![]() |
|
revista
de cultura # 47 |
livros da agulha
Ler poesia contemporânea é, na maioria das vezes, ler o vazio, quando todo ato de leitura pressupõe uma transcendência do texto rumo a algo que está além, neste espaço nublado do sentido. A grande poesia é sempre uma aventura de ultrapassagem, que nos coloca em contato com as incontroláveis forças humanas. A poesia em voga hoje está, no entanto, presa ao umbigo da própria palavra, como se ela não comunicasse a experiência de um sujeito e de toda a humanidade. Se não apontar para o humano, o poema passará a fazer parte de um mundo de objetos e terá tanta importância quanto uma coleção de parafusos. Sabemos que o parafuso é um elemento essencial da mecânica, mas ele sozinho não tem a menor razão de ser. Ele só existe como parte de um maquinismo. Na companhia de seus pares, funciona como peça do colecionismo. Boa parte do que se publica como poema é uma coleção de parafusos por não considerar o homem, ficando no nível mais objetual da linguagem. Abrindo sua nova coletânea com um texto que fala do descompasso entre os poemas vividos na alma e os que foram escritos, Ruy Espinheira Filho (Elegia de agosto: Bertrand Brasil, 2005) marca a natureza de uma poesia que não se quer como conquista material num mundo de coisas. O poeta baiano localiza o poético neste lugar vago que é alma, espaço em que o tempo foi suspenso, possibilitando experiências mais plenas. A alma e o sonho são a pátria primeira da poesia, sendo o poeta um tradutor desta dimensão para a outra – secundária, a da palavra. Ruy Espinheira é um autor na contra-mão da tendência materialista por produzir uma poesia universal, que remete o leitor a uma pantemporalidade. Nesta sua pátria alargada, o ontem fulgura como agora. Ele não nega o passado (tal como a tradição modernista e suas derivações contemporâneas) e nem o toma como único tempo de grandeza (à maneira dos tradicionalistas), por entender todos os tempos dentro de um continuum. Se a realidade material muda, o homem permanece uno – Elegia de agosto vai reafirmar esta transcendência em um conjunto primoroso de poemas. O que é o poema para este autor? É principalmente uma iluminação, uma epifania, uma abertura da temporalidade por meio da palavra, um túnel que interliga tempos. Logo, o poeta não recupera todo um tempo marcante, e sim uma fração simbólica, portadora de sentidos metonímicos. Em “Soneto dos incomparáveis joelhos”, ele não se recorda da mulher, mas de certos joelhos impessoais, que não saem de sua memória há 30 anos. Estes joelhos continuam “ardendo – sem lugar nem tempo – em mim” (p.49). E voltamos à idéia de que a poesia é freqüentar este espaço de alma e sonho, fora das contingências históricas. A crença na memória substitui o realismo das coisas tal como elas são. Além desta natureza palpável, do corpo que tocamos, há uma dimensão interna. A memória torna-se a ferramenta poética por excelência, capaz de colocar em ação, no tempo presente, o que já não existe fora destas experiências diáfanas de recordação. A poesia, vista assim, é um legado de outros ontens que o poeta deixa aos seus – tal como Ruy escreve em “Herança” –, impalpável mas extremamente denso de significação. Em “Insônia”, verdadeira obra-prima da poesia brasileira, o poeta (e não esta figura de linguagem, o eu lírico) olha as telhas de barro (está em uma casa sem forro) enquanto tenta em vão dormir. Surge-lhe então uma frase que ele não sabe o que significa: “o silêncio sonha nas telhas”. Eis um verso forte, carregado de conotações. As telhas de barro são o futuro pó de todo homem, nelas o que era humano virou apenas silêncio, mas mesmo este silêncio sonha e, portanto, está além de seu estado de descanso. O silêncio das telhas revela ao poeta a sua natureza frágil e perene, de ser destinado à falência e programado para o sempre mesmo depois do fim de tudo. Até as coisas sonham. Sonhar é nossa revolta contra a matéria. Daí a idéia de que todo o ser é um processo de permanente acumular-se: “guardo / como vêem / memórias / que o tempo faz cada vez mais fundas” (p71). Esta é a grande marca de Ruy Espinheira, cuja poesia nasce no território da memória, maior do que qualquer outro que o homem possa conquistar. Como fica sugerido em outro texto (“Biografia”), escrever é recusar a superfície das coisas em busca das “ficções profundas” do ser humano, onde mora a verdade imorredoura. A fonte da poesia é a recordação, em cujas águas imóveis o poeta constantemente se banha. Em alguns poemas, a memória vai ser representada pela água parada (“Açude” e “Moringa”), em oposição ao rio corrente do tempo histórico e corporal. Em “Soneto a dez dias de completar 60 anos”, Ruy define o homem nesta idade como “lago obscuro, um vago vinho / em que marulha a voz de outras idades” (p.118). Vozes de outra cidade, a cidade da memória e dos mortos, de onde jamais saímos – eis o endereço do poeta, principalmente no conjunto de poemas chamado “A cidade e os sonhos”. Animal recordativo, o homem existe porque existe como memória. Em todos os textos de Ruy, uns mais outros menos, há este coração pretérito e pulsante da poesia. Escrever não é um artesanato, um trabalho de marchetaria com palavras, mas uma coabitação de tempos, convívio entre seres (instantes) mortos e vivos. A escrita causa sofrimento, pois coloca o poeta nesta outra cidade, apesar da aparente tranqüilidade de seu verbo crepuscular: ...escrevo estas palavras que parecem fáceis e indiferentes mas são difíceis e dolorosas (p.137) A dificuldade não está na linguagem, mas nas experiências que a precedem, quando o poeta se comunica com o tempo perdido. Isso explica a opção por uma poesia rigorosa na sua espontaneidade lírica, que não chama a atenção para o estilo. O estilo é obtido por meio de uma situação de purificação anterior, extra-estética, quando o poeta participa do território da alma/sonho, para dele extrair uma mensagem límpida, que nos é transmitida em uma forma tranqüila, sem crispações pânicas. [Miguel Sanches Neto]
Pensar o Brasil, Portugal e a África de expressão portuguesa — essa é a preocupação que marca “Das mãos do oleiro: aproximações”, novo livro de Alberto da Costa e Silva, 74 anos, ex-embaixador brasileiro em Lisboa, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e notável africanista que já nos deu “A enxada e a lança: a África antes dos portugueses”, “A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700”, “Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África” e “Francisco Félix de Souza, mercador de escravos”, todos publicados pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro. Embora o autor tenha incluído um texto de 1970 e outro de 1974, a maioria dos 19 ensaios e prefácios reunidos em “Das mãos do oleiro” foi escrita entre 1999 e 2004, o que forçosamente nos leva a concluir que constitui uma forma de balanço de uma vida dedicada a construir pontes de entendimento entre o Brasil e o mundo. Costa e Silva, que viveu em Portugal (por duas vezes), na Venezuela, nos Estados Unidos, na Espanha, na Itália, na Nigéria, na Colômbia e no Paraguai e viajou extensamente pela África, parece que, na iminência da aposentadoria forçada pelo regulamento, sentiu-se na necessidade de colocar no papel as conclusões que tirou de meio século no ofício. Engana-se, porém, quem imagina que vai encontrar aqui textos semelhantes aos relatórios burocráticos que abarrotam os arquivos do Itamaraty, embora a Casa sempre tenha abrigado grandes cultores da língua, de romancistas a poetas e ensaístas como se pode constatar no texto “Diplomacia e cultura”, de 2001, que faz parte de “Das mãos do oleiro”. Até mesmo num texto que leva todo o jeito de um relatório preparado para atender à solicitação de superiores, “Da Guerra da Tríplice Aliança ao Mercosul: as relações entre o Brasil e o Paraguai”, de 1995, aquando