revista de cultura # 46
fortaleza, são paulo - julho de 2005






 

Demônios, paraísos perdidos & telejornais

José Carlos A. Brito

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José Carlos A. BritoAo surgir o poema de Floriano Martins, “Jornal nacional”, coincidentemente eu estava tecendo idéias sobre o papel de representação da notícia – como forma massificada a atingir a sociedade nos dias de hoje – comparando-a, sócio-analiticamente, diríamos, com outras formas do mundo antigo, como é o caso da tragédia grega ou poemas épicos que misturavam arte com a notícia, representada e refletida. Mas é de indagar-se: o que haveria de comum entre as duas? Diria: o prazer do espetáculo que, inclusive, com relação à “verdade dos fatos” pode ser re-imaginado. A mensagem comunicativa, ao ser lida (ouvida ou assistida) pode provocar, no receptor, atitudes opostas em relação ao objetivo desejado por quem dirige a comunicação. No momento em que recebi o poema de Floriano, decidi “utilizá-lo” para completar o texto sobre o tema, fazendo essa analogia que não deixa de ter uma certa sincronia. Vejamos o poema:

Jornal Nacional Quando um penitente investe contra ele próprio / é para livrar-se não exatamente de uma tentação externa, / mas sim do inferno que há em si mesmo. / O homem é fruto do que cria em sua mente. / Na realidade, o mundo é bem mais simples. / A exploração do desejo é que dá ensejo a esses monstros tão hábeis. / E nossa idéia de catástrofe adora ver o eixo deslocado, / de um dia para outro, em um telejornal qualquer. / Vítimas aqui ou acolá, mas sempre vítimas. / As vítimas não são reais. Apenas o telejornal é real. [Floriano Martins]

A tragédia grega, ao ser representada na atualidade é apenas uma peça teatral, mas, de certa forma significava para a civilização da época o que para nós, hoje, é a mídia eletrônica de massas, acrescida da imprensa feita de jornais e revistas (e em outra escala dos livros e filmes); o mesmo acontecia com os poemas épicos, a exemplo da Ilíada e da Odisséia, entre outros. Obviamente naquele tempo havia outras formas práticas de comunicação da mensagem que foram assimiladas também pelo teatro, em personagens na forma de mensageiros e narradores. Com a diferença que a tragédia e os poemas cantados ao som da lira, como arte, incorporavam-se a certo âmbito psicológico de profundidade, pois eram cercados por um complexo de idéias e pensamentos que traduziam a alma do ser humano da época e suas necessidades ligadas ao espírito. Se pudéssemos chamar a isso expressão de uma verdade, onde a vida imaginária (dos arquétipos) funde-se com a obra, essa “verdade” aparecia plena de vitalidade na forma trágica da representação. Por tal motivo, a tragédia cumpria várias funções, além de avançar a religiosidade; contribuía para a estruturação das relações de poder e até sua contestação, pois ali estavam fixados esses movimentos. Não seria exagero afirmar que qualquer sociedade necessita da arte, da poesia, da literatura, porque só através delas consegue entender os conflitos, os dilemas e tragédias individuais, que dão consistência e significado à personalidade social. Mas como somente alguns produzem as formas artísticas, a tal nível, todos podem vivenciá-las ao assistir as expressões mais acabadas da arte, e confrontá-las, no dia a dia, com sua própria realidade pessoal. E até, a partir disso, encontrar possibilidades próprias de criar.

Diríamos que, numa comparação à primeira vista, a mídia atual apresenta uma máscara de outro tipo, na comparação com os dramas anteriores: hoje assistimos a uma trágica voracidade, no mundo, muito mais acentuada e revestida pelos símbolos mórbidos da propaganda. E a morbidez é dada pelo predomínio do mercantil destrutivo, que se impõe às formas espirituais de preservação e exerce o aniquilamento irracional de cunho patológico. Mas, claro, se o mercado dirige a ação, os símbolos representativos desse desequilíbrio nem sempre terão conseqüências mórbidas, porque ao tratar-se de símbolos, por estes serem autônomos, poderão tomar uma forma diametralmente oposta, transformada pelo poder criativo dos espectadores. E nisso está a essência do prazer, inerente à forma representativa e que fala à alma do espectador, mal ou bem… a exploração do desejo é que dá ensejo a esses monstros tão hábeis… como diria o poeta.

