revista de cultura # 47
fortaleza, são paulo - setembro de 2005






 

Rui Herbon: em Lisboa com absinto

Teresa Sá Couto

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Rui HerbonInterpretar a grande cidade absorvendo-lhe o pulsar é a proposta do recente livro, galardoado, de Rui Herbon, Absinto – A Inútil Deambulação da Escrita (Parceria A. M. Pereira, Lisboa 2005). Galvanizado por um narrador que deambula, o leitor recebe as palavras, como bolhas translúcidas, verdes da cor do absinto, com as quais constrói a sua própria sensação da urbanidade. Escritor e leitor seguem a par por 173 páginas ou ruas com muitos enigmas, imersos «em pensamentos como os mendigos abismados», atentos à cor, ao som, à luz, às sombras, às gentes, antes fechadas nos actos costumeiros de quem por tanto passar já não vê. E não há indiferença nesta Lisboa de Rui Herbon, desnudada por alguém que tem o amor no olhar, e a crítica no humor.
Quem conhece Lisboa, com as palavras de Rui, redescobre-a. Quem não a conhece cria-a. Lisboa total, inteira, que amanhece e anoitece. Assim se faz a cidade que perdura. Assim se faz uma escrita de leitura indispensável.

A deambulação é feita por um narrador/escritor que não tem nome, nem é preciso tê-lo: pelas cumplicidades criadas, o leitor conhece-o desde sempre. O ponto de partida é um apartamento no Chiado, de dois pisos, ao qual o Eu «chegava por uma íngreme escadaria de degraus curtos», no topo de um prédio de esquina, junto das Escadinhas do Duque que «quase todos os dias subia ou descia, ou subia e descia».
A dificuldade com que se «palmilha» a cidade, e a vertigem dos espaços onde se processa a deambulação, incorpora a alegoria da criação literária, e numa espantosa coesão, espraia-se ao longo de todo o romance nos mais diversos sinais: a história «O Fim» apresenta o imortal Al Gahel, o sobrevivente da Atlântida, o sangue comum a todos nós, que regressa a Lisboa para se suicidar. Para chegar ao seu quarto de sempre, no “Hotel Cervantes”, tem de subir «vinte e quatro degraus a direito, vinte e quatro multiplicados pela meia dúzia de vezes que ali se hospedara». Atestando a sua passagem pela vida, deixa um livro precioso, um Diário.
Deambulando, o Eu observa a cidade em cada instante munindo-se da técnica impressionista, com recurso às sinestesias, que permitem transmitir impressões e sugestões da realidade, e conferem ao todo grande plasticidade estética e prazer na leitura. Por este processo surgem os vagabundos, as estátuas, a gente buliçosa, os de olhar turvo e sem brilho, a massa de figuras e rostos, táxis alinhados, a velha taberna de esquina, suja e sebosa, o buzinar forte, etc.
Deste manancial efémero destacam-se fios que ao irem ficando na percepção do sujeito, logo, na narrativa, vão-se fortalecendo: o caso de uma rapariga com quem se cruzou, no Castelo, com a qual «trocou por breves segundos um olhar frontal e cúmplice, que recordo até hoje»; a «misteriosa, insondável e desejada» que percorre toda a história, mas da qual se sabem apenas traços físicos e que usava sandálias de tiras.
Sendo Lisboa «uma cidade duplicada» – com duas placas para o mesmo local, uma com nome pomposo outra com o nome que todos conhecem –, também a noite mostra a outra face de Lisboa ou a duplicação de uma mesma parte: os noctívagos que na noite deambulam num processo de evasão da sua própria noite. É a noite que traz ao Eu o insólito Emílio Montalbán, que o “apresenta” à Sociedade internacional do Absinto. Um espanhol que andava sempre com uma pasta e que caminhava com um cão a seu lado, «nem atrás nem adiante», coxo da pata direita, um rafeiro «reles, surrado a fomes e abandonos, de pêlo caído, gasto e da cor das coisas que envelheceram, vestido com uma farpela preta e surrada, como a do dono». O primeiro contacto táctil do Eu com Emílio é feito com uma vibrante imagem impressionista, mas também surrealista: «apertei-lhe a mão estendida, era engelhada e fria, as gelhas escorregavam entre os meus dedos».
