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revista
de cultura # 46 |
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Demônios, paraísos perdidos & telejornais José Carlos A. Brito
Jornal Nacional Quando um penitente investe contra ele
próprio / é para livrar-se não exatamente de uma tentação externa, /
mas sim do inferno que há em si mesmo. / O homem é fruto do que cria em
sua mente. / Na realidade, o mundo é bem mais simples. / A exploração
do desejo é que dá ensejo a esses monstros tão hábeis. / E nossa idéia
de catástrofe adora ver o eixo deslocado, / de um dia para outro, em um
telejornal qualquer. / Vítimas aqui ou acolá, mas sempre vítimas. / As
vítimas não são reais. Apenas o telejornal é real. [Floriano
Martins] A tragédia grega, ao ser representada na atualidade é
apenas uma peça teatral, mas, de certa forma significava para a civilização
da época o que para nós, hoje, é a mídia eletrônica de massas,
acrescida da imprensa feita de jornais e revistas (e em outra escala dos
livros e filmes); o mesmo acontecia com os poemas épicos, a exemplo da Ilíada
e da Odisséia, entre outros. Obviamente naquele tempo havia outras formas
práticas de comunicação da mensagem que foram assimiladas também pelo
teatro, em personagens na forma de mensageiros e narradores. Com a diferença
que a tragédia e os poemas cantados ao som da lira, como arte,
incorporavam-se a certo âmbito psicológico de profundidade, pois eram
cercados por um complexo de idéias e pensamentos que traduziam a alma do
ser humano da época e suas necessidades ligadas ao espírito. Se pudéssemos
chamar a isso expressão de uma verdade, onde a vida imaginária (dos arquétipos)
funde-se com a obra, essa “verdade” aparecia plena de vitalidade na
forma trágica da representação. Por tal motivo, a tragédia cumpria várias
funções, além de avançar a religiosidade; contribuía para a estruturação
das relações de poder e até sua contestação, pois ali estavam fixados
esses movimentos. Não seria exagero afirmar que qualquer sociedade
necessita da arte, da poesia, da literatura, porque só através delas
consegue entender os conflitos, os dilemas e tragédias individuais, que dão
consistência e significado à personalidade social. Mas como somente
alguns produzem as formas artísticas, a tal nível, todos podem vivenciá-las
ao assistir as expressões mais acabadas da arte, e confrontá-las, no dia
a dia, com sua própria realidade pessoal. E até, a partir disso,
encontrar possibilidades próprias de criar. Diríamos que, numa comparação à primeira vista, a mídia
atual apresenta uma máscara de outro tipo, na comparação com os dramas
anteriores: hoje assistimos a uma trágica voracidade, no mundo, muito
mais acentuada e revestida pelos símbolos mórbidos da propaganda. E a
morbidez é dada pelo predomínio do mercantil destrutivo, que se impõe
às formas espirituais de preservação e exerce o aniquilamento
irracional de cunho patológico. Mas, claro, se o mercado dirige a ação,
os símbolos representativos desse desequilíbrio nem sempre terão conseqüências
mórbidas, porque ao tratar-se de símbolos, por estes serem autônomos,
poderão tomar uma forma diametralmente oposta, transformada pelo poder
criativo dos espectadores. E nisso está a essência do prazer, inerente
à forma representativa e que fala à alma do espectador, mal ou bem… a
exploração do desejo é que dá ensejo a esses monstros tão hábeis… como
diria o poeta. A tragédia grega (e supostamente a comédia) foi a grande
ficção de massas para re-viver, através da representação, uma certa
mentira da realidade, que não seria mentira no sentido de contrário da
verdade, mas na forma de imaginação criativa, por ser a negação da
suposta verdade do real. E essa imaginação, recriada, torna-se necessária
para rever a vida através da repetição representada. Tal fenômeno está
bem próximo à cultura televisiva, que é a leitura protegida (releitura)
da sociedade sobre seus próprios medos. E proteção contra o sentimento
de medo (ou de culpa?) ancestral, que o ser humano carrega, como arquétipo
de uma imagem primordial, já incorporada “geneticamente” à sua
psicologia individual, por intermédio da coletiva. Ou a representação
– que na sociedade moderna se dá pelos meios de comunicação de massa
– como experiência para exorcizar esse medo, através de figuras
vivenciadas da re-apresentação; e nos versos… quando um penitente
investe contra ele próprio / é para livrar-se não exatamente de uma
tentação externa, / mas sim do inferno que há em si mesmo… diríamos
que o poder investe com formas que “tranqüilizariam” o individuo para
aceitar a obediência e reprimir o instinto de contestação, engolindo-o
para dentro do inferno do si mesmo. Portanto, o reverso da moeda é que
ele acumula ali – nas repressões embutidas no inconsciente? – o
material criativo, e explosivo, das futuras manifestações. Trata-se de
um sentido de fazer criativo o arquétipo demoníaco que habita esse
inferno de riquezas acumuladas (Vejam-se obras poéticas de Willian Blake,
ou “Paraíso Perdido” de John Milton, por exemplo). E o poder
sempre atribuirá a um ente “maléfico” a criatividade rebelde que o
questione com profundidade.