A tragédia grega (e supostamente a comédia) foi a grande ficção de massas para re-viver, através da representação, uma certa mentira da realidade, que não seria mentira no sentido de contrário da verdade, mas na forma de imaginação criativa, por ser a negação da suposta verdade do real. E essa imaginação, recriada, torna-se necessária para rever a vida através da repetição representada. Tal fenômeno está bem próximo à cultura televisiva, que é a leitura protegida (releitura) da sociedade sobre seus próprios medos. E proteção contra o sentimento de medo (ou de culpa?) ancestral, que o ser humano carrega, como arquétipo de uma imagem primordial, já incorporada “geneticamente” à sua psicologia individual, por intermédio da coletiva. Ou a representação – que na sociedade moderna se dá pelos meios de comunicação de massa – como experiência para exorcizar esse medo, através de figuras vivenciadas da re-apresentação; e nos versos… quando um penitente investe contra ele próprio / é para livrar-se não exatamente de uma tentação externa, / mas sim do inferno que há em si mesmo… diríamos que o poder investe com formas que “tranqüilizariam” o individuo para aceitar a obediência e reprimir o instinto de contestação, engolindo-o para dentro do inferno do si mesmo. Portanto, o reverso da moeda é que ele acumula ali – nas repressões embutidas no inconsciente? – o material criativo, e explosivo, das futuras manifestações. Trata-se de um sentido de fazer criativo o arquétipo demoníaco que habita esse inferno de riquezas acumuladas (Vejam-se obras poéticas de Willian Blake, ou “Paraíso Perdido” de John Milton, por exemplo). E o poder sempre atribuirá a um ente “maléfico” a criatividade rebelde que o questione com profundidade.

Vicente do Rego MonteiroAssim, poderíamos dizer que nas cenas de tragédia (em qualquer tempo histórico) há sempre a reprodução do primitivo assassinato do Grande Pai da horda primitiva (ver Freud, Ferenczi etc.) – que oprimia e tiranizava os filhos e as mulheres de seu domínio – e num determinado momento era assassinado pelos filhos rebelados. Mas por ser ele, além de chefe e tirano, o Grande Pai, existirá nesse simbolismo, constante reprodução do inevitável arrependimento posterior (que em Floriano pode encontrar-se também no… inferno que há em si mesmo?) que será reproduzido e, portanto representado, isto é, devolvido ao consciente, no processo totêmico das tribos, que sacrificam e imolam símbolos, ou signos (como animais, etc.), depois de tê-los adorado; e além de emitir a representação desse assassinato, exorcizam-se dele, também por processos que viram arte, através de explorações do desejo, que utilizam, habilmente, os mais variados monstros: as figuras dos bisontes em desenhos pré-históricos, encontradas nas cavernas, por acaso não seriam uma imagem adorada aos animais (arrependimento) que eles matavam? E também uma forma de exorcizar-se desse “crime”? Não esqueçamos que a atual mídia globalizada exerce sobre os espectadores uma influência de adesão equivalente a uma fé religiosa, revestida de modernidade e até verdade científica. E suas imagens, não terão uma função equivalente? Mas, ao mesmo tempo, isso na alma funciona dinamicamente: provocará sempre seu contraponto, através das oposições da psique, nada científicas.

Os cultos de orgia ao deus Dionísio e Baco, associando festas desregradas, de prazer e rebeldia – sobretudo a histeria (libertação) feminina – a símbolos de suplício, sado-masoquismo, morte e sacrifícios, eram algo expressivamente demonstrativo da representação do júbilo, pela morte do tirano (exploração do desejo?) e arrependimento através dessas representações, como forma de castigo (por ter cometido o crime contra o pai?). E a mídia atual, bem surtida nas imagens de violência, iria, de uma certa maneira ao encontro da satisfação dionisíaca, que os adoradores (expectadores) já recebem como pacote fechado? Se é assim, poderíamos pensar que a autêntica função do prazer libertino é apoderada por um golpe psicológico dessa mesma mídia, que transforma o “penitente” em prisioneiro a um sistema de venda de produtos. É curioso que alguns evangélicos, de radicalismo caricatural, proíbam seus adeptos de assistir televisão, atribuindo-lhe manifestação demoníaca; e para eles esse meio eletrônico, nada mais é do que uma forte concorrência no oficio.

A mídia dos meios de comunicação, de hoje em dia, com suas novelas ou noticiários (nesse ponto ambos possuem a mesma função) é o engano necessário para rever a vida. A mentira (reinvenção imaginativa) dos poemas épicos de Ulisses; a Odisséia e a Ilíada (noticiário da guerra de Tróia) são a fantasia do poema e soam como um equivalente aos nossos noticiários sobre guerras programadas pelo poderio da cultura hegemônica (ou das potências dominantes do mundo) na atualidade moderna. Em princípio, os noticiários se apresentam como a única verdade, contrapondo-se a um sentido ficcional que o espectador possa imaginar; mas essa aparente verdade é apenas a ficção quando ideologizada por uma idéia de domínio, se entendermos essa ficção no sentido da modificação do fato em função da idéia pré-dominante de quem o emite. Mas, também, ao compreender como verdade tal reapresentação cultural da realidade, na forma da criação de uma nova ação potencial, teremos uma realidade reformulada na subjetividade do espectador; algo como diriam os versos… as vítimas não são reais… apenas o telejornal é real… o que abre a possibilidade ao espectador de também inventar outro real, o seu, pelo processo de entender (no inconsciente=imaginação?) essa dicotomia implícita no noticiário da televisão (ou meios de comunicação de massa), se entendermos por isso a divisão do conceito na tensão entre pólos opostos: a emissão passiva do noticiário ao encontro da recepção ativa do expectador.

