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revista
de cultura # 46 |
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Sobre algumas raízes profundas do movimento do Orpheu Ricardo Daunt
É
preciso que se diga ainda que a questão relativa às raízes profundas do
movimento, no contexto da obra acima mencionada, é uma contribuição até
certo ponto apenas aditiva ao entendimento do Orfismo e longe está de
querer esgotar o assunto, que suscita desdobramentos de toda ordem. É
de se esperar que o leitor acate de pronto o intento deste pequeno
contributo, que é o de formular especulações, algumas talvez pouco
corriqueiras, sobre a estesia órfica e seus entroncamentos no âmbito da
tradição literária ocidental. Pedimos
ainda que o leitor adote como perspectiva de leitura a mesma daquele
curioso consulente que abre uma obra a meio e se põe a lê-la sem a
preocupação de tomar nas mãos a ponta do fio da meada. O
presente ensaio, portanto, começa logo após aquele ponto imaginário, aqui,
mas real no livro que avança para o prelo, ponto em que o autor
acabou de apresentar uma súmula dos programas e subprogramas de arte do
Orpheu, súmula esta que por seu turno derivou de um exame minucioso das
obras que entendeu órficas. Especulações
adicionais sobre as raízes do movimento Após a leitura da súmula dos
programas de arte do Orpheu, uma pergunta, talvez pertinente, talvez
absurda, fica no ar. Parece justo formulá-la: se não tivesse havido o
Simbolismo, teria o movimento do Orpheu realizado o que realizou? Por ora,
não temos nas mãos mais do que um jogo de adivinhação, já que tal
pergunta pressupõe a possibilidade, mesmo que no campo das meras abstrações,
de suprimir com uma tesoura uma parte da história das artes, assim
rompendo a grande malha que vai sendo entretecida ao longo do tempo, e a
despeito dele, feita de influências assumidas, descompassos e vazios, e
que se chama tradição. Mais correto e oportuno seria
indagar se as raízes do movimento do Orpheu contentam-se com os subsídios
primordiais que o simbolismo legou, ou se penetram para além dele o solo
vivo da experiência humana, arrancando de estratos mais profundos seu
alimento. A imagem das raízes afundando-se
no solo logo se apresenta imprópria. No território da arte - e de toda a
experiência humana - não existe compartimento estanque. O senso comum de
distante e próximo também não se sustenta, nem o de antigo e novo se
estabelece de uma vez por todas, assentado sobre o fio do tempo, quando a
mera e trivial impressão deixa de satisfazer ao espírito crítico. Por
esse prisma, e passando em revista a história da arte ocidental, não
encontramos dificuldade de concluir que dado um ponto determinado da malha
da tradição, vale dizer, no ponto - qualquer que seja ele - em que se
identifica um traço estético, ou a dominante de um programa de arte, ou
um mero estilema, sobre aquele ponto as forças todas resultantes da
complexidade da tessitura da malha exercem alguma espécie de influência,
caso contrário, como explicar a própria existência e permanência da
malha e o sentido de seus pontos e nós, e a tensão permanente exercida
ao longo dessa invisível rede? Deverá ser com esse espírito
que buscaremos agora cambiar nossa perspectiva de análise, em busca de
novas e talvez menos evidentes entroncamentos subterrâneos do movimento
do Orpheu. Para tanto, iremos nos guiar pela
mão de dois dos mentores mais destacados e prolíficos do movimento,
Pessoa e Sá-Carneiro. Dirá o leitor que a escolha é arbitrária e que o
exame do enraizamento da obra órfica desses autores, a despeito de seu
incontestável relevo e importância para o Orpheu em Portugal, não dá
conta da diversidade do movimento. Absolutamente de acordo. É de se
supor que uma investigação caso a caso nos levasse mais longe, mas
talvez nos desviasse de nosso objetivo - que não é o de buscar as fontes
onde foram beber os rapazes do Orpheu em suas trajetórias individuais,
nem mesmo o de apontar as fontes de inspiração que nortearam os passos
de Sá-Carneiro e Pessoa, mas o de compreender como o movimento do Orpheu
se insere na tradição. Dada uma determinada geração de
escritores e poetas, na obra de quais deles patenteiam-se mais
vigorosamente as questões de sua geração e que dizem respeito não
somente ao fazer literário, como à manutenção e ruptura da tradição
literária? Na obra dos que com maior amplitude, intensidade e
profundidade embateram-se com a tradição, originando a partir desse
embate obras influenciadoras em seu tempo e representativas da época ou
do movimento específico em que autores e produto se inseriram. Não pode restar dúvida de que
Pessoa e Sá-Carneiro bem representam, mentores que foram, o movimento do
Orpheu. Jules Laforgue
(1860-1887) é o ponto de partida de nosso exame. [1] Nascido em Montevidéu, filho de pais franceses, deixou seu
país de origem na adolescência, viveu na França e na Alemanha, onde,
com o apoio de Paul Bourget, obteve um posto de leitor junto à Imperatriz
Augusta, em plena corte berlinense. Ali permaneceu por cinco anos. Foi um
período de grande produção, [2] em que a convivência
cortesã e o contato com a cultura alemã lhe renderiam generosos frutos
intelectuais. Em sua estada em
Berlim, Laforgue visitou por duas vezes a casa de Schopenhauer, uma de
suas influências. Por essa época, havia tido contato com a filosofia do
inconsciente de Hartmann, que foi sua bíblia e breviário. [3] O primeiro
contato de Laforgue com o pensamento de Hartmann deu-se por influência
direta de Paul Bourget, seu primeiro mentor e revisor de seus textos, e
foi decisivo. Hartmann defendia que o princípio último é o
inconsciente; e que tudo é dirigido por essa Fatalidade universal, inexorável,
para onde o homem é arrastado. Aceitar o destino que nos reserva, entende
o filósofo, é a suprema sabedoria. O encontro de Laforgue com as idéias
de Hartmann geraram no poeta o entendimento de que havia alcançado a
unidade que buscava e as bases de uma estética fabricada com um tanto da
filosofia do inconsciente, um tanto de Darwin, outro tanto de Helmholtz,
Hegel e Taine. Através do inconsciente, que se inclina sempre na direção
da consciência, busca-se, como em um espelho que é depurado
incessantemente, o princípio irracional que não é outro coisa senão a
própria vida. Sob a influência dos dois últimos elabora-se uma estética
do devir, que é simultaneamente, graças a Hartmann, também uma estética
do individual e do efêmero. [4] Por volta de
1880, debruçava-se sobre o projeto de um romance autobiográfico, o Raté,
uma obra gigantesca, espécie de dança lúgubre do século XIX, composta
por quatro grandes afrescos, como afirmara o poeta: "a epopéia da
humanidade, a dança macabra dos últimos tempos do planeta, os três
estados da ilusão".[5] Não teve tempo para levar avante o
ambicioso programa. Entre 1886 e
1887, época em que já se encontrava de regresso a Paris, Laforgue
produziu uma volumosa correspondência que engloba seus amigos mais próximos,
como Gustave Khan, Charles Ephrussi, seu primeiro empregador, que era
colecionador e historiador da arte; Charles Henry, interessado no exame da
fisiologia das cores e dos sentidos, e nomes de peso como Verlaine, em
quem reconheceu "misteriosas afinidades",[6] entre elas, certamente, o erotismo, a ironia e uma difusa
sensibilidade poética; além dos citados, também com ele se
correspondiam Huysmans, Moréas, Mallarmé, Adam, Vignier, Vielé-Griffin,
Stuart Merrill e outros. [7] Longe de
querermos enveredar pelo exame biográfico do poeta, interessa-nos
ressaltar a peculiaridade de sua mundividência, que não o encaminhou na
direção de uma fácil e pacífica adesão a essa ou àquela corrente
literária. A multiplicidade de referências, a diversidade de experiências,
inclusive sob o ponto de vista social, aliadas a uma grande inquietude de
espírito contaminaram integralmente sua obra, que embora receptiva a
influências tomou rumo próprio, extemamente pessoal e alheio aos
modismos da hora. Obcecado pela
necessidade de "fazer o que é original a qualquer preço",
vivendo desenraizadamente, colhendo experiências aqui e ali, sua obra
filtrou de maneira eloqüente uma percepção fragmentária de um mundo em
agitada transformação, onde sentidos e valores são despojados de convenções
e hierarquias e onde o absurdo se instala no cotidiano repleto de incongruências.
Amante e ao mesmo tempo misógeno, denotava um pessimismo
schopenhaueriano, a que já aludimos, do qual amiúde se afastava,
estimulado pelo diletantismo, [8] pela ironia e pelas experiências
formais. Entre elas a criação de neologismos, a elaboração de locuções
mais truculentas, como que provocadas em um ambiente de frialdade
laboratorial. Praticou a prosa e a poesia; planeou romances, entre eles
Moralités légendaires; [9] experimentou o
verso filosófico e enveredou por uma poética ocupada com desmantelar as
fronteiras entre o sonho e a realidade, entre o poético e o prosaico,
entre o corriqueiro e o sublime. Para tanto minou impiedosamente os
alicerces do discurso poético. Nesse sentido, a
convivência com Edouard Dujardin, o muitas vezes esquecido inventor do
monólogo interior, com seu romance Les lauriers sont coupés, foi
decisivo para que Laforgue ampliasse as possibilidades e os ritmos do
discurso prosaico e pudesse fazer uso de uma ferramenta que lhe permitia
transportar para o papel com eficiência os elementos dispersos da
linguagem do sonho e dos sentidos. Seu caminho poético logo o levaria ao
encontro do verso livre. "Seria
inexato atribuir a Vielé-Griffin a invenção do verso livre. Antes dele,
Jules Laforgue, Marie Krysinska e Gustave Kahn o haviam publicado." [10] Interessado em
percorrer um caminho só seu, dividiu opiniões quanto a sua filiação ao
decadentismo ou ao simbolismo. Não resta dúvida, contudo, que a par de
ser um influenciador do movimento moderno, os principais nomes do
simbolismo o tem como um de seus integrantes. Em uma pesquisa sobre a
evolução literária, levada a cabo por Jules Huret em 1891, vários
poetas se pronunciaram acerca de Laforgue. Mallarmé afirmou nessa ocasião
que, juntamente com Vielé-Griffin e Gustave Kahn, ele faz parte do
conjunto dos principais poetas que contribuíram para o movimento simbólico.
Remy de Gourmont entende que Moralités légendaires um gênero híbrido,
entre a poesia e a prosa, que veio a lume três meses depois de sua morte,
"ficarão como um dos carros-chefe de seu tempo". Teodor de
Wyzewa, a propósito da mesma obra, assim se manifesta: "conheço
poucos livros, entre todos esses do nosso tempo e de nossa época, que
fornecem como este [Moralités légendaires] a impressão de uma alma de gênio:
e acredito com efeito que, entre os jovens artistas de sua geração,
somente Laforgue teve gênio".[11] Mirbeau alude ao
puro gênio francês que morreu aos vinte e sete anos e critica os que se
obstinam em apontá-lo como um decadente, "o que ele não é nem por
um vintém".[12] E, caminhando em
direção ao presente, convém recordar que T. S.Eliot considera Laforgue
um de seus mestres, inserindo o poeta francês na longa linhagem de poetas
metafísicos. [13] No número de 31
de agosto de La Republique Française de 1885, ano da publicação de
Complaintes, Laforgue consegue publicar anônimamente um pequeno texto
(que na verdade é de sua autoria), bastante esclarecedor acerca da obra
sobre a qual nos deteremos mais adiante: O Senhor Jules Laforgue, que exalta o schopenhauerismo,
excessivamente burguês, aplicando-se na Philosophie de l'inconscient, de
Hartmann, de um misticismo mais amplo e mais profundo e de um pessimismo
menos vulgar, imaginou retomar, para traduzir suas concepções poéticas,
esta velha forma popular do lamento com métrica ingênua, com refrões
tocantes, que corresponde em música a seu congênero o realejo.
Apressemo-nos a acrescentar que o realejo de Complaintes que aqui se
encontra não tem de popular mais do que o volteio rítmico e por vezes o
velho refrão emprestado e permanece um instrumento refinado, capaz de
sutis nuances psicológicas, bem como de efeitos bem recentes no terreno
do verso".[14] Para muitos, no
entanto, Sanglot de la Terre é a chave de sua obra. Sanglot [..] é uma
história de uma alma pouco comum, como asseverou Laforgue, que de um só
golpe ultrapassa a escala humana para se elevar à escala universal. [15] O coração dorido do poema é o
da própria Terra, que é também o objeto de paixão do sujeito lírico
nela presente. Seu modo de amar
é complexo e de certo modo incomum, em sua ambivalência constante.
Laforgue ama a vida e despreza a vida, como observou com extrema
propriedade Remy de Gourmont, que em outra passagem declarou que sua
poesia seria a parodia de sua profunda sensibilidade. Sensibilidade,
contudo, que não o conduziu a experimentar a plenitude do prazer ou o
gozo amoroso. Espécie de Hamlet sem espada, metamorfoseia-se em Pierrot
careteiro, incapaz de encontrar uma saída para seu conflito com o mundo;
e incapaz de aceitar a possibilidade de o levarem a sério, talvez porque
tudo então se tornasse ainda mais doloroso.
O lamento, como
o próprio poeta asseverou acima, é uma forma popular antiga. Sua função
é a de celebrar uma perda. A poética de Laforgue, contudo, subverte o
sentido literal do discurso lamentativo, introduzindo a ironia, e uma
escritura que busca a qualquer preço, inclusive com a perda da tensão lírica,
eliminar as hierarquias poéticas, numa emulação com o caos e o absurdo
do mundo. Se o infinitivo,
do qual Laforgue abusa, "não tem em sim mesmo uma conotação
optativa, sua recorrência o transforma em um verdadeiro voto, em palavra
de ordem, como lembra Bertrand, e o ponto central reside na questão amar
- ser amado. O verbo amar, freqüentemente lançado no discurso sem
sujeito ou objeto significa que "o desejo e sua tensão constituem o
foco temático e pragmático de cada lamento".[16] Em um momento, o
sujeito lírico declara que ama tudo, como nestes versos quase ao final de
em "Préludes autobio- graphiques": Última crise. Duas semanas errabundas, Em tudo, sem que meu Anjo Guardião me responda. Dilema com dois atalhos para o Éden dos Eleitos: Me deixar absorver meu Eu pelo Absoluto? Ou então, elixizar o Absoluto em mim-mesmo? Acabou. Eu amo tudo, amando melhor que Tudo me ama. Assim, vou flutuando pelas orquestrações submarinas, Pelos corais, ovas, braços verdes, escrínios, Na turbilhonante agonia eterna […].[17] A série de
lamentos vai sendo ampliada. Assim também a lista variada de destinatários
da mensagem. São figuras distintas, como Fausto, a lua da província, as
puberdades difíceis, o fim das jornadas, etc.; uma espécie de itinerário
da decepção, em que de um lado se apresenta aquele que afirma tudo amar,
mas que ao cabo reconhece que não é amado e que nada pode recompensá-lo
e, de outro, a realidade impenitente. [18] Mas o
sujeito lírico não desiste, a despeito de eventuais autocríticas. Em
outro poema o sujeito lírico laforgueano pergunta-se a propósito:
"qui m'aima jamais?" [19] Também, e à
medida que o sujeito lírico insiste em seu voto de amor a tudo,
constatando que nenhum amor pode recompensar o seu, por vezes recua de
seus propósitos e regressa sobre seus passos para tocar o núcleo de sua
própria dor. Dirá ele em "Complaintes de Lord Pierrot":
"volvemos sobre nós mesmos, como um faquir",[20] verso que é
extremamente emblemático do homem moderno. "Este efeito-bumerangue,
este movimento giratório do mesmo ao mesmo, ele [Laforgue] retoma na
maioria dos lamentos, como se o desejo, não mais do que a palavra, não
conseguisse captar o outro e tolhesse sua própria efetivação." [21] O sentimento de amor termina por sublinhar a ausência do
objeto; o sujeito ama em vão, sem esperança. [22] Laforgue poderia
ter tratado do amor fazendo uso da ode lamartiniana, por exemplo,
subjetivando suas expectativas, anseios e vontades. Preferiu, ao contrário,
um subgênero que serviu no século XVII a finalidades satíricas e
burlescas, resgatando algumas de suas características desse período, mas
desfocando-o e desajustando-o a partir da elaboração de novos registros
e recortes temáticos. Com o escopo do lamento, construiu uma lírica
antifrásica, que nem por isso deixa de tocar a sensibilidade; e para cuja
concepção poética Laforgue reivindicou o nome de empírica. Quanto mais o
sujeito lírico recobre seu discurso de ironia e distanciamento, mais
inapelavelmente ferido e desacorçoado parece estar (mesmo que imprecisa e
indefinida seja a extensão do dano, e mesmo que se encontrem escamoteados
seus verdadeiros sentimentos). "Vida ou Nada! escolher. Ah! que
disciplina! Não há um Éden entre essas duas usinas?" [23] O lamento, tal como é conhecido, introduz sempre a presença de um outro, que mesmo ausente é o receptor da mensagem. É por vezes uma comunicação que por pouco não consegue sequer transbordar do peito, e que comumente se perde no vazio. Parece uma necessidade própria do lamento a retomada da problemática humana, quase sempre inserida na dinâmica amorosa, trazendo à tona uma crescente frustração - bem como a ênfase, dela decorrente, e o retorno ao ponto de partida; um retorno do sujeito de enunciação lírico sobre si mesmo; um revolver em seguida das próprias pegadas numa tentativa de acentuar a reivindicação - expediente que o poeta francês freqüentemente também utilizou. No caso de
Laforgue, a carnadura do sujeito lírico, ao tangenciar temas dolorosos,
encontra-se amiúde protegida pela carapaça da retórica, que inibe o
discurso solipsista, introduzindo em seu lugar uma sensibilidade
reificada, difusa em toda a extensão da palavra poética, e ao mesmo
tempo carente em cada segmento menor. É a fórmula que Laforgue
desenvolveu e como mestre dominou para fugir ao pieguismo e ao
transbordamento lírico, assim adulterando, também, o caráter elegíaco
do lamento. Associados a tudo isso, a moeda do humor, que resgata por
vezes um olhar desarmado sobre as coisas (cuja outra face, quando se lança
a moeda no ar, é o sentimento de desajuste de quem se vê excluído e
quer ser notado), e o riso; o motejo desapiedado, ou convulsivo, que
banaliza o infortúnio, acentua a rebeldia e a discrepância - e a ironia,
que preside os instantes em que o sujeito lírico laforgueano se posta ao
lado de si mesmo, alterizando-se, e diz coisas, as quais, ele sabe bem, o
mundo banal não dará ouvidos. O riso
laforgueano é um riso apalhaçado, um meio de disfarce que estilhaça
hierarquias quer do discurso lírico, quer dos referentes sociais ou de
classe. é uma proposta de reavaliação do mito do poeta. O poema abaixo
ilustra um pouco o modo como o poeta francês emprega o humor, a ironia e
revela alguns aspectos nucleares de sua poética. Ah! a bela Lua
cheia, [24] Gorda como uma
fortuna! O toque de
recolher ao longe soa, Um passante,
senhor adjunto; Um cravo toca
defronte, Um gato
atravessa a praça: A província que
dormita! Martelando um último
acorde, O piano cerra
sua janela, Que horas devem
ser? Calma Lua, que
exílio! Pode-se dizer:
assim seja? Lua, ó
diletante Lua, [25] Comum a todos os
climas, […] Lua feliz, assim
tu vês Àquela hora, o
cortejo De sua viagem de
núpcias! Partiram para a
Escócia. [26] Que armadilha,
se, neste inverno, Ela levasse a sério
meus versos! Lua, vagabunda
Lua, Compatibilizamos
interesses e conduta? Ó ricas noites!