de seu último posto diplomático no exterior, em Assunção, Costa e Silva não deixa de ser poeta nem de colocar em prática um propósito que sempre norteou a sua atividade literária: “a prosa, ainda que de modo distinto, não deve ser menos musical do que o verso”. É por isso que nestes textos ressoa a mesma poesia fina que deixou em “Poemas Reunidos” e em seu livro de memórias da infância, “Espelho do príncipe”. Em “Notas de um companheiro de viagem”, de 1999, recorda de seus tempos de assessor do embaixador Francisco Negrão de Lima em Lisboa, entre 1960 e 1963, quando tinha a incumbência de acompanhar escritores e políticos brasileiros que iam visitar o chefe de governo, o professor António de Oliveira Salazar. “Só dois ou três não vi saírem deslumbrados de São Bento”, recorda, lembrando que ele, como diplomata ainda em começo de carreira, nunca passava da ante-sala. “Fossem o que se chamava de homem de esquerda, de centro ou de direita, deles, na saída e no carro, só escutava, perplexo, palavras de admiração”, diz. Negrão de Lima, diz Costa e Silva, reconhecia em Salazar não só uma inteligência fora do comum, “mas também as limitações provincianas e a escassez de sonho”, de “quem se contentava com um país pobre e queria a sua gente pequenina”. Dizia Negrão de Lima que o esperto Salazar conquistava o visitante, deputado ou professor, pela vaidade; “falava deles — lera sobre cada qual um dossiê previamente preparado —; pedia suas opiniões; fazia-os sentirem-se importantes”. É um testemunho que confirma outro que li já não sei onde que dizia que Salazar gostava de quebrar a barreira de opositores, especialmente homens de letras, açulando-lhes a vaidade com a oferta de alguma medalha ou honraria. Já a outros mandava mesmo quebrar-lhes a espinha com pancadas e noites nas prisões ou colocava-lhes a famigerada Pide no encalço. Costa e Silva recorda também o relacionamento fraterno que Salazar desenvolveu com o antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, que tantos enjôos causou entre democratas e esquerdistas brasileiros. Como se sabe, no começo dos anos 50, Freyre recebeu do governo português uma estada de meses na metrópole e nas possessões africanas e asiáticas, quando teve, então, a oportunidade de desenvolver suas idéias sobre as virtudes da miscigenação, embora na África as autoridades coloniais não o tenham deixado demorar o olhar sobre o que mais podia interessá-lo, empanturrando-o com almoços de homenagem e criançada com bandeirolas. Costa e Silva conclui que ainda bem que Gilberto Freyre aceitou o convite, pois “a indignação, a zanga, os arrufos e os calundus dos seus amigos anti-salazaristas perderam-se no passado”, tendo ficado o livro “Aventura e rotina” em que o antropólogo recolheu suas impressões da viagem “ao mundo que o português criou”. Aparentemente, não fora a política que levara Gilberto Freyre a aceitar o convite, pois o mando sempre foi circunstancial, mas a oportunidade rara de ver com os próprios olhos a confirmação de muitas de suas idéias e teses sobre “as mestiçagens entre os grupos humanos e as trocas, somas e mesclas de culturas que se processavam nas regiões visitadas”, como diz o autor. Provavelmente, fosse, em vez de Salazar, um ditador de esquerda que mandasse em Portugal, Freyre teria aceitado o convite da mesma maneira. Já em “Brasil, Portugal e África”, de 2000, o autor discute as divergências e mal-entendidos que complicam o diálogo entre os que falam o português e que, até agora, fizeram com que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) não tenha se firmado como organismo de importância internacional. Aliás, em “A propósito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa”, de 2001, Costa e Silva, depois de observar que, com a CPLP, não se aspira a recosturar o antigo império, defende que os dois parceiros incomparavelmente mais prósperos, Brasil e Portugal, deveriam assumir mais as responsabilidades que têm em relação a angolanos, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, são-tomenses e timorenses. Nestes textos, o leitor vai encontrar ainda não só um panorama de como atuavam os diplomatas do Império e da Primeira República como um retrospecto das muitas artimanhas que escravos e afrodescendentes utilizavam para dissimular nas festas populares as homenagens que faziam aos reis africanos ou mesmo um inventário de como os brasileiros se viram a si próprios e a seu país ao longo do século XX. Enfim, o leitor jamais sairá deste livro do mesmo jeito que entrou porque, afinal, estes textos de Costa e Silva têm o dom de suscitar a nossa imaginação, instigando-nos a pensar sobre o passado e o futuro das relações entre aqueles que nasceram em função da presença portuguesa no mundo. [Adelto Gonçalves]
Filhos de portugueses no Brasil sempre sonham conhecer a terra onde os pais nasceram. E, quando a conhecem, é como se sempre a tivessem conhecido, pois reconhecem como suas as vozes dos ancestrais, os gestos repetidos, o som de uma palavra esquecida na memória que, de repente, ganha vida. Se esse filho de português é, ainda por cima, poeta, é claro que esse reencontro com as raízes ganha outra dimensão telúrica. Pois é o que se vê nos poemas que formam Sete Anos de Pastor, último livro do poeta, crítico e ficcionista brasileiro Álvaro Alves de Faria, que acaba de sair em Portugal pela Palimage Editores, de Coimbra. De raiz entranhada na terra coimbrã, sua poesia faz do reencontro com o Mondego, as igrejas, a torre e o sino da Universidade e o choupal uma festa a ser celebrada. Para coroar essa festa, o poeta participou em maio do lançamento do livro no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, seguindo depois para Idanha-a-Nova, terra que comemora ao seus 800 anos, e fez lá a leitura destes poemas, ao lado de Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Ana Luíza Amaral Nascido em São Paulo, Álvaro Alves de Faria, 63 anos, é um dos nomes mais representativos da geração que se formou nos anos 60 na poesia do Brasil. Foi, de certo modo, ao lado de Mario Chamie, uma das vítimas da velha vanguarda do movimento concretista que, dogmático, considerou ultrapassado tudo o que não seguisse o seu esquema compositivo. Como disse o próprio Chamie no ensaio “Práxis: a vanguarda nova e a nova poesia brasileira”, que consta do tomo II de Escolas Literárias no Brasil, organizado por Ivan Junqueira (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2005), os poetas paulistas dos anos 60 que não se afinavam com o Concretismo acabaram por ficar “exatamente entre a ortodoxia concretista e o sistema totalitário da ditadura militar”, tal a visibilidade que os três corifeus concretistas (Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari) ganharam na imprensa e na universidade. Vítimas da ortodoxia concretista também foram os poetas Claudio Willer e Roberto Piva que, influenciados pelo Surrealismo, faziam uma poesia mais afinada com a beat generation americana. Hoje, felizmente, a importância tanto de uns como de outros acabou por conformar-se às devidas proporções. Nada como o tempo para relativizar as coisas. Talvez porque não ofendessem o status quo defendido pela ditadura, os corifeus do Concretismo nunca incomodaram as autoridades. Já um poeta franco-atirador como Faria, que sempre correu em faixa própria, distante de movimentos poéticos organizados, foi detido cinco vezes pela polícia do regime militar porque insistia em cometer atos considerados altamente subversivos, como declamar poemas em pleno Viaduto do Chá, no centro nervoso de São Paulo. Autor de romances, ensaios, peças de teatro e livros de crônicas e entrevistas, Faria é, acima de tudo, poeta, pois assim é conhecido e apresentado na Rádio Jovem Pan, de São Paulo, onde, depois das seis horas da tarde, costuma ler seus poemas e crônicas que refletem a dureza da vida