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Rui Herbon: em Lisboa com absinto
Teresa
Sá Couto
Interpretar
a grande cidade absorvendo-lhe o pulsar é a proposta do recente livro,
galardoado, de Rui Herbon, Absinto – A Inútil Deambulação da Escrita
(Parceria A. M. Pereira, Lisboa 2005). Galvanizado por um narrador que
deambula, o leitor recebe as palavras, como bolhas translúcidas, verdes
da cor do absinto, com as quais constrói a sua própria sensação da
urbanidade. Escritor e leitor seguem a par por 173 páginas ou ruas com
muitos enigmas, imersos «em pensamentos como os mendigos abismados»,
atentos à cor, ao som, à luz, às sombras, às gentes, antes fechadas nos
actos costumeiros de quem por tanto passar já não vê. E não há
indiferença nesta Lisboa de Rui Herbon, desnudada por alguém que tem o
amor no olhar, e a crítica no humor.
Quem conhece Lisboa, com as palavras de Rui, redescobre-a. Quem não a
conhece cria-a. Lisboa total, inteira, que amanhece e anoitece. Assim se
faz a cidade que perdura. Assim se faz uma escrita de leitura
indispensável.
A
deambulação é feita por um narrador/escritor que não tem nome, nem é preciso
tê-lo: pelas cumplicidades criadas, o leitor conhece-o desde sempre. O ponto
de partida é um apartamento no Chiado, de dois pisos, ao qual o Eu «chegava
por uma íngreme escadaria de degraus curtos», no topo de um prédio de
esquina, junto das Escadinhas do Duque que «quase todos os dias subia ou
descia, ou subia e descia».
A dificuldade com que se «palmilha» a cidade, e a vertigem dos espaços onde
se processa a deambulação, incorpora a alegoria da criação literária, e numa
espantosa coesão, espraia-se ao longo de todo o romance nos mais diversos
sinais: a história «O Fim» apresenta o imortal Al Gahel, o sobrevivente da
Atlântida, o sangue comum a todos nós, que regressa a Lisboa para se
suicidar. Para chegar ao seu quarto de sempre, no “Hotel Cervantes”, tem de
subir «vinte e quatro degraus a direito, vinte e quatro multiplicados pela
meia dúzia de vezes que ali se hospedara». Atestando a sua passagem pela
vida, deixa um livro precioso, um Diário.
Deambulando, o Eu observa a cidade em cada instante munindo-se da técnica
impressionista, com recurso às sinestesias, que permitem transmitir
impressões e sugestões da realidade, e conferem ao todo grande plasticidade
estética e prazer na leitura. Por este processo surgem os vagabundos, as
estátuas, a gente buliçosa, os de olhar turvo e sem brilho, a massa de
figuras e rostos, táxis alinhados, a velha taberna de esquina, suja e
sebosa, o buzinar forte, etc.
Deste manancial efémero destacam-se fios que ao irem ficando na percepção do
sujeito, logo, na narrativa, vão-se fortalecendo: o caso de uma rapariga com
quem se cruzou, no Castelo, com a qual «trocou por breves segundos um olhar
frontal e cúmplice, que recordo até hoje»; a «misteriosa, insondável e
desejada» que percorre toda a história, mas da qual se sabem apenas traços
físicos e que usava sandálias de tiras.
Sendo Lisboa «uma cidade duplicada» – com duas placas para o mesmo local,
uma com nome pomposo outra com o nome que todos conhecem –, também a noite
mostra a outra face de Lisboa ou a duplicação de uma mesma parte: os
noctívagos que na noite deambulam num processo de evasão da sua própria
noite. É a noite que traz ao Eu o insólito Emílio Montalbán, que o
“apresenta” à Sociedade internacional do Absinto. Um espanhol que andava
sempre com uma pasta e que caminhava com um cão a seu lado, «nem atrás nem
adiante», coxo da pata direita, um rafeiro «reles, surrado a fomes e
abandonos, de pêlo caído, gasto e da cor das coisas que envelheceram,
vestido com uma farpela preta e surrada, como a do dono». O primeiro
contacto táctil do Eu com Emílio é feito com uma vibrante imagem
impressionista, mas também surrealista: «apertei-lhe a mão estendida, era
engelhada e fria, as gelhas escorregavam entre os meus dedos».