Tratar-se-ia de uma reflexão através da representação, quando o espectador define o novo conceito cultural, ou consciência cultural, assimilada sobre o fato acontecido e ou também sobre sua versão oficial. E nesse sentido, o espetáculo do absurdo é a única realidade, porque, ao expor-se o acontecimento, através da representação, a nova realidade passa a ser apropriada no espetáculo. O absurdo representado passa a ser realidade própria, reconstruída. E qualquer tentativa de explicação “lógica” que exclua os efeitos da magia, poderá resultar incompreensível ao cientista que analisa o fenômeno. Por exemplo, seria como se durante a guerra fria um noticiário anti-comunista, emitido pelas potências ocidentais, transformasse seus expectadores, da mesma “família” ideológica, em comunistas convictos (pela única influência desse noticiário), justamente promovendo o efeito contrário ao objetivo pretendido; e o mesmo se dando com a emissão de notícias comunistas que resulta-se na formação de anti-comunistas por simples recusa e oposição à “verdade” do estado coletivo. Por acaso, isso não seria também como está no poema… um penitente… (quando)… investe contra ele próprio… para livrar-se não exatamente de uma tentação externa… mas sim do inferno que há em si mesmo? Isto é, colocar para fora o sentimento reprimido de rebeldia? Obvio, neste caso, é de compreender-se o inferno do si próprio como acúmulo dos fatores rebeldes, que se manifestam na primeira oportunidade contra símbolos do poder, ou sua representação direta.

Portanto, os resultados dos mesmos acontecimentos serão diferentes ao passarem pela “interpretação” do inconsciente, que por isso o classificamos como vida imaginária real. O inferno interno é o caldo de magia – aquecido pelo fogo da imaginação – que cada um possui, mas ninguém conhece muito bem, e que pode levar a conseqüências imprevisíveis, ditadas pela psique individual, esta associada a muitos arquétipos do coletivo. Cada “expectador” pode gerar um novo fato, e uma nova realidade, preenchida de um conceito vivo (o conceito vivo que se reproduz por si mesmo é o símbolo); uma ação refeita por atores e espectadores, ou um significado da produção do… si mesmo, pois… o homem é fruto do que cria em sua mente… na realidade, o mundo é bem mais simples… claro, o mundo é mais simples se fosse só a notícia, mas não é, porque possui o complicador do inferno potencialmente criativo do expectador; e ele é feito de muita tragédia.

Tratando de resultados, é muito importante saber que só seria possível aproximar-se do prazer através do “real em representação”, porque os primeiros “gozos” nunca são próprios, isto é, os acontecimentos sempre são mais rápidos do que a possibilidade dos sentidos em apreendê-los (mesmo no caso de uma relação sexual, ela só terá os maiores efeitos a longo prazo). A sensibilidade é mais lenta, e trabalha com a possibilidade de re-estabelecer os acontecimentos, para, de forma mais planejada, sentir o prazer ao revivê-los. E essa “releitura” é criação. E é, sobretudo, a essência que a motiva. Nesse caso, a saudade, fenômeno de vivência pessoal e emocional muito acentuado, pode ser considerada uma reinvenção do acontecido com representação de desejos, alegrias ou tristezas, por longo período de vida. É tentador pensar que as insuficiências do processo representativo estabelecem certas formas de vivenciar a saudade. Ela estaria diretamente ligada às “impossibilidades” (imaginarias?) da representação, da mesma forma que as satisfações estariam próximas à capacidade de representar, revivendo situações, que compensariam certo vazio deixado pela saudade. Portanto, a saudade está no âmbito do inferno, que provoca a formação de novas imagens, quer dizer, a criação, e enquanto sua natureza não for inteiramente compreendida, será símbolo, mas se for elucidada, passará a ser signo, distintivo, por referir-se a algo conhecido.