numa metrópole insensível. Começou com Noturno maior, de 1963, e até este Sete Anos de Pastor, de 2005, foram mais 18 livros de poemas, incluindo Trajetória poética (2003) em que reuniu a poesia de toda uma vida, com apresentação do poeta Carlos Nejar, da Academia Brasileira de Letras, e posfácio de Cláudio Willer, além de uma fortuna crítica. Desses poemas reunidos, destacam-se sobremaneira aqueles dedicados às mulheres da noite de São Paulo, as prostitutas do centro da cidade que o poeta fez questão de conhecer pessoalmente, penetrando nos seus dramas, antes de passá-los para o papel. Bastam estes versos de “A rotina” como exemplo: Perfumes narinas ofegantes/ a noite se estende nestas ruas, / portas de fechaduras antigas, / escadas degraus para o nada. / A cama/ aflita cama vitrola do lado, / disco de outros tangos, / amores tardios, / a paixão de todas as mortes, / o corpo branco/ os pêlos amassados/ o sexo se abre / no meio das pernas, / gritos por dentro, / o gemido do avesso, / sem gozo / sem gosto / sem nome / sem organdi, a meia de náilon preta / da Mesbla, / manequim invisível / que caminha pela São João / com sapatos ausentes / até o ponto no Largo do Arouche / em frente à floricultura. Versos como estes que fazem parte de Lindas mulheres mortas (1990) mostram bem a maneira pessoal e criativa do poeta de fazer passar o material biográfico por um processo que transforma o banal em poesia. Vê-se logo que o poeta pesquisou, saiu a campo, para sentir o drama alheio. Poeta eminentemente paulista, que deixou rastros da metrópole em que sempre viveu ao longo de todo o seu itinerário poético, Faria voltou-se, nos últimos tempos, não como António Nobre, que buscou na infância um passado mítico, mas foi mais além, em busca de suas raízes, ao passado de seus ancestrais portugueses:
Minha alma se deixou em
Portugal Por isso, nos últimos tempos, Faria tem tratado de levar a sua voz a Portugal. Começou com 20 poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra, de 1999, título de inspiração nerudiana, que fez a ensaísta portuguesa Graça Capinha considerá-lo “uma obra de renascimento: de um renascimento da presença de Coimbra na poesia — agora através de um novo olhar, um olhar simultaneamente íntimo e estrangeiro sobre esta cidade”, pois o leitor encontra em seus versos “uma imagem de Portugal numa memória da memória (a de seu pai), uma imaginação de uma imaginação, uma narrativa de uma narrativa”. Pertence a este livro este poema sem título:
Entro pela Porta Férrea De 2002 é o livro Poemas Portugueses, que, editado pela Editora Alma Azul, de Coimbra, traz esta homenagem à cidade do Mondego:
(...) Por estas ruas Em Sete Anos de Pastor, já não é Coimbra que ocupa o estro do poeta, mas os temas continuam ligados a Portugal, desde a saga dos Descobrimentos até o mito de Inês de Castro, cuja influência está bem entranhada na produção poética brasileira do século XX, como acaba de mostrar da professora Regina Chaudhry em monografia que escreveu no âmbito de seus estudos de doutoramento na City University of New York, sob a orientação do professor René Garay, ainda inédita. Pena que talvez estes versos (dois sonetos e dezesseis “poemas para a rainha”) de Faria não lhe tenham chegado a tempo de ser incluídos em seu engenhoso trabalho. Diz o poeta num dos dois sonetos que dedicou àquela que foi rainha depois de morta:
(...) Não me venhas Inês
em teu soluço
Não venhas mais Inês que
já é tarde Também aqui há uma busca das raízes na medida em que a história de Inês de Castro constitui um dos mitos fundadores da nacionalidade portuguesa, explorado por um número incontável de poetas. Que a história do amor de um homem (no caso um rei) por uma mulher tenha conquistado um fino poeta como Álvaro Alves de Faria é uma prova da força desse mito que transcendeu Portugal e penetrou também no mundo que o português criou. [Adelto Gonçalves]
António de Macedo é um homem do cinema, realizador de "A Promessa", entre muitas mais longas e curtas metragens. Não espanta, assim, que "As furtivas pegadas da serpente" sejam o romance da rodagem de um filme. Mais inusual será a temática do filme: uma história de S. Frei Gil de Santarém, personagem acerca da qual está em linha um trabalho meu, no qual chamo a atenção para a existência de uma literatura egidiana, que infelizmente ignora o romance de António de Macedo. De facto, a literatura acerca deste pretenso santo, um dos primeiros grão-mestres da Ordem dos Dominicanos, é imensa, e abarca uma quantidade de áreas: ensaio científico, histórico, literário, teatro, poesia, romance, etc.. E porque fui apanhada por esta enxurrada de livros a meio de um trabalho que julgava fácil e rotineiro, propus aos meus colegas habituais de trabalho, e António de Macedo é um deles, que um dos temas do VI Colóquio Internacional "Discursos e Práticas Alquímicas" fosse a Literatura Egidiana. É preciso ficarmos com uma noção correcta do volume de obras que tratam de S. Frei Gil, o homem que assinou um contrato com o Diabo. António de Macedo escreve um duplo, isto é, o seu romance é constituído por 16 cenas que, alternadamente, apresentam uma equipa de filmagens que se debate com vários obstáculos para acabar a rodagem de um filme; e as cenas do próprio filme. O dois, devo ter aprendido algures, talvez com os naturalistas, é o número do Diabo. Portanto, o duplo também é diabólico, seja ele uma simples imagem nossa no espelho, seja a pessoa que executa as cenas arriscadas de um filme, em vez do actor. O duplo é um burlador. Ao ser dois, rompe com a unidade divina, por isso aponta o Demónio. Ou a Mulher, mas a diferença, no caso, é nenhuma... Este duplo, tão alternado como as casas brancas e pretas de um tabuleiro de xadrez, repete-se, de forma mais ostensiva, nas cores emblemáticas dos puros, por oposição aos demoníacos. E assim, temos o ponto de vista do realizador do filme, ou do alquimístico António de Macedo, sobre a personagem de Gil. Os milagres creio que nem são tocados, o que remete logo para um cepticismo muito radical nas coisas da Igreja Católica Apostólica e Romana; os Dominicanos, sobre os quais recai o maior peso da responsabilidade pelos horrores da Inquisição (o extracto escolhido do romance, a cena 10, é disso que trata - do modo como os corpos reagiam aos diversos processos e às diversas máquinas de torturar), vestem de negro, quando o seu hábito também comporta o branco, querendo isto dizer que os maus da fita são eles, exactamente como nos filmes de cowboys essas duas cores identificam, esquematicamente, o herói bom e o vilão. No romance, vivos e mortos coabitam, não porque os elementos da equipa de rodagem do filme se possa conceber que estão vivos, por oposição às personagens medievais, que estão mortas, mas porque Idouane de Montalban, a amada de Gil Rodrigues, no filme, contracena com ele e com outros, tendo morrido na fogueira, acusada de heresia. Ela era cátara, uma pura, daí que o seu emblema sejam os lírios. Noutras versões da história, Gil Rodrigues estava apaixonado por Teresa de Castela, uma rainha divorciada, que entrara, em Toledo, para um convento de beguinas. A convivência de vivos e mortos no mesmo plano narrativo e a convicção do realizador de que Gil não se converteu, sendo um opositor dos métodos dos dominicanos e um simpatizante do catarismo, são os principais desvios da obra de António de Macedo em relação às versões que conheço da biografia de Frei Gil. Uma nota a deixar aqui, inevitável, é a de que só temos um filme de papel, dentro de um romance, porque certamente os tempos não estão de molde a facilitar a António de Macedo a realização do filme, que não seria o correspondente ao guião interno do livro, pois este é algo burlesco, algo satírico. Mas é uma pena que um tema tão apaixonante para tanta gente, no curso de ai uns nove séculos, e não só em Portugal, não possa de facto concretizar-se numa obra de cinema. [Maria Estela Guedes]