eu me suicido, A província no
meu coração! E a Lua, boa
velha, De algodão nas
orelhas. [27] Ao longo do
poema, a Lua é "bela", "cheia" e "gorda",
depois "calma", depois "diletante", depois
"vagabunda", depois "boa velha". Alguém a vê feliz;
não é o poeta, mas a nubente. Num primeiro momento ela tem qualidades
positivas (mesmo sua gordura é bem vista, porque associada à fortuna),
ao término do poema, a Lua após experimentar o diletantismo é apenas
vabagunda e velha. Mesmo quando ainda calma, já evoca sentimentos
desagradáveis, como o exílio. Mesmo quando bela, não consegue ser bucólica,
porque um burocrático senhor adjunto caminha debaixo dela ao toque de
recolher e sua presença já é uma crítica social velada. A calmaria da
província, que parece se refletir na Lua, contaminando-a, devolve uma luz
que gera um estado de angústia em que se afigura o sentimento de exílio
do sujeito lírico - ou ao menos um certo sentir de uma de suas múltiplas
e instáveis vozes ou entonações. Neste ponto é
fundamental observar que essas alterações bruscas de tom e de
sentimento, essas mudanças de perspectiva tão radicais, como se a
enunciação lírica passasse sub-repticiamente de um emissor a outro,
fazem parte de uma estratégia que Laforgue adota em seu projeto de
despersonalização e disfarce. Insistamos sobre
o sintagma "província" em outro passo, justamente onde ocupa,
com sua significação vasta, o coração do sujeito lírico, por intermédio
e pelo concurso de suas "ricas noites". A essa altura, é o
suicida que fala, e o faz como um marginal a tudo isso, cuja vida não
comporta ricas noites, ou o enlevo de guardar na memória uma província
de belas lembranças sentimentais. Mas é igualmente o sentimento de quem
se dá conta de sua própria exclusão, procurando através da ironia
algum alívio. Em outro diapasão
tange o sujeito de enunciação que imaginou a noiva (de outro) lendo seus
poemas ("que armadilha"), e sua imaginação vem acompanhada de
sarcasmo, mas também de autocomiseração, quase como se o contato físico
com o objeto poético pudesse resultar em um comportamento, por parte da
mulher recém-casada, não sancionado pela sociedade. E nesse caso a
armadilha (entendida aqui quer como a oportunidade de leitura, quer também
como a matéria dos versos) sugere a existência de uma rejeição social
do poeta e de sua poesia. No que diz
respeito ao humor, Laforgue lida com ele de maneira diferenciada ao longo
do poema. No início, à altura do primeiro dístico, o verso se injeta de
um humor fanfarrão, depois sibilino (como no terceiro dístico), e
discretamente familiar (como no quinto dístico). Esse humor dilui-se,
reaparecendo mesclado a uma ironia dominante, no último dístico do
poema. O humor, a
ironia, a autocompaixão, o escárnio, a crítica, o ponto de vista, o
lugar no hipotético espaço projetado, o tempo - tudo é extremamente
fugaz, descozido, fraturado. Nenhum sentimento, ou ponto de vista,
persiste o tempo suficiente na enunciação lírica laforgueana para que
se identifique com segurança o sujeito que o diz sentindo. O mesmo vale
para todos os demais estratos do campo escritural. Não há, na bricolage
de Laforgue, oxigênio suficiente para o sujeito solipsista respirar. Acrescente-se
ainda que, em socorro da postura contrária ao solipsismo, acima aludida,
surgem na escritura laforgueana inúmeras personagens, que por vezes são
sujeitos de enunciação, por vezes objeto do enunciado, como Lord
Pierrot, o Cavaleiro-Errante, o Sábio de Paris, o Anjo incurável. O Vento, O Tempo
e o Espaço são personificados, como a Lua, acima. Outras personagens
legendárias ou mitológicas comparecem na obra de Laforgue, como Pan, Antígona,
Prometeu, Eva, Nero, Don Quixote e tantas outras. A lista é
farta, e ao redor de cada uma delas se estabelecem relações analógicas.
Tais relações formam um tecido de referências e significações que
escamoteia qualquer tentativa quer de isolar uma personagem central com
base apenas na enunciação poética, quer de tracejar o sujeito lírico.
Tal fato ocorre sobretudo em virtude do jogo dramático - jogo de máscaras,
como num baile carnavalesco -, que perpassa versos e poemas,
inter-relacionando fragmentos de enunciados e transformando essa rede analógica
em um experimento cósmico-escritural. Os versos de
Laforgue são um convite urgente para pensarmos o turbilhão da vida, com
todas as suas impossibilidades; são uma convocação para que avaliemos
criticamente o status quo, e por conseguinte sua leitura pode não ser
reconfortadora, porque não tranqüiliza ou mitiga. Infelizmente, adentrar
mais a fundo a poética do poeta francês não é o propósito deste
trabalho. Ficarão também
em suspenso nossos comentários sobre os aspectos do obra de Laforgue mais
determinantes para o de-senvolvimento da estética órfica, pois não é
ainda chegado o momento para isso. Duas qualificações, 'metafísica' e
'empírica', assinaladas aqui de passagem, e atribuídas à obra do poeta
francês, merecem não ser esquecidas. O exame do sentido dessas expressões,
respectivamente no âmbito da poesia européia e no campo da filosofia e
da psicologia deverá nos conduzir na direção pretendida. Nosso primeiro
passo é compreender o que vem a ser a poesia metafísica. [28] Antes porém é preciso apartar o
leitor do caminho que eventualmente o conduza a Andronico de Rodes, que
denominou metafísicos os tratados aristotélicos que sucediam a física,
bem como é necessário, ao menos por ora, deixar de refletir sobre os
fundamentos dos sistemas metafísicos modernos. Esse termo, no
âmbito da poesia, foi inicialmente utilizado por Dryden em "A
discourse concerning the original and progress of satire" (datado de
1693) e depois por Johnson no ensaio intitulado "Life of
Cowley", em 1779, quando denominou metafísicos a uma raça (sic) de
poetas surgidos na Inglaterra no início do século XVII. Mais tarde,
Saintsbury resgata os primeiros trabalhos de Henri King, Thomas Stanley,
Edward Benlowes e William Chamberlayne em sua obra Minor poets of the
Caroline Period, vinda a lume no início do século XX. [29] Em 1921, Herbert Grierson publica Metaphysical lyrics and
poems of the seventeenth century: Donne to Butler, abarcando em uma coletânea,
além dos poetas mencionados no título da obra, nomes como Crashaw,
Marvell, Townshend, Lord Herbert, John Cleveland, Benlowes, ao lado de
dezenas de outros nomes que despontaram nesse período. [30] Em seu trabalho, Grierson define a poesia metafísica como
aquela "inspirada por uma concepção filosófica do universo e pelo
papel assumido pelo espírito humano no grande drama da existência".[31] Seus temas, norteados, entre outros,
pelas investigações de Aquino e pela visão de mundo de Espinoza,
desenvolvem-se a partir de simples experiências havidas na superfície da vida, tristeza
e alegria, esperança e medo, a paz do campo, a azáfama e agitação das
cidades, mas igualmente através de atrevidas concepções, e das mais
profundas intuições, das mais sutis e complexas classificações e
'pronunciamentos da razão', se em tudo isso o poeta consegue incluir a
sensação, fazendo desses temas experiências apaixonantes, comunicáveis
em vívida e comovente imagética, em ricas e variadas harmonias (itálicos
nossos). [32] T. S. Eliot
debruçou-se sobre a questão quase toda sua vida, em artigos como
"Reflections on contemporary poetry" (1917), "John
Dryden" (1921) "Andrew Marvell" (também do mesmo ano) e
"Dante" (de 1929), e mormente em uma série de conferências
realizadas em 1926 em Trinity College e em 1933, na The Johns Hopkins
University. Em linhas
gerais, o poeta e conferencista naturalizado inglês defende a tese de que
a poesia metafísica é um fenômeno cíclico que principia em Dante, no século
XIII, ressurge no XVII com Donne, Marvell, King, Vaughan, Crashaw e
outros; atinge o século XIX, com Baudelaire, Laforgue, Corbière e
Rimbaud e aparece novamente no século XX, com ele próprio. [33] Tal
ressurgimento não significa, de modo algum, a repetição de um modelo ou
gabarito poético. A cada reaparecimento, a poesia metafísica adapta-se
ao novo tempo, perseguindo uma trajetória crescente de desintegração do
intelecto; é, com Dante, diversa da praticada por Donne. Mesmo seus discípulos
e seguidores não fazem idêntico uso dela. Diferentemente se renova com o
contributo de Laforgue; e é distinta em Blaise Cendrars e Eliot, ou James
Joyce. O que vem a ser
a poesia metafísica? Na concepção de Saintsbury os poetas metafísicos
são aqueles que procuram algo além ou adiante da natureza, como
refinamentos do pensamento ou da emoção. [34] A definição
é vaga, instável, como instável é o próprio território que delimita
a presença da poesia metafísica através dos tempos. De pronto, e
antes de mais nada, é preciso descartar qualquer relação entre a poesia
denominada filosófica, que designa a produção de poetas que se ocuparam
com exprimir em seus versos um sistema de idéias a serviço de uma concepção
do universo, ou da moral - e a chamada poesia metafísica. Os poetas metafísicos
não tinham como propósito elucidar ou refletir sobre filosofia, a
despeito da evidente unidade da obra de Dante, do ângulo filosófico e
religioso. Com efeito, a poesia filosófica tem lugar quando o poeta
manipula em seu trabalho um inteiriço sistema filosófico. No caso de
Dante, havia a filosofia de Aquino, não resta dúvida, mas o que o torna
um poeta metafísico não é o fato de que Dante lidara com um sólido
substrato filosófico em seu trabalho; em outros termos não é o fato de
o poeta florentino haver nutrido uma espécie de paixão pela filosofia,
que o torna metafísico, mas sim o fato de haver realizado uma transformação
na maneira de se expressar e viver a paixão humana por intermédio da
filosofia. Outro aspecto
que parece nortear o poeta metafísico em todas as épocas é o
desenvolvido misticismo de seu trabalho, que em Dante se apóia em Richard
e Hugo de São Vito; Donne e seus discípulos em Ignácio, e Santa Teresa;
e Laforgue em Hartmann e Schopenhauer. Evidencia-se de imediato que o
misticismo do poeta metafísico não terá sempre o mesmo lastro,
intensidade e direção. Nos três períodos mencionados, os séculos
XIII, XVII e XIX, ocorrem diferenças em termos de espécie e grau no que
diz respeito à penetração da sensibilidade pelo misticismo. No século XII,
como se sabe, passou a florescer um tipo de misticismo religioso derivado
do sistema teológico de Tomás de Aquino, que por sua vez decorre de seu
exame do pensamento de Aristóteles. Para Aquino, e isto é de fundamental
importância para se fixar a partir de Dante o significado da poesia metafísica,
a visão divina do encontro com Deus só poderia ser provocada se o
intelecto analítico estivesse presente e tomasse parte. [35] Donne estudou
profundamente teologia, aprofundou-se em Belarmino, conhecia o pensamento
de Lutero, Calvino, Melanchthon e Pedro, o Mártir; familiarizara-se com
diversos comentadores da Igreja Romana, e "tinha a literatura
controversa dos jesuítas na ponta de seus dedos".[36] Eliot observa que "Donne é, em certo sentido, parte
jesuíta e parte calvinista: atrevo-me a sugerir que um profundo exame das
doutrinas de ambas as seitas […] atire alguma luz sobre a mente de
Donne".[37] O misticismo de
Laforgue, é inútil repisar, está impregnado de Hartmann e Schopenhauer.
Termos do agrado de ambos, como "nada", "absoluto",
"inconsciente", perpassam sua obra, conquanto em Laforgue
"exista uma contínua guerra" entre os sentimentos implicados
pelas idéias de schopenhauer, de tal sorte que o próprio
schopenhauerismo acaba por entrar em colapso. [38] Quer
concordemos com Eliot, quer não, é inimaginável pensar a obra
laforgueana apartando do exame as mencionadas referências filosóficas do
poeta francês. A poesia metafísica
do século XIX e do século XX, como observa Eliot, deriva "da crença
no Bem e no Mal, e consiste em um consciente e deliberado contraste e
perturbação da moral e do intelecto com o não-moral e não-intelectual".[39] A geração de
Dante em muitos aspectos recolocou em termos novos a relação amorosa, e
esse fato deriva muito provavelmente da capacidade de elevação mística
e do substrato filosófico que a alimentou. Senão vejamos:
a mulher provençal era um objeto de desejo feito de carne, regra geral
casada, e rodeada de pretendentes. Os amantes adúlteros eram fiéis entre
si - e o casamento não era de modo algum um ninho de amor. Para amar era
preciso, como observou Remy de Gourmont, "ser casado e amar fora do
casamento".[40] Ao contrário, a
escola florentina modifica a concepção do amor e da moral. O amor
adquire todos os caracteres "de um culto".[41] O foco de atenção não é mais a mulher em sua integral
carnadura, mas a beleza; a paixão da carne cede lugar à idealização
amorosa; o poeta se compraz em enaltecer e reverenciar o intangível,
porque abandonou o estreito e limitado projeto de tão-somente possuir. Não nos
enganemos, porém: se é comumente admitido que o trecento ocupou-se mais
da contemplação do objeto amado do que dos sentimentos e sensações
oriundos dessa união, o que deixou registrado foram os sentimentos e
sensações daquele que comtempla o amado. Não será isso um passo além? Nos melhores
versos eróticos (sic) de Dante, Guinizelli, Cavalcanti e Cino, como muito
oportunamente observou Eliot, não se encontra nada em termos de simples
galanteio, ou descritividade objetual; nenhuma tentativa de exprimir emoções
e sensações por elas mesmas, mas apenas uma tentativa de sugerir beleza
e dignidade do objeto contemplado pela afirmação do efeito daquela
beleza e dignidade sobre o amante em estado contemplativo. [42]"Quem faz na claridade o ar
tremer?" ("Che fa di clarità l'aer tremare!"), indaga o
sujeito lírico em um soneto de Cavalcanti. [43] O Amor no
trecento é um objeto a ser compreendido com o concurso dos sentidos, mas
sobretudo do intelecto, não o intelecto frio e calculista, mas por uma
razão sensível, sistemática, incansável, que se impõe a tarefa de
estabelecer os limites do que seja o Amor, ao mesmo tempo em que amplia e
distende seus múltiplos significados, com uma provocativa e inigualável
elegância e equilíbrio, para os quais concorrem uma poderosa e treinada
imaginação e uma especial sensibilidade para sentir e avaliar: Pediu-me uma Senhora
fale agora Dum acidente
geralmente
forte E de tal porte que
é chamado Amor Quem ora o nega
prove-o novamente Mas um presente
entendedor requeiro Nem espero de
um baixo coração CONHECIMENTO aberto a esta razão Se não se apega
a natural sustento Meu intento não
vai poder provar Onde ele nasce e quem o faz criar […] NAQUELA PARTE
onde está a memória Assume estado
toma forma
qual Na escuridão
diáfano de lume […] Vem da forma visível que se entende E apreende no
possível intelecto […] Não pode ser no rosto percebido Ferido o homem
cai branco no alvo […] Se vê de Amor que dessa forma vem […] Voa seguramente vai canção Aonde queiras tão bem trabalhada Que tua razão
será sempre louvada De pessoa que tenha entendimento Estar com outra não é teu intento (itálicos nossos). [44] O trecento
sustentou uma afirmação nítida da ordem intelectual, [45] como bem se pode avaliar pela
leitura do poema acima; o seicento, em contrapartida, promoveu uma clara
afirmação da desordem inteletual, que iria se intensificar cada vez
mais, dando lugar mais tarde a uma degeneração do ouvido, a uma
desintegração do intelecto e a uma separação entre som, imagem e
pensamento. O século XVII dissociou o intelecto e as emoções; a
dissociação do som e do sentido do verso resultou em uma crueza
versificatória que chegou a nossos dias. [46] Enquanto no século
de Donne o substrato intelectual caótico promoveu um compromisso com a
carne, mais do que uma aceitação dela, e por conseguinte uma contração
do campo de experiência, a vivência amorosa, traduzida em Vita Nuova, de
Dante, apontou para o caminho da transformação das emoções da adolescência,
ao invés de delas se descartar, amplificando esse mesmo campo de experiência, [47] como ilustram os versos abaixo. Um anjo clama na razão divina, E diz: 'Senhor, entende-se, no mundo, Que seja maravilha o que provém De uma alma tal que até no céu resplende'. […] Minha amada deseja-se no céu: quero, pois, que saibais sua virtude. Quem queira gentil dama parecer, Com ela à rua vá, que, quando passa, coloca Amor em peito vil um gelo, Pelo qual todo sentimento morre; E quem à vista sua resistisse Se tornaria nobre ou morreria. […] Dela pergunta Amor: 'Coisa mortal, Como ser pode tão ornada e pura!' E, após a contemplar, jura consigo Que Deus fazer entenda maravilha. Tem ela a cor das perlas, como assenta À mulher, e não fora de medida: Ela é quanto bem pode a natureza: Por seu exemplo o belo se avalia. […][48] A principal
característica da poesia metafísica é a de lograr elevar o sentimento a
regiões comumente alcançadas por intermédio do pensamento abstrato; e
de transportar o pensamento para esferas do sentir. Em outros termos, o
que é ordinariamente apreensível apenas pelo pensamento torna-se, na poética
metafísica, sensação e o que é sensação, sentimento, transforma-se
em pensamento sem deixar de ser sentimento, sensação. A poesia metafísica
é capaz de fornecer o equivalente emocional do pensamento sem deixar de
ser emoção; emoção e pensamento fundem-se sem que permaneçam
indistintos, uma vez que sua fusão não dissipa, dissimula ou elide
nenhum dos termos, nem escamoteia nenhum deles. Quando intelecto e emoção
se estimulam mutuamente ao redor do objeto poético, a imagética
intensifica-se. Os significados são distorcidos, semelhanças inesperadas
são impostas sempre com a finalidade de produzir um prazer deliberado. Não
é propriamente no âmbito vocabular que tudo isso ocorre, mas, como bem
salienta Eliot, na maneira de frear o fluxo natural de uma idéia,
retardando o desdobrar do pensamento de modo a extrair dele cada grama de
emoção suspensa. [49] Como no
pequeno trecho do poema abaixo: Indago, com
minha boa-fé, o que tu, e eu Fizemos, até
nos amarmos? Não éramos nós desmamados então? Embora sugássemos
os prazeres do campo, infantilmente? Ou ressonávamos
nós no covil dos sete dorminhocos? Assim era: Mas
tudo, quaisquer prazeres cogitados Se alguma vez
uma beleza eu vi, Que desejasse, e
tivesse, fora apenas um sonho de ti. [50] À imagética
fortemente realçada pelo retardamento do fluxo da idéia, tão característica
em Donne e presente em maior ou menor grau nos poetas metafísicos mais
fortes, alia-se uma habilidade única em conferir ao pensamento "o máximo
de valor tanto poético quanto dramático". Em outros termos, não
tanto no âmbito do pensamento, mas no desenvolvimento dele é que reside
a linhagem metafísica de Donne. [51] Ainda no âmbito
da imagética é preciso que se diga que o tratamento e as soluções,
também aqui, variam de poeta para poeta e sobretudo de geração para
geração. Em Dante, o uso de imagens obedece na maioria das vezes a um
critério estrito de utilidade. Suas metáforas possuem uma necessidade
racional, como observa Eliot. [52] Servem elas para fazer aflorar uma
determinada e desejada experiência sensorial. Ao contrário, em Donne o
objetivo se dispersa. O prazer é em parte alcançado pela incongruência.