A mídia eletrônica estabelece possibilidades de representação global, ou uma certa compensação falsa ao que não poderíamos legitimamente criar como equivalente imaginativo do si próprio. E nesse sentido, a mídia fornece instrumentos para o imaginário da cultura vivenciada, e estabelece elementos de unidade coletiva (o que a fortaleceria como totem, por transferência coletiva?). Isso não quer dizer que a cultura de massas seja o determinante no comportamento das pessoas, individualmente ou por grupos de afinidades familiares, amorosas, de ligações econômicas, políticas ou de qualquer tipo de proximidade afetiva específica. A cultura global, da representação de vivências (ou acontecimentos) determina também uma cultura de comportamentos coletivos, de onde derivam e se estabelecem, por sua vez, formas de pensar e agir individuais. E, por tratar-se de coerções coletivas sobre o indivíduo, sempre estaremos a ponto de transgredi-las. A insatisfação pessoal (em arte como em emoção) é germe da futura revolta dos irmãos (social) contra o pai opressor no sentido da repetição desse arquétipo.

As atitudes cotidianas – de indivíduos ou pequenos grupos – são determinadas por maior aceitação às formas do espetáculo comum ou de maior oposição a ele, que, neste caso, podem estabelecer outras formas mais alternativas de vivência representativa. E dessa maneira, a rejeição, a rebeldia são também uma representação da atitude oposta à tirania do pai da horda primitiva, não exatamente como uma verdade histórica determinada, mas como essência de toda a vida familiar e de relações, desde o início dos seres humanos no mundo, tendo em vista o processo biológico de nascer, crescer, ser autônomo, dominar, fecundar e gerar, acompanhados por luta de sobrevivência. Nesse sentido, os arquétipos da repetição histórica milenar são sedimentos “genéticos” de um mecanismo vivo de criação, também transferido ao social. E existe um elemento central que estimula, tanto os fenômenos de criação, como os de repressão: a libido, ou sentimento de prazer. De passagem, diríamos, que da revolta contra o “pai” nasce o regime dos filhos (homens e mulheres), solidários por um período, até voltarem a reproduzir o domínio. Neste caso particular, existe o elemento especial do matriarcado, cujos aspectos de retorno, nos dias de hoje, marcaria um grande movimento de caráter “conspirativo”, a partir da “função secundária” (como diria J. Hillman). Mas esse assunto, por sua natural complexidade exigiria uma reflexão mais completa, a ser feita separadamente.

Ainda sobre este aspecto, do prazer na representação, não poderíamos deixar de citar uma passagem histórica: o poeta John Milton, nascido na Inglaterra em 1608, religioso e puritano, mas de espírito rebelde e libertário, aliou-se à revolução liderada por Oliver Cromwel, do parlamento democrático contra a monarquia – que enforcou o rei Carlos I e derrubou o poder dos bispos católicos. O poeta Milton pese sua religiosidade militante, não aceitava a hierarquia eclesiástica, divergia, também, dos próprios puritanos, por ter ele idéias renascentistas relativas à liberdade do homem em decidir sobre seu destino, sem depender de graça divina para salvar-se ou condenar-se. Ao escrever o “Paraíso Perdido”, sua grande obra poética, Milton re-elabora a história bíblica, mostrando um demônio (o filho rebelado de Deus-Pai) que se revolta contra o destino de ter perdido a guerra frente aos anjos celestiais (os outros irmãos que ficaram do lado do pai). Corajosamente, esse demônio, filho renegado de Deus, derrotado e já habitando as trevas, viaja pelo cosmo desconhecido, enfrenta seus perigos (influência também das idéias cósmicas de Galileu Galilei, que enfrentou a Igreja) e invade o paraíso divino, que Deus havia criado na Terra, como verdade absolutista. Note-se que esse desafio de Satã opta pelo não enfrentamento armado, mas por um golpe psicológico (e vingativo?) contra o pai opressor, revestido de êxito, ao final. O heróico líder é carismaticamente apoiado por seus exércitos de demônios, que permanecem à espera da libertação, no inferno. O plano desse demônio consiste em revelar a Adão e Eva o segredo de uma outra vida, que lhes era negada pela cúpula do céu. Mas aí, Satã (como Milton o chama) não só representa a vingança, mas a libertação. O poeta Milton, nesta obra, mostra também que Adão e Eva não foram enganados e levados ao pecado libertário por ingenuidade, mas tiveram em suas mãos o poder de opção, e livremente escolheram esse caminho por vontade própria, quando poderiam decidir pelo outro, se quisessem. E é este um dos aspectos da representação a que nos referimos: a diferença entre o estado de realidade (bíblica) da sociedade da época e a representação rebelde, feita por John Milton, do mesmo fato. Somente, devido a tal caráter inovador “Paraíso Perdido” adquire verdadeiro potencial de grande poesia; de outra forma seria um poema sem maior significado, provavelmente esquecido nos dias hoje.