De certa forma fugidio de si mesmo, Antonio Naud Júnior, no seu último livro, Se um Viajante numa Espanha de Lorca, feito um intrépido cigano viajoso – também nos relatos de inúmeras pensagens – compilou crônicas, fábulas, relatos, narrativas, delírios, costumes e inquietudes, tudo acontecências dessa bela espécie de gracioso e oportuno “caderno de viagens”. Escrevendo muito bem, o autor nômade traça paralelos de contemplações, procurando em tantos lugares, por mais exóticos e históricos que sejam, o seu próprio lugar de Ser; alma nau registrando itinerários, descaminhos, vigílias, buscas e labirintos (íntimos), ainda assim revelando territórios e o demarcando de algum forma, ensejando o mapa de sua existência frutífera no mundo errante, com seus recolhes de imagens, ponderações e palavras caprichadas. O livro todo é nesse contextual. Já autor de tantas outras obras – (Livro de Imagens, Um Sentido para a Vida, Arte-Palavra, Caprichos, Ficar por aqui sem ser ouvido por ninguém, Retratos em Preto e Branco e o Aprendiz do Amor) – Antonio Naud Júnior mostra seu diletantismo de viver intensamente doa a quem doer (e se movendo com certa ressaca de uma paixão que deixou marcas ainda vivíveis), sempre projetando arredondar estigmas e acertar parafusos soltos muito além do reino do sonho, e, para sorte de seu leitor, registra tudo sem se esconder, vai fundo sem sextante de si mesmo, expondo lamentos e algumas vezes os estados numinosos de múltiplas contemplações. Anseios, perdas, amores que podem dizer o nome, expectativas, fronteiras, frustrações, dezelos íntimos, e, claro, a arquitetura de paisagens nas suas contações em gracezas de detalhes e óticas puristas que fisgam o leitor pelo enfoque de peregrino em caminho de si mesmo, pergaminho e cinzel, busca e buscador, estrada e caminhação. Amante de Federico García Lorca – ele mesmo certamente um pouco Lorca também – e fã de Jean Genet, Henry Miller, Virginia Woolf, Lucio Cardoso e tantos outros, Antonio Júnior vai descrevendo – revelações em sépia como um excelente fotógrafo que é – o que seu mavioso latino olhar nostálgico capta no estreito de Gibraltar e seu entorno, desnudando-se também, ao invadir espaços e paredes, memórias e registros delas, momentos e contemplações, sob a ótica de seu filtro espiritualizador, pondo a alma para respirar nessas caminhações mundo afora, Ser adentro, entradas e bandeiras. Às vezes domina tão bem o seu transbordante cálice de vinho-verbo (denota isso de maneira tácita), que você caminha lado a lado com ele pelas paisagens invocadas, e capta as reflexões-vazantes de suas ponderações contra moinhos e ventos de errâncias e iluminuras. A mão do parágrafo, a página de rosto, a edição-Ser contando prumos e fungos. Bonitezas. Ele filosofa com sentido energético, opina com acidez, vergando a alma, lavra-se (lava-se assim?) pensando estágios do devir e assim vai se dando, livro aberto ao leitor que cativa pelas narrações bem costuradas, pondo mesmo imagens na cabeça da gente a viajar com ele, fixando sua vivência andarilha assim no seio de nosotros. Incorrigível? Sedentário também. Em cada porto uma saudade, resgata uma oxigenação de seixos íntimos, perde lastros, na insustentável leveza de se ser. Registros. Querelas interiores. É quase uma viagem em torno de si mesmo, pois, pra onde fugir (…) sempre estará ali, seu lugar de si, self: se levará consigo. O amor tem loucuras que a própria lucidez desconhece? É por aí esse mergulho mochileiro numa estrada que vai dar no Ser. Quase um resgate. Fala de Kant, do Marrocos, da Espanha que adora. Diz de pecados, desmistifica rumos, aponta paraísos e paradoxos, sagracial e interrogativo leva uma cisma ainda não identificada, aqui e ali diz de músicas, sombras, barbáries, abismos, e, claro, prova que realmente a grande aventura (cósmica, inclusive) começa dentro de nós mesmos. Busca um porto seguro ultramarino, depois de deixar sua Bahia de Todos os Santos. Ou prefere o atol das doces memórias como cantou Ray Charles? Interrogações. Ilumina o diafragma do olhar, dá um clique na alma, feito um noiteadeiro em terra estranha, procurando seu lagar de afetos escondidos, ou, talvez, o medo de amar número dois. Nesse bolero-blues salpica de estrelas o chão-lugar de seu estar. Um Lorca pós-moderno esse Antonio Naud Júnior? Delicioso o livro. Vale a pena ler. Há um estado onírico (realidade substituta?) inventariando a vida, certamente o inverso do caminho de Santiago nele. Honra e fé revisitadas. Autenticidade visceral, Carpe diem. É isso. Todos nós temos nossos outonos entrevados. Anjos presos em fio de alta tensão. Cárceres de tentativas? Escrevendo, aliviando-se, o autor dá nos seu testemunho de resistência de alguma maneira, por alguma loucura-razão. Arte e libertação no enfavamento tresloucadas de idéias mirabolantes? Leia o livro. Leia essa alma narrando as lágrimas de San Lorenzo, os seus parágrafos sendo as suas lágrimas também, respirando choro. Longe de casa, toureiro de situações, dá-nos suas livrações enlivradas assim. Puro deleite. Seja você também esse viajante com ele, na Espanha de Lorca e Naud. Você lê música e fotos nas palavras dele. Filmes com narcisos, mais a policromia imagética de jacintos azuis. Não é qualquer um que escreve gardênias quando chora. [Silas Corrêa Leite]
Pese a que abunda la bibliografía sobre los movimientos históricos de vanguardia en la literatura latinoamericana, los estudios sobre las literaturas nacionales son escasos y poco conocidos internacionalmente. El escritor, poeta y crítico literario Carlos Francisco Monge analiza en este nuevo libro la presencia y el desarrollo del vanguardismo literario en Costa Rica, sobre el que la crítica de ese país y del exterior nunca se ha ocupado. El libro se detiene en tres aspectos esenciales: en primer lugar, un análisis histórico panorámico de los orígenes y consecuencias del vanguardismo artístico y literario en Costa Rica, que los compara con los de fenómenos similares en la región centroamericana (en particular, con el de Nicaragua); en segundo lugar, se examinan las polémicas, manifiestos y artículos que aparecieron en periódicos y revistas costarricenses sobre aquel arte moderno, trasgresor y apartado de la tradición artística; y en tercer lugar, hay un minucioso estudio formal, estilístico y de contenidos del discurso lírico, uno de los géneros más representativos de aquellos movimientos. El ensayo resulta un novedoso referente para los estudios de crítica literaria latinoamericana. Su autor señala algunos grandes vacíos de los trabajos sobre los vanguardismos literarios, especialmente los que pasan por alto dos aspectos centrales: uno de ellos, la ausencia de estudios integrales e integradores, que relacionen los desarrollos particulares de las literaturas nacionales con los movimientos literarios europeos y latinoamericanos; el otro, la necesidad de superar tópicos o prejuicios sobre el desarrollo de la literatura de un país en particular. A contrapelo de la práctica totalidad de la crítica, Monge demuestra que en Costa Rica hubo un desarrollo tan normal como en cualquier otro contexto, de unos movimientos artísticos de vanguardias, en las artes visuales y en las letras. Señala, a modo de ejemplo, que fue en una revista literaria costarricense donde apareció en 1909 uno de los primeros artículos sobre los vanguardismos literarios, referido al futurismo de Marinetti (de lo cual hasta hoy día no existe indicación alguna en la crítica hispanoamericana). En el ensayo su autor procura llevar adelante un estudio de las relaciones entre el discurso vanguardismo como opción estética y el entorno social, ideológico y político, fuentes complementarias de unos movimientos de trasgresión y ruptura con la tradición: la estética y la ideológica.