A "harmonia de dissonâncias"[53] -, decorrente de um desequilíbrio entre imagem e idéia,
originada por seu turno de uma compulsão por uma destas, mais do que da
descoberta de semelhanças entre ambas - é o caminho mais dileto e mais
em acordo com a necessidade de exprimir por meio da poesia a noção de um
mundo carente de unidade. Outro aspecto
presente em Donne e nos metafísicos em geral é o método de abordagem
que toma como ponto de partida o maior em direção ao menor, o central em
direção ao periférico, construindo um percurso do passional para o
reflexivo. [54] A poesia metafísica
contemporânea de Laforgue, e a que veio em seguida, adotou amiúde esse método,
que se concilia com o desmantelamento da unidade poética na modernidade e
com a crescente deterioração da fronteira entre o poético e o não-poético
e, por conseqüência, com a superação das posturas e diretrizes românticas. Mesmo em Donne,
o impulso amoroso, passional, é freqüentemente rompido, dando lugar a um
anticlímax de argumentação, quando não a um exercício de cinismo bem
ao gosto laforgueano. Entende Eliot que a literatura da desilusão é a
literatura da imaturidade, e que nesse sentido Dante "é mais um
homem do mundo do que Donne".[55] Provavelmente a
afirmativa é muito verdadeira em sua última parte, mas não pelo motivo
alegado por ele. Por certo, nem todos concordariam com Eliot quando lança
a pecha de imaturo sobre o poeta que desprovido de um modelo redutor que
iniba as angústias próprias ao espírito de sua época testemunha o
esboroamento do mundo circundante, em termos filosóficos, éticos ou
morais. "The waste land", do próprio Eliot, é prova de que uma
mente poética pode perfeitamente se ocupar do esfacelamento do mundo e do
sentimento de desilusão com semelhante constatação sem atestar
imaturidade. Usar intensamente os materiais disponíveis é um traço da
modernidade, como o próprio Eliot afirmou em certa passagem, [56] e com certeza a
perplexidade não é um sentimento que o poeta deva descartar sem certo
empobrecimento espiritual. Continuemos. O conceptismo,
que prevaleceu no barroco, foi providencial para o desenvolvimento da
poesia metafísica do século XVII, mas é necessário não confundir um e
outro. No conceptismo, a mente, o intelecto, o racionício debruçam-se
sobre a realidade e seus objetos, buscando apreender-lhes a essência.
Nessa tarefa os sentidos são relegados a plano secundário e alijados ou
ao menos neutralizados, de modo a não corromperem a atividade da lógica
e do raciocínio. A poesia metafísica, como já se sabe, funde sentidos e
intelecto, para revelar aspectos inesperados ou inalcançados pela mente
solitária ou pelos sentidos desavisados. Contudo é inegável que a mente
treinada no conceptismo e nos artifícios de sua linguagem concisa e
ordenada acaba por adquirir hábitos mentais que a habilitam à poesia
metafísica. [57] É o que
acontece por exemplo com Marvell e Herbert, ambos por vezes conceptistas,
por vezes metafísicos - sendo essa última característica resultante de
uma prática mental, de um hábito no exercício de associação de idéias;
de um treinamento conceptista, enfim. Os recursos
disponibilizados pelo conceptismo favoreceram imensamente o verso de
Donne, propiciando, por exemplo, que o poeta alternasse com êxito sua
atenção entre a idéia e o objeto; entre o objeto e a idéia por ele
sugerida, de maneira densa, surpreendente, mas sem obscurecimento da
compreensão, em um processo que é com certeza nuclear no âmbito da
poesia metafísica, e ao qual Eliot denominou de "pensamento
vagante".[58] É de se
reiterar, em acréscimo, que a dinâmica da poesia metafísica em Donne -
e em outros - não nos oferece dois fluxos distintos, consecutivos, um de
emoções, outro de conceitos; ou, ainda, um de sentimentos, outro de pura
verborragia, alternativamente ou em seqüência no verso - cumprindo um
desígnio pendularmente retórico. Mais justo e adequado seria pensar em
"caleidoscópio de sentimentos";[59] ou em um fluxo unitário em que pensar e
sentir estivessem fundidos, sendo o poema um 'objeto' feito dessas
intersecções de pensar e sentir, ou de sentir e pensar. A excessiva
proximidade dos elementos tradutores do sentir e delatores do pensar
favorece outras características do verso metafísico, que são a
concentração, a compressão, a demolição de compartimentos e a eliminação
de hierarquias. Nessa trilha, humor e seriedade fundem-se também, como
faces da mesma moeda, como freqüentemente se pode denunciar em Donne, ou
partilham do mesmo momento enunciativo, com em Laforgue. Ao lado da
concentração, [60] a ampliação é outra característica
da poesia metafísica. Tomando-se por exemplo um conjunto de imagens
combinadas, seu efeito final não será a soma dos estímulos intermediários,
mas uma derivação; uma ampliação - de tal sorte que se pode constatar
que a sugestão terminal, aquela que permanece como um persistente eco, após
a fruição do enunciado poético, não se fez notar em nenhuma das
imagens apresentadas, isoladamente, mas é, ainda assim, um resultado da
matemática poética que as adicionou. Os versos
iniciais de um conhecido poema de Donne parecem ser o epítome do que
temos falado nas últimas páginas. E, ainda, exemplificam bem um
postulado implícito em toda poesia metafísica que é o de que
"absolutamente nada seja inefável; e de que a mais rarefeita sensação
pode ser exata e diligentemente expressa; [61] inclusive a
sugestão da total imobilidade. O mesmo vale para o mundo das idéias, o
território do pensamento, uma vez que a poesia metafísica é
intelectualizante e não se inibe com desafios e jogos mentais. Onde, qual almofada sobre o leito, Se
inchava fértil declive para acamar A inclinada cabeça
da violeta, Nós
nos sentamos, olhar contra olhar; Nossas mãos
firmemente cimentadas No
constante bálsamo que delas brotava; Nossos olhares
enlaçados, e tecendo Os
olhos em um duplo filamento, De modo a
enxertar nossas mãos como agora Foi
o meio de nos fazer um só, E modelar nos
nossos olhos as figuras A
nossa única procriação. […] Como sepulcrais
estátuais permanecemos O tempo todo, em
posição idêntica, E
nada dissemos, o dia todo. […] Este êxtase
torna incomplexo, (Nós
dissemos) e traduz o que amamos, Vemos com isso,
que não era sexo O
que vemos, não víamos o que se movia: Mas como as
muitas almas contêm Uma
variedade de coisas, não se sabe o quê, Amor, essa
mistura de almas mistura-se de novo, E
faz ambas uma só, com esta e aquela. […][62]. Durante o século
XIX, com Laforgue, Corbière e inclusive no século XX, com Eliot e Joyce,
verifica-se na poesia metafísica uma tendência à onipresença do ego,
que parece ser um desdobramento do processo de desintegração do
intelecto, [63] que teve início bem antes. Também
a reboque da desintegração do intelecto, parece estar uma característica
que, já marcante na poesia do século XVII, tende a intensificar-se mais
tarde, que é a apropriação no discurso poético de coisas díspares,
dissimilares. Em um mundo distinto daquele de Dante - em que o espírito
humano alcançou enorme completeza, intensidade, alcance e disparidade -,
a dissimilaridade foi um recurso adotado a partir do século XVII para
articular uma cadeia de pensamentos disparatados, sobre o novelo estirado
do sentir - para assim capturar o trabalho da mente e das emoções em um
mundo menos harmônico, desprovido de uma interpretação dominante. [64] Um poema em
prosa de Laforgue, parcialmente impresso adiante, registra a presença da
dissimilariedade, bem como o processo de desintegração do intelecto
laforgueano, ambos procedimentos atinentes ao estilo metafísico. Grande lamento da cidade de Paris Prosa branca Boa gente que me escuta, isto é Paris, Charenton inclusive.
Casa fundada em … para alugar. Medalhas em todas as exposições e menções.
Arrendamento imortal. Depósito no atacado e no varejo de felicidades sob
encomenda. Fornecedores franqueados com um montão de majestade. Casa
recomendada. Previnem a queda dos cabelos. Em loterias! Enviadas ao
interior. Nada de estação-morta. Assinaturas. Depósitos sem garantia da
humanidade, aborrecimentos dos grandes como de praxe e de ocasião.
Facilidades de pagamento, mas de dinheiro. Dinheiro, gente boa! E cá se abastece, importação e exportação, através de
vinte estações e alfândegas. Que tristes, sob a chuva, os trens de
mercadorias! A vós, deuses, comércio de paramentos, mobiliário de
igreja, decorados para batismos, o culto fica no terceiro, clientela inefável!
Amor, a ti, casas de ouro dos internatos nas quais os cueiros e farrapos
farão o papel de doces cartões com monogramas, complementos e enxovais
para crianças, somente águas alcalinas reconstituintes, ó clorose! jóias
de serralho, falbalás, bondes, espelhos de bolso, canções! E no lado
oposto, que fazem aí? Trabalha-se, para que Paris se abasteça… […] Mas a inextirpável elite, de onde? para onde? Casas de
branco: pompas volupciais [sic]; [65] funerárias:
esplinuo- sidades [sic], rancores à la carte. […] E a chuva! três
esfregões diante de uma clarabóia de mansarda. Um cão ladra para um balão
no alto. […] Como as vinte-e-quatro horas passam depressa para a
discreta elite!… Mas os gritos públicos recomeçam. Aviso importante! O
amortizável declinou, fecha o Panamá. Leilões, peritos. […] Ainda
gritos! Único depósito! Ceias pela centésima parte! Máquinas cilíndricas
Marinoni! Tudo garantido, tudo por nada! […] Meses, anos, calendários de segunda mão. E o outono se
grandenluta [sic] no bosque de Boulogne, o inverno gela os guisados dos
pobres nos pratos sem pintura de flores. Maio purga, a canícula sobre a
frívola brisa das praias descora as custosas toaletes. Depois, como nós
existimos na existência em que se paga à vista, preparam esses senhores
corteses Pompas Fúnebres, autópsias e cortejos saudados sob o velho
Monotopázio [sic] do sol. E a história prossegue sempre adestrando,
rasurando essas Mesas crivadas de lastimosos idem - ó Falência, vá com
qualquer! ó Falência, vá com qualquer… [66] Pressente-se
acima uma espécie de canto de cisne da palavra poética, ou, por outra, a
presença de um cadáver de linguagem autopsiado, já destituído de seus
traços anatômicos prováveis, e em que os órgãos internos se encontram
desprovidos de suas características básicas. Nesse ambiente de derrocada
das fronteiras funcionais do corpo poético, o sujeito de enunciação lírico
perde também os contornos e as balizas a que o leitor está habituado. O
eu do poema não é mais um jorro vocal brotando de uma mina de energia poética,
mas se encontra plasmado a tudo e a nada. Uma algaravia perpassa o poema
sem que se saiba com segurança se foi o eu do poema que se manifestou, ou
se o poema se tornou um espaço sonoro para registros alheios, como uma
praça pública por onde sons escoam simultaneamente, provenientes de
diversas origens, inclusive da voz perdida, solitária, do sujeito lírico
do poema - poema esse que, por força disso, já não parece mais ser a
expressão de um eu poético. No entanto,
ainda o é. O eu laforgueano está em todo lugar do poema, contrai-se,
dilata-se, alteriza-se, anula-se, disfarça-se, conforme o caso, mas está
lá. Adota uma aparência de mero condutor das vozes anônimas da
realidade pressentida, como também assume a expressão crítica do que
testemunha, e poreja sutis indícios de que algo sente para que a palavra
exista como sua manifestação; igualmente, é tão impessoal quanto um
tipógrafo, ironiza a eloqüência do que se manifesta com alarde, evoca a
passagem do tempo, o câmbio das estações, o clima; marca-os com o ferro
em brasa de uma voz a que o momento não autoriza alçar à escala da
franca dor pessoal. Mas ela está ali, por toda parte, inclusive na quase
impossibilidade de identificação do sofrimento individual do sujeito lírico,
inclusive quando parece haver silenciado. O poeta metafísico,
e Laforgue é um exemplo disso, não deixa de lidar com o que se poderia
denominar de sentimentos pessoais (que nada têm a ver com os sentimentos
originados na trajetória de vida da pessoa civil do poeta, mas que são
aqueles sentimentos expressos no poema, identificados com o sujeito lírico),
porém trata-os como se fossem de outrem. Pode-se dizer nesse sentido que
o poeta metafísico, quer por via desse expediente, quer pelo concurso
febril e determinante do intelecto sobre a sensibilidade, adota como norma
a estratégia da despersonalização. No que se refere
à temática e ao modo de tratá-la, como se verifica no poema acima, não
há limites. Tudo pode ser arrolado como expressão poética - e esta é
mais uma característica persistente da poesia metafísica: o alcance, a
amplitude de seu domínio sobre a realidade adjacente (ou não) -, e tal
desenvolvimento pode ter lugar sem uma razoável preparação, ou evidente
seleção e triagem. Os sentidos treinados do poeta metafísico -
sobretudo de Laforgue - coletam tudo o que há para ser coletado, operando
como um voraz comprador em visita a um bricabraque em que emoções, memória,
impressões e registros sonoros de várias fontes são mercadorias
igualmente atraentes e necessárias. Um exame do
percurso da poesia metafísica depois do século XVII, até o XIX,
confirmará um recrudescimento dessa postura acima relatada, resultante
que é, também, da crescente desintegração do intelecto. A enunciação
metafísica de Laforgue reconhece, além do mais, a absoluta contigüidade
e vizinhança de coisas, pensamentos e sentimentos, por mais disparatados
(como em um bricabraque); tudo está à mão, porque nada mais - por
paradoxal que pareça - é exclusivo, compartimentado. Tudo pode ser
utilizado, reutilizado. O brado do cauteleiro intercepta uma reflexão
sobre a vida comercial, que intercepta uma reflexão sobre a sociedade, o
dinheiro e o homem, a morte e as estações. A crise
persistente e inamovível que se estabelece no 'lugar' do poema, como em
Laforgue se viu - com a adicional apropriação do prosaico -, como também
no âmbito da voz que dita a expressão poética, são os frutos mais
febris e generosos dessa dissociação intelectual, no século em que o
poeta francês nasceu e morreu. É forçoso
neste ponto deixar por instantes a seara da poesia e adentrar o terreno da
psicologia e da filosofia, para levarmos esta investigação sobre as raízes
menos evidentes do Orpheu a bom termo. É pois o momento de entendermos
mais profundamente o sentido do adjetivo empírico, como havíamos
prometido páginas atrás. Nove anos antes do falecimento de Laforgue, precisamente no início
de 1878, Charles Sanders Peirce escreveu um artigo intitulado "Como
tornar claras nossas idéias". Nele, após salientar que nossas crenças
são em realidade regras de ação, afirmava que para desenvolver o
significado de um pensamento, necessitamos apenas determinar que conduta
ele está apto a provocar: este é seu único significado. E o fato tangível na raiz de todas as
nossas distinções de pensamento é que não existe nenhuma que seja tão
sutil ao ponto de não resultar em alguma coisa que não seja senão uma
diferença possível de prática. Para atingir uma clareza perfeita em
nossos pensamentos em relação a um objeto, pois precisamos apenas
considerar quais os efeitos cabíveis de natureza prática que o objeto
pode envolver - que sensações devemos esperar daí, que reações
devemos preparar. Nossa concepção desses efeitos, seja imediata, seja
remota, é, então, para nós, o todo de nossa concepção do objeto, na
medida em que essa concepção tenha afinal uma significação positiva. Esse é o princípio de Peirce, o princípio
do pragma- tismo. [67] O princípio de Peirce permaneceu como que esquecido por mais
de 20 anos, até que William James o expôs, em uma conferência sobre
religião, na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), em 1898.