Vicente do Rego MonteiroOutro fato, em decorrência disso, está relacionado às idéias sobre teatro, forma que os puritanos ingleses, após terem derrotado a monarquia, condenaram e proibiram em todo o país, porque consideravam erro introduzir no palco violência, sangue, mortes, sofrimentos físicos, característicos dos dramas de Shakespeare. Portanto, o próprio puritanismo da época é a prova que atesta onde reside a essencialidade do gozo representativo, ao dedicarem rigorosa repressão a essa forma de dramaticidade “libertina” – como assim era chamada – e ao atingir diretamente o teatro, vetavam uma forma de prazer. John Milton não concordava com a puritana proibição do teatro, por tratá-lo, ele mesmo, como um bom instrumento educativo, e apresentou, como justificativa, o modelo da tragédia grega, que substituía a ação do acontecimento pela narração da violência, esta feita por coro ou mensageiros. Milton com essa atitude dúbia revelava a mesma repressão ao prazer, por condenar a ação viva, mesmo aceitando o resto da teatralidade ao estilo grego. E, diga-se de passagem, que os próprios puritanos, ao tomar o poder, não escaparam à tentação de guilhotinar, desnecessariamente, o rei Carlos I, em espetáculo público diante da multidão londrina, e exibir às massas a cabeça decepada e sanguinolenta do infeliz monarca. E é bom citar, que se a narração da violência se dá no caso do teatro grego, não é o mesmo no poema homérico, como a Ilíada, onde as cenas de sangue são descritas, e os massacres são relatados em vivos detalhes.

Os chamados acontecimentos da realidade (guerras, atentados, catástrofes, novelas, romances, comédias, entretenimentos, etc.) apresentam-se como material inicial para a função da reprogramação por intermédio das representações do corpo, pois, não há representação sem a presença do corpo. E não podemos esquecer: tudo o que é representado em noticiários, mesmo muito recentes, ou exibidos ao vivo pela televisão, passa a não ser mais realidade em frações de segundo, após sua apresentação. Seria algo parecido, como se a “tragédia teatral grega” estivesse em andamento no momento do “acontecer” do fato que dá origem à ficção; isso, naturalmente, não seria tecnicamente possível à época dos gregos. Porém, o fenômeno de representar para o imaginário aquilo que já foi, equivaleria ao sentido da mídia televisiva de nosso tempo, que o faz em prazos infinitamente mais curtos. Se as cenas de horror, de violência, de traições, provocam prazer no ato da representação teatral, determinando o nível da qualidade artística não pela morte em si, mas pela representação bem elaborada das cenas de morte – ou sua capacidade de provocar emoções – assim também, os diversos prazeres recriam-se, fabricam-se e se consomem, nesses atos representados pelos espetáculos com tecnologia moderna. Mas, o que seria exatamente o prazer, nesse caso?

Pensamos que hoje só seria possível encontrar uma explicação desse fenômeno no elemento psicológico que permanece vivo em nosso inconsciente; aquele das figuras ancestrais, fixadas através de vivências de milhares de anos pré-históricos em nossa gênese de hábitos comportamentais, e que se referem às ações repetitivas do comportamento humano nas hordas primitivas, como já nos referimos, onde o poder estava no grande chefe e pai (trata-se de conceitos no âmbito da psicologia dos arquétipos). Obviamente que a “repetição” sempre incorpora criações novas. No mito encarnado no imaginário, o pai oprimia e reprimia e até matava e castrava os filhos, porém num determinado momento seria vencido, destituído e morto, para instalar-se o regime solidário dos irmãos. Por sua vez, segue-se a fase do arrependimento, que significa a retomada do regime antigo, a reação, ou a regressão, após o período revolucionário. Não se trata de estabelecer o exemplo, como verdade histórica que a ciência comprovaria nos mínimos detalhes. Está aí apenas a essência de atitudes que determinam a psicologia individual e coletiva, com mil variadas formas de expressão, e adaptadas às condições sociais de cada época; e que traduzem, em arte, os ciclos dessa relação humana, permanentemente recriada no mundo. E o prazer é o eco dessa energia psicológica que vivifica tal movimento, tanto para avançar, como na hora do recuar. Ocorre-nos de associar essas idéias aos versos do poema citado… nossa idéia de catástrofe adora ver o eixo deslocado… de um dia para outro, em um telejornal qualquer… vítimas aqui ou acolá, mas sempre vítimas.