Floriano MartinsA noite é o lugar também das sombras humanas, do apelo sexual como procura de salvação, mas que encontra o “não ser”; é exemplo disso o “engate”com Sofia ou com Rosário. Outrossim, o olhar crítico sobre o “burguesismo fácil” está evidente em Sofia, a «Infanta da lavoura», com o seu carro vermelho descapotável. Ele observa-a, no quarto dela, deitado numa «cama com um colchão ortopédico com campos magnéticos e um edredão de penas, às riscas, o papel de parede condizia, os tapetes condiziam, as cortinas condiziam e até o estofo de uma cadeira condizia». Mais do que o corpo dela, são estas observações que lhe ficam.
Construído de episódios ou quadros do real quotidiano, o enredo é vertiginoso com um caos que a escrita disciplina. O autor dispensa o ponto final e outras marcas da pontuação, mas não se pense que a desobediência às regras da prosódia faz com que esta escrita seja rúptil.
Ao mesmo tempo que Lisboa se vai construindo, palavra a palavra, e a frase invadida pela vertigem sensorial, surge uma entidade inusitada: o leitor. A artimanha está na alternância entre a objectividade, verosímil para o leitor, e o recurso subtil à emoção, com que enreda o leitor que segue, quase hipnotizado, ao encontro do Eu que, por isso, passa a ser cada vez menos anónimo, pois passa a ser muitos, tantos quantos os leitores e os momentos de leitura. No momento perfeito, o leitor surge na intimidade da casa onde se escreve, através da vizinha da frente: «Ela chegou e invadiu tudo(…) apoderou-se de mim a ideia de que a palavra que estou a escrever é exactamente a mesma que ela lê nesse instante». O leitor partilha a escrita, observando o momento em que o narrador, na sua secretária, preenche a página em branco, dá forma à sua escrita interior: «os olhos escorrendo desde a parede ou desde a janela para a folha, prolongando pensamentos e imagens.». Escritor e leitora permanecem naquele local, «a escrever e a ler em simultâneo, a horas certas, todos os dias».
O livro termina com a voz da rapariga das sandálias pedindo um shot de absinto com groselha. Não sabemos mais nada. Um final aberto num livro de deambulação, onde é evidente “A inútil deambulação da escrita”: deambular não é chegar. É sempre partir.
Este livro é um contrato do autor com o leitor. Porque a imaginação é um movimento, e as palavras o impulso, este pacto é prolongável no tempo: será difícil ao leitor esquecer-se deste «Absinto». [T.S.C.]
TSC – Absinto: «Fada verde», «inteligência artificial», em alternativa e apologia de outro tipo de inteligência…
RH - À inteligência “natural”. No fundo, para muitos artistas, quando não lhes vinha a inspiração – que não sei muito bem o que é – bebiam uns copos e parece que ela lhes surgia miraculosamente. Isso comigo não funciona (risos).
TSC - Uma alternativa à inteligência que impede a espontaneidade. Como «In vino veritas», no Banquete de Kierkegaard, onde os convivas só poderiam discursar depois de estarem sob o império do vinho e dizer coisas que de outra forma jamais diriam…
RH - Exacto. O Absinto seria algo libertador. As pessoas revelam-se à noite…durante o dia andam com o seu fato e gravata, com a sua máscara, à noite, às vezes, andam completamente enfrascadas e, se calhar, é como gostavam de passar a vida…
TSC - Morar sozinho, beber absinto e conhecer Emílio Montalban é a trilogia para a deambulação feita pelo narrador, um Eu, sem nome…
RH – Sim, é quase um pretexto para o livro todo. Está tudo interligado por esses fios. Além desse Eu há personagens que funcionam como fantasmas porque entram na narrativa e saem – como os figurantes do cinema ou teatro –, têm uma fala e desaparecem, sem se saber donde vieram nem para onde vão. A nossa vida é assim…as história da noite representam-no.
TSC - Emílio faz uma parelha de eleição com o Eu sem nome porque, e voltando ao absinto, a Emílio dá-lhe para falar, e ao Eu dá-lhe para escutar…
RH - É uma relação perfeita. E é verdade; o álcool tem efeitos diferentes nas pessoas. O Emílio falava verborreicamente, nas suas divagações. O outro, que passava o dia a divagar, à noite acalmava-se, deixava o outro falar, ouvia-o, abria a janela, ia ver a rapariga da frente…
Floriano MartinsTSC - A casa do Chiado é a âncora da deambulação, o espaço onde a escrita acontece. Viveste mesmo lá?