Daí em diante, o pragmatismo passou a ser amplamente discutido. "Não há nada de novo absolutamente no método pragmático",
diz Peirce. Sócrates, Aristóteles, Locke, Berkeley e Hume "fizeram
contribuições momentâneas à verdade por seu intermédio. Shadworth
Hodgson insiste em que as realidades são somente o que sabemos
delas" (em itálico no original). [68] James adverte contudo que esses precursores do pragmatismo
fizeram uso desse método de modo parcelar, fragmentário - e que sua
aplicação apenas teve lugar mais tarde, no século XX. De acordo com o pragmatismo de James, palavras como
"Deus", "matéria", "Razão" não podem ser
tomadas como definitivas. "Tem-se que extrair de cada uma delas
"seu valor de compra prático, pô-las a trabalhar dentro da corrente
de nossa experiência" (itálicos nossos). [69] Nesse sentido, o método preconizado pelo filósofo é mais um
programa de trabalho do que uma solução e não propõe ou defende dogmas
ou doutrinas. Concorda, contudo, com o nominalismo, com o utilitarismo e
com o positivismo (no que este tem de recusa a soluções verbais e a
abstrações metafísicas). Em outras palavras, o método pragmático supõe uma
determinada "atitude de orientação", que é a de "olhar
além das primeiras coisas, dos princípios, das 'categorias', das
supostas necessidades; e de procurar pelas últimas coisas, frutos, conseqüências,
fatos" (em itálico no original). [70] Como defenderam Schiller e Dewey, a verdade em nossas idéias
significa a mesma coisa que em ciência. Significa que as idéias,
acrescenta James, "tornam-se verdadeiras na medida em que nos ajudam
a manter relações satisfatórias com outras partes de nossa experiência"
(itálico nosso). [71] Assim, uma dada opinião nova - para certo indivíduo - é
verdadeira na proporção em que satisfaz seu desejo no sentido de
assimilar essa nova experiência às suas crenças em estoque […]. A idéia
nova que é mais verdadeira é a que perfaz de modo mais feliz sua função
de satisfazer nossa dupla urgência. Faz-se verdadeira, classifica-se como
verdadeira pela maneira como opera; enxerta-se, então, no velho corpo da
verdade, que se desenvolve. [72] Para Dewey e Schiller ser verdadeiro quer dizer cumprir essa
função de união de partes prévias da experiência com partes mais
novas. [73] Acolhendo essas concepções,
James observa que "a verdade para nós [pragmatistas] é simplesmente
um nome coletivo para processos de verificação" (itálicos nossos). [74] Entende James, também, que a
verdade é uma propriedade de algumas de nossas idéias. Significa seu
acordo, como a falsidade significa seu desacordo. Assim também entende o
filósofo como idéias verdadeiras aquelas que assimilamos, corroboramos e
verificamos - e falsas aquelas em que isso não se dá. [75] Em todas as instâncias o pragmatista está atrelado aos fatos
e coisas concretas, o que não o impede de harmonizar os processos empíricos
do pensamento com os reclamos da religião. James observa: "alguma
espécie de deidade imanente ou panteísta operando nas coisas, de preferência
a operar por sobre elas, é, de qualquer modo, a espécie recomendada para
a nossa imaginação contemporânea" (o segundo itálico é nosso). [77] E isto é fácil de explicar: o pragmatista, amante dos
fatos, rejeita a afirmação do Espírito Absoluto (que serve como um
substituto para Deus) como sendo a pressuposição racional de todas as
particularidades de fato, quaisquer que possam ser elas; entende o
pragmatista, e não poderia ser de outra forma, que tal pressuposição é
uma afirmação de indiferença para com os particulares do mundo. Ainda:
o pragmatismo não alimenta preconceitos contra a teologia desde que suas
idéias tenham algum valor para a vida concreta. E "o quanto serão
verdadeiras dependerá inteiramente de suas relações com as demais
verdades, que têm, também, de ser reconhecidas" (em itálico no
original). [77]
Em suma, o pragmatismo "não tem quaisquer preconceitos,
quaisquer dogmas obstrutivos […]. É completamente maleável. Acolherá
qualquer hipótese, considerará qualquer evidência".[78] Os conceitos exarados por William James acerca do método
pragmático levaram-no ao desenvolvimento de uma outra doutrina filosófica,
a que deu nome de empirismo radical. No prefácio de O significado da
verdade, James afirmou: o estabelecimento da teoria pragmática da
verdade é um passo de primeira importância no sentido de fazer o
empirismo radical prevalecer. O empirismo radical consiste primeiro em um
postulado, a seguir em um enunciado de fato e, finalmente, numa conclusão
generalizada. O postulado é que as únicas coisas que são
questionáveis entre filósofos são coisas definíveis em termos da
experiência […] O enunciado de fato é que relações
conjuntivas, assim como disjuntivas, entre coisas, são simplesmente matérias
da experiência direta particular, nem mais nem menos, do que as próprias
coisas o são. A conclusão generalizada é que,
portanto, as partes da experiência são relacionadas coerentemente pelas
relações que são também partes da experiência. [79] O racionalismo entende que nossa experiência é disjuntiva,
descontínua, e que uma ação unificadora superior atua sobre tudo para
que dessa forma o mundo exista. Confiam, ademais, os racionalistas, em que
a relação entre um objeto e a idéia que busca apreendê-lo se
estabelece fora da experiência temporal possível. No idealismo essa ação
é desempenhada por uma espécie de testemunha absoluta, que relaciona as
coisas entre si, lançando mão de categorias. Para o pragmatista, o
universo dispensa a existência de uma sustentação trans-empírica; ao
contrário, possui em si uma estrutura contínua e concatenada. A verdade
de uma idéia significa tão-somente suas operações, não o objeto da idéia,
ou algo em seu interior impossível de ser descrito. James, também psicólogo, realizou um estudo da mente, no
intuito de definir a consciência, o pensamento e seus atributos, bem como
o papel e a importância das sensações. A consciência, desde o dia em que
nascemos, é de uma abundante multiplicidade de objetos e relações, e o
que chamamos sensações simples são os resultados da atenção
discriminativa, elevada freqüentemente a um grau muito alto".[80] Comumente existe o entendimento, em psicologia, de que as
sensações são os fatos mentais mais simples do ser humano. William
James rebate essa tese, que gera por sua vez uma outra atitude equivocada,
que é a de que por entender as sensações dessa forma, a psicologia
acaba por considerá-las em primeiro lugar, ao invés de atentar para o
pensamento. Pensamento, para James, é toda forma de consciência,
qualquer que seja ela. O filósofo e psicólogo americano aponta as
seguintes características do pensamento: todo pensamento tende a ser
parte de uma consciência pessoal (onde estão fundados os estados de
consciência com os quais lidamos), em cujo interior esse se encontra
sempre mudando, já que é sensivelmente contínuo. [81] O
pensamento, ainda, lida sempre com objetos que são independentes de si próprio,
procedendo a escolhas e exclusões de partes desses objetos, também
continuamente. [82] Os únicos
estados de consciência lidados por nós estão fundados nas consciências
pessoais, nas mentes, nos egos, nos sujeitos (eu e você) particulares
concretos. Nesses termos, o ego pessoal, antes que o pensamento, poderia
ser tratado como o dado imediato em psicologia. O fato consciente
universal não é 'sentimentos e pensamentos existem', mas 'eu penso' e
'eu sinto'. [83] Em estados anestésicos
profundos, ou sob o estado de hipnose, foram detectados sentimentos e
pensamentos ocultos; estes, fazem parte de egos pessoais secundários. Via
de regra, esse egos, também freqüentemente chamados de segunda
personalidade, formam unidades conscientes, têm memórias contínuas e
sua expressão tende para a personalidade dominante; e, via de regra, também,
esses egos secundários são anormais e resultam, como entende Janet, de
uma partição do ego completo. [84] Certas respostas
a estímulos, em catalépticos e histéricos, por exemplo, que eram no
passado apontadas como meros reflexos fisiológicos, são na verdade
escoltadas por sentimentos. Janet admite, ainda, que até mesmo
pensamentos estúpidos tendem a desenvolver memória, [85] de tal
sorte que todo pensamento, qualquer que seja o estado em que ele é
gerado, propende a assumir a forma de consciência pessoal. Assim também,
as expressões rudimentares, oriundas de transe, por exemplo, são o
trabalho de uma parcela inferior da mente natural do sujeito, posta fora
de controle. [86] James denomina
as sensações de estados de consciência duradouros de objetos simples,
se intensos forem; imagens, se forem fracos; se os estados de consciência
duradouros forem de objetos complexos, chama-os de 'perceptos', quando
intensos; 'conceitos' ou 'pensamentos', quando fracos. "Para as
consciências rápidas temos somente aqueles nomes de 'estados
transitivos' ou 'sentimentos de relações'".[87] Os estados
cerebrais não morrem instantaneamente, como de há muito se sabe. Uma
sucessão de estados cerebrais é modificada pelo estado inercial
anterior, alterando seu resultado. Se uma sucessão cerebral a foi
excitada, e em seguida b e depois c, a consciência total presente não
será apenas uma resultante de c, como também das vibrações de a sobre
b e de b sobre c. Em outras palavras teremos uma resultante que se
exprimirá matematicamente pelo processo a exponenciado pelo processo b,
exponenciado, por seu turno, pelo processo c. Todas as imagens
mentais que nos ocorrem estão embebidas em um fluxo contínuo, em uma espécie
de "água livre da consciência", no dizer de James. [88] O valor de tais imagens está
contido numa espécie de auréola que açambarca e acompanha a imagem,
fundindo-se a ela como se a ela pertencesse. A despeito disso, a imagem
escoltada nessa água livre da consciência (que por seu turno flui e
reflui no curso mental), é ainda a imagem do mesmo objeto, agora
acompanhada do sentido de suas relações, próximas ou remotas, do eco
evanescente de sua origem e do sentido de uma espécie de plenitude para a
qual ela está sendo conduzida em sua aparição. [89] A idéia de
algo, ou o objeto total, em nossa mente, como entende James, está sempre
presente onde as palavras - que traduzem, qualificam ou lembram esse
objeto total - são assimiladas e entendidas, "não somente antes e
depois que a frase foi falada, mas também enquanto cada palavra separada
é pronunciada".[90] A consciência
da idéia e das palavras (que as traduzem)" são consubstanciais.
Elas são feitas [idéias e palavras] do mesmo 'estofo da mente' e formam
um fluxo inquebrável".[91] Um epíteto
jameseano resume seu entendimento da mente humana: "a mente é em
cada estágio um teatro de possibilidades simultâneas" (itálicos
nossos). [92] O exame do teor desse simultaneísmo,
bem como a extensão das relações conjuntivas, sempre presentes, e sobre
as quais já se tratou ligeiramente, leva-nos de imediato ao empirismo
radical de James. Ao contrário do
racionalismo, que enfatiza os universais, construindo-os antes das partes
em sua ordem lógica, o empirismo "fundamenta a ênfase explanatória
na parte, no elemento, no indivíduo, e trata o todo como uma coleção e
o universal como uma abstração".[93] A
filosofia de James principia, como ele assevera, pelas partes, tratando o
todo como um ser de segunda ordem. Sua filosofia é em essência "uma
filosofia de mosaicos, uma filosofia de fatos plurais", e que não
admite em sua construção qualquer elemento que não possa ser
diretamente experienciado. [94] Acresça-se a
isso o fato de que enquanto o empirismo comum sempre demonstrou uma tendência
a não levar em conta as conexões das coisas e a insistir sobretudo nas
disjunções, o empirismo radical de James aceita a conjunção e a separação,
"cada qual com seu valor evidente. […] [fazendo] justiça completa
às relações conjuntivas", sem tratá-las como os racionalistas o
fazem, ou seja, como se pertencessem a uma ordem distinta de verdade. [95] Um dos pontos
centrais do empirismo radical é o seguinte: se admitimos que exista uma
única matéria-prima no mundo, um único 'estofo', do qual tudo é
composto, e se o denominamos 'experiência pura', [96] "o
conhecer pode ser explicado como uma espécie particular de relação mútua
entre estofos, relação esta em que partes da experiência pura podem
entrar." Faz parte da experiência pura a própria relação
mencionada, em que um de seus termos é o sujeito, o portador de
conhecimento. [97] Para os
neokantianos, a experiência exerce o papel de testemunha dos
acontecimentos temporais, mas não toma parte neles, visto que é
desprovida de tempo. "Ela é […] o correlativo lógico de 'conteúdo'
em uma Experiência, cuja peculiaridade é que o fato vem à luz nela, que
a conscientização do conteúdo toma lugar" (em itálico no
original). Para os neokantianos a consciência é totalmente impessoal.
"O 'eu' e suas atividades pertencem ao conteúdo"; admitem eles
"a consciência como uma necessidade 'epistemológica', mesmo que não
tivéssemos evidência direta de ela estar lá". [98] No entender de
Paul Natorp, a consciência é um elemento ou momento, ou ainda um fator
de uma experiência de constituição interna dualista em sua essência,
da qual ao se abstrair o conteúdo, ela ficará revelada. [99] Em outras palavras, admite Natorp que por intermédio de uma
subtração mental se possa separar os dois fatores envolvidos, conteúdo
e consciência, distinguindo-os suficientemente para saber que são dois.
James refuta essa posição. A experiência, acredito, não tem tal duplicidade interna; e
a separação dela em conteúdo e consciência não se efetua por meio de
subtração mas por meio de adição - a adição a uma parte concreta
dada da experiência de outros conjuntos de experiências, em conexão com
os quais rigorosamente seu uso ou função pode ser de dois tipos
diferentes (em itálico no original). [100] Nartop, para
defender seu ponto de vista dualista, utilizara um paralelismo, tomando
como exemplo a constituição da tinta: também ela possui uma constituição
dual, envolvendo uma massa de contéudo, na forma de um pigmento em
suspensão, e um mênstruo, que pode ser óleo ou um espessante. O mênstruo
pode ser obtido simplesmente permitindo-se que o pigmento se deposite;
este, por seu turno, pode ser recuperado depurando a substância
espessante, ou o óleo. James fez também
uso da tinta, em outro paralelismo, para ilustrar sua rejeição à idéia
de Nartop e demonstrar que a dualidade da experiência ocorre por adição,
não por subtração, como queria Nartop. Num pote numa loja de tintas, juntamente com outras tintas,
ela serve em sua totalidade como algo vendável. Espalhada numa tela, com
outras tintas ao seu redor, ela representa, ao contrário, um traço numa
pintura e desempenha uma função espiritual. Dessa mesma maneira, uma porção
não separada da experiência, tomada num contexto de associados,
representa o papel do que conhece, de um estado da mente, da 'consciência',
enquanto num contexto diferente a mesma porção não separada da experiência
representa a parte de uma coisa conhecida, de um 'conteúdo' objetivo.
Numa palavra, num grupo figura como um pensamento, em outro grupo como uma
coisa. E, desde que ela possa figurar em ambos os grupos simultaneamente,
temos todo o direito de falar dela como algo subjetivo e objetivo ao mesmo
tempo (itálicos nossos). [101] Em outras
palavras no ponto em que a experiência se efetiva interseccionam-se
segmentos de contéudo (objetivo) e de consciência (subjetiva). Nesse
ponto hipotético o pensamento, que é subjetividade, recebe o influxo da
objetividade. Ou vice-versa. O influxo da objetividade se manifesta quando
'a coisa' surge, e esta recebe o sopro particular, especial, que lhe
confere subjetividade. Uma paisagem, por exemplo, pode ser apreendida com
a frieza descritiva de um naturista que a captou pela primeira vez; mas
pode ser capturada como uma forte evocação de uma vivência passada. A
experiência é a intersecção desses vertedouros díspares. A experiência
que tem lugar quando um observador depara um objeto de seu interesse pode
pertencer a vários pares de associações oriundas cada uma do cruzamento
de um segmento de conteúdo com outro, de consciência, o que se torna
evidente quando nos damos conta de quantas formas diferentes
experienciamos na presença de algo que nos é familiar, como uma surrada
poltrona, ou uma sala de jantar em que estivemos inúmeras vezes ao longo
de nossa vida. Em ambos os casos, poltrona e sala de jantar estão ligadas
tanto à biografia pessoal do observador, como à realidade física
exterior, de cunho funcional ou cultural, entre outros. E isso é válido
tanto para os perceptos (do qual já falamos, e que, não nos custa
repetir, são estados de consciência duradouros intensos de objetos
complexos), como para os conceitos (estados de consciência duradouros
fracos de objetos complexos). Vejamos o que
diz James: se tomamos […] lembranças ou fantasias conceituais, elas
também são, em sua primeira intenção, simples partes da experiência
pura, e, enquanto tais, são simples aquilos que atuam num contexto como
objetos e em outro contexto figuram como estados mentais. Tomando-as em
sua primeira intenção, isto é, ignorando sua relação com possíveis
experiências perceptuais com as quais elas podem estar ligadas, às quais
podem conduzir e nas quais podem terminar, e que, então, elas possam
supostamente 'representar', confinamos o problema a um mundo meramente
'pensado' e não diretamente sentido ou percebido. Este mundo, assim como
o mundo dos perceptos, nos aparece, em primeiro lugar, como um caos de
experiências, mas se alinha em ordem assim que é traçado. Verificamos
que qualquer parte dele que possamos isolar como um exemplo está ligada
com distintos grupos de associados, assim como nossas experiências
perceptuais o estão, que estes associados se ligam a ele por diferentes
relações e que um forma a história interior da pessoa, enquanto o outro
atua como um mundo 'objetivo' impessoal, seja espacial e temporal, seja
meramente lógico ou matemático ou, de outra forma, 'ideal'. [102] Uma advertência
talvez desnecessária, mas útil: "o caráter de não-eu" das
nossas recordações individuais não implica em que os objetos externos
sobre os quais cada um de nós tem consciência objetivem-se da mesma
maneira para todo indivíduo, haja vista que os objetos comuns, para os
alucinados, são desprovidos de validade geral. "Não existisse o
mundo perceptual para servir como seu 'redutivo' (…)nosso mundo de
pensamento seria o único mundo, e gozaria realidade completa em nossa
crença." [103] As conjeturas de
James acabam por desembocar naquilo que ele denominou de 'minha tese',
qual seja, a de que a peculiaridade de nossas experiências (em que as
qualidades conscientes são invocadas comumente para explicá-la) é
melhor discernida por intermédio das relações entre experiências, ou
seja, pela relação de uma dada experiência com as demais experiências
havidas. Não há,
entretanto, nas palavras do filósofo, 'um estofo geral' do qual a experiência
possa ser constituída. De fato, "existem tantos estofos quantas
'naturezas' nas coisas experienciadas." [104] Se se indaga do que a experiência pura se constitui, dir-se-á
que "é constituída de aquilo, exatamente do que parece", ou
seja, de uma infinidade de elementos, como peso, uniformidade, coloração,
espaço, ou de qualquer outra coisa (em itálico no original). [105] Um dos
principais contributos de William James é seu exame das relações
conjuntivas e o seu posicionamento na dinâmica da experiência humana. O significado
das relações conjuntivas, sobre as quais tanto se falou aqui, é
corrente, de domínio público. Relações conjuntivas são, como sabemos,
aquelas designadas por palavras tais como 'perto de', 'com', 'próximo a',
e muitas outras. Nossa experiência nos adverte, também, que as relações
(no mundo da experiência) são de graus diversos de intimidade. A mais
exterior é a que a proximidade de seus termos não leva a ulteriores
conseqüências; é a relação de 'estar com'. Seguem [como observa James,] as relações de simultaneidade e
intervalo de tempo, depois adjacência de espaço e distância. Depois
destas, acarretando a possibilidade de muitas interferências, as relações
de similitude e diferença. A seguir, conectando termos em séries
envolvendo mudança, tendência, resistência e a ordem causal em geral,
as relações de atividade. Finalmente, as relações experienciadas entre
termos que formam estados da mente e que estão imediatamente conscientes
de uma continuar a outra. A organização do Eu como um sistema de memórias,
propósitos, esforços, satisfações ou desapontamentos é incidental
para aquela que é a mais íntima de todas as relações, cujos termos
parecem, em muitos casos, […] cobrir mutuamente seu ser. […] [Mas a]
relação conjuntiva que mais dificuldade deu à filosofia é a transição
consciente […] pela qual uma experiência passa a outra quando ambas
pertencem ao mesmo eu. Acerca dos fatos não existe problema algum. Minhas
experiências e suas experiências estão umas 'com' as outras de várias
maneiras exteriores, mas minhas experiências passam para outras experiências
minhas e as suas experiências passam para outras experiências suas de
uma maneira em que as suas e as minhas nunca passam uma para a outra. Em
cada uma de nossas histórias, temas e objetos pessoais, interesses e propósitos
são contínuos ou podem ser contínuos. Histórias pessoais são
processos de mudança no tempo e a mudança em si mesma é uma das coisas
imediatamente experienciadas. 'Mudança', neste caso, significa transição
contínua oposta à transição descontínua. Mas a transição contínua
é uma espécie de relação conjuntiva; e ser empirista radical significa
ater-se decididamente a essa relação conjuntiva […], este é o ponto
estratégico [106] (em itálico no original). Embora Eliot
tenha dito, em seu ensaio sobre Bradley, que uma das grandes fraquezas do
pragmatismo é a de que este acaba sendo de nenhuma utilidade, [107] declarou dois anos depois que a
obra mais importante de James viera a lume, [108] em conferência promovida pela Harvard Philosophical Society,
que a borrasca do pragmatismo estava tornando o homem a medida de todas as
coisas. [109] Com o passar do
tempo, e sobretudo em sua sistemática prospecção sobre o cíclico
reaparecimento da poesia metafísica ao longo das épocas, bem como no
desenvolvimento de sua tese sobre a desintegração do intelecto, que
correu sempre em paralelo, e intimamente ligada aos ciclos da poesia metafísica,
parece-nos que Eliot acolheu a filosofia de James de maneira menos
defensiva. [110] E existe ao menos uma razão para
que isso tenha acontecido. É que o conhecimento das teses centrais do
empirismo radical refinou muito provavelmente a análise de Eliot acerca
da poesia metafísica de todos os tempos.Tal hipótese justifica-se haja
vista que a matéria expressiva que a lírica da segunda revela (e aqui
incluem-se seu método de construção, o desenvolvimento estrutural-temático,
a engenhosidade empregada, o tratamento formal e conteudístico, etc.)
poderia, sem aparente dificuldade de adequação - o que não deixa
empolgar a curiosidade -, ser uma conseqüência natural do
desenvolvimento das primeiras, independentemente da cronologia dos
eventos. Se tal hipótese carece de suficiente lastro, quando se examina a
poesia metafísica do trecento, ganha contudo consistência quando,
partindo de Donne, nos afastamos de seu tempo em direção ao presente.
