhos do futuro pintor apreciar ao vivo
obras de arte moderna significativas. A presença na cidade do escritor
José Régio não era suficiente para mobilizar as vontades locais,
levando-as a uma acção sistemática de divulgação da pintura contemporânea.
Régio vivia no seu mundo, criando a obra sólida que todos
reconhecemos... Além disto, conhecia bem o material humano com que lidava
todos os dias, tanto que o retratou, com a mestria de um narrador de mão-cheia,
na sua mesquinhez e no seu fechamento sócio-cultural. (Alicerçamos esta
convicção na leitura de “Davam grandes passeios aos domingos” (in Histórias
de Mulheres) ou d’ “Os Alicerces da Realidade” (in Há Mais
Mundos)). Não
havendo, na cidade, possibilidades de um contacto directo com obras de
arte contemporânea, havia, no entanto, lugares onde o artista podia
apreciar objectos artísticos significativos. Não existindo outros
recursos, NS habituou-se a contemplar os retábulos existentes nalgumas
igrejas da cidade, nomeadamente na Sé Catedral, repositório de um dos
maiores conjuntos portugueses de pintura maneirista, com obras
significativas de autores tão importantes quanto Luis de Morales, Fernão
Gomes ou Simão Rodrigues. Eram-lhe também caros os painéis de azulejos
existentes no interior e no exterior de edifícios da arquitectura civil e
religiosa da cidade, tanto aqueles que representam séries narrativas
(como os da igreja do Bonfim) quanto os meramente (?) decorativos, alguns
deles tímidos representantes da chamada Arte Nova. A toda esta riqueza
artística com séculos de idade somava-se outro recurso, talvez (?)
inesperado: a leitura assídua de publicações de banda-desenhada, como
por exemplo o Mundo de Aventuras e
o Cavaleiro Andante. É
talvez difícil compreender os fundamentos da pintura de NS sem conhecer
estes passos da sua biografia, que aqui revelamos graças a generosas
confidências do autor. Difícil se torna ainda entendê-los sem fazermos
uma visita à sua “Casa da Muralha”, cujo quintal se encosta à
semi-destruída fortaleza seiscentista de Arronches (a 30 quilómetros de
Portalegre). Quem
aí entra sente cair sobre si a tal sensação de incómodo ou de
estranheza, de que falei atrás. As paredes de todos os compartimentos estão
revestidas por quadros. Há mesmo muros totalmente preenchidos por obras
do autor, algumas reproduzidas em painéis de azulejo de razoáveis dimensões.
Da visita à “íntima exposição”, ficamos com uma imagem que não
conseguimos apagar. E, nessa imagem, uma certeza: utilizando técnicas
diversas, apreendendo registos diferenciados, a pintura de Nicolau Saião
é profundamente narrativa. Os seus quadros contam-nos histórias...
Tivesse ele vivido nos séculos XVI-XVII e teria sido um pintor de retábulos
historiados; se a sua vida decorresse no século XVIII, teria pintado
grandes painéis de azulejo azul e branco; tivesse a sua vida nascido e
crescido noutro meio, com outra formação técnica, e teria sido –
talvez... – um grande narrador de aventuras através da banda
desenhada...
Há
algo que, contudo, não podemos esquecer: a presença das palavras. No
primeiro dia em que falei com NS, este disse-me uma frase que jamais
esqueci: “Eu sou sobretudo Poeta!”. Não podemos esquecer-nos
disto. A sua pintura e a sua poesia são indissociáveis. Muitos dos seus
quadros são, por isto, povoados por palavras, como se estas fossem
legendas que visam orientar o espectador, legendas que são autênticos
poemas, ou fragmentos deles – que bem poderiam, em dias futuros, ser
publicados em livro. Há,
assim, um mundo inteiro dentro dos seus quadros. Palavras e imagens, seres
minerais, vegetais e animais, monstros e anjos, heróis e vilões. Tudo
para nos levar a concretizar a máxima de Fernando Batalha: “a grande
Aventura é no interior que se desenrola”. |
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Ruy Ventura (Portugal, 1973). Poeta e ensaísta. Autor de livros como Arquitectura do silêncio (2000), Sete capítulos do mundo (2003), e Um pouco mais sobre a cidade (2004). Contato: ruy.ventura@clix.pt. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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