Os cultos de orgia ao deus Dionísio e Baco, associando
festas desregradas, de prazer e rebeldia – sobretudo a histeria (libertação)
feminina – a símbolos de suplício, sado-masoquismo, morte e sacrifícios,
eram algo expressivamente demonstrativo da representação do júbilo,
pela morte do tirano (exploração do desejo?) e arrependimento
através dessas representações, como forma de castigo (por ter cometido
o crime contra o pai?). E a mídia atual, bem surtida nas imagens
de violência, iria, de uma certa maneira ao encontro da satisfação
dionisíaca, que os adoradores (expectadores) já recebem como pacote
fechado? Se é assim, poderíamos pensar que a autêntica função do
prazer libertino é apoderada por um golpe psicológico dessa mesma mídia,
que transforma o “penitente” em prisioneiro a um sistema de
venda de produtos. É curioso que alguns evangélicos, de radicalismo
caricatural, proíbam seus adeptos de assistir televisão, atribuindo-lhe
manifestação demoníaca; e para eles esse meio eletrônico, nada mais é
do que uma forte concorrência no oficio. A mídia dos meios de comunicação, de hoje em dia, com
suas novelas ou noticiários (nesse ponto ambos possuem a mesma função)
é o engano necessário para rever a vida. A mentira (reinvenção
imaginativa) dos poemas épicos de Ulisses; a Odisséia e a Ilíada
(noticiário da guerra de Tróia) são a fantasia do poema e soam como um
equivalente aos nossos noticiários sobre guerras programadas pelo poderio
da cultura hegemônica (ou das potências dominantes do mundo) na
atualidade moderna. Em princípio, os noticiários se apresentam como a única
verdade, contrapondo-se a um sentido ficcional que o espectador possa
imaginar; mas essa aparente verdade é apenas a ficção quando
ideologizada por uma idéia de domínio, se entendermos essa ficção no
sentido da modificação do fato em função da idéia pré-dominante de
quem o emite. Mas, também, ao compreender como verdade tal reapresentação
cultural da realidade, na forma da criação de uma nova ação potencial,
teremos uma realidade reformulada na subjetividade do espectador; algo
como diriam os versos… as vítimas não são reais… apenas o
telejornal é real… o que abre a possibilidade ao espectador de também
inventar outro real, o seu, pelo processo de entender (no
inconsciente=imaginação?) essa dicotomia implícita no noticiário da
televisão (ou meios de comunicação de massa), se entendermos por isso a
divisão do conceito na tensão entre pólos opostos: a emissão passiva
do noticiário ao encontro da recepção ativa do expectador. Tratar-se-ia de uma reflexão através da representação,
quando o espectador define o novo conceito cultural, ou consciência
cultural, assimilada sobre o fato acontecido e ou também sobre sua versão
oficial. E nesse sentido, o espetáculo do absurdo é a única realidade,
porque, ao expor-se o acontecimento, através da representação, a nova
realidade passa a ser apropriada no espetáculo. O absurdo representado
passa a ser realidade própria, reconstruída. E qualquer tentativa de
explicação “lógica” que exclua os efeitos da magia, poderá
resultar incompreensível ao cientista que analisa o fenômeno. Por
exemplo, seria como se durante a guerra fria um noticiário
anti-comunista, emitido pelas potências ocidentais, transformasse seus
expectadores, da mesma “família” ideológica, em comunistas convictos
(pela única influência desse noticiário), justamente promovendo o
efeito contrário ao objetivo pretendido; e o mesmo se dando com a emissão
de notícias comunistas que resulta-se na formação de anti-comunistas
por simples recusa e oposição à “verdade” do estado coletivo. Por
acaso, isso não seria também como está no poema… um penitente…
(quando)… investe contra ele próprio… para livrar-se não exatamente
de uma tentação externa… mas sim do inferno que há em si mesmo? Isto
