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editorial
Nada de novo
Será lícito
transformar editoriais em painéis de aviso?
Por exemplo, alertar que mensagens enviadas por um
cjwiller@uol.com.br –
portanto, supostamente do mesmo endereço eletrônico de Claudio Willer,
um dos editores desta Agulha – jamais foram enviados pelo Claudio
Willer? Idem, com relação a alguns
florianomartins@secrel.com.br,
um endereço de Floriano Martins, ou endereço de um Floriano Martins que
nem existe mais (não o Floriano, é claro, mas o endereço eletrônico), e
mais alguns de @secrel/jpoesia e
similares?
Os e-mails do pseudo-Willer impressionam. Um deles, o assunto era ‘your
friend sent you a postcard’. Se chegasse a algum dos endereços das
relações do Willer verdadeiro – se é que não chegou – o destinatário
abriria, de boa fé, o link do ‘postcard’ para ter seu computador
infectado com vírus ou monitorado por alguma quadrilha de hackers,
golpistas da Internet. Circularam, também, e-mails do pseudo-Willer
oferecendo acesso – bah! – a sites pornográficos, cobrando dívidas,
mandando abrir o anexo com uma ‘important message’, encaminhando ‘your
file’, etc.
Até aí, estamos na rotina dos usuários da net, assolados e atormentados,
cada vez mais, por falsas cobranças de bancos, do SERASA, da Receita
Federal, além de avisos de prêmios em sorteios, da mensagem confidencial
do ex-rei do Congo pedindo ajuda para repatriar alguns milhões de
dólares, e toda uma gama de armadilhas à espera de que um incauto abra o
link indicado e entregue seus dados pessoais ou se deixe infectar.
Somam-se à inutilidade, as propagandas de aparelhos para expandir o
pênis, de Viagra sem receita, de cartuchos usados, de sites que
jamais abriremos. E às mensagens com vírus propriamente ditos.
Interessa, contudo – e aqui entramos naquela ordem de considerações que
ultrapassa o painel de avisos –, o modo como a própria net, o conjunto
de usuários e provedores de envio e acesso a mensagens, tem reagido a
essa crescente perturbação. A reação consiste em dificultar a circulação
de mensagens. Provedores oferecem antispams e outros bloqueios de
mensagens. Alguns, especialmente os provedores de corporações,
simplesmente bloqueiam todo e qualquer spam, a mensagem
distribuída a vários destinatários em cópia oculta.
Não fazemos isso, não adotamos antispam ou similar, por razões
éticas. Não faria sentido enviarmos nossas mensagens desse modo, e
bloquearmos as dos outros. E por razões práticas: muito do que vem,
informes de programação cultural, de outros portais etc., interessa.
Mesmo a bobagem interessa – por exemplo, a recente sucessão de mensagens
sobre a crise política brasileira dizendo que não, que tudo isso é uma
conspiração da mídia e das elites, uma tentativa de destruir as
realizações do governo Lula como, entre outras, manter no Brasil índices
de crescimento da economia abaixo da média mundial, entre os mais baixos
da América Latina, e inalteráveis indicadores de desigualdade social.
Interessam como sintoma. A loucura é necessária para ajudar a traçar os
parâmetros da lucidez.
Enfim, não há nada que aquele
X na barra de
ferramentas do Outlook ou a tecla Del não resolvam. É claro que
os usuários de conexão discada, e não a cabo, são mais prejudicados e
têm motivos mais fortes de indignação, pois são obrigados a pagar para
receber bobagens e agressões.
Contudo, os mecanismos de bloqueio das mensagens com múltiplos
destinatários, os spams, merecem observações adicionais. Mais que
solução, são um novo problema. O paralelo com as grades, portões
eletrônicos, bloqueios em portarias e vigilância por gravações é
evidente. Em um caso ou em outro – dos dispositivos domésticos de
segurança ou dos bloqueios à emissão e recepção de mensagens – há
inversão de papéis. A vítima potencial torna-se prisioneiro. Avisos para
não abrir mensagens ou evitá-las lembram os informes, tempos atrás, de
secretarias de segurança, recomendando que nunca se escrevesse o
telefone e endereço no verso de cheques, para não fornecer dados
pessoais ao assaltante que iria pegar esses cheques. Isso é oficializar
e institucionalizar o crime, em vez de combatê-lo. É transferir para o
cidadão a obrigação de cuidar da segurança pública, e para o indivíduo a
solução de problemas coletivos. Pagamos impostos e pelo provedor e uso
da conexão: em troca, deveriam nos proteger. No caso da segurança no
mundo ‘real’, que instalem um posto de guarda na minha esquina, ou uma
viatura, em vez de achar que deveríamos eletrificar a cerca. No mundo
digital, que invistam em mecanismos de detecção dos fraudadores e
estelionatários, em vez de bloquear mensagens. Em uma situação ou em
outra, essa exigência é um direito. Não pode, como ocorreu com uma das
mensagens ao pseudo-Willer, o provedor, depois de recebê-la, pedir
transcrição e envio do ID do remetente, para depois ficar por isso
mesmo. Ora, ele, o provedor, que vá atrás e descubra quem fez aquilo.
A transferência do cuidado com segurança para o indivíduo destrói o
espaço urbano e a própria urbanidade. Para reduzir a probabilidade do
assalto, do latrocínio, do seqüestro, deixa-se de circular. O bloqueio
de mensagens como estratégia de segurança tem a mesma conseqüência sobre
o espaço digital. É destruída a livre circulação de informações. Vai-se
a utopia da net como espaço aberto, democrático, de convivência e
circulação de informações. A ineficiência da segurança digital é o
equivalente da burocracia da segurança pública.
Aparentemente, a solução para preservar essa possibilidade, do novo e
inesperado, seriam as comunidades virtuais. Apenas aparentemente: tudo o
que acontece no sistema aberto, como um todo, acaba por reproduzir-se
nos sistemas fechados ou semi-abertos, as comunidades, a começar pelo
envio de vírus e das fraudes. Além disso, nós – nós, entenda-se,
editores de Agulha – não precisamos integrar comunidades. Já
formamos uma comunidade. Nossos endereços eletrônicos continuam à
disposição, assim como aqueles de nossos colaboradores. Basta entrar em
contato.
Agulha
chegar à edição 47, completando mais de cinco anos, é um sintoma de
estabilidade, após a revolução digital entre 1997 e 2000. Aplicativos e
demais dispositivos continuam, basicamente, os mesmos. Possíveis
inovações revolucionárias, como o livro digital, refluíram. Isso
comprova o que afirmávamos nos primeiros editoriais. A tecnologia não
determinou que as mensagens tivessem a forma de poesias concretas. Nem
de seu aparente oposto, o jargão e os signos próprios da net, o eh
em lugar de é, e os parênteses sorridentes ou tristonhos. A História, em
geral, e a história das inovações tecnológicas, em especial, não
obedecem a seus profetas e não se movem em linha reta. Felizmente, o
futuro equivale a um sonho cartesiano – ou melhor, a um argumento
cartesiano, pois a expressão sonho cartesiano é uma contradição
de termos, um oxímoro. A continuidade de Agulha, aberta à
inovação e crítica com relação ao messianismo da inovação, permite
repetir o que foi dito em um editorial celebrando o primeiro ano desta
publicação: o futuro é aqui; o futuro somos nós.
Os editores |