revista de cultura # 47
fortaleza, são paulo - setembro de 2005






 

O suicídio em poetas jovens, como Sandra (Anderson) Herzer, vulgo Bigode

José Carlos A. Brito

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Sandra (Anderson) Herzer, vulgo BigodeSandra Herzer escreveu seu conjunto de poemas entre os 15 e 20 anos. Foi movida pelas dificuldades em lidar com a rejeição das pessoas que a criaram, no Paraná, onde nasceu; perdeu o pai aos 4 anos de idade, assassinado num bar, e sua mãe, mulher de vida noturna, deixava os filhos trancados em casa à noite. Sandra recordava-se, com saudade, de uma avó, única pessoa lembrada com carinho em suas memórias. Depois, em São Paulo, foi criada por tios que a tratavam formalmente como filha, mas nunca se adaptou, procurando alternativa nas fugas de casa, ao encontro de uma vida boêmia, que iniciava na adolescência.

Sandra direcionou, desde cedo, sua sensibilidade para uma poesia em busca de profundidade, a qual assinou com o nome masculino de Anderson Herzer. Em sua pequena autobiografia, escrita ao 18 anos, publicada pela editora Vozes – que hoje está na 25a edição e traduções para outros idiomas - Sandra, ou Anderson, conta como ficou, durante toda a adolescência, presa nas instalações da FEBEM, vivendo entre fugas, castigos, torturas, amizades e amores. Fez dessa vida, no recinto da prisão cruel, destinada aos menores de idade pobres, uma intensa e original relação familiar, construída a duras penas com as demais companheiras, e lá encontrou a própria liberdade nas paixões amorosas, acompanhadas de sofrimentos e vitórias, como sendo a única existência possível.

Em tal ambiente ela fez de sua fantasia um mundo imaginário real, livrando-se, assim, da rejeição do mundo externo. E com a sua existência, forjada nesse submundo, se revelaria poeta singular, que foi até o momento de suicidar-se aos 20 anos, quando já se encontrava em “liberdade”. Tratava-se de uma liberdade formal da sociedade, que ela logo passaria a considerar como lamentável engano, ao mergulhar numa depressão fatal. Em seu livro “A Queda para o Alto”, que não chegou a ver publicado, assim fala em trecho do início:

…o único problema sem solução é a morte. Digo isso por ter-me sentido por muitas vezes à beira do abismo, mas sempre, na última hora, havia uma saída ou uma mão amiga a me auxiliar num caminho com probabilidade de iluminação.

Sandra foi internada pela primeira vez na FEBEM por sua “família” adotiva, com a alegação, feita por seus parentes, de não conseguirem mais retê-la dentro de casa, pois se entregava à bebida por noites a fio, em companhia das amizades boêmias de adolescentes, com as quais também ingeria doses de comprimidos de optalidon. Na verdade, em toda sua poesia, como nos seus relatos, Herzer nos sugere uma procura intensa do amor, e ela o demonstra quando descreve os momentos voluptuosos em que se sacia desse sentimento. Por outro lado encontramos uma profunda angustia ao intuir em períodos seguidos a possibilidade do fim das situações de prazer. E a angustia a leva a falar constantemente em suicídio, através de metáforas ou de premunições da morte, que na poesia aparecem como estados de eternidade e renascimento.

Justamente nessas prisões-depósito, mal disfarçadas, da FEBEM, é o lugar onde o governo encarcera as crianças marginalizadas, sob a alegação de serem infratores; nessa reclusão tenebrosa onde os castigos são a versão sádica da “pedagogia” do oprimido. Também é ali o lugar em que Sandra descobre, deslumbrada, o único caminho do amor que ela conheceria em toda a sua vida, apaixonando-se por meninas amigas, que passavam a constituir verdadeiros relacionamentos de plenitude duradoura. No início “…o tempo passava e eu não conseguia me adaptar àquela casa. Fiz amizade com algumas meninas, que estavam aflitas como eu, e passamos a pensar em um modo de fugir de lá…”

Sandra, quando fugiu pela primeira vez, com três meninas, de noite, ficou escondida no mato do Horto Florestal e foi beijada muito por Vera, uma das companheiras de fuga. Nesse momento, para sua surpresa, sentiu despertada sua libido, como um sinal de erotismo-do-corpo que passou a circular em forma de energia transformadora e vitalizante. Talvez pela primeira vez descobre estar apaixonada, ou melhor, traduz em emoções de erótico lirismo aquilo que sentia. Esse amor chamava-se Rosana, uma menina que havia permanecido dentro da unidade carcerária no momento da fuga. Por tal motivo, uma vez em liberdade, ao ver-se tomada de paixão, Sandra sente o desejo de voltar para a reclusão do cárcere. E assim se expressa ao ver revelado esse autêntico afeto por Rosana, despertado por intermédio de Vera, a amiga de fuga:

“…durante aquelas carícias profundas trocadas entre nós, eu sentia a vida bem mais próxima a mim, beijava e abraçava Vera, como se eu estivesse abraçando minha existência, eu acariciava seu corpo, lentamente, com um desejo interior tão imenso que não sabia mais distinguir o significado da amargura, não me doía mais a saudade do mundo, e eu tinha ali junto a mim, resistindo ao frio, ao vento, enfim, eu tinha finalmente alguém para mim, para me ouvir quando eu quisesse falar, para me olhar quando eu ficasse em silêncio. Vera era o início e, ao mesmo tempo, uma promessa de um futuro seguro de que eu sabia não ter mais nenhum motivo para duvidar; sabia que, finalmente, eu havia me encontrado e conhecido uma parte de mim, antes bloqueada pelos outros…”

Após o surgimento da energia afetiva reprimida, Sandra resolve provocar sua volta para a unidade de internação da FEBEM, com finalidade de encontrar-se com Rosana, e para conseguir isso volta à antiga casa dos familiares e pais adotivos, e suplica à família que a entregue novamente ao estabelecimento penal, apesar dos castigos e das surras que a aguardam. Os irmãos de criação, penalizados, assentem normalizar sua volta ao reformatório com a promessa de em seguida conseguir sua liberdade formalmente, assumindo com as assistentes sociais a aceitação dela para novo retorno ao seio familiar, mas Herzer escreve sobre o fato o seguinte:

“…resolvi cortar um pouco o meu cabelo. No fundo eu sabia que estava voltando não para conseguir a liberdade perante as assistentes sociais, mas sim voltando definitivamente para Rosana, com o cabelo curto, identificado mais ainda com um menino, estava voltando para assumir de uma vez por todas o amor imenso e verdadeiro que eu sentia por aquela mulher criança…”

Floriano MartinsNesse momento, Sandra, ou Anderson, conta com a idade de 15 anos, e espalha sua nova identidade por todas as demais instituições de repressão ao menor, ligadas à FEBEN, para ficar conhecida com o novo apelido que ela própria adota, Bigode:

…foi nessa época que surgiu meu apelido tão conhecido, não somente nas unidades da FEBEM, como também no centro da cidade, nos bares; e, logo, em minha própria casa, todos sabiam que se perguntassem por mim como Sandra, poucos responderiam, pois meu apelido era “Bigode”…”

E diga-se, nesse momento nasce também a poeta. Passados 5 anos, Sandra Herzer, ou Anderson, ou Bigode, mata-se, ao se atirar do Viaduto do Chá. No entanto, pouco antes de ocorrer a tragédia, escreveu os versos:

Fiz de minha vida um enorme palco…/ Mas um dia meu palco, escuro, continuou / e muita gente curiosa veio me ver / viram no palco um corpo já estendido / eram meus fãs que vieram pra me ver morrer / / Esta noite foi a noite em que virei astro / a multidão estava lá, atenta como eu queria / suspirei eternamente e vitoriosamente / pois ali o personagem nascia / e eu, ator do mundo, com minha solidão… / morria!

Mas, por que Bigode? Lia Junqueira, uma pioneira na luta pelos direitos desses menores, durante o período da ditadura militar, e que mantinha um movimento de defesa e denúncia das atrocidades cometidas às crianças e adolescentes marginalizados dessa época, ajudou Herzer mais tarde a encontrar um rumo. E Lia conta, na introdução ao livro da poeta, um fato ocultado pela própria Sandra em suas memórias; que aos 13 anos, ela apaixonara-se por um rapaz de apelido Bigode, mas o rapaz morreu num acidente de moto. Esse teria sido o primeiro amor importante de Sandra, para o qual ela teria transferido, não somente sua imensa carência de afeto, como todo o seu componente de especial personalidade criativa e, portanto, sua própria segurança psíquica.

Parece que muitas pessoas compreenderam equivocadamente essa opção; algo como um desvio, sinalizado nas escolhas eróticas e afetivas pelo feminino. Mas, na verdade, Sandra vivia o impulso do mundo imaginário, que a dominava para o si mesmo, pois somente através dessa personalidade ela conseguia descobrir seus estados de êxtase e autêntica felicidade. E sua poesia mostrava isso. Bigode não seria apenas uma transferência da qual teria que se curar, desde que consideremos esse fenômeno psíquico uma realização do Eros com o Daimon criativo, elementos motores de captação, que proporcionam alimento à alma, fazendo circular essa energia em forma criadora. E todo o processo da poesia, plantado nos relacionamentos amorosos, seria manifestação do seu movimento do fazer alma, quer dizer, a construção e a busca, não apenas do espiritual reflexivo, mas da alma criativa, incendiária, cujo símbolo é formado pelo afeto, a intuição, o impulso amoroso, a paixão; um erotismo dinâmico entre corpo e coração.

Se na poesia mística de Santa Tereza de Jesus (Ávila, Espanha, 1515–1582) vê-se a sublime busca desse Deus fugitivo, do além, seria de conhecimento da própria Tereza que, para encontrá-lo na eternidade, essa fusão passaria inevitavelmente pela morte; e a isso associamos os famosos versos …morro, porque não morro… significado de que a verdadeira morte e a distância em relação ao Deus-Amor seria a autêntica vida, portanto, o morrer para efetuar-se essa transcendência do encontro. Mas Tereza de Jesus vive por muitos anos, e isso lhe faz bem, porque somente em vida, no não-morrer, pode sentir a presença que também produz a poesia; e por sorte, a única existência “real” do Deus-Amor é na ausência dolorosa do objeto amado, mas sentido na consciência viva da fusão poética.