é, colocar para fora o sentimento reprimido de rebeldia? Obvio, neste
caso, é de compreender-se o inferno do si próprio como acúmulo dos
fatores rebeldes, que se manifestam na primeira oportunidade contra símbolos
do poder, ou sua representação direta. Portanto, os resultados dos mesmos acontecimentos serão
diferentes ao passarem pela “interpretação” do inconsciente, que por
isso o classificamos como vida imaginária real. O inferno interno
é o caldo de magia – aquecido pelo fogo da imaginação – que cada um
possui, mas ninguém conhece muito bem, e que pode levar a conseqüências
imprevisíveis, ditadas pela psique individual, esta associada a muitos
arquétipos do coletivo. Cada “expectador” pode gerar um novo fato, e
uma nova realidade, preenchida de um conceito vivo (o conceito vivo que se
reproduz por si mesmo é o símbolo); uma ação refeita por atores e
espectadores, ou um significado da produção do… si mesmo,
pois… o homem é fruto do que cria em sua mente… na realidade, o
mundo é bem mais simples… claro, o mundo é mais simples se fosse só
a notícia, mas não é, porque possui o complicador do inferno
potencialmente criativo do expectador; e ele é feito de muita tragédia. Tratando de resultados, é muito importante saber que só
seria possível aproximar-se do prazer através do “real em representação”,
porque os primeiros “gozos” nunca são próprios, isto é, os
acontecimentos sempre são mais rápidos do que a possibilidade dos
sentidos em apreendê-los (mesmo no caso de uma relação sexual, ela só
terá os maiores efeitos a longo prazo). A sensibilidade é mais lenta, e
trabalha com a possibilidade de re-estabelecer os acontecimentos, para, de
forma mais planejada, sentir o prazer ao revivê-los. E essa
“releitura” é criação. E é, sobretudo, a essência que a motiva.
Nesse caso, a saudade, fenômeno de vivência pessoal e emocional muito
acentuado, pode ser considerada uma reinvenção do acontecido com
representação de desejos, alegrias ou tristezas, por longo período de
vida. É tentador pensar que as insuficiências do processo representativo
estabelecem certas formas de vivenciar a saudade. Ela estaria diretamente
ligada às “impossibilidades” (imaginarias?) da representação, da
mesma forma que as satisfações estariam próximas à capacidade de
representar, revivendo situações, que compensariam certo vazio deixado
pela saudade. Portanto, a saudade está no âmbito do inferno, que provoca
a formação de novas imagens, quer dizer, a criação, e enquanto sua
natureza não for inteiramente compreendida, será símbolo, mas se for
elucidada, passará a ser signo, distintivo, por referir-se a algo
conhecido. A mídia eletrônica estabelece possibilidades de
representação global, ou uma certa compensação falsa ao que não poderíamos
legitimamente criar como equivalente imaginativo do si próprio. E nesse
sentido, a mídia fornece instrumentos para o imaginário da cultura
vivenciada, e estabelece elementos de unidade coletiva (o que a
fortaleceria como totem, por transferência coletiva?). Isso não quer
dizer que a cultura de massas seja o determinante no comportamento das
pessoas, individualmente ou por grupos de afinidades familiares, amorosas,
de ligações econômicas, políticas ou de qualquer tipo de proximidade
afetiva específica. A cultura global, da representação de vivências
(ou acontecimentos) determina também uma cultura de comportamentos
coletivos, de onde derivam e se estabelecem, por sua vez, formas de pensar
e agir individuais. E, por tratar-se de coerções coletivas sobre o indivíduo,
sempre estaremos a ponto de transgredi-las. A insatisfação pessoal (em
arte como em emoção) é germe da futura revolta dos irmãos (social)
contra o pai opressor no sentido da repetição desse arquétipo. As atitudes cotidianas – de indivíduos ou pequenos