A noite é o lugar também das sombras humanas, do apelo sexual como procura
de salvação, mas que encontra o “não ser”; é exemplo disso o “engate”com
Sofia ou com Rosário. Outrossim, o olhar crítico sobre o “burguesismo fácil”
está evidente em Sofia, a «Infanta da lavoura», com o seu carro vermelho
descapotável. Ele observa-a, no quarto dela, deitado numa «cama com um
colchão ortopédico com campos magnéticos e um edredão de penas, às riscas, o
papel de parede condizia, os tapetes condiziam, as cortinas condiziam e até
o estofo de uma cadeira condizia». Mais do que o corpo dela, são estas
observações que lhe ficam.
Construído de episódios ou quadros do real quotidiano, o enredo é
vertiginoso com um caos que a escrita disciplina. O autor dispensa o ponto
final e outras marcas da pontuação, mas não se pense que a desobediência às
regras da prosódia faz com que esta escrita seja rúptil.
Ao mesmo tempo que Lisboa se vai construindo, palavra a palavra, e a frase
invadida pela vertigem sensorial, surge uma entidade inusitada: o leitor. A
artimanha está na alternância entre a objectividade, verosímil para o
leitor, e o recurso subtil à emoção, com que enreda o leitor que segue,
quase hipnotizado, ao encontro do Eu que, por isso, passa a ser cada vez
menos anónimo, pois passa a ser muitos, tantos quantos os leitores e os
momentos de leitura. No momento perfeito, o leitor surge na intimidade da
casa onde se escreve, através da vizinha da frente: «Ela chegou e invadiu
tudo(…) apoderou-se de mim a ideia de que a palavra que estou a escrever é
exactamente a mesma que ela lê nesse instante». O leitor partilha a escrita,
observando o momento em que o narrador, na sua secretária, preenche a página
em branco, dá forma à sua escrita interior: «os olhos escorrendo desde a
parede ou desde a janela para a folha, prolongando pensamentos e imagens.».
Escritor e leitora permanecem naquele local, «a escrever e a ler em
simultâneo, a horas certas, todos os dias».
O livro termina com a voz da rapariga das sandálias pedindo um shot de
absinto com groselha. Não sabemos mais nada. Um final aberto num livro de
deambulação, onde é evidente “A inútil deambulação da escrita”: deambular
não é chegar. É sempre partir.
Este livro é um contrato do autor com o leitor. Porque a imaginação é um
movimento, e as palavras o impulso, este pacto é prolongável no tempo: será
difícil ao leitor esquecer-se deste «Absinto». [T.S.C.]
TSC – Absinto: «Fada verde», «inteligência artificial», em alternativa e
apologia de outro tipo de inteligência…
RH - À inteligência “natural”. No fundo, para muitos artistas, quando não
lhes vinha a inspiração – que não sei muito bem o que é – bebiam uns copos e
parece que ela lhes surgia miraculosamente. Isso comigo não funciona
(risos).
TSC - Uma alternativa à inteligência que impede a espontaneidade. Como «In
vino veritas», no Banquete de Kierkegaard, onde os convivas só poderiam
discursar depois de estarem sob o império do vinho e dizer coisas que de
outra forma jamais diriam…
RH - Exacto. O Absinto seria algo libertador. As pessoas revelam-se à
noite…durante o dia andam com o seu fato e gravata, com a sua máscara, à
noite, às vezes, andam completamente enfrascadas e, se calhar, é como
gostavam de passar a vida…
TSC - Morar sozinho, beber absinto e conhecer Emílio Montalban é a trilogia
para a deambulação feita pelo narrador, um Eu, sem nome…
RH – Sim, é quase um pretexto para o livro todo. Está tudo interligado por
esses fios. Além desse Eu há personagens que funcionam como fantasmas porque
entram na narrativa e saem – como os figurantes do cinema ou teatro –, têm
uma fala e desaparecem, sem se saber donde vieram nem para onde vão. A nossa
vida é assim…as história da noite representam-no.
TSC - Emílio faz uma parelha de eleição com o Eu sem nome porque, e voltando
ao absinto, a Emílio dá-lhe para falar, e ao Eu dá-lhe para escutar…
RH - É uma relação perfeita. E é verdade; o álcool tem efeitos diferentes
nas pessoas. O Emílio falava verborreicamente, nas suas divagações. O outro,
que passava o dia a divagar, à noite acalmava-se, deixava o outro falar,
ouvia-o, abria a janela, ia ver a rapariga da frente…
TSC - A casa do Chiado é a âncora da deambulação, o espaço onde a escrita
acontece. Viveste mesmo lá?