Com efeito, o pragmatismo e o empirismo radical de James parecem ter sido
construídos a caráter para subsidiar a poesia metafísica a partir do século
XVII. Em "A nova
poesia portuguesa no seu aspecto psicológico", Pessoa teceu comentários
acerca da poesia dos poetas correligionários de Pascoais, encontrando
nela características muito especiais. Chegou mesmo a entender a
religiosidade expressa nessa poesia como "uma religiosidade nova, que
não se parece com a de nenhuma outra poesia".[111] Seu
arcabouço espiritual deriva de uma ideação vaga, sutil e complexa. A
ideação vaga é a que tem o que é vago ou indefinido por seu objeto;
sutil é a ideação que traduz uma sensação simples por outra sensação
que a intensifica sem a alargar; complexa é a ideação "que traduz
uma impressão ou sensação simples por uma expressão que a complica
acrescentando-lhe um elemento explicativo" que lhe dá novo sentido. A expressão sutil intensifica, torna mais nítido; a expressão
completa dilata, torna maior. A ideação sutil envolve ou uma direta
intelectualização de uma idéia ou uma direta emocionalização da emoção:
daí o ficarem mais nítidas, a idéia por mais idéia, a emoção por
mais emoção. A ideação complexa supõe sempre ou uma intelectualização
de uma emoção, ou uma emocionalização de uma idéia: é desta
heterogeneidade que a complexidade lhe vem (em itálico no original). [112] A nova poesia
portuguesa, a par o fato de se ocupar com o espírito, com a alma, é também
uma poesia ocupada com a natureza, nela encontrando inspiração.
"Por isso […] que ela é também uma poesia objetiva".[113] Em outras palavras, é objetiva por força de apresentar três
características: nitidez ("revelada na forma ideativa do
epigrama"), plasticidade ("fixação expressiva do visto ou
ouvido com exterior") - como por exemplo a poesia grega e romana, a
de Hugo, e a de Cesário Verde; a terceira característica dessa poesia é
a imaginação (no "sentido de pensar e sentir por imagens"),
gerando "rapidez" e "deslumbramento". Adverte, no
entanto, que esse deslumbramento, em alto grau, quando não surge
consorciado com "elemento de pura espiritualidade" acaba
deixando o que considera ser "uma inquietante impressão de grandeza
oca". Como exemplo disso, cita Hugo - que a alguns, em vista disso, dá
"uma impressão de máxima grandeza e a outros de uma oca
grandiosidade". Na poesia
portuguesa esse grau máximo de objetividade ainda não teve lugar;
"prova-o ao ouvido o seu movimento geralmente lento, quando a imaginação
imprime sempre ao verso uma rapidez inignorável [sic]". [114] É famosa a seqüência
em que Pessoa vislumbra em futuro próximo o surgimento do grande poeta, o
Super-Camões, que irá concretizar uma poesia com o "máximo equilíbrio
da subjetividade e da objetividade".[115] Será uma poesia metafísica,
imaginativa, diz ele, "uma poesia subjetiva e objetiva, poesia de
alma e de natureza", voltada para a manutenção de uma aparente
contradição, qual seja, a espiritualização da matéria, lado a lado
com a materialização do espírito. [116] Não seria
oportuno rever alguns conceitos, aqui assinalados, acerca da poesia
denominada metafísica? O engenho metafísico
é mais intelectual que verbal, e deriva de uma mistura peculiar de paixão,
pensamento, sensibilidade e raciocínio (ressalta Grierson). Busca
aprofundar e alargar o campo da experiência, tratando temas como o amor
de maneira pouco convencional (sobretudo se examinamos a produção de
Donne e da maioria dos poetas elizabetanos), em que a fúria e a fascinação
andam juntas; a poesia metafísica serve-se de ritmos capazes de expressar
a complexidade e completitude da mente, os fluxos e refluxos do humor
(como em Donne) a instabilidade, quando não a desarmonia da vida;
aproxima freqüentemente o coloquial e prosaico ao poético, injetando
nestes elementos que escapam à convenção; faz uso de expedientes
sonoros como o eco, agregando pensamentos e coisas aparentemente remotas,
distantes. A emoção, mais
do que as idéias ou pensamentos, encontra-se na gênese da poesia metafísica,
que não obstante explore as paixões, lida com argumentos muitas vezes
paradoxais, e busca uma imagética cultivada. Não nos enganemos, contudo;
a sensibilidade do poeta metafísico é perpassada pela ação do
intelecto analítico. A compreensão do amor, e o poema de Cavalcanti,
visto acima, é um belo exemplo, se faz por meio dos sentidos, mas com o
concurso decisivo do intelecto, da razão sensível, que não despreza os
sentidos, antes os utiliza como bússola a guiar provocativamente o raciocínio
pelos seus meandros, com elegância, equilíbrio e uma imaginação
treinada (Eliot). A principal
característica da poesia metafísica é a de buscar sempre, ou na maioria
das vezes, elevar o sentimento a regiões comumente visitadas apenas por
intermédio do pensamento abstrato. Em outros
termos, logra transportar o pensamento para a esfera do sentir,
fundindo-os (sentimento e pensamento) de modo peculiar, já que não
permanecem indistintos. Contudo, a dinâmica da poesia metafísica não
oferece dois fluxos diversos, um de emoções, outro de conceitos. Antes,
um fluxo unitário em que pensar e sentir estão, como se disse, fundidos,
e onde o poema é um objeto construído a partir das intersecções de
pensar e sentir, ou de sentir e pensar. Desse vezo
derivam semelhanças inesperadas, nascidas da reciprocidade de estímulos
entre a esfera da emoção e a do intelecto. Deriva também uma imagética
intensificada e se altera o fluxo natural da idéia, de modo a extrair, do
pensamento assim lentamente desdobrado, o mínimo de emoção existente;
como se pensamento e emoção fossem, simultaneamente, agentes indutores
de um processo químico. Por essa via, logra a poesia metafísica conferir
ao pensamento o máximo de valor poético e dramático, sobretudo ao
explorar o desequilíbrio entre imagem e idéia, no encalço de recuperar
a noção de um mundo carente de unidade, como tem sido sua sina desde o século
XVII. O método metafísico
toma como ponto de partida, como vimos, o maior em direção ao menor, o
central na direção do que é periférico, construindo um percurso do
passional ao reflexivo, argumentativo. O lastro conceptista da poesia
metafísica é o que permite tal desenvolvimento (que é chamado de
pensamento vagante). A proximidade
dos elementos que traduzem o sentir e o pensar, na poesia metafísica,
favorecerá a concentração, a vizinhança de temperamentos e posturas
distintas (como o humor, a ironia e a seriedade) e a ampliação do efeito
imagético do poema. No verso metafísico a mais rarefeita sensação pode
ser exata e diligentemente expressa. A contigüidade
de tais elementos indicados acima favorece a ruptura da hierarquia entre
os componentes funcionais do poema, dando chance ao surgimento de dissociações
intelectuais, e oportunidade para a manifestação de um ego onipresente
(Eliot, Laforgue), e, ainda, permitindo associações livres, de coisas
por conseguinte díspares (em vista da adoção da similaridade), além da
fabricação de neologismos, de mots-valise (Laforgue) - que operam como
um alerta que acusa o desmoronamento das fronteiras funcionais do corpo poético.
Ao lado disso tudo, a despersonalização (como estratégia poética), e o
indiciamento da situação de crise com respeito ao 'lugar' do poema. Resta alguma dúvida
de que as características que Pessoa atribuiu à poesia metafísica
praticada pelos colaboradores de A Águia pouco diferem dos traços
imputados aos poetas metafísicos ao longo do tempo, embora o artigo
pessoano não tivesse, a bem da verdade, como meta, destrinçar o verso
metafísico, mas, ao contrário, rebatizá-lo com o nome de panteísmo
transcendental para assim desviar as suspeitas que recairiam sobre ele próprio,
acusando em momento talvez inoportuno as influências metafísicas em sua
obra? Emocionalização da idéia, intelectualização da emoção, ideação
vaga, complexidade, etc. são atributos fundamentais da poesia metafísica.
Estão presentes em maior ou menor grau em Donne, Crashaw, Pascoais,
Baudelaire, Laforque. Adotar a
sensibilidade como pedra de toque da arte, tornando-a instrumento da
inteligência, é um dos pontos fulcrais da poesia metafísica. Em
"Apontamentos para uma estética não-aristotélica", o poeta
português (que atribui o texto a seu heterônimo Álvaro de Campos)
afirma que a sensibilidade é toda a vida da arte; que toda a arte parte
da sensibilidade e nela se baseia; que a arte subordina tudo à sua sensibilidade, converte tudo em substância
da sensibilidade, para assim, tornando a sua sensibilidade abstrata como a
inteligência (sem deixar de ser sensibilidade), emissora como a vontade
(sem que seja por isso vontade), se tornar um foco emissor abstrato sensível
[…][117] (em itálico no original). Em outra
passagem, defende uma fundamental postura metafísica, a de que a arte
deve partir do geral (maior) na direção do particular (menor); "é
o geral que deve ser particularizado, o humano que se deve pessoalizar, o
'exterior' que se deve tornar 'interior'".[118] Isto sem
falar nos inúmeros apontamentos sobre arte moderna, orfismo,
sensacionismo, etc. Sabe-se que na
altura em que Pessoa escreveu suas coloborações para a revista A Águia,
não poderia ter manuseado a antologia de Herbert Grierson sobre a poesia
metafísica inglesa do século XVII, simplesmente porque a referida coletânea,
já mencionada, veio a lume nove anos depois; por motivo idêntico, não
teria lido o último volume da obra Minor poets of the Caroline Period, de
George Saintsbury, que só saiu em 1921, mas provavelmente tinha
conhecimento de que Johnson referira-se no Lives of the poets [119] a alguns nomes da escola de Donne de maneira muito peculiar -
e, mais ainda, tivera Pessoa contato direto, provavelmente já em seus
anos de liceu em Durban, com essa matriz poética que coincidentemente foi
também decisiva leitura para T. S. Eliot, como este, aliás, em diversos
momentos - e diferentemente do poeta português -, reconheceu
publicamente. [120] Será possível
considerar a hipótese de que a menção, feita por Pessoa, da existência
de uma lírica com as características por ele apontadas (e que são,
inegavelmente, de ordem metafísica) nos versos de Pascoais, Beirão,
Junqueiro e Cortesão, depois do que acabamos de analisar, nada tenha a
ver com a estética de poetas como Donne, Crashaw, Marvell, Cowley,
Aurelian Townshend e Edward Benlowes? Certo que não. Se
por um lado é também forçoso concordar que os poetas portugueses
mencionados por Pessoa de fato se constituem na primeira geração de
poetas metafísicos de Portugal (e esta é mais uma contribuição
pessoana, embora velada), o que não exclui, logo se verá, a
possibilidade de encontrarmos um solitário poeta português metafísico
de outra geração, anterior, é inegável que ao anunciar a chegada
vindoura de um Super-Camões, que iria com grande imaginação pensar e
sentir por imagens, conferindo à poesia daquele país um grau de
objetividade jamais alcançado por ela, aprimorando e completando aquele
trabalho encetado por Pascoais, Cortesão, Junqueiro e Beirão, Fernando
Pessoa não apenas deixou claro para a posteridade que o lugar do
Super-Camões seria seu (e foi), como também se autodenominou metafísico
sem dizê-lo. Se o leitor
quiser, antes de prosseguirmos, realizar algumas investigações
adicionais por conta própria, nessa linha tenuemente tracejada por
Fernando Pessoa, examine o ensaio "The metaphysical poets",[121] ou ainda este outro, "Andrew Marvell".[122] Em seguida, proceda ao exame de
"Elegia do amor" de Pascoais, ou de "O sonho", de Beirão,
seguindo a trela estirada pelo poeta português; evidentemente não deve
deixar de reler seus artigos publicados nA Águia. Desemboque
imediatamente a seguir no interseccionismo pessoano e tome por exemplo os
versos do primeiro poema de "Chuva oblíqua". Volte ao século
XVII e leia, digamos, "Twicknam Garden", de Donne, ou "On a
drop of dew", de Marvell. Depois disso, o
leitor poderá concordar com Pessoa que a raiz da estesia do
transcendentalismo panteísta - e em grande parte a que assiduamente
subsidiou certa vertente órfica da obra poética pessoana - alimenta-se
da seiva dos metafísicos, e, tanto quanto nós, ficará intrigado pelo
fato de Fernando Pessoa jamais ter exposto à luz do dia sua grande fonte
de inspiração. Ao contrário, tem-se a impressão de que planeou ocultá-la.
Argumentará o
leitor que isso não é de todo verdade, que não há ocultamento algum,
posto que a influência da poesia inglesa em Pessoa é evidente e indiscutível.