grupos – são determinadas por maior aceitação às formas do espetáculo
comum ou de maior oposição a ele, que, neste caso, podem estabelecer
outras formas mais alternativas de vivência representativa. E dessa
maneira, a rejeição, a rebeldia são também uma representação da
atitude oposta à tirania do pai da horda primitiva, não exatamente como
uma verdade histórica determinada, mas como essência de toda a vida
familiar e de relações, desde o início dos seres humanos no mundo,
tendo em vista o processo biológico de nascer, crescer, ser autônomo,
dominar, fecundar e gerar, acompanhados por luta de sobrevivência. Nesse
sentido, os arquétipos da repetição histórica milenar são sedimentos
“genéticos” de um mecanismo vivo de criação, também transferido ao
social. E existe um elemento central que estimula, tanto os fenômenos de
criação, como os de repressão: a libido, ou sentimento de prazer. De
passagem, diríamos, que da revolta contra o “pai” nasce o regime dos
filhos (homens e mulheres), solidários por um período, até voltarem a
reproduzir o domínio. Neste caso particular, existe o elemento especial
do matriarcado, cujos aspectos de retorno, nos dias de hoje, marcaria um
grande movimento de caráter “conspirativo”, a partir da “função
secundária” (como diria J. Hillman). Mas esse assunto, por sua natural
complexidade exigiria uma reflexão mais completa, a ser feita
separadamente. Ainda sobre este aspecto, do prazer na representação, não
poderíamos deixar de citar uma passagem histórica: o poeta John Milton,
nascido na Inglaterra em 1608, religioso e puritano, mas de espírito
rebelde e libertário, aliou-se à revolução liderada por Oliver
Cromwel, do parlamento democrático contra a monarquia – que enforcou o
rei Carlos I e derrubou o poder dos bispos católicos. O poeta Milton pese
sua religiosidade militante, não aceitava a hierarquia eclesiástica,
divergia, também, dos próprios puritanos, por ter ele idéias
renascentistas relativas à liberdade do homem em decidir sobre seu
destino, sem depender de graça divina para salvar-se ou condenar-se. Ao
escrever o “Paraíso Perdido”, sua grande obra poética, Milton
re-elabora a história bíblica, mostrando um demônio (o filho rebelado
de Deus-Pai) que se revolta contra o destino de ter perdido a guerra
frente aos anjos celestiais (os outros irmãos que ficaram do lado do
pai). Corajosamente, esse demônio, filho renegado de Deus, derrotado e já
habitando as trevas, viaja pelo cosmo desconhecido, enfrenta seus perigos
(influência também das idéias cósmicas de Galileu Galilei, que
enfrentou a Igreja) e invade o paraíso divino, que Deus havia criado na
Terra, como verdade absolutista. Note-se que esse desafio de Satã opta
pelo não enfrentamento armado, mas por um golpe psicológico (e
vingativo?) contra o pai opressor, revestido de êxito, ao final. O heróico
líder é carismaticamente apoiado por seus exércitos de demônios, que
permanecem à espera da libertação, no inferno. O plano desse demônio
consiste em revelar a Adão e Eva o segredo de uma outra vida, que lhes
era negada pela cúpula do céu. Mas aí, Satã (como Milton o chama) não
só representa a vingança, mas a libertação. O poeta Milton, nesta
obra, mostra também que Adão e Eva não foram enganados e levados ao
pecado libertário por ingenuidade, mas tiveram em suas mãos o poder de
opção, e livremente escolheram esse caminho por vontade própria, quando
poderiam decidir pelo outro, se quisessem. E é este um dos aspectos da
representação a que nos referimos: a diferença entre o estado de
realidade (bíblica) da sociedade da época e a representação rebelde,
feita por John Milton, do mesmo fato. Somente, devido a tal caráter
inovador “Paraíso Perdido” adquire verdadeiro potencial de grande
poesia; de outra forma seria um poema sem maior significado, provavelmente
esquecido nos dias hoje.