Quando os atos de Sandra Herzer são analisados como desvios, e interpretados como doença, curar-se significaria morrer, pois o Daimon (a alma reflexiva e ponderada), ao ausentar-se, ao desprender-se (e abandonar a Psique a seu sono) permitiria a fuga do Eros em direção ao eterno, e a alma adormeceria para sempre à espera do amor perdido nesse além. Encontramos esses sinais e vivência do mito, em Herzer, nos seguintes versos do poema “Meu eterno crucifixo”, a lembrar um diálogo íntimo da poeta, mantido com um outro, interno, simbolizado nesse Daimon-deus, só entendido melhor a partir de uma visão pagã, vejamos:

…se você morresse só, sem dó / eu jamais teria duvidado e me matado / Me matei num sonho rouco / num amor derrotado, vagando. / Acordei agora, você partiu e voltou, / você ressuscitou meu Deus, estou te amando. / Deus, eu te critiquei, eu te xinguei / te maltratei, nunca te respeitei, / e nunca em você pude acreditar / e você morreu e renasceu / e para mim veio eterno se provar.

A poeta mostra o renascimento de Eros em si própria, com o Daimon ao seu lado, que equilibra os impulsos de Eros, contradizendo a vontade de jogar-se à eternidade (a morte, no símbolo do renascer eterno). Esse demônio criativo age na ponderação, pede prudência nos momentos críticos e segura os impulsos. Ele será o Daimon de Sandra, isto é, sua segurança, corporificada no Bigode. E esse desejo permanente, de eternizar-se pela morte, pode ser notado no verso seguinte…Deus, você é eterno, não é mito, nem poesia…portanto já existe aí uma tentação perigosa de desvincular o Deus separando-o de seu Daimon, este último mostrado nas palavras mito e poesia, isto é, aquilo que a ata à terra e que por esse motivo é a expressão de sua alma na vida cotidiana, sua tábua de salvação psíquica, mas que ela, ao tentar separá-los do Deus eterno, estaria provavelmente optando por Ele (no sentido que pode levar ao desejo da morte) e dispensando a bóia protetora.

James Hillman, ao analisar o Eros socrático, diz que para Platão Eros era um Daimon, assim como o eram as outras funções relacionadas à psique, e para Sócrates esse Daimon era um espírito interno e prudente, um algo subjetivo que a partir de dentro dizia “não”, isto é, uma consciência que nos fala “não faça isso”, “cuidado”, “espere”, etc. Significa sempre aquele momento da inibição; quer dizer, quando os impulsos são para a morte, no sentido de buscar o eterno (e a glória) que descarta as frustrações, esse Daimon chama à realidade, à terra, ao enfrentamento, chama ao sofrimento da vida com Eros, que é a busca da vida da alma, o amor erótico no sentido da energia vital que dá movimento à alma, incluindo os sofrimentos implícitos e enfrentando-os. Em citação, Friedlander, que escreve sobre Platão, nos diz o seguinte:

“…Sócrates é, ao mesmo tempo, erótico e demoníaco. (…) Para ele, o daimon é o único responsável pelo amor. (…) O daimon socrático deve ter sido, para Platão, uma parte do demoníaco, como o nome indica; daimonion, e Eros, a força inibidora e a força estimulante, só podem aparecer como fundamentalmente afins…”

Quer dizer, quando Sócrates aceita tomar o veneno (cicuta) para matar-se - mesmo que pudesse recusar-se a fazê-lo – ele, nesse exato momento, não sentirá mais a voz impeditiva do daimon, porque “…desde que a voz profética, o sinal do deus, não se opôs a mim, uma vez sequer durante todo o processo, segue-se que o que me aconteceu deve ser um bem”,

E a isso, J. Hillman acrescenta:

“…Ele (Sócrates) está livre de culpa porque a voz inibidora não impediu suas ações. Seu daimon não se opôs a sua morte. A morte era mais a expressão final da união por ele realizada entre Eros e Psique, o ato final de seu processo construtivo-destrutivo, seu testemunho do fazer alma, evidenciado por sua fé na imortalidade da psique e pelo efeito exemplar naqueles que o rodeavam…” .

O sentido desse mesmo daimon também o encontramos em Georges Bataille que, ao tratar do misticismo erótico, o chama de atitudes prudentes, no caso em relação a Santa Tereza, contrapondo-se ao impulso desta santa, de morrer de fato para encontrar o amor divino, vejamos:

“…de acordo com palavras do padre Tesson, a vida divina exige a morte daquele que quer encontrá-la. Mas ninguém pensa numa morte que seria passivamente ausência de vida. Morrer pode assumir o sentido ativo de uma conduta onde são negligenciadas as atitudes prudentes que comandam em nós o medo da morte…”

Sandra Anderson Herzer prevê essa procura mórbida, da imortalidade, nos versos:

…E dos meus poemas empoeirados serei luz / a todo o homem que esqueceu de me lembrar,/ serei figura, imagem oculta, já a reinar / nos céus sozinho, depois de tanto aqui chorar.  