Ele foi educado sob os auspícios do mundo colonial britânico; seu
primeiro poema foi escrito em inglês e suas últimas palavras que já sem
fala, no leito de morte, transpôs para o papel, foram estas: "I know
not what tomorrow will bring". Ademais, Pessoa
produziu vasta obra em língua inglesa. Os "35 sonnets" foram
congeminados em 1913 ou 1912, e publicados em 1918. "Antinous",
de 1915, "Inscriptions" (cuja fatura é de 1920) e
"Epithalamium", de 1913, compõem respectivamente, English poems
I, II e III - e prestam notável tributo àquele idioma; e em 1920,
publicou o poema "Meantime" na prestigiosa revista inglesa The
Athenaeum, no número que veio a lume a 30 de janeiro daquele ano. Outro argumento
sobre a franqueza pessoana quando se trata de expor seu profundo débito
para com a cultura inglesa é o fato de Fernando Pessoa, em sua carreira
literária, jamais haver desistido de se apresentar como poeta inglês,
vindo a publicar, em Portugal, Na Contemporânea de março de 1923, em seu
número 9, o poema "Spell". "Antinous",
acrescentará o leitor, não apenas é escrito em inglês como amolda-se
ao esteticismo britânico, a despeito de conservar certa dicção da
poesia romântica inglesa, como assevera Jorge de Sena. [123] Se não se deve descartar o fato de que em Portugal poemas
longos como esse não eram novidade, haja vista Junqueiro, Gomes Leal, Eugênio
de Castro e Pascoaes, é inegável que a tradição inglesa oferecia
"uma massa triunfal de poemas longos da mais vária espécie"[124] que o atraiu para submeter seu
estro à prova. Sabe-se que o
epitalâmio, de origem grega, é uma canção nupcial, como Dionísio de
Halicarnasso registra em sua Retórica. Os latinos fizeram uso dele,
adaptando-o à tradição das festas fesceninas (em que à época das
colheitas, homens adolescentes cantavam versos obscenos). Tal costume teve
lugar também em festas matrimoniais e entre os romanos (quando então os
versos fesceninos vieram a corresponder ao que na Grécia se denominava
himenaios, ou cântico processional, que nada mais era do que um cortejo
de vozes que acompanhava os nubentes até a soleira da alcova,
atirando-lhes gracejos indecentes). Tanto a origem grega, mais cultivada,
quanto a romana desembarcaram na Renascença. Pessoa optou pela
alternativa fescenina, mas não tirou de vista o fato de que John Donne e
Ben Jonson também foram adeptos do epitalâmio. Os sonetos
ingleses de Pessoa, se por um lado revelam que a matriz das rimas é a do
correlato shakespeariano, a sintaxe, fato que não escapou a Jorge de
Sena, é metafísica, [125] portanto o
argumento de que o poeta português escamoteou a influência metafísica
em sua poesia não pode se sustentar, objetará o leitor. Se de fato tinha
Pessoa o intento de fazer desaparecer as pegadas de seu trajeto de
aprendizagem metafísica, bastaria deixar de publicar seus poemas
ingleses. Não é bem
assim: a poesia metafísica inglesa a que Sena se refere na introdução
aos Poemas ingleses é, não há dúvida, aquela justamente praticada pela
geração de Donne, uma vez que Fernando Pessoa em seus versos ingleses
apenas se limitara, de modo algo esquemático e artificial, a
experimentar, anacronicamente, aquilo que Donne e seguidores já haviam
realizado no século XVII. [126] No entanto, a herança metafísica,
com todo seu lastro de degenerescência intelectual, que Pessoa fez
aportar, com suas colaborações, paralelamente, ao movimento do Orpheu, não
é de modo algum aquela que transpira (por mero exercício, digamos,
diletante) de seus poemas ingleses, nem mesmo a que, já sendo
efetivamente metafísica, Pascoaes, Cortesão e Beirão praticaram, mas
uma outra poesia metafísica, uma poesia metafísica em estágio ulterior
de desintegração do intelecto, como foi a de Laforgue com relação a de
Crashaw. Como foi a de Donne com relação a de Dante. E sobre esse
ressurgimento da poesia metafísica em Pessoa o poeta não disse uma só
palavra. Por conseguinte,
é de se inferir, dentre muitas outras coisas, que a referida 'absoluta
originalidade' e concepção de mundo inteiramente portuguesa, que Pessoa
alegara certa feita possuirem os transcendentalistas panteístas, é uma
cortina de fumaça a escamotear o legado metafísico transcultural atuante
naqueles, bem como nele próprio. Assistido e
inspirado, em seu percurso órfico - e não apenas nele -, pelas cíclicas
aparições da poesia metafísica ao longo da história, Pessoa incorporou
também o pragmatismo e o empirismo radical de James, não somente para
entender melhor a estesia metafísica, como fizemos nós, e certamente
Eliot, como para planear seus passos no movimento do Orpheu. À época em que
Pessoa escrevia seus primeiros esboços sobre o sensacionismo (quer na
acepção de sinônimo de orfismo, quer como interferência tópica no
poema, quer como um dos termos de um programa de arte derivado), o
sucedentismo, o interseccionismo, etc., já o sensacionalismo de James, ao
lado (no interior, na verdade) de sua cosmovisão empírico-radical, aqui
sinteticamente apresentada, se haviam difundido na Europa, inicialmente
através dos países de língua inglesa. Daí não
poderem ser tratadas como frutos do acaso as incidências do pragmatismo e
do empirismo radical na obra pessoana. O pragmatismo valoriza a experiência,
a esfera dos sentidos, a capacidade de coleta de dados, com o posterior
equacionamento destes no âmbito da consciência, como vimos. O mesmo se dá
com a programática órfica ("a verdadeira arte moderna tem de […]
acumular dentro de si todas as partes do mundo").[127] Assim,
defende o empirismo a prática de ir além das primeiras revelações,
procurando sempre pelas últimas conseqüências, buscando tal desiderato
pelo encaminhamento de processos intelectuais na direção dos
particulares, como quer também a poesia metafísica, o paulismo, o
simultaneísmo órfico e o interseccionismo. Para James as idéias
tornam-se verdadeiras quando ajudam a manter relações satisfatórias com
outras partes de nossa experiência. A verdade de uma idéia significa tão-somente,
como vimos, suas operações, não o objeto da idéia. Nesse
contingenciamento, por assim dizer da verdade, pela negação da verdade
absoluta, se empenha a 'estética do fingimento pessoano' (o
hipercriticismo fingido órfico), aqueles programas de arte voltados para
a exploração da fragmentação do sujeito lírico, bem como de sua
polivalência, além de todas as práticas poéticas em que se afiguram
atitudes mentais que espelham uma adesão à despersonalização. Um
programa de arte como o interseccionismo seria inteiramente desbaratado
caso viesse a admitir um sentido para a verdade distinto do que o
pensamento de James promove. O
pragmatismo, segundo James, não tem preconceitos, nem defende dogmas,
adotando uma postura de completa maleabilidade face a outras formas de
pensar. Não por acaso, a proposta inaugural da revista Orpheu, que
examinamos detidamente, condena preconceitos e defende uma abertura para
propostas estéticas de todos os quadrantes. Pensamento, para James, é toda forma de consciência; e todo
pensamento tende a ser parte de uma consciência pessoal, em cujo interior
esse se encontra sempre mudando, já que é sensivelmente contínuo. O
simultaneísmo órfico e o interseccionismo manejam, em seus diferentes
campos de ação, o plástico e o da palavra, respectivamente, esses
conceitos. Na esteira de
Peirce, o pragmatismo entende que crenças são regras de ação e que o
significado de um pensamento deriva da conduta que ele está apto a
provocar. Tem-se que extrair de palavras como "Deus", "razão",
"matéria" seu valor de compra prático; fazê-las, diz James,
trabalhar dentro da corrente da nossa experiência. Pessoa entende que
"Deus" é apenas uma palavra, um valor estético, que pode vir a
sugerir mistério, mas que não serve a objetivo moral ou qualquer outro.
Sua defesa do panteísmo, também ela encontra eco no pragmatismo de
James, que recomenda por seu turno, como religião, alguma espécie de
deidade imanente ou panteísta operando nas coisas preferivelmente a
operar por sobre elas. A defesa da interpenetração do espírito e da matéria,
à qual Pessoa atribui aos sensacionistas de modo geral também não é
postura que destoe do pensamento de James. Cada novo estado
cerebral, segundo James, é modificado pelo estado inercial anterior ao
estímulo - e todas as imagens mentais estão embebidas em um fluxo
cerebral contínuo. Da mesma forma, o pensamento é contínuo e os únicos
estados de consciência com os quais lidamos estão fundados nas consciências
pessoais. Para o filósofo
americano, como vimos, o fato consciente universal não é 'sentimentos e
pensamentos existem, mas 'eu penso' e 'eu sinto'. A valorização sem
precedentes da sensação no método de James; o entendimento de que
existe uma linha inquebrável que vai da sensação ao pensamento; que
parte da sensação ou da imagem, ganhando complexidade (se tornando
percepto) numa escala de intensidade que oscila entre o pensar e o
conceituar - que é a noção, enfim, de fluxo contínuo de nossas imagens
-, tais entendimentos são também postulados do interseccionismo e do
simultaneísmo órfico. Ainda: o empirismo radical ao valorizar os
elementos conjuntivos da experiência, as conexões entre as coisas, como
vimos, acaba por dar franco respaldo aos processos interseccionistas e
simultaneístas órficos. Seria possível
conceber-se estes últimos, por exemplo, extirpando deles sua vocação
para as relações contínuas, para a mútua contaminação funcional
entre as possíveis partes de um todo; para a percepção de um espaço
sem ruptura, em que qualquer elemento interfere no todo e em que o todo é
uma realidade puramente intelectual? Seria possível pensar o
interseccionismo sem o processamento de estados de alma-paisagens, cuja
existência depende integralmente de uma convergência de contínuos
estados mentais; cuja manifestação, puramente intelectual, por sua vez,
só admite a sucessividade entrecruzada de acontecimentos mentais simultâneos,
sob estímulos múltiplos e variados? Certamente não. Nem mesmo no que
diz respeito ao paulismo (que apenas contempla a sucessividade de estados
de alma-paisagens). A mente é em
cada estágio um teatro de possibilidades simultâneas, como afirmou
textualmente o filósofo americano - e é justamente em busca de capturar
pintando ou poetizando essa peculiridade de nossa vida mental, digamos
assim, que o simultaneísmo órfico e o interseccionismo encontram sua razão
de ser. A peculiaridade de nossas experiências será sempre melhor
discernida por intermédio das relações entre elas. O empirismo sabe
disso, os adeptos do interseccionismo também. E, por último,
a nomenclatura da grande maioria dos programas congeminados no Orpheu está
intimamente ligada às propostas do empirismo radical e do pragmatismo,
como o sensacionismo (sensacionalismo, para James), o interseccionismo e o
simultaneísmo, cada um destes últimos originados das noções defendidas
por James com respeito ao processo cerebral, às relações conjuntivas,
aos sentimentos de relações, etc. E com tudo isso
que se disse nestas últimas páginas concorda o poeta metafísico, quer
seja ele da geração de Donne, quer seja da geração de Laforgue, quer
seja da geração do Orpheu. É contudo inadiável
assinalar ainda que o sensacionismo foi também a pedra de toque do
simbolista idealista Remy de Gourmont. Sua defesa da primazia das sensações
parece ter sido também muito importante para que Pessoa desenvolvesse
seus conceitos acerca da arte moderna em geral - bem como para que
planeasse os rumos mais consistentes das poéticas órficas, que gestou e
estimulou como mentor do Orpheu. Com efeito, em Le problème du style
Gourmont dirá textualmente: "os sentidos são a única porta de
entrada para tudo o que vive no interior da mente […]. A sensação é a
base de tudo, da vida moral e intelectual como também da vida física".[128] "Nada existe, não existe a realidade, mas apenas sensações",
responderá Fernando Pessoa, fazendo coro com o autor francês. [129] E com o próprio Mario de Sá-Carneiro,
que talvez tenha sido o responsável pela importação das idéias de
Gourmont em Portugal. A essa altura, o
leitor muito justamente indagará: eram os pares de Pessoa todos eles
leitores assíduos de James, Gourmont e dos poetas metafísicos ingleses? Certamente que não.
Cada integrante do grupo órfico português absorveu tais influências de
modo distinto. Souza-Cardoso, por exemplo, que oscilou entre o cubismo e o
simultaneísmo órfico, foi contaminado por Delaunay, Cendrars e
Apollinaire (ambos metafísicos, também). Esse triunvirato foi em grande
parte, como vimos, responsável pela formulação do simultaneísmo
orfico. Pessoa
consorciou o pragmatismo e o empirismo radical com a poesia metafísica.
Como poeta forte que era - para utilizar um estilema de Harold Bloom - o
mentor do orfismo apropriou-se de um vasto legado que a tradição colocou
à disposição. No que diz respeito ao Orpheu - e sempre estaremos
procurando permanecer nos limites de sua participação nesse movimento,
Pessoa recebeu infusões de Whitman (que foram de intimorato apego à
vida, com seus ritmos e sua exuberância, seus versos de métrica
irregular, adequados à respiração prosaica; com suas aliterações e anáforas,
além de outros recursos reiterativos que amplificam a vibração da voz
poética) [130] e de
Laforgue, através de Sá-Carneiro, ou por causa dele (ambos em sua
"Ode triunfal", sobretudo), [131] infusões
essas fingidamente exploradas pelo heterônimo Álvaro de Campos. Definidor do
interseccionismo (o inventor fora Sá-Carneiro, como já sabemos), Pessoa
concebeu e batizou o paulismo (1914), cujos neologismos e construção por
vezes especiosa advêm diretamente de seu contato com a poesia inédita de
seu amigo Sá-Carneiro (que preparava, a essa altura, Dispersão), bem
como, outra vez, de Laforgue (mentor dos dois últimos). Em outras
palavras: Laforgue influenciou diretamente Sá-Carneiro e Pessoa, que se
deixou influenciar tanto pelo poeta francês quanto pela releitura que Mário
realizara a partir dele, em seus tempos de Sorbonne (1912) - mas não pour
cause. Alem das notórias
e declaradas influências de Cesário Verde na obra de Fernando Pessoa -
merecem referência as de Beirão, Pascoaes, e de outros colaboradores de
A Águia. Cesário,
contudo, por ser o primeiro poeta metafísico, e por ter sua obra mantido
um diálogo duradouro e intenso com Pessoa, Almada-Negreiros, Sá-Carneiro
dentre outros, é um nome que merece ser examinado mais detidamente. Em sua curtíssima
carreira de poeta, Cesário Verde chamou sempre nossa atenção acerca da
assiduidade com que comparece, desde seu início até o final, no papel de
eu lírico, um homo viator, que faz da deambulação pelas ruas seu
projeto testemunhal e seu estado de ser poético. [132] Situemos
rapidamente o poeta no tempo. Em 1874, Cesário Verde publicaria o poema
"Esplêndida", seu primeiro exemplar de lira deambulatória. Em
1875, no ano seguinte, "Deslumbramentos", "Frígida",
"Desastre"; em 1876, "A débil"; em 1877, "Num
bairro moderno"; em 1878, "Noites gélidas"; no ano
seguinte, "Manhãs brumosas", "Cristalizações",
"Noite fechada" e "Em petiz". "O sentimento dum
ocidental" viria em 1880. Seis anos depois o poeta faleceria. Além
desses poemas, todos os outros, publicados postumamente, oferecem situações
de passagem a um observador transeunte que delas se alimenta. Ao dirigir seu
olhar para as ruas, promovendo a presença, como se disse, de um sujeito lírico
que vivencia e traduz suas impressões no momento em que estas o
mobilizam, tansformando o poema, em termos lógico-estruturais, em uma vivência-aqui-e-agora,
Cesário vai muito além de uma mera colagem impressionista de roteiros
mundanos. Tributário
evidente de Baudelaire, cujos versos leu e releu, injetou em sua obra, em
diversos momentos, situações e elementos extraídos de poemas como
"À une passante" ,"La chevelure"[133], "À une mendiante rousse"[134], "Le soleil" (que
inspirou a humanização do sol em "Num bairro moderno") 'Le vin
des chiffonniers" [135] dentre outros. [136] Contudo, Cesário Verde não se
limitou a reproduzir temas e ritmos baudelaireanos, como diversas vezes
apressadamente a crítica concluiu. A apropriação cesarina como aqui
relatada, fazendo o novo a partir de combinações, transgressões e
derivações arbitrárias, é um atributo - mais um - que faz de Cesário
um precursor da modernidade. Sua
personalidade cinemática, ao incorporar à dinâmica de seus versos o
acervo baudelaireano, logrou oferecer, ao surpreendido leitor lusitano de
sua época, versos de precisa lapidação, em que intercedem, de maneira
original em seu meio poético, o raciocínio, a sensibilidade e a imaginação.
A fusão entre pensamento e emoção alcançada por Cesário e seu estro
imaginativo extremamente refinado, fazem dele um metafísico - o primeiro
em Portugal, como já afirmamos. Poemas como "Cristalizações",
"Num bairro moderno" e "O sentimento dum ocidental" são
marcantes exemplos de como o intelecto, a capacidade extrema de observação
e o olhar sensível caminham juntos, combinando, como quer a poesia metafísica,
o reflexivo com a sensibilidade e a emoção extremadas. Detenhamo-nos
rapidamente em alguns trechos de "Num bairro moderno". Já no primeiro
quinteto desse poema encontramos uma espécie de ritual cinematográfico,
em que o observador, de um ponto qualquer da rua, explora, em lentos
movimentos de aproximação, os "planos" que aquele bairro
moderno oferece. Paulatinamente,
o processo evolui em busca de localizar os arranjos particulares, os
detalhes, os efeitos óticos da luz (segundo quinteto), obedecendo, já
aqui, ao postulado metafísico que busca os particulares em lanços
estudados, nos quais transparece o papel exercido pelo intelecto que
seletivamente coleta elementos da realidade circundante. Dez horas da manhã; os transparentes Matizam uma casa apalaçada; Pelos jardins estancam-se as nascentes, E fere a vista, com brancuras quentes, A larga rua macadamizada. Rez-de-chaussée repousam sossegados, Abriram-se, nalguns, as persianas, E dum ou doutro, em quartos estucados, Ou entre a rama dos papéis pintados, Reluzem, num almoço, as porcelanas. Como é saudável ter o seu conchego, E a sua vida fácil! Eu descia, Sem muita pressa, para o meu emprego, Aonde agora quase sempre chego Com as tonturas duma apoplexia. O método de
composição, a associação muitas vezes inesperada ou incomum de
adjetivos e o desenvolvimento da 'cena', em que, a exemplo do que acontece
nos versos acima, constatamos - prática corriqueira cesarina - a contigüidade
entre o comentário, a observação e a confidência, tais procedimentos
caracterizam alguns dos inúmeros atributos metafísicos da estesia do
poeta. Leia-se também os versos que seguem. E rota, pequenina, azafamada, Notei de costas uma rapariga, Que no xadrez marmóreo duma escada, Como um retalho de horta aglomerada, Pousara, ajoelhada, a sua giga. E eu, apesar do sol, examinei-a: Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos; E abre-se-lhe o algodão azul da meia, Se ela se curva, esguedelhada, feia, E pendurando os seus bracinhos brancos. É de se notar aí a presença freqüente da aditiva, acusando
a ação persistente de uma mente catalogadora, que se desdobra em todas
as direções, com vistas a ulteriormente decifrar o objeto de interesse
do sujeito de enunciação poético e de modo a reter, pelo arrolamento
cumulativo de impressões, a emoção gerada. Aqui, novamente, constatamos
que Cesário se comporta como um poeta metafísico. Em benefício de harmonizar a sonoridade do verso mas,
sobretudo, em virtude da necessidade de explorar ao máximo tanto a
dissimilaridade, quanto a proximidade de elementos que traduzem o pensar e
o sentir (favorecendo a concentração da emoção), Cesário utiliza-se
constantemente de inversões, hipérbatos e hipálages de maneira análoga
àquela que o conceptista se serve - e que foi determinante para a poesia
da geração de Donne, Crashaw e outros. O nominalismo é outro traço marcante em Cesário, cujo
intelecto, empírico por natureza, acusa forte preocupação com registros
do dia-a-dia, que atestam seu entendimento de que a poesia pode se ocupar
de coisas menos inefáveis. Eis aqui novamente outro parentesco da poética
cesarina com a metafísica: a apropriação do prosaico pelo poema. O quinteto abaixo bem ilustra nossa assertiva, exemplificando,
ademais, de modo saliente e com grande economia de recursos, sua vocação
a crítico do status quo. Do patamar responde-lhe um criado: "Se te convém, despacha; não converses. Eu não dou mais." E muito descansado, Atira um cobre lívido, oxidado, Que vem bater nas faces duns alperces […][137]. O olhar poético
de Cesário em movimento constante pelas ruas de Lisboa registra, em inúmeras
oportunidades, a realidade crua do cotidiano. Varinas e calceteiros
("Cristalizações")[138] invadem
o reduto da poesia, tornados matéria de um lirismo, a exemplo do que
ocorre em Baudelaire, que não faz concessões ao que parece apropriado
dizer, dizendo contudo o que não sendo virtualmente poético assim se
torna, pelo manejo apropriado e refinado de imagens e sons, bem como por
um arranjo poético que escapa ao convite da banalidade. Seus versos não
sugerem jamais uma poesia de gabinete, em que o silêncio de paredes
forradas permite ao poeta engajar-se em rimas perfeitas, elaboradas
placidamente com o objetivo de alcançar um receituário prévio de
harmonia e equilíbrio. Ao contrário, seu objetivo é o de capturar um
mundo dinâmico, em crise e em transformação. Sendo sua lírica, por
conseguinte, também ela, produto dos sentidos de um homem moderno
vivenciando quer a diversidade de sons da cidade cosmopolita em que
trabalha; quer o caos presente em seu contingente humano; quer a dúvida
face ao rumo e ao destino da sociedade em que vive, bem como face ao seu
próprio. A crueza da voz
poética cesarina, muitas vezes incompreendida, associada a elementos
prosaicos, procedimentos normalmente descartados pelos poetas de seu tempo
- ao lado de sua releitura da tradição simbolista, são alguns dos
principais legados do poeta ao movimento do Orpheu (bem como à poesia
metafísica). Seu lirismo deambulatório, explorando as ruas de Lisboa,
colado à dinâmica da vida, foi determinante para que o Orpheu avançasse
adiante, superando as propostas e a temática da geração que o
antecedeu. Sá-Carneiro
absorveu a herança metafísica consumindo-a em grandes e sôfregos goles
a partir de Laforgue - e, em menor escala, de Baudelaire. Cesário, ainda
Cesário, ofereceu a Mário um caminho temático; forneceu-lhe, ainda,
subsídios para que lograsse explorar a sintaxe sensacionista - e o
ensinou a olhar intensamente o mundo ao redor. Com sua desesperada energia renovadora e com a paroxística
alternância dos binômios aceitação-rejeição, êxtase-abulia;
aqui-alhures, eu-outro, inteiro-fragmentado, já presente em seus
primeiros trabalhos, Mário foi provavelmente o poeta português que mais
intensamente dialogou com a obra laforgueana. Também, ao lado de
Almada-Negreiros, Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor, foi dentre seus pares
órficos um dos que mais se deixou contaminar pelas propostas da vanguarda
européia. Certamente, nessa linha, "Manucure" é o melhor
exemplo que nos deixa Mário da fusão da herança laforgueana [139] com o futurismo
e o sensacionismo. Antes de concluir, parece adequado determo-nos um pouco nessa
questão, ainda mais agora que vimos de examinar "Lamento da cidade
de Paris". Colocar lado a lado certos aspectos de ambos os poemas
oferece-se como o caminho mais seguro.
