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revista
de cultura # 47 |
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França e Brasil, uma relação tão delicada Jacob Klintowitz
O prestígio da cultura européia é a tessitura onde se alicerçou a reparação moral e este orgulho provinciano. E não parece muito diferente da alegria com que a nossa imprensa comenta as grandes exposições que a França tem dedicado aos nossos artistas, como o fotógrafo Sebastião Salgado, o escultor Frans Krajcberg, o arquiteto Oscar Niemeyer. Ou a próxima mostra na qual Adriana Varejão apresentará uma visão abrangente de sua obra na Fundação Cartier, intitulada “Chambre d’echos” (Quarto de ecos), do dia 17 de março ao dia 6 de maio. A crença generalizada é que após a segunda guerra mundial a avassaladora influência da cultura americana extinguiu este fluxo com a França. Certamente nós nos tornamos, como boa parte do mundo, pop. Passamos a cultuar com extremo vigor ícones de consumo em massa e valores amorais em apoio ao dogma de que o objetivo supremo da vida é a vantagem material, representada pelo trinômio dinheiro, fama e poder. O que se casou perfeitamente com o egoísmo, a mentira oficial e o desprezo pelo bem público, expressões da nossa mais arraigada tradição do atraso Até mesmo incorporamos o discurso que aponta como qualidade apoteótica do humano tornar-se “vencedor’. E, por equilíbrio simétrico na amoralidade, o supremo defeito é tornar-se “perdedor”. Mas esta crença na extinção do paradigma cultural europeu, como tantas outras, é rebatida pela dinâmica da realidade. Não é verdade, o fluxo França-Brasil, continua. E Paris ainda representa o coração da Europa e o centro idealizado da arte.
Na primeira metade do século vinte, até o fim da segunda guerra mundial, em 1945, esta obrigatoriedade persistiu intacta. Quais, dos nossos, andaram por lá, em tempos já não tão míticos? O grande pintor, jornalista, chargista, Emiliano Di Cavalcanti, cérebro da Semana de Arte Moderna, em 1922, ficou em Paris, de 1923 a 25. Tarsila do Amaral, a musa do modernismo brasileiro, esposa de Oswald de Andrade em 1926, a pintora do Pau-Brasil e da Antropofagia, em Paris desde 1920, foi aluna de Fernand Léger, André Lothe e Albert Gleizes. Vicente do Rêgo Monteiro, extraordinário pintor pernambucano, freqüentou a Académie Juliam, entre 1911 e 1914. Lula Cardoso Ayres, outro destacado pernambucano, passou o ano de 1925 trabalhando em Paris. Candido Portinari, o mais conhecido pintor nacional, morou na França entre 1928 e 1930, gozando um prêmio de viagem ao exterior. Pintou pouco neste período, visitou exaustivamente museus e galerias de arte e relata, em carta deste período, que esta intensa observação o convenceu de que deveria pintar os assuntos brasileiros registrados em sua memória e que o emocionavam. O resultado todos nós conhecemos.
Ismael Nery o delicado surrealista, o mágico das pequenas anotações, o trágico cultor das sombras, figura de proa da arte brasileira, morou em Paris de 1920 até 1922 e estudou na Académie Juliam. Anita Malfatti estudou em Paris em 1913. A próto-martir do modernismo, cuja exposição em 1917 provocou o conhecido artigo de Monteiro Lobato, “Paranóia ou mistificação ? ”, e cuja defesa feita por Menotti Del Picchia, Mario de Andrade e Oswaldo de Andrade, foi o ponto de partida do movimento modernista, também bebera na fonte parisiense. Um caso especialíssimo é o do pintor cearense Antonio Bandeira. Chegou a Paris em 1946, logo após o fim de Segunda Guerra Mundial, e teve papel renovador na vida francesa, pois, juntamente com Alfred Wols, liderou uma corrente abstracionista. Em 1967, Bandeira morreu de choque anafilático ao realizar uma cirurgia simples na garganta. Bandeira é um dos mais significativos artistas deste período. Mas nenhum caso é mais curioso e emblemático que o do pintor pernambucano Cícero Dias. Na França desde 1937, amigo de artistas e intelectuais, Cícero viu-se envolvido em uma rocombolesca aventura. Preso pelos nazistas, juntamente com outros brasileiros, foi libertado em 1942 em função de negociação de troca de prisioneiros feita pelo governo brasileiro. E recebeu uma delicada missão de seus amigos franceses: levar, via Lisboa, o poema de Paul Eluard, “Liberté”, para Londres e entregá-lo a Roland Penrose. Impresso, este poema foi jogado sobre a França por aviões da RAF e se transformou no hino da resistência francesa:
“Liberdade,
Muitos artistas brasileiros moram na França ou mantém um segundo atelier em Paris. O refinado cultor de pequenas vibrações, Arthur Luiz Piza mora em Paris, desde 1953. Sebastião Salgado, o fotógrafo das tragédias sociais que identifica na geografia mundial, têm o seu porto em Paris. O fotógrafo Carlos Freire, da escola de Cartier-Bresson, mora em Paris há 35 anos. Heloisa Freire, pintora e gravadora, também. Sérgio Ferro, arquiteto, pintor e professor, mora em Grenoble. O pintor, chargista e ator Juarez Machado tem o seu atelier no romântico bairro de Montmarte. O pintor Fernando Barata, da estirpe do crítico Mário Barata, mora em Paris desde 1982. Flavio-Shiró Tanaka, um dos mais vigorosos expressionistas de nossa história, passou boa parte de sua vida profissional em Paris, onde começou como aluno de Johnny Friedlander. A partir de 1945, uma parte significativa da arte brasileira morou e aprendeu na França. Adriano de Aquino passou o ano de 1976 em Paris. O mineiro Álvaro Apocalipse, criador do teatro dos mamelengos, em 1969 ficou por lá. O mais inquieto dos artistas da vanguarda brasileira, o quase clássico por suas perfomances chocantes, o português Artur Alípio Barrio dividiu o ano de 1975 entre Lisboa e Paris, uma espécie de túnel do tempo particular. O escultor e gravador cearense Sérvulo Esmeraldo, sutil cultor da geometria e da arte cinética, entre 1957 e 75 teve o seu atelier em Paris. O pintor Carlos Bastos, um dos criadores do modernismo na Bahia, morou em Paris 4 anos, a partir de 1949. Carlos Bracher, o pintor e poeta de Ouro Preto, em 1969, morou em Paris. O gaúcho Carlos Scliar, mestre no ofício da arte, artista com ateliers em Ouro Preto, Rio de Janeiro e Cabo Frio, entre 1947 e 1950 completou a sua formação em Paris. Caciporé Torres, o escultor com maior número de obras públicas de São Paulo, orgulha-se dos seus sete anos parisienses. Anna Letycia Quadros, Iberê Camargo, Francisco Brennand, Antonio Carelli, fazem parte do grande número de artistas que foram alunos do cubista André Lothe, autor do famoso livro “tratado da Paisagem”. A mineira Lygia Clark, criadora dos “Bichos”, “A casa é o corpo”, “O corpo é a casa”, artista emblemática da vanguarda brasileira, entre 1960 e 62, habitou em Paris e foi aluna de Fernand Léger e Arpad Szenes. Aliás, Brennand também foi aluno de Léger. O escultor gaúcho Vasco Prado, autor de importante obra figurativa, em 1947/48 foi aluno de Fernand Léger e Etienne Hajdu na Escola de Belas Artes de Paris.
O carioca Sérgio de Camargo e a gaúcha Elida Tessler têm uma coisa em comum, ambos estudaram na Sorbonne. Sérgio, filosofia pura, em 1961, período em que descobriu as obras de Jean Arp e Constantin Brancusi, boas influências que duraram a vida toda. Elida Tessler, entre 1989-93, fazendo seu doutorado de história da arte. Eduardo Vieira da Cunha fez o seu doutorado em fotografia em 1997. Saint-Clair Cemin estudou na École Nationale Superieure des Beaux-Arts. Estudaram na França, habitaram na França, foram premiados na França, ou tiveram um importante marco na sua vida profissional artistas como Maria Bonomi, Israel Pedrosa, Milton Dacosta, Celso Antonio, João Carlos Galvão, José Alberto Nemer, Ivan Marquetti, Alberto da Veiga Guignard, Lóio-Pérsio, Clóvis Graciano, Mário Gruber, Maria Leontina, Gonçalo Ivo, entre centenas de outros. |
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Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Floriano Martins (Brasil). |
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