Floriano MartinsE, da mesma forma (que se disse em relação a Sócrates), na hora crucial em que Sandra Herzer decide atirar-se do Viaduto do Chá falta-lhe a voz profética e inibidora do seu incrível daimon, para adverti-la; portanto, falta-lhe a segurança do Bigode, como nos fala a própria Lia Junqueira:

“…quero acreditar que, naquela noite chuvosa de agosto de 82, num descuido seu, Bigode se ausentou e repentinamente ela se sentiu desamada. Sem amor, sem Bigode, desesperada saiu à sua procura, e repentinamente percebeu que só havia uma maneira de encontrá-lo, não tinha outra saída. E ao cair no asfalto, subiu com Bigode para nunca mais descer.”

Quando, aos 17 anos, Sandra se debatia em como lidar com a sua liberdade, pois aos dezoito teria que abandonar a FEBEM, que ao mesmo tempo detestava, nota-se uma certa insegurança em ter que enfrentar o machismo do mundo externo, e pese sua imensa vontade de viver livre também a atemorizava o medo pela destruição de sua personalidade - tão arduamente adquirida - ao pressentir um possível aniquilamento, dada a incompreensão do mundo.

Nesse momento, coincidindo com a abertura democrática do país, um político da esquerda liberal, e de oposição, que dispunha de um primeiro mandato como deputado estadual em São Paulo, Eduardo Suplicy, ao conhecer Sandra na FEBEM vê a possibilidade de denunciar aquelas situações de repressão ao menor, trazendo o caso de Sandra a público. E assim ele encaminha sua libertação, ao responsabilizar-se pela poeta, conseguindo-lhe um emprego temporário na assembléia legislativa. Sandra faz questão de manifestar seu entusiasmo, possivelmente para vingar-se dos sofrimentos, sobretudo em relação aos diretores que a humilharam sempre, devido a sua opção homossexual. Por isso ela explicita um agradecimento ao político de forma aparentemente exagerada, com cartas públicas e um poema em que presta homenagem a ele. Mas isso pode ser atribuído ao fato de haver descoberto nele, por essa via de transferência ao poder do político, uma forma de assegurar sua personalidade de Bigode, e enfrentar assim a sociedade, acobertada por tal “segurança”. No entanto, os dois anos de contato com a política causam-lhe provavelmente decepção, pois percebe como sutilmente a política acabava transferindo para ela uma espécie de obrigação em corrigir-se.

E essa impossibilidade de realizar a grande fantasia, criada em seu interior, que havia sido assegurada socialmente no acoplamento à FEBEM, em Sandra não teria como se sustentar ao confrontar-se com a vida e os preconceitos da sociedade externa. Lembremos que esse tipo de instituição corretiva aceita os desvios como necessários para justificar a própria existência e a poeta aprendeu a utilizar-se desse fato contraditório no sustento de sua persona, onde sua psique se sentia equilibrada. Para ela, o Mal se tornava útil, porque nele estava seu prazer, mas não conseguira entender até que ponto a sociedade livre seria implacável na condenação desse prazer. E, por ser proibido, só se realizaria no âmbito em que a repressão o permite, no desvio, na desobediência. Mas alguns diriam: hoje existe liberdade para ser homossexual. Porém, o sentimento profundo de Sandra, aquilo que ela havia descoberto maravilhada, isto é, o erotismo do coração - que não se restringe a uma simples relação homossexual descriminada e marginalizada - não seria protegido pelo grupo que sentimentalmente ela havia adotado em plena confiança.

Talvez Sandra não tenha compreendido que por essa via política não alcançaria a liberdade, na qual compreendia estar implícito seu prazer proibido. Não porque a função política não aceitasse formalmente o homossexualismo, mas porque o sentimento das pessoas era movido pelos dogmas emocionais da própria cultura repressora. E esse choque, não digerido, significou para Sandra Herzer um impacto demasiadamente violento que não foi atenuado na acolhida solidária do grupo político. Provavelmente faltasse algo com correspondência erótico-afetiva, ou como os estados místicos de experiência pessoal no plano da alma. Que com o tempo poderiam talvez se adequar ao convívio social. Mas não houve tempo. Recordemos que Santa Tereza precisou do isolamento de um convento das carmelitas descalças, para gestar seus delírios místico-eróticos, e assim viver.

Diríamos que o político tenta curá-la sob a máscara do politicamente correto, dado pela aceitação da opção sexual de Sandra, mas adotando, como aceitáveis, certos padrões da psicanálise onde o incomum considera-se uma opção de distúrbio. Isso implicava em atribuir ao comportamento uma certa anormalidade, sem fugir de uma linha progressista. O desvio, que havia sido o único caminho na poeta em direção ao encontro do si mesmo, para seus novos amigos não deixava de ser desequilíbrio, causado por carência afetiva –ausência dos pais, ou alguma outra coisa do gênero – ou mesmo falta do namorado Bigode, único que a amara e morreu havendo-se incorporado a ela como fixação, etc. Algo assim como, Sandra assume inconscientemente a personalidade do amor ausente, tornado impossível, e daí justificar-se-ia tudo como um processo de inadequação, causador de infelicidade, com sintomas patológicos e somáticos no plano fisiológico. Dessa forma, muito cientificamente, o mundo imaginário vai sendo desmontado, apelando-se até mesmo para “evidencias” aportadas por exames de laboratório. E ai não há psique que resista. Vamos às palavras do próprio Suplicy, então deputado:

“…pouco a pouco, e cada vez mais fortemente, Herzer passou a se sentir e a se portar como se fosse homem. Não sei exatamente as razões , a FEBEM nunca lhe explicou, mas ocorreu com Herzer uma transformação…Segundo o testemunho da Dra. Albertina Duarte Takiuti, medica ginecologista do Hospital das Clinicas, aonde levei Herzer para uma consulta em junho passado, os seus caracteres sexuais femininos sofreram uma parada em seu desenvolvimento. O diagnóstico completo de seu balanço hormonal ainda não havia sido completado, embora iniciado, por causa de seu receio a respeito de sua própria condição. Em seu corpo cresceram pelos, seu cabelo foi cortado como rapaz. Passou a usar roupas exclusivamente masculinas. Em todas as unidades femininas da FEBEM, principalmente na Vila Maria, em que passou mais tempo, Herzer se tornou, mais que líder, “chefe de família”, pessoa responsável por muitas iniciativas…

Sandra enganou-se, ao pensar que a liberdade e o reconhecimento profundo estava no salvador político. Este, na melhor das hipóteses, entendia o suposto “defeito” e a suposta “doença” apenas como fruto da injustiça social, dada à convivência desequilibrada. Mas ele esquecia que isso, mesmo sendo verdade, serviria à poeta para ganhar sua personalidade autônoma como acontece arquetipicamente com a Eva, pecadora, que sabe que ao comer a maçã perde a graça divina do onipotente e a proteção da autoridade, mas prefere desobedecer e ser livre, ao transgredir e optar por um prazer que, mesmo sofrido, seria seu companheiro de erotismo.

Faltou a Sandra descobrir que a liberdade oferecida estava encoberta pela falsidade de submeter a alma ao poder, mesmo que a política também possa ser um caminho da alma, desde que o imaginário predomine sobre a máscara. E pelas circunstâncias avassaladoras do preconceito cultural, o político, mesmo com aparência de correto, tornaria quase impossível a segunda transformação de Sandra em Anderson, isto é, a de impor-se à sociedade do jeito que ela se havia criado para si própria.

A psique da poeta, confundida, se enganará com um projeto de amor que não existia. E no momento crucial, em que Eros, o deus da vida divina, a abandona, por não saber lidar com as dificuldades terrenas, Herzer encontra-se abandonada também por seu daimon, o Bigode criativo que tanto a fortalecera nas horas de fragilidade. Por infelicidade, os novos amigos, e salvadores sentiram-se impotentes em afirmar o Bigode de Sandra como personalidade autêntica. Soma-se a essa solidão a ausência de suas musas e meninas da FEBEM, deixando-lhe apenas a perspectiva da eternidade, por não dispor de seu demônio interior para contradizer a impulsão em direção ao eterno, ao Eros divino, ao Deus de sua intuição cósmica. E sua psique compreenderia esse renascer imaginário, através da morte, ao representar seu espetáculo como herói …meu palco escuro continuou…a noite em que virei astro…e, eu, ator do mundo, com minha solidão morria…

Floriano MartinsVejamos ainda no poema “Meu eterno cruxifixo” como ela intui o ir ao encontro do Deus, por não ter mais qualquer impedimento do Daimon,

…Me deito no solo, rolo no mato sujo,| me agarro a um tronco oco | para não cair na desgraça e não ser comido pela traça | e devorado pelo amargo desgosto | Suma, vague…| morra de sede, chore sangue coalhado…

Já estava programado em sua alma-memória, que quando ela se agarrasse ao tronco, por este estar oco (vazio do daimon) a projetaria na desgraça. Impressiona seu diálogo desconsolado com ele, ao lamentar-se por seu sumiço, mandando-o morrer de sede pela sua traição, pois quando ele se der conta do abandono cometido será tarde e somente verá o sangue coalhado, que ele terá que chorar. E agora, sem nada que a impeça, ela descobrirá Deus (que de morto renasce) para ir a seu encontro, no seu sentido da eternidade, que deve ser experimentada.

Em trechos de outros poemas, sentimos o clima das premunições,

…quero te esquecer, preciso me perder
nos caminhos do infinito desconhecido
para nunca mais amar e sofrer…

…todos vão esquecer que um dia eu existi
nem meus vastos prantos vão sobreviver,
versos com poeira de minha razão…

…e meu nome negro será terra ressecada
como a colheita que morreu sem dar fruto
e na distância do azul vou ser imagem
e embaçado pelas nuvens serei um luto…

…e se no céu vir nuvens durante o dia
é que de tanto não ser ouvido, adormeci
é que de tanto lhe alertar antes do erro
me fiz penumbra, pois outra vez me iludi…

Pretendemos agora partir, numa possibilidade poética, para a análise do significado da homossexualidade de Sandra Anderson Bigode Herzer, em um sentido de entender a vida tendo a homossexualidade como ato simbólico do renascer.

Tomemos como base os mitos que nos cercam e formaram boa parte da memória de nossa vida inconsciente (a das imaginações arquetípicas), tanto para a expressão de nossos poetas profundos como para a sensibilidade dos leitores que compreendem essa subjetividade e são atraídos pelos mistérios da vida de Sandra Herzer. E não são poucos, pois o livro dela continuará sendo vendido para cada nova geração de leitores, como comprovam as edições contínuas.