RH - Sim. Vivi lá seis meses. Mas o livro foi escrito depois. Não tenho
muito jeito para inventar casas…no que estou a escrever agora estou a
inventar, mas quase não se descreve a casa. Já morei em tantos sítios…agora
estou menos movediço…conhecendo tantas casas diferentes é mais fácil
utilizar esses cenários.
TSC - Sobre as personagens femininas…
RH – Ah, eu costumo ser mauzinho com as mulheres….
TSC - Disseste isso na Covilhã, mas não é essa a impressão com que fiquei
neste livro…
RH - Este não tem muito, mas a frase «gosto de mulheres que falam senão
começo a suspeitar que pensam»…!
TSC - Mas isso é tirares a frase do contexto. Repondo-a lá é uma observação
ao serviço da dissecação das personagens, que continua no olhar crítico e
irónico pela casa da mesma menina….
RH - Sim. Até porque ele estava a dizer aquilo a um tipo de pessoa
específico, um destinatáro definido, à rapariga um bocado "oca", filha de
boas famílias, com pretensões culturais, mas sem “grande coisa”…Essa frase
fora desse contexto…caíam-me as feministas em cima.
TSC - É gente sombria que na noite anda à procura e encontra o efémero,
aliás como o EU. No geral, até se pode ver como uma homenagem às mulheres….
RH - Pode ser. São possíveis várias leituras. E podes também ver este livro
cruel para o Eu…com aqueles jogos ele expõe-se…Se fosse uma mulher a
escrever, se calhar dizia o mesmo dele…
TSC – São sugestivos, os dois nomes que estão ligados à sexualidade…entre a
Sophia, a portuguesa, e Rosário, a espanhola …(risos)
RH - A meio caminho está a virtude…
TSC - E a meio caminho estão as que não são efémeras: a vizinha…e a rapariga
do Castelo.
RH – E essa parece ter “mais futuro”…pois reaparece no final, dando origem
ao “eterno retorno”. Há também neste livro uma forte preocupação com o
tempo…faço isso em todos os livros……como na história do tipo que é imortal e
está ali a acabar esse seu tempo;…a rapariga rica dentro do tempo em que ele
viveu na casa, mas se foi depois ou antes dele ter conhecido as
espanholas…não se sabe…. O Tempo é caótico; não tenho a preocupação de dizer
se foi antes ou depois…. São episódios. No fundo há meia dúzia de cenários,
e a casa dele é quase a âncora de tudo.
TSC - A tua escrita é impressionista e, arrisco, com muitos traços
surrealistas…
RH - é curioso dizeres isso, porque a única critica que surgiu a este livro
terminava com «surrealistamente muito bom» Se calhar sim, mas não
propositado…
TSC - Mas o caos é organizado propositadamente por numa escrita de
interligações, até ao ínfimo pormenor…
RH – Trabalhei 10 anos em informática. Se calhar ao escrever tenho uma
preocupação esquemática, sobre as relações que falas, o espírito de análise
e de interligação, se calhar vem dessa área. Tenho uma preocupação terrível
a rever. Não pode haver falhas. Há aí capítulos que podem existir fora do
livro. Mas confesso que não me vejo a escrever contos. Só obras de fôlego.
Tenho de concentrar-me, estar 2 meses ou 3 a esquematizar o que quero…demora
a fermentar, mas depois disparo…
TSC - A importância da tal «escrita dentro», que falas no livro…
RH - Exacto. A pessoa vai trabalhando e há sempre qualquer coisinha que se
aproveita… às vezes, a ponta da linha…e sai tudo por aí fora.
TSC - Uma Originalidade do livro «Absinto» é a relação que se estabelece
entre a realidade e a ficção: o Eu desvela-se ao leitor, provocando um
sistema de reconhecimentos, e a ficção entra na realidade. Um jogo assumido
pelo narrador que até leva para a ficção um autor, um Rui Herbon
(risos).
Foi pensado ou saiu assim?
RH – Saiu e foi pensado. A maior parte dos escritores são pessoas que sempre
escreveram, e eu não tive o Diário, não escrevia poemas. Até aos meus 29
anos fui leitor, e sou escritor há quatro, portanto, se calhar, eu ao
escrever, muitas vezes farei ao contrário de muitos escritores, e muitas
vezes será o meu lado ainda de leitor a prevalecer, e quando estabeleço esse
Eu, digo-o claramente. Aliás há três Eus: quando ele diz que o Eu que
escreve neste momento nem é o narrador, que supostamente é a tal ficção, nem
o autor, que será a tal realidade, mas a sua máscara, uma terceira entidade;
ou seja, um livro não é ficção nem realidade, há uma mancha no meio em que
uma e outra se vão misturando. E se calhar o interessante é que uma pessoa
chega a uma altura do livro, em que há uma mistura tal entre eles. O Eu sai
muito pela tal sombra, a tal máscara.