A tragédia do atentado terrorista do famoso 11 de setembro, provocada pela explosão das duas torres gêmeas em Nova York, produziu dor às vítimas no ato do acontecer, mas a sua representação – repetida milhares de vezes pelas televisões do mundo inteiro – provocou o mesmo apreço, em qualidade de espetáculo, que suscitaria uma boa cena de massacre, representada em uma grande ópera, por exemplo, ou em peça de teatro, cinema, etc. A descoberta, em seu esconderijo, de Sadam Hussein, ex-presidente destituído do Iraque – que os americanos simbolizaram como resposta drástica ao atentado de Nova York – e preso portando no rosto barba de humilde profeta, num buraco debaixo da terra, tanto poderia causar júbilo a seus inimigos como sentimento de compadecimento e solidariedade de uma boa parte da opinião pública local e mundial (uma pelo pai já destituído, outra pela ressurreição do mesmo?) por ter sido fruto de um país invadido, com a desculpa de procurarem armas de destruição em massa que nunca se acharam. Para reverter o espetáculo a favor dos vencedores, a representação tentará favorecer a quem dirige os meios e, provavelmente, procurará compensar a humilhação da representação anterior, das torres explodidas. Mas é inevitável que os espectadores sempre encontrarão formas diferentes, ou mesmo opostas, de recriar o espetáculo no seu inferno interno.

Tanto se falou mal de Che Guevara, que apenas esse fato o transformou em mito ou símbolo, sem necessidade de uma contra-informação da esquerda, por exemplo. Os sentimentos de prazer encontram-se próximos às reproduções da realidade recriada, e a mídia não consegue dominar a parte do mundo que escapa ás suas imagens culturais, correspondentes a uma consciência oficial de “realidade”. Se a mídia quer provocar horror ao mostrar uma tragédia pela TV, poderá provocar satisfação por mecanismos acionados do inconsciente coletivo, na maior parte dos expectadores. Por exemplo, no desejo simbólico da destruição de um poder, cujo arquétipo cultural pode representar um consenso de opressão generalizada. E será sempre preciso criar a imagem representativa de um culpado e impingir-lhe um arquétipo demoníaco, e humilhá-lo devidamente diante das câmeras de televisão do mundo, para que o pai traído possa obter dos assistentes uma compensação teatralizada da culpa dos filhos. Mas os arquétipos do inconsciente coletivo também podem apelar ao Daimon, para daí extrair outras conclusões. Nesse sentido a imaginação vira energia de realidade e a representação pode ser matéria prima dessa nova re-elaboração, qualquer que seja. E neste caso, uma obra de arte ou uma revolução se equivalem.

Vale citar um exemplo do que seria o “arrependimento”, frente a um pai absolutista deposto, em que os “filhos” pedem a volta do monarca. O teólogo e biblista chileno Paulo Richard, ao analisar de forma crítica a eleição do papa Bento XVI, e para ilustrar como um tradicionalista da ala conservadora da Igreja Católica é feito papa, confirmando o aspecto da “volta” ou permanência do pai opressor, diz o seguinte: …É paradigmático o fato bíblico no primeiro livro de Samuel, Cap. 8, onde o povo pede a Samuel um rei. Depois de 200 anos que o povo estava vivendo feliz sem um rei, sem templo e sem exército permanente. Pese a explicação de Samuel de todo o negativo que representa ter um rei, ele não consegue demover o povo em sua insistência. Nasce, assim, a monarquia em Israel, que durará mais de 400 anos e que será, salvo poucas exceções, uma experiência negativa e fortemente criticada pelos profetas.”

Se o desfrute (poder da sensibilidade em apreender o acontecimento) é o principal objetivo para onde se move a atividade artística, e essa atividade é a reprodução programada e representada da ação – onde houve a essência do acontecer primordial, no momento em que ainda não era possível apreendê-lo totalmente – então as representações são as verdadeiras ações do prazer com a possibilidade de completar a apreensão. Isso, por serem, as representações, a perseguição consciente produzida para conquistar prioritariamente o prazer, mesmo que retratem uma tragédia.

Não podemos esquecer, no entanto, que também existem formas abstratas de representar o existente, que não se assemelham à representação “realista” do ato, provavelmente porque teriam sido re-elaboradas em planos do inconsciente coletivo ou individual, muito profundo, e retomadas por processos mais subjetivos. Isso vem a confirmar que todos os acontecimentos se re-elaboram, uma ou infinitas vezes, com a representação ou, antes dela, em sonhos, ou em outros aspectos do imaginário. Daí o surrealismo? E poucos são os acontecimentos novos que não possuam encadeamento com os anteriores, fazendo supor que tudo seja uma questão total e permanente de representação. Sendo que as representações mórbidas são estáticas, em si, e as vivas criam sempre algo novo, a cada vez. Mas a mórbida pode deixar de ser estática, quando captada por elemento estranho (alheio) que possui um Daimon vivo para recriá-la.

E assim, da mesma forma que as sensações de amor e ódio se renovam por uma constante retomada subjetiva dos acontecimentos, o prazer resulta num elemento complexo que não se satisfaz apenas com um tipo de teatralização do bem, porque o mundo do inconsciente, ao habitar cada pessoa, não se sujeita a versões unilaterais do conceito dominante, seja através de que espetáculo for, pois, se no dizer da poesia… o homem é fruto do que produz em sua mente… e isto significa algo bem mais complexo do que a aparência (ou tentação) exterior, ele não pode ser reduzido à simplicidade do mundo aparente, que dogmatiza, de forma unilateral, os conceitos de amor e ódio, de bem e mal, conforme as conveniências da tirania de turno.