Para entender o significado do símbolo que representa a síntese hermafrodita (união homem-mulher no mesmo corpo) como mensagem, tomaremos o mito da criação de Adão e Eva. Eva é o feminino que nasce do sono de Adão (o masculino); assim temos o nascimento da mulher como um arquétipo da futura criação do mundo, pois dela nascem arquetipicamente, a seguir, todos os demais seres humanos. Assim, o feminino representa o nascimento da síntese carnal de todos os sentimentos, e dentre eles o amor, referência direta ao espírito criador de fundo, representado por Deus, que é aquele sentimento a reger as ações de prazer (veja-se o misticismo erótico) e, portanto, a energia libidinal de fundo.

Mas para a existência desse equilíbrio em que Eva parece ter a prioridade vital (na medida em que psicologicamente gera), a compensação, ao peso dessa função feminina, se dá pela predominância geradora de quem “acende o fogo”, que no mito é atributo do homem, do masculino, do Adão. Eva não sai do corpo desperto de Adão (de seu estado consciente) como uma parte secundária de sua carne; Eva nasce do sono de Adão, portanto, do inconsciente (sonho, imaginação) dele. Se o feminino nasce do inconsciente do homem, será a mulher um fruto autônomo da imaginação viva do masculino, e o feminino a criação da vida imaginaria do homem, a essência de sua alma. Assim como o homem é parte do feminino, por não possuir a alma sem a mulher, a mulher não precisará de um arquétipo de alma masculino (ao contrário do que afirma Jung, ao conceituar o animus), pois, a natureza da alma é única (versão anímica do hermafrodita) e a mulher, por sua vez, é proveniente do masculino. Ela o gera e é resultado dele.

Arquetipicamente o amor não acontece sem essa junção, e todas as outras junções, sem a alma comum única não serão amor, mesmo que o aparentem, mas sim relações de poder. Essa aparência, que se dá na vida cotidiana, corresponde à junção dos separados amorosamente pelo casamento de interesse, e, portanto, na impossibilidade de ver realizado o amor nessa junção de poder, o amor será procurado através das transferências e de metáforas, onde se imaginará a junção anímica, amorosa, de outras formas, isto é, na transgressão à norma que leva ao erotismo. Mesmo que o casamento possa significar, no início, essa união na alma, sentida no amor profundo, isso somente acontecerá enquanto ele for a transgressão do proibido, onde a alma não é separada em duas e o erótico não seja separado do sagrado. Mas, de uma maneira geral, quando um dos cônjuges procura a alma em outro lugar, o casamento se destina a manter, fundamentalmente, relações de poder. E o poder se manifesta culturalmente pelo predomínio de um dos pólos, separado: quando domina o homem será machismo, ou será alienação com o domínio da mulher, no sentido da venda prostituída (simbolizado no poder onipotente de uma deusa tirânica que escraviza o sentimento).

Notamos que Sandra Herzer, na maior parte do tempo, expressava na prática cotidiana os sentimentos de sua vida imaginária e mantinha alguns sinais para isso: um era a poesia, outro a procura do amor erótico intenso, e o outro o sentimento de sofrer. Este último se apresentava na conflituosa afirmação de sua incorporação ao masculino, como identificação de sua personalidade. Para Herzer, o erótico era parte integrante do sagrado que ela fazia questão de simbolizar no sacrifício da tortura (todo sagrado comporta o símbolo da imolação). Consideramos que, na poesia de uma maneira geral (e não se restringe aos poemas escritos, mas ao estado poético) predomina o fundo arquetípico da junção feminino-masculino. Quando se relaciona isso ao mito Adão e Eva, o vemos, no caso de Sandra e Anderson, invertido, isto é, Sandra nasce biologicamente mulher e sente que ao relacionar-se com o homem não será no plano do amor, mas sim no de ser possuída como objeto do macho. Em sua biografia ela conta como o pai adotivo tentou estuprá-la, e ela resistiu, inclusive conservando seqüelas permanentes num dos braços, que havia sido destroncado, na luta. Claro, não pretendemos afirmar que aí estivesse o motivo de sua opção sexual, obvio, mas, talvez, tenha-lhe servido de mais uma sinalização para procurá-lo; os sinais que se acumulam na psique (memória, alma) vão indicando os caminhos por onde não se encontra o amor. No segundo momento conhece o homem a quem ama, o Bigode (esse sentimento não deixa de ser um bom sinal do encontro), a quem descobre, não somente como salvador para seu desconsolado isolamento feminino, mas, sobretudo, Bigode representa o arquétipo de sua natureza, que também é a criação arquetípica ancestral da Eva que encontra o seu Adão, e o cria nela.