O francês toma posse do reclame que a grande capital despeja.
A estesia de seu poema, bem como de parte de sua obra prenunciam, com décadas
de antecedência, o advento do futurismo, com todos os seus
desdobramentos; Sá-Carneiro faz também uso de elementos pertinentes à
publicidade - e, mais que isso, abre espaço em seus versos para que estes
se tornem passivos suportes de propaganda, interrompendo diversas vezes o
fluxo da voz poética, para assim realçar a impessoalidade e o poder de
dominação da sociedade de consumo de massa. O brado futurista se ouve
nitidamente por todo o poema de Sá-Carneiro. As máquinas de imprensa
Marinoni ("Machines cylindriques Marinoni", no poema de
Laforgue) [140],
presentes em Sá-Carneiro, são um dos diversos índices do mundo moderno,
presentes no poema, já que lhes cabe a tarefa de tornar possível a célere
reprodução da informação. Em Laforgue, as máquinas Marinoni transformam-se elas próprias
em objetos de consumo, ofertados no pregão da rua. É preciso ter a máquina,
para disseminar mensagens de consumo pelo mundo. Mário explora o papel da
imprensa de modo mais radical. O linotipo Marinoni está lá, cuspindo
letras e formatos; marcas comerciais e jornais do mundo inteiro, com sua
"beleza alfabética pura" - sinônimo da vertigem da velocidade;
mas "Manucure" leva às últimas consequências - inclusive sob
o ponto de vista gráfico - as implicações das máquinas modernas de
imprensa sobre o cotidiano. Essa realidade acaba por contaminar
inteiramente o poema que se torna um espaço público em que se afixam
cartazes. Em Mário, toda a energia e diversidade do viver moderno estão,
como o sujeito lírico de seu poema afirma, "no ar", como se
tudo fizesse parte de um movimento incessante, planetário, que seus
versos acusam sem cessar; não bastasse isso, tudo é refletido e
multiplicado através de espelhos. Beleza estranha para o sujeito lírico,
uma vez que toda essa beleza parece-lhe ao mesmo tempo inatingível -
provavelmente porque inadequada à real dimensão humana. "Então
rolo de mim por uma escada abaixo..", dirá o eu do poema,
desconsolado - mas logo adiante, repentinamente possesso, "aos
pinotes" (o sujeito poético já agora desprovido do que lhe é mais
pessoal e intransferível, ou seja, a consciência de sua linguagem),
emitirá sons de máquina, numa negação paroxística de sua humanidade,
dando um fecho ao poema - pela total impossibilidade de o eu poético
recuperar sua capacidade de enunciação. Há um custo alto para toda essa vertigem e todo esse
dinamismo e voracidade de hélices, máquinas e consumo, como se vê; e a
supressão da individualidade parece ser um dos componentes mais onerantes
desse custo. Mário de Sá-Carneiro sabe-o. No poema de Laforgue também tem lugar uma constatação
semelhante: a de que sob a carapaça voraz de uma sociedade egoísta e de
mente estreita "existimos na existência em que se paga à
vista", não havendo possibilidade para o sonho individual. Está por
conseguinte instalado um conflito insolúvel, que tem lugar tanto no poema
de um quanto no de outro. Todo o lamento
parisiense, ademais, insiste em nos recordar também que a unidade entre
espírito e razão, entre pensar e sentir, entre querer e obter não é
mais possível. E que o desequilíbrio entre esses pares é inevitável.
Será também nessa direção que os versos de "Manucure" se
inclinarão, desmantelando-se em incompreensível ruído. Com Mário de Sá-Carneiro, a desintegração intelectual
ganha mais intensidade do que em seu predecessor Laforgue, comprovando uma
tendência da poesia metafísica que achamos desnecessário repisar. Especular pode ser um exercício intérmino e quase tirânico
da vontade empenhada. Ficaremos por aqui, com a certeza de que nossas hipóteses
poderiam nos levar mais longe - e por caminhos que não foram aqui
explorados. Mas também com a certeza de que este trabalho forneceu mais
alguns subsídios esclarecedores sobre a precursividade órfica. Tal como
a geração de Donne, os integrantes da geração de Orpheu responderam à
tradição, em geral, e à convocação metafísica, em especial, cada um
a seu modo; cada um com diferente intensidade; e cada resposta foi
condicionada pelo peso e dimensões da bagagem com a qual apearam às
portas do movimento. Obviedade à parte, nada, não obstante, nos impede
de chamar a geração de Orpheu de última geração metafísica de
Portugal. Se somos autorizados a afirmar que no curso da convivência,
do intercâmbio literário e de opinião o movimento órfico produziu,
enquanto conjunto de manifestações individuais, digamos, uma espécie de
força motriz, geradora, que acabou por condicionar o sentido geral e o
perfil da revista, essa força de renovação disseminou-se - e não há
como ser de outro modo - a partir de um núcleo difusor e aglutinador - e
nesse centro de muda força convocatória acomodaram-se aqueles mentores
que exerceram, quer na dinâmica da revista, quer com suas incessantes
buscas pela superação vanguardista de seu tempo, papel de fato incansável,
decisivo e determinante. Todos sabemos quais foram seus nomes. NOTAS 1)
Inúmeras
reflexões, bem como diversos trechos utilizados deste ensaio foram extraídos
de nosso trabalho T. S. Eliot e Fernando Pessoa: diálogos de New Haven.
Landy, São Paulo, 2004. 2)
Les
complaintes são editados em 1885 e L'imitation de Notre-Dame la Lune em
1886. 3)
Cf.
RICHARD, Noël - Profils symbolistes. Paris, Nizet, 1978, p. 168. 4)
Cf.
MICHAUD, Guy - Messages poétiques du Symbolisme, Paris, Nizet, 1947, p.
304-5. 5)
Ibid.,
p. 301. 6)
Cf.
RICHARD, Noël - Profils symbolistes. Paris, Nizet, 1978, p. 167. 7)
Cf.
Bertrand, Jean-Pierre . "Présentation". In: LAFORGUE, Jules.
Les complaintes. Paris,
Flammarion, 1997, p. 13-4. 8)
Inspirado
em Bourget, que aparentemente colaborou também para injetar em Laforgue o
cosmopolitismo e a anglo- mania. 9)
A
personagem dessa obra, vestida de negro, caminhando de um modo arrastado,
mas correto, como Laforgue a descreveu, assemelha-se muito a ele próprio,
quando, sem dinheiro, mal vestido, cheio já de amargor, vivia nos seus 20
anos na Rue Berthollet. Cf.
MICHAUD, Guy - op. cit., p. 300. 10)
Richard,
Noël - op. cit., p. 280. 11)
Cotado
da obra Nos maîtres, de Wyzewa, por RICHARD, Noël - op. cit., p. 188. 12)
Cf.
HURET, Jules apud Bertrand, Jean-Pierre - op. cit., p. 8. 13)
Falaremos
sobre a poesia metafísica mais adiante. 14)
Cf.
Bertrand, Jean-Pierre - Op. cit., p. 34. 15)
Cf.
Michaud, Guy - Op. cit., p. 301 16)
BERTRAND,
Jean-Pierre - Op. cit., p. 22. 17)
No
original: "Dernière crise. Deux semaines errabundes, / En tout, sans
que mon Ange Gardien me réponde. / Dilemme à deux sentiers vers l'Eden
des Élus: / Me laisser éponger mon Moi par l'Absolu? / Ou bien élixirer
l'Absolu em moi-même? / C'est passé. J'aime tout, aimant mieux que Tout
m'aime. / Donc Je m'en vais flottant aux orgues sous-marins, / Par les
coraux, les oeufs, les bras verts, les écrins, / Dans la tourbillonnante
éternelle agonie / […]" Jules Laforgue, op. cit., p. 48. 18)
Cf.
BERTRAND, Jean-Pierre - Op. cit., p. 22. 19)
"Qui
m'aima jamais? Je m'entête / Sur ce refrain bien impuissant, / Sans
songer que je suis bien bête / De me faire du mauvais sang". Tradução:
"Quem alguma vez me amara? Eu teimo / sobre este refrão bem
impotente, / Sem sonhar que sou bem idiota / Por agir assim
impropriamente". "Complaintes
des Débats mélancoliques et littéraires". Ibid., p. 142. 20)
Ibid.,
p. 100. 21)
Cf.
BERTRAND, Jean Pierre - Op. cit., p. 22-3. 22)
Loc.
cit. 23)
LAFORGUE,
Jules - "Complaintes des voix sous le figuier boudhique". Em
sua: op. cit., p. 57. 24)
Em
maiúscula no original. 25)
Esse
dilentatismo emprestado à lua é postura filosófica vanguardista típica
dos anos de 1880, cuja paternidade Bourget se auto-atribui. 26)
Segundo
consta, alusão do autor a certa amiga, uma dama de honra da imperatriz
Augusta, que de fato viajou para a Escócia em núpcias. 27)
No
original: "Ah! la belle pleine Lune, / Grosse comme une fortune! //
La retraite sonne au loin, / Un passant, monsieur l'adjoint: // Un
clavecin joue en face, / Un chat traverse la place: // La province qui
s'endort! / Plaquant un dernier accord, //Le piano clôt sa fenêtre, /
Quelle heure peut-il bien être? // Calme Lune, quel exil! / Faut-il dire:
ainsi soit-il? // Lune, ô dilettante Lune, à tous les climats commune,
// […] // Lune heureuse! ainsi tu vois, / À cette heure, le convoi //
De son voyage de noce! / Ils sont partis pur l'Écosse. // Quel panneau,
si, cet hiver, / elle eût pris au mot mes vers! //Lune, vagabonde Lune, /
Faisons cause et moeurs communes? // Ô riches nuits! je me meurs, / La
province dans le coeur! // Et la lune a, bonne vieille, / Du coton dans
les oreilles". Cf. LAFORGUE, Jules - "Complainte de la Lune en
province". Em sua: op. cit., p. 77-8. 28)
Sugerimos
ao leitor que compulse também o ensaio intitulado "Eliot, Pessoa e a
tradição da poesia metafísica", incluído em nossa op. cit., p.
87-183. 29)
SAINTSBURY,
George - Minor poets of the Caroline Period. General introduction. Oxford,
Clarendon Press, 1905, 1906 e 1921, respectivamente v 1, 2 e 3. 30)
GRIERSON,
Herbert - Metaphysical lyrics and poems of the seventeenth century. Donne
to Butler. Selected and edited, with an essay, by Herbet J. C. Grierson.
Oxford, Clarendon Press, 1921. O
texto compulsado é uma reimpressão dessa primeira edição, datada de
1928. 31)
GRIERSON,
Herbert - "Introduction". Em
sua: op. cit., p. XIII. 32)
Ibid.,
p. XIII. 33)
Cf.
ELIOT, T. S. - The varieties of metaphysical poetry. Edited and introduced
by Ronald Schuchard. San Diego, A Harvest Book, 1996. (first Harvest
edition). Passim.
34)
Cf.
ibid., p. 252. 35)
Essa
concepção, encontradiça na geração dos pares de Dante, desapareceria
no século XIV, com Eckhardt e seus seguidores, que entronariam nos
altares da mente humana o Deus abissal. 36)
Cf.
ibid., p. 258 et passim. 37)
Cf.
ibid., p. 149. 38)
Cf.
ibid., p. 216. 39)
Cf.
ibid., p. 211. 40)
Cf.
Gourmont apud ELIOT, T. S. - Op. cit., p. 253. 41)
cf.
ibid., p. 254. 42)
cf.
ibid., p. 107-8. 43)
CAVALCANTI,
Guido, apud ELIOT, T. S. - Op. cit., p. 107. No original, Eliot
transcreveu erradamente o verso, segundo o editor Schuchard.. Aqui o
trecho se imprime tal como coletado pelo editor. Cf. nota de rodapé da
mesma página. 44)
CAVALCANTI,
Guido - "Donna mi priegha". In: POUND, Ezra. Abc da literatura.
trad. bras., 3. ed., São Paulo, Cultrix, 1977, p. 188-92. 45)
Como
qualidades a serem destacadas na poesia italiana do século XIII estão a
organização intelectual e emocional. Cf.
ELIOT, T. S., op. cit., p. 228. 46)
Cf.
Ibid., p. 174-6. 47)
Cf.
Ibid. p. 119-20. 48)
ALIGHIERI,
Dante - "Vida Nova". In: Os pensadores. Trad. bras., São Paulo,
Abril, 1973 (v. 8), p. 167-8. 49)
Cf.
ELIOT, T.S. - Op. cit., p. 85-6. 50)
DONNE,
John - "The Good-morrow". Em sua: Poems and prose. New York,
Knopf, [1955], p. 13. No original: "I wonder by my troth, what thou,
and I / Did, till we lov'd? were we not wean'd till then? / But suck'd on
countrey pleasures, childishly? / Or snorted we in the seaven sleepers
den? / T'was so: But this, all pleasures fancies bee / If ever any beauty
I did see, / Which I desir'd, and got, t'was but a dreame of thee". Eliot
transcreveu o mesmo trecho do poema, modernizando-o, mas deixa passar uma
gralha (no quinto verso, "fancies be." por "fancies
bee". Cf.
ELIOT, T. S., op. cit., p. 85. 51)
Cf.
ibid., p. 87. 52)
Cf.
ibid., p. 121. 53)
Cf.
ibid., p. 120. 54)
Cf.
ibid., p. 126. 55)
Cf.
ibid., p. 128. 56)
Cf.
ELIOT, T. S. - "Ulysses, order and myth". Em sua: Selected prose
of T. S. Eliot. Edited with an introduction by Frank Kermode. New York,
Harcourt, Brace, [1988]. (The centenary edition: 1888-1988), passim. 57)
Cf.
ELIOT, T. S. - Op. cit., p. 138. 58)
Ibid.,
p. 147. 59)
Ibid.,
p. 148. 60)
Que
comparece por exemplo neste solitário verso de Herbert: "Finalmente
ouvi um roto ruído e risadas". Sendo que o qualificativo 'roto'
designa sua procedência: o ruído fora produzido, adverte adiante o
poema, por pessoas maltrapilhas, rotas, ladrões e assassinos. Tal
qualificativo também dá a entender que o ruído é abusivo, escabroso,
quase descontrolado. No
original: "At length I heard a ragged noise and mirth". HERBERT,
George, apud ELIOT, T. S. - Op. cit., p. 199. Esta
frase, "'ragged noise and mirth', fornece-nos, em quatro palavras, a
descrição da cena que Herbert nos quer oferecer". Ibid.,
p. 199. 61)
Ibid.,
p. 200. 62)
Cf.
DONNE, John - "The extasie". Em
sua: op. cit., p. 53-5. No
original: "Where, like a pillow on a bed, / A Pregnant banke swel'd
up, to rest /The violets reclining head, / Sat we two, one anothers best;
Our hands were firmely cimented / With a fast balme, which thence did
spring, / Our eye-beames twisted, and did thred / Our eyes, upon one
double string, / So to'entergraft our hands, as yet / Was all the meanes
to make us one, And pictures in our eyes to get / Was all our propagation.
[…]/ Wee like sepulchrall statues lay, / All day, the same our postures
were, / And wee said nothing, all the day. […] / This Extasie doth
unperplex / Wee see by this, it was not sexe / wee see, we saw not what
did move: / But as all severall soules containe / Mixture of things, they
know not what, / Love, these mixt soules, doth mixe againe, /And makes
both one, each this and that. / […]". Exemplo
de como o poeta buscava superar a dicotomia entre carne e espírito, esse
poema - de amor contemplativo, mas não apenas, é, também, ipso facto,
paradigma de como sua postura poética e moral buscava justificar e
convalidar o amor carnal (uma vez que este é, em seu entendimento, rota
obrigatória para a realização, no plano espiritual, de uma integração
de almas). 63)
"Até
onde sei, essa desintegração significa simplesmente uma deterioração
progressiva da poesia, em um aspecto ou outro, desde o décimo-terceiro século.
Se eu estiver certo acerca da poesia, essa deterioração é provavelmente
um dos aspectos de uma deterioração geral". ELIOT,
T. S. -- Op. cit., p. 227. 64)
Com
efeito, a teoria da poesia metafísica de Eliot "implica [também ]
em uma teoria da história das crenças, na qual o século XIII, o século
XVII e o século XIX, todos ocupam seu lugar no (..) processo de
desintegração". Ibid., p. 220. 65)
Como
em outras passagens desse lamento - e de sua obra -, Laforgue cria uma
nova palavra, no caso fruto da contração entre 'volúpia' e 'nupcial'.
Suas mots-valise são uma espécie de dessacralização do signo poético
- e, sob o ponto de vista da prática social, um meio de protestar contra
o status da língua e sua subserviência aos ditames do costume e da
ordem. São, pois, também, um repelão nos referentes culturais em cujo
âmbito a prática poética tem lugar. 66)
No
original, comparece como título: "GRANDE COMPLAINTE de la Ville de
Paris - Prose Blanche". O trecho acima traduzido corresponde ao que
segue: "Bonne gens qui m'écoutes, c'est Paris, Charenton compris. Maison
fondée en … à louer. Médailles à toutes les expositions et des
mentions. Bail immortel. Chantiers en gros et en détail de bonheurs sur
mesure. Fournisseurs brevetés d'un tas de majestés. Maison recommandée.