No entanto, existe uma importante diferença entre expectador da mídia e agente de criação. A maioria dos indivíduos é formada por expectadores dos meios de comunicação, e participam mais intensamente ou menos, conforme o posicionamento dos meios; por exemplo, mais quando se trata de competições esportivas em que se estabelece uma cultura de disputa e ligação emocional em relação às equipes que representam os antagonismos e transportam isso para a vida individual e cotidiana do espectador. Esse mecanismo, por diversos motivos, é estendido às disputas políticas ou eleitorais, às religiões ou enredos de novelas, entre tantas outras formas. No entanto, o noticiário, de maneira geral, é hoje o instrumento unificado que determina um certo padrão universal sobre a representação, e direciona o senso comum em relação à massa de expectadores da mídia. Seria algo parecido ao que foram, como dissemos, as tragédias gregas para a cultura helênica; algo assim como os poemas épicos, o simbolismo das guerras, a defesa dos grupos e nações, etc. O poeta Floriano Martins, nos assinala, em comentário posterior referente ao citado poema “Jornal Nacional”, o seguinte:

Vicente do Rego Monteiro“…acho que esta idéia da representação é sempre fascinante, pois sua ação é de uma ambigüidade atroz. Não digo propriamente o prazer da representação, mas antes o fluxo e refluxo da representação. A mídia mais tratou de perverter a representação do que lhe dar uma nova interpretação. E como resultado dessa perversão a arte, que era representação em um sentido passou a ser em outro.”

No mundo contemporâneo, ao refletir sobre arte, teatro, literatura, música, pintura, escultura, ou na poesia contida dentro dessas obras, devemos considerar que essas atividades estão restritas a grupos reduzidos de criadores; justamente, aqueles que não se conformam em ser, simplesmente, expectadores da cultura de representação pré-dominante.

No entanto, as formas “secundárias”, acessíveis aos artistas são uma recriação ficcional na mesma linha da busca de prazer (no sentido de fluxo e refluxo), através da reinvenção imaginativa da realidade. O acesso coletivo a essas formas (criador, além de expectador) é ainda bastante reduzido, devido principalmente ao impacto mágico da tecnologia da mídia eletrônica, que fica ao alcance dos lares mais simples e das pessoas mais pobres e que ofusca qualquer forma de representação autêntica. É por isso que, através do cinema os artistas “alternativos”, quando conseguem determinadas “brechas”, liberam esses conteúdos a um círculo maior de pessoas. Isso se dá pelo mesmo processo de utilização da imagem em movimento, que tanto fascina o espectador, por ter a capacidade mágica de aproximar tal mensagem à forma de seus sonhos, imagens “cinematográficas” milenarmente reproduzidas ao dormir, durante toda a metade de vida de qualquer ser humano. E essas imagens, dos sonhos, conseqüentemente, habitam o mundo do inconsciente, individual e coletivo, onde se manifestam os desejos reprimidos por um mecanismo muito similar ao das imagens de cinema. Daí, também, a mídia oficial, tentará sempre, apoderar-se dessa tecnologia (quando em mãos dos alternativos) por sua mania prioritária de reproduzir a mercadoria, induzindo-nos à loucura mercadológica do consumo inútil. Isso nos lembra alguns exemplos significativos a título de ilustração, vejamos: os americanos não se conformaram em divulgar o belo filme do diretor espanhol Pedro Almodovar “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”; e decidiram comprar os direitos e o refilmaram para o mercado americano; o mesmo aconteceu com o impressionante, belo e muito premiado filme mexicano “El Matador” (ou “El Mariache” não me recordo bem), de diretor alternativo latino-americano, realizado com recursos familiares (dois mil e quinhentos dólares se não me engano), e que foi refeito numa produção Hollwoodiana, para esse mesmo mercado, tendo no papel principal o ator, já bem “americanizado”, Antonio Banderas que por ironia era um antigo colaborador “alternativo” de Almodóvar.