RH - Sim. Vivi lá seis meses. Mas o livro foi escrito depois. Não tenho muito jeito para inventar casas…no que estou a escrever agora estou a inventar, mas quase não se descreve a casa. Já morei em tantos sítios…agora estou menos movediço…conhecendo tantas casas diferentes é mais fácil utilizar esses cenários.
TSC - Sobre as personagens femininas…
RH – Ah, eu costumo ser mauzinho com as mulheres….
TSC - Disseste isso na Covilhã, mas não é essa a impressão com que fiquei neste livro…
RH - Este não tem muito, mas a frase «gosto de mulheres que falam senão começo a suspeitar que pensam»…!
TSC - Mas isso é tirares a frase do contexto. Repondo-a lá é uma observação ao serviço da dissecação das personagens, que continua no olhar crítico e irónico pela casa da mesma menina….
RH - Sim. Até porque ele estava a dizer aquilo a um tipo de pessoa específico, um destinatáro definido, à rapariga um bocado "oca", filha de boas famílias, com pretensões culturais, mas sem “grande coisa”…Essa frase fora desse contexto…caíam-me as feministas em cima.
TSC - É gente sombria que na noite anda à procura e encontra o efémero, aliás como o EU. No geral, até se pode ver como uma homenagem às mulheres….
RH - Pode ser. São possíveis várias leituras. E podes também ver este livro cruel para o Eu…com aqueles jogos ele expõe-se…Se fosse uma mulher a escrever, se calhar dizia o mesmo dele…
TSC – São sugestivos, os dois nomes que estão ligados à sexualidade…entre a Sophia, a portuguesa, e Rosário, a espanhola …(risos)
RH - A meio caminho está a virtude…
TSC - E a meio caminho estão as que não são efémeras: a vizinha…e a rapariga do Castelo.
Floriano MartinsRH – E essa parece ter “mais futuro”…pois reaparece no final, dando origem ao “eterno retorno”. Há também neste livro uma forte preocupação com o tempo…faço isso em todos os livros……como na história do tipo que é imortal e está ali a acabar esse seu tempo;…a rapariga rica dentro do tempo em que ele viveu na casa, mas se foi depois ou antes dele ter conhecido as espanholas…não se sabe…. O Tempo é caótico; não tenho a preocupação de dizer se foi antes ou depois…. São episódios. No fundo há meia dúzia de cenários, e a casa dele é quase a âncora de tudo.
TSC - A tua escrita é impressionista e, arrisco, com muitos traços surrealistas…
RH - é curioso dizeres isso, porque a única critica que surgiu a este livro terminava com «surrealistamente muito bom» Se calhar sim, mas não propositado…
TSC - Mas o caos é organizado propositadamente por numa escrita de interligações, até ao ínfimo pormenor…
RH – Trabalhei 10 anos em informática. Se calhar ao escrever tenho uma preocupação esquemática, sobre as relações que falas, o espírito de análise e de interligação, se calhar vem dessa área. Tenho uma preocupação terrível a rever. Não pode haver falhas. Há aí capítulos que podem existir fora do livro. Mas confesso que não me vejo a escrever contos. Só obras de fôlego. Tenho de concentrar-me, estar 2 meses ou 3 a esquematizar o que quero…demora a fermentar, mas depois disparo…
TSC - A importância da tal «escrita dentro», que falas no livro…
RH - Exacto. A pessoa vai trabalhando e há sempre qualquer coisinha que se aproveita… às vezes, a ponta da linha…e sai tudo por aí fora.
TSC - Uma Originalidade do livro «Absinto» é a relação que se estabelece entre a realidade e a ficção: o Eu desvela-se ao leitor, provocando um sistema de reconhecimentos, e a ficção entra na realidade. Um jogo assumido pelo narrador que até leva para a ficção um autor, um Rui Herbon (risos). Foi pensado ou saiu assim?
RH – Saiu e foi pensado. A maior parte dos escritores são pessoas que sempre escreveram, e eu não tive o Diário, não escrevia poemas. Até aos meus 29 anos fui leitor, e sou escritor há quatro, portanto, se calhar, eu ao escrever, muitas vezes farei ao contrário de muitos escritores, e muitas vezes será o meu lado ainda de leitor a prevalecer, e quando estabeleço esse Eu, digo-o claramente. Aliás há três Eus: quando ele diz que o Eu que escreve neste momento nem é o narrador, que supostamente é a tal ficção, nem o autor, que será a tal realidade, mas a sua máscara, uma terceira entidade; ou seja, um livro não é ficção nem realidade, há uma mancha no meio em que uma e outra se vão misturando. E se calhar o interessante é que uma pessoa chega a uma altura do livro, em que há uma mistura tal entre eles. O Eu sai muito pela tal sombra, a tal máscara.
