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revista
de cultura # 47 |
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Lisette Lagnado & a Bienal de S. Paulo Alberto Beutenmüller
Nascida no Congo há 44 anos atrás, Lisette Lagnado tem o Francês como primeira língua e está no Brasil desde 1974. Várias tentativas de eliminar a representação dos países na Bienal de São Paulo foram feitas: a primeira foi em 1977, quando o Conselho de Arte e Cultura, era o curador geral. O curador executivo do CAC de 1977, o crítico Alberto Beuttenmüller, que fez a montagem da 14ª Bienal, além do texto de catálogo e dos contatos internacionais, por coincidência, foi o entrevistador da nova curadora. [AB] AB - Você disse que a 27ª edição da Bienal de São Paulo não terá mais representações nacionais. Por quê? O Itamaraty está de acordo? Sabemos que os convites aos países para participarem da Bienal é feito pelo Itamaraty. Vários curadores já tentaram sem sucesso eliminar as representações nacionais. Você conseguirá?
LL - A 27ª edição da Bienal de São Paulo não terá representações nacionais pois esse sistema fazia sentido na época das exposições universais ou então quando o Brasil não tinha autonomia para pensar uma mostra internacional sem olhar para sua matriz, Veneza. Ora, nós temos a vantagem de uma arquitetura sem pavilhões, o que já é uma justificativa espacial de saída. Por outro lado, temos cada vez mais artistas libaneses na representação inglesa, albaneses na representação francesa e assim por diante. Haja visto a Bienal de Whitney que já entende que um brasileiro residente lá possa participar da Bienal mais "nacionalista" da face da terra. Um terceiro dado é a coerência de um projeto curatorial, que não pode se submeter a envios que obedecem critérios "estranhos" (ora para fazer uma justiça local, ora para projetar um nome no mercado). Na última Bienal de São Paulo, a proporção entre os artistas convidados por Alfons Hug e os de Representações nacionais era quase equivalente. Quase. Mas ainda havia uma disparidade financeira que fazia com que o artista francês da Representação nacional pudesse ter uma sala gigante e caríssima com sete projeções simultâneas e o francês convidado por Hug fosse tratado dentro de uma situação precária. O visitante percebe esta disparidade, e o leigo não compreende. Simplesmente se seduz pela beleza de uma sala bem montada (com cifrões) e julga mal aquele que tenta se erguer nessa mega-estrutura com suas próprias forças. Se vou conseguir? Acho que sim. Por quê? Porque o trabalho de diplomacia é feito por mim e é feito com a garra de quem ama a arte, compreende seus embates e luta pela sua melhor visibilidade.
AB - Eliminadas as representações nacionais, a Bienal terá de convidar os artistas e arcar com os custos desse convite – cerca de US$3 milhões – a Bienal já dispõe desse valor? LL - Esta pergunta deve ser feita ao Presidente da Fundação Bienal. Que eu saiba, a 27a Bienal ainda não foi orçada pois dependerá das escolhas curatoriais. Dr. Manoel tem sido extremamente receptivo, ouvindo de minha parte o que seria o "ideal", enquanto, em contrapartida, tenho me adequado às restrições orçamentárias. Mas a aventura apenas começou. O ano que vem é um ano de eleições e a situação político-econômica é das mais alarmantes...
LL - Não tenho receio de fazer uma má Bienal por falta de aporte financeiro. Minha equipe e eu faremos uma Bienal de 1 milhão, de 2 milhões ou de 10 milhões. Claro que preferimos fazer a Bienal de 10 milhões, mas garantimos a qualidade das obras, independente do dinheiro que entrará. Ao invés de trazer obras espetaculares, teremos obras talvez mais delicadas ou "invisíveis". Menos obras? Tudo bem. Assim, a visita à Bienal ganha uma escala humana. O problema do espetacular se coloca por causa da escala do Pavilhão de Niemeyer. Mas isso não quer dizer que obras de pequeno porte não possam ser primorosas... AB - Explique o Bloco sem Fronteiras. LL - Ah, explicar o "Bloco sem fronteiras" (título que ainda é provisório pois foi cunhado no calor da preparação de um anteprojeto em um mês) é um tratado que está, inicialmente, com cerca de 30 laudas, não faça isto comigo! Só quero te passar uma síntese. Escolhi a palavra bloco porque traz 3 acepções que interessam à mostra: bloco é tijolo, portanto "construção"; bloco é bloco de rua, portantO "coletivo/ grupo/ comunidade"; bloco é "bloco do leste", "bloco europeu" etc., portanto tem um cunho "político". E "sem fronteiras" porque não trabalho com países, nacionalidades nem categorias estéticas. AB - Ao que parece já há dois artistas convidados para a 27ª edição: o belga Marcel Broodthaers (1924-1976) e o norte-americano Gordon Matta-Clark (1943-1978), quem pagará a vinda desses dois excelentes artistas?
AB - O modelo Bienal se tornou muito mais um show do que uma reflexão sobre os caminhos da Arte. Este modelo será questionado na 27ª Bienal de São Paulo? LL - O questionamento do modelo "grandes mostras de arte" não precisa ser uma plataforma em si. É só ver como estou propondo trabalhar (com menos artistas e obras significativas de cada um; sem representações nacionais; com seminários, residências e filmes na Cinemateca, em paralelo à Bienal, fazendo parcerias ainda com Museus, quando for necessário mostrar obras históricas que iluminem o conteúdo da Bienal) para você perceber que este é um outro formato de se pensar uma Bienal que antes durava dois meses e hoje começa em janeiro de 2006 e vai até dezembro daquele ano. Este sempre correspondeu ao meu desejo. Sem contar a Área educativa que voltará a ter sua dignidade. Mas isto eu recomendo que vocês façam uma entrevista à parte com Denise Grinspum. |
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Alberto Beuttenmüller (Brasil, 1935). Poeta, crítico de arte e ensaísta. Autor de livros como Katatruz (poesia), Volpi, Ianelli e Aldir - Três coloristas e Viagem pela Arte Brasileira. Atualmente, é editor do Jornal da ABCA, Associação Brasileira de Críticos de Arte. Contato: fredmuller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Floriano Martins (Brasil). |
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