Portanto, a massa de expectadores do consumo teve acesso às facilidades da informação “fantástica”, praticando um pulo relativamente mágico: do difícil e deficiente aprendizado da escrita e da leitura, saltaram para o deslumbramento do desconhecido e do “maravilhoso” oferecido quase de “graça” por aqueles que monopolizam os meios de comunicação eletrônica. Se isto nos parece pouco, trata-se de um instrumento equivalente ao cavalo, à roda e à arma de fogo que, por desconhecimento, surpreenderam as civilizações Astecas, Maias e Incas, roubando-lhe os deuses, ao substituí-los pelo poder “mágico” dos colonizadores europeus. Os pouquíssimos soldados agressores somente tinham, de superior, cavalos e armas de fogo. E assim, civilizações inteiras, socialmente mais avançadas do que os países da Europa, através desses fatores “mágicos”, foram rendidas ao domínio e massacre dos invasores, que, para tal façanha criminosa usaram poucos homens e, em muitos casos, nem deram um só disparo. Por acaso, esse exemplo, não estaria muito próximo à atual destruição da natureza feita com a complacência das massas imobilizadas pelas “maravilhas” da tecnologia? Que lhes é apresentada nos sonhos re-produzidos, em imagens re-apropriadas pelo “pai” opressor? 

Na Grécia antiga, as tragédias serviam para consolidação da estrutura de poder, mas também para pensar e criar nova cultura, enfim, rebelar-se, e reproduzir a existência cultural e espiritual daqueles seres. A cultura da criação representativa, quando em contraposição à mídia, existe hoje em muito maior grau do que aparece exposto. Bastaria que tivéssemos meios de saber sobre os milhares grupos de folclore, de música popular; outro tanto de artesãos e, na literatura, a popularização habitual de escrever poesias, além dos contadores de histórias, como é hábito entre inumeráveis indivíduos em todos os países do mundo, ou o surpreendente movimento Hip Hop de origem marginal, por exemplo. Isso significa, antes de tudo, uma forma de superar o estágio passivo de simples espectadores e, de alguma forma, reproduzir a realidade, reinventando-a, através da reflexão ficcional e da fantasia libertadora.

O exercício do amor é quase uma mentira, como pode ser um conto, um romance, um poema, mas é uma das poucas representações da realidade de alcance comum e com possibilidade de prazer especial individualizado, incluindo a paixão, a tragédia, a emoção intensa, o ciúme, o júbilo, a saudade, o re-encontro, o estado de melancolia, o de alegria, etc. Ele existe em vários tipos de situações, inclusive na criação simbólica. Viver o amor em estado de arquétipo significa prolongá-lo na arte ou na criação poética em geral, no misticismo, nas amizades, ou mesmo nas ações gratuitas de solidariedade; isso como produção de libido, ou do fazer alma, que interfere na produção de energia para recriar um mundo repleto de imagens (conscientes e imaginárias). Significaria erguer a própria alma vital, em direção a um resultado artístico ou simplesmente na produção de uma emoção.

Se o amor pode ser a criação sofisticada a nível pessoal, ao alcance de qualquer individuo, é um bem que não implica custos, além da própria energia mobilizada (refeita e aumentada pela troca) e nem requer muito investimento em aprendizado. Por outro lado, não é tão fácil vivenciar sua representação, pois, o espetáculo dominante que o consumo forçado nos oferece, desintegra a capacidade pessoal de exercitar a representação do amar. E é por isso que esse inédito e muito antigo sentimento oferece um conteúdo artístico incomparável. Porém exige uma energia criativa de alta sensibilidade, como fogo inicial para acendê-lo (e libertá-lo da mesmice do senso comum) porque, uma vez aceso, com a ajuda do outro, propagar-se é de sua própria autonomia (autonomia do símbolo). Para amar e usar essa matéria prima na poesia, no conteúdo das artes ou das simples emoções, existem barreiras que incutem o antes é necessário comprar, fabricar e produzir inutilidades, confundindo os conceitos de desejo pessoal – os arquétipo da realização – e embaralhando os caminhos que perturbam o natural fluxo da libido, e causam confusão a Psique, essa princesa que nos habita.

Re-apropriar-se dos sentimentos do si mesmo (imagens do inconsciente apropriadas pela consciência na realização do eu), por ser uma função incomparavelmente mais ampla do que o grande ego – por abrangê-lo, indo mais além – requer tempo, reflexão, pensamento e uma estratégia de auto-estima, a partir de processos extremamente simples, inadmissíveis pela sociedade de consumo, mas descobertos na própria criação, através da escrita ou da palavra inventada, por via de uma imagem interna. E amar, às vezes pode provocar tudo isso: a re-apropriação do desejo que conseguimos não deixar alienar-se no produto externo. Neste caso, produto, é a transformação em objeto, que se faz através da destruição da natureza (a do entorno e a íntima) quando seria possível transformar o objeto natural, por intermédio da imaginação viva, sem destruir a energia indispensável para fazê-lo. Isso é a poesia. Que nem precisa ser escrita, mas sempre sentida. Também essa forma possui uma imagem no arquétipo do matriarcado, símbolo que significa algo mais do que o simples feminino, mesmo que este seja a base, porém abrangido pelo anterior, numa misteriosa amplitude. 

José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Vicente do Rego Monteiro (Brasil).

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