Os chamados acontecimentos da realidade (guerras,
atentados, catástrofes, novelas, romances, comédias, entretenimentos,
etc.) apresentam-se como material inicial para a função da reprogramação
por intermédio das representações do corpo, pois, não há representação
sem a presença do corpo. E não podemos esquecer: tudo o que é
representado em noticiários, mesmo muito recentes, ou exibidos ao vivo
pela televisão, passa a não ser mais realidade em frações de segundo,
após sua apresentação. Seria algo parecido, como se a “tragédia
teatral grega” estivesse em andamento no momento do “acontecer” do
fato que dá origem à ficção; isso, naturalmente, não seria
tecnicamente possível à época dos gregos. Porém, o fenômeno de
representar para o imaginário aquilo que já foi, equivaleria ao sentido
da mídia televisiva de nosso tempo, que o faz em prazos infinitamente
mais curtos. Se as cenas de horror, de violência, de traições, provocam
prazer no ato da representação teatral, determinando o nível da
qualidade artística não pela morte em si, mas pela representação bem
elaborada das cenas de morte – ou sua capacidade de provocar emoções
– assim também, os diversos prazeres recriam-se, fabricam-se e se
consomem, nesses atos representados pelos espetáculos com tecnologia
moderna. Mas, o que seria exatamente o prazer, nesse caso? Pensamos que hoje só seria possível encontrar uma explicação
desse fenômeno no elemento psicológico que permanece vivo em nosso
inconsciente; aquele das figuras ancestrais, fixadas através de vivências
de milhares de anos pré-históricos em nossa gênese de hábitos
comportamentais, e que se referem às ações repetitivas do comportamento
humano nas hordas primitivas, como já nos referimos, onde o poder estava
no grande chefe e pai (trata-se de conceitos no âmbito da psicologia dos
arquétipos). Obviamente que a “repetição” sempre incorpora criações
novas. No mito encarnado no imaginário, o pai oprimia e reprimia e até
matava e castrava os filhos, porém num determinado momento seria vencido,
destituído e morto, para instalar-se o regime solidário dos irmãos. Por
sua vez, segue-se a fase do arrependimento, que significa a retomada do
regime antigo, a reação, ou a regressão, após o período revolucionário.
Não se trata de estabelecer o exemplo, como verdade histórica que a ciência
comprovaria nos mínimos detalhes. Está aí apenas a essência de
atitudes que determinam a psicologia individual e coletiva, com mil
variadas formas de expressão, e adaptadas às condições sociais de cada
época; e que traduzem, em arte, os ciclos dessa relação humana,
permanentemente recriada no mundo. E o prazer é o eco dessa energia
psicológica que vivifica tal movimento, tanto para avançar, como na hora
do recuar. Ocorre-nos de associar essas idéias aos versos do poema citado…
nossa idéia de catástrofe adora ver o eixo deslocado… de um dia para
outro, em um telejornal qualquer… vítimas aqui ou acolá, mas sempre vítimas. A tragédia do atentado terrorista do famoso 11 de
setembro, provocada pela explosão das duas torres gêmeas em Nova York,
produziu dor às vítimas no ato do acontecer, mas a sua representação
– repetida milhares de vezes pelas televisões do mundo inteiro –
provocou o mesmo apreço, em qualidade de espetáculo, que suscitaria uma
boa cena de massacre, representada em uma grande ópera, por exemplo, ou
em peça de teatro, cinema, etc. A descoberta, em seu esconderijo, de
Sadam Hussein, ex-presidente destituído do Iraque – que os americanos
simbolizaram como resposta drástica ao atentado de Nova York – e preso
portando no rosto barba de humilde profeta, num buraco debaixo da terra,
tanto poderia causar júbilo a seus inimigos como sentimento de
compadecimento e solidariedade de uma boa parte da opinião pública local
e mundial (uma pelo pai já destituído, outra pela ressurreição do
mesmo?) por ter sido fruto de um país invadido, com a desculpa de
procurarem armas de destruição em massa que nunca se acharam. Para
reverter o espetáculo a favor dos vencedores, a representação tentará
favorecer a quem dirige os meios e, provavelmente, procurará compensar a
humilhação da representação anterior, das torres explodidas. Mas é
inevitável que os espectadores sempre encontrarão formas diferentes, ou
mesmo opostas, de recriar o espetáculo no seu inferno interno. Tanto se falou mal de Che Guevara, que apenas esse fato o
transformou em mito ou símbolo, sem necessidade de uma contra-informação
da esquerda, por exemplo. Os sentimentos de prazer encontram-se próximos
às reproduções da realidade recriada, e a mídia não consegue dominar
a parte do mundo que escapa ás suas imagens culturais, correspondentes a
uma consciência oficial de “realidade”. Se a mídia quer provocar
horror ao mostrar uma tragédia pela TV, poderá provocar satisfação por
mecanismos acionados do inconsciente coletivo, na maior parte dos
expectadores. Por exemplo, no desejo simbólico da destruição de um
poder, cujo arquétipo cultural pode representar um consenso de opressão
generalizada. E será sempre preciso criar a imagem representativa de um
culpado e impingir-lhe um arquétipo demoníaco, e humilhá-lo devidamente
diante das câmeras de televisão do mundo, para que o pai traído possa
obter dos assistentes uma compensação teatralizada da culpa dos filhos.