O imaginário dessa junção, que é amorosa, cumpre o destino do mito, isto é, Adão após gerar Eva do sono, desaparece (Adão não está presente quando Eva é tentada por Satã) para daí a mulher assumir sua vida autônoma de geradora. Com o desaparecimento de Bigode, o imaginário de Sandra, ao invés de transferir o amor de Bigode a um outro homem e cumprir o destino histórico da união pelos arquétipos do poder, intui que deve anular e substituir o poder pelos arquétipos do amor, e assim incorpora Adão-Bigode à sua personalidade feminina, aprisionando o machismo em seu feminino. O que implica, também, em assumir juntamente as conseqüências negativas, por ser um processo terreno e não divino (provavelmente o divino se compensará com a poesia). Com a não compreensão disso, o aspecto terreno (pé no chão) perde a humildade, e sua arrogância poderá provocar a procura do absolutismo e onipotência do divino, através da morte. Mas enquanto o processo percorre os caminhos naturais das relações amorosas, chamaremos a isso simbolicamente de redenção hermafrodita do amor no mundo. Também se pode entender hermafrodita pelo mito da relação amorosa entre o deus pagão Hermes e a deusa Afrodite, acrescentando que a imagem de Hermes gera o hermetismo do aspecto misterioso dessa junção.

Floriano MartinsNa procura do amor intenso, Sandra, ao assumir a personalidade masculina de Bigode-Adão, deslumbra-se com o acesso fácil que passa a ter ao amor erótico, que só acontece pela transgressão do proibido, e descobre, sem qualquer preconceito ou sentimento de culpa, que ao colocar-se como homem, o feminino das meninas-amantes será seu complemento. Regozija-se em ser chamada de Bigode e até em ver nascerem-lhe os pelos nas pernas e no peito. Enquanto, externamente, as pessoas com poder, sobretudo os homens, não entendem e nem aceitam isso, ela, ao contrário, tomará essa incompreensão como estímulo, mesmo quando essa não aceitação se transforma em tortura. E a tortura passará a ser um desafio que a fortalece, mantendo sua personalidade hermafrodita mais segura, aumentando sua capacidade de amor e a intensidade de circulação da libido, elementos também estimuladores de sua obra escrita.

Essa mesma personalidade hermafrodita só desmonta quando não é compreendida por seu melhor amigo homem, que ao final lhe dá apoio e a liberta da FEBEM. Ainda que a intenção do amigo não fosse magoá-la, ele, mesmo liberal, estava dominado pela cultura do mito da separação entre Adão e Eva, que é o da sociedade que só aceita a profundidade do hermafrodita simbólico como anomalia, uma doença fruto da injustiça social e do desequilíbrio da família, tendo alguma chance de curar-se através da análise e da terapia. E até certo ponto essa atitude se justifica, quando a intenção é adaptar as “anomalias” ao convívio social, partindo do pressuposto dúbio de ser esse o melhor caminho em direção à felicidade.

O sofrimento, como afirmação da união hermafrodita, é a marca do destino de Adão, que tem que perder parte de seu corpo, simbolizado pela extração da costela, para descobrir sua alma feminina. Sandra vive o mito ao inverso, ou melhor, ela é o espelho que reflete ao contrário o sentido certo que a norma atribui ao mito. Primeiro, ela, como Eva, que nasce fruto do arquétipo do Adão sofrido, sente, como mulher, sua função geradora e, como mulher, num sentido extra-comum (que também é o sentido da poeta profunda), gera em si o homem, que é também o arquétipo do Adão renascido. E desse Adão-Anderson-Bigode, será gerado o novo feminino, que são as crianças mulheres a quem Bigode ama, e é correspondido ao ser amado por elas.

É significativo, também, o fato de Sandra não amar uma só mulher, como imagem típica do amor fiel a uma só pessoa; e com isso ela descarta a suposta superficialidade atribuída aos vários relacionamentos. Sandra amará, com maior naturalidade, várias mulheres, porque ela, como arquétipo do masculino divinizado, procurará sempre o sentimento em seu estado mais perfeito possível. Isso se deve a que não busca o relacionamento, prioritariamente, mas a experiência da síntese que gera amor no sentido mais puro, isto é, o Deus, ou Amor de Fundo. E o amor assim é atribuído aos estados mais elevados da função da alma, quando despertada pela paixão e enlevo da totalidade (o amor a todos corresponde ao sentido do amor a Deus). Nesse caso, a diversidade amorosa entende-se como a necessária descoberta dos diversos estados em que seja possível conhecer a beleza erótica, nos corpos e nos sentimentos. Significa um acúmulo e soma para construir o Amor de Fundo.

Portanto, Sandra, igual a Adão, precisa sofrer, como experimentação (e confirmação) do nascimento de Eva, que neste caso não somente é parte dela, mas vive nos femininos que se relacionam com ela. Esses sofrimentos, também causados pelas torturas na FEBEM, são acolhidos como parte iniciática de sua formação hermafrodita, e neles Sandra explicita e representa Adão. Ao ser torturada pelos “educadores” masculinos, confirma para si (e para o mundo) que o masculino dos torturadores (onde não há compreensão) é inferior ao seu masculino hermafrodita. E por esse motivo ela incorpora à sua nova personalidade os atributos do símbolo de um renascer para a humanidade. E isso fica mais claro quando ela descreve numa das passagens de seu livro, um castigo:

“…até que Haroldo iniciou, dando-me um empurrão, bati com o meu corpo fortemente no Deicão e com um tapa violento no rosto, ele me devolveu ao Haroldo, que me encostou na parede, mandou que eu colocasse as mãos para trás e me deu uma rasteira. Quando caí , ele me chutou as costas; não pude evitar um grito de dor. Continuou a me chutar, até que consegui me levantar. A seguir veio o Deicão que, simplesmente, mandou-me colocar as mãos na nuca enquanto espancava meu rosto, de um lado para o outro. Enquanto me batia sempre no rosto, dizia: - Abaixa a cabeça, homem como você tem que abaixar a cabeça pra mim. Mas meu orgulho era forte, apesar do corpo não estar agüentando mais. Ele queria que eu chorasse, abaixasse a cabeça, mas eu fui até o fim. Com a cabeça erguida, olhando para ele, jamais esquecerei seus olhos sádicos, que brilhavam enquanto me batia! Ele se cansou, parou, olhou para mim e me mandou tirar a cueca. Eu balancei a cabeça, me negando…Ele me jogou no chão, pisou minha barriga, depois chutou meus pés e saiu…naquele instante, queria fechar os olhos e dormir, para sempre. Pensei em morrer…mas ao mesmo tempo, eu não me sentia derrotado. O fato de apanhar daquele modo não desfez minha personalidade…”

A seguir assinalamos alguns trechos do livro de Sandra que se relacionam às várias análises feitas em nosso texto:

“…era ela, estava de pé, com uma das mãos na cintura. Como era bela aquela imagem, mais parecia miragem, seus cabelos castanhos escondiam a luz do sol, seus olhos formavam meu mundo, mundo puro sem interesses, um mundo do qual eu jamais queria partir, pois ele era belo demais para ser realidade; mas era real, ela estava à minha frente e eu caminhava lentamente em sua direção…”

“…não sei se fui eu ou ela a dar o primeiro passo, mas senti meus lábios junto aos dela, levemente, e logo um longo beijo apertado, com um forte gosto de felicidade, amor, ternura infinita, eu estava feliz, e ela também, caminhamos após pelo pátio, de mãos dadas, até a hora em que o sino soou, acompanhado de um beijo seguro, prometendo um amanhã jamais vivido antes…”

“…logo me mandavam longas cartas durante o dia, cartas pedindo que eu fosse conversar com elas, pois gostavam de mim. Nessas cartas propunham até se entregar a mim, quando eu desejasse… E eu me vi rodeado de meninas, até que eu percebi que teria a quem eu quisesse, bastava escolher…”

“…Entretanto mal sabiam eles que voltar para a FEBEM era meu maior desejo, pois, se antes eu queria sair, depois que conheci Ireusa jamais gostaria de ficar livre. É certo que seria um sacrifício imenso, mas eu queria passar pelo sofrimento, sentir os muros me prensando e tapando a vida, mas Ireusa era mais importante. Aqui fora eu não queria nada era como já conhecesse tudo….”

“…Recordava-me de Ireusa, seus olhos pretos, sorriso infantil e carente do meu amor, nós nos amávamos em conjunto, eu era uma parte dela, e ela era meu pedaço insubstituível… no meu grito de revolta, eu contava a todos a minha verdade, disse que não queria ficar ao lado deles, queria voltar à FEBEM para poder ficar perto de quem eu tanto amava, disse que não necessitava mais ficar nos bares, e sim perto de minha mulher…”

“…Na época em que assumi um compromisso sério em minha vida, do qual até hoje não me libertei, Ivete, esse era meu compromisso, nós ficamos juntos durante quase dois anos, até que ela foi encaminhada para a EU 16, outra unidade situada à Av. dos Imigrantes, eu era filho de outro “machão”, que se chamava Claudia, e tinha diversos outros filhos e filhas…”

“…O tempo foi passando e aquela aura imensa que havia ao redor de Claudia foi se acabando e eu fui ocupando seu lugar, não em termos de família, pois eu tinha a minha família, mas não um número tão grande de filhos, mas sim diversas mulheres, tantas que em um tempo me apelidaram de “galo”pois eu não tinha uma só mulher, tinha sempre uma fixa, mas por outro lado inúmeras na unidade e também em outras unidades da FEBEM…nessa época alcancei o auge… meu apelido se espalhou por todos os lados…meninas que chegavam novas, entravam perguntando quem era o Bigode…”

“…durante a surra que eu estava levando, com tapas no rosto, torcidas no braço, chutes nas costas, em determinada hora, quando eu caia novamente no chão, ele me apertou e torceu meu braço, justamente onde estavam os alfinetes. Com o aperto, um alfinete deslocou-se, podendo ser visto, com a ponta espetada para cima, embora continuasse dentro da carne, não saindo totalmente para fora. Meu braço começou a sangrar…”

Encerramos com trechos de dois poemas de Sandra Anderson Herzer Bigode:  

…todos vão esquecer que um dia eu existi / nem meus vastos prantos vão sobreviver…// mas qualquer dia, também sozinho a mim virá / um homem cego procurando um ninho eterno / E encontrará seu leito pronto em nuvem negra / verá que a morte é o sono lento após o inferno…quero te esquecer, preciso te perder / nos caminhos do infinito desconhecido / para nunca mais amar e sofrer…  

…eu queria que o fogo me cremasse / para ser as cinzas de quem hoje nasce…eu queria morrer agora, nesse instante, sozinho, para novamente ser embrião, e nascer; / eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver!  

José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Floriano Martins (Brasil).

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