Prévient la chute des cheveux. En loteries! Envoie en province. Pas de
morte-saison. Abonnements. Dépôt, sans garantie de l'humanité, des
ennuis les plus comme il faut et d'occasion. Facilités de paiement, mais
de l'argent. De l'argent, bonne gens! Et
ça se ravitaille, import et export, par vingt gares et douanes. Que
tristes, sous la pluie, les trains de marchandise! À vous, dieux,
chasublerie, ameublements d'église, dragées pour baptêmes, le culte est
au troisième, clientèle inneffable! Amour, à toi, des maisons d'or aux
hospices dont les langes et les loques feront le papier des billets doux
à monogrammes, trousseaux et layettes, seules eaux alcalines
reconstituantes, ô chlorose! bijoux de sérail, falbalas, tramways,
miroirs de poches, romances! Et à l'antipode, qu"y fait-on? Ça
travaille, pour que Paris se ravitaille… […] Mais
l'inextirpable élite, d'où? pour où? Maisons de blanc: pompes
voluptiales; maisons de deuil, spleenuosités, rancoeurs à la carte […]
Et la pluie! trois torchons à une claire-voie de mansarde. Un chien aboie
à um ballon là-haut. […] Que les vingt-quatre heures vont vite à la
discrète élite!… Mais
ces cris publics reprennent. Avis important! l'Amortissable a flléchi,
ferme le Panama. Enchères, experts.[…] Encore des cris! Seul dépôt
soupers de centième! Machines cuylindriques Marinoni! Tout garanti, tout
pour rien! […] Des
mois, les ans, calendriers d'occasion. Et l'automne s'engrandeuille au
bois de Boulogne, l'hiver gèle les fricots de pauvres aux assiettes sans
fleurs peintes. Mai purge, la canicule aux brise frivoles de plages fane
les toilettes coûteuses. Puis, comme nous existons dans l"existence
où l'on paie comptant, s'ammènent ces messieurs courtois des Pompes Funèbres,
autopsies et convois salués sous la vieille Monotopaze du soleil. Et
l'histoire va toujours dressant, raturant ses Tables criblées de piteux
idem, - ô Bilan, va quelconque!, ô Bilan, va quelconque…" Cf.
LAFORGUE, Jules - "Grande complainte de la ville de Paris". Em
sua: op. cit., p. 135-7. 67)
JAMES,
William -"Pragmatismo". In:
Os pensadores. Trad. bras., São Paulo, Abril, 1974. (v. XL), p. 10. 68)
Ibid.,
p. 11. 69)
Ibid.,
p. 12. 70)
Ibid.,
p. 13. 71)
Ibid.,
p. 14. 72)
Ibid.,
p. 16. 73)
Cf.
loc. cit. 74)
Ibid.,
p. 30. 75)
Cf.
JAMES, William - "Prefácio do autor para O significado da
verdade". In: Os pensadores. op. cit., p. 42. A questão do
significado da verdade está no centro do embate entre os pragmatistas e
seus opositores. A diferença, segundo James, é que quando os primeiros
falam da verdade, discutem idéias e sua operacionalidade, ao passo que os
antipragmatistas, quando falam da verdade, estão discorrendo a respeito
dos objetos. Cf. ibid., p. 43. 76)
Id.
-"Pragmatismo". In: Os pensadores Op. cit., p. 18. James foi
influenciado por Bardley, daí que o panteísmo que defende seja
idealista. Para o filósofo inglês as relações entre as coisas não são
meros acréscimos à essência destas, mas constituem sua própria essência.
O idealismo de James é também objetivo, assim acatando que não há
diferença essencial entre objeto e sujeito, já que ambos são uma forma
na qual o todo se manifesta. 77)
Ibid.,
p. 19. 78)
Ibid.,
p. 22. 79)
Id.
- "Prefácio do autor para O significado da verdade". In: Os
pensadores. op. cit., p. 43-4. 80)
JAMES,
William - "O fluxo do pensamento [capítulo de Princípios de
Psicologia]". In: Os pensadores. Op. cit., p. 49. 81)
Mas
o quê significa isso? Primeiro, que mesmo quando ocorre um intervalo
temporal a consciência, ao término dele, sente como se o intervalo
estivesse ligado à noção anterior a ele, como outra parte do mesmo ego;
segundo, que as mudanças que têm lugar de um momento para outro na
qualidade da consciência jamais são abruptas. Cf.
ibid., p. 58. 82)
Cf.
ibid., p. 49-50 et passim. 83)
Ibid.,
p. 50. 84)
Janet
examinando uma paciente sonâmbula anestésica, de nome Lucie, constatou
que quando sua atenção era absorvida por uma conversação com outrem,
sua mão anestésica ouvia e respondia a questões, como a seguir: 'Você
ouve?' perguntou-lhe Janet. 'Não', respondeu ela. 'Mas para responder você
deve ouvir.' 'Sim, é quase isso.' 'Então como você consegue?' indaga
Janet. 'Eu não sei.' 'Deve existir alguém que me ouve', insiste ele.
'Sim.' 'Quem?' 'Outra pessoa que não Lucie', ela respondeu.' "Ah!
outra pessoa. Podemos saber seu nome?' 'Não', ela disse. 'Sim, será mais
conveniente'. 'Bem, Adrienne, então'. Uma vez batizada com um nome
forjado, a personagem subsconsciente se expandiu e exibiu melhor seus traços
psicológicos, como testemunhou Janet. Cf. ibid., p. 51. Não ocorre por
hipótese, ao leitor, o diálogo das veladoras no poema dramático "O
marinheiro", de Pessoa? 85)
Cf.
ibid., p. 53. 86)
Cf.
ibid., p. 52-3 et passim. 87)
Cf.
ibid., p. 65. James cita o filósofo Laromiguière na passagem adiante,
que vem bem a propósito: "Não existe ninguém cuja inteligência não
abraça simultaneamente muitas idéias, mais ou menos distintas, mais ou
menos confusas. Ora, quando temos muitas idéias ao mesmo tempo, uma sensação
peculiar cresce em nós, a sensação de relação, ou sensação-relação
(sentiment-rapport). Vê-se imediatamene que essas sensações-relações,
resultando da proximidade de idéias, devem ser infinitamente mais
numerosas do que as sensações-sensações (sentiments-sensations) ou [do
que] as sensações, que temos da ação de nossas faculdades. O mais
insignificante conhecimento da teoria matemática das combinações provará
isto … Idéias de relação se originam em sensações de relação.
Elas são o efeito de nossa compraração de sensações e de nosso raciocínio
sobre elas" (em itálico, no original). Laromiguière
apud JAMES, William, loc. cit. 88)
Cf.
ibid., p. 71. 89)
Terá
passado pela mente do leitor o paulismo? 90)
Cf.
JAMES, William - Op. cit., p. 91 91)
Cf.
loc. cit. 92)
Ibid.,
p. 96. 93)
JAMES,
William -"Ensaios em empirismo radical". In:
Os pensadores. Op. cit., p. 116. 94)
Cf.
ibid., p. 117. 95)
Cf.
ibid., p. 117-8. 96)
Mas
o que vem a ser experiência pura? James define-a como "o campo
instantâneo do presente, em todos os tempos". Ibid.,
p. 109. 97)
Cf.
ibid., p. 102. 98)
Cf.
loc. cit. 99)
Cf.
NATORP, Paul, apud JAMES, William - Op. cit., p. 103. 100)
Ibid.,
p. 104. 101)
Ibid.,
p. 104. 102)
Ibid.,
p. 106. 103)
Cf.
ibid., p. 108. 104)
Cf.
ibid., p. 110. 105)
Loc.
cit. 106)
Cf.
ibid., p. 117-8. 107)
Cf.
ELIOT, T. S. - "Francis Herbert Bradley". Em sua: Selected prose
of T. S. Eliot. Op. cit., p. 204. 108)
Essays
in radical empiricism foi impresso em 1912. 109)
Cf.
Schuchard, Ronald. - "Editor's introduction". In: ELIOT, T. S.
The varieties of metaphysical poetry. Op. cit., p. 49. 110)
Nas
conferências de Eliot sobre a poesia metafísica James ressurge inúmeras
vezes, inclusive assinalando seu contributo para a compreensão das relações
conjuntivas. "Construída sobre filosofias empiristas anteriores, nas
quais todo conhecimento é em última instância derivado de impressões
disparatadas de reflexões e sensações, James declarou em seu Essays in
Radical Empiricism (1912) que todo conhecimento deriva das relações
conjuntivas da 'pura experiência', nome que ele confere ao 'campo instantâneo
do presente', fluxo imediato de vida o qual fornece o material para nossas
reflexões posteriores […]". Ao examinar, nessas mesmas conferências,
a paráfrase poética de Crashaw ao Vexila Regis de Fortunatus, que por
sua vez foi composto para a consagração de uma igreja em Poitiers (França),
no séc. VI, eliot afirma acerca do poema ulterior: "observe 'o ninho
de amores', a 'torrente amorosa', o noivado entre a água e o sangue, a
relação pessoal do Senhor e do devoto. E observe (sic) a tendência para
uma seqüência de emoções, cada uma em uma imagem separada, ao invés
de [encontrá-las] em uma estrutura [encapsulada] de emoção. Posto que
é a tendência do sensacionalismo fazer seguir uma impressão após
outra, ao invés de construir uma dentro da outra; o que nos leva ao
Empirismo Radical de William James" (em itálico no original). Cf.
ELIOT. T. S. - The varieties of metaphysical poetry. Op. cit., p. 169-70. 111)
PESSOA, Fernando - "A nova poesia portuguesa no seu aspecto
psicológico". Em sua: Obras em prosa. Org., introd. e notas de
Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1993 (Biblioteca
Luso-Brasileira; série portuguesa), passim. 112)
Cf.
Ibid., p. 382-3. 113)
Cf.
loc. cit. 114)
Cf.
ibid., p. 384-5. 115)
Cf.
ibid., p. 386, et passim. 116)
Cf.
loc. cit. 117)
Cf. PESSOA, Fernando - "Apontamentos para uma estética não-aristotélica".
Em sua: Páginas de doutrina estética e de teoria e crítica literárias.
Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do
Prado Coelho. Ática, Lisboa, s.d., p. 159, et passim. Também: CAMPOS, Álvaro
de - Apontamentos para uma estética não-aristotélica I. Athena. Lisboa,
v. 1 (3):113-5, dez/1924; e, do mesmo: Apontamentos para uma estética não-aristotélica
II. Athena. Lisboa, V. 1 (4): 157-160, jan/1925. 118)
Ibid.,
p. 152. 119)
JOHNSON,
Samuel - Lives of the poets. The lives of the most eminent English poets:
with critical observations on their works. London, T. Longman, 1794. (4
v). 120)
Aqui,
por exemplo: "penso que se escrevi bem sobre os poetas metafísicos,
foi porque foram poetas que me inspiraram. E se sou apontado por haver
tido qualquer influência em promover um interesse mais amplo a respeito
deles, foi simplesmente porque nenhum outro poeta anteriormente foi tão
profundamente influenciado por eles quanto eu fui". ELIOT,
T. S. - "To criticize the critic", Em sua: To criticize the
critic and other writings. New York, Farrar, Straus and Giroux, [1965], p.
22. 121)
ELIOT,
T. S. -"The metaphysical poets". Em sua: Selected prose of T. s.
eliot. Op. cit., p. 59-67. 122)
Id.,
"Andrew Marvell". Em
sua: op. cit., p. 161-71. 123)
SENA,
Jorge de - "Introdução geral". In: PESSOA, Fernando - Poemas
ingleses (obras completas de Fernando Pessoa). Lisboa, Ática, [c. 1972],
(col. 'Poesia',
v. 2), p. 69. 124)
Ibid.,
p. 50. 125)
Cf.
ibid., p. 78. 126)
Maria da Encarnação Monteiro parece ter encontrado nos sonetos
ingleses de Pessoa, tal como seu conterrâneo, algo cujo nome, contudo,
ela parece desconhecer, mas que, como já sabemos, trata-se justamente da
sintaxe metafísica que Sena apontou. Diz ela: "a verdade é que
aquilo que em Shakespeare e em certo setor da poesia isabelina […] é
instrumento de expressar, por meio de argúcias do pensamento, as
complexidades do sentir, reveste-se no poeta português de diverso
significado, dado que abandona a esfera do sentimento ou parte da sensação
para penetrar e se expandir largamente no mundo das idéias" (itálicos
nossos). MONTEIRO, Maria da Encarnação apud SENA, Jorge de, loc. cit.
Talvez Encarnação Monteiro tenha se deixado influenciar pela carta de
Pessoa a Cortes-rodrigues, de 1914, na qual alude a uma adaptação
moderna que fizera de uns sonetos de Shakespeare nos quais localizara uma
complexidade que o atraíra. Tal adaptação tratava-se muito certamente
dos "35 sonnets" - e a complexidade a que Pessoa se sentiu atraído
a modernizar havia sido vertida na poesia de Donne e de seus pares metafísicos,
antes de Pessoa empolgá-la. 127)
PESSOA,
Fernando - "O que quer Orpheu?" Em sua: Obras em prosa. Op.
cit, p. 408. 128)
Gourmont,
Remy de, apud ALLAN, Mowbray - T. S. Eliot's impersonal theory of poetry.
Lewisburg, Buckewell University Press, [ 1975], p. 38-9. 129)
PESSOA, Fernando -"Sensacionismo". Em sua: Obras em
prosa. Op.
cit., p. 441. Seus
apontamentos, inúmeros, acerca do sensacionismo, bem como sobre o
movimento do Orpheu, localizáveis na mesma obra, reafirmam de maneira
indiscutível a importância do pensamento de Gourmont em Pessoa. 130)
Ademais, Pessoa pronunciou-se acerca das influências de Walt
Whitman de modo incontestável: "De aqui de Portugal, todas as épocas
no meu cérebro, / Saúdo-te, Walt, saúdo-te meu irmão em Universo,
[…] / Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te, / […] / E
conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas, / De
mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma
[…]". Cf. PESSOA, Fernando - "Saudação a Walt Whitman".
Em sua: Obra poética. Org. introd. e notas de Maria Aliete Galhoz. 2.
ed., Rio de Janeiro, Aguilar, 1965, p. 336. Em nosso ensaio intitulado
"Eliot, Pessoa e a tradição metafísica", p. 87-183, op. cit.,
a influência de Whitman em Pessoa é mais detidamente analisada. Nesse
exame apontamos, em Pessoa, "o progressivo domínio do pólo negativo
da vivência individual", o que o afasta da rota percorrida pelo
mestre americano. Cf. Ibidem., p. 144. 131)
Um interessante paralelismo: Laforgue utiliza do lamento (Les
complaintes) subvertendo suas características, nele injetando uma lírica
antifrásica, a ironia e o distanciamento. Pessoa serve-se da ode,
subvertendo-a a seu modo, também: extirpa dela o cantar pacífico e monódico
que sempre a caracterizou, orquestrando-a para a execução de uma
sinfonia disparatada ("Ode triunfal") e apagando dela seus traços
solenes e graves - e realizando, ademais, uma ode canhestra que é um
contraponto evidente ao lamento (também canhestro) de Laforgue. "Ode
marítima", igualmente sinfônica, mas sem euforia e arroubos,
traduz, em sua abertura uma inversão inicial de sinal dos versos iniciais
de "O sentimento dum ocidental", de Cesário Verde - e evidencia
- não somente por isso - o peso que Pessoa atribui à influência de Cesário
Verde em sua obra, e não somente na dele. 132)
A propósito da lírica de deambulação de Cesário Verde, pode o
leitor examinar nossa tese Cesário Verde: um trapeiro nos caminhos do
mundo (tese de doutoramento, policopiada). São Paulo, Departamento de
Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo, 1992. Esse trabalho foi revisto
posteriormente, recebendo novo título: Cesário Verde: um poeta no
meio-fio do paraíso (estudo literário), que será publicado em 2005. 133)
Cesário
inspirou-se nesse poema francês para cunhar "Meridional". Vide
VERDE, Cesário - Obra completa de Cesário Verde. Op.
cit., p. 40 et sqs. 134)
Referimo-nos aqui, mais precisamente, ao poema "A débil",
de CesárioVerde, em que é introduzida uma presença feminina que,
inicialmente entrevista pelo sujeito do poema através de uma porta
envidraçada de um café, ganha sua atenção, pela simplicidade, pureza e
naturalidade. Tal personagem é inspirada em parte em "À une
mendiante rousse", enquanto o motivo do poema cesarino foi cunhado a
partir de "À une passante", cuja personagem feminina inspirou
por seu turno "Deslumbramentos". Nesse poema, a personagem,
Milady, atrai os olhares e o interesse de um sujeito lírico transeunte
por meio de outros atributos: o de mulher fatal. Cf. ibid., passim. 135)
Que auxiliou o poeta português a compor a cidade noturna de
"O sentimento dum ocidental", bem como serviu como referência,
com seu velho burgo de labirintos lodosos, sob a opaca reverberação dos
lampiões de uma rua de Paris, para que Cesário antepusesse a tudo isso
seu reverso português: o bairro moderno e pacífico, coado de sol,
presente em "Num bairro moderno". 136)
Vide BAUDELAIRE, Charles - Oeuvres, Paris, Gallimard, 1931-2 (Pléiade),
2 v. 137)
VERDE,
Cesário - "Num bairro moderno". Em sua: Obra completa de Cesário
Verde. Op.
cit., p. 67 et segs. 138)
Fazemos estampar em seguida o primeiro e terceiro quintetos do
poema: "Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros, / Vibra uma
imensa claridade nua. / De cócoras, em linha os calceteiros, / Com lentidão,
terrosos e grosseiros, Calcam de lado a lado a longa rua. // […] Em pé
e perna, dando aos rins que marcha agita, / Disseminadas, gritam as
peixeiras; / Luzem, aquecem na manhã bonita, / Uns barracões de gente
pobrezita / E uns quintalórios velhos com parreiras." VERDE, Cesário
- "Cristalizações". Em sua: op. cit., p. 84-5. 139)
"Toda a minha sensibilidade / Se ofende com este dia que há
de ter cantores / Entre os amigos com quem ando às vezes - / Trigueiros,
naturais, e bigodes fartos - / Que escrevem, mas têm partido político /
E assistem a congressos republicanos, / Vão às mulheres, gostam de vinho
tinto, / De peros ou de sardinhas fritas…" Nestes versos inaugurais
de "Manucure", já examinado, pode agora o leitor reconhecer a
ironia crítica Laforgueana, o olhar cesarino sobre o cotidiano - e
fronteiriço, cozido a tudo isto, o evidente desencanto oriundo do
paradoxo da ternura vazia. 140)
"Manucure" deixa patente para quem quer ver que Sá-Carneiro
pretendera, também, homenagear Laforgue, transladando para seu universo
referências extraídas cuidadosamente da família lexical laforgueana,
reimplantando-as em seu sistema poético com desenvoltura e naturalidade -
e tracejando evidentes paralelismos entre sua crise cosmopolita e a do
autor francês. Para isso nada melhor do que um paradigma da modernidade:
a máquina de imprensa. |
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Ricardo Daunt (Brasil, 1950). Romancista e ensaísta. Autor de livros como Manuário de Vidal (1981), Anacrusa (2004), e T. S. Eliot e Fernando Pessoa: diálogos de New Haven (2004). Contato: ricdaunt@ig.com.br. Página ilustrada com obras do artista Vicente do Rego Monteiro. |
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