Mas os arquétipos do inconsciente coletivo também podem apelar ao
Daimon, para daí extrair outras conclusões. Nesse sentido a imaginação
vira energia de realidade e a representação pode ser matéria prima
dessa nova re-elaboração, qualquer que seja. E neste caso, uma obra de
arte ou uma revolução se equivalem. Vale citar um exemplo do que seria o “arrependimento”,
frente a um pai absolutista deposto, em que os “filhos” pedem a volta
do monarca. O teólogo e biblista chileno Paulo Richard, ao analisar de
forma crítica a eleição do papa Bento XVI, e para ilustrar como um
tradicionalista da ala conservadora da Igreja Católica é feito papa,
confirmando o aspecto da “volta” ou permanência do pai opressor, diz
o seguinte: “…É paradigmático o fato bíblico no primeiro
livro de Samuel, Cap. 8, onde o povo pede a Samuel um rei. Depois de 200
anos que o povo estava vivendo feliz sem um rei, sem templo e sem exército
permanente. Pese a explicação de Samuel de todo o negativo que
representa ter um rei, ele não consegue demover o povo em sua insistência.
Nasce, assim, a monarquia em Israel, que durará mais de 400 anos e que
será, salvo poucas exceções, uma experiência negativa e fortemente
criticada pelos profetas.” Se o desfrute (poder da sensibilidade em apreender o
acontecimento) é o principal objetivo para onde se move a atividade artística,
e essa atividade é a reprodução programada e representada da ação –
onde houve a essência do acontecer primordial, no momento em que ainda não
era possível apreendê-lo totalmente – então as representações são
as verdadeiras ações do prazer com a possibilidade de completar a
apreensão. Isso, por serem, as representações, a perseguição
consciente produzida para conquistar prioritariamente o prazer, mesmo que
retratem uma tragédia. Não podemos esquecer, no entanto, que também existem
formas abstratas de representar o existente, que não se assemelham à
representação “realista” do ato, provavelmente porque teriam sido
re-elaboradas em planos do inconsciente coletivo ou individual, muito
profundo, e retomadas por processos mais subjetivos. Isso vem a confirmar
que todos os acontecimentos se re-elaboram, uma ou infinitas vezes, com a
representação ou, antes dela, em sonhos, ou em outros aspectos do imaginário.
Daí o surrealismo? E poucos são os acontecimentos novos que não possuam
encadeamento com os anteriores, fazendo supor que tudo seja uma questão
total e permanente de representação. Sendo que as representações mórbidas
são estáticas, em si, e as vivas criam sempre algo novo, a cada vez. Mas
a mórbida pode deixar de ser estática, quando captada por elemento
estranho (alheio) que possui um Daimon vivo para recriá-la. E assim, da mesma forma que as sensações de amor e ódio
se renovam por uma constante retomada subjetiva dos acontecimentos, o
prazer resulta num elemento complexo que não se satisfaz apenas com um
tipo de teatralização do bem, porque o mundo do inconsciente, ao habitar
cada pessoa, não se sujeita a versões unilaterais do conceito dominante,
seja através de que espetáculo for, pois, se no dizer da poesia… o
homem é fruto do que produz em sua mente… e isto significa algo bem
mais complexo do que a aparência (ou tentação) exterior, ele não
pode ser reduzido à simplicidade do mundo aparente, que dogmatiza, de
forma unilateral, os conceitos de amor e ódio, de bem e mal, conforme as
conveniências da tirania de turno. No entanto, existe uma importante diferença entre
expectador da mídia e agente de criação. A maioria dos indivíduos é
formada por expectadores dos meios de comunicação, e participam mais
intensamente ou menos, conforme o posicionamento dos meios; por exemplo,
mais quando se trata de competições esportivas em que se estabelece uma
cultura de disputa e ligação emocional em relação às equipes que
representam os antagonismos e transportam isso para a vida individual e
cotidiana do espectador. Esse mecanismo, por diversos motivos, é
estendido às disputas políticas ou eleitorais, às religiões ou enredos
de novelas, entre tantas outras formas. No entanto, o noticiário, de
maneira geral, é hoje o instrumento unificado que determina um certo padrão
universal sobre a representação, e direciona o senso comum em relação
à massa de expectadores da mídia. Seria algo parecido ao que foram, como
dissemos, as tragédias gregas para a cultura helênica; algo assim como
os poemas épicos, o simbolismo das guerras, a defesa dos grupos e nações,
etc. O poeta Floriano Martins, nos assinala, em comentário posterior
referente ao citado poema “Jornal Nacional”, o seguinte:
No mundo contemporâneo, ao refletir sobre arte, teatro,
literatura, música, pintura, escultura, ou na poesia contida dentro
dessas obras, devemos considerar que essas atividades estão restritas a
grupos reduzidos de criadores; justamente, aqueles que não se conformam
em ser, simplesmente, expectadores da cultura de representação pré-dominante.