O poeta mexicano Carlos Pellicer (1897-1977) era considerado por Octavio Paz o “mais rico e vasto dos poetas de sua geração”. Em 1922, aos 25 anos, veio ao Brasil como secretário particular de José Vasconcelos – filósofo, ensaísta e um dos intelectuais mais respeitados do México. Nessa viagem, Carlos Pellicer encantou-se pelo nosso país e traduziu essa paixão numa série de poemas publicados em 1924, sob o título Suite brasilera, no livro Piedra de sacrifícios. O Corcovado, Olinda, a rua do Ouvidor, o Rio de Janeiro, nossas praias e palmeiras emprestaram aos poemas de Carlos Pellicer o “sabor de mar” que o fez percorrer nosso continente como se fora sua única pátria. Desse seu vôo, de sua nave aérea, escreveu José Vasconcelos, o poeta viu sua América e a esquadrinhou com a planta do pé que descobre todos os segredos da terra e a mente que contempla a história”. Aqui, Carlos Pellicer conheceu o poeta brasileiro Ronald de Carvalho, um dos teóricos mais importantes do modernismo, que, como ele, tentava ultrapassar as fronteiras de seu país para buscar, no plano continental, a alternativa para uma arte capaz de fixar nosso “tumulto em gestação”. Quando editou Toda a América, em 1926, Ronald de Carvalho dedicou ao amigo parte de seu livro Jornal dos planaltos. No poema “Esto soy”, Carlos Pellicer definiu-se como tendo nascido de olmecas, maias, e de gente espanhola das montanhas e do mar. Por isso as coisas sabiam mais dele, do que ele delas. Marcado pela herança indígena de seu país e profundamente cristão, confessou ter chegado à divina oficina de Jesus Cristo “pela ponte de Quetzacóatl”, a Serpente Emplumada, divindade dos antigos mexicanos. Todos os anos, de 1946 a 1976, na época de Natal, montava seu presépio, que nos lembra as lapinhas do Nordeste brasileiro. Também escrevia um poema natalino. O conjunto desses poemas resultou no livro Cosillas para el Nacimiento. Intelectual ativo, vinculado aos movimentos transformadores de seu país, Carlos Pellicer fundou, em 1921, juntamente com Vicente Lombardo Toledano, Diego Rivera e José Clemente Orozco, o Grupo Solidario del Movimiento Obrero, núcleo de intelectuais, escritores e artistas em torno do qual brotou, entre outras iniciativas, a pintura muralista mexicana, mundialmente conhecida. Foi colaborador das revistas Falange (1922-23), Ulises (1927-28) e Contemporáneos (1928-31). Antropólogo e museólogo, a ele também se deve o museu de La Venta. La Venta havia sido centro da civilização olmeca, com apogeu entre 1.000 a 400 a.C. No ano de 1950, suas ruínas, importante patrimônio do México pré-colonial, foram ameaçadas de destruição por obras de prospecção de petróleo. Carlos Pellicer mobilizou a opinião pública e as peças desse sítio foram transportadas para um museu ao ar livre, em Villahermosa, à beira da Laguna de las Ilusiones. Membro da Academia Mexicana de la Lengua, Carlos Pellicer recebeu, em 1964, o Prêmio Nacional de Literatura. Em 1976, um ano antes de sua morte, foi eleito senador da República do México. Sua vasta obra poética é desafio à organização de uma antologia como a que ora se publica. Agradecemos o incentivo e apoio do poeta Marco Lucchesi, que ao organizar um número sobre a poesia mexicana contemporânea da revista Poesia sempre, da Fundação da Biblioteca Nacional, nos despertou a idéia de editar esta antologia. O México é um país cujas relações com o Brasil foram marcadas, no passado, por momentos de grande proximidade cultural. A fase mais fecunda dessas relações foi, certamente, a que correspondeu à estada do grande intelectual Alfonso Reyes como embaixador em nosso país, amigo próximo de Carlos Pellicer, de Manuel Bandeira e de outros escritores brasileiros. A publicação desta antologia deve-se à visão e sensibilidade de Dilton da Conti Oliveira, presidente da CHESF, empresa que patrocinou o resgate de uma obra que contém, no dizer de José Vasconcelos, as “palpitações de todos os ritmos de nossa pátria continental”. [Everardo Norões]
O primeiro livro da poetisa paranaense Etel Frota nasceu sob o aval de um dos maiores poetas brasileiros, Thiago de Mello. Parte de um projeto viabilizado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba, e patrocinado pelo Colégio Dom Bosco, o livro não chega sozinho e se completa com um CD, produzido e dirigido por Rodolfo Stroeter, que, ao lado da autora e de Paola Faoro (projeto gráfico), concebeu e realizou cuidadosamente o projeto. ”Me sinto como protagonista (...) esse é um disco meu e dela. É um disco da nossa descoberta” declara Rodolfo. Talvez a melhor definição da poética de Etel Frota – que tambem exerceu a profissão de médica por 18 anos – tenha sido a do poeta Amarildo Anzolin, que a descreveu como uma poesia que “...fala do mundo da mulher e da dor da ausência de um jeito quase físico, embalando-se entre o melancólico e o sublime. Os humores femininos e as secreções do corpo e da alma se transformam em agentes e elementos filosóficos, nos quais a mulher e a mãe, o sexo e a maternidade dialogam com naturalidade...” O disco traz alguns poemas do livro recitados e/ou cantados nas vozes de Mônica Salmaso, Thiago de Mello, Cacá Carvalho, Nice Luz e da própria Etel, entre outros. Os acordes, quase que improvisados, nasceram dos poemas em tempo real, como em uma jam session entre música e palavra. Os poemas funcionaram como partituras dos músicos André Mehmari, Caíto Marcondes, Webster Santos, Teco Cardoso e Rodolfo Stroeter, entre outros. “O trabalho é um tanto poesia, um tanto música e um tanto a forma estética como foi organizado. São três elementos indissociáveis”, comenta a autora. A história literária de Etel não começou na adolescência nem na juventude, mas no auge da maturidade, aos 40 ano. A escritora – que nem mesmo era leitora assídua de poesias, com exceção para Ferreira Gullar e para o próprio Thiago de Mello – confessa que, ao reler o poema Os Estatutos do Homem, de Thiago, encontrou no Artigo VIII a síntese de todos os sentimentos que ela reunia em suas próprias poesias. “Fica decretado que a maior dor/ sempre foi e será sempre/ não poder dar amor a quem se ama/ e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.”(Thiago de Mello) Isso atingiu Etel Frota como uma grande descoberta, encorajando-a a enviar seus primeiros escritos para um concurso de poesias. Foi o começo de tudo. A partir daí, a arte poética foi crescendo dentro dela e tomando forma até chegas às mãos de Thiago de Mello. Etel enviou, sem grandes pretensöes, seus poemas ao autor, que não só os leu como também fez considerações manuscritas, poema por poema, oferecendo de forma generosa sua contribuição para um trabalho que, na sua opinião, era de grande sensibilidade e revelava segurança na escolha das palavras e no uso do idioma. “A carta de Thiago me fez refletir e decidir por um maior repeito ao meu trabalho de escritora e à própria poesia. Mas isto foi só depois de um grande susto que me tirou o ar e agraciou meu ego”, confessa Etel. Outra pessoa que a fez acreditar mais em seu trabalho poético foi o amigo e maestro Marcos Leite, a quem dedica o disco. Na organização literária de Artigo oitavo, Etel Frota optou por pontuar o livro com epígrafes temáticas de Os Estatutos do Homem. A primeira dá nome ao livro e muitas outras passam por Carlos Drummond de Andrade, Djavan, Aníbal Bessa, Machado de Assis, Pablo Neruda, Caetano Veloso, Raul Cruz, Manuel Bandeira, Eugénio de Andrade e Chico Buarque. Segundo Etel todas “são irmanadas na labareda onde nasceram as poesias”. Apesar de uma colocação pessoal da autora, dão pequenas pistas da histórias dos poemas. “É como uma ‘casa de espelhos’, onde um reflete o outro e o outro reflete o um”, defende ela. A autora assume meio assustada que o livro não deixa de ser autobiográfico e que tem lhe suavizado os contornos da memória. “Acho que daqui pra frente não há mais nada que não possa ser dito, não há mais buraco sem fundo nem assunto proibido. Sem nenhuma intenção, me desnudei e não sabia. Entendi isso ao perceber que as pessoas que leram meu livro espiaram por uma fresta um pouco da minha alma”, finaliza Etel Frota.
Em Abraços Negados a autora, Simone Paulino, vai avisando já na primeira frase, ao dizer que mas parece que é mesmo lá na infância, naquele terreno movediço, que a alma da gente cria raiz, e, ainda, que Toda fantasia, todo choro, todo riso está lá, num começo que nunca acaba. Depois da infância, tudo é só um lembrar lamentoso, que a seguir vem prosa poética. Parafraseia o La poesie, c’est l’enfance retrouvée de Baudelaire, e tantas outras associações da infância ao poético. Logo adiante, ao falar, no segundo capítulo, O Amarelo e o Roxo, em estranhas e coerentes mensagens das cores, Simone retoma o que Baudelaire dizia em seu soneto Correspondências, onde o patrono dos poetas malditos viu, como aspectos de uma vertiginosa e lúgubre unidade, que os sons, as cores e os perfumes se harmonizam. Ilustra à perfeição a idéia baudelairiana das sinestesias, das correspondências entre planos distintos da realidade e das sensações, nesse trecho, e ao longo de sua narrativa, buscando reconstituir os cheiros da minha vida. Aromas guardados em pequenos frascos imaginários, os quais poderei sempre soltar no ar, todas as vezes que um vento de saudade chegar perto de mim. Isso, em um aparente contra-senso, para narrar sua infância de origem nordestina e pobres periferias urbanas, começando pela morte do pai, assassinado quando ela tinha cinco anos. Mas como, talvez pergunte algum leitor: toda essa prosa poética, essa extrema delicadeza, para narrar a história de uma migrante? Como é que pode, diante de tamanhas carências, e ela a enxergar O aroma da harmonia. O odor da união. O perfume do entendimento. A fragrância da esperança? Não seria de esperar, antes, que carregasse nas tintas do drama, da tragédia, para conferir vigor a sua denúncia? Mas é justamente nisto que reside a originalidade da prosa memorialística de Simone Paulino: no modo como, através dos detalhes, fragmentos, percepções das pequenas coisas, cores, sensações de frio e calor, sabores, texturas, impressões táteis, vai reconstituindo seu passado e recriando o mundo. Com precisão, em uma prosa acima de tudo fluente, realiza seu propósito de montar um álbum de recordação diferente. Impelida pela memória, matriz da criação e do conhecimento, e também por sua experiência como jornalista e leitora de poesia de qualidade, é capaz de catalogar, e datar ainda que em tempos imprecisos, todos os aromas que fizeram parte da minha infância. Sabe que a palavra é criadora; que escrever não é apenas retratar uma realidade, porém refazê-la através da imaginação: De vez vem quando sinto saudades de coisas que não vivi. Lembro-me de lugares por onde nunca passei. Nesse processo, encontra sua identidade: Ou sou eu apenas, imputando uma divina trama à natureza, na ilusão de viver eternamente. Redescobre a sertaneja que não chegou a ser, mas é – uma sertaneja poética. Faz pensar em um encontro de Proust (que entendeu plenamente o sentido das correspondências baudelairianas e empreendeu uma busca do passado a partir de sinestesias), Graciliano (cujo protagonista também se reencontrou na leitura, na palavra escrita) e Guimarães Rosa (naquelas passagens mais epifânicas da prosa poética de Primeiras Estórias). Há uma referência, não sei se intencional, mas evidente, ao autor de Em busca do tempo perdido, quando diz que seu murcho pão-bengala de infância em nada se assemelhava à crocante versão francesa – menos ainda, poderia ter acrescentado, à madeleine. Haveria mais a dizer sobre Simone Paulino. A prosa poética que encerra o livro, Dos mistérios da escrita, com algo de borgeano, é sobre a palavra. Expressa a crença em um mundo criado a partir da linguagem. O diálogo com o autor de O Aleph é uma constante na literatura contemporânea. Exatamente por isso, por aventurar-se em referências diretas a autores tão lidos e tão escritos como Borges ou Drummond, é que se torna mais evidente a originalidade de Simone Paulino, o caráter pessoal de suas leituras e de suas experiências poéticas e da escrita que delas resulta. Trechos de Simone Paulino foram publicados, pela primeira vez, em uma seção de autores novos ou ainda pouco conhecidos na revista Cult, sob minha orientação. Daí chegou à atenção de Sérgio Telles, narrador, crítico e responsável por esta coleção. Temos, portanto, uma estréia literária. Um começo. Novas oportunidades virão, permitindo que o leitor volte a encontrar-se com os relatos entremeados de poesia de Simone Paulino. [Claudio Willer]
Sortilégios do avesso - razão e loucura na literatura brasileira analisa a presença da loucura na literatura brasileira. A autora, Luzia de Maria, começa seu estudo traçando um panorama histórico da loucura em outras culturas, passando pela Grécia antiga, Idade Média, Renascimento, etc., acompanhando-a no imaginário romântico e suas formas, um paralelo entre o discurso psiquiátrico e a literatura em fins do século XIX e, afinal, investiga a loucura usada como recurso literário em épocas de repressão. A autora recolhe, ainda que brevemente, possíveis interpretações que permanecem e ressoam no imaginário brasileiro, entrelaçando a não-racionalidade e a criatividade, a genialidade e a loucura, a busca da consciência e o desespero inevitável de quem dela se aproxima. Luzia se debruça sobre as obras de Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Machado de Assis, Coelho Neto, Lima Barreto, Dyonélio Machado, Guimarães Rosa, Autran Dourado, Moacir Lopes e Renato Pompeu, buscando cobrir o período que vai desde a construção da metáfora da loucura, no Romantismo, até a representação da fala louca – forma de desmascaramento das estruturas de repressão que se articulam sobre o eixo linguagem/silêncio – no período pós-1964. Como destaca o coordenador da Coleção Ensaios Transversais, Nílson Machado, na apresentação deste volume, “o que o texto de Luzia de Maria solenemente anuncia, com argúcia e energia, é o fato de que a nitidez na distinção entre a loucura e a razão nunca existiu, em lugar algum, em qualquer contexto. A análise competente de um número expressivo de textos literários da lavra de diferentes autores, enraizados em diferentes épocas, circunstâncias, culturas e estilos, é bastante convincente e elucidativa a esse respeito.” Luzia de Maria é doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo -USP e professora da Universidade Federal Fluminense - UFF. É autora de O que é conto, Machado de Assis - As artimanhas do Humano, Minha caixa de sonhar (vols. I e II), Drummond - Um olhar amoroso (Escrituras Editora), Leitura & Colheita – Livros, leitura e formação de leitores, Te cuida! Beleza, inteligência e saúde estão na mira e Bruxabela, Bruxofred e os segredos de Vô Tetra (educação nutricional para jovens e crianças), entre outros. Em 1989 criou e dirigiu o jornal-revista PRAvaLER (circulou até 1991) e em 1991, assessorando Darcy Ribeiro, a Revista Informação Pedagógica, para falar de livros e leitura. Já recebeu alguns prêmios literários, entre eles, uma bolsa da Fundação VITAE, SP.
Manuel Jorge Marmelo acaba de ser distinguido com o Grande Prémio do Conto "Camilo Castelo Branco", pelo livro «O silêncio de um homem só». Kaminhos tem vindo a apresentar obras deste autor que é um caso sério na narratologia portuguesa. Os leitores já sabiam o que o merecido galardão agora confirma. Há livros assim, que ousam gritar os silêncios, revelando o lado inconfessável e sombrio da alma. “O Silêncio de um homem só” é uma colectânea de quinze histórias, ou quinze corredores ou nervos, desse exílio mudo, porém o único onde somos verdadeira e inteiramente sós. Esta leitura mostra-nos, também, desafiando-nos, o impulso criador da solidão e como com ele se constróiem as asas da liberdade. Uma surpresa. Sobretudo, uma companhia preciosa para a solidão do nosso silêncio. Manuel Jorge Marmelo nasceu no Porto em 1971. Jornalista desde 1989, editou o seu primeiro título em 1996, “O homem que julgou Morrer de Amor”. Este “O silêncio de um Homem Só” é o seu 12º livro e tem a chancela da Campo das Letras. O Grande Prémio do Conto "Camilo Castelo Branco" é atribuído pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e Associação Portuguesa de Escritores(APE), com o valor pecuniário de 5.000 euros. Manuel Jorge Marmelo passa a figurar ao lado de escritores como Mário de Carvalho, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Velho da Costa, José Jorge Letria, José Viale Moutinho, Teolinda Gersão ou José Eduardo Agualusa, galardoados em anteriores edições do prémio. O Livro foi buscar o título, e a própria apresentação, ao décimo terceiro conto “O silêncio de um homem só”, entendendo-se por isso a intenção aglutinadora de toda a antologia: dar voz ao silêncio que está bem no fundo da solidão, donde medram ideias que sobem à garganta, ao ponto de sufocar. O conto traça-nos os passos internos de Luís Maria, narrados numa belíssima e bem construída prosa poética, que evidencia, logo à partida, a qualidade e originalidade deste autor. A morte do “homem só” chegou e não comocionou ninguém, “ já há muito estava morto na memória da gente do povoado”. Porém, a morte cometeu a mais alta ignomínia ao arrepender-se; o caixão de Luís Maria cai no chão e gera o horror nos que vêem o cadáver-vivo levantar-se com a cruz da vida às costas: “de que vale um homem só? Para que serve? Que indomável pecado cometeu para receber o castigo de continuar vivendo?” É no silêncio da sua solidão que encontra a liberdade da escolha e, nessa noite, decidirá munir-se de um rolo de corda, sentir o mundo pela última vez, para depois repor o silêncio original. A ideia de que “o silêncio não é um intervalo, antes a chave que transforma as palavras que hão-de ser alguma coisa próxima do subtil sussurro” está bem patente em “O homem das gaivotas”, onde um poeta lê sem voz os poemas de um livro escolhido ao acaso, mas com silêncio suficiente para convocar as gaivotas, que o identificam, escutam e compreendem. Se a natureza e os animais compreendem o silêncio, cabe-nos também escutá-lo, tão distantanciados do outro, e tão surdos para os sinais de pedidos de ajuda. Este livro é um bom começo para o aprendermos. Por outro lado, o autor joga psicologicamente com o leitor, nas diferentes técnicas de lhe contar as suas histórias, ficando o leitor a saber as formas com que é seduzido. Também neste sentido, este é um livro sobre verdade, que enriquece o leitor pela constatação das suas próprias competências de ler. As personagens são insólitas, como o são quase sempre as nossas mais profundas dúvidas e muitas das nossas descobertas; Frei Gil dedica-se a afastar os suicidas de todo o processo de autoliquidação, mas depois de salvar vários corpos acorda-se-lhe a dúvida de estar a negar a morte a almas que a querem, e cria o “Clube da boa morte”; no conto “A espera”, da morte, dois amigos, um coveiro e um taberneiro negociam, debruçados num tabuleiro de xadrez com jogadas de xeque, qual deve enterrar o outro. O Tempo das narrativas é indeterminado o que nos envolve ainda mais nos enredos, que passam a estar no nosso momento. O espaço é notoriamente marcado pelo Porto, e uma visão inesperada do quotidiano na invicta:“A morte de Amadeu, o comunista de Francos”, “Fogo-de-artifício” e “Ícaro na Ribeira”, este como um "instinto de fuga ao labirinto quotidiano,(..) o salto que liberta das contingências da matéria". Muito há para descobrir neste livro: alegorias, ironias inteligentes, diálogos vibrantes, um humor surpreendentemente delicioso; “O fantasma-menino da calle Rosário”, “O mistério da senhora X”, e a deliciosa, alucinante narrativa, “O Faraó” com sodomitas, eunucos, Cleópatra, Liz Taylor, e o final feliz do judeu José com o Faraó que, quando o orçamento do Egipto permite, vão para o Carnaval do Rio desfilar com Roberta Close e Cláudia Raia. E mais contos: o diálogo dos peixes vitimas de “ Alucinação Crepuscular”, “Entrevista com o Pai Natal”, “Pouco católico”, “As sacanas escrituras”, e “Genoveva perde a guerra”. Como diz o autor, este livro é somente Literatura, uma fantasia, “um sonho, um mundo de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. Acrescentamos: e de silêncios que vêm dançar em conluio com estes silêncios de cá. O leitor é “um animal esquivo” e o autor sabe-o bem. Ainda bem para todos nós, cativos deste seu silêncio. Um livro para ler e reler. [Teresa Sá Couto]
O uno cree que la poesía habla de la vida o de lo vivido, y es una elevación monumental que conmemora algo experimentado por el que en el poema habla, y se sorprende preguntándose acerca de la extraordinaria capacidad de viaje del poeta, su maravillosa o prodigiosa errancia por paisajes terrenales tan distantes y distintos como China y Grecia, o cae en cuenta, juicioso y gozoso al mismo tiempo, de que también se vive en los libros, en las postales y en los sueños, y de que la errancia de un cuerpo puede ser también perfectamente la errancia de su imaginación. Que un cuerpo es la carne de lo que imagina; que un cuerpo se nutre con la sangre de lo que trabaja el alma con el material de la memoria; que un cuerpo es también los otros cuerpos, los cuerpos de los otros a los que ha estado unido, los cuerpos de los otros con los que se ha unido en una conjunción que tiene la naturaleza de un ósmosis, el cambio e intercambio de mutua conversión donde los ríos personales, los flujos individuales se confunden, y los recuerdos y los sueños de cada uno pasan a ser los recuerdos y los sueños de ambos y de nadie. Así es, pues, como se viven muchas vidas en una vida, y en cada poema se vive lo que no se había vivido sino porque se lo iría a vivir luego, escribiéndolo, en el poema que lo vive. Nada vive y todo vive para el poeta porque viene a ser así vivido en el poema; que el poema es ese paso de vida que se transparenta sobre la estela acumulada de los días vividos y soñados, de los días leídos o invocados: de los paisajes, de los cuerpos, de las sensaciones que se han visto y se han tenido, se han gozado y padecido, depositado todo en el ebrio cuenco de la memoria que todo lo confunde a su manera y desordena; que el poema es otra forma de continuar este proceso que la memoria cumple con lo que se vive, se lee, se siente, se sueña; otra forma de continuar, digo, sin completar lo que la memoria lleva, porque el flujo continua, y el río de palabras con ribera que el poema pone a disposición de quien lo escribe -cauce y contención y dirección y canalización y drago de lo que, no obstante, fluye, sigue fluyendo, yendo, más allá de sus propios muelles y andenes y terraplenes-, el poema, digo, pone a disposición de quien lo escribe (y, un instante después, de quien lo lee), lo que la memoria misma sigue agregando interminable en el devenir de la existencia: un devenir que, para fortuna nuestra, sobrepasa las fronteras de la propia existencia del poeta, de la propia existencia del poema, y se derrama convocando las aguas -¡esas uniones y reuniones acuáticas de los ríos con el mar en la bocanada abierta de los deltas!- de las otras existencias, las nuestras, los lectores, en la coincidencia prodigiosa de sus flujos y los nuestros, de sus flujos y su influjo sobre las propias existencias nuestras. Así la inesperada coincidencia de los cuerpos, la inesperada coincidencia de los tiempos, el gancho de la imagen que nos tienta para el encuentro y nos pone en disposición de ser llevados por el río de las palabras hacia un país remoto –ignoto- que, no obstante, reconocemos, en cada poema, y quién sabe por qué, como ya nuestro, ya nuestro y olvidado, y que el poema viene a despertar, con la fuerza de la novedad que es la versión de un acontecimiento antiguo, profundo en nosotros como una huella familiar, como una herencia de la sangre, más significante que todos los significados y más real que cualquiera de las pruebas aducibles por ninguna ciencia, cuando se levanta frente a nosotros como un hallazgo de la carne, como una revelación, como una aparición dulcísima que nos embosca en el recodo de un sueño. Es prodigio del poeta hacernos vivir de su vida como si viviéramos de la nuestra. Es prodigio del poeta vivir todas las vidas en la vida del poema y hacernos vivir en el poema no todas las vidas, no, sino la nuestra, nuestra propia vida como devuelta, como ya vivida, pero al mismo tiempo como si la viviéramos, de nuevo, nueva. No es posible hablar de la poesía sino trazando a través de los poemas una tangente. Y a menudo esa tangente se desvía. No es posible, tal vez, hablar de la poesía sino como un sonámbulo, como el que habla a medio camino entre la vigilia y el sueño, en la duermevela de una entreclaridad que es una penumbra. No se puede hablar de la poesía sino como un convaleciente, en el tres y dos de una indecisión y una incertidumbre, en el umbral entre un pudor inmenso y una temeraria grandilocuencia. No se puede hablar de la poesía sino de lado, ladeado, quedándose en los bordes de un paisaje enorme que sólo se puede atravesar entrelíneas en los versos. Un poema nos hala con el gancho de una imagen a su fondo y a veces nos deja regresar ya a la superficie con algo entre las manos, enganchado en alguna parte de nuestro propio cuerpo, un resto que llevamos como una reliquia, cavilándolo, sobre la tierra árida diaria, plana, plena de pena. A veces el poema nos deja salir indemnes, y volvemos al mundo algo mojados de algo que se nos evapora al sol rápidamente. Quiero decir que los poemas de Rodolfo Häsler han sido para mí de los primeros, es decir de los que halan con el gancho de una imagen hasta el fondo y no te sueltan, y cuando nos sueltan algo han soltado en nosotros que nos queda, permanece resonando en uno, se va haciendo poco a poco parte de nuestra propia memoria afectiva y auditiva. Porque el gancho de la imagen de un poema es un gancho, sí, ciertamente, visual o conceptual, pero es sobre todo un gancho sonoro, es por encima de todo el gancho de lo que se revela en la conjunción de unas palabras que resuenan plenas, buenas. Y la poesía de Häsler es una poesía de serena cadencia de la frase, de atinada caída del verso y de afinada sonoridad de las imágenes que la habitan y la pueblan. Hablar de los temas de una poesía o de unos poemas puede resultar quizás aburrido, pero es evidente, por otro lado, que los poemas nos comunican cosas y que el poeta tiene sus preferencias en cuanto a lo que en la vida y en el poema experimenta; que los poemas tienen, pues, sus recurrencias, sus insistencias. Y habría que decir, entonces, que los poemas de Häsler son poemas amorosos, poemas donde el hablante vuelve a vivir una experiencia del deseo en la carne luminosa de los versos: el poema hace, porque repite, los cuerpos y los gestos del amor; el propio cuerpo del poema es experiencia de la experiencia amorosa que celebra, que evoca, que invoca y que provoca. Los poemas de Häsler son al mismo tiempo poemas muy visuales –memoria de un paisaje, de una atmósfera y, de nuevo, de algún cuerpo-, postales puntuales de una visión que surge de un viaje, de un encuentro, de una lectura, de la visita a unas ruinas, a un templo, a un museo, a una mirada, a un sueño. Pero quizás sea lo más justo dejarse de tangentes ya y afrontar de frente algún poema. Voy a leerles uno, para que su gancho, espero, los lleve hasta su fondo y no los deje por mucho tiempo en paz. Uno corto. El primero de la serie, que pertenece al libro Poemas de arena, y que se llama “Sueño en Cesarea”:
Saladas
estrellas de mar De este encuentro y esta convivencia de un paisaje exótico y una resonancia antigua, de una imagen culta y un tono reflexivo que se resuelve en comentario íntimo de sesgo coloquial modesto, de estas estrofas medidas y estos medidos acentos, de estas metáforas y estos símiles, de este venir a desembocar todos los viajes en las venas de un cuerpo y en la temperatura del amor, de esta sonoridad marina donde a menudo se confunden el Caribe y el Mediterráneo, están hechos los poemas de Häsler. Hay que leérselos todos. Sin pérdida de tiempo. [Rafael Castillo Zapata] parceiros da agulha nesta seção
|
|
Livros para Agulha deverão ser
enviados aos editores, nos endereços a seguir: |
| AGULHA # 47 | ÍNDICE GERAL | BANDA HISPÂNICA | JORNAL DE POESIA |