TSC – O Eu não ter nome contribui para a identificação do leitor…
RH – Pois, pode ser o próprio leitor. Afinal não se sabe muito do Eu. Não se sabe o que ele faz. Escreve sobre tudo, mas não sabes o que faz durante o dia. À noite vai para os copos, durante o dia pode ter uma vida normal e o leitor pode encaixar aí. A personagem olha, vê, regista no seu bloco de notas. Essa é uma das minhas metodologias de escrita.
TSC – O estilo da deambulação, e da confissão…
RH – Sim…isso uso em todos. Normalmente, quando acabo um capítulo, vamos supor que tem 3 páginas, vou rever, e fica com seis…é que entretanto andei pelas ruas e acrescento confissões do Rui Herbon, nem é da máscara.
TSC – E a máscara é isso: esconde revelando, e voltamos ao absinto…
RH – Exactamente. Está aí a máscara para não se saber muito bem quem é…pode ser e pode não ser…E é uma desculpa: “ele se calhar estava a dizer aquilo porque estava com os copos” deixando a incerteza….e assim, “a gente desculpa-o”… (risos).
TSC - Tens a noção que este teu livro é uma fonte de compreensão da urbanidade e, pelo carácter analítico, pode ser uma consulta para estudiosos?
RH – Sim. É um livro urbano que procura as manifestações da cidade em si enquanto um todo, mas vai também a personagens individuais, aos seus comportamentos com a cidade, como se relacionam umas com as outras. Esse livro é uma homenagem à cidade, feita por alguém que interage com ela, que gosta de ouvir a gente dos bairros.
TSC - Com tantos autores a escreverem sobre a urbanidade, ela pode ser uma eterna fonte de inspiração ou tende a esgotar-se?
RH – Os campos têm todos o seu limite, e é curioso que o livro tenha sido escrito num meio rural, quando já era outro Eu… a forma foi já como de alguém que já está um pouco fora dessa urbanidade…
TSC – A distância e a memória têm o poder artístico de transformar…
Floriano MartinsRH - Transformar e escalperizar as coisas. É-se mais objectivo um pouco fora das coisas… Continuo a vir muito a Lisboa, mas provavelmente esse livro não seria o mesmo se o estivesse a escrever nessa casa, ou noutra em Lisboa, porque estaria dentro do cenário; seria um actor, mas quando se está fora é-se o coreógrafo, encenador. E esse mexe melhor os cordelinhos, do que se estivesse dentro; o Rui estaria dentro do cenário desse livro e ser-lhe-ia mais difícil estar cá fora a espreitar e ser o próprio Rui a rir-se das atitudes que o próprio tem dentro da urbanidade.
TSC - Falas de livros como objectos mágicos e de bolhas que se soltam deles.
RH – Eu já experimentei isso. Ao ler o livro «O Ano da Morte de Ricardo Reis», de Saramago, com o indivíduo a entrar no quarto de hotel, despertaram-se-me muitas ideias. Isso são as bolhas. Os bons livros são os que quantas mais vezes se lerem mais bolhas soltam.
TSC - Dizes que a escrita é um vício e que estás presente nela enquanto leitor. No entanto, também dizes que não lês.
RH – Praticamente leio por uma questão profissional; só leio, o que acho que me traz mais valias para o que escrevo. Depois, enquanto escrevo, não leio nem vou ao cinema. Tem tudo a ver com a tal “escrita interior”. Por exemplo: estou a ler um livro; uma casa desse livro leva-me para a casa do meu livro e quando dou por mim passei um capítulo todo e não sei o que li! Passa-se o mesmo com o cinema; uma qualquer cena faz-me sair do filme para entrar na minha história… de vez em quando acordo e não percebo nada do que estou a ver…
TSC - Dedicas todo o teu tempo à escrita. Dá-te para viver?
RH - Felizmente cada livro que escrevo dá-me um prémio; das vendas, dos direitos de autor, os valores são ridículos. O que me safa são os prémios…
 

Teresa Sá Couto (Portugal, 1965). Licenciada em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa, Professora de Língua e Literatura Portuguesas, Editora de Cultura em www.kaminhos.com onde artigo e entrevista foram originalmente publicados (Lisboa, Agosto de 2005). Contato: teresa_sacoto@sapo.pt. Página ilustrada com obras do artista Floriano Martins (Brasil).

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