No entanto, as formas “secundárias”, acessíveis aos
artistas são uma recriação ficcional na mesma linha da busca de prazer
(no sentido de fluxo e refluxo), através da reinvenção
imaginativa da realidade. O acesso coletivo a essas formas (criador, além
de expectador) é ainda bastante reduzido, devido principalmente ao
impacto mágico da tecnologia da mídia eletrônica, que fica ao alcance
dos lares mais simples e das pessoas mais pobres e que ofusca qualquer
forma de representação autêntica. É por isso que, através do cinema
os artistas “alternativos”, quando conseguem determinadas
“brechas”, liberam esses conteúdos a um círculo maior de pessoas.
Isso se dá pelo mesmo processo de utilização da imagem em movimento,
que tanto fascina o espectador, por ter a capacidade mágica de aproximar
tal mensagem à forma de seus sonhos, imagens “cinematográficas”
milenarmente reproduzidas ao dormir, durante toda a metade de vida de
qualquer ser humano. E essas imagens, dos sonhos, conseqüentemente,
habitam o mundo do inconsciente, individual e coletivo, onde se manifestam
os desejos reprimidos por um mecanismo muito similar ao das imagens de
cinema. Daí, também, a mídia oficial, tentará sempre, apoderar-se
dessa tecnologia (quando em mãos dos alternativos) por sua mania prioritária
de reproduzir a mercadoria, induzindo-nos à loucura mercadológica do
consumo inútil. Isso nos lembra alguns exemplos significativos a título
de ilustração, vejamos: os americanos não se conformaram em divulgar o
belo filme do diretor espanhol Pedro Almodovar “Mulheres à Beira de Um
Ataque de Nervos”; e decidiram comprar os direitos e o refilmaram para o
mercado americano; o mesmo aconteceu com o impressionante, belo e muito
premiado filme mexicano “El Matador” (ou “El Mariache” não me
recordo bem), de diretor alternativo latino-americano, realizado com
recursos familiares (dois mil e quinhentos dólares se não me engano), e
que foi refeito numa produção Hollwoodiana, para esse mesmo mercado,
tendo no papel principal o ator, já bem “americanizado”, Antonio
Banderas que por ironia era um antigo colaborador “alternativo” de
Almodóvar. Portanto, a massa de expectadores do consumo teve acesso às
facilidades da informação “fantástica”, praticando um pulo
relativamente mágico: do difícil e deficiente aprendizado da escrita e
da leitura, saltaram para o deslumbramento do desconhecido e do
“maravilhoso” oferecido quase de “graça” por aqueles que
monopolizam os meios de comunicação eletrônica. Se isto nos parece
pouco, trata-se de um instrumento equivalente ao cavalo, à roda e à arma
de fogo que, por desconhecimento, surpreenderam as civilizações Astecas,
Maias e Incas, roubando-lhe os deuses, ao substituí-los pelo poder “mágico”
dos colonizadores europeus. Os pouquíssimos soldados agressores somente
tinham, de superior, cavalos e armas de fogo. E assim, civilizações
inteiras, socialmente mais avançadas do que os países da Europa, através
desses fatores “mágicos”, foram rendidas ao domínio e massacre dos
invasores, que, para tal façanha criminosa usaram poucos homens e, em
muitos casos, nem deram um só disparo. Por acaso, esse exemplo, não
estaria muito próximo à atual destruição da natureza feita com a
complacência das massas imobilizadas pelas “maravilhas” da
tecnologia? Que lhes é apresentada nos sonhos re-produzidos, em imagens
re-apropriadas pelo “pai” opressor?