TSC – O Eu não ter nome contribui para a identificação do leitor…
RH – Pois, pode ser o próprio leitor. Afinal não se sabe muito do Eu. Não se
sabe o que ele faz. Escreve sobre tudo, mas não sabes o que faz durante o
dia. À noite vai para os copos, durante o dia pode ter uma vida normal e o
leitor pode encaixar aí. A personagem olha, vê, regista no seu bloco de
notas. Essa é uma das minhas metodologias de escrita.
TSC – O estilo da deambulação, e da confissão…
RH – Sim…isso uso em todos. Normalmente, quando acabo um capítulo, vamos
supor que tem 3 páginas, vou rever, e fica com seis…é que entretanto andei
pelas ruas e acrescento confissões do Rui Herbon, nem é da máscara.
TSC – E a máscara é isso: esconde revelando, e voltamos ao absinto…
RH – Exactamente. Está aí a máscara para não se saber muito bem quem é…pode
ser e pode não ser…E é uma desculpa: “ele se calhar estava a dizer aquilo
porque estava com os copos” deixando a incerteza….e assim, “a gente
desculpa-o”… (risos).
TSC - Tens a noção que este teu livro é uma fonte de compreensão da
urbanidade e, pelo carácter analítico, pode ser uma consulta para
estudiosos?
RH – Sim. É um livro urbano que procura as manifestações da cidade em si
enquanto um todo, mas vai também a personagens individuais, aos seus
comportamentos com a cidade, como se relacionam umas com as outras. Esse
livro é uma homenagem à cidade, feita por alguém que interage com ela, que
gosta de ouvir a gente dos bairros.
TSC - Com tantos autores a escreverem sobre a urbanidade, ela pode ser uma
eterna fonte de inspiração ou tende a esgotar-se?
RH – Os campos têm todos o seu limite, e é curioso que o livro tenha sido
escrito num meio rural, quando já era outro Eu… a forma foi já como de alguém
que já está um pouco fora dessa urbanidade…
TSC – A distância e a memória têm o poder artístico de transformar…
RH - Transformar e escalperizar as coisas. É-se mais objectivo um pouco fora
das coisas… Continuo a vir muito a Lisboa, mas provavelmente esse livro não
seria o mesmo se o estivesse a escrever nessa casa, ou noutra em Lisboa,
porque estaria dentro do cenário; seria um actor, mas quando se está fora
é-se o coreógrafo, encenador. E esse mexe melhor os cordelinhos, do que se
estivesse dentro; o Rui estaria dentro do cenário desse livro e ser-lhe-ia
mais difícil estar cá fora a espreitar e ser o próprio Rui a rir-se das
atitudes que o próprio tem dentro da urbanidade.
TSC - Falas de livros como objectos mágicos e de bolhas que se soltam deles.
RH – Eu já experimentei isso. Ao ler o livro «O Ano da Morte de Ricardo
Reis», de Saramago, com o indivíduo a entrar no quarto de hotel,
despertaram-se-me muitas ideias. Isso são as bolhas. Os bons livros são os
que quantas mais vezes se lerem mais bolhas soltam.
TSC - Dizes que a escrita é um vício e que estás presente nela enquanto
leitor. No entanto, também dizes que não lês.
RH – Praticamente leio por uma questão profissional; só leio, o que acho que
me traz mais valias para o que escrevo. Depois, enquanto escrevo, não leio
nem vou ao cinema. Tem tudo a ver com a tal “escrita interior”. Por exemplo:
estou a ler um livro; uma casa desse livro leva-me para a casa do meu livro
e quando dou por mim passei um capítulo todo e não sei o que li! Passa-se o
mesmo com o cinema; uma qualquer cena faz-me sair do filme para entrar na
minha história… de vez em quando acordo e não percebo nada do que estou a
ver…
TSC - Dedicas todo o teu tempo à escrita. Dá-te para viver?
RH - Felizmente cada livro que escrevo dá-me um prémio; das vendas, dos
direitos de autor, os valores são ridículos. O que me safa são os prémios…
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