Na Grécia antiga, as tragédias serviam para consolidação
da estrutura de poder, mas também para pensar e criar nova cultura,
enfim, rebelar-se, e reproduzir a existência cultural e espiritual
daqueles seres. A cultura da criação representativa, quando em
contraposição à mídia, existe hoje em muito maior grau do que aparece
exposto. Bastaria que tivéssemos meios de saber sobre os milhares grupos
de folclore, de música popular; outro tanto de artesãos e, na
literatura, a popularização habitual de escrever poesias, além dos
contadores de histórias, como é hábito entre inumeráveis indivíduos
em todos os países do mundo, ou o surpreendente movimento Hip Hop de
origem marginal, por exemplo. Isso significa, antes de tudo, uma forma de
superar o estágio passivo de simples espectadores e, de alguma forma,
reproduzir a realidade, reinventando-a, através da reflexão ficcional e
da fantasia libertadora. O exercício do amor é quase uma mentira, como pode ser um
conto, um romance, um poema, mas é uma das poucas representações da
realidade de alcance comum e com possibilidade de prazer especial
individualizado, incluindo a paixão, a tragédia, a emoção intensa, o
ciúme, o júbilo, a saudade, o re-encontro, o estado de melancolia, o de
alegria, etc. Ele existe em vários tipos de situações, inclusive na
criação simbólica. Viver o amor em estado de arquétipo significa
prolongá-lo na arte ou na criação poética em geral, no misticismo, nas
amizades, ou mesmo nas ações gratuitas de solidariedade; isso como produção
de libido, ou do fazer alma, que interfere na produção de energia para
recriar um mundo repleto de imagens (conscientes e imaginárias).
Significaria erguer a própria alma vital, em direção a um resultado artístico
ou simplesmente na produção de uma emoção. Se o amor pode ser a criação sofisticada a nível
pessoal, ao alcance de qualquer individuo, é um bem que não implica
custos, além da própria energia mobilizada (refeita e aumentada pela
troca) e nem requer muito investimento em aprendizado. Por outro lado, não
é tão fácil vivenciar sua representação, pois, o espetáculo
dominante que o consumo forçado nos oferece, desintegra a capacidade
pessoal de exercitar a representação do amar. E é por isso que esse inédito
e muito antigo sentimento oferece um conteúdo artístico incomparável.
Porém exige uma energia criativa de alta sensibilidade, como fogo inicial
para acendê-lo (e libertá-lo da mesmice do senso comum) porque, uma vez
aceso, com a ajuda do outro, propagar-se é de sua própria autonomia
(autonomia do símbolo). Para amar e usar essa matéria prima na poesia,
no conteúdo das artes ou das simples emoções, existem barreiras que
incutem o antes é necessário comprar, fabricar e produzir inutilidades,
confundindo os conceitos de desejo pessoal – os arquétipo da realização
– e embaralhando os caminhos que perturbam o natural fluxo da libido, e
causam confusão a Psique, essa princesa que nos habita. Re-apropriar-se dos sentimentos do si mesmo (imagens do
inconsciente apropriadas pela consciência na realização do eu), por ser
uma função incomparavelmente mais ampla do que o grande ego – por
abrangê-lo, indo mais além – requer tempo, reflexão, pensamento e uma
estratégia de auto-estima, a partir de processos extremamente simples,
inadmissíveis pela sociedade de consumo, mas descobertos na própria criação,
através da escrita ou da palavra inventada, por via de uma imagem
interna. E amar, às vezes pode provocar tudo isso: a re-apropriação do
desejo que conseguimos não deixar alienar-se no produto externo. Neste
caso, produto, é a transformação em objeto, que se faz através da
destruição da natureza (a do entorno e a íntima) quando seria possível
transformar o objeto natural, por intermédio da imaginação viva, sem
destruir a energia indispensável para fazê-lo. Isso é a poesia. Que nem
precisa ser escrita, mas sempre sentida. Também essa forma possui uma
imagem no arquétipo do matriarcado, símbolo que significa algo mais do
que o simples feminino, mesmo que este seja a base, porém abrangido pelo
anterior, numa misteriosa amplitude. |
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José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Vicente do Rego Monteiro